Martha Beck e Henrique Gomes Batista
O Globo
Subsídios ao BNDES e incentivos oficiais retiram R$ 50 bi do próximo governo em seu 1º ano
BRASÍLIA e RIO — Os incentivos dados pelo governo da presidente Dilma Rousseff para turbinar a economia — ainda sem muito efeito — vão custar caro para o próximo governo. As sucessivas desonerações e repasses para o BNDES têm impacto sobre as arrecadação para além de 2014 e, segundo especialistas, quando combinados com despesas elevadas, podem se transformar numa herança indesejada. Cálculos feitos pelo GLOBO, com base nas principais renúncias fiscais e nos custos com o BNDES, mostram que o novo governo deixará de contar com cerca de R$ 50 bilhões em seu primeiro ano. Assim, a piora nas contas públicas, um dos motivos citados pela agência de classificação de riscos S&P para pôr a avaliação do Brasil em perspectiva negativa, tende a se acentuar.
No caso da desoneração da folha de pagamento de mais de 50 setores e produtos, embora oficialmente tenha data para acabar (dezembro de 2014), tem caráter permanente, segundo o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega. A medida gera renúncia anual acima de R$ 20 bilhões. Há ainda o impacto de ações como a redução de tributos sobre a cesta básica, de R$ 7,3 bilhões por ano; sobre tarifas de transporte público, de R$ 1,2 bilhão; o aumento das faixas de enquadramento das empresas no Simples, mais R$ 5,3 bilhões; e mudanças na regra do regime do lucro presumido, de R$ 1 bilhão. Juntas, as medidas representam renúncia de R$ 34,8 bilhões, sendo que o número pode ficar maior considerando que o governo também vem utilizando tributos regulatórios como o IPI e o IOF para calibrar o mercado e adotando incentivos temporários com reflexo nas contas de 2015, como o Reporto e o Plano Nacional de Banda Larga.
Os especialistas reconhecem que os incentivos têm um papel importante para dar mais competitividade à indústria nacional e elevar os investimentos, mas alegam que o governo age de maneira errática — reduzindo tributos temporariamente e depois prorrogando, como fez com o setor automotivo. E não atua na contenção de despesas. O resultado disso aparece no superávit fiscal primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública), que vem sendo cumprido com manobras como a antecipação de dividendos de estatais:
— Não sei o real valor do superávit primário, pois a cada ano o governo tem feito maquiagem contábil. É como se eu vendesse os meus salários pra mim mesmo e, com o resultado, vou gastar, normalmente em bobagem, isso é uma artimanha — afirma o economista Joaquim Elói Cirne de Toledo.
— O ( resultado) fiscal é a grande preocupação para o futuro. E os incentivos do governo não têm conseguido fazer a economia reagir — disse Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.
Professora da UFRJ: lei fiscal acabou
Outra conta salgada vem de subsídios a operações do BNDES. Em 2012, o valor chegou a R$ 12,7 bilhões e, diz o economista Mansueto Almeida, do Ipea, deve se manter alto. O dinheiro do Tesouro é captado no mercado com juro maior que o cobrado pelo banco de fomento. Isso gera um custo e o Tesouro acaba pagando essa diferença. Ou seja, arca com a equalização de parte dos empréstimos do banco.
Almeida lembra que, em 2009, só R$ 44 bilhões em empréstimos do BNDES eram passíveis de equalização pelo Tesouro. Já este ano o montante é de R$ 320 bilhões. A preocupação com isso já levou o Ministério da Fazenda a editar uma portaria no final do ano passado na qual os subsídios apurados em 2013 e 2014 só precisam ser ressarcidos ao BNDES em 2015.
— Isso significa que boa parte dessa despesa está sendo postergada para o próximo governo, que vai assumir num cenário de superávit primário menor, despesas correntes elevadas e baixa arrecadação. Ele praticamente não terá espaço fiscal — explica Almeida.
Felipe Salto, da Tendências Consultoria, estima que o custo com os subsídios do BNDES ficará em torno de R$ 15 bilhões para os próximos anos:
— A herança será o desequilíbrio fiscal.
A política fiscal pode prejudicar a redução da dívida. A meta de superávit primário deste ano é de R$ 155,9 bilhões (3,2% do PIB), mas o governo adiantou que abaterá R$ 45 bilhões do total e propôs esforço menor de estados e municípios.
Governo vê legado positivo
Para Cirne de Toledo, como o governo está economizando menos, a relação entre dívida e PIB pode parar de cair este ano e até subir em 2014. O mercado é mais otimista: projeta estabilização desse indicador a partir de 2016.
— Nunca vi uma deterioração tão grande das instituições e das contas públicas. A Lei de Responsabilidade Fiscal, na prática, não serve mais para nada — disse a professora da UFRJ, Margarida Gutierrez. — A situação pode piorar. O governo propôs uma Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) acabando com metas de superávit de estados e municípios. O país desistiu de ter política fiscal efetiva.
Para os técnicos do governo, a atual estratégia fiscal deixará para o próximo presidente um legado positivo: relação dívida/PIB declinante, redução nos custos de administração e menos carga tributária. Segundo um integrante da equipe econômica, as desonerações e outras medidas estão sendo feitas para dar mais competitividade à indústria brasileira e estimular investimentos. Ele alega que as medidas podem representar perda momentânea de receitas que depois voltarão aos cofres com a dinamização da economia:
— O legado será o de um país menos desigual, um país de classe média, de mais emprego formal. A atual política implica maior formalização que volta para a economia. Será um legado de menos juros e com mais crescimento.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O senhor Toledo fala de um legado que, na verdade, ainda está para acontecer. Olhando-se pelo lado da desigualdade, houve avanços, mas eles começaram lá atrás, a partir do Plano Real, aumentos reais do salário mínimo e dos programas sociais implementados pelo Comunidade Solidária, obras do governo FHC.
Porém, o Brasil ainda permanece como um dos países mais desiguais, com uma das piores distribuições de renda do munda. Há muito que avançar, antes de qualquer comemoração neste sentido.
Quanto a tal classe média, que o senhor Toledo me desculpe, mas ele embarcou numa canoa furada criada pela marquetagem do governo petista.
Não existe a tão propalada "classe média". O que se viu foi uma manipulação estatística vergonhosa e indecente, quando se reduziu ao mínimo as faixas de renda da classe média original para abrigar os 30 milhões que se diz, mentirosamente, haver ingressado na classe média. Neste ponto, se legado houver é o da mentira.
Quanto ao emprego formal, infelizmente, pelo não crescimento da economia, o que se gerou foram milhões de empregos de baixa qualificação e salários irrisórios que bancaram até a explosão de consumo. É justamente o desequilíbrio entre oferta e demanda que contribui, em grande parte, para a ressurreição da escalada inflacionária.
Assim, tem-se, até pelos indicadores oficiais, que lo legado que remanescerá do governo Dilma é uma brutal desarrumação da economia, o crescimento da insegurança jurídica, e um descontrole absurdo das contas públicas que irão obrigar o próximo governante a consumir metade do seu mandato em uma austera política de controle fiscal, reduzindo investimentos.
E este legado, senhor Toledo, tem um nome bem conhecido: herança maldita, cuja consequência maiaor será impor certa estagnação econômica por um bom período de tempo.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O senhor Toledo fala de um legado que, na verdade, ainda está para acontecer. Olhando-se pelo lado da desigualdade, houve avanços, mas eles começaram lá atrás, a partir do Plano Real, aumentos reais do salário mínimo e dos programas sociais implementados pelo Comunidade Solidária, obras do governo FHC.
Porém, o Brasil ainda permanece como um dos países mais desiguais, com uma das piores distribuições de renda do munda. Há muito que avançar, antes de qualquer comemoração neste sentido.
Quanto a tal classe média, que o senhor Toledo me desculpe, mas ele embarcou numa canoa furada criada pela marquetagem do governo petista.
Não existe a tão propalada "classe média". O que se viu foi uma manipulação estatística vergonhosa e indecente, quando se reduziu ao mínimo as faixas de renda da classe média original para abrigar os 30 milhões que se diz, mentirosamente, haver ingressado na classe média. Neste ponto, se legado houver é o da mentira.
Quanto ao emprego formal, infelizmente, pelo não crescimento da economia, o que se gerou foram milhões de empregos de baixa qualificação e salários irrisórios que bancaram até a explosão de consumo. É justamente o desequilíbrio entre oferta e demanda que contribui, em grande parte, para a ressurreição da escalada inflacionária.
Assim, tem-se, até pelos indicadores oficiais, que lo legado que remanescerá do governo Dilma é uma brutal desarrumação da economia, o crescimento da insegurança jurídica, e um descontrole absurdo das contas públicas que irão obrigar o próximo governante a consumir metade do seu mandato em uma austera política de controle fiscal, reduzindo investimentos.
E este legado, senhor Toledo, tem um nome bem conhecido: herança maldita, cuja consequência maiaor será impor certa estagnação econômica por um bom período de tempo.