O ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo, comentando a “caravana” feita por Lula e comitiva pelo São Francisco, fez uma colocação bem apropriada e que merece profunda reflexão, seja por parte da oposição, da turma do Tribunal Superior Eleitoral mas, também, de boa parte dos eleitores.
Disse o ministro Mendes:
— Ninguém pode impedir o governante de governar. É lícito transformar um evento rotineiro de governar num comício? Entendo que não. Se houver esse propósito, certamente o órgão competente da Justiça tem que ser chamado à atenção para evitar esse tipo de vale-tudo.
O ministro fez um chamado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à Procuradoria Geral Eleitoral para que haja mais fiscalização:
— A Procuradoria e o TSE podem fazer uma comparação sobre como se fiscalizava obras, e como se faz isso hoje. Pelas descrições, há sorteios, festas, cantores. Isso é o modo de fiscalizar tecnicamente uma obra? A discussão terá que ser levada à Justiça Eleitoral.
Gilmar disse que há jurisprudência internacional no controle do uso da máquina pública:
— Países avançados no processo democrático têm discutido essas questões à luz de decisões de cortes constitucionais, dizendo que o governo não deve utilizar a atividade governamental para fins políticos e eleitorais.
O ponto central é justamente este, a de que”... Pelas descrições, há sorteios, festas, cantores. Isso é o modo de fiscalizar tecnicamente uma obra?...”.
Pois é... No fundo, ninguém está impedindo Lula de governar ou de inaugurar e fiscalizar obras. É sua obrigação fazê-lo, certo? Contudo, há uma legislação sobre os limites em que o governante deve se comportar em cada um destes momentos, e uma das razões é a de impedir que o governante de plantão utilize a máquina pública, que não lhe pertence, para fins eleitoreiros, o que representaria abuso de poder político e econômico. Isto é a lei. Esta a democracia, e assim vigora a moralidade em países civilizados.
Porém, no caso específico da “caravana ao São Francisco” o que se viu foi, indiscutivelmente, uma escancarada campanha eleitoral, com o uso abusivo do aparelho e recursos do Estado para fins eleitoreiros.
Pressionado pela oposição e pela imprensa, Lula saiu-se com esta pérola;
“(...)
- É a primeira vez na vida que eu vejo alguém ficar nervoso porque se inaugura obra. Quando eu fazia oposição, eu ficava nervoso porque não tinha obra, não tinha escola, não tinha estrada, não tinha ponte, não tinha nada.(...)”.
Inicialmente, ninguém o recriminou por inaugurar obras, e sim, de valer-se delas para uso abusivo da máquina pública para fins eleitoreiros. É disto que se trata, o resto é vigarice, cretinice pura. Lula está, goste ele ou não, afrontando as leis vigentes no País, que valem para todos, inclusive, e principalmente, ele, e por duas razões específicas: por ser presidente, e por isso estar obrigado a servir de exemplo no cumprimento dos regimes legais que disciplinam a vida no Brasil,e, segundo, porque, na oposição, sempre acusou os outros de igual prática.
Mas, espremendo um pouco o caso da “Caravana do São Francisco”, até que cabe a pergunta: em que momento, durante a viagem, Lula inaugurou “obras”? Quais, cara pálida? Veja-se pela imprensa todo o percurso da tal comitiva e, momento algum, se identificam “obras” inauguradas, a não ser lançamento desbragado de campanha eleitoral em favor de Dilma Rousseff.
E, para aqueles que acreditam na palavra de Lula, tão verdadeira quanto uma nota de três reais, convido para a leitura e constatação do que afirmo no artigo de Leandro Kleber, do site Contas Abertas (logo abaixo). Portanto, Lula se indispôs contra uma crítica que não lhe foi feita, como modo de encobrir a natureza verdadeira do que ele (e seus “convidados”), andaram aprontando às margens do velho Chico.
Deste modo, e muito embora o recado dado por Gilmar Mendes tenha pertinência, duvido que o TSE, tão rápido no gatilho para, pelas mesmas razões inclusive, cassar governadores, prefeitos, vereadores e deputados, cumpra seu mandato em relação à Lula. Sinal claro de que as velhas oligarquias que “privatizaram” o país continuam no comando, enquanto a miséria come solta.
Segue o relatório das “obras” do São Francisco que Lula quer nos fazer crer que “inaugurou”. Reparem que, quando se trata de "obras" todos os verbos são empregados no futuro, só a liberação parcial de verbas é empregada ou no passado ou no presente... Interessante, não é?
Governo investiu 32% da verba para integração do São Francisco em 2009
As obras de transposição do rio São Francisco, que prevêem a construção de dois canais que levarão água para os sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Paraíba, receberam, por enquanto, muito menos do que o previsto em orçamento. Do R$ 1,3 bilhão autorizado para uso este ano, apenas nos projetos de integração do rio com as bacias do chamado Nordeste Setentrional - há outros empreendimentos que integram o projeto São Francisco -, pouco mais de R$ 408 milhões foram desembolsados até a última quarta-feira, incluindo os “restos a pagar”, dívidas de anos anteriores no jargão econômico. O montante representa somente 32% do total previsto para 2009. No ano passado, a situação foi semelhante: de uma dotação orçamentária de R$ 1 bilhão, apenas R$ 215 milhões foram aplicados nas obras, ou seja, 21% da quantia. Ao todo, estão previstos cerca de R$ 5 bilhões para a conclusão das obras.
A região do São Francisco foi visitada pelo presidente Lula e por pré-candidatos à presidência da República nas eleições de 2010: ministra chefe da Casa Civil e “mãe do PAC”, Dilma Rousseff, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) e o tucano Aécio Neves, governador de Minas Gerais. Na região estão sendo realizados outros empreendimentos do projeto São Francisco com verba federal, além da transposição, incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). É o caso das obras de “abastecimento público de água em comunidades ribeirinhas do rio” – do programa Água para Todos. No entanto, a execução orçamentária também não é satisfatória, já que apenas R$ 4,1 milhões foram desembolsados dos R$ 68,8 milhões previstos este ano.
Outra ação do governo federal na região que "não anda bem das pernas", pelo menos em termos orçamentários, é a de “recuperação e preservação da bacia do rio”, que recebeu somente R$ 2,4 milhões dos R$ 7 milhões autorizados. Já o projeto de “implantação, ampliação ou melhoria de sistemas públicos de esgotamento sanitário em municípios das bacias do São Francisco e Parnaíba” foi melhor contemplado. Quase 53% da verba foi aplicada: R$ 138 milhões de um total de R$ 261 milhões.
Quando considerados os empenhos, a execução das atividades melhora. Para a implementação dos sistemas de esgotamento sanitário, por exemplo, o governo federal já reservou quase R$ 207 milhões, ou 79% do previsto. Na rubrica de abastecimento público de água às populações ribeirinhas, foram comprometidos R$ 10,5 milhões, mais do que o dobro do valor efetivamente pago. O mesmo ocorre com as obras de transposição do rio. O valor empenhado para os canais leste e norte soma R$ 549 milhões, ou seja, 43% do montante autorizado para 2009.
De acordo com o Ministério da Integração Nacional, responsável pelo projeto de integração do rio com as bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional, as obras do São Francisco estavam enfrentando dificuldades nos últimos anos. Problemas de obtenção de licenciamentos ambientais e disputas judiciais, iniciadas a partir de recursos apresentados por empresas que participavam das licitações, eram alguns deles.
Segundo a pasta, os recursos desembolsados nos projetos do rio aumentarão significativamente até 2010, pois as dificuldades deverão ser superadas. Existe a previsão de que esses pagamentos se aproximem de R$ 3 bilhões até o próximo ano. Segundo a assessoria de imprensa do Ministério da Integração Nacional, as obras já apresentam avanços. De acordo com o último balanço do PAC realizado na semana passada, o eixo norte da transposição já avançou 13,7% e o eixo leste, 16%. Mais de 8,5 mil trabalhadores estão contratados diretamente para efetuar os trabalhos.
Transposição
O projeto de integração do rio São Francisco com as bacias hidrográficas do Nordeste Setentrional prevê a construção de dois canais: o eixo norte, que levará água para os sertões de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, e o eixo leste, que beneficiará parte do sertão e as regiões agreste de Pernambuco e da Paraíba. O objetivo é assegurar a oferta de água, em 2025 – prazo de conclusão de toda a obra – a cerca de 12 milhões de habitantes. Segundo o governo, apenas 1% da água do rio será desviada para os canais.
O eixo norte, a partir da captação no rio São Francisco próximo à cidade de Cabrobó (PE), percorrerá cerca de 400 quilômetros, conduzindo água aos rios Salgado e Jaguaribe, no Ceará; Apodi, no Rio Grande do Norte; e Piranhas-Açu, na Paraíba e Rio Grande do Norte. Ao cruzar o estado de Pernambuco, este eixo disponibilizará água para atender as demandas de municípios inseridos em três subbacias do rio São Francisco: Brígida, Terra Nova e Pajeú.
O eixo leste, por sua vez, terá sua captação no lago da barragem de Itaparica, no município de Floresta (PE). O canal irá percorrer 220 quilômetros até o rio Paraíba (PB), após deixar parte da vazão transferida nas bacias do Pajeú, do Moxotó e da região agreste de Pernambuco. Para o atendimento das demandas de Pernambuco, o projeto prevê a construção de um ramal de 70 quilômetros que interligará o eixo leste à bacia do rio Ipojuca.
Os canais terão 12 metros de largura por quatro metros de profundidade. Em grande parte da área onde os canais estão sendo abertos, o subsolo é formado por rochas. Por isso, para abrir caminho é preciso usar explosivos. Dos cerca de 700 quilômetros de canais, apenas 20 estão prontos. Os operários trabalham de dia e de noite para cumprir a meta do governo: inaugurar pelo menos o eixo leste em dezembro do ano que vem.
Além disso, o empreendimento prevê o reassentamento da população residente em áreas afetadas. Já foram construídas 86 casas em comunidades indígenas e quilombolas e 55 na vila produtiva rural do Junco. Por fim, no oitavo balanço do PAC, consta ainda que o projeto de integração do São Francisco com as demais bacias do Nordeste Setentrional tem recursos para implementação de programas ambientais que visam minimizar e controlar os impactos ambientais provocados pela implantação e operação do empreendimento. Para isso, estão orçados R$ 226 milhões até 2010, sendo que 28% da meta física já foram realizados.


