Adelson Elias Vasconcellos
Não faltará quem critique o que vamos abordar aqui. Afinal, se a estatística do IBGE afirma que o desemprego no Brasil, em setembro passado, foi a 5,4%, muitos acreditarão cegamente neste número. Ao índice informou-se que o número de desocupados (ou desempregados) ficou em torno de 1,3 milhão de pessoas. Não é de hoje que olho estes números com muitas reservas. Que o país melhorou não se duvida, mas não que tenha melhorado tanto a ponto de quase chegarmos ao estágio de pleno emprego.
Para efeitos deste estudo, e também a partir de dados oficiais, vamos considerar somente a faixa de brasileiros economicamente ativos, que hoje é de 51% do total da população. Como, segundo estimativa do IBGE que aponta para o Brasil o total de 193.946.886 habitantes, com dados do dia 1º de julho de 2012, teríamos 98.9121912 trabalhadores em idade ativa.
Para quem tem um mínimo de informação qualificada, percorre o país e tem alguma facilidade para fazer cálculos, este índice oficial de 5,4% embute alguns truques que, se do ponto de vista da técnica estatística até possam ter certa correção, do ponto de vista puramente matemático, da própria realidade do país, ele está completamente equivocado. E perigosamente nos conduzem a avaliações e conclusões completamente furadas.
E vamos nos valer de outros dois dados, igualmente oficiais e ambos do IBGE, que desmentem ou servem para mostrar que o índice oficial merece reparos.
Nesta edição, oferecemos duas reportagens do jornal O Globo, cada uma abordando um tema diferente, mas que se entrelaçam quando se pretende avaliar a correção ou não do índice oficialmente divulgado pelo IBGE para o desemprego brasileiro.
Começo pela reportagem que aborda a chamada geração “nem-nem”, ou seja, aquela que nem estuda nem trabalha. O País tem 5,3 milhões de jovens entre 18 e 25 anos que não estudam e também não procuram emprego. Ora apenas neste ponto, aquele 1,3 milhão de desocupados que o IBGE apontou junto ao índice, já fica desqualificado. Somando-se, teríamos 6,6 milhão de desempregados. Mas há outra leitura que não bate: a se considerar o índice de 5,4% representando um total de 1,3 milhão de pessoas sem trabalho, a massa sobre a qual o IBGE aferiu seu índice é sobre 24 milhões de trabalhadores, e não sobre o total da população economicamente ativa, que, como vimos acima, é superior a 98,9 milhões de brasileiros.
Agora, vamos analisar outra informação também divulgada pelo IBGE e que coloca enorme interrogação sobre o índice oficial. Um pouco mais abaixo, em outra reportagem de O Globo, tem-se a informação de que nada mais do que 66 milhões de trabalhadores desistiram de buscar emprego. Neste grupo, há 26,3 milhões com idade entre 18 e 59 anos que, neste estudo, enquadra-se na faixa do que consideramos de economicamente ativos, já que acima de 60 anos, consideramos como “aposentados”. Claro que há enorme contingente de pessoas acima de 60 anos totalmente produtivas, em plena atividade laboral. Porém, como esta análise visa apenas mostrar pontos obscuros e contrastantes dos índice oficiais, tal grupo não foi incluído apenas para facilidade de cálculo.
Reparem que a tal geração nem-nem se enquadra neste segundo grupo, o daqueles que desistiram de buscar emprego. E, coincidência ou não, ele é até maior do que aquele sobre o qual o IBGE apontou o índice de 5,4 % de desempregados. Muito bem: vamos agora considerar a população economicamente ativa, empregadas ou não, procurando colocação no mercado de trabalho ou não. Chegamos ao total de 50 milhões de brasileiros.
Deste total, e sempre nos guiando pelos números oficiais, temos 20, 3 milhões de trabalhadores empregados., sendo que os demais, 29,7 ou estão desempregados e procurando emprego, ou simplesmente desistiram de procurar colocação. Se fôssemos considerar a população economicamente ativa pelo seu total, a taxa de desemprego no país jamais seria de 5,4% apenas, e sim, pelo menos 10 vezes aquele montante.
É impensável imaginar que mais de 50% de pessoas no Brasil, em idade de trabalho, esteja fora do mercado de trabalho? Se seguirmos os números oficiais do próprio IBGE, esta é a nossa realidade, e para sermos bem específicos, o total seria de 59,4%., o que desmente de forma cabal a tal ideia do pleno emprego como se tenta passar à opinião pública.
Se a gente for olhar o quadro do desemprego na Espanha, por exemplo, cujo número de desempregados é alarmante, atingindo cerca de 25% da população economicamente ativa, neste índice também se incluem aqueles que desistiram de procurarem emprego.
Por isto entendemos importante que se façam as ressalvas indispensáveis à informação, na hora de se divulgar o índice de desemprego no país. Isto evita certos ufanismos e não coloca nossas autoridades em certa zona de conforto achando que no mercado de trabalho está tudo bem, quando, conforme vimos, não está não. Não são apenas os números que assustam. Assusta também o apagão de mão de obra qualificada, fruto de dez anos de total descaso do governo federal para com a educação e a formação de profissionais aptos a satisfazerem as necessidades do mercado de trabalho.
Quando vemos que mais de 5,3 milhões de jovens entre 18 e 25 anos de idade nem estudam nem trabalham, é de se perguntar: que país estamos projetando ou preparando para o futuro imediato?
Como esperar inovação, qualificação, aumento de produtividade, diante de tantos jovens totalmente alienados em relação nem digo ao país, mas em relação a si mesmos? Que ações se recomendam ao poder público para se reduzir ao mínimo estatística tão vexatória?
Daí porque entendemos que o IBGE deve rever os critérios de cálculo do desemprego no Brasil. O 5,4% informado em setembro é falso, e vende uma ideia completamente equivocada de um país que parece ter resolvido seus mais graves problemas de mercado de trabalho. Não resolveu. Ter um contingente que representa cerca de 60% de sua população economicamente ativa completamente fora deste mercado, é altamente preocupante. Sabendo-se da dificuldade que as empresas têm enfrentado para compor seus quadros de colaboradores com pessoal treinado e qualificado, tendo em muitos casos que importar mão de obra por que a brasileira disponível não atende às necessidades das empresas, e me refiro principalmente as de alta tecnologia, sabendo que há uma disponibilidade desocupada de cerca de 50 milhões de pessoas, deveria obrigar o próprio governo a refletir formas de se reduzir tal quantidade de desocupados.
E, até que o IBGE reveja seus critérios, seria aconselhável que. junto com índice de desemprego, também divulgasse o número de pessoas economicamente ativas mas fora do cálculo. Além de ser mais honesto, porque não cria falsas perspectivas, serve ainda como alerta aos governantes de que nem tudo são flores em nosso mercado de trabalho. Até porque, convenhamos, este imenso contingente dos que “desistiram” de procurar emprego, precisa sobreviver de alguma maneira, e não será, obviamente, de brisa, certo?




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