Adelson Elias Vasconcellos
O ministro Joaquim Barbosa, do STF, pediu que a Polícia Federal investigasse o mensalão, basicamente para encontrar as seguintes respostas:
1. O mensalão foi financiado com dinheiro público?
2. Houve mais beneficiários do valerioduto?
3. Qual era o limite da influência de Marcos Valério no governo petista?
Pois bem, para o ministro Joaquim Barbosa não se tratava de comprovar se o mensalão existiu ou não. Sobre esta questão, se vê, o ministro acredita que os autos do processo encaminhado pela Procuradoria Geral da República já tem base suficiente para comprovar a sua existência.
Faltava aprofundar as investigações, conhecer de onde surgiu o dinheiro que abasteceu as arcas do valerioduto, se havia mais personagens envolvidos no esquema.
O relatório produzido pela Polícia Federal, contendo mais de 300 páginas, e cujos detalhes veio a público em excelente reportagem da Revista Época (vide reprodução nesta edição), não deixou pedra sobre pedra. Ele foi muito além até do que talvez o próprio ministro Barbosa tenha imaginado, e traz uma constatação inequívoca: a de que o governo do senhor Lula produziu o maior escândalo de corrupção explícita de que o Brasil teve notícia em toda a sua história. A tal versão de que não sabia nada vai para o lugar que merece: a lata do lixo. Impossível que tantas pessoas atuassem de forma tão intensa e para beneficiar unicamente o senhor Lula, sem que este tivesse conhecimento e autorizasse a ação criminosa. No mínimo, seu pecado foi a conivência, o que caracterizaria crime de responsabilidade, passível, portanto, de impedimento..
Lula apenas cumpriu aquele mandato e mais o segundo por uma única razão: apesar de todas as provas materiais existentes, a oposição se mostrou incompetente e covarde para levar avante um processo de impedimento. Fosse outro o governo, e contra o qual o PT fosse oposição, e nem se precisaria ter cometido dez por cento de tudo o que Lula aprontou para que este governo fosse derrubado. Collor, é bom lembrar, com seu PC Farias, era sacristão perto do que a turma de Lula, Dirceu & Companhia patrocinaram nos porões do poder.
Claro que os personagens apontados no relatório da Polícia Federal sairão a campo para declarar-se inocentes. Contudo, o relatório é inquestionável tanto sobre a origem do público, quanto dos personagens envolvidos. Vejam lá: foram cinco longos anos de investigações minuciosas. Claro que se houvesse real interesse do governo Lula em apurar tudo, este tempo teria sido bem menor. Claro que este relatório até poderia ter sido produzido antes das eleições de 2010. Aliás, no essencial, o relatório apenas vem confirmar muito do que já se sabia. Talvez, se tivesse recebido irrestrito apoio do governo do senhor Lula, ele poderia até ter revelado novos dados. Porém, o que se tem já é o bastante para condenar uma penca de gente. Resta saber se o julgamento final dos réus já denunciados se dará em tempo de ainda serem condenados e punidos, portanto, antes que os diversos crimes que o escândalo envolve comecem a prescrever.
Mas de uma coisa podemos ficar absolutamente tranquilos: o desespero de Lula em deixar em seu lugar, no poder, alguém de seu clubinho, sempre disse que não se baseava apenas na manutenção dos milhares de cargos com que o PT aparelhou o Estado. Muito se deve para que certos fatos, certas maldades, certos crimes pudessem manter-se ocultos do conhecimento da sociedade, única maneira dele preservar o mito criado em torno de si.
Toda aquela ação de tentar constranger o próprio STF quanto a existência do mensalão, trazendo para dentro do governo alguns daqueles réus, ou para a direção do partido outros tantos mensaleiros, ou ainda a lamúria de alguns petistas quanto a reabilitação de Delúbio Soares, cai inapelável. Dentre as atividades que Lula pretendia exercer após sair do governo, era, e ele próprio afirmou isto, provar que o mensalão não existiu, como se a nossa memória fosse tão miserável que não lembrasse da entrevista que Lula concedeu em território frances, ocasião em que se declarou traído, sem nunca, contudo, nominar traído por quem.
O relatório deixa claro algumas verdades sobre as quais Lula tentou esconder, lançando sobre elas algumas brumas::
1º) O mensalão, de fato, existiu. O relatório da PF conclui que o valerioduto foi resultado de uma complexa engenharia financeira armada com o objetivo de facilitar atividades ilegais
2º) O dinheiro era público, sim. A investigação mostrou que o Fundo Visanet, do Banco do Brasil,, foi a principal origem dos recursos do valerioduto. É neste ponto que entendo que a investigação poderia ter avançado um pouco mais. O dinheiro também veio de estatais e fundos de pensão. Talvez a complexidade do esquema fosse tamanha que preferiu comprovar ao menos uma fonte para que a investigação não demorasse ainda mais.
3º) Lula, o beneficiado. O valerioduto pagou a segurança pessoal de Lula na campanha presidencial de 2002, segundo disse Freud Godoy à Polícia Federal. Também aqui a coisa se enrosca um pouco. Na CPI dos Correios, o publicitário Duda Mendonça foi claro quando afirmou que a campanha de Lula também fora paga com dinheiro desviado, e que foi instruído a abrir conta no exterior para receber parte do pagamento. Esta declaração, vale lembrar, está registrada, foi gravada e transmitida em cadeia nacional.
4º) Os contratos suspeitos. A Brasil Telecom, (que posteriormente foi beneficiada já no segundo mandato de Lula, quando se criou uma lei para beneficiar uma operação fraudulenta com a OI), na época comandada por Daniel Dantas, celebrou contratos de publicidade de R$ 50 milhões com as agências de Marcos Valério, com o objetivo de “conferir a fachada de legalidade necessária” para encobrir o esquema.
Assim, já não era sem tempo que as patifarias cometidas por Lula e sua gangue viessem à tona, pelo menos em relação ao mensalão. Pode ser que, doravante, o país desperte um pouco desta letargia imbecil e se dê conta sobre o que foi verdadeiro e o que foi falso no período de governo do senhor Luiz Inácio.
A verdade, meus amigos, é que nem raio de sol: penetra o mais denso nevoeiro, leve o tempo que levar. Cedo ou tarde as máscaras da mistificação acabam caindo. O que o leitor deve ter em mente é o seguinte: isto é apenas uma pequena amostra do muito de podridão que precisa ainda ser conhecido e divulgado. O relatório da PF que agora vem à luz, é pelo menos um alento para que um dia a história verdadeira do Brasil seja contada na sua íntegra.