terça-feira, junho 11, 2013

O tempo perdido

Adelson Elias Vasconcellos

A realidade que vivemos começa a turvar-se e agonizar lentamente. Porém, o paciente jamais poderá reclamar de não ter sido avisado. Quando advertido, não quis ouvir. E quando a voz de advertência se tornou retumbante, preferiu silenciá-la.  

Ninguém, nem mesmo um país, perde credibilidade à toa, por boatarias, por fuxicos, por ouvir falar. Quando lemos que o Brasil perdeu credibilidade e vê ameaçado o grau de investimento conquistado junto às agências de avaliação de risco, sabemos que esta não é uma situação de momento, que surgiu assim... de repente, sem que ninguém pudesse prever. 

Não, os nossos indicadores econômicos vem se deteriorando ao longo dos anos, principalmente, no governo Dilma Rousseff.  Não se trata de intriga da oposição, ou da torcida do contra, ou de inveja dos louros de olhos azuis. O Brasil não cresce, ou cresce muito pouco, apesar de seu potencial, por culpa do próprio Brasil. A inflação está alta não é por conta do tsunâmi monetário dos países ricos, senão por conta das distorções cometidas por Dilma e sua equipe econômica desde que assumiram o poder. 

Não há solidez nos marcos regulatórios, não há constância e regularidade nas regras do jogos, não temos um projeto de país minimamente decente capaz de apontar um rumo a seguir. Seguimos ao sabor dos ventos, na base do improviso, da busca de resultados positivos não na balança comercial, mas nos índices de popularidade e aprovação das pesquisas políticas. Nosso amanhã começa e termina na próxima eleição, nossa estratégia é para manter eleitorado cativo, destruir se possível qualquer movimento de reação que possa obstaculizar a marcha rumo a manutenção do poder.

Ainda em campanha eleitoral, a então candidata Dilma Rousseff, sempre quando questionada sobre austeridade fiscal, de pronto, repelia a ideia. Estes quase dois anos e meio de mandato, são bem a demonstração do quanto Dilma ainda repele qualquer disciplina fiscal.   E, por ser assim, as contas públicas vão de mal a pior, e por mais contabilidade criativa que o senhor Mantega aplique, criando um verdadeiro emaranhado confuso sobre a real posição destas contas, o mundo já percebeu que o Brasil, economicamente, vai rolando ladeira abaixo e sem perspectivas de melhoras. 

Vimos, em reportagem do jornal O Globo, que hoje há um sentimento real de que, reeleita ou não, a herança que Dilma deixará para quem a suceder será tenebrosa. 

A revista britânica The Ecomist recentemente, referindo-se ao Brasil, tocou num ponto que mereceria de nossa parte, profunda reflexão: o país perdeu a oportunidade que o tempo lhe ofereceu. De tal forma as condições eram favoráveis para o Brasil dar seu salto de qualidade, que ninguém, com um mínimo de bom senso, seria capaz de imaginar que iríamos perder oportunidades tão preciosas, tão claras, tão amigas para ganharmos o futuro. 

Contudo, e por incrível que pareça, mais uma vez o bonde da história cruzou diante de nossos olhos, e diante dele, permanecemos imóveis, de braços cruzados, sem abraçar a chance que agora corre longe. 

Temos ainda algumas gorduras para queimar, e se nada for feito agora,  também estas gorduras serão torradas sem que tiremos proveito em nosso favor. 

Agora, se anuncia a edição de novos pacotes, com novas medidas, com novos arranjos na tentativa desesperada de recuperar não o tempo perdido na economia, no desenvolvimento. Mas para recuperar os índices de aprovação junto ao eleitorado. E aí reside toda a “enorme” preocupação de Dilma Rousseff: ver perdida uma eleição que até algumas semanas atrás, era dada como ganha já no primeiro turno, e sem que houvesse algum opositor capaz de lhe impedir o êxito.

Enquanto isto, nossas virtudes maiores na economia vão ser deixadas de lado. Mais intervencionismo, mais autoritarismo, maior presença do estado serão sentidas. E quanto mais este governo insistir nas velhas fórmulas do passado, maior a chance de tornar a situação ainda pior. E, claro, o descrédito tenderá a se acentuar.

Mesmo que ainda em grande parte da imprensa ainda Dilma seja protegida de si mesma,  mesmo que esta grande mídia ainda louve como verdades, as mentiras que ao longo destes anos dez anos o PT insistiu em contar,  devagarzinho  a gente vai se dando conta da farsa, das histórias mal contadas, e as estatísticas, se não forem manipuladas, exibirão soberanas a incompetência que a propaganda oficial se encarregou de ocultar, fazendo-a parecer exemplo de eficiência.

Pode o governo ainda sobreviver sentado sobre suas fantasias e mistificações por mais algum, pode até ganhar eleição, talvez trazendo Lula de volta ao Planalto. Porém, o tempo jogado fora, as oportunidades de construção desperdiçadas ao longo destes dez anos, começarão a cobrar seu preço. O governo se ergueu sobre duas vigas mestras: de um lado, a bendita herança recebida do governo anterior, que jogou no lixo seu capital político para implementar as reformas que o país precisava fazer naquele momento da história. Tais reformas geraram os frutos da estabilidade que o PT herdou. 

A segunda viga que sustentou a estrutura populista do governo petista, foi o prolongado período de bonança econômica que o mundo experimentou, causa primeira das profundas mudanças sociais positivas que todas as nações puderam sofrer. No mundo todo, diminuiu a má distribuição de renda, reduziu-se os níveis de miséria extrema, reduziu-se drasticamente a mortalidade infantil,  e todas as nações puderam conviver com investimentos no campo social como nunca antes havida vivido.

Assim, beneficiado e ancorado nestes dois pilares, o governo petista vendeu como suas, as virtudes de terceiros. O Brasil , neste período, só não avançou mais, não por culpa do mundo, mas culpa de suas próprias imperfeições, de suas péssimas escolhas, de suas próprias mazelas, de sua própria negligência em fazer o que lhe competia fazer para ser favorecido em grau maior pelos bons ventos que sopraram também em sua direção.

Hoje, não houvesse uma agropecuária com alta tecnologia e maciços  investimentos privados em pesquisa, e certamente estaríamos à beira do abismo. Nossa balança comercial há muito tempo estaria revirando-se no negativo, e nossa poupança em reservas internacionais já se teria desmoronado feito pó.

Assim, quem suceder Dilma, mesmo que seja ela mesma, precisará por um freio de arrumação na bagunça disseminada na economia. Precisará aprofundar as reformas estruturantes, das quais a tributária e previdenciária se impõem como obrigatórias e inadiáveis. Precisará reduzir o tamanho do estado, compatibilizando a arrecadação federal com um nível maior de investimentos e, ainda, reduzir ao mínimo seus gastos correntes. Não será uma tarefa das mais fáceis, pois cobrará alto preço político, uma vez que tais ações consumirão pelo menos metade do próximo mandato presidencial.  Ou é isso, ou será o abismo
Agora mesmo, em visita à Portugal, Dilma Rousseff acena para empresários brasileiros, interessados em investir nas privatizações daquele país, com vultosos e facilitados financiamentos. Há poucas semanas, na África, perdoou R$ 1,0 bilhão em dívidas com o nosso Tesouro Nacional, alguns países espoliados  por ditadores sanguinários. Por aqui, enquanto isso, se nega em rever as dívidas de estados e municípios, e insiste em impor às nossas empresas, pesadíssima carga tributária e uma burocracia asfixiante. Assim, fica realmente difícil competir com as demais nações.  

Acrescento que o repeti uma dúzia de vezes: durante a crise financeira que abalou Estados Unidos e União Europeia, as economias destes países despejaram no mercado centenas de bilhões de dólares. Era um mar de recursos a procura de oportunidades.  E o que o Brasil fez para capturar esta dinheirama em favor de seu desenvolvimento, além de manter os juros na estratosfera e que serviram apenas para trazer para cá o capital motel,  aplicado sobre os títulos do tesouro? Não tínhamos, como de resto ainda não temos, um único e miserável plano de desenvolvimento oferecendo um ambiente ótimo para os negócios. Quanto tempo se leva para abrir e regularizar uma empresa por aqui? E qual o calvário que é preciso percorrer para obter uma licença de instalação e, depois, outra de operação junto aos órgãos ambientais? Quanto custa apurar, calcular e recolher impostos no Brasil? Qual  a efetiva taxa de retorno destes impostos para a sociedade? Quantas foram as vezes, apenas no governo Dilma, que o IOF subiu e desceu? Ora, um empresário estrangeiro não tem seu dinheiro para fazer benemerência para governantes incompetentes.Cada dólar investido, precisa ser medido onde será aplicado, por que será preciso aplicar, qual a taxa de retorno e em quanto tempo. Isto se chama planejamento, ação prudente de quem sabe  o custo de se ganhar, com trabalho honesto, um dólar na vida. E, apesar da oportunidade ímpar, deixamos o tempo correr e os dólares passearem sem abanar com oportunidades de virem para cá em projetos de desenvolvimento.

Há outro detalhe que precisa ser destacado. Desde esta mesma crise financeira, o governo petista, primeiro Lula e depois Dilma, que apenas deu sequência à fórmula, tratou-se de dar expansão ao crédito, incentivando o consumo das famílias. A fórmula acabou se desgastando por ser apenas “isso” que se ofereceu. Mas pergunta-se: quantos bilhões deste consumismo todo foram carreados para o mercado interno, e quantos outros foram despejados lá fora? No exterior foram dezenas de bilhões de dólares que poderiam, em grande parte, ter sua aplicação aqui dentro mesmo. Mas qual? Grande parte do que consumimos custam ao menos o dobro do que se paga lá fora. É o chamado Custo Brasil. Assim, ao invés de fortalecer o mercado interno, incentivou-se apenas o consumo, tanto externo quanto interno. E tal equívoco se deu porque o governo não preparou o país para tal incentivo, da mesma forma que se incentiva a produção e venda de veículos, sem que equipe a infraestrutura das cidades para as consequências que o enorme aumento no fluxo de veículos provocaria. 

Tais exemplos são provas incontestes de nosso amadorismo, das ações improvisadas na função de governar,  da falta de planejamento e de rumos. 

Por outro lado, apesar do crescente volume de recursos investidos na educação, a qualidade de ensino regrediu em muitos aspectos e o alarmante número de jovens fora das salas de aula, são demonstrações inequívocas de que não conseguimos tornar a educação brasileira a prioridade número um para o nosso desenvolvimento. 

Vemos um país em que a classe política se digladia, diuturnamente, por cargos, salários, verbas, comissões, privilégios. Parte do Judiciário segue na mesma direção. O Executivo, por sua vez, só pensa naquilo, ou seja, no poder eterno, no estado imenso, na distribuição de alguns favores para em troca receber o favor de se manter  no trono. De outro lado, temos um povo em que quase metade está entregue às graças das bolsas que compram o silêncio e o voto. Povo passivo, já se disse, é povo escravo. 

E, a outra parte deste povo, que é quem trabalha e estuda sem favores especiais,  e paga impostos que mantém este sistema maluco em pé, e que é a verdadeira classe média, não aquela coisa ridícula inventada pelo governo petista, não consegue entender que um Estado que retira mais de 37% do PIB em impostos, retorno ridículos menos de 2% deste montante!!! 

A realidade que vivemos começa a turvar-se e agonizar lentamente. Porém, o paciente jamais poderá reclamar de não ter sido avisado. Quando advertido, não quis ouvir. E quando a voz de advertência se tornou retumbante, preferiu silenciá-la.  

Até que se consumem as eleições e a posse do eleito, teremos um ano e meio de espera. Nada será feito capaz de mudar o rumo, o que teremos serão apenas efeitos especiais capazes de fantasiar a realidade, tornando-a mais colorida. Correto seria agir agora, para que o prejuízo a ser recuperado seja o menor possível. Mas acredito que este tempo será ocupado apenas e tão somente para atender ao projeto de poder do petismo. Azar dos brasileiros.  Afinal, foram eles que escolheram livremente estes governantes. É de se esperar que tenham aprendido a lição. Será? 

Governo perdido

O Estado de S.Paulo

A melhor imagem de um governo perdido é a fotografia da presidente Dilma Rousseff publicada nesse domingo no caderno de Economia e Negócios do Estado. Cabisbaixa, com a face apoiada na mão direita, olhar vago e expressão de desalento, sua figura é a ilustração perfeita para a principal cobertura econômica da edição - uma entrevista com um ministro da Fazenda acuado pelos fiascos e uma coleção de notícias e comentários sobre os tropeços federais. "O governo perdeu o rumo", sintetiza o título de um artigo do economista José Roberto Mendonça de Barros. A equipe econômica, informa outro texto, desistiu de anunciar metas ou previsões de crescimento, exportação, arrecadação, inflação e até de prazos para concessões de serviços de infraestrutura.

Apesar dos fracassos, tudo vai bem, recitam os funcionários mais importantes, mas o ministro Guido Mantega, entrevistado, recusou-se a formular uma nova previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, alegando o temor de ser "linchado em praça pública", se o número final apurado for diferente do projetado. Com um pouco mais de ousadia, a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, havia reiterado no começo do mês a expectativa de exportações em "patamar elevado, semelhante aos de 2011 e 2012".

Mas o valor exportado em 2012 foi inferior ao de 2011 e o deste ano, até maio, ficou abaixo do de um ano antes. Na melhor hipótese, portanto, repete-se o número de dois anos atrás?

Também no domingo, o Globo destacou a herança fiscal prevista para o próximo governo: subsídios ao BNDES e incentivos fiscais devem retirar R$ 50 bilhões do próximo governo em seu primeiro ano. A desordem nas contas públicas, lembra a reportagem, foi uma das razões alegadas pela agência Standard & Poor's para impor um viés de baixa à perspectiva econômica do Brasil - tema inicial da entrevista do ministro Mantega ao Estado. No mesmo dia, reportagem da Folha de S.Paulo vinculou à perda de popularidade e aos riscos eleitorais a mudança de política ensaiada pelo governo com a elevação dos juros básicos e a decisão de retorno ao câmbio flutuante.

A coincidência dos temas está longe de ser uma casualidade e tampouco resulta de uma conspiração da imprensa burguesa contra a reeleição da presidente. A cúpula do governo, segundo informaram fontes federais há mais de uma semana, percebeu o custo político da inflação elevada e resistente e decidiu aceitar o aperto mais forte da política monetária.

Essa mesma cúpula notou, com certeza, os sinais de mudança no mercado financeiro internacional e decidiu facilitar o ingresso de capital - um ato preventivo, em face do risco de um déficit crescente nas transações do Brasil com o exterior.

O governo, portanto, tem noção dos fracassos, fareja perigos e até encontra justificativas para ensaiar mudanças políticas sem admitir os erros, mas, apesar disso, continua incapaz de encontrar um novo rumo. Sua política fiscal permanece desastrosa. A gastança prejudica a eficácia da política monetária e dificulta o combate à inflação. A alta de preços, na versão oficial, perde impulso e em breve o problema terminará. Mas os fatos contrariam essa versão, porque desajuste real é muito mais grave que um choque de preços de efeito passageiro.

Incapaz de trocar o populismo, o fisiologismo e o voluntarismo por uma política econômica digna desse nome, o governo insiste na improvisação já denunciada até por alguns de seus técnicos. As desonerações devem chegar a R$ 72,1 bilhões neste ano e a R$ 91,5 bilhões em 2014, disse ontem o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland. Na semana passada, medida provisória sobre transferências ao BNDES já havia prenunciado mais buracos no Tesouro. De improvisação em improvisação, o governo continua desmontando os fundamentos da economia e compondo uma herança maldita para o próximo governo. Chega a parecer estranho a presidente insistir nessa política e ainda pretender a reeleição. Ou será apenas mais um desatino?

Semelhanças e coincidências

Rubens Barbosa
O Globo

O que explica essa disfunção é a política de coalizão

O país vive um momento de perplexidade. O crescimento diminui, o déficit público cresce e a inflação sobe. Os planos para construir uma nação mais inclusiva estão sendo postergados.

Na ausência de liderança política, decisões imperativas estão suspensas ou adiadas. A economia tem sofrido e a propaganda dos sucessos dos últimos anos disfarça as fraquezas reais.

A mudança da percepção externa e o pessimismo que se amplia sobre o país não levam em conta algumas de suas reais forças. A expansão de mercado interno, o vigor das empresas privadas, o fato de o Governo ainda ter muita margem de manobra e o otimismo e a confiança existente entre os que compõe a crescente classe media seriam pontos positivos.

O país tem todas as condições de entrar para o grupo dos pesos pesados da economia mundial. As projeções de crescimento de 5%, contudo, não se materializaram.

Em meados dos anos 90, o país se modernizou e uma série de medidas foram adotadas para reduzir os controles sobre a iniciativa privada e para gradualmente integrar o país na economia global, racionalizar sua estrutura tributária e oferecer um marco regulatório transparente.

O compromisso do governo no tocante ao crescimento que poderia beneficiar em muito a população tem sido inconsistente. A crescente presença do Estado começou a erodir o frágil consenso sobre o capitalismo e fez reaparecer a antiga associação entre capitalismo e corrupção.

Os gastos públicos aumentaram, mas devido a ineficiência e a corrupção, a maior parte dos recursos nunca chegaram aos setores que dele deveriam se beneficiar.

O sistema político está profundamente fragmentado, o que tornou o consenso difícil de ser alcançado. Por exemplo, a reforma tributária está paralisada há muitos anos. Além disso, uma série de escândalos está pondo a prova a integridade das instituições, como a Justiça e o Congresso.

A principal causa que explica essa disfunção é a política de coalizão. O maior partido abdicou de sua obrigação de tentar superar as dificuldades da politica doméstica e deixou de exercer o papel de liderança que dele se esperava.

Qualquer semelhança com um pais que conhecemos é mera coincidência. Se o leitor pensou que a descrição feita diz respeito ao Brasil, está sendo muito pessimista... A situação econômica descrita se refere a Índia, e resume em larga medida de forma literal artigo publicado na Foreign Affairs por Pratap Mehta.

Tanto na Índia quanto no Brasil, o grande desafio é superar o imobilismo e aprovar mudanças econômicas. Trata-se da superação das dificuldades politicas internas para aumentar a competitividade e a produtividade do pais.

Talvez se possa dizer dos indianos o que dizia Nelson Rodrigues: “O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro”.

Difícil travessia

Pedro S. Malan
O Estado de S.Paulo

Em artigo publicado neste espaço (14/3/2010) citei textos escritos por Antonio Palocci e Paulo Bernardo, que registraram seu reconhecimento da herança positiva que o governo Lula havia recebido do governo anterior. Segue o parágrafo que, à época, escrevi sobre os dois depoimentos: "O respeito aos fatos, claramente expresso por Bernardo e Palocci, se contasse com o respaldo das vozes mais sensatas de seu partido e do movimento lulista, representaria um avanço considerável em direção a um debate público mais sério e de melhor qualidade sobre o País e seu futuro. Um debate voltado para 'o que fazer' com vistas a assegurar a gradual consolidação do muito que já alcançamos como País e, principalmente, como - e com que tipo de lideranças - avançar mais, e melhor, no processo de mudança e de continuidade que nos trouxe até aqui".

A presidente Dilma, em seu discurso de posse, também teve um momento de generosidade para com governos anteriores, algo que Lula nunca se permitiu. E escreveu bela carta pública ao presidente FHC por ocasião de seus 80 anos, exatos dois anos atrás.

Não pretendia mais voltar a este tema após estes gestos. Mas o prematuro lançamento da campanha pela reeleição da presidente, com quase dois anos de antecedência, e, ao que tudo indica, o que vem por aí, a julgar pelas comemorações pelos "últimos dez anos", sugerem que voltarão à tona variantes retóricas do "nunca antes na história deste país". E, de novo, a tentativa de reescrever a história e estabelecer a data da primeira posse de Lula, em 2003, como o marco zero de uma suposta Nova Era.

A ideia de que, no mundo da política, o que importa é a versão, e não o fato, tem ampla disseminação entre nós. A aceitação dessa "máxima" tem implicações nada triviais para o debate público, em particular durante períodos eleitorais nos quais, como nas guerras, a verdade figura entre as primeiras vítimas.

Pois veja o eventual leitor: se o que realmente importa não são tanto os fatos, mas as versões sobre os mesmos, por vezes muito distintas e conflitantes, segue-se que as versões que tendem a predominar - pelo menos no prazo relevante para o calendário eleitoral - são aquelas mais constantemente repetidas, aquelas mais bem financiadas por esquemas profissionais dos departamentos de agitação, propaganda e marquetagem política.

Há quem diga que tudo isso é apenas efeito do calor da hora, expressão das vastas emoções que fazem parte natural de processos eleitorais em sociedades de massa. Para estes, passadas as eleições, e qualquer que seja o seu resultado, o País continuaria - à nossa pragmática maneira - a avançar em seus complexos processos de continuidade e mudança.

A propósito, meu último artigo neste espaço (Marcados descompassos) termina expressando a esperança de que o País possa melhorar a qualidade do debate público informado sobre crescimento, emprego e renda, com foco na imperiosa necessidade de aumentar, em muito, a produtividade e a competitividade internacional de suas empresas e a eficiência operacional do governo na gestão da coisa pública - aí incluídos os investimentos em infraestrutura...

Pois bem, a respeito desta última área, vale reler a longa entrevista concedida a este jornal seis meses atrás (2/1/2013) pelo presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), há muitos e muitos anos o homem-chave e de confiança de nossa presidente neste campo. Disse ele: "Se a gente pegar os planos nacionais de logística de transporte e de logística portuária e outros estudos do governo, teremos de investir perto de R$ 400 bilhões em cinco anos. Vamos dizer que tenho de investir outros R$ 20 bilhões para não gerar novo passivo e ser preventivo. Então a necessidade de investimento seria de R$ 100 bilhões por ano. Resolvendo isso, posso dizer que em cinco anos não teríamos mais problemas de infraestrutura". Deixo ao leitor avaliar, com base em sua experiência, quão crível é essa última assertiva.

Perguntado como seriam os próximos passos, disse o presidente da EPL: "Vamos avaliar todos os estudos preparados até agora e quantificar qual o investimento prioritário. A ideia é levar isso para o Conselho Nacional de Integração de Políticas de Transporte (Conit), que será formado pelo governo e pela iniciativa privada. Ele vai validar quais as ações prioritárias que faltam ser adotadas. A partir da validação do Conit, a EPL vai começar a preparar os projetos para execução. Aí, mais uma vez, voltamos ao Conit, que aprova ou não. Em 2013, também vamos fazer uma ampla pesquisa em todas as rodovias, ferrovias e portos para saber tudo o que é movimentado no País. Vamos simular como a rede se comporta. E aí identificar com mais precisão as prioridades". Deixo ao leitor avaliar quão eficaz é esse processo.

O presidente da EPL diz ainda: "A gente está fazendo 10 mil km de ferrovias, duplicando 5 mil km de rodovias, são R$ 50 bilhões para portos. O PAC tem R$ 20 bilhões para mobilidade urbana". E defende o trem de alta velocidade: "Precisamos resolver todos os problemas e um deles é como as pessoas se deslocam no eixo Rio-São Paulo". Deixo ao leitor avaliar o conjunto dos três últimos parágrafos à luz de sua vivência.

A entrevista foi concedida a este jornal quase seis meses atrás. Mas não se passaram somente estes meses. Passaram-se 10 anos, 5 meses e 10 dias desde que um mesmo governo está no poder, como quer a propaganda eleitoral oficial.

Desde junho de 2003 tenho o exorbitante privilégio de escrever nesta página, deste excelente jornal, que teve, tem e terá papel histórico no diálogo do País consigo mesmo. A generosidade de seus editores permitiu a publicação de cerca de 100 artigos ao longo destes 10 anos. O encorajamento de leitores me faz persistir.

A aposta certa

Raul Velloso
O Globo

O forte crescimento do consumo num mundo abundante em divisas e onde os mercados de industrializados são dominados fora do Brasil leva ao forte crescimento do setor serviços

A volta de um giro de apenas duas semanas em países menos desenvolvidos da Europa mostrou na carne como nossa infraestrutura é precária e inferior à do resto do mundo. Além disso, a leitura da mídia atrasada revela como a percepção sobre o desempenho econômico brasileiro vem se deteriorando nos últimos tempos. Essas coisas estão fortemente interligadas.

As condições caóticas que os brasileiros estão enfrentando na área de transportes mostram que os governos foram longe demais no abandono aos assuntos da área. Só se tem pensado em aumentar gasto corrente e, com exceção da fase 1995-2002, a postura das autoridades é claramente hostil ao investimento privado. Isso é muito curioso, pois se dá exatamente na hora em que os investidores mais preparados deveriam ser cortejados para suprir as deficiências da gestão pública com investimentos de alta qualidade.

Na economia, a queda dos investimentos e do crescimento do PIB mostram que o modelo exacerbado pró-consumo, que vem sendo idolatrado nos últimos tempos, já não tem mais vez. Ele se alimenta primeiro do gasto público corrente, cujo forte crescimento pressiona a carga de impostos para cima, sufocando o setor privado, e deixa o investimento em transportes de fora. Não é de hoje que o gasto público corrente cresce tanto. Mas só foi possível levá-lo agora aos píncaros por conta das reformas e ajustes que vieram com o Plano Real. Só que estamos de novo às vésperas de perder o controle sobre a dívida pública.

O modelo se alimenta também da forte expansão do crédito, que era muito baixo em 2002 e cujo peso no PIB já dobrou! Qualquer um percebe que essa parte da rota já se estreitou. Não há como um país suportar um crescimento tão forte do crédito para o resto da vida. Dentro de um modelo pró-consumo, uma hora falta produto ou serviço para entregar à demanda explosiva, e aí vem a inflação.

A terceira peça-chave do modelo pró-consumo é o forte crescimento da massa salarial que tem resultado de todo o processo recente, e que, no fundo, é a menina dos olhos do marketing governamental, pelo que implica em termos de ganhos de popularidade. Mas não há lanche grátis. Uma hora isso também bate na inflação.

O forte crescimento do consumo num mundo abundante em divisas e onde os mercados de industrializados são dominados fora do Brasil leva ao forte crescimento do setor serviços, incluindo os respectivos salários e emprego, pois não há como importar serviços em geral e é fácil importar os primeiros.

O aumento de salários resvala para os demais setores, onde a indústria tende a crescer menos por não poder pagá-los, mas felizmente a agricultura desempenha um papel crucial. Na indústria, são as importações que desempenham papel estratégico, para tristeza de seus defensores. Já na agricultura, como, ao contrário e talvez por consequência, os preços sobem lá fora, agradeçamos a Deus nossa forte vantagem comparativa na dotação de recursos (temos, inclusive, a maior área agricultável ainda não ocupada no mundo) e por termos sido capazes de desenvolver ou absorver tecnologias que nos tornaram campeões. Assim, a despeito dos altos custos da infraestrutura precária, temos crescido fortemente a produção agrícola e gerado empregos e as divisas adicionais que dão vida bem mais longa ao modelo pró-consumo.

O aumento do preço de serviços em relação aos da indústria equivale a uma apreciação real da taxa de câmbio, que passa a ser a sua tendência natural. E, num mundo abundante em capitais baratos, essa tendência só se acentua.

A agricultura aumenta a vida útil do modelo, mas, resumidamente, o seu esgotamento se mostra: 1 — pelo descalabro das contas públicas; 2 — pelos altos índices de inadimplência; 3 — pela tendência à apreciação cambial real, que sufoca particularmente a indústria; 4 — pelo encolhimento relativo desta, cuja força política é desproporcional à sua participação relativa no PIB; 5 — pela tendência à pressão salarial, agravada pelos baixos índices de desemprego atuais; 6 — pela alta inflação dos serviços, em que pese a ajuda, na maior parte do tempo, da apreciação cambial; 7 — pelo aparente término da fase de preços favoráveis das commodities de exportação.

Assim, a ênfase da política governamental tem de ser redirecionada do consumo para o investimento, e a infraestrutura, sob liderança privada, tem, obviamente, de ser o carro-chefe do novo processo. Primeiro, pelo caos existente, que não tem como ser resolvido sem maiores investimentos locais, que surgiriam naturalmente se o governo agisse de outra forma. Segundo, pelos ganhos de produtividade que são inerentes à expansão dos investimentos nesse segmento. Só que não adianta apenas anunciar planos de expansão. É preciso sair do discurso à ação, despindo a camisa ideológica antimercado e pró-eleição que tem prevalecido, e que desde 2007 tem produzido empreendimentos de baixa qualidade ou nenhum. Como é difícil cortar gasto corrente e há competência, disposição e recursos abundantes na área privada, por que não jogar todas as fichas nessa aposta?

Mudou pouco

Celso Ming
O Estado de SPaulo 

Algo mudou na política econômica. Mas será suficiente? O momento pede um choque positivo na economia. Ele virá? Afinal, o que já mudou?

Apesar de ainda estar sozinho nessa cruzada, o Banco Central, antes tão leniente com a inflação, agora decidiu partir para o ataque.

Na semana passada, o governo zerou o IOF cobrado na entrada de dólares para aplicações em renda fixa. Por trás da decisão, há uma mudança do jogo. Antes, a enxurrada de dólares Brasil adentro era vista com suspeita porque, em muitos casos, vinha ligada à especulação com juros que, de quebra, provocavam a valorização do real (baixa do dólar) que derrubou a indústria. Agora, os dólares são bem-vindos porque vêm ajudar a cobrir o rombo das contas externas.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciara, há duas semanas, que mudou a ênfase. Antes, a principal preocupação da política econômica foi puxar o consumo para que a produção e o investimento fossem atrás e, assim, houvesse mais crescimento. Mudou, anunciou Mantega, o alvo do governo; a prioridade deixou de ser o consumo das famílias e passou a ser o investimento.

Pergunta: Esses indícios mostram que o governo Dilma está disposto a uma política fiscal mais responsável e menos baseada em transferências de renda; a uma política monetária (política de juros) mais restritiva; e a propiciar maior equilíbrio nas contas externas?

O melhor que a presidente Dilma poderia fazer seria divulgar sua própria Carta ao Povo Brasileiro, a declaração solene assinada em 2002 pelo presidente Lula, em que se comprometeu a dar solidez aos fundamentos da economia, especialmente, por meio de uma política fiscal responsável e uma política de juros comprometida com o combate à inflação.

Embora venha tomando decisões de cunho mais ortodoxo, ainda não está claro que o governo esteja decidido a enveredar em direção a uma política econômica mais segura. O maior objetivo da presidente Dilma é chegar a outubro de 2014 com grande folga nas preferências eleitorais. Por enquanto, a percepção do governo é de que o caminho mais curto é evitar sacrifícios e esperar que a retomada dos investimentos produza frutos.

No entanto, a prioridade aos investimentos e uma política monetária mais apertada não entregam resultados imediatos. Provavelmente, não antes das eleições, como pretendido.

Também conspira contra isso uma política econômica de resultados pífios e perigosos, como os apresentados até aqui: crescimento econômico medíocre; inflação no teto da meta que corrói o poder aquisitivo e um rombo alarmante nas contas externas (déficit em transações correntes de 3,0% do PIB).

Por isso, se puder, o governo tentará evitar o uso de corretivos de custos sociais e políticos mais altos. Acionará os bombeiros onde houver foco de incêndio e procurará restabelecer um mínimo de confiança. E deixará para 2015 a aplicação de eventuais terapias de choque.

O risco é de que essa estratégia meia-boca não aguente o tranco que vem aí. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) prepara o desarme de sua política monetária expansionista; os capitais que antes fugiam tendem a procurar ancoragem lá mesmo nos Estados Unidos ou a voar para lá e, assim, fica bem mais difícil garantir financiamento para um rombo externo crescente.

Inflação e perda de popularidade

Editorial
O Globo

Pesquisa, somada à sinalização de rebaixamento do risco do Brasil e de várias empresas, entre elas algumas estatais, força governo a reavaliar política econômica

A frase “é a economia, idiota” foi criada por James Carville, estrategista da campanha vitoriosa de Bill Clinton, em 1992, contra George H. W. Bush, para ser uma das diretrizes a serem seguidas pelo candidato democrata. E funcionou. A economia americana estava em recessão, a crise serviu de munição eleitoral, e a maioria do eleitorado decidiu não dar o segundo mandato a Bush, pai daquele que viria a residir na Casa Branca oito anos depois. Desde então, a frase passou a constar das análises sobre chances de candidatos, virou bordão.

Neste fim de semana, a correlação entre o futuro da candidata à reeleição Dilma Rousseff e a situação da economia brasileira emergiu com força, ao ser divulgada pesquisa do Datafolha com a primeira queda de popularidade da presidente desde a posse, em janeiro de 2011. O índice de apoio a seu governo — a soma daqueles que o consideram “bom” e “ótimo” — caiu oito pontos, de 65%, em fins de março, para 57%, segundo pesquisa feita na quinta e sexta-feira da semana passada. O número continua robusto, nada que revogue a condição da presidente de favorita nas eleições do final do ano que vem. Mas será preciso acompanhar o sentimento do eleitorado nos próximos meses, já temeroso da volta da inflação, preocupado com o mercado de trabalho e a situação em geral da economia, segundo a própria pesquisa.

Como previsto, só resta ao governo evitar o desgarramento da inflação, no momento no limite superior da meta — 6,5%, um índice elevado, tanto que já assusta o eleitorado —, e trabalhar para a recuperação da economia em bases sólidas, via reativação dos investimentos. Descontadas as diferenças de época, Dilma se defronta com desafios semelhantes àqueles com que Lula se deparou ao assumir em 2003. Com o dólar nas alturas e a inflação já de volta aos dois dígitos, o novo presidente concordou com a aplicação do receituário clássico nestas circunstâncias (elevação de juros e corte de despesas), e assim evitou a desestabilização da economia. Em outra dimensão, é semelhante o desafio que a conjuntura atual da economia coloca à frente do governo Dilma. A fixação do risco do Brasil em viés de baixa pela agência Standard & Poor’s e, logo depois, o mesmo para 11 instituições financeiras, entre elas o Banco do Brasil e o BNDES, além de Eletrobras e Petrobras, confirma a percepção de que o discurso oficial, por definição sempre muito otimista, deixou de ser ouvido. Cada vez mais, Dilma precisa agir com os dotes de administradora, para imprimir velocidade aos investimentos públicos, por exemplo. No primeiro quadrimestre, eles ficaram estacionados em 1,51% do PIB, mesmo índice de idêntico período de 2012. E apenas R$ 22,9 bilhões foram investidos, apenas 17,6% do total autorizado pelo Orçamento, revelou O GLOBO.

Costuma haver uma defasagem entre a ação do governo e o efeito concreto das medidas. A política econômica atual, portanto, pode estar definindo os humores do eleitorado para daqui a um ano e meio.

Risco Brasil sobe 25% em um mês e é o maior em um ano

Fernando Nakagawa
O Estado de S. Paulo

Índice que mede a desconfiança dos investidores com o País voltou à casa dos 200 pontos-base

LONDRES - O aumento da desconfiança internacional com o Brasil começa a aparecer nos números. Diante do desconforto com a economia nacional, que culminou na recente piora da perspectiva da avaliação brasileira, o risco país passou a crescer rapidamente nas últimas semanas. Levantamento feito pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, mostra que o índice que mede a desconfiança internacional com o Brasil voltou à casa dos 200 pontos-base e está no maior patamar desde junho de 2012.

Calculado pelo banco JP Morgan, o índice Embi+ mostra a diferença de rentabilidade entre os papéis da dívida de um país na comparação com os Estados Unidos. Quanto pior a desconfiança dos investidores com um emissor, maior será o juro exigido para emprestar e, por isso, mais elevado será o risco país.

No caso brasileiro, o indicador está em clara tendência de alta. Passou de 173 pontos-base em 30 de abril para 202 em 31 de maio, 210 em 6 de junho (data do anúncio da mudança de perspectiva pela Standard & Poor’s) e 218 na sexta-feira. Esse é o maior patamar desde 28 de junho de 2012, quando o índice fechou o dia aos 219 pontos.

Apenas na quinta-feira, o risco Brasil subiu 2,4%. No acumulado da semana passada, a alta é de 8% e a subida alcança 25% no acumulado de 30 dias. Em pouco mais de seis meses de 2013, a alta atinge 47%.

O movimento de piora do risco país não é exclusividade brasileira. Outros emergentes têm movimento idêntico. No acumulado de 30 dias até a quinta-feira, o risco subiu 45% para a Colômbia, 35% para o Peru, 31% para a África do Sul, 26% para o México e 19% para a Rússia.

Economistas dizem que a principal razão para esse movimento é global e está relacionado à perspectiva de mudança da política monetária dos EUA. Após anos de dinheiro fácil e juros baixíssimos, a abundância de dinheiro ao redor do planeta fez com que as taxas caíssem nos principais mercados internacionais - isso ajudou na tendência de queda do risco país pelo planeta nos últimos anos.

Dinheiro barato. Com a recuperação da economia americana, a oferta de dinheiro barato tende a diminuir, o que já parece influenciar a oferta de financiamento aos emergentes. Nas últimas semanas, foi observada migração de recursos que estavam alocados em vários países em direção aos EUA. Nesse movimento, a venda de papéis em mercados como os emergentes reduz o preço de papéis desses mercados e, consequentemente, aumenta o juro pago nessa dívida. Por outro lado, a busca pelos EUA aumenta o preço de ativos naquele mercado e, no caso da renda fixa, reduz o juro. Ou seja, a diferença entre a rentabilidade paga pelos EUA e os demais países cresceu na esteira da migração de capitais.

"Para muitos participantes do mercado, a principal vítima de uma reversão da liquidez global serão os mercados emergentes", dizem os analistas do Morgan Stanley Research. Quem também observa o mesmo fenômeno é o economista do Deutsche Bank, Jim Reid. "No mercado de dívida, os CDS (seguro contra calote) de países asiáticos estão subindo com o enfraquecimento dos bônus e a continuidade da busca por moeda forte", diz, ao comentar que os EUA têm sido o destino preferencial desses recursos.

Brasileiro bonzinho?

Lya Luft
Revista  VEJA

Tempos atrás, num programa cômico de televisão, uma jovem americana radicada no Brasil, a cada comentário sobre violência ou malandragem neste país, pronunciava com muita graça: “Brasileiro bonzinho!”. E a gente se divertia.

Hoje nos sentiríamos insultados, pois não somos bonzinhos nem sequer civilizados. O crime se tornou banal, a vida vale quase nada. Poucos de meus conhecidos não foram assaltados ou não conhecem alguém assaltado: ser assaltado é quase natural – não só em bairros ditos perigosos ou nas grandes cidades, mas também no interior se perdeu a velha noção de bucolismo e segurança.

Em São Paulo, só para dar um exemplo, os arrastões são tão comuns que em alguns restaurantes o cliente é recebido por dois ou quatro seguranças fortemente armados, com colete à prova de bala, que o acompanham olhando para os lados – atentos como em séries criminais americanas. Quem, nessas condições, ainda se arrisca a esta coisa tão normal e divertida, comer fora?

Pessoas inocentes são chacinadas: vemos protestos, manifestações, choro e imprensa no cemitério, mas nada compensará o desespero das famílias ou pessoas destroçadas, cujo número não para de crescer. Em nossas ruas não se vê um só policial, daqueles que poucos anos atrás andavam em nossas calçadas. A gente até os cumprimentava com certo alívio. Não sei onde foram parar, em que trabalho os colocaram, nem por que desapareceram. Mas sumiram.

Morar em casa é considerado loucura, a não ser em alguns condomínios, e mesmo nesses o crime controla o porteiro, entra, rouba, maltrata, mata. Recomenda-se que moremos em edifícios: “mais seguros”, seria a ideia. Mas, mesmo nos edifícios, nem pensar, a não ser com boa portaria, ou será alto risco, diz a própria polícia, aconselhando ainda porteiros preparados e instruídos para proteger dentro do possível nossos lares agora precários.

Somos uma geração assustada, desamparada, confinada, gradeada – parece sonho que há não tanto tempo fosse natural morar em casa, a casa não ter cerca, a meninada brincar na calçada; e não morávamos em ilhas longínquas de continentes remotos, mas aqui mesmo, em bairros de cidades normais. Éramos gente “normal”.

Hoje, a população, apavorada, está nas mãos de criminosos, frequentemente impunes. Na desorganização geral, presídios superlotados onde não se criariam porcos também abrigam pessoas inocentes ou que nunca foram julgadas.

A impunidade é tema de conversas cotidianas, leis atrasadas ou não cumpridas nos regem, e continua valendo a inacreditável lei de responsabilidade criminal só depois dos 18 anos. Jovens monstros, assassinos frios, sem remorso, drogados ou simplesmente psicopatas saem para matar e depois vão beber no bar, jogar na lan house, curtir o Facebook, com cara de bons meninos.

Num artifício semântico insensato e cruel, se apanhados, não os devemos chamar de assassinos: são infratores, mesmo que tenham violentado, torturado, matado. Não são presos, mas detidos em chamados centros socioeducativos.

E assim se quer disfarçar nosso incrível atraso em relação a países civilizados. No Canadá, Holanda e outros, a idade limite é de 12 anos; na Alemanha e outros, 14 anos. No Brasil, consideramos incapazes assassinos de 17 anos, onze meses e 29 dias.

Recentemente, um criminoso de 15 anos confessou tranquilamente ter matado doze pessoas. “Me deu vontade”, explicou, sem problema, e sorria. “Hoje a gente saiu a fim de matar”, comentou outro adolescentezinho, depois de assaltar, violentar e matar um jovem casal junto com outro comparsa.

Esses e muitos outros, caso estejam em uma dessas instituições em que se pretende educar e socializar indiscriminadamente psicopatas e infratores eventuais, logo estarão entre nós, continuando a matança. Quem assume a responsabilidade? Ninguém, pois estamos em uma guerra civil que autoridades não conseguem resolver, uma vez que nem a lei ajuda.

Estamos indefesos e apavorados, nas mãos do acaso. Até quando?

Leviatã manda lembranças

Gaudêncio Torquato 
O Estado de S.Paulo

Incrível, porém verdadeiro. Cidadãos brasileiros estão sendo induzidos a praticar o "dedurismo", denúncia contra pessoas físicas e jurídicas e, desse modo, a fazer parte de um exército de agentes especiais que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão do Ministério da Fazenda, está organizando. Não se trata, como se pode pensar, da "delação premiada", que réus usam para obter vantagens judiciais em processos criminais a que se submetem. A iniciativa, que agita prestadores de serviços e operadores do Direito, chama a atenção pelo abuso contra princípios constitucionais.

Duas resoluções baixadas pela entidade (Resoluções 24 e 25, de janeiro de 2013), sob o escudo do combate aos crimes de lavagem de dinheiro, constituem o eixo da polêmica. Obrigam pessoas físicas ou jurídicas que prestem serviços de assessoria, consultoria, contadoria, auditoria, aconselhamento ou assistência em operações a fazer um cadastro de clientes e guardá-lo por cinco anos. A par da exigência de declarar bens ou serviços prestados no valor igual ou superior a R$ 5 mil, o "agente" que o conselho está criando é obrigado a "denunciar" seu cliente, caso, seis meses depois, este fizer nova operação que implique valor igual ou superior a R$ 30 mil. E se o prestador se recusar a entrar nesse "grupamento"? Será submetido a multa de até R$ 200 mil, cassação do registro profissional e vedação do exercício da atividade.

É mais que sabido que cabe ao Estado a tarefa de investigar, fiscalizar, controlar e combater todas as veredas que levam às ilicitudes, a partir do tráfico de drogas, de armas, lavagem de dinheiro, peculato, furtos e roubos. Passar o Brasil a limpo deve ser anseio contínuo dos órgãos públicos, o que demanda medidas e ações para defender a sociedade, investigar as máfias que agem nos intestinos do Estado e extirpar os tumores que corrompem os sistemas produtivos. A premissa se torna mais premente ante o paradigma do "puro caos", que o professor Samuel P. Huntington tão bem descreve em seu Choque de Civilizações: "Uma quebra no mundo inteiro da lei e da ordem, Estados fracassados, anarquia crescente, uma onda global de criminalidade, máfias transnacionais, cartéis de drogas, crescente número de viciados, debilitação generalizada da família, declínio na confiança e na solidariedade social em muitos países, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver predominando em grande parte do planeta". Tal moldura sugere a maximização de energias pelas estruturas que executam controles na frente das finanças. Mas qualquer ação ou medida há de se ajustar aos primados consagrados na Carta Magna.

Emerge, aqui, a primeira indagação: a ordem de obrigações e punições emanadas nas duas resoluções do Coaf fere ou não princípios da livre iniciativa e do sigilo de dados pessoais, garantidos na Constituição? O tributarista Raul Haidar lembra que apenas leis abrigam o poder de gerar obrigações e sanções. O princípio de que o direito deve se fundar na Constituição, jamais em medidas, decretos, resoluções e até em leis consideradas inconstitucionais, é um dos mais sagrados das Nações democráticas. Desvios e ilegalidades que ocorrem na vida institucional revelam muito sobre o estado civilizatório que o país atravessa. É o caso de enxergar um viés politiqueiro na planificação e execução de políticas de monitoramento do universo dos negócios, não se descartando a hipótese de que grupos, hoje imperando na administração pública, se esforçam para impor uma visão onipotente, onisciente e onipresente.

A onipresença fica patente na intenção escancarada de multiplicar os olhos do Big Brother, não deixando nenhum espaço fora de sua vista (George Orwell ficaria embasbacado); a onisciência se apresenta no modo unívoco de entender que o Estado encarna a moral, é a razão efetivada, um Todo ético organizado, na expressão de Hegel, não cometendo erros; e a onipotência se apresenta na atitude rude de rasgar a letra constitucional.

Mais uma observação. Ao contrário da cultura anglo-saxã, de rígida obediência a normas, a cultura tupiniquim usa frequentemente as curvas para se moldar aos climas impostos. Será que os inventivos controladores do conselho não imaginaram o cadastramento de operações falsas, malandragem para atrapalhar concorrentes? Perfis mafiosos ou de má-fé não produzirão denúncias apenas para embaralhar as cartas do jogo? É razoável a hipótese de que alguns, entre esses "agentes do Estado", agirão em causa própria, usando a norma para preencher conveniências pessoais. Na conta das probabilidades, não se descarta a beligerância entre amigos e clientes, quando uns descobrirem que outros apontaram o "dedo-duro".

Nessa moldura, entra bem a imagem de Sólon, um dos sete sábios da Grécia antiga, também conhecido como o pai da Democracia. Perguntaram a ele se as leis que outorgara aos atenienses eram as melhores. Respondeu: "Dei-lhes as melhores que podiam eles aguentar". A resposta do filósofo exprime moderação e clareza mental, valores que construíram a grandeza de Atenas. Ao longo da história da civilização, as Nações beberam nessa fonte de conhecimento, produzindo boas leis, plasmando bons princípios e sólidos valores sobre os quais repousam o edifício das liberdades e os fundamentos do Estado Democrático.

É o caso de indagar aos dirigentes do Coaf se as disposições que outorgaram aos brasileiros são condizentes com o império do Direito ou desenham a imagem do Leviatã, o monstro bíblico, cruel e invencível, plasmado pelo ideário absolutista de Thomas Hobbes. Talvez seja o caso de Suas Excelências refletirem sobre a lição de Montesquieu em seu Espírito das Leis: "A única vantagem que um povo livre exerce sobre outro é a segurança que tem de que o capricho de um ou de outro não lhe tirará seus bens ou sua vida. Um povo com esse bom senso seria tão feliz quanto um povo livre".

O general Newton Cruz mostrou há 30 anos como funciona o ‘controle social da mídia’ com que sonha a seita lulopetista

Augusto Nunes
Veja online

De passagem pela Argentina, entre um e outro olhar 171 na direção da companheira Cristina Kirchner, Lula festejou a ofensiva liberticida concebida para sufocar financeiramente o Grupo Clarín. “Podem vir todos os jornais, todos os canais de televisão que quiserem que não poderão negar o apoio que este governo tem”, caprichou na bravata ao discursar na inauguração de uma universidade controlada por sindicalistas. Na continuação do palavrório, sonhou acordado com a ressurreição da censura à imprensa no Brasil, disfarçada de “controle social da mídia” ou “regulamentação dos meios de comunicação”.

Faz dois anos e meio que deixei o governo”, choramingou o ex-presidente que ainda não desencarnou do Planalto. “Eu pensei que a nossa imprensa, no Brasil, fosse parar de falar mal de mim. Mas hoje falam mal de mim e da Dilma. Às vezes, eu tenho a impressão de que a imprensa está exilada dentro de nosso país. Está isolada. Quando nos criticam, dizem que é democracia, mas quando nós os criticamos dizem que estão sendo atacados”. (Segundo o Glossário da Novilíngua Lulopetista, “falar mal”  quer dizer divulgar, denunciar, investigar ou comentar escândalos protagonizados por militantes ou aliados do PT. Exemplo: “Faz 195 dias que alguns jornalistas falam mal de Lula e Rose”).

Dias depois da performance dedicada à viúva-de-tango, o palanque ambulante retomou no Peru o tema recorrente. Entre uma palestra de 100 mil dólares e uma conversa encomendada por benfeitores de campanhas eleitorais, o camelô de empreiteiro concedeu uma entrevista ao La Republica ─ e não perdeu a chance de reiterar a advertência: “Os companheiros da comunicação devem compreender que um canal de TV é concessão do Estado. E não se pode usar uma concessão para atuar como partido político. Não pode inventar fatos. Tem de contar a verdade”. (O alvo era o jornalismo independente. Ruim de mira, Lula acertou a testa da TV Brasil, o pé das emissoras do companheiro José Sarney e o fígado do jornal do parceiro Fernando Collor.)

Passados quase 30 anos, o ex-presidente ─ quem diria ─ invoca argumentos semelhantes aos utilizados pelo general Newton Cruz, então comandante militar do Planalto, para inaugurar em 17 de dezembro de 1983 o que o PT batizaria tempos depois de ‘controle social da mídia’. A estreia da censura com codinome ocorreu durante a entrevista coletiva convocada pelo general para prestar contas à nação sobre as medidas de emergência em vigor desde 19 de outubro daquele ano. Em tese, haviam sido decretadas “para preservar a ordem pública” em Brasília. Na prática, pretendiam inibir as manifestações populares que reivindicavam o restabelecimento das eleições diretas.

Já no começo da entrevista, o repórter Honório Dantas, da Rádio Planalto, fez a pergunta óbvia: o regime democrático sofrera um retrocesso? Como tem ensinado nos últimos anos o ex-jornalista Rui Falcão, o chefe militar achou que aquilo não era de interesse público. E partiu para o berreiro de botequim:

Que retrocesso coisa nenhuma! Que retrocesso? É constitucional. O que é democracia? Democracia é a aplicação da lei! A lei foi aplicada! Então, não houve retrocesso. Que modifique a lei, então. Que retrocesso coisa nenhuma! Isso daí é reproduzido em centenas de jornais, atinge milhões de brasileiros, uma única fonte dizendo falsidades! Atinge milhões de brasileiros e mais ainda: cada jornal reproduz como se fosse uma notícia sua! Vale dizer, sai de uma maneira num jornal, sai de outra maneira em outro jornal! Isso aí fica espalhado no Brasil todo! Fonte? Uma única – e falsidade!”

Resumo da gritaria: a culpa era da imprensa. Que, além de espalhar mentiras, também se atrevia a afrontar um patriota fardado, atesta a continuação do incidente inverossímil. Parece ficção. A gravação prova que é tudo verdade. O militar que os colegas chamavam de “Nini” (e o presidente João Figueiredo promoveu a “nosso Mussolini”) mostrou como funciona a censura com que sonham os lulopetistas.

Para ensinar que jornalistas não devem perturbar autoridades com perguntas incômodas, muito menos discordar do que diz a voz do poder, o entrevistado primeiro ordenou que o radialista calasse a boca ─ e sublinhou a ordem com um empurrão. Como o entrevistador continuou a falar, o entrevistado enlaçou com um braço o pescoço do inimigo e exigiu aos berros que pedisse desculpas. Nada como uma boa gravata para deixar claro que imprensa séria é imprensa a favor.

Depois da exibição do vídeo histórico no Jornal Nacional, o ex-metalúrgico que comandava o PT oposicionista declarou-se inconformado com o “comportamento antidemocrático” do general. Hoje, bastaria meia hora de conversa para que Lula e Nini descobrissem que são amigos de infância. Os intolerantes ─ todos ─ nasceram uns para os outros.



Acendeu no PT a luz amarela

Ricardo Noblat

"Par délicatesse J'ai perdu ma vie", escreveu Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, poeta francês que viveu e brilhou na segunda metade do século XIX.

Aos 20 anos, encerrou sua produção literária. Morreu de câncer aos 37.

"Por delicadeza eu perdi minha vida" são seus mais famosos versos, repetidos pelos que se valem deles para lamentar algo importante que perderam. Ou para reafirmar a disposição de não perder.

No último fim de semana, depois de examinar com preocupação os resultados da mais recente pesquisa de opinião do Instituto Datafolha, um petista erudito declamou os versos de Rimbaud para garantir que por elegância seu partido não perderá a vida. 

Foto: Jorge William / O Globo


Ou melhor: o poder.

Nem daqui a pouco nem a perder de vista. Afinal, que partido entregaria o poder sem oferecer severa resistência?

De março para cá, a aprovação do governo Dilma caiu oito pontos. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde que ela se elegeu.

Dilma perdeu popularidade entre homens e mulheres, em todas as regiões do país, em todas as faixas de renda e em todas as faixas etárias.

A causa? A volta da dobradinha inflação em alta e crescimento econômico em baixa.

O brasileiro está pessimista.

Acendeu a luz amarela dentro do PT.

Os partidos existem para alcançar o poder - e uma vez que alcancem, lá se conservarem, empenhados em fazer o melhor por seus governados.

Na democracia devem ao povo o que conquistaram. E somente o povo poderá retirá-los de onde estão.

Por delicadeza, há dois meses, Lula antecipou a campanha presidencial do próximo ano. Atendeu a um pedido da própria Dilma.

Era véspera de mais um aniversário do PT. Lula pretendia sair em caravana pelo país. E Dilma detectara movimentos favoráveis ao lançamento da candidatura dele à sua vaga.

Para eleger Dilma em 2010, Lula inventara que ela era uma excelente gestora. Superior até mesmo a ele.

Chegou ao ponto de sugerir que dividira com Dilma o comando do governo no seu segundo mandato. Um exagero compreensível.

Por maior que fosse seu prestígio, não bastaria a Lula pedir votos para Dilma. Era preciso fornecer um pretexto para que a maioria dos brasileiros elegesse presidente quem nunca disputara uma eleição.

Quem já rejeitara disputar uma, argumentando que não tinha "perfil de candidata".

E quem por falta de sorte vira falir uma loja onde tudo que ali se vendia custava apenas R$ 1,99.

Dilma jamais foi uma gestora excepcional - a verdade é essa. Foi apenas uma aplicada gerente. E com um grave defeito que compromete o desempenho de qualquer gerente: o gosto pela centralização.

Nada se faz em seu governo sem que ela seja ouvida antes.

Em certas ocasiões, Dilma pede para ler antes discursos que seus ministros pronunciarão mais tarde.

Ultimamente, deu de interferir até nas rotas do Boeing presidencial. Detesta turbulências. Passou a entender de aviação para poder evita-las.

A certa altura, o câncer que atingiu as cordas vocais de Lula ameaçou o sonho cultivado por ele de substituir Dilma - em 2014 ou em 2018. Curado, Lula acompanha as dificuldades de Dilma para governar o país.

Nem gerente sintonizada com as exigências dos tempos modernos, muito menos gestora admirável. Atrapalhada na condução da economia. Um rotundo desastre no exercício cotidiano da política.

Por delicadeza, o PT se arriscará a ser desalojado do poder caso Dilma corra de fato o risco de vir a ser derrotada?

Cresce entre os partidos aliados  a torcida por enquanto silenciosa pela volta de Lula.

Dilma é temida.

Amada?

Bem, só se for por Aloizio Mercadante, ministro da Educação.

Em momento ruim, Dilma revê olhar político e econômico

Brasil Econômico  
Com  Jeferson Ribeiro, Luciana Otoni e Silvio Cascione, Agência  Reuters

Dilma já começou a trilhar um caminho mais ortodoxo na política econômica.


Economia fraca e ressentimentos na base aliada dificultam atuação da presidente, que terá de se esforçar para garantir a reeleição.

A presidente Dilma Rousseff está no pior momento de seu governo, encurralada por uma economia fraca e ressentimentos na base aliada. Diante do cenário, ela terá de adotar um tom ainda mais conservador na política econômica e desencantar as promessas de maior interlocução com os partidos que a apoiam.

Dilma já começou a trilhar um caminho mais ortodoxo na política econômica, embora analistas afirmem que um aperto fiscal ainda é o elo perdido no conjunto de medidas adotadas nas últimas semanas.

No Congresso, terreno pantanoso para a presidente desde sua posse, o governo tem buscado alterar parte do receituário. Mas como Dilma acenou com mudanças na relação com os aliados em outros momentos, deputados e senadores ainda estão ressabiados diante da percepção de que podem estar novamente diante de uma promessa vazia.

Parte da mudança passa por aumentar o ritmo de liberação de emendas parlamentares, negociar previamente com as lideranças temas mais espinhosos e ampliar a dose de atenção com os aliados, com convites para viagens e inaugurações pelo país, repartindo parte do capital político.

"Esse é o pior momento do governo. Se compararmos o bloco dos oito anos do governo Lula e dos dois anos e meio do governo dela, pior do que esse momento só mesmo aquele processo do mensalão", disse à Reuters o cientista político Carlos Melo, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

Após crescer apenas 0,9% no ano passado, a economia está novamente frustrando as expectativas. No primeiro trimestre, a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 0,6% frente o período anterior. A inflação oficial está no teto da meta do governo, acumulando alta de 6,50 por cento em 12 meses até maio.

Para combater o cenário ruim, a equipe econômica mudou o tom. O Banco Central iniciou um ciclo de aumento do juro e o governo eliminou parte das barreiras cambiais existentes.

As mudanças, no entanto, ainda não foram suficientes para agradar ao mercado financeiro. E maisuma notícia negativa surgiu com a agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixando a perspectiva da nota da dívida brasileira para "negativa", citando preocupações com o afrouxamento fiscal, entre outros motivos.

"Esse rebaixamento da perspectiva da nota do Brasil é um sinal de alerta para o governo de que a opção pela política econômica heterodoxa não deu certo", disse o estrategista-chefe do Banco WestLB do Brasil, Luciano Rostagno.

"O problema é que a gente está a pouco mais de um ano das eleições presidenciais, e o ajuste necessário para restabelecer essa credibilidade junto ao mercado passa necessariamente pela política fiscal, que sofreu forte deterioração nos últimos anos."

Há críticas dentro do próprio governo ao excesso de intervencionismo e estímulos setoriais seguidos, que estariam deixando empresários em compasso de espera para investir, na expectativa de também serem beneficiados.

Ainda Favorita
Até o fim do mês, o Ibope deve divulgar uma nova pesquisa para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre a aprovação do governo.

Essa sondagem deve balizar os próximos passos de Dilma e de seus prováveis adversários na eleição do ano que vem -o senador mineiro Aécio Neves (PSDB), o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e a ex- senadora Marina Silva, que tenta fundar um novo partido.

O cenário atual, embora desfavorável para o governo, ainda indica favoritismo de Dilma na disputa eleitoral. Isso porque o nível de emprego está elevado e os adversários da presidente ainda não mostram força.

"A conjuntura econômica não é boa, não é alvissareira, mas a minha avaliação é que também não é desastrosa, olhando do ponto de vista eleitoral especificamente para 2014", disse o analista Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores.

Uma vitória em outubro do ano que vem, no entanto, não será tão fácil como se esperava há alguns meses.

"O que estamos vendo é que 2014 deve ser mais competitivo do que em 2010", disse o analista Rafael Cortez, da Tendências Consultoria Integrada.

Lula se movimenta como nunca, buscando apoio e se fortalecendo para sair candidato

Carlos Newton
Tribuna da Imprensa

É impressionante a movimentação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva visando à sucessão presidencial de 2014. Sob a égide do Instituto Lula, ele vem cumprindo uma agenda muito apertada, em âmbito nacional, que inclui palestras em entidades sindicais e empresariais.

Ao mesmo tempo, o ex-presidente está se fortalecendo dentro do PT, através de sucessivas reuniões com os filiados mais antigos e de maior prestígio. Tem procurado se encontrar também com destacados militantes que se afastaram do partido, inclusive alguns que divergiram dele e dos rumos de seu governo.

Outra preocupação de Lula é se reaproximar das centrais sindicais, que começam a descolar da presidente Dilma Rousseff e têm criticado o governo pelos excessos nas políticas  de privatização e de terceirização de serviços públicos.

Como a intermediação do governo Dilma Rousseff com as centrais sindicais está a cargo do ministro da Secretaria-Geral Gilberto Carvalho, essa aproximação de Lula fica facilitada, porque todos sabem que Carvalho é o principal representante do ex-presidente no atual governo.

CENTRAIS SINDICAIS
A CUT e as demais centrais estão apertando o cerco contra a tramitação do Projeto de Lei 4.330/2004, que, a pretexto de regular as atividades, amplia a terceirização, ao possibilitar trabalho terceirizado nas atividades-fim.

Na terça-feira, pela manhã, as centrais farão nova rodada de conversações com o ministro Gilberto Carvalho, na mesa permanente de negociações. Principal ponto de pauta: terceirização.

As centrais denunciam que pressão empresarial colocou o projeto novamente na agenda da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, esta terça-feira, e a CUT está organizando uma manifestação de protesto. A concentração será na CUT Nacional em Brasília (Quadra 1, Bloco i, Ed. Central, 6º andar).

Os manifestantes partirão para a Câmara dos Deputados por volta das 13h30, e a manifestação será às 14h30, no Anexo II da Câmara dos Deputados, Plenário 1.

Ver a CUT se posicionando livremente parece uma volta ao passado. Agora só falta a UNE colocar os estudantes na rua.

Pressão sob medida

João Bosco Rabello
O Estado de SPaulo

A queda no favoritismo da presidente Dilma Rousseff com vistas à reeleição em 2014 permanece na pauta política tão somente como uma aposta futura da oposição, mas a cada dia alimentada por fatores que têm merecido a preocupação dos estrategistas do governo. Ao desarranjo da economia, que se espera temporário, soma-se a crise na base aliada deflagrada pela antecipação da campanha, com reflexos na aliança nacional.

O que explica parte das turbulências produzidas pela base aliada no Congresso, especialmente pelo PMDB, decidido a preservar seu patrimônio eleitoral. Nesse contexto, o alvo é menos Dilma e mais o PT, com o qual disputa o apoio presidencial nos palanques regionais.

A pressão do PMDB , pelo menos por ora, não deve ser lida como um roteiro para a ruptura, mas como uma cobrança à presidente pelo fim do que o partido considera um comportamento de favorecimento ao rival na aliança, sintetizado no estímulo a candidaturas concorrentes e na liberação seletiva de emendas, instrumento caro aos parlamentares para exibir realizações em suas bases eleitorais.

A presidente parece ter entendido o recado, embora não tenha permitido que o partido lhe imponha um "script" de como agir. Sinais claros nesse sentido foram a admissão de reunião exclusiva com a cúpula do PMDB, sem outras testemunhas, para ouvir diretamente suas queixas, em contraste com os vetos que se seguiram a trechos da MP dos Portos que contrariam interesses do partido.

Os problemas da presidente, porém, não se esgotam na relação com a base e nem estão restritos à questão econômica. O que assombra também a candidata Dilma são fantasmas que já se apresentaram na eleição de 2010, com bandeiras representativas de questões cuja postergação pelo Estado brasileiro encontrou seu limite exatamente em seu mandato. São temas como o aborto, casamento gay, a disputa entre índios e produtores, com forte vínculo religioso a desafiar o enfrentamento da laicidade do Estado.

A antecipação da campanha precipita também o debate dessas questões, de forte potencial de desgaste ao menor equívoco no seu tratamento. Em princípio, a linha menos arriscada - e mais saudável institucionalmente - é a legalista, do Estado laico, cujo ônus é o confronto com os segmentos religiosos de imensa influência num eleitorado majoritariamente conservador.

O drama do debate deve ser do Congresso - que a ele se furta, igualmente, há anos - com a arbitragem do Poder Judiciário. Mas ainda assim, a opção por essa linha não evita a cobrança pela posição pessoal dos candidatos em relação a cada tema e nem sua exploração pelos Felicianos de plantão.

Incentivos de Dilma deixam herança indesejada para o próximo governo

Martha Beck e Henrique Gomes Batista 
O Globo

Subsídios ao BNDES e incentivos oficiais retiram R$ 50 bi do próximo governo em seu 1º ano

BRASÍLIA e RIO — Os incentivos dados pelo governo da presidente Dilma Rousseff para turbinar a economia — ainda sem muito efeito — vão custar caro para o próximo governo. As sucessivas desonerações e repasses para o BNDES têm impacto sobre as arrecadação para além de 2014 e, segundo especialistas, quando combinados com despesas elevadas, podem se transformar numa herança indesejada. Cálculos feitos pelo GLOBO, com base nas principais renúncias fiscais e nos custos com o BNDES, mostram que o novo governo deixará de contar com cerca de R$ 50 bilhões em seu primeiro ano. Assim, a piora nas contas públicas, um dos motivos citados pela agência de classificação de riscos S&P para pôr a avaliação do Brasil em perspectiva negativa, tende a se acentuar.

No caso da desoneração da folha de pagamento de mais de 50 setores e produtos, embora oficialmente tenha data para acabar (dezembro de 2014), tem caráter permanente, segundo o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega. A medida gera renúncia anual acima de R$ 20 bilhões. Há ainda o impacto de ações como a redução de tributos sobre a cesta básica, de R$ 7,3 bilhões por ano; sobre tarifas de transporte público, de R$ 1,2 bilhão; o aumento das faixas de enquadramento das empresas no Simples, mais R$ 5,3 bilhões; e mudanças na regra do regime do lucro presumido, de R$ 1 bilhão. Juntas, as medidas representam renúncia de R$ 34,8 bilhões, sendo que o número pode ficar maior considerando que o governo também vem utilizando tributos regulatórios como o IPI e o IOF para calibrar o mercado e adotando incentivos temporários com reflexo nas contas de 2015, como o Reporto e o Plano Nacional de Banda Larga.

Os especialistas reconhecem que os incentivos têm um papel importante para dar mais competitividade à indústria nacional e elevar os investimentos, mas alegam que o governo age de maneira errática — reduzindo tributos temporariamente e depois prorrogando, como fez com o setor automotivo. E não atua na contenção de despesas. O resultado disso aparece no superávit fiscal primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública), que vem sendo cumprido com manobras como a antecipação de dividendos de estatais:
— Não sei o real valor do superávit primário, pois a cada ano o governo tem feito maquiagem contábil. É como se eu vendesse os meus salários pra mim mesmo e, com o resultado, vou gastar, normalmente em bobagem, isso é uma artimanha — afirma o economista Joaquim Elói Cirne de Toledo.

— O ( resultado) fiscal é a grande preocupação para o futuro. E os incentivos do governo não têm conseguido fazer a economia reagir — disse Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.

Professora da UFRJ: lei fiscal acabou
Outra conta salgada vem de subsídios a operações do BNDES. Em 2012, o valor chegou a R$ 12,7 bilhões e, diz o economista Mansueto Almeida, do Ipea, deve se manter alto. O dinheiro do Tesouro é captado no mercado com juro maior que o cobrado pelo banco de fomento. Isso gera um custo e o Tesouro acaba pagando essa diferença. Ou seja, arca com a equalização de parte dos empréstimos do banco.

Almeida lembra que, em 2009, só R$ 44 bilhões em empréstimos do BNDES eram passíveis de equalização pelo Tesouro. Já este ano o montante é de R$ 320 bilhões. A preocupação com isso já levou o Ministério da Fazenda a editar uma portaria no final do ano passado na qual os subsídios apurados em 2013 e 2014 só precisam ser ressarcidos ao BNDES em 2015.

— Isso significa que boa parte dessa despesa está sendo postergada para o próximo governo, que vai assumir num cenário de superávit primário menor, despesas correntes elevadas e baixa arrecadação. Ele praticamente não terá espaço fiscal — explica Almeida.

Felipe Salto, da Tendências Consultoria, estima que o custo com os subsídios do BNDES ficará em torno de R$ 15 bilhões para os próximos anos:

— A herança será o desequilíbrio fiscal.

A política fiscal pode prejudicar a redução da dívida. A meta de superávit primário deste ano é de R$ 155,9 bilhões (3,2% do PIB), mas o governo adiantou que abaterá R$ 45 bilhões do total e propôs esforço menor de estados e municípios.

Governo vê legado positivo
Para Cirne de Toledo, como o governo está economizando menos, a relação entre dívida e PIB pode parar de cair este ano e até subir em 2014. O mercado é mais otimista: projeta estabilização desse indicador a partir de 2016.

— Nunca vi uma deterioração tão grande das instituições e das contas públicas. A Lei de Responsabilidade Fiscal, na prática, não serve mais para nada — disse a professora da UFRJ, Margarida Gutierrez. — A situação pode piorar. O governo propôs uma Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) acabando com metas de superávit de estados e municípios. O país desistiu de ter política fiscal efetiva.

Para os técnicos do governo, a atual estratégia fiscal deixará para o próximo presidente um legado positivo: relação dívida/PIB declinante, redução nos custos de administração e menos carga tributária. Segundo um integrante da equipe econômica, as desonerações e outras medidas estão sendo feitas para dar mais competitividade à indústria brasileira e estimular investimentos. Ele alega que as medidas podem representar perda momentânea de receitas que depois voltarão aos cofres com a dinamização da economia:

— O legado será o de um país menos desigual, um país de classe média, de mais emprego formal. A atual política implica maior formalização que volta para a economia. Será um legado de menos juros e com mais crescimento.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O senhor Toledo fala de um legado que, na verdade, ainda está para acontecer. Olhando-se pelo lado da desigualdade, houve avanços, mas eles começaram lá atrás, a partir do Plano Real, aumentos reais do salário mínimo e dos programas sociais implementados pelo Comunidade Solidária, obras do governo FHC.
Porém, o Brasil ainda permanece como um dos países mais desiguais, com uma das piores distribuições de renda do munda. Há muito que avançar, antes de qualquer comemoração neste sentido.

Quanto a tal classe média, que o senhor Toledo me desculpe, mas ele embarcou numa canoa furada criada pela marquetagem do governo petista.

Não existe a tão propalada "classe média". O que se viu foi uma manipulação estatística vergonhosa e indecente, quando se reduziu ao mínimo as faixas de renda da classe média original para abrigar os 30 milhões que se diz, mentirosamente, haver ingressado na classe média. Neste ponto, se legado houver é o da mentira.

Quanto ao emprego formal, infelizmente, pelo não crescimento da economia, o que se gerou foram milhões de empregos de baixa qualificação e salários irrisórios que bancaram até a explosão de consumo.  É justamente o desequilíbrio entre oferta e demanda que contribui, em grande parte, para a ressurreição da escalada inflacionária.

Assim, tem-se, até pelos indicadores oficiais, que lo legado que remanescerá do governo Dilma é uma brutal desarrumação da economia, o crescimento da insegurança jurídica, e um descontrole absurdo das contas públicas que irão obrigar o próximo governante a consumir metade do seu mandato em uma austera política de controle fiscal, reduzindo investimentos.

E este legado, senhor Toledo, tem um nome bem conhecido: herança maldita, cuja consequência maiaor será impor certa estagnação econômica por um bom período de tempo.

“Política fiscal está errada”, diz Gustavo Franco

Beatriz Olivon
Exame.com

Para o ex-presidente do Banco Central, a inflação não cai no Brasil por causa da forma como a política fiscal é conduzida

Divulgação
Gustavo Franco: 
"Não sei de onde veio a teoria de que a situação fiscal brasileira era boa, nesse momento
 começaram a liberar demais a despesa e a situação, que não era boa, ficou ruim", afirmou

São Paulo – Para Gustavo Franco, a inflação não cai no Brasil por causa da condução da política fiscal. A política fiscal está errada, segundo o ex-presidente do Banco Central (entre agosto de 1997 e janeiro de 1999, no governo de Fernando Henrique Cardoso). “Não sei de onde veio a teoria de que a situação fiscal brasileira era boa. Nesse momento começaram a liberar demais a despesa e a situação, que não era boa, ficou ruim”, afirmou.

Para o economista, que é filiado ao PSDB, com a Dilma, o governo do PT assumiu uma identidade mais próxima do que foram os ideais teóricos do próprio partido. “O governo Lula, em política macroeconômica parecia-se mais com o governo FHC e agora as diferenças se acentuaram, num momento em que a economia começa a piorar”, disse.

No final do ano, o estrategista-chefe da Rio Bravo e um de seus sócios fundadores lançou o livro “As Leis Secretas da Economia”, para, com 74 leis, mostrar que a economia brasileira obedece a leis próprias.

EXAME.com - Algumas “leis” do livro falam sobre previsões e expectativas que acabam não se concretizando. Recentemente, isso aconteceu com a projeção do crescimento do PIB. O que significa esse desacerto?
Gustavo Franco - O desacerto nas previsões é inevitável porque, como digo no livro, é a “lei de Malan”: o futuro tem por ofício ser incerto, e eu diria que o passado, às vezes, também. Diante dessa incerteza estrutural da economia, qualquer previsão sempre está fadada ao erro, o melhor que você faz é jamais trabalhar com previsão. A economia é um exercício coletivo e comportamentos das coletividades tem por natureza serem incertos. O que fez o atual ministro da Fazenda [Guido Mantega] foi mais a fixação de uma meta para si que uma previsão, embora não tenha apresentado dessa forma, o que teria sido mais prudente. Ele fala o número e vira previsão, é um pequeno erro que se transforma depois em uma coisa cara para ele. Mas foi uma meta frustrada, ele trabalhou para um crescimento maior e falhou. É até pior. Ficaria menos ruim se fosse anunciado dessa forma [como uma meta pessoal]. A previsão, na verdade, pressupõe uma capacidade que as pessoas não tem, ela é, em si, um ato presunçoso. É mais humilde ter uma meta.

EXAME.com - Em junho, a inflação acumulada em 12 meses poderá ultrapassar novamente o teto da meta. Porque o Brasil não consegue baixar a inflação?
Gustavo Franco - Porque a política fiscal está errada, é muito simples. Nos vínhamos com uma política fiscal no limite do que era estabelecido, com superávit primário de 3%, que dava um déficit administrável. Tínhamos uma situação precária que estava sob controle e foi essa a situação herdada pela administração do PT. As metas fiscais não foram modificadas nos primeiros anos. Não sei de onde veio a teoria de que a situação fiscal brasileira era boa, nesse momento começaram a liberar demais a despesa e a situação, que não era boa, ficou ruim. O que é mais doído é perceber que as autoridades fizeram de propósito, acreditando no que estavam fazendo, aumentaram os gastos públicos, pioraram o déficit público, achando que isso era bom para a economia. Foi um erro e agora estamos pagando – com a possibilidade de downgrade, inclusive.

EXAME.com - Qual pode ser o impacto de um rebaixamento do rating do Brasil?
Gustavo Franco - Piora tudo. A percepção de uma piora ampla é captada muito na retórica dos empresários, que falam muito em perda de confiança, de credibilidade e nada anda, a economia de mercado depende de confiança. Se você está inseguro, sobretudo em razão de políticas de governo que são erráticas ou erradas mesmo, nada anda, estamos com o país praticamente parado. O PIB não anda, economia não cresce, isso com a economia em pleno emprego, sofremos um período de expectativas deterioradas.

EXAME.com - Uma das leis apresentadas no livro fala que “a inflação machuca (aleija), mas o balanço de pagamentos mata”, como ela pode ser entendida hoje?
Gustavo Franco - A lei reflete um pensamento de que como os problemas causados pela inflação como estão dentro de casa, você sempre pode empurrar com a barriga, mas o da balança de pagamentos não dá para empurrar com a barriga. Esse é o sentido da lei. Ficou pior hoje em dia, você não consegue mais empurrar com a barriga o doméstico. É verdade que a balança de pagamentos mata, talvez seja verdade que a inflação também mata.

EXAME.com - O Brasil tem que escolher entre desemprego baixo e inflação baixa?
Gustavo Franco - Não, de jeito nenhum, esse é o tipo de discussão que havia lá atrás. Essa é uma discussão que ficou para trás, suposta escolha entre estabilidade ou crescimento, não existe isso, você pode ter as duas coisas, é só fazer as coisas certas. É a política fiscal que está errada, a gastança está descontrolada, politizada, sem lógica e fora de proporção.

EXAME.com - Nessa semana, o Ministro da Fazenda falou que o investimento, que cresceu no primeiro trimestre, terá expansão de até 7% esse ano. O Brasil tem condições de ter esse crescimento?
Gustavo Franco - Não. O nível de investimentos ainda é muito baixo, ridiculamente baixo. O Brasil é um país de baixo investimento há muitos anos, esse crescimento de agora não quer dizer nada, teríamos que crescer por muitos anos para o Brasil ter crescimento consistente. Não creio que isso vai acontecer em um futuro próximo porque vivemos um momento de falta de confiança todo o mundo empresarial fala isso. Não é o momento de esperar grandes iniciativas empresariais de expansão de capacidade. Mas entendo que o governo festeje a estatística do primeiro trimestre.