sábado, outubro 07, 2006

LEITURAS RECOMENDADAS...

NOTÍCIAS DA ITÁLIA

Por Diogo Mainardi

Publicado na Revista Veja

O lulismo está indo para a cadeia. Na Itália.

O caso estourou duas semanas atrás. Os promotores públicos milaneses descobriram que a Telecom Italia tinha um esquema de pagamentos ilegais a autoridades brasileiras. O esquema era simples. A Telecom Italia do Brasil remetia dinheiro a empresas de fachada sediadas nos Estados Unidos e na Inglaterra. A dos Estados Unidos era a Global Security Services. A da Inglaterra era a Business Security Agency. O dinheiro depositado nas contas dessas duas empresas era imediatamente repassado a intermediários brasileiros, que o distribuíam a terceiros.

A Business Security Agency era administrada por Marco Bernardini, consultor da Pirelli e da Telecom Italia. Ele entregou todos os seus documentos bancários à magistratura italiana. Há uma série de pagamentos em favor do advogado Marcelo Ellias: 50.000 dólares em 13 de julho de 2005, 200.000 em 5 de janeiro de 2006, 50.000 em 2 de fevereiro de 2006. De acordo com Angelo Jannone, outro funcionário da Telecom Italia, Marcelo Ellias era o canal usado pela empresa para pagar Luiz Roberto Demarco, aliado da Telecom Italia na batalha contra Daniel Dantas, e parceiro dos petistas que controlavam os fundos de pensão estatais.

Entre 11 de julho de 2005 e 6 de janeiro de 2006, Marco Bernardini deu dinheiro também à J.R. Assessoria e Análise. Em seu depoimento aos promotores públicos, Marco Bernardini disse que esses pagamentos eram redirecionados à cúpula da Polícia Federal. Paulo Lacerda e Zulmar Pimentel, números 1 e 2 da Polícia Federal, devem estar muito atarefados no momento, investigando a origem do dinheiro usado para comprar os Vedoin. Mas quando sobrar um tempinho na agenda eles podem procurar seus colegas italianos.

Outro nome que está sendo investigado pela Justiça milanesa é Alexandre Paes dos Santos. Conhecido como APS, ele é um dos maiores lobistas de Brasília. Foi contratado pela Telecom Italia para prestar assessoria política. Segundo uma fonte citada pela revista Panorama, APS tinha de ser pago clandestinamente porque é cunhado de Eunício Oliveira. Na época dos pagamentos, Eunício Oliveira era o ministro das Comunicações de Lula, responsável direto pela área de interesse da Telecom Italia. Eunício Oliveira acaba de ser eleito deputado federal com mais de 200.000 votos. Lula já espalhou que, em caso de segundo mandato, ele é um forte candidato para presidir a Câmara. É bom saber o que nos espera.

A revista Panorama reconstruiu também um caso denunciado por VEJA: aqueles 3,2 milhões de reais em dinheiro vivo retirados da Telecom Italia em nome de Naji Nahas. Um dos encarregados pelo pagamento conta agora que o dinheiro foi entregue a deputados da base do governo, do PL, membros da Comissão de Ciência e Tecnologia.

Lula se orgulha de seu prestígio internacional. Orgulha-se a ponto de roubar aplausos dirigidos ao secretário-geral da ONU. O caso da Telecom Italia permite dizer que o lulismo realmente ganhou o mundo. Em sua forma mais autêntica: o dinheiro sujo.

***************

GOVERNANTE BOM É GOVERNANTE CHATO
.

Por Reinaldo Azevedo
Publicado na Revista Veja

"Precisamos de governantes chatos como Fortimbrás, não de cretinos animados como Hamlet. Precisamos de despachantes das instituições que façam prevalecer a lei a despeito de suas inclinações emocionais, não de quem sacrifique a legalidade sob o pretexto de praticar a igualdade"

Em política, como na vida, o irracionalismo, o discurso emocional, é a ante-sala do crime e da tragédia. Faça-se a leitura que se quiser de Hamlet, de Shakespeare, por exemplo, e uma constatação é inescapável: o príncipe era um idiota dado a faniquitos. Sua obsessão em denunciar o tio supostamente regicida ignora estratégias. Polônio, que tenta lhe incutir algum senso de razão, acaba assassinado acidentalmente pelo jovem estabanado. É o primeiro da carnificina promovida pelo justiceiro. Perseguido pelo fantasma do pai, põe fim a uma dinastia. Hamlet se deixava envenenar pelas palavras, pela imaginação, pela alegoria: quando quer denunciar o tio, recorre a uma peça de teatro. Consumada a desgraça, a Dinamarca será governada por Fortimbrás, o príncipe norueguês, avesso ao temperamento do primo doidivanas: é resoluto, maduro, realista e objetivo. Seu reinado não renderia tragédias. É provável que obedecesse a uma rotina burocrática, pastosa e quase cartorial.

Precisamos de governantes chatos como Fortimbrás, não de cretinos animados como Hamlet. Precisamos de despachantes das instituições que façam prevalecer a lei a despeito de suas inclinações emocionais, não de quem sacrifique a legalidade sob o pretexto de praticar a igualdade. Nota à margem: o intelectual italiano Norberto Bobbio contribuiu de forma notável para o pensamento liberal, mas escreveu uma bobagem pouco antes de morrer. Disse que a esquerda se ocupa da justiça social e que a direita defende o statu quo. Tolice. Esquerdista é quem aceita sacrificar a legalidade em nome de um entendimento particular de justiça social, e direitista – a direita legalista – é quem entende que só pode haver justiça onde há respeito à lei democraticamente votada.

Lula não é um adolescente esguio e delirante. Mas não dispensa a fantasia. Dia desses, num comício em Goiânia, confundindo o espírito de porco do messianismo com uma manifestação do Espírito Santo, disse que seu sangue e suas células já estavam no meio do povo. Fiz o sinal-da-cruz contra essa transubstanciação macabra. Ele perdeu o primeiro turno em Goiás: nem sempre os eleitores reconhecem o messias a tempo, como nos revela o plebiscito mais famoso da história... Em outra ocasião, o Cristo pagão assumiu as virtudes visionárias de Tiradentes: sugeriu que queriam enforcá-lo e esquartejá-lo. O homem tingia de sangue as suas cascatas alegóricas. Já se ofereceu como o pai complacente de todos os brasileiros, em especial dos petistas pegos em flagrante, os seus "meninos".

O irracionalismo costuma ser a rota de fuga dos políticos quando acossados pelos fatos. Quem for procurar um de seus primeiros discursos vai encontrar uma promessa solene: "Começamos a fazer o possível e, se der, vamos fazer até o impossível". Não seria difícil demonstrar que ele conseguiu inverter as prioridades... Depois de ouvir um dos delírios de Hamlet, o sempre ponderado Polônio observou: "É maluquice, mas tem método". O irracionalismo brasileiro começa a assumir características metódicas. Parte da academia e do jornalismo aplaudiu aquela fala insana – os mesmos que vaiavam FHC quando este dizia que a política realiza a "utopia do possível".

A resposta acéfala ao então presidente foi a seguinte: "Pô, mas o possível qualquer um faz; não precisa de um intelectual da Sorbonne". Na proposição está a saída para o Brasil – e para qualquer país – e, na estupidez da objeção, a sua tragédia. Imaginem se Hamlet tivesse se proposto a seguinte questão: "Como faço para depor o usurpador sem, no entanto, destruir o reino?". Se o fizesse, seria um sábio. Como não o fez, preferiu ser um santo, um mártir. Tanto é que pede a Horácio que não o siga na morte para narrar o que viu. Hamlet queria sair da vida para entrar na história, o bobalhão...

Durante ao menos duas décadas convivemos com uma expressão que era a chave de todos os enigmas: "vontade política". Bastava tê-la, e as águas se abririam. A Constituição de 1988, por exemplo, foi redigida sob a égide dessa impostura. O fato de haver uma história que a explique não fornece uma razão teórica que a justifique. A síntese prática da Carta poderia ser assim definida: com a "vontade política", garantem-se os direitos; com a retórica, os recursos. O texto constitucional incorporou o proselitismo contra a ditadura e pôs no papel um país ingovernável. E cá estamos nós, prestes a debater a terceira fase das reformas de um documento que ainda não tem 20 anos. E, ao fazê-lo, mais uma vez todo o estoque de irracionalismo será reciclado.

É esperar para ver: ai de quem tiver a ousadia de acusar o rombo na Previdência! A matemática será conjurada como uma trapaça ideológica das elites. A campanha eleitoral, arrastada pelo PT das páginas de política para as de polícia, está prestes a satanizar as privatizações do governo FHC. Pura tática de defesa. Servirá ao propósito de tentar ocultar crimes. Pterodáctilos ideológicos e oportunistas jogarão sobre as nossas cabeças expressões como "dilapidação do patrimônio público", "empresas vendidas a preço de banana", "entrega de nossas riquezas ao capital estrangeiro" etc. Pressionado pelas circunstâncias, lá vai o petismo regredir à palhoça mental em que se formou.

A política feita no Brasil como razão da miséria não poderia dar em outra coisa que não na miséria da razão. Há dois textos que servem de "Evangelho" a essa patacoada: a Carta-Testamento e a Carta de Despedida de Getúlio Vargas. Na primeira, acusa: "Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim". Na outra, o mesmo tom de quem se prepara para ser o cordeiro do povo que tira os pecados do mundo: "Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte. Levo o pesar de não haver podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia". Na primeira carta, o plágio não poderia ser mais explícito ou escandaloso: "Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte". Se pudesse, teria escolhido a crucificação.

Poucos sabem: Getúlio também tinha o seu Horácio, aquele encarregado por Hamlet de narrar os eventos macabros. A Carta-Testamento foi redigida por um ghost-writer: José Soares Maciel Filho, que costumava escrever os seus discursos. Cartas de suicidas são uma fala sem lugar. Vejam este trecho: "Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam (...)". Há, aí, ao mesmo tempo, gradação e antítese, duas figuras retóricas. Que vaidade leva um cadáver adiado a cuidar do estilo? Vai ver Maciel caprichou de tal sorte na farsa que Getúlio foi obrigado a se matar só por uma questão de coerência narrativa...

Assim como Hamlet tinha visões, os assassinos da razão na política, mesmo quando suicidas, têm ou fingem delírios. Alguns dos clichês apontados pelo pensador francês Raoul Girardet no livro Mitos e Mitologias Políticas são empregados por Getúlio à farta nas duas cartas: ele queria oferecer ao povo a Idade do Ouro, propunha-se a ser seu salvador, mas a conspiração dos inimigos e das forças estrangeiras, alheias aos interesses da pátria, o impediu e o empurrou para o sacrifício. Essa mentalidade, ante-sala dos desastres institucionais, está sendo reciclada no Brasil mais de cinco décadas depois. Acreditem em mim: em política, os chatos são menos perigosos do que os intensos.

O resto é barulho.

***************

QUEM DECIDE A ELEIÇÃO É O ELEITOR

Por Villas-Bôas Corrêa,
Publicado no Jornal do Brasil

A correria da dupla de finalistas para arrebanhar apoios de governadores, partidos inteiros ou fracionados e quantos tenham votos disponíveis é compreensível neste curto intervalo entre o primeiro turno e o começo para valer da campanha para a segunda rodada de votos.

O que se estranha é a valorização excessiva dos presumidos pastores de votos que se transferem ao simples estalar dos dedos e o absoluto silêncio do desinteresse sobre a segunda etapa da decisão, quando a briga ocupa o ringue do horário de propaganda eleitoral e, muitos degraus acima, dos debates nas redes de rádio e TV, quando a assistência salta da casa dos milhares para os milhões. Domingo à noite, teremos o teste do primeiro debate pela TV Bandeirantes..Ou a dissimulação fechou a boca, em requinte de marqueteiro, ou a turma está comendo mosca por desatenção e insensibilidade.

Sair na frente e como líder das pesquisas tem lá suas inegáveis vantagens. Mas uma consulta à memória de eleições passadas ajudaria a mais esperta revisão das táticas do bloco oficial de Lula e do pessoal da banda da oposição.

Pelo que se enxerga e o que se lê nos latifúndios da cobertura da mídia, Lula pretende levar o adversário Geraldo Alckmin para o canto da comparação dos dados estatísticos que medem os êxitos setoriais do seu governo, repetidos na decoreba dos muitos improvisos de cada dia, com os medíocres resultados do fracasso tucano dos dois mandatos do odiado antecessor Fernando Henrique.

E, se não estou enganado, o verdadeiro adversário Geraldo Alckmin mira-se no espelho da vaidade e se vê como o vencedor do debate na TV Globo, quando ganhou de goleada da cadeira vazia de Lula.

Parece, visto cá de fora, que muitos equívocos rolam no balaio da arrogância. Lula deve estar considerando o adversário um parvo que se deixa engambelar como criança com um truque de aprendiz de mágico. Pois, basta a réplica ao jeito de puxão de orelha sobre a confusão intencional para repor as coisas nos seus lugares. E Lula deve estar mesmo louco para um bate-papo com FH, em rede nacional de televisão.

Como é de praxe que cabe à oposição a iniciativa do ataque, entre o apoio do casal Garotinho e os estrilos do Cesar Maia, faria bem à saúde de Alckmin uma análise crítica da indigência da sua agenda para a serventia da série de confrontos com Lula nos comícios pela telinha que vão definir a parada.

Raspa no vexame que até agora nenhum candidato tenha se dado ao cuidado de puxar para a discussão o dramático tema da defesa do meio ambiente. Nem de propósito, o relatório elaborado pelo respeitável Centro Hadley para o Prognóstico e Pesquisas sobre o Clima, do Escritório Meteorológico do Reino Unido, brada advertência catastrófica: um terço do mundo estará desertificado em 2100, portanto ainda neste século. E alerta para as conseqüências da "migração de camponeses em níveis que os países pobres não poderão suportar". Um cenário de caos e fome.

Aqui, dentro de casa, o drama da destruição da Amazônia em níveis de alarme mundial, não mereceu sequer a promessa de atenção de um segundo mandato de Lula, para a correção do fiasco da parolagem do "desenvolvimento sustentável" ao som das motosserras ou a referência crítica do tucano.

A reforma política espreme-se em paliativos ou em propostas de correções parciais, como a cláusula de barreira para reduzir o excesso de legendas de mentira e outros remendos. A gravíssima crise do Legislativo é ética, a exigir corretivos radicais, indispensáveis, mas de evidente inviabilidade. A orgia das mordomias, vantagens, benefícios - como a indecorosa verba indenizatória para o ressarcimento das despesas dos parlamentares, nos fins de semana, com passagens aéreas pagas pela viúva - não passa pela barreira do baixo clero e da maioria absoluta, beirando a unanimidade da Câmara e do Senado.

Mas, que diabo, os candidatos pelo menos devem mostrar interesse, indignação e salpicar algumas promessas no eleitor maltratado pela decepção e rilhando os dentes de raiva, à espera da hora da desforra do voto.