domingo, junho 14, 2020

COVID-19: Revisão de contagem proposta por governo omitiria 7 mil mortes em 9 dias

Elisa Martins
O Globo

Supremo Tribunal Federal determinou na segunda-feira (8) que Ministério da Saúde voltasse atrás e divulgasse os números completos

  Foto: André Coelho / Agência O Globo
O plano de divulgação do Ministério da Saúde era
 contrário ao adotado na maior parte do mundo. 

O número de vítimas da Covid-19 diz muito sobre a evolução da pandemia por aqui. Desde março, o novo coronavírus já pôs fim a cerca de 40 mil vidas no país, levando o Brasil a ser o terceiro no mundo em mortos. A tentativa do governo federal de esconder os dados sobre a doença a partir do dia 5 de junho foi igualmente reveladora. Primeiro, vieram sucessivos atrasos na divulgação dos dados. Depois, em 5 de junho, veio o anúncio de que se considerava fazer uma revisão na quantidade de óbitos. E, como se isso não fosse ruim o suficiente, números consolidados passaram a ser esquecidos na divulgação do Ministério da Saúde.

A movimentação do governo na primeira e na segunda semana de junho teve o nítido objetivo de fazer a crise parecer menos grave do que é. Parte do plano era passar a divulgar apenas os óbitos do dia confirmados como Covid-19, o que acabou não sendo colocado em prática. Caso essa mudança tivesse acontecido, ficariam de fora da conta as mortes de dias anteriores que não foram prontamente diagnosticadas. A inovação sugerida pelo governo seguiria na contramão da transparência esperada de todos. Dos Estados Unidos à Europa, da América Latina à Ásia, países costumam fazer a seguinte contabilidade diária: somam quem morreu comprovadamente de Covid-19 nas últimas 24 horas com aqueles óbitos ocorridos anteriormente que demoraram a receber o teste positivo.

Para ter uma ideia do tamanho do estrago, ÉPOCA calculou, a partir de dados oficiais do Ministério da Saúde, quantos óbitos poderiam deixar de ser destacados se a regra estivesse em vigor num período de apenas nove dias (de 26 de maio a 4 de junho): pelo menos 7 mil mortes. O novo coronavírus só foi apontado como causa desses óbitos mais de três dias depois que eles ocorreram. Na segunda-feira 8, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes atendeu a um pedido de partidos políticos que entraram com uma ação na Corte e determinou que o governo voltasse atrás e divulgasse os números completos.

Se o objetivo real do governo fosse aumentar a complexidade dos dados para informar melhor os cidadãos, nenhum problema. Seria perfeitamente possível divulgar as mortes que ocorreram nas últimas 24 horas e ainda assim manter o total confirmado naquele dia, como já vinha sendo feito, e a contabilidade do total de casos e óbitos desde o início da pandemia. Em locais como o Reino Unido, é possível acessar no site oficial as estatísticas por região, o número de pessoas testadas diariamente, por quais tipos de exame e quantos deram negativo. Mas, como deixou claro o próprio presidente Bolsonaro, o objetivo por aqui era bem outro. A contar pelo histórico do governo, não é improvável que novas investidas sejam feitas para turvar o entendimento do crescimento da pandemia por aqui. Há muito ficou claro que o presidente decidiu adotar a estratégia do avestruz. Desde o estouro da doença, Jair Bolsonaro tem buscado um buraco na areia para negar a realidade. A novidade da primeira semana de junho foi que ele tentou vendar todos os brasileiros.

A primeira vez que o presidente comentou oficialmente sobre o novo coronavírus foi em 9 de março, em visita oficial aos Estados Unidos. Disse que o vírus estava sendo superdimensionado. No dia seguinte, negou que houvesse uma crise, colocando a culpa na imprensa (sempre a imprensa): “Muito do que tem ali é mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga”, afirmou o presidente.

Não demorou e a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia do novo coronavírus, que àquela altura somava mais de 118 mil casos em 114 países e pouco mais de 4 mil mortes. “Vou ligar para o (Luiz Henrique) Mandetta (o então ministro da Saúde). Eu não sou médico, eu não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento, outras gripes mataram mais do que essa”, falou Bolsonaro.

Quando voltou para o Brasil, e com o diagnóstico positivo do secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, Bolsonaro falou em rede nacional, ao lado de Mandetta — ambos usando máscaras. Pediu que as pessoas evitassem aglomerações. Mas apareceu, no dia 15 de março, interagindo com simpatizantes em Brasília, quando também criticou a suspensão de aulas e chamou a preocupação com o vírus de “histeria”. Depois, comparou a evolução da pandemia a uma gravidez: “Vai passar, desculpa aqui, é como uma gravidez, um dia vai nascer a criança. E o vírus ia chegar aqui um dia e acabou chegando”.

Nas declarações, reforçava a preocupação com os efeitos econômicos negativos. Criticou “medidas extremas” de governadores e minimizou a situação do Brasil em comparação à pandemia que então arrasava a Europa. De um pronunciamento em rede nacional veio uma das declarações mais marcantes na crise: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

Em outra ocasião marcante, disse que o Brasil não chegaria ao ponto de Itália e Estados Unidos: “Acho que não vai chegar a esse ponto, até porque o brasileiro tem de ser estudado, não pega nada. Vê o cara pulando em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada”. Encontros com simpatizantes e a defesa da cloroquina foram uma constante durante esse mês.

Em abril, Bolsonaro disse que o coronavírus estava “começando a ir embora”. E no fim do mês, ao ser questionado sobre o fato de que o Brasil já ultrapassava a China em número de mortos, soltou o famoso: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Maio chegou e a pressão por minimizar os números de mortos pela Covid-19 se intensificou. Principalmente quando o país superou as 1.000 mortes diárias, no dia 19. Quatro dias antes, aconteceu a saída de Nelson Teich, que não durou nem 30 dias como ministro da Saúde. Interinamente, assumiu o general Eduardo Pazuello — o terceiro chefe da pasta desde o início da pandemia.

Na sexta-feira, dia 5 de junho, o portal do ministério responsável por divulgar o balanço de infecções e óbitos por Covid-19 saiu do ar. Voltou em seguida, mas sem os números consolidados da doença. Até então, a pasta já vinha fazendo a divulgação diária dos números em horário cada vez mais avançado. Questionado sobre quem teria ordenado o atraso, Bolsonaro retrucou: “Acabou matéria no Jornal Nacional”.

Na mesma noite, o empresário Carlos Wizard, então cotado para assumir uma secretaria na Saúde, afirmou que o ministério recontaria o número de mortos no Brasil vítimas da Covid-19. Segundo ele, os números atuais seriam “fantasiosos ou manipulados”, na contramão de estudos científicos e relatos de médicos que apontavam para o alto número de subnotificações. “Tinha muita gente morrendo por outras causas, e os gestores públicos, puramente por interesse de ter um orçamento maior nos seus municípios, nos seus estados, colocavam todo mundo como Covid. Estamos revendo esses óbitos”, justificou Wizard à coluna de Bela Megale, no jornal O GLOBO. O empresário anunciou dias depois que tinha desistido de colaborar com o Ministério da Saúde. O governo, por sua vez, anunciou que voltaria a informar seus balanços. Como virou costume nesta administração, muito calor e pouca luz.

Diante da tentativa do governo de ocultar mortes, órgãos de imprensa montaram um consórcio inédito. Os jornais O GLOBO, Extra, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e os portais G1 e UOL decidiram coletar dados diretamente com as secretarias de Saúde dos 26 estados, mais o Distrito Federal. O Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) também lançou iniciativa independente, o Painel Conass, atualizado diariamente com os dados da doença por estado e o total do país. Outros projetos de voluntários e centros de pesquisa se somaram ou intensificaram a divulgação depois da ocultação de dados no ministério. Talvez seja aconselhável não desmobilizar todo esse esforço imediatamente.

43% dos brasileiros acreditam que economia só se recupera depois de 2 anos (e olhe lá!)

Exame.com
Com Agência O Globo

Pesquisa feita pela Febraban sinaliza quais hábitos financeiros devem mudar após a pandemia de coronavírus

(Eduardo Frazão/Exame)
Economia: 49% esperam recuperar a situação
 financeira do período pré-pandemia em até um ano 

Quatro em cada dez brasileiros (43%) acreditam que a economia brasileira só vai se recuperar dos estragos causados pela pandemia do novo coronavírus após dois anos. Mas quase cinco em cada dez (49%) avaliam que poderão recuperar a situação financeira pessoal ou da família do período pré-pandemia em até um ano.

A conclusão é de uma pesquisa feita pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) para avaliar as expectativas de mudanças de comportamento econômico-financeiro depois da pandemia.

A maioria dos entrevistados disse que vai manter ou até aumentar a frequência em supermercados (78%) e salões de beleza (64%). Em relação a bares e restaurantes, 47% afirmaram que a frequência será mantida ou aumentada, mas 46% disseram que pretendem diminuir esse tipo de lazer.

Em relação aos shoppings, que reabriram na quinta-feira em capitais como São Paulo e Rio, 47% disseram que a frequência será mantida e aumentada e 45% afirmaram que vão reduzir a frequência.

Apenas 8% dos entrevistados afirmaram que não tiveram alteração financeira durante a pandemia, o que mostra que a maior parte dos brasileiros teve alguma perda de renda, seja familiar ou pessoal.

A pesquisa mostrou que as pessoas serão cautelosas quanto a recorrer a financiamentos bancários para comprar bens de maior valor. Entre 84% e 82% dos entrevistados afirmaram que não pretendem recorrer a empréstimos para comprar moto ou carro (84%), casa ou apartamento (83%) e material de construção (82%).

Também em relação a modalidades de financiamentos como crédito consignado, cheque especial e empréstimo pessoal, a maioria “acha que não vai usar”. Entre os entrevistados, 79% avaliam que não usarão consignado, 86% o cheque especial e, 80%, o empréstimo bancário.

A pesquisa foi feita entre os dias 1 e 3 de junho com mil pessoas de todas as regiões do país, com idades entre 18 e mais de 60 anos. Todos os entrevistados são bancarizados, ou seja, têm conta em banco. A margem de erro da pesquisa é de 3,2 pontos percentuais para mais ou para menos e o índice de confiança é de 95,5%.

O que já sabemos do plano de Guedes para substituir o Bolsa Família

Ligia Tuon
Exame.com

Renda Brasil poderia ajudar a fidelizar nova base de apoio do governo; Para Chris Garman, da Eurasia, seria pouco para compensar fim do auxílio emergencial

 (Patricia Monteiro/Bloomberg/Getty Images)
Pessoas usam máscara de proteção no centro de São Paulo.

Nesta semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes disse que o governo federal lançará em breve um programa de renda mínima permanente que serviria como uma versão mais robusta do Bolsa Família.

O assunto foi defendido por Guedes em reunião ministerial na segunda-feira e, novamente na terça. Apesar de não haver detalhes sobre o desenho, o nome está pronto: Renda Brasil.

O desejo do governo Bolsonaro de criar uma marca forte na área social, mais associada com a era petista, é antigo mas ganhou força em meio à pandemia do coronavírus. Guedes já admite que o benefício emergencial será estendido por mais dois meses, mas com valor reduzido dos 600 reais atuais.

Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, já avisou que uma prorrogração do benefício está liberada, mas a redução do valor teria que passar pelo Congresso.

Unificação

O Renda Brasil poderia ser viabilizado, segundo Guedes, pela unificação de benefícios já existentes, como o abono salarial, que assegura um salário mínimo anual a brasileiros que recebem, em média, até dois salários mínimos por mês.

Outros programas, como o seguro-defeso e o salário-família, também podem entrar na lista, segundo informações de bastidores noticiadas nos últimos dias. O governo fala ainda em mudanças tributárias para abrir espaço no Orçamento, já comprometido em 90% com gastos obrigatórios como Previdência.

Na noite desta quinta-feira, Maia disse em entrevista à Globonews que a reforma tributária pode viabilizar fontes de receita para uma possível renda mínima permanente.

O presidente da Câmara disse nesta semana que concorda que há pouca efetividade em programas já existentes, “que atendem mal com foco distorcido em relação à base da sociedade”. Ele alerta, porém, que um programa permanente não pode ser construído “da noite para o dia” e exigiria mudanças legislativas e em alguns casos até emendas constitucionais.

Nos últimos meses, um enorme contingente de brasileiros que são vulneráveis, mas não a ponto de atender aos critérios para receber o Bolsa Família, ganhou mais evidência. Muitos tiveram sua fonte de renda subitamente interrompida devido às políticas de isolamento necessárias para conter o vírus.

Uma vantagem para a implementação de um projeto mais amplo de renda básica agora, segundo Guedes, é justamente que este grupo antes “invisível” foi mapeado pelo esforço de distribuir o auxílio emergencial.

“Há regimes que têm muitos direitos e poucos empregos, e há 40 milhões de brasileiros andando pelas ruas sem carteira assinada. Só que agora sabemos quem eles são”, disse o ministro em reunião ministerial.

Guedes acrescentou que a base de informais também será aproveitada no longo prazo no Carteira Verde-Amarela, ideia antiga do ministro que pretende facilitar a inserção de trabalhadores no mercado formal com a redução de encargos e obrigações trabalhistas.

Ponto para o governo?

Os novos planos de Guedes conversam também com a queda de aprovação do governo e a mudança no perfil da sua base de apoio ao governo. Em coluna na Folha nesta semana, o jornalista Bruno Boghossian destacou que, de 33 pontos de avaliação positiva de Bolsonaro, segundo o último Datafolha, quase 7 vêm de pessoas que não votaram nele, mas solicitaram o auxílio emergencial.

O cientista político americano Christopher Garman, responsável pela área de Américas da consultoria Eurasia, diz que mais importante do que quanto o governo ganharia com um hipotético programa de renda permanente é quanto ele vai perder quando retirar a ajuda atual.

“Ele está ganhando um pouco com o auxílio emergencial. Mas a pergunta é o que acontece quando sai. Pode ter um ganho de ampliação. Mas em comparação com o que está se gastando, com os 600 reais, uma queda brutal de assistência”, diz.

O cenário de apoio, diz ele, vai depender mais da economia. O Brasil tem uma das piores previsões de queda e ritmo de recuperação entre os emergentes, segundo os últimos números do Banco Mundial.

Difícil implementação

Além de ter de passar por um processo demorado para passar a vigorar, um programa de renda básica enfrenta como dificuldade a aparente falta de convergência interna no governo sobre a ideia.

Na quinta-feira, 4, o governo publicou uma portaria transferindo 83,9 milhões de reais do orçamento do Bolsa Família à secretaria responsável pela comunicação social da Presidência. A portaria acabaria sendo revogada após ampla repercussão negativa e uma decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de investigar o remanejamento.

O Bolsa Família também vem sofrendo desde antes da pandemia com represamento no recebimento do benefício mesmo para pessoas que se enquadram nos critérios. Há queda no número de beneficiados justamente nas regiões mais pobres do país, como mostrou reportagem da Folha feita com base em números divulgados pelo Ministério da Cidadania com base na Lei de Acesso à Informação. Antes de pensar em uma ampla reformulação, seria importante fazer funcionar o que já existe.

Coronavírus: os riscos de contágio em shoppings centers, que começam a reabrir durante pandemia

Vinícius Lemos
Da BBC News Brasil em São Paulo


 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
No Brasil, mais da metade dos shoppings reabriram 
as portas durante a pandemia do novo coronavírus

Enquanto o Brasil enfrenta crescimento exponencial de infecções e mortes causadas pela covid-19, diversas cidades flexibilizaram o isolamento social e permitiram a reabertura de estabelecimentos.

O principal argumento de autoridades locais é que o comércio precisa voltar a funcionar para reduzir os impactos econômicos da crise causada pelo novo coronavírus. A medida, porém, é criticada por médicos e especialistas na área da saúde, que afirmam que a reabertura de estabelecimentos neste momento deve aumentar os casos de covid-19 no país.

Entre os estabelecimentos que voltaram a funcionar no país estão shoppings centers, que estavam fechados desde meados de março, em razão das medidas de isolamento social.

De acordo com a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), até quarta-feira (10) já haviam sido reabertos mais de 50% dos 577 shoppings do país. Já estão em funcionamento 298 deles, em 17 estados — a previsão é de que o número aumente nos próximos dias.

Nesta quinta-feira (11), os 53 shoppings da capital de São Paulo passam a reabrir por quatro horas — das 16h às 20h —, após liberação do prefeito Bruno Covas (PSDB).

Para se adaptar ao período de pandemia, muitos desses centros de compras pelo país têm funcionado em horários reduzidos. Ao reabrir as portas, muitos dos responsáveis pelos estabelecimentos afirmam que tomarão medidas para evitar a propagação do coronavírus, como a obrigatoriedade do uso de máscaras, a criação de uma área para higienização das mãos, a sanitização de ambientes e a medição de temperatura das pessoas.

Mas para especialistas, as medidas adotadas são insuficientes para conter a propagação do novo coronavírus nesses estabelecimentos no atual período do Brasil em relação ao Sars-Cov-2, nome oficial do vírus. Isso porque os números diários de casos e de mortes no país têm tido sucessivos recordes nas últimas semanas.

O Brasil, que até o momento tem mais de 770 mil casos do novo coronavírus e quase 40 mil mortes, segue o exemplo de outros países ao flexibilizar o isolamento social, por meio da reabertura de shoppings e outros estabelecimentos. As outras regiões, porém, viviam uma fase de queda de registros de covid-19 quando decidiram afrouxar as restrições a seus moradores.

Os riscos dos shoppings

 Direito de imagem REUTERS Image caption
Em meio a crescimento de mortes e infecções, país flexibiliza
 o isolamento social e diversos estabelecimentos estão sendo reabertos

Estudos mostram que a nuvem de gotículas gerada pela fala, espirro ou tosse pode permanecer suspensa no ar durante longos períodos em ambientes fechados. Outras pesquisas apontam que vírus como o Sars-Cov-2 podem permanecer infectantes nessas nuvens de gotículas por horas. Essas características, segundo especialistas, podem explicar porque a transmissão da covid-19 é rápida.

"As atividades coletivas dentro de ambientes fechados têm riscos muito maiores do que ao ar livre. Essa suspensão de gotículas no ar possibilita até que uma pessoa que está andando no mesmo ambiente, mas distante, seja infectada", pontua a epidemiologista Adélia Marçal dos Santos, especialista em dinâmica em transmissão de doenças infecciosas e professora de Medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul.

Segundo Adélia, as máscaras diminuem a propagação das gotículas, mas, ainda assim, existe o risco de transmissão do novo coronavírus. "As máscaras reduzem a contaminação do ambiente, mas não têm a capacidade de proteger as pessoas contra possível aspiração de pequenas partículas em suspensão no ar, que podem conter o vírus", explica a médica.

Em razão da facilidade de propagação do novo coronavírus em locais fechados, especialistas afirmam que a reabertura dos shoppings em plena fase de crescimento de casos no Brasil pode aumentar ainda mais os registros do vírus no país.

Um dos casos que ilustra a situação é a de um shopping que foi reaberto em 22 de abril em Blumenau (SC). O estabelecimento reabriu as portas em um evento com aplausos dos lojistas e com a participação de um saxofonista. Os clientes fizeram filas, com máscaras, para entrar no local. Uma semana depois, os casos mais que dobraram no município.

"Temos essa experiência emblemática em Blumenau. A gente acredita que a situação vai continuar se multiplicando em shoppings de todo o país, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro", afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, o pesquisador Fernando Spilki.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Especialistas orientam que pessoas que decidirem ir a shopping ou
 ao comércio de rua em meio à pandemia devem tomar diversos cuidados

Spilki comenta que muitas das medidas que os representantes dos shoppings tomaram para reabrir os locais, como a restrição de público, não são eficazes para evitar a propagação do coronavírus. "Muitas vezes, nesses estabelecimentos não há um cuidado com foco na proteção individual. Muitas vezes, não há cuidado no ambiente para evitar a propagação do vírus. Nesses locais pode haver filas e as pessoas nem sempre respeitam o distanciamento social (de dois metros). Isso facilita a transmissão do vírus", diz à BBC News Brasil.

Os especialistas frisam que o comércio de rua também pode trazer riscos, principalmente nos casos em que há aglomeração — como registrado em diversas cidades após a flexibilização das medidas de isolamento.

A epidemiologista Adélia Marçal pontua que é difícil garantir o distanciamento de, ao menos, dois metros no comércio de rua e destaca que somente o uso das máscaras não garante a proteção. "Muitos não usam a máscara corretamente e isso facilita a propagação do coronavírus. Muitas pessoas tocam no rosto o tempo todo, mexem nas máscaras e podem tocar em superfícies e se contaminar", diz.

"As máscaras são muito importantes, especialmente no contexto da flexibilização do isolamento. Mas é preciso considerar que sua eficácia depende do uso, dos cuidados com higienização e troca delas. Elas são diferentes em grau de proteção", afirma Fernando Spilki.

"A máscara é uma ferramenta que deve funcionar aliada a um conjunto de medidas de restrição de movimentação social, higiene e testagem. Seria muito fácil apenas usar a máscara e toda a população não precisar de nenhuma outra medida. O que funciona é o conjunto de medidas, não uma parte ou outra", acrescenta Spilki.


Mas o que fazer se precisar sair de casa?

Os especialistas orientam que as pessoas devem frequentar shopping ou o comércio de rua durante o atual período apenas em casos de extrema importância. Eles aconselham que os consumidores optem por estabelecimentos que entreguem em casa.

Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Nas últimas semanas, diversas filas se formaram em shoppings que foram reabertos

"Mas se é realmente necessário ir ao shopping (ou ao comércio de rua), pense e planeje com antecedência o que precisa fazer. Entre em contato com o local, se certifique de que está funcionando, o horário de funcionamento e se possui o que você precisa", diz a epidemiologista Adélia Marçal.

A médica pontua que é fundamental que as pessoas saiam com álcool em gel — ou utilizem com frequência nos locais que disponibilizam o produto — e usem máscaras durante todo o período fora de casa.

"Vá ao banheiro em casa. Mesmo que seja feita limpeza regular, o banheiro público é um lugar crítico para a transmissão comunitária da covid-19, pois é menos ventilado e força a proximidade. Caso vá ao banheiro, evite conversar ou deixar pertences em bancadas", detalha Adélia.

No comércio de rua ou no shopping, a pessoa deve observar se a área na qual fará compras permite o distanciamento social de dois metros. "Respeite o distanciamento para a sua proteção e para o cuidado coletivo. Evite áreas de aglomeração. Se for o caso, espere reduzir o fluxo para passar ou se aproximar de um local", pontua a epidemiologista.

"Dentro das lojas, evite tocar em objetos e manuseie apenas o que deseja comprar", diz a médica. Segundo ela, é importante que os clientes evitem usar dinheiro em espécie. "De preferência, use cartão que permita pagar por aproximação. Se encostar na máquina de cartão, use álcool em gel depois", aconselha Adélia.

"Não utilize provadores. Fique o menor tempo possível em shoppings ou qualquer lugar público fechado. Dê preferencia a lojas de ruas. Se a vontade de ir ao shopping é para lazer e diversão, vá a um parque ou a um lugar aberto, de preferência. Será muito melhor para a sua saúde neste momento", diz a epidemiologista.

Filmar hospitais, como quer Bolsonaro, é se expor ao risco de morrer de Covid-19

Ana Lucia Azevedo
O Globo

  Crédito: Alexandre Cassiano / Agência O Globo
UTI para pacientes de Covid-19 em hospital no Rio de Janeiro: 
entrar para filmar seria violar segurança e privacidade de doentes 

Ou o presidente Jair Bolsonaro ignora a realidade do Brasil e do mundo ou deliberadamente manda seus eleitores se exporem ao risco de morrer, e despreza a saúde deles, ao recomendar que entrem em hospitais que atendam pacientes com a Covid-19 para filmarem o interior das instalações. Invadir uma UTI de Covid-19, por exemplo, além de ser uma extrema violação da segurança e da privacidade dos pacientes, equivale a uma tentativa de suicídio.

Profissionais de saúde não entram ali, ou em que qualquer outra área de atendimento da Covid-19, sem equipamentos de proteção individual, os EPIs. Nesses ambientes, onde é elevadíssima a concentração de vírus devido à presença de infectados expelindo o Sars-CoV-2, o vírus se mantém no ar.

Não basta colocar uma máscara no rosto e sair por aí para filmar os outros. É preciso saber usar um EPI, como pôr e tirar. A maioria dos profissionais de saúde infectados pelo coronavírus se contaminou nesse processo.

Profissionais da imprensa tomam cuidados extremos quando entram numa dessas unidades de atendimento. Quando entro numa UTI Covid-19, estou totalmente equipada e conto com a orientação de um profissional de saúde para vestir e remover — o momento mais crítico — o EPI.

Ao estimular a invasão de hospitais, Bolsonaro não ameaçou apenas a integridade dos doentes. Mandou seus eleitores inalarem o coronavírus. O Sars-CoV-2 não se importa com desatinos de políticos. Ele é uma bola de gordura com 29 proteínas à procura de um novo hospedeiro, contra o qual a negação não garante imunidade.


****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Comentário de Marcelo Copelli na Tribuna da Internet:

Conforme esta Tribuna já ratificou, Bolsonaro comprova a cada declaração os evidentes sinais dos seus transtornos e a sua total incapacidade de administrar sequer um cabaré. Deve ser encaminhado para uma casa de repouso sem prazo definitivo para sair. Incita a população a invadir hospitais, cometer crimes e se expor ao contágio. Rubrica a sua necropolítica irracional e desumana. Para fechar, diz que os “mais fracos” é que morrem vítimas da pandemia, quando milhares de exemplos comprovam que isso não condiz. Não é apto para dirigir uma kombi, que dirá um país.

O guru despirocou e o hospício abriu as portas

Vicente Vilardaga
Revista ISTOÉ

Derrotado em vários processos judiciais e condenado a pagar uma indenização de R$ 2,8 milhões por danos morais para Caetano Veloso, Olavo de Carvalho se desespera, chama Jair Bolsonaro de covarde e ameaça derrubar o governo


 O guru Olavo de Carvalho pirou. Sem dinheiro, derrotado em vários processos judiciais, vendo seu pupilo, o ministro da Educação Abraham Weintraub com o cargo ameaçado e condenado agora a pagar uma indenização por danos morais de R$ 2,8 milhões para o cantor Caetano Veloso, a quem chamou insistentemente de pedófilo pelas redes nos últimos anos, Carvalho perdeu as estribeiras em vídeos transmitidos pelo YouTube na semana passada. Ele ameaçou derrubar o governo e acusou o presidente Jair Bolsonaro, a quem chamou de “inativo” e “covarde”, de não fazer nada para impedir crimes e agir contra bandidos.

(Crédito:Divulgação) 
“Temos que ajudá-lo financeiramente. Ele está chateado, precisa de mais ajuda 
para continuar lutando pelo Brasil” Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan 

Magoado, sentindo-se usado e perseguido, o guru renegou a amizade do presidente e falou que não quer mais condecorações. “Enfia a condecoração no cu”, afirmou, referindo-se à Grã Cruz, mais alto grau da Ordem do Rio Branco, com a qual foi agraciado no início de maio. “Se você não é capaz de me defender contra essa gente toda eu não quero a sua amizade”, prosseguiu. Carvalho não foi específico, não disse quem é o bandido e de quem quer ser defendido, mas deu sinais de que rompeu com Bolsonaro e rompeu também com a razão. A não ser que surja a solução para todos os seus males, uma providencial ajuda financeira para cobrir suas dívidas milionárias, Carvalho deverá continuar enlouquecido contra o governo. Mas, infelizmente, não parece provável que seja capaz de derrubar Bolsonaro.

Festival de tolices

Seus impropérios, lançados desde sua casa, na Virgínia (EUA), causaram surpresa entre seus simpatizantes e dispararam um festival de tolices que só o atual governo e seus aliados poderiam oferecer. Mesmo xingado pelo guru de “palhaço vestido de Zé Carioca”, por causa de seu terno verde com gravata amarela, o empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, promoveu uma vaquinha entre amigos para ajudar o ideólogo do governo a sair do buraco. “Temos que ajudá-lo financeiramente”, proclamou num grupo de WhatsApp. “Ele está chateado, precisa de mais ajuda para continuar lutando pelo Brasil”. Hang conversou com Bolsonaro sobre o caso e os dois chegaram à conclusão de que é preciso dar um socorro financeiro a Carvalho para que ele se acalme. Alguns amigos empresários de Hang, porém, como Flávio Rocha, da Riachuelo, e Sebastião Bonfim, da Centauro, demonstram resistência em abrir os bolsos para o guru e se recusaram a participar da vaquinha.

(Crédito:Divulgação) 
“Estou contrariado, mas não derrotado, eu sou bem guiado pelas Mãos Divinas! 
P.S.: sim, nóis prantemo um miiarar na varanda” Abraham Weintraub, ministro da Educação 

Carvalho também está revoltado com a possibilidade de Abraham Weintraub deixar o governo. Condecorado por Bolsonaro em maio com o grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito Naval, ele ficou com a corda no pescoço desde que vieram a público suas ofensas contra os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) na fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril. No Palácio do Planalto, depois de arrumar brigas e confusões e abandonar a educação brasileira, Weintraub perdeu qualquer apoio e já foi aconselhado a pedir demissão, como uma forma honrosa de largar o cargo. Nos seus planos, está, inclusive, uma candidatura para a Prefeitura de São Paulo. O ministro teria entrado em contato com o guru para se lamentar e tentar reverter o quadro de ruptura que se avizinha. Carvalho tomou suas dores e fez mais um ataque a Bolsonaro. “Porque eu fui seu amigo, mas você nunca foi meu amigo (…) Você só tira proveito. E devolve o quê? É que nem o Weintraub. Dá uma condecoração. Tá brincando com isso, porra. Só essas multas que os caras tão cobrando de mim, é pra me arruinar totalmente. Como é que eu vou sobreviver nos EUA sem um tostão furado”, protestou. Um provável nome para assumir a Educação é o do empresário Carlos Wizard, que desistiu recentemente de um cargo no Ministério da Saúde. Sobre seus problemas, Weintraub usou o Twitter para filosofar. “Estou contrariado, mas não derrotado, eu sou bem guiado pelas Mãos Divinas!”, disse.

O processo de Caetano Veloso contra Olavo de Carvalho já transitou em julgado e não oferece mais possibilidade de recurso. Caetano é uma obsessão antiga do guru, que ajudou a promover a hashtag #caetanopedofilo. A condenação pelos danos morais foi de R$ 40 mil, que chegaram, corrigidos, a R$ 54 mil. Tratou-se de uma ação de obrigação de fazer com pedido de tutela de urgência cumulada com indenização por danos morais, aberta em 2017. O pedido de tutela foi feito com o objetivo de obrigar Carvalho a retirar todas as postagens ofensivas contra Caetano e parasse de atacar o artista, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. Olavo retirou algumas postagens, mas não todas, e por isso o valor da indenização começou a crescer, chegando agora a R$ 2,8 milhões. “A ideia é penhorar as coisas dele”, disse a empresária Paula Lavigne, mulher de Caetano.

(Crédito:Divulgação)
 “A maior violação de direitos humanos da história do Brasil nos últimos trinta anos
 está acontecendo neste momento” Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos 


Bullying virtual

“E se não conseguirmos fazer isso no Brasil, iremos cobrá-los nos Estados Unidos”. Segundo Paula, há um roteiro programado de ataque à classe artística no País e Olavo de Carvalho passou de todos os limites. Ela se diz satisfeita com o resultado da ação a adianta que o dinheiro do guru “será usado em causas que pautem nossa resistência”. “Nem todo mundo tem como se defender de ataques e linchamentos morais pela internet. A ação do Caetano tem uma função pedagógica e mostra que quem ofender os outros e praticar bullying virtual pode sofrer consequências gravíssimas”, disse a advogada Simone Kamnetz, que defende Caetano. “As pessoas tem que aprender que elas não podem fazer o que quiserem pela internet”. A defesa de Carvalho reiterou durante o processo que ele não mentiu quando chamou Caetano de pedófilo.

Eminência parda do governo, com influência direta sobre os filhos 02 e 03 de Bolsonaro, Carlos e Eduardo, Carvalho também reclama da imprensa, que diz atacá-lo sem piedade. “Nunca houve contra um cidadão particular um massacre jornalístico e judiciário desse tamanho, nem contra narcotraficantes e líderes revolucionários”, disse Olavo, referindo-se a si próprio. “Há décadas existe esse gabinete do ódio contra Olavo, porra!” Carlos e Eduardo deflagraram, inclusive, com apoio de blogs bolsonaristas, uma operação para segurar Weintraub, diante dos lamentos do guru. Atualmente, Carvalho está desprestigiado entre os ministros do governo. Resta-lhe a simpatia apenas do ministro da Educação e do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Apesar de estar no fim da linha, Weintraub quer cair atirando. Em mais um ato arbitrário, Bolsonaro publicou uma Medida Provisória (MP), na quarta-feira 10, que permite ao ministro escolher reitores temporários das universidades federais durante o período de pandemia. O texto acaba com a necessidade de consulta a professores e alunos ou de uma lista para escolha dos reitores.

Na nau dos insensatos em que se converteu o governo Bolsonaro não se salva ninguém. Com a influência de Olavo, que considera a pandemia de coronavírus uma ficção, ministros criticam o isolamento e invertem a lógica da saúde. Transformam uma medida benéfica em algo ruim. “Idosos estão sendo algemados e jogados dentro de camburões no Brasil. Mulheres sendo jogadas no chão e sendo algemadas por terem feito nada”, disse a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. “A maior violação de direitos humanos da história do Brasil nos últimos trinta anos está acontecendo neste momento, mas nós estamos tomando providências”. Uma das providências, possivelmente, será pagar as dívidas de Olavo de Carvalho porque a furia do guru tumultuou o governo.


Ministério de Damares retira dados sobre violência policial de relatório sobre direitos humanos

Leandro Prazeres
O Globo

Dados de 2017 e 2018 apontavam para o crescimento das denúncias de violações cometidas por policiais

  Foto: Bruno Marinho
No Rio, manifestação antirracismo critica violência policial 

BRASÍLIA - O Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, comandado por Damares Alves,  retirou os dados sobre violência policial do relatório divulgado pelo órgão sobre denúncias recebidas pelo governo federal por meio do Disque 100 referente ao ano de 2019. Os documentos anteriores, de 2018 e 2017, mostravam esse indicador e apontavam para o crescimento das denúncias de violações de direitos humanos cometidas por policiais. A retirada foi noticiada pelo jornal Folha de S. Paulo e confirmada pelo GLOBO. Segundo o ministério, os dados foram retirados devido a identificação de “inconsistências”.

O Disque 100 é um canal criado em 1997 e, desde 2003, está sob responsabilidade do governo federal. Atualmente, ele é administrado pelo MMFDH, sob o comando da ministra Damares Alves.
Anualmente, o ministério divulga um relatório que compila os dados de todos os tipos de violações registradas pelo Disque 100. Neste ano, no entanto, os dados sobre violações praticadas por agentes policiais não foi publicado.

A retirada dos dados interrompeu uma série histórica que já tinha pelo menos três anos e que apontava para um crescimento da violência policial no Brasil.

Em 2016, segundo o MMFDH, o Brasil registrou 1.009 denúncias de violência policial. No ano seguinte, o crescimento foi de 30%, chegando a 1.319 denúncias. Em 2018, o crescimento foi de 24%, chegando a 1.637 denúncias.

A reportagem do GLOBO enviou questionamentos ao MMFDH sobre os motivos que levaram à retirada dos dados. O GLOBO indagou se a “inconsistência” nos dados apontada pelo MMFDH havia sido detectada apenas em relação à violência policial ou se havia afetado a divulgação de outros indicadores. Perguntou também se o ministério poderia divulgar algum documento que comprovasse a alegada inconsistência dos dados. 

Como resposta, o MMFDH enviou apenas uma nota reafirmando que o motivo da exclusão dos dados sobre violência policial do relatório foi motivada por “inconsistência” nos registros e disse que não atendeu a nenhum pedido de “autoridade ou entidade”.

 “Os dados referentes às denúncias de violações de Direitos Humanos tendo por suspeito agentes de segurança, não foram divulgados pois foram identificadas inconsistências em seus registros”, diz um trecho da nova.

“Desta forma, a opção de divulgação posterior foi técnica, para garantia da veracidade da informação, não ocorrendo qualquer pedido de não divulgação ou atraso por parte de qualquer autoridade ou entidade”, diz outro trecho da nota.

Ainda segundo o ministério, “há registros com marcador de suspeito como agente policial, mas na descrição as informações são contraditórias, assim como há registros que não possuem marcador mas as informações contém relação com violação supostamente praticada por agente policial”,

O Ministério disse que, para que “haja fidedignidade” dos dados, o ministério optou por não publicá-los para submetê-los a “estudo aprofundado” e posterior divulgação.

O GLOBO indagou qual a previsão de divulgação dos dados sobre violência policial, mas o MMFDH não respondeu.

Manipulação e ocultação

Marcos Strecker
Revista ISTOÉ

Como se não bastassem os exemplos diários de desprezo pela vida e desrespeito à ciência, o presidente Jair Bolsonaro consegue agravar ainda mais a emergência na saúde. Agora, tenta implantar a censura aos números de infectados e óbitos. O apagão estatístico revela uma nova estratégia: usar a mentira e a manipulação como métodos para falsear a realidade e reforçar seu poder, enfraquecendo o controle da sociedade. Não é uma iniciativa para salvar a sua popularidade. É um método de dominação por meio da negação da verdade, que afugenta investidores e compromete o futuro do País.

Gerson Nascimento sobre foto istock photo

Os militares que povoam a pasta da Saúde, comandada interinamente pelo general Eduardo Pazuello, pressionaram os técnicos a maquiar os números da pandemia. A pressão também chegou à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que produz relatórios para o governo. A desinformação começou na apresentação cada vez mais tardia dos dados, de forma a evitar o uso durante os telejornais noturnos — “acabou matéria no Jornal Nacional”, disse o presidente. E se agravaou na sexta-feira, 5, quando o governo passou a alterar a forma de apresentação dos números. Foi uma ordem do presidente, que determinou que a cifra não deveria exceder os 1.000 óbitos diários — esse montante se aproximava de 1,5 mil. O Brasil já superou a marca de 40 mil mortes e 775 mil casos confirmados, e assumiu a liderança mundial em número de fatalidades diárias, superando EUA e Reino Unido. O novo método usou uma sugestão feita pelo empresário Luciano Hang, um bolsonarista investigado pela Polícia Federal no inquérito das Fake News.

(Crédito: Isac Nóbrega/PR)
MENSAGEIRO DA MENTIRA 
Bolsonaro em torno de evangélicos prega e não 
cumpre o mandamento do “conhecerás a verdade” 

A maquiagem consistia em registrar apenas as mortes do período, eliminando os óbitos que estavam pendentes de checagem. Além de impedir o acompanhamento da evolução diária da doença, o truque contábil contraria a norma adotada em praticamente todos os países. Os números acumulados de contágios e mortes, assim como as taxas de infecção e letalidade pela média populacional, também sumiram do boletim oficial. No domingo, 7, usando os novos critérios, o Ministério da Saúde conseguiu reduzir o número de óbitos em 24h de 1.382 para 525.

Essa pedalada na saúde pública chocou os especialistas e foi denunciada na imprensa mundial. Lembrou um dos períodos mais sombrios do governo Emílio Garrastazu Médici, em 1974, quando a ditadura militar censurou as informações sobre uma epidemia de meningite. Como reação, os principais jornais e sites noticiosos brasileiros formaram um consórcio para compilar dados das secretarias estaduais e divulgar dados confiáveis diariamente. O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) criou um painel próprio que agrega as estatísticas regionais. O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou com uma ação no STF pela divulgação completa dos dados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um apelo para que o governo mantivesse a transparência, esperando que a “confusão” nos números fosse solucionada. A população precisa de informação para poder se proteger, ressaltou a entidade. O alarme com as adulterações soou mais forte quando o empresário Carlos Wizard, indicado à secretaria de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, disse que o governo promoveria uma recontagem dos mortos, pois havia suspeitas de que os dados enviados pelos estados eram “fantasiosos ou manipulados”. Segundo ele, o número de mortos estaria inflado. A declaração gerou críticas generalizadas. O Conass a classificou como uma “tentativa autoritária, insensível, desumana e antiética de dar invisibilidade aos mortos pela Covid-19”. Wizard, que havia se notabilizado na ajuda aos refugiados venezuelanos em Roraima, desistiu da indicação e pediu desculpas, mas o ex-ministro do TSE Admar Gonzaga, que advoga para Bolsonaro, reforçou as acusações.

Congresso confronta general


(Crédito:Alan Santos/PR) 
“A forma de divulgação anterior não dizia nada, era feita com base na soma de
 coisas que não eram somáveis. As informações passaram a ser plenas, transparentes
 e disponibilizadas em tempo real” General Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde 

A reação chegou ao Congresso. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, cobrou de Pazuello a volta das informações diárias. “Queremos é que todos os brasileiros tenham transparência na divulgação. O que ocorreu nos últimos dias foi exatamente o contrário — pelo menos do ponto de vista da relação de diálogo do governo com o Parlamento e com a sociedade”, criticou. “É uma tragédia o que a gente está vendo, de desmanche da informação”, denunciou o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. “Me parece que o que estão querendo fazer é uma grande cirurgia nos números dos protocolos públicos. Não informar significa o Estado ser mais nocivo que a doença, mais nocivo do que o vírus”, disse o ex-titular da Saúde. Contra todas as evidências, Pazuello argumentou que a forma de divulgação anterior “era simplória”, “não dizia nada” e era feita com base na soma de “coisas que não eram somáveis”. Defendeu que as informações passaram a ser “plenas”, “transparentes” e disponibilizadas em “tempo real”. A ação nefasta só foi revertida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele determinou na segunda-feira, 8, que o governo retomasse a divulgação dos dados como ocorria até o dia 4 de junho. 

Desde abril, quando Mandetta ainda dirigia a pasta da Saúde, o presidente planejava mexer na comunicação diária. Queria substituir os dados de óbitos pelo “placar da vida”, o número de curados — uma visão “poliana” da crise que não convenceu nem os próprios bolsonaristas. Para colocar em marcha essa impostura, afastou Mandetta. Com isso, revelou mais uma vez seu conceito distorcido da comunicação. Considera que o papel da imprensa é fazer propaganda do governo, não fiscalizá-lo. Além disso, quer transformar a inação e negligência pessoal em um triunfo aparente. Essa fábrica de falsidades e desinformação ganhou nova dimensão, mas não é nova. Desde o início de seu mandato, o presidente investiu contra a transparência. No primeiro mês de mandato, tentou ampliar a classificação de documentos como secretos. Durante a pandemia, quis passar uma lei desobrigando os órgãos públicos de cumpriram prazos de liberação de dados via Lei de Acesso à Informação. O véu de opacidade vai desde os seus exames de Covid-19, que só foram liberados após uma ação no STF, até os dados de gastos de cartões corporativos da Presidência, que explodiram na atual gestão. No IBGE, as pesquisas sobre desemprego se tornaram alvo de ataques.

O falseamento de informações também atinge a comunicação oficial. Ao aprovar com ressalvas as contas do governo Bolsonaro em 2019, o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas apontou a falta de transparência dos gastos com propaganda e publicidade. Segundo ele, os dados “indicam algum risco de que os recursos públicos possam estar sendo utilizados para manipular as demais informações que circulam pela sociedade, em especial a veiculada pela imprensa”. Em seu parecer, Dantas apontou o risco envolvido e “as implicações para o legítimo funcionamento das instituições públicas e, em última instância, da própria democracia”. O alerta também vale para o Orçamento. Em 2019, houve transferência de despesas de ministérios para estatais, uma forma de contornar a regra do teto de gastos.



Ao ser confrontado com a manipulação na saúde, Bolsonaro atacou a imprensa. “O que nós não queremos é números mentirosos, que servem para inflacionar e para manchetes de jornais. Estão usando o governo federal como se a responsabilidade fosse exclusivamente minha. Esses números aí tem de servir para alguma coisa, e não para dar manchete para jornal”, disse. Em seguida, mais uma vez usou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de forma equivocada e maliciosa. Pinçou uma afirmação sobre a baixa probabilidade de contágio dos infectados não sintomáticos como argumento para combater o isolamento social — única forma comprovada de deter a doença. Ao falsificar dados, Bolsonaro impede que o País tenha uma resposta eficiente aos seus problemas. Foi assim que a Argentina agravou sua situação econômica, depois que o peronismo passou a esconder os índices de inflação.

(Crédito:Marcos Corrêa/PR)
GUERRA E INFORMAÇÃO 
Em reunião de ministros, o governo trata o combate à Covid-19
 apenas como uma arena de operações militares. As entrevistas 
coletivas diárias foram esvaziadas com atrasos sucessivos, 
falta de informações e dados manipulados 

Também coloca o Brasil ao lado de ditaduras como a Coreia do Norte e a Venezuela, que sonegam informações e forjam uma realidade paralela. O próprio filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, um aprendiz de autocrata, usou o exemplo da tragédia de Chernobyl, na extinta União Soviética, para acusar a ditadura chinesa de omitir informações da pandemia, criando um incidente com nosso principal parceiro comercial. Dois meses depois, o pai fez pior. Como contraexemplo, a Suprema Corte renovou a tradição democrática centenária dos EUA nos anos 1970 ao deliberar pela publicidade de documentos da Guerra do Vietnã, que mostravam o falseamento em sucessivos governos. “Manipulação de estatísticas é manobra de regimes totalitários”, disse o ministro Gilmar Mendes, do STF. Ele ainda ressaltou que as mudanças nos registros oficiais não vão “isentar responsabilidade pelo eventual genocídio”. A ameaça ao mandatário não vale apenas para o território brasileiro. No mesmo dia em que o STF determinava a volta da transparência nos dados da pandemia, o Tribunal Penal Internacional (TPI), na cidade de Haia (Holanda), informou que vai analisar uma denúncia responsabilizando Bolsonaro por crime contra a humanidade. O presidente foi acusado pelo PDT por sua postura no combate à Covid-19. O partido diz que o mandatário tem contrariado recomendações para reduzir a velocidade do contágio e, desse modo, colabora para o colapso do sistema de saúde.Também lista uma série de episódios em que Bolsonaro ignorou recomendações da OMS e do próprio Ministério da Saúde, como o comparecimento a manifestações.

Anderson Riedel/PR


Militares apoiam manobras

Enquanto o presidente luta para ocultar a realidade, faltam ações para solucionar problemas. O governo está à deriva. Para usar uma metáfora militar, tão ao gosto do mandatário, nossas forças estão levando uma surra do inimigo, por incompetência e desinformação — e sendo desmoralizadas. É o oposto da imagem que as Forças Armadas gostariam de cultivar. Os militares de Bolsonaro apoiam ataques às instituições democráticas e manobras diversionistas contra a saúde. Mesmo sem formação na área, mais de 20 ocupam a cúpula da pasta da Saúde, que está sem titular — apesar de já ter tido dois ministros durante a pandemia. Na guerra contra o vírus, os comandantes deveriam reunir os melhores cérebros e talentos — e não desmoralizá-los e escorraçá-los, negando os esforços científicos. Poderiam, por exemplo, ter centralizado as compras de equipamentos, dando mais eficiência ao esforço nacional. Mas fizeram o contrário. Não só deixaram de entregar os respiradores que prometeram, como lançaram suspeitas generalizadas sobre todos os gestores, além de sabotar a luta pelo isolamento social que salva vidas.

Na moderna guerra tecnológica, a informação é vital. Ao militarizar o governo, o presidente não está profissionalizando a gestão. O Chávez brasileiro se escora nos piores exemplos e desmoraliza as Forças Armadas. Recicla práticas corruptas e decadentes da caserna de outros tempos, como na França do século XIX. No famoso episódio do capitão Dreyfus, o exército gaulês vivia uma cultura de mentiras, era manietado por grupos secretos, cercava-se de preconceito e castas privilegiadas. É com essa decadência que as Forças Armadas brasileiras flertam ao apoiar as investidas do presidente. Elas se divorciam da sociedade — o general Pazuello não deveria ter aceito a manipulação. Na França, o ardil só foi desmascarado pela coragem da imprensa e de intelectuais que denunciaram uma trama sórdida contra o capitão. Exposto, o exército gaulês não recuperou sua glória passada, mas a sociedade francesa se fortaleceu. O episódio mudou o curso do debate moral e ético no país europeu e até hoje serve de guia para a conduta dos governantes. No Brasil, a sociedade já começa a se levantar contra um esbirro de ditador que fabrica falsidades, promove a morte e atenta contra a democracia.

ENFIM, UMA NOTÍCIA POSITIVA NA COMUNICAÇÃO

 Janine Moraes

Em meio à crise de imagem, o governo Bolsonaro anunciou a recriação do Ministério das Comunicações e decidiu nomear Fábio Faria como ministro. Deputado federal do PSD do Rio Grande do Norte, Faria é genro de Silvio Santos, dono do SBT. A nova estrutura de comunicação visa melhorar a relação com a imprensa. Por isso, a nova pasta vai incorporar a estrutura da Secretaria de Comunicação Social (Secom), que será extinta. O chefe da Secom, Fábio Wajngarten, passa a ser secretário-executivo do Ministério. Também vai incorporar a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que controla a TV Brasil. Nesse caso, segundo Bolsonaro, o intuito é tirar a TV Brasil do “traço” e, em seguida, privatizá-la.

O especialista em comunicação governamental Elsinho Mouco, acredita que a mudança é positiva e pode profissionalizar a comunicação do governo. “Trata-se de um pequeno passo para o bolsonarismo, mas um salto gigante para a governabilidade”, diz.

Entidade e governadores do Nordeste criticam Bolsonaro por incentivar invasão de hospitais

Érika Motoda, 
O Estado de S.Paulo

Conselho Nacional de Saúde e Consórcio do Nordeste chamam presidente de 'negacionista' por minimizar a pandemia e por desconsiderar evidências científicas

  Foto: Adriano Machado/ Reuters
Entidade e governadores do Nordeste criticaram Bolsonaro
 por incentivar invasão de hospitais 

Entidade de saúde e governadores do Nordeste criticaram o presidente Jair Bolsonaro por incentivar a população a entrar em hospitais e filmar leitos de UTI. Eles chamaram o presidente de “negacionista” por minimizar a pandemia do coronavírus e desconsiderar evidências científicas.

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) disse que o ataque “sistemático” do governo às instituições e servidores públicos e a “priorização escancarada dos interesses do mercado” é ainda mais “cruel” no contexto de pandemia. Segundo a nota, o governo continua assumindo sua “atitude genocida” e se coloca como adversário da ciência. “Isso demonstra total desprezo pela vida da população.”

E o Consórcio do Nordeste, composto pelos nove governadores da região, endereçaram uma carta a Bolsonaro, dizendo que “não é invadindo hospital  e perseguindo gestores que o Brasil vencerá a pandemia”. Eles aproveitaram para reclamar das recentes operações da Polícia Federal, que já atingiram o governador do Rio, Wilson Witzel, e do Pará, Helder Barbalho. 

“Intensificaram- se as ações espetaculares, inclusive nas casas de governadores, sem haver sequer a prévia oitiva dos investigados e a requisição de documentos. É como se houvesse uma absurda presunção de que todos os processos de compra neste período de pandemia fossem fraudados, e governadores de tudo saberiam, inclusive quanto a produtos que estão em outros países, gerando uma inexistente responsabilidade penal objetiva.”

Eles relembraram que a Lei nº 13.979 dispensa a licitação em processos de urgência e que não havia tempo a perder. "Estamos inteiramente à disposição para fornecer todos os processos administrativos para análise de qualquer órgão isento. Mas repudiamos abusos e instrumentalização política de investigações. Isso somente servirá para atrapalhar o combate ao coronavírus e para produzir danos irreparáveis aos gestores e à sociedade."

O governador do Maranhão, Flávio Dino, ainda postou em sua conta no Twitter que “Bolsonaro não pode mandar extraoficialmente nada para Polícia Federal. Se mandar, tem que ser por ofício assinado. E a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) não pode investigar”.

Flávio Dino 
✔@FlavioDino
Bolsonaro não pode mandar invadir hospital e filmar locais onde estão pacientes e profissionais trabalhando. E também não pode mandar extraoficialmente nada para Polícia Federal. Se manda, tem que ser por ofício assinado. E ABIN não pode investigar 


Conselho Nacional de Saúde@comunicacns
NOTA PÚBLICA: CNS repudia declarações do presidente que ofendem profissionais de Saúde e incitam ódiohttp://www.susconecta.org.br/nota-publica-cns-repudia-declaracoes-do-presidente-que-ofendem-profissionais-de-saude-e-incitam-odio/ …


Bolsonaro pratica e incita pessoas ao crime de invadir hospitais

Míriam Leitão
O Globo

Invasão de hospitais é crime. Na sua live de quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro incitou as pessoas a darem um jeito de entrar nos hospitais de campanha ou públicos para filmar o atendimento de pacientes com Covid-19.

O vídeo da live está na rede social do presidente, para quem quiser conferir.

– Tem um hospital de campanha perto de você, tem um hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente tá fazendo isso, mas mais gente tem que fazer, para mostrar se os leitos estão ocupados ou não, se os gastos são compatíveis ou não – disse o presidente. O Brasil registra mais de 41 mil mortos até aqui.

O Brasil está anestesiado pelas atrocidades ditas por Bolsonaro. É insano estimular pessoas a invadir hospitais no meio da pandemia. Não se pode entrar nesses ambientes sem autorização, sem as medidas de proteção, em qualquer situação. Antes mesmo da pandemia, já se obrigava que o visitante lavasse as mãos e tomasse todos os cuidados para entrar nos quartos. A sugestão do presidente é que as pessoas entrem nas UTIs.

Não é crível que um presidente cometa um crime desses e fique por isso mesmo. O país perdeu a noção do absurdo. Bolsonaro está estimulando que pessoas aumentem a propagação da pandemia. O invasor pode se contaminar e depois espalhar o vírus. É um desrespeito também aos médicos, enfermeiros, técnicos e outros funcionários do hospital. São profissionais que estão tomando todo o cuidado e participando dessa luta para salvar os pacientes. Eles correm riscos no dia a dia do trabalho. Alguns desses soldados morreram na frente de batalha contra a pandemia.

O presidente errou desde o início, quando desdenhou e negou a pandemia, comportamento que mantém até hoje. Bolsonaro usou todas as armas que tinha para pressionar governadores e prefeitos. Agora, próximo à data do Dia dos Namorados, parte das cidades reabriu o comércio. Em São Paulo, havia aglomeração nas lojas da 25 de Março. O Brasil se arrisca a viver uma segunda onda da pandemia sem ter debelado a primeira. Os países que reabriram a economia o fizeram após a curva de infectados diminuir. No caso dos grandes centros, há o risco de os compradores levarem o vírus para o interior do país, onde revendem as mercadorias que compraram em São Paulo.

O perigo é grande. Nesta sexta-feira, o Brasil deve se tornar o segundo maior em número de mortes, só atrás dos EUA. Há um mês, um economista me alertou para a situação, de acordo com suas projeções isso iria acontecer. O Brasil era o sexto pior cenário naquela época, agora chega ao segundo.     

Até as autoridades locais, que estavam acertando, começaram a errar. Prefeitos e governadores estão reabrindo de forma precipitada a economia enquanto a curva da epidemia ainda avança. Eles precisam retomar a sensatez que tiveram no primeiro momento. Governadores e prefeitos não devem se deixar pressionar por fatores econômicos nem pela pressão do presidente da República. Eles estão contribuindo para o risco dessa segunda onda do vírus antes sequer de controlar a primeira.


Brasil passa o Reino Unido e se torna o segundo país do mundo em mortes por coronavírus

Ludimila Honorato, 
O Estado de S.Paulo

Nas últimas 24 horas, o País contabilizou 890 novos óbitos e mais 20.894 casos de infecção; total de pessoas contaminadas é de 850.796

  Foto: Tiago Queiroz/Estadão 
Enterro de vítima do novo coronavírus no cemitário da Vila Formosa, em São Paulo. 

SÃO PAULO - Segundo país do mundo com mais contaminados e mortos pelo novo coronavírus, o Brasil registrou neste sábado, 13, 890 novos óbitos e mais 20.894 casos confirmados de infecção, segundo levantamento conjunto feito pelos veículos de comunicação Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL. No total, 42.791 brasileiros já perderam a vida por causa da covid-19 e 850.796 pessoas foram infectadas, conforme dados atualizados às 20h. Na sexta-feira, 12, o País ultrapassou o Reino Unido em número absoluto de mortes e chegou à segunda posição no triste ranking global. Os Estados Unidos seguem na liderança, com 115.251 óbitos, segundo contabilização da Universidade Johns Hopkins.

Três Estados brasileiros concentram mais da metade do total de mortes pela covid-19 no País: São Paulo (com 10.581 óbitos), Rio de Janeiro (7.592) e Ceará (4.853). Apesar disso, as capitais de todos eles já adotaram planos de flexibilização das medidas de distanciamento social. No caso paulista, o comércio de rua da cidade voltou a funcionar em 10 de junho com movimento intenso nos principais centros populares. No dia seguinte, foi a vez dos shoppings reabrirem, mas com horário reduzido e organização do fluxo de pessoas, com limite é de 20% da capacidade. O Estado com menos casos e óbitos é o Mato Grosso do Sul, com 28 mortes e 3.235 pessoas infectadas.

Os dados desse balanço do novo coronavírus no Brasil é resultado da parceria entre os jornalistas dos seis meios de comunicação, que se uniram para coletar junto às secretarias estaduais de Saúde e divulgar os números totais de mortos e contaminados. A iniciativa inédita é uma resposta à decisão do governo Jair Bolsonaro de restringir o acesso aos números da pandemia.

Posteriormente, o Ministério da Saúde recuou quanto à divulgação dos dados consolidados da covid-19 no País, mas, mesmo assim, o consórcio dos veículos de imprensa continua com o levantamento a fim de informar os brasileiros sobre a evolução da doença, cumprindo o papel de dar transparência aos dados públicos. Dados atualizados neste sábado às 18h40 pela pasta mostram que o Brasil tem 850.514 pessoas infectadas pelo novo coronavírus e 42.720 mortos. Nas últimas 24 horas, foram contabilizados 21.704 novos casos e 892 óbitos.

Política descoordenada e irresponsável

O infectologista Jean Gorinchteyn, do Hospital Emilio Ribas, avalia que o cenário vivido hoje pelo Brasil, sendo o segundo país do mundo com mais casos e mortes pela covid-19, é resultado de uma política descoordenada do governo federal, que levou a atos irresponsáveis por parte de gestores locais. "O governo federal não unificou as estratégias de assistência e integração com governos estaduais e municipais", diz ele. "A partir do momento que não houve engajamento, houve problema estrutural de saúde pública, de unificar as posturas."

Técnicos do Ministério da Saúde e os próprios ex-ministros diziam repetidas vezes que a evolução da pandemia não ocorreria da mesma forma em todo o Brasil. Por isso, cada região, Estado e município teriam políticas de distanciamento social diferenciadas, com base na análise do cenário local. Mas o que se vê são cidades com muitos registros de infecção e mortes adotando flexibilizações no isolamento social.

O epidemiologista Pedro Hallal, que coordena um estudo no Rio Grande do Sul sobre o número de infectados, o primeiro em âmbito nacional, avalia que algumas propostas de reabertura são bem pensadas, mas ele questiona a implementação precoce delas. "Mesmo a proposta de São Paulo, que acho bem delicada pelo momento, parece que leva em consideração a regionalização, a dinâmica, é gradativa", diz. "A grande crítica geral, que tenho a todas, é que parecem que estão apressadas demais. A hora (de flexibilizar) é quando a curva está definitivamente descendente."

Segundo Gorinchteyn, era esperado que o Brasil seguisse por um caminho diferente de outros países que se viram com altos números de casos e mortes. A perspectiva se dava pelo fato de, em 3 de fevereiro, o Ministério da Saúde ter declarado a infecção pelo novo coronavírus uma emergência de saúde pública de importância nacional. "O Brasil se antecipava, sabia que o sistema de saúde já era comprometido, que o número de leitos e respiradores era comprometido, e aí era o momento de se engajar", diz o especialista. Foi diferente do Reino Unido, que inicialmente adotou uma postura de inação até ver que o sistema de saúde iria entrar em colapso e mudar as estratégias de enfrentamento. "Mesmo assim, não foi suficiente para que tivesse redução do impacto."

Apesar de ter começado bem, o Brasil saiu dos trilhos no meio do caminho, avalia o infectologista. "O ponto foi quando perdemos a liderança do Ministério da Saúde, um líder que tinha uma ascensão sobre a população. Todo mundo já queria sair de casa naquela época, em abril, e infelizmente perdemos a liderança, deixamos a população incitada a sair das suas casas e isso tornou a situação muito complicada", diz Gorinchteyn, referindo-se ao ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.
O que preocupa a comunidade médica é que o Brasil ainda não chegou ao pico do novo coronavírus e registra, a cada dia, mais casos de infecção de mortes pela covid-19. "Estamos colhendo o resultado do que vem acontecendo: os números são crescentes, cidades que já têm uma proximidade de comprometimento das UTIs estão flexibilizando sem qualquer preocupação. É um ato de irresponsabilidade que não vai trazer benefícios, pelo contrário, estaremos expondo mais as pessoas ao risco", analisa Gorinchteyn.

"Nós começamos a trilhar de forma boa, perdemos o rumo e hoje dificilmente vamos conseguir colocar as pessoas em casa de novo", diz o especialista. Hallal faz uma comparação: é como se as pessoas tratassem o distanciamento social como um interruptor de luz, que pode alterar o cenário de forma imediata. O processo, porém, é demorado. Gorinchteyn explica que o impacto das reaberturas de comércios pode ser visto dentro de duas semanas.

A evolução das mortes por Covid-19 no mundo


Animação mostra, dia a dia, o acumulado de óbitos por país. Brasil só apareceu entre os dez mais no dia 28 de abril.