sexta-feira, abril 03, 2020

Planeta Terra, hora zero

J.P. Cuenca 
 Deutsche Welle 

Os impactos sociais, políticos e econômicos da pandemia de covid-19 apontam para uma espiral de desconstrução sem precedentes. Não sairemos dessa como entramos.
    

"Se há um país onde a covid-19 pode transformar-se 
num genocídio, este é o Brasil", escreve J.P. Cuenca

Um espectro ronda a Europa – o espectro do coronavírus.

Invisíveis, acelulares, vírus são micro-organismos parasitários que dependem inteiramente da interação com uma célula viva. Sem elas, deixam de se reproduzir e dormem como vírions – até encontrar outra célula hospedeira. Microscópicos, eles medem entre 20 e 300 nanômetros. Se um vírus tivesse o tamanho de uma bola de tênis, um ser humano teria 800 quilômetros de altura.  

Ainda assim, sua biomassa é maior que a nossa. Somados, os vírus do planeta pesam mais de 3 vezes toda a população humana.

Nós representamos apenas 0,01% da vida terrestre – a biomassa dos seres humanos é menor também que a de fungos, bactérias e insetos. Apenas os artrópodes (insetos, crustáceos e aracnídeos) têm biomassa 17 vezes maior. O total de peixes nos oceanos pesa 11 vezes mais que os 7,7 bilhões de seres humanos do planeta, e por aí vai. Não nos enxergamos.

Talvez por isso, nosso impacto sobre a Terra seja brutalmente desproporcional. Especialmente a partir da Revolução Industrial, nossas intervenções por aqui alteraram os ecossistemas terrestres a ponto de ameaçarem nossa existência – e a de tantas outras espécies, bastante mais nobres. O aquecimento global é apenas um dos desafios colocados pelo Antropoceno, nova era geológica marcada pela nossa atuação.

"Nossa", e aí, claro, incluo o nosso sistema capitalista como o protagonista desse apocalipse.

Há uma boutade, atribuída em memes ao Žižek, que diz ser mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo. E talvez o planeta tenha precisado de uma pandemia global para finalmente negar o anticientificismo, o negacionismo climático e as políticas neoliberais de extermínio do Estado, embaladas pelo neofascismo populista da segunda década do século 21.

Está claro que não apenas o acesso à saúde precisa ser igualitário entre os cidadãos de um país, mas também entre os países. E não só a pandemia deve ser combatida num esforço conjunto dos governos, mas também a recessão econômica mitigada por políticas anticíclicas globais. Talvez micro-organismos tenham ensinado a economistas e formuladores de política o que o senso comum keynesiano não conseguiu.

Se estou sendo otimista? Depois de amanhã, sim. Hoje, ainda falta um longo, muito longo e escuro, túnel a atravessar. 

***
Penso em Decameron. Logo no início do livro, Bocaccio apresenta um panorama da Europa flagelada por outra peste vinda do Oriente, a de 1348. Vamos a ele.

Uma vez que "não só falar e conviver com os doentes causava a doença (…), como também as roupas ou quaisquer outras coisas que tivessem sido tocadas ou usadas pelos doentes pareciam transmitir a referida enfermidade”, a população local dividiu-se: "Alguns, considerando que viver com temperança e abster-se de qualquer superfluidade ajudaria muito a resistir à doença, reuniam-se e passavam a viver separados dos outros, encerrando-se em casas onde não houvesse nenhum enfermo e fosse possível viver melhor, usando com frugalidade alimentos delicadíssimos e ótimos vinhos, fugindo a toda e qualquer luxúria, sem dar ouvidos a ninguém e sem querer ouvir notícia alguma de fora, sobre mortes ou doentes, entretendo-se com música e com os prazeres que pudessem ter.”

Os nobres florentinos do século 14  jamais poderiam imaginar tamanha semelhança com os brasileiros privilegiados quase sete séculos depois.

Aqui, por enquanto lidamos com a falta de álcool gel, as agruras do isolamento social em home office e a indecisa navegação no catálogo da Netflix – num país onde 48% da população não têm coleta de esgoto, e quase 35 milhões de pessoas não têm água tratada em casa. Onde a população que tem a sorte de ter um trabalho precário ainda está exposta ao vírus sem garantias ou direitos. Sem falar nos milhões de brasileiros em situação de rua – apenas em São Paulo, foram 419 mil os abordados em 2019. Se há um país onde essa gripe pode transformar-se num genocídio, este é o Brasil.

A população menos sortuda, segue Bocaccio, repartia-se entre "rir e zombar do que estava acontecendo”, "abandonar sua cidade, suas casas, suas propriedades, seus parentes e suas coisas, buscando os campos da sua região ou das alheias” e, claro, adoecer e morrer, "sem nenhum socorro de médicos nem ajuda de serviçais, (…) não como homens, mas quase como animais”. A Europa perdeu cerca de um terço da sua população, só duzentos anos depois recuperou seu índice populacional pré-peste – e vou poupá-los das descrições sobre valas comuns e cadáveres abandonados pelas calçadas.

***

Sobre os governantes florentinos, Bocaccio escreve: "Em meio a tanta aflição e miséria da nossa cidade, a veneranda autoridade das leis divinas e humanas estava quase totalmente decaída e extinta porque seus ministros e executores, assim como os outros homens, estavam mortos ou doentes, ou então se encontravam tão carentes de servidores que não conseguiam cumprir função alguma; por esse motivo, era lícito a cada um fazer aquilo que bem entendesse.”

Até agora, 22 (vinte e dois) integrantes da comitiva do presidente Jair Bolsonaro que viajou aos Estados Unidos recentemente foram infectados com o coronavírus. O presidente diz ter testado negativo, mas, a uma altura dessas, poucos acreditam nele. Frente a crise, a atuação errática desse governo néscio, comandado por um fascista psicopata, é ameaça maior à população brasileira que qualquer pandemia.

Aqui, na terra sem revolução, onde o progresso é fumaça e os direitos são alheios, o desespero costuma vir sem raiva. Mas, nessa última semana, algumas placas tectônicas deslocaram-se no Brasil: o som é familiar, acordaram as panelas.

Desde janeiro de 2019, Bolsonaro falou e governou exclusivamente para o seu terço. O terço que o levaria pro segundo turno de 2022, e aí ele daria o seu jeito – com a máquina, acordos, tribunais, o que fosse. Essa estratégia parece ter funcionado apenas  até domingo passado, quando o presidente do Brasil prestigiou uma manifestação golpista e abraçou eleitores quando deveria estar em quarentena.

Uma pandemia exige discurso e postura majoritária. Agora Bolsonaro precisa – por sobrevivência política, pela primeira vez – falar e governar para todos os brasileiros. Como isso ultrapassa seu ethos, e ele segue dobrando a aposta no derretimento das instituições, é fácil apostar em qualquer tipo de aventura golpista (ou contragolpista) nos próximos meses. Ainda mais sob uma crise econômica aparentemente sem precedentes – sob um Ministro da Economia que já mostrou ser um inapto em qualquer um dos sentidos que possamos dar a palavra.

O trem suicida da civilização veio descarrilar na floresta tropical. Em nenhum outro país do mundo com essa escala há um projeto tão claramente genocida de destruição da natureza e do Estado democrático de Direito. Talvez o mundo como o conhecemos, sob a religião do capitalismo tardio, comece a acabar aqui – ou já tenha acabado e estejamos diante de seus rescaldos.

Mas depois do túnel há uma curva fechada. Não sairemos dessa como entramos, nunca tivemos tanto pelo que lutar – e, em meio ao caos, isso é uma boa notícia. 
--
(*) Escritor e cineasta, J.P. Cuenca é autor de cinco livros traduzidos para oito idiomas. Seu último romance, Descobri que estava morto, foi vencedor do Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional e deu origem ao longa-metragem A morte de J.P. Cuenca, exibido em mais de 15 festivais internacionais. Ele hoje vive entre São Paulo e Berlim. Siga-o no Twitter, Facebook e Instagram como @jpcuenca

O mundo real morreu, viva o mundo real

Berna González Harbour
El Pais

O confinamento se tornou um experimento inédito de primazia das relações virtuais, mas também um clamor por recuperar o contato com os outros

ERIC BARADAT / AFP 
Menino grava mensagem para seus amigos no celular
 de seu pai em Washington, nesta sexta-feira.

Quando vivíamos no mundo físico real, nessa época que agora parece tão distante, nos refugiávamos talvez demais no virtual, e agora que somos forçados ao virtual, queremos voltar correndo ao físico. Em um momento de confinamento forçado, o virtual se expande, se sobressai com firmeza, nos ajuda de modo extraordinário e se consolida em uma sociedade que já alertava para seu peso excessivo, mas que é forçada a se render, pelo menos momentaneamente, à tela e ao teclado. A crise do coronavírus nos surpreende com um sistema de relações virtuais bem lubrificado em comparação com as reações físicas em declínio nesta era de redes sociais e conexão constante.

Mas a vitória é só momentânea. A dependência excessiva à qual fomos forçados nos fez repentinamente almejar um contato mais físico no qual uma mensagem do WhatsApp não é suficiente, um tipo de relação que volte a passar pelos sentidos: o visual, com videoconferências que até os mais resistentes estão praticando, ou o sonoro, que nos permite ouvir e captar a voz em um grau de empatia obviamente superior ao que está escrito. O aumento das ligações telefônicas do fixo (134%, segundo dados da Vodafone na última segunda-feira) ou o crescimento geral do tráfego de voz (84% no final de semana, segundo a Telefónica) nos devolveu à realidade de uma necessidade humana às vezes adiada pela velocidade em que vivemos.

“Estes tempos de turbulência e peste nos levam a recuperar os telefonemas. Estávamos nos relacionando em nível de WhatsApp, tec, tec, rápido, rápido, e as pessoas voltaram a descobrir o telefone, estão felizes falando sem parar", diz a filósofa Amelia Valcárcel. “De repente, estamos em uma situação que não pensávamos ver, presos na irrealidade, como se o mundo tivesse parado, e é uma experiência que nunca tivemos. Quero crer que será bom para nós. Estávamos correndo muito e provavelmente voltaremos a correr, mas esta experiência ficará introjetada e nos ajudará a medir o que é importante.”

O ensaísta César Rendueles, autor de Sociofobia, el Cambio Político en la Era de la Utopía Digital (Sociofobia, a mudança política na era da utopia, em tradução livre), vai na mesma linha, ao enfatizar a dependência que essa situação põe em evidência: “Estamos comprovando precisamente que dependemos de coisas muito pouco virtuais: não só de médicos, mas de repositores de supermercados, transportadores e babás. E assim nos damos conta da natureza fictícia dessa centralidade que demos ao digital”, reflete Rendueles. “Vivemos em uma bolha digital na qual todos tuitamos de modo obsessivo, e é claro que agora as coisas podem ser facilitadas pelo teletrabalho, mas do que realmente dependemos na realidade é de outras coisas.”

As crianças, que já compõem a geração das telas, com tablets quase desde o berço, na opinião de Rendueles “vão se cansar do celular, precisam brincar lá fora. Quando a clausura terminar, veremos as repercussões, haverá ansiedade, medo de contatos, mas as crianças vão passar por cima disso e vão preferir o parque. ”

Um campo de provas

Mas há dois planos diferentes nesta reflexão sobre o virtual e o físico: um é o que afeta os relacionamentos e o outro o que afeta o trabalho. E neste, todo o potencial que podemos liberar, graças à tecnologia e à interconexão, é um campo de testes sem precedentes com consequências que podem ser muito positivas.

“A única coisa boa que se pode dizer sobre isto é que vai ser um experimento impossível em outras circunstâncias sobre as possibilidades do alcance do teletrabalho”, reflete Marta Peirano, especialista em redes e Internet e autora de El Enemigo Conoce el Sistema (O inimigo conhece o sistema, em tradução livre). "Em nenhum outro contexto seria possível fazer um experimento desses, que o Governo obrigasse as empresas a facilitar o teletrabalho e que pudéssemos estudar seu efeito no tráfego, poluição e transportes. E, felizmente, isso acontece com essas estruturas em andamento.”

Mas, ao mesmo tempo, de acordo com Peirano, há riscos: “Isso vai aprofundar bastante o fosso digital. Enviamos crianças para casa com tarefas digitais, e quanto à população que não tem TV a cabo, que não tem Internet?”

Outro risco é o da dependência excessiva das redes, que Byung-Chul Han, filósofo de origem coreana que é professor em Berlim, já tinha como alvo em A Sociedade da Transparência (Editora Vozes). “Haverá muitos perdedores nesta crise, mas também beneficiários. As plataformas digitais terão grandes lucros e seu valor está nos dados, não nas conexões", diz Peirano. "E como a Internet é um recurso crítico, o Governo tem que garantir que todas as crianças tenham acesso à aula virtual e que todos os pacientes nos hospitais possam receber visitas virtuais.” Ela recorda o que aconteceu em Porto Rico, quando o Facebook garantiu a comunicação “que o Governo não poderia garantir. Se a única opção para ter dados ou a Internet for o Facebook, não podemos mais escolher.”

Ao mesmo tempo, esta crise "nos permite fortalecer os laços com as pessoas que estão mais próximas de nós", diz Peirano. "Levei três dias para perceber que, se eu abrir a janela, me deparo com uma vizinha com quem interajo no WhatsApp. Sua verdadeira comunidade não é a do WhatsApp, mas os que ficaram com você. Como se fosse um incêndio ou uma inundação, sua comunidade é a que sofre com você." A coisa mais arriscada, todos concordam, é dar credibilidade nas redes a "todos aqueles que de repente parecem doutores em biologia e sabem tudo", diz Rendueles.

“Hegel dizia que as grandes catástrofes produzem pureza, elas nos dizem o que é importante e o que é passageiro”, conclui Amelia Valcárcel. “Quanto tempo a nossa força vai durar é uma incógnita, mas no momento as pessoas estão telefonando para a família, os amigos, colocando as coisas em ordem. E isso é curioso e bom."

'A solidão dos idosos não muda, essa é a pior parte': o desabafo de enfermeira que cuida de casos de coronavírus

Vinicius Lemos
Da BBC News Brasil

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Parte do grupo de risco, idosos com suspeita de coronavírus 
precisam conviver com a incerteza sobre a doença e com a solidão

Na semana passada, um idoso de 82 anos foi internado em um hospital particular de São Paulo (SP) com febre e intensos problemas respiratórios. Ele tossia insistentemente. Durante dias, permaneceu sozinho na unidade de saúde. A família não pôde acompanhá-lo, porque era um caso suspeito para o novo coronavírus — o exame até o momento não ficou pronto. Ele não resistiu às complicações de saúde e morreu. Não se despediu dos parentes.

"Ele morreu sozinho. A família foi informada que ele estava mal, mas não pôde vê-lo", relata a enfermeira Marcia Cristina de Jesus, que lidera uma equipe que acompanha pacientes confirmados ou com suspeita do novo coronavírus. O hospital em que ela trabalha tem três andares destinados somente a casos relacionados ao vírus.

A profissional de 52 anos, sendo 25 deles atuando na área da saúde, afirma que esse é o período mais estressante e apreensivo da sua carreira. Em relação aos pacientes com o novo coronavírus, ela diz que a solidão torna tudo mais difícil. "Eles não podem receber visitas e ficam ali, à espera dos resultados dos exames, sem saber se realmente têm o coronavírus", relata à BBC News Brasil.

Ela frisa que os registros de complicações graves em decorrência do coronavírus não se restringem aos idosos. "Há muitos casos de jovens na faixa dos 27 a 40 anos também. Essa ideia de que só acomete os mais velhos é errada", declara.

No hospital em que ela trabalha, um homem de 30 anos morreu por suspeita de covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus — o exame ainda não ficou pronto.

Em meio aos problemas de saúde causados pelo Sars-Cov-2, como é chamado oficialmente o novo vírus, os pacientes precisam lidar com a solidão, porque nenhum ente querido pode se aproximar, para evitar a propagação do vírus. Os pacientes ficam dias ou semanas internados sozinhos.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Casos de coronavírus têm crescido exponencialmente 
em todo o Brasil e as maiores vítimas são os mais velhos

Marcia comenta que os idosos, que fazem parte do principal grupo de risco da covid-19, são os que mais têm dificuldades para entender o momento de solidão enquanto estão internados. "Muitos dos jovens lidam melhor com isso. Eles são mais ansiosos e se preocupam mais em pensar quando vão embora", diz.

"Já os idosos, muitos deles não conseguem entender por que estão ali. Alguns familiares se aproveitam um pouco da situação para deixá-los sozinhos por muito tempo. Essas pessoas mais velhas têm uma sensação de solidão, tristeza e de muita impotência", relata a enfermeira.

Especialistas apontam que é frequente a dificuldade de idosos em lidar com a solidão após o diagnóstico do coronavírus, ou enquanto aguardam o resultado do exame.

Durante a solidão do isolamento, podem surgir também os pensamentos relacionados ao fim da vida. No Brasil, até terça-feira (31), havia 201 mortes em decorrência do novo coronavírus — a grande maioria das vítimas são pessoas idosas.

"Nesse momento de isolamento, esses idosos se veem afastados dos seus familiares e entes queridos e isso é sentido por eles como um abandono. Eles sabem que é algo necessário, mas não deixa de ser um abandono. Isso os coloca em contato com a aproximação da morte, da fragilidade e da impotência diante da doença", explica Sergio Kodato, professor de psicologia social da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto

"Há aqueles idosos que reagem com garra e determinação em meio a tudo isso. Mas a maioria acaba desanimada com a situação", acrescenta Kodato.

A solidão na pandemia

A recomendação para que não haja acompanhantes em casos de pacientes com suspeita do novo coronavírus é para evitar que parentes se exponham desnecessariamente aos riscos de contrair o vírus. "Quanto mais idoso é o paciente, mais vai precisar dos cuidados da equipe de enfermagem, porque precisaremos prestar todos os cuidados que o acompanhante faria", explica Marcia.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Cuidados da equipe médica e atenção com pacientes idosos 
podem ajudá-los a enfrentar período de solidão

Assim que um paciente chega a uma unidade de saúde como suspeito de coronavírus, a orientação do Ministério da Saúde é que ele seja tratado como se realmente tivesse o vírus. Por isso, ele é colocado em isolamento e os profissionais que o acompanham passam a usar Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

A medida é tomada para evitar possível propagação do Sars-Cov-2. No Brasil, em razão dos poucos testes disponíveis, o tempo médio que a pessoa espera para receber o resultado do exame é de sete dias a duas semanas — a previsão é de que o prazo diminua futuramente, após o país adquirir 22 milhões de testes.

Quando o estado clínico do paciente é considerado bom, a equipe médica o libera para ficar em isolamento em sua própria casa, à espera dos resultados. Também nesse caso, a solidão se torna constante.

"Eles não podem ter contato com os parentes em casa. Para os mais velhos, a situação é muito semelhante ao hospital e eles podem se incomodar muito", pontua Márcia. Os mais novos, em muitos casos, buscam entretenimento em meios digitais como celular, computador ou videogame.

No hospital, aqueles que ficam internados nem sempre conseguem usar o celular ou ler um livro como distração. "Muitos pacientes com o a covid-19 não têm disposição no hospital. A falta de ar, causada pelo coronavírus, deixa muitos cansados. Os mais jovens costumam levar celular para se distrair, já os idosos não costumam levar nada", detalha Márcia.

Os pacientes mais jovens, segundo a enfermeira, ficam ansiosos quando estão internados à espera do exame. "Os pacientes com idade profissionalmente ativa ficam estressados e com muita ansiedade nesse período", relata. Já os idosos, segundo ela, são mais calmos. "Muitos não demonstram ansiedade para ter o resultado", pontua.

A antropóloga Mirian Goldbenberg, que estuda sobre os idosos, disse em recente entrevista ao jornal Folha de São Paulo que o coronavírus evidenciou uma situação já vivida pelos mais velhos: a ideia de que são inúteis, um peso para a sociedade e que precisam ser controlados.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Para especialistas, coronavírus reforçou sentimentos de idosos
 de que podem ser um fardo para os mais próximos

Para ela, se a mortalidade do novo coronavírus fosse maior entre crianças e adultos jovens, o comportamento da sociedade seria diferente. A estudiosa afirma que há uma visão de que quando a pessoa envelhece, pode ser eliminada. "Mesmo antes da epidemia, muitos (idosos) sentiam que viviam uma espécie de morte simbólica. O valor que se dá a essas pessoas mais velhas é quase nulo, socialmente e dentro de casa", disse em entrevista à Folha.

Um dos fatores que aumentam o sentimento de solidão entre os idosos enquanto estão no hospital, segundo o psicólogo Sergio Kodato, é justamente a ideia de que são um fardo. "Se não houver apoio da família ou de pessoas próximas, esse paciente pode acabar se entregando à doença", diz.

Em busca de um conforto

Entre as equipes que acompanham os pacientes, há aquelas, como a da Márcia, que buscam confortar os pacientes internados. "Os idosos ficam mais tristes com o passar dos dias sozinhos. A nossa equipe, então, tenta transmitir um pouco de carinho. Conversamos e até cantamos para eles, às vezes. Procuramos manter um pouco de humor e serenidade diante da correria de 12 horas de plantão", comenta a enfermeira, que trabalha durante a madrugada, a cada dois dias.

"A gente tenta melhorar os dias deles, mas sabe que a solidão não muda. Acho que essa é a pior parte, além da doença em si", diz.

O psicólogo Sergio Kodato ressalta que a falta de apoio de entes queridos, ainda que a distância, pode causar dificuldades no tratamento de saúde do paciente, principalmente se for idoso. "A solidão é um pouco depressiva porque te obriga a ficar introspectivo. Quando você está enfrentando tudo isso sozinho, é como se estivesse lidando com um fenômeno maior e tende a se sentir impotente e aí começa um diálogo com a morte. Isso, de certa forma, pode acelerar o processo de morte", declara.

Ele afirma que há medidas simples de demonstração de afeto de entes queridos que podem melhorar o dia do paciente, principalmente os idosos. "Os familiares ou amigos podem pedir para a equipe médica levar algum recado para que a pessoa se sinta mais confortável, ainda que distante. Isso é muito importante para a pessoa que está internada sozinha", diz.






E se trabalhássemos para sempre em regime home office?

Fábio Marton e Bruno Carbinatto
Revista SUPEERINTERESSANTE

Bom trabalho, e tira essa toalha molhada da escrivaninha! 

(Getty Images) (ferrantraite/Superinteressante)
Highline, o elevado convertido em parque, em NY. Com mais home office, 
e menos trânsito, projetos assim pipocariam por mais cidades.

Depois da pandemia, ninguém mais voltou ao trabalho. Nas grandes avenidas, os escritórios permaneceram fechados. Empoeirados, computadores, cadeiras, mesas, grampeadores e máquinas de fotocópia encheram caçambas. Depois, o longo silêncio: arranha-céus comerciais esperam o dia de renascer, só que na forma de lares. Às 15h de uma segunda-feira, passeando com o cachorro pelo parque e vendo os prédios no horizonte, você não consegue deixar de escapar da nostalgia:

“Pô. Mas o pessoal do escritório era tão legal…”

Um estudo do Ministério do Trabalho dos EUA calculou que 28,8% das pessoas realizam atividades que podem ser feitas em casa. Lá atrás, imaginava-se que seria muito mais. Nos anos 1990, com a chegada da internet, os gurus da tecnologia profetizaram que o home office se tornaria o padrão de trabalho universal. Estavam errados, como geralmente estão mesmo. Pelos últimos dados, de 2019, dos 92,5 milhões de brasileiros que trabalham, 4,5 milhões (4,8%) o fazem de casa. Nos EUA, é praticamente igual: 5,2%.

Mas agora mudou tudo. Até o fechamento desta edição, não havia dados sobre o aumento do home office com as quarentenas do coronavírus. Só que, sabemos todos, ele aumentou brutalmente. Então vale o exercício de fantasia: e se todo mundo se apegar ao trabalho caseiro, e ninguém, desses quase 30% que podem fazer isso, jamais retorne aos escritórios? Daria certo? A resposta é: depende. A Ctrip, uma agência de viagens da China, fez um experimento em 2013: colocou uma parte de seus 16 mil funcionários trabalhando de casa. E concluiu que a produtividade deles aumentou em 13%. Satisfeita com o resultado, liberaram home office para todos.    

Mas também pode ser o contrário. Paradoxalmente, os empregados em casa tendem a se comunicar menos até digitalmente: um estudo do cientista social Ben Waber, cofundador da consultoria de RH Humanyze, mostrou que, num grupo de engenheiros, aqueles trabalhando no escritório mandavam quatro vezes mais emails de trabalho que o pessoal do home office. Nesse caso, concluíram que a produtividade de quem estava na labuta tradicional era um terço maior. 
  
Por essas, a então CEO da Yahoo, Marissa Mayer, proibiu o home office. De acordo com ela, atrapalhava o entrosamento da equipe. Ajudar, não ajuda mesmo. A comunicação humana tem nuances que são perdidas sem o contato próximo. Por conta disso, o home office leva a mais mal-entendidos e, daí, a erros.

A parte da solidão, em si, também é um problema. Não evoluímos para passar o dia sozinhos. E isso levaria a outra paradoxo. Com boa parte da força de trabalho operando do lar, os happy hours ficariam mais comuns. Mais do que uma válvula de escape sazonal, eles se tornariam essenciais para que os nossos cérebros, famintos por interação social, mantivessem a sanidade.

A pessoa precisa ter certeza, afinal, de que os colegas de trabalho são seres humanos reais. Seja como for, boa parte de quem faz home office provavelmente encontra formas de diminuir a solidão. Uma pesquisa feita pela empresa TinyPulse, nos EUA, constatou que trabalhadores remotos se consideram 9% mais satisfeitos do que os trabalhadores presenciais.

A falta de horário fixo, porém, tende a pesar. Só os mais disciplinados conseguem emular direitinho o horário de expediente, como se estivessem batendo ponto. Quando você labuta de casa, toda hora vira potencialmente hora de trabalho. Isso cobra seu preço: em uma pesquisa realizada em 15 países, 42% das pessoas que faziam home office relataram insônia, contra 29% de quem trabalhava em escritório.

Se o trabalho em si é um misto de benesses e pioras, a cidade ganharia outra cara. O trânsito, obviamente, seria imensamente beneficiado, mas outras partes podiam sofrer. Prédios obsoletos não costumam ser boas notícias para a vizinhança. Eles se tornam ponto de invasões e insalubridade, fazendo cair o valor da região inteira, o que alimenta o ciclo de decadência urbana que leva a mais prédios vazios. O Centro Velho de São Paulo é um exemplo de região de escritórios que perdeu a relevância. Pujantes edifícios dos anos 1960 aparecem abandonados, subocupados, ou em péssimo estado de manutenção.

Isso pode ser combatido transformando escritórios obsoletos em residenciais. E está sendo feito justamente no centro de São Paulo. Em 2016, um prédio de escritórios que deu lugar a 126 unidades de apartamentos ganhou um prêmio arquitetônico. Mas o centro da maior cidade do País ainda tem 70 prédios abandonados e centenas de subutilizados. Se os prédios de escritórios virassem todos residenciais, certamente seria uma benesse para quem paga aluguel, já que os preços de todos os imóveis cairia, com o aumento de oferta. Mas há um limite imposto pelos altos investimentos na conversão dos prédios e na própria demanda: haveria espaço para uma Faria Lima inteira de apartamentos de luxo?

Outro fator de estresse: a própria economia que funciona em torno de trabalhar longe. Seria o fim do restaurante por quilo. No lugar deles, entrariam as dark kitchens, restaurantes sem balcão que operam exclusivamente por aplicativos.

O transporte coletivo também passaria por uma transformação. Com menos gente usando ônibus, faria sentido substituir parte deles por sistemas de transporte sob demanda. É como a versão “Juntos” do Uber, em que até três passageiros aleatórios compartilham corridas com trajetos semelhantes.

A diferença é que seria um serviço com vans. Já existem serviços assim em operação em Berlim, Milão e em 200 cidades do Japão. É melhor que os ônibus de hoje? Não. Tende a sair mais caro. Mas, numa realidade com menos passageiros, talvez essa se torne a única opção para certos trajetos hoje atendidos pelo ônibus.

Agora a melhor parte: com muito menos trânsito e áreas comerciais transformadas em residenciais, algumas avenidas perderiam a função, podendo ser convertidas em parques. Várias cidades já fizeram isso. Madrid, Portland e Seul tinham seus equivalentes às marginais dos rios Tietê e Pinheiros, em São Paulo, vias arteriais correndo ao lado de seus rios principais. Todas foram destruídas e transformadas em parques extensos.

Só isso já daria um belo upgrade no meio ambiente urbano. Mas tem outra. Nos horários de pico do trânsito, o ar fica quatro vezes mais carregado de poluentes, como monóxido de carbono, sulfatos e metais pesados, que no melhor período, logo antes do nascer do sol.

No mundo, o transporte responde por 15% das emissões de gases-estufa, e, em países com muitos automóveis per capita, como os EUA, chega a 29%. Disso, metade acaba na atmosfera só para realizar o traslado de pessoas até o trabalho. Uma tarefa que, apesar dos pesares, pode se tornar um pouco menos comum depois disso que estamos vivendo agora: o maior experimento de home office da história da humanidade. 

O que fazer quando o presidente não lidera?

Celso Ming,
O Estado de S.Paulo

Não dá para contar com Bolsonaro para uma ação coordenada para o contra-ataque ao novo coronavírus


  Foto: Marcos Müller/Estadão

Revista britânica The Economist comparou o presidente Bolsonaro a Nero, imperador romano que assistiu ao incêndio de Roma sem fazer nada 

O maior equívoco do presidente Bolsonaro não é o de que pense diferentemente da Organização Mundial da Saúde (OMS), da maioria dos infectologistas e da opinião majoritária no País sobre a melhor maneira de enfrentar a pandemia.

É o de não atuar como chefe de governo. Em vez de unir o País, optou pela ruptura. Quando se refere ao vírus, ignora sua gravidade. Classifica-o como agente que não produz mais do que uma “gripezinha”, um “resfriadinho”. E desdenha do sofrimento da legião de infectados e das mortes que tendem agora a aumentar. Prefere dizer que o povo está acostumado a se meter no esgoto sem apanhar doenças.

Mas, ainda assim, poderia defender tratamento diverso do adotado pela maioria dos governadores e prefeitos. Mais do que promover procedimentos recomendados pelos especialistas, teria de tomar a iniciativa de conduzir um debate responsável. Mas preferiu desancar quem não pensa como ele.

Está mais do que na hora de entender que não dá para contar com o presidente para uma ação coordenada para o contra-ataque ao flagelo. Se isso é assim, o que fazer com ele?

Já houve quem sugerisse sua interdição, sem dizer como se faz isso. Não haveria sentido apresentar um atestado subscrito por meia dúzia de especialistas e internar o presidente, sabe-se lá em que condições. Também apareceram propostas de colocar em marcha um processo de impeachment, procedimento normalmente demorado, sujeito a complicados trâmites políticos e judiciais, portanto inviável.

A prática começa a sugerir outro tipo de saída. Sem partir para a truculência, governadores, líderes do Congresso, juízes do Judiciário e até mesmo membros do governo, como no pacote de crédito de sexta-feira, começam a atuar de maneira autônoma. Contra a palavra de ordem de que “o Brasil não pode parar”, governadores e prefeitos, por exemplo, ordenaram o recolhimento da maior parte da população, o fechamento de escolas e do comércio não essencial. E, independentemente de ideologias e de filiação partidária, têm se reunido para coordenar políticas. Autoridades do Judiciário passaram a vetar algumas das decisões descabidas do presidente, como o artigo de medida provisória que restringiu a Lei de Acesso à Informação. E, sem chutar o pau da barraca, o Legislativo e outros setores do governo vêm preparando e aprovando medidas destinadas a reduzir o sofrimento da população e a paradeira das empresas.

A solução de confinar politicamente o presidente, de deixá-lo falando sozinho, entregue à lira de Nero – como aponta a última edição da revista The Economist –, não é evidentemente a ideal. Ele continua pilotando uma caneta poderosa, continua sendo o editor do Diário Oficial e tem lá uns 20% de seguidores que o apoiam ferozmente nas redes sociais.

Vai, também, que não será preciso isolar politicamente o presidente. A pandemia pode acabar por bater tão implacavelmente o Brasil, como preveem especialistas, que não sobrará saída técnica senão o confinamento. Mas se não foi capaz até aqui de liderar o País na guerra contra o vírus, também não será capaz de liderar depois que tudo der errado, como deu errado na Itália e na Espanha.

CONFIRA

» Nem sempre o ouro segura 
Ouro e imóveis nem sempre garantem segurança e rentabilidade que muita gente pensa. O valor das cotas dos fundos imobiliários, por exemplo, despencou e, mesmo assim, poucos conseguem revendê-las. Os imóveis à venda não têm interessados. E as cotações do ouro estão voláteis. Nos 30 dias terminados nesta sexta-feira caíram 1,4%. Em março, o preço da onça-troy (31,1 g) ainda teve uma valorização de 2,2%. É um pouco daquilo que está no ‘Manifesto’ de 1848: “O que é sólido desmancha no ar”.

Liberação de recursos precisa ser mais rápida, sugere Austin Rating


Alerta é para atraso na retomada de atividade e investimentos


A liberação dos volumosos recursos de crédito e de ajuda financeira, anunciados respectivamente pelo Banco Central e pelo Ministério da Economia na última semana, precisa ser mais rápida, afirma Luis Miguel Santacreu, analista responsável pela área de bancos da Austin Rating. Na visão dele, uma demora na disponibilização dos recursos poderá atrasar a retomada das atividades econômicas e dos investimentos.

 “Vivemos uma nova realidade no Brasil desde a quarta-feira de cinzas. Tivemos uma senhora pancada no sistema financeiro e as soluções para a crise de saúde e econômica precisam ser mais rápidas”, diz o analista.

Santacreu não acredita que as medidas do Banco Central serão suficientes para as empresas. Além da liberação de R$ 1,2 trilhão em liquidez para o mercado, o BC também divulgou, na última sexta-feira (27), uma linha emergencial de R$ 40 bilhões para financiar dois meses de folhas de pagamentos para empresas com faturamento anual entre R$ 360 mil e R$ 10 milhões por ano.

“São medidas tímidas ainda. Só a liquidez não garante a retomada da economia real, é preciso que as empresas tenham recursos para pagar salários e fornecedores”, diz.

O analista contextualiza que houve um desaquecimento brutal da atividade econômica por causa da quarentena decretada em diversos estados do País para tentar conter o avanço da pandemia de coronavírus.

Santacreu diz que os bancos já estão se adaptando para a nova realidade. Porém, ele prevê retração no crédito e alta dos juros por aumento do risco de inadimplência se não houver uma ação mais efetiva do Banco Central e do governo federal.

O analista também sugere que o BC, assim como outras autoridades monetárias fizeram na crise global de 2008, possa comprar títulos de crédito corporativos.

Além de debêntures e notas promissórias de médias e grandes empresas, Santacreu diz que será preciso comprar carteiras de factorings, de fintechs de crédito, de duplicatas e recebíveis de cartões de micro e pequenas empresas.

“Isso tem que ser feito de forma rápida e criativa, talvez um fundo da Caixa Econômica Federal, para evitar uma quebradeira das empresas”, afirma.

Quanto ao arsenal de medidas, Santacreu voltou a citar que, na crise financeira global de 2008, os bancos centrais dos Estados Unidos, do Japão e da Europa se utilizaram de diversos instrumentos capazes de minimizar os impactos nos mercados.

“Os governos emitiram moedas, compraram carteiras de crédito de bancos e também títulos corporativos. Aqui, no Brasil, o BC também evitou uma crise bancária com a criação do DPGE (Depósito a Prazo com Garantia Especial). Esses instrumentos estão todos aí, disponíveis”, diz.

Embora ainda não tenha aprovação do Congresso para emissão de moeda (QE, quantitative easyng) ou para compra de títulos corporativos de dívida, o Banco Central do Brasil já listou oito medidas para garantir a solidez do Sistema Financeiro: novo DPGE; liberação adicional de depósitos compulsórios; flexibilização das regras de Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs); empréstimos com lastro em debêntures; ampliação do limite de recompra de Letras Financeiras de emissão própria; não dedução do capital dos efeitos tributários decorrente de overhedge de investimentos em participações no exterior; BC como doador de recursos por até um ano em operações compromissadas com lastro em títulos públicos federais; e, redução do spread de nivelamento de liquidez.

73% estão insatisfeitos com medidas econômicas contra vírus, diz BTG/FSB

Ligia Tuon
Exame.com

Percepção geral é de que os estados têm contribuído mais no combate à disseminação do vírus. Em 2ª lugar, a maioria coloca as prefeituras

(Buda Mendes/Getty Images)
Coronavírus Rio de Janeiro 

As medidas econômicas anunciadas até agora pelo governo para mitigar os impactos da pandemia de coronavírus no Brasil deixam 73% dos entrevistados por pesquisa feita pelo Instituto FSB em parceria com o BTG Pactual insatisfeitos.

O levantamento Os brasileiros e o coronavírus: visões sobre a pandemia e seus impactos econômicos ouviu, por telefone, 2.132 eleitores a partir de 16 anos, de todo o Brasil, nos dias 26 e 27 de março de 2020. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%.

Do total de entrevistados, 69% ouviram falar das medidas. Desses, 37% consideram as medidas mais ou menos suficientes, 36% pouco ou nada suficientes e 27%, suficientes ou muito suficientes.

A visão de que as medidas são pouco suficientes é mais frequente em mulheres (27%) de até 40 anos (59%) e cresce, curiosamente, de acordo com o grau de escolaridade. O percentual varia muito de acordo com a região do país.


Quem faz mais pela crise?

A percepção geral dos entrevistados é de que os estados têm contribuído mais no combate à disseminação do vírus. Em segundo lugar, a maioria das pessoas coloca as prefeituras.

Questionados sobre quem está fazendo mais, o governo federal, os governos estaduais, as prefeituras ou as empresas, 41% dos entrevistados colocaram os governos estaduais em primeiro lugar e 31% colocaram as prefeituras em segundo lugar. O governo federal foi colocado em primeiro lugar por 27%.

A grande maioria dos governos estaduais e municipais se adiantou em relação ao federal na política de isolamento social e fechamento do comércio não essencial. A postura gerou choques com Bolsonaro, que defende isolar apenas a população mais vulnerável (idosos e portadores de doenças crônicas).

Após ficar praticamente isolado nesse discurso, o presidente baixou o tom ontem sobre a gravidade da doença. O último balanço oficial do Ministério da Saúde contabiliza 201 mortos e 5.717 casos confirmados da doença no país.

Mais da metade dos entrevistados (51%) concordam com a necessidade de manter as pessoas em casa para reduzir o número de mortes pelo coronavírus, mesmo que isso cause fortes perdas econômicas.

Já 42% dizem que é preciso manter em casa apenas os grupos de maior risco, como idosos e portadores de outras doenças, permitindo a reabertura gradual do comércio.

As contas abstratas de Paulo Guedes

Míriam Leitão
O Globo

O ministro Paulo Guedes, ao falar que as medidas já chegaram a R$ 750 bilhões, está misturando dinheiros de natureza diferente e ainda está dando como certo o que por enquanto é apenas sabido. Ele faz contas assim:

- Temos R$ 250 bilhões mais R$ 150 bilhões, são R$ 400 bilhões. Nós já passamos de R$ 700 bilhões na verdade, já estamos em R$ 750 bilhões mais ou menos o dinheiro mobilizado para receber essa primeira onda de impacto sobre a saúde. Uma parte são empréstimos em programas de manutenção de emprego, são esses R$ 50 bilhões que estão para sair a qualquer momento.

Nessa conta total de Paulo Guedes tem, por exemplo, os R$ 200 bilhões aos bancos através da redução do compulsório. É dinheiro abstrato. Pode nunca chegar na economia. Os bancos terão mais recursos em caixa para eventualmente emprestar mais, mas o que se sabe é que há como sempre um “empoçamento”.

As empresas reclamam de que os anúncios de linhas de crédito não viraram realidade, mutuários da casa própria aguardam decisão da Caixa sobre o pedido de suspensão do pagamento das prestações, muitos anúncios de transferência aos estados e municípios não se realizaram.

Perguntado pelo ministro Mandetta sobre o reforço "a pessoas", Guedes disse que o número está entre R$ 150 bi e R$ 200 bilhões. Parte do dinheiro pode vir a ser real e chegar na mão de quem precisa, mas o ministro conta como certo o que não se sabe quando chegará na mão de quem precisa. Os informais começarão a receber os recursos apenas no dia 16 de abril, segundo disse o ministro Onyx Lorenzoni, mas ainda é um mistério como será distribuído. Segundo Paulo Guedes, falta nesses recursos aos informais um projeto a ser aprovado pela Câmara para definir as fontes dos recursos. 

Não adianta ter um número grande, é preciso acertar no micro, no trabalho para que cheguem os recursos a quem precise. A começar dos mais vulneráveis. Falta ao governo o ritmo certo e isso porque ele sempre esteve dividido desde o começo e quem mais estimula essa indecisão é o presidente da República.



Não repetir 2009

Samuel Pessôa
Folha de São Paulo

Em 2009, como resposta à grande crise financeira internacional, o governo expandiu o gasto público e os empréstimos do BNDES, entre outras medidas. Era política contracíclica para estimular a economia.

A política, correta em 2009, perenizou-se. Os excessos já estavam claros na virada de 2009 para 2010. Começamos a cavar o buraco que terminou na grande crise brasileira de 2014-2016.

Assim, é muito importante que sejam transitórias todas as medidas que têm sido desenhadas para sustentar a renda e o emprego formal durante a crise produzida pela parada súbita da economia em consequência do enfrentamento da pandemia da Covid-19.

Não podemos repetir os erros de um passado tão próximo.

Além de recursos adicionais para a saúde, que o Tesouro tem transferido às secretarias, o pacote mínimo inclui: alguma ação para sustentação de renda dos trabalhadores informais; um programa de financiamento, com risco do Tesouro, para a sustentação do emprego formal; e algum programa de sustentação da receita dos estados e municípios.

Na quinta-feira (26), a Câmara aprovou auxílio de R$ 600 mensais por três meses aos trabalhadores do setor informal.

Para os trabalhadores do setor formal, será necessário cortar os custos das empresas e compartilhar a queda do produto ao longo do período de calamidade entre empregados, empregadores e governo.

O ideal é que os salários dos setores parados sejam reduzidos à metade e que o seguro-desemprego pague metade dessa queda. O trabalhador terá queda de 25% do salário, fato permitido pelo artigo 503 da CLT nas atuais circunstâncias.

A queda de 25% do salário pode ser compensada pela liberação do FGTS, como sugeriu Persio Arida nesta Folha.

Evidentemente os servidores públicos devem ser incluídos no esforço fiscal dos atuais tempos de guerra. Os salários do serviço público, como do setor privado, deveriam ser reduzidos em 25%.

Ecoando a proposta de Nelson Barbosa no Blog do Ibre (bit.ly/2JhrPAW), o governo enviou ao Congresso Nacional um projeto de emenda à Constituição (PEC) que permite ao Banco Central, em momentos de calamidade, a compra de títulos públicos e privados. Prepara o caminho para uma operação de sustentação da folha de pagamento de empresas.

Finalmente o tema mais delicado: algum programa de sustentação da renda dos estados e municípios.
Se o Tesouro sustentar a renda dos estados e municípios —por exemplo, garantir a receita de ICMS, ISS e o FPE nos níveis de 2019—, o custo do programa será muito elevado. A receita total de ICMS, ISS, FPE e FPM é da ordem de 11% do PIB. Uma frustração de receita por três meses de 75% tem custo fiscal de 2,1% do PIB ou R$ 150 bilhões.

Com todos os programas somados, incluindo a queda de receita da União, teríamos um déficit primário de uns 8% do PIB. É um pouco menor do que países desenvolvidos têm feito, mas parece excessivo para uma economia emergente que já parte de um nível excessivo de dívida.

Ou seja, temos o seguinte dilema: o pacote que parece razoável para enfrentarmos a crise nos legará um nível de dívida muito elevado.

Penso que não escaparemos de, conjuntamente com o pacote fiscal temporário, aprovar medidas que sinalizem construção de um equilíbrio fiscal a longo prazo.

O melhor candidato é a aprovação, conjuntamente com o pacote fiscal emergencial, da emenda constitucional emergencial para vigorar pelos próximos cinco anos, ao menos, para permitir a reconstrução da estabilidade fiscal.


Mandetta diz que Brasil tem 'plano de logística' para buscar equipamentos na China

Julia Lindner, 
O Estado de S.Paulo

Ministro da Saúde garante que País está preparado em caso de necessidade de EPIs

  Foto: Dida Sampaio/Estadão 
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante entrevista coletiva 
no Palácio do Planalto para falar sobre a situação do novo coronavírus no País. 

BRASÍLIA - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, voltou a dizer nesta quinta-feira, 2, que o governo brasileiro possui um "plano de logística" para, se necessário, enviar aviões à China para buscar equipamentos de saúde contra o novo coronavírus. As principais demandas do País são focadas em Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como luvas e máscaras, e respiradores. O desafio, no entanto, é garantir a entrega dos produtos diante da demanda mundial.

Segundo Mandetta, a estratégia que tem sido pensada pelo ministro dos Transportes, Tarcísio de Freitas, que também organiza a distribuição interna de equipamentos de saúde. O ministro da Saúde falou com a imprensa ao lado do procurador-geral da República, Augusto Aras, com quem esteve reunido por mais de duas horas para pensar em uma atuação conjunta durante a pandemia.

Semanas antes do pico esperado do novo coronavírus no Brasil, o Ministério da Saúde está sem estoques de equipamentos de proteção individual, como máscaras e luvas, para distribuir a profissionais de saúde. A pasta aguarda resultado de negociação com fornecedores do exterior.

Os prazos de entrega dos equipamentos, de acordo com contratos firmados recentemente, podem levar cerca de 30 dias. Até lá, Mandetta garante que os Estados estão abastecimentos com um "bom grau" dos equipamentos disponíveis. Ainda segundo o ministro, o governo enfrentou dificuldades até encontrar uma empresa e firmar contrato, ontem, de R$ 1 bilhão para a compra de 15 mil ventiladores mecânicos. Ainda assim, há risco de que o fornecedor não consiga realizar o transporte e o governo se prepara para buscar os equipamentos.

"Fizemos uma compra muito grande, o suficiente para suprir a demanda por mais de 6 dias", avaliou o ministro. "Agora, entre o contrato assinado e o produto recebido, só comemoro o produto recebido, porque mesmo com contratos assinados, às vezes chega na data e quem está com contrato assinado não consegue entregar. Mas, se houver necessidade de logística internacional, o ministro Tarcísio está preparado. Se tiver necessidade de irmos para China, a Wuhan, nós temos condições", declarou.

Mandetta lembrou que a China produz mais de 90% dos equipamentos de saúde do mundo, o que terá que ser reavaliado após a pandemia para garantir que haja maior distribuição desses itens essenciais. Epicentro do novo coronavírus, a China ficou dois meses sem poder realizar as vendas dos equipamentos.

"Há 15 dias atrás, a China falou que poderia voltar a vender para o mundo. Então, entrou demanda reprimida, excedente de países em situações epidêmicas e outras países que precisaram adquirir. Por mais que (a China) produza, você tem momento muito intenso de ajuste de toda a produção e de toda logística. Às vezes você tem dinheiro para comprar, mas não tem avião para entregar. O mercado mudou", disse Mandetta.

Judicialização. Mandetta e Aras também anunciaram um acordo entre as duas instituições para que a Saúde compartilhe informações de combate ao novo coronavírus com o Ministério Público Federal (MPF), que manterá diálogo na esfera estadual para organizar demandas e evitar excesso de judicializações de processos.

"A notícia positiva é que formalizamos hoje uma maneira de trabalhar com a PGR no combate à covid-19", disse Mandetta no início da entrevista. O ministro também disse que é preciso centralizar as decisões durante a pandemia e destacou que a "ação desarticulada" foi uma das razões de colapso em outros países que enfrentam o vírus.

Aras também lembrou que há um compromisso da PGR para que os recursos de acordos de delação premiada e de leniência sejam destinados para o combate ao novo coronavírus.

Governo publica MP que reduz contribuição das empresas para o “Sistema S”

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

Medida provisória prevê corte de 50% nas alíquotas pagas pelo setor produtivo por três meses

(Adriano Machado/Reuters)
Economia: MP determina que a retribuição será de 7% para alguns beneficiários 

O governo publicou a Medida Provisória 932/2020, que reduz por três meses as contribuições que são recolhidas pelas empresas para financiar o “Sistema S”. A medida foi anunciada dentro do pacote emergencial de ações para atenuar os impactos da pandemia do novo coronavírus na economia do País. O texto foi publicado ontem em edição extra do Diário Oficial da União (DOU).

O corte dos valores repassados às entidades começa a valer nesta quarta-feira, dia 1º, e vai durar até 30 de junho. A medida alcança entidades como Sesi, Senac, Senai, Sesc, Sest, Senar e Sescoop. Segundo o governo, ao todo as alíquotas pagas pelo setor produtivo sofrerão um corte de 50%. Para o Sebrae, a MP determina que a entidade destine ao Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas, no mínimo, 50% do adicional da contribuição que lhe for repassada nos termos da lei.

Há duas semanas, quando anunciou as primeiras medidas do pacote para combate ao coronavírus, o governo disse que a redução da verba do “Sistema S” representaria um impacto de R$ 2,2 bilhões durante os três meses de vigência. Os valores repassados para essas entidades são recolhidos por meio de contribuição cobrada sobre a folha de pagamento das empresas. Empresas do setor industrial recolhem para Sesi e Senai, por exemplo. Empresas do comércio para Sesc e Senac. O recurso é recolhido pela estrutura de arrecadação do governo, que transfere toda a verba às entidades.

A MP estabelece que a redução das alíquotas serão nos seguintes porcentuais:

– Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop): 1,25%.
– Serviço Social da Indústria (Sesi), Serviço Social do Comércio (Sesc) e Serviço Social do Transporte (Sest): 0,75%.
– Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat): 0,5%.
– Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar): 1,25% da contribuição incidente sobre a folha de pagamento; 0,125% da contribuição incidente sobre a receita da comercialização da produção rural devida pelo produtor rural pessoa jurídica e pela agroindústria; e 0,10% da contribuição incidente sobre a receita da comercialização da produção rural devida pelo produtor rural pessoa física e segurado especial.

O texto ainda determina que, por esses três meses, a retribuição será de 7% para os seguintes beneficiários: Sesi, Senai, Sesc, Senac, Sest, Senat, Senar e Sescoop.

Rombo das contas públicas em 2020 deve ser superior a R$ 350 bilhões, diz Mansueto.

Eduardo Rodrigues e Lorenna Rodrigues, 
O Estado de S.Paulo

Secretário avaliou ainda ser fundamental o controle de gestão para que despesas temporárias de combate à pandemia não se transformem em gastos permanentes

  Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil
O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida. 

BRASÍLIA - O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, afirmou nesta segunda-feira, 30, que o enfrentamento à pandemia do novo coronavírus fará com que o ano de 2020 seja bastante atípico para a gestão fiscal do governo. Ele citou a estimativa do governo de um déficit primário superior a R$ 350 bilhões neste ano.

 "Vou repetir: 2020 teremos um forte aumento do déficit primário. Já estimamos déficit primário acima de R$ 350 bilhões, e vamos revisar esses dados todas as semanas", disse. "Haverá uma pressão forte em receitas e despesas de abril a junho, com o impacto de programas do governo no combate à pandemia e os efeitos sobre a atividade econômica. O déficit primário deve aumentar muito nos próximos três meses".

Quando as despesas do governo superam as receitas com impostos e contribuições, o resultado é deficitário. Quando acontece o contrário, há superávit. O conceito primário não engloba os gastos com juros da dívida pública.

Para este ano, o governo tinha de atingir uma meta de déficit primário até R$ 124,1 bilhões. Entretanto, com o decreto de calamidade pública, proposto pelo governo e aprovado pelo Congresso Nacional por conta da pandemia do coronavírus, não será mais necessário atingir esse valor.

Mansueto listou fatores que trarão mais desafio à gestão do governo, como o adiamento de pagamentos de impostos do Simples Nacional e medidas já anunciadas, como as antecipações de pagamentos de abono salarial e 13º de aposentados.

O secretário avaliou ainda ser fundamental o controle de gestão para que essas despesas temporárias de combate à pandemia não se transformem em gastos permanentes. "Se as ações contra coronavírus virarem permanentes, ajuste fiscal estará em risco. Ainda bem que estamos passando por crise depois de ter aprovado a reforma da Previdência e com juros e inflação baixos", acrescentou.

"Deve-se evitar os erros cometidos em 2009, quando o uso defensável de políticas anticíclicas foi ampliado no pós-crise e estas se tornaram políticas permanentes de concessão de subsídios e de maior intervenção do Estado na economia”, afirma i Tesouro, em sumário executivo que acompanha o resultado do governo central de fevereiro.

O órgão cita como exemplo o Programa de Sustentação do Investimento (PSI) que,  em 2009, era um programa de R$ 44 bilhões e foi ampliado nos anos seguintes para um programa de R$ 400 bilhões. “Assim, é importante que as despesas para combater a crise do Coronavírus sejam gastos de natureza temporária, cobertos pela abertura de crédito extraordinário no âmbito do decreto de calamidade pública, em 2020”, conclui.

O texto ressalta que, enquanto a expansão da despesa para combater os efeitos da crise do coronavírus ficar restrita a programas temporários,  não deverá haver problemas para a retomada do ajuste fiscal estrutural.

De acordo com o Tesouro, a política fiscal expansionista não é “a típica política keynesiana de expansão do gasto e investimento público” e se concentrará em programas de transferência de renda. “Em um contexto que as empresas estão fechadas, com restrições à mobilidade urbana e isolamento social, o desafio não é a expansão da demanda para combater o desaquecimento da economia, mas sim aumento do gasto público para amenizar a perda de renda de uma parcela significativa de trabalhadores e das empresas que precisam da ajuda do setor público para manter suas necessidades financeiras básicas”, completa.


Dívida

O órgão destaca ainda que deverá haver um encurtamento da dívida pública, mas que deve ser diferente, por exemplo, da crise de 2002, quando houve forte efeito da desvalorização do real na dívida pública, que tinha 40% do estoque indexado ao câmbio. Em 2020, a parcela é de 10%. “O setor público é credor líquido em dólar, o que significa que a valorização do dólar amortece o efeito expansionista na Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) do maior déficit primário”, completa.

O Tesouro afirma ainda que, diferentemente de crises passadas, a desvalorização do real não tem sido repassada para os preços dos produtos e serviços. “O cenário de inflação baixa para este e para os próximos anos não foi alterado. Dessa forma, as taxas de juros de curto prazo continuam em níveis historicamente baixos, o que ajuda a não pressionar excessivamente a conta de juros e, por consequência o déficit do resultado nominal do setor público pelo lado monetário”.

Desemprego sobe para 11,6% em fevereiro, pré-pandemia, e atinge 12,3 mi

Ligia Tuon
Exame.com

Aumento, anterior ao agravamento da pandemia de coronavírus, interrompeu dois trimestres seguidos de quedas estatisticamente significativas, diz IBGE

Diego Herculano/NurPhoto via Getty Images) 
(Diego Herculano/NurPhoto/Getty Images)
Hot dog Brasil: Informalidade e desemprego no
 mercado de trabalho brasileiro. Outubro de 2016. 

A taxa de desocupação no Brasil subiu para 11,6% no trimestre encerrado em fevereiro, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados nesta terça-feira (28) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A taxa é 0,5 ponto percentual maior do que a do trimestre de novembro a janeiro, quando o desemprego ficou em 11,2% e 0,8 ponto menor se comparada ao mesmo trimestre do ano anterior (12,4%).

O aumento, na comparação com o trimestre terminado em janeiro interrompeu dois trimestres seguidos de quedas estatisticamente significativas no desemprego, segundo o IBGE, e foi puxada pelos setores de construção (-4,4%), administração pública (-2,3%) e serviços domésticos (-2,4%).

“A construção não sustentou o movimento de recuperação que ela vinha apresentando no fim do ano passado. Já a administração pública tem uma sazonalidade, pois ela dispensa pessoas no fim e no início do ano em função de términos nos contratos temporários das prefeituras, nas áreas de educação e saúde, retomando as contratações a partir de março, após a aprovação dos orçamentos municipais. 

O serviço doméstico está muito ligado ao período de férias das famílias, as dispensas das diaristas, já que muitas famílias viajam, interrompendo a demanda por esse serviço”, avalia a analista da pesquisa, Adriana Beringuy, em material de divulgação do Instituto.

Com isso, o Brasil registra 12,3 milhões de pessoas desocupadas, 479 mil a mais do que tinha no trimestre móvel anterior. Em relação ao registrado no período há um ano, são 711 mil desempregados a menos.

Os números, no entanto, são anteriores ao agravamento da pandemia de coronavírus, que exige medidas de isolamento social que atingem duramente empresas e trabalhadores e devem gerar uma alta relevante do desemprego nos próximos meses.

“Esperamos que o Brasil sofra uma acentuada deterioração da atividade em 2020 (-3,4%), o que provavelmente desencadeará uma deterioração significativa da já fraca queda do mercado de trabalho”, diz Alberto Ramos, diretor de pesquisas do Goldman Sachs para América Latina, em relatório enviado nesta manhã a clientes.

Uma projeção da GO Associados, feita a pedido da EXAME, na semana passada, mostra que, no auge da crise, em maio, o desemprego pode chegar a 15,5%. Isso significa 16,5 milhões de desempregados, quase 5 milhões a mais do que atualmente. Esse cenário não leva em consideração as medidas anunciadas pelo governo para evitar que as empresas anunciem demissões em massa na crise.

38 milhões na informalidade

Já a taxa de informalidade caiu de 41,1% no trimestre de setembro a novembro de 2019 para 40,6% no trimestre encerrado em fevereiro deste ano, mais ainda atinge 38 milhões de pessoas, calcula o IBGE.

Nesse grupo estão os trabalhadores sem carteira, trabalhadores domésticos sem carteira, empregadores sem CNPJ, os conta própria sem CNPJ e trabalhadores familiares auxiliares.

“A gente ainda vive sob a influência do mês de dezembro, em que tivemos um desempenho muito bom das contratações com carteira trabalho. Muitas pessoas foram contratadas via carteira de trabalho no comércio, o que deu um pouco mais de consistência aos dados de formalidade. Isso pode estar contribuindo para a queda na quantidade de informais”, diz Beringuy.

Outro reflexo da queda da informalidade, destaca o IBGE. foi o aumento no rendimento, que subiu 1,8% no trimestre encerrado em fevereiro em relação ao período imediatamente anterior, para R$ 2.375.

A Pnad traz ainda que o total de pessoas fora da força de trabalho em fevereiro chegou a 65,9 milhões, um recorde desde o início da pesquisa, no primeiro trimestre de 2012.

Esse contingente é formado por pessoas que não procuram trabalho, mas que não se enquadram no desalento (pessoas que desistiram de procurar emprego). Os desalentados somam 4,7 milhões, o que, segundo o IBGE, mostra um quadro estatisticamente estável em ambas as comparações.

A taxa de subutilização da força de trabalho ficou estável em 23,5% ante o trimestre anterior. Há um ano, essa taxa era 1,1 p.p. maior (24,6%). Além da população desocupada, os subutilizados reúnem os subocupados (disponíveis para trabalhar mais horas), os desalentados (que desistiram de buscar emprego) e uma parcela que não consegue procurar trabalho por motivos diversos.

Já a população desalentada (4,7 milhões) ficou estatisticamente estável em ambas as comparações, assim como o percentual de desalentados em relação à população na força de trabalho ou desalentada (4,2%)., informou o IBGE.


Coronavírus

Em fevereiro, a pandemia ainda não havia atingido o comércio no Brasil, mas a redução da demanda global, sobretudo a chinesa, por insumos e as incertezas quanto ao futuro já influenciavam decisões de investimentos. Foi em fevereiro também que o primeiro caso no Brasil foi registrado, no dia 25. O país já tem 159 mortes e 4.579 infectados confirmados.

As medidas de isolamento social no país têm inviabilizado também a coleta de informações feita na produção da Pnad e do IPCA, que mede a inflação oficial. Apesar de o IBGE ter anunciado que vai fazer as entrevistas por telefone, especialistas acreditam na possibilidade de haver mudanças significativas no resultado final.

A Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, do Ministério da Economia, também tem tido dificuldade na coleta de informações para o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). A pasta avisou ontem que não foi possível consolidar os dados do mercado formal referentes aos dois primeiros meses do ano em função da falta de prestação das informações sobre admissões e demissões por parte das empresas. “O cenário de pandemia causada pela Covid-19 tem dificultado a autorregularização de parte das empresas”, informou por meio de nota.

Economistas do governo e do setor privado acreditam que o contágio no país deve atingir seu pico entre abril e maio e que a atividade deve começar a se recuperar em junho. Ainda é cedo para entender, porém, como o mercado de trabalho var reagir depois que o país retomar a normalidade, já que maior parte dos empregos depende da confiança de empresários e investidores numa retomada.


Auxílio emergencial chega primeiro a quem recebe Bolsa Família

Idiana Tomazelli,
O Estado de S.Paulo

Ministério da Cidadania quer viabilizar o primeiro pagamento na próxima folha, que começa a ser paga em 16 de abril

  Foto: Agência Senado/ Divulgação 
A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado calcula 
que 30,5 milhões de trabalhadores serão beneficiados

BRASÍLIA - Os trabalhadores informais e autônomos que recebem o Bolsa Família devem ser os primeiros a receber o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 (ou R$ 1,2 mil no caso de mulheres chefes de família) aprovado pelo Congresso Nacional, de acordo com o Ministério da Cidadania. Por receberem uma transferência de renda do governo federal, esses cidadãos já estão nas bases de dados do governo.

O objetivo da pasta é viabilizar o primeiro pagamento já na próxima folha, que começa a ser paga em 16 de abril aos beneficiários. Caso não haja tempo hábil, está no radar a possibilidade de rodar uma folha suplementar para agilizar a liberação. Os beneficiários receberão apenas a ajuda de maior valor – caso seja o auxílio emergencial, ele substituirá o Bolsa temporariamente. O programa tem hoje mais de 14 milhões de famílias.

Cadastro ainda não está disponível

Os demais trabalhadores que pretendem pleitear o auxílio emergencial não devem se dirigir a nenhuma agência bancária, lotérica ou Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) neste momento, uma vez que o governo ainda não definiu como será o cadastro. 

O Ministério espera definir até a próxima quinta-feira (2/4) a solução tecnológica que será usada para cadastrar os trabalhadores informais que hoje são “invisíveis” à administração pública, ou seja, não estão nas bases de dados. Esse é o maior gargalo na operacionalização do pagamento do auxílio emergencial.

Os técnicos ainda não decidiram se a autodeclaração será por aplicativo ou diretamente no banco. Há uma preocupação com soluções presenciais, uma vez que as autoridades sanitárias recomendam isolamento social como medida de combate ao avanço do novo coronavírus no País.

Trabalhadores autônomos e microempreendedores individuais também devem receber mais rapidamente o pagamento do auxílio emergencial, uma vez que são facilmente rastreáveis pelo governo. Os trabalhadores autônomos contribuem à Previdência e estão cadastrados junto ao INSS. O Ministério da Economia também possui um cadastro das inscrições de quem é MEI, que deve ser compartilhado com a Cidadania.

O governo pretende usar os bancos públicos (Caixa, Banco do Brasil, Banco da Amazônia e Banco do Nordeste), além da rede de lotéricas e agências dos Correios, para acelerar os pagamentos.

O presidente Jair Bolsonaro ainda precisa sancionar o projeto de lei e editar um decreto regulamentando a operação. Além disso, uma Medida Provisória, com vigência imediata, abrindo crédito extraordinário para os pagamentos também precisa ser publicada. A intenção do governo é viabilizar essas etapas nos próximos dias.

Os valores serão pagos durante três meses, podendo ser prorrogados enquanto durar a calamidade pública devido à pandemia do novo coronavírus. A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado calcula que 30,5 milhões de trabalhadores serão beneficiados. O gasto foi estimado em R$ 59,8 bilhões nos três meses.