Adelson Elias Vasconcellos
O Bolsa Família pode ser chamado de tudo, menos de “programa social”. O mais correto seria programa de distribuição de renda, ou programa de renda mínima, aliás, antigo projeto do senador paulista Eduardo Suplicy.
Programa social tem começo, meio e fim e exige uma condição inicial de fragilidade econômica e social. Oferece um pacote de benefícios extra-trabalho e exige em troca, o cumprimento de uma série de quesitos e deveres que os beneficiados deverão observar. Tais deveres têm por objetivo, primeiro, melhorar os indicadores sociais destas pessoas – em consequência, do próprio país -, e, segundo, que os mesmos beneficiados tenham ascensão pessoal de tal modo que possam, rapidamente, ou num prazo razoavelmente curto, não mais depender dos benefícios ou benesses que o programa oferece. São as chamadas “portas de saída”.
Voltando no tempo, o programa original que, dentre outros, originou o Bolsa Família, o Bolsa Escola, no seu ápice chegou a atingir 6 milhões de famílias, deixando como herança um cadastro pormenorizado de outras 6 milhões para serem contemplados numa segunda etapa.
Ao Bolsa Escola foram incorporados outros quatro programas sociais, criados e implementados pelo Comunidade Solidária, no governo FHC, e em outubro de 2003 transformaram-se no atual Bolsa Família.
A diferença não está apenas na junção de cinco programas num único pacote. Acontece que aqueles cinco programas tinham objetivos claros e definidos. O PETI, por exemplo, tinha por meta erradicar o trabalho infantil. Com efeito, a partir de 1995, observa-se gradativa queda no números de crianças em atividades laborais. O Bolsa Escola, por outro lado, tinha como objetivo universalizar a matrícula e frequência das crianças no ensino básico. De fato, de 82% em 1994, o Brasil saltou para 96%, em 2002, em seu universo de crianças matriculadas no ensino básico.
E o Bolsa Família visa o que propriamente? No fundo, visa a fornecer renda mínima e fica por aí. Ora, existe um valor mínimo de renda, abaixo do qual as pessoas podem se cadastrar e se habilitar. Assim, os beneficiados praticamente não se obrigam a nada.
Já comentamos aqui inúmeras vezes que, fosse o Bolsa Família um programa realmente social, e dez anos após sua criação, ao invés do número de beneficiados ter aumentado – hoje são cerca de 13 milhões de famílias – teria diminuído. Portanto, ou o programa não oferece as tais portas de saída, isto é, não tem metas para serem alcançadas, o que leva as pessoas a acomodação, ou ele, de fato, não é um programa social, se caracterizando mais como um programa de renda mínima. E, neste segundo caso, esta renda seria o mínimo fixado para as pessoas ingressarem no programa.
Claro que as pessoas tendo alguma renda, tendem a ter um melhor padrão de vida, não mais tão miserável quanto antes. Mas, é de se perguntar: isto basta para tornar o Bolsa Família num programa social? Onde está a qualificação individual para permitir que os beneficiados possam atingir situação tal que as liberte do programa?
Os adultos , por exemplo, qual o programa de qualificação profissional que lhes é exigido, ou mesmo um de alfabetização? Tal inserção deveria ser obrigatória. Não é. Assim, não se aprimorando nem se qualificando, que condição terá esta pessoa para se libertar do programa?
Quanto às crianças, que qualidade de ensino lhes é dada e que incentivo lhes é oferecido para iniciarem e concluírem tanto o ensino básico quanto o médio? Sabe-se que a evasão escolar ainda é uma chaga. Cerca de 50% dos jovens não concluem o ensino médio, o que chega a ser assustador, já que pouca qualificação terão na idade adulta. Pouca qualificação significa baixa produtividade e, em consequência, baixos salários.
De nada vale a ministra Tereza Campello vir desdenhar ou se opor ao estudo do IDH afirmando que os dados sobre o Brasil estão desatualizados. Se os dados de todos os países estivessem num mesmo nível de atualização, a posição brasileira pouco diferiria da atual e países com muito menor potencial e riqueza do que o nosso gozariam de uma qualidade melhor do que a nossa.
Da mesma forma, quando se critica a forma como o programa Bolsa Família está configurado, não se está a defender o fim do programa, e sim sua melhor adequação a um plano de metas para que os brasileiros possam atingir tamanho grau de qualidade de vida que possam dispensar a ajuda estatal. A pergunta que se impõem é: quer a atual elite política que governa o país, que os pobres alcancem tal condição? Ou a perpetuação da dependência lhes interessa por razões meramente eleitoreiras?
Pelo tempo que está em vigor, o Bolsa Família já deveria ter atingido sua curva descendente no número de beneficiados. Contudo, o que se observa é justamente o contrário, isto é, ano após ano, o número de dependentes só aumenta.
As críticas que parte dos integrantes do PNUD faz ao Bolsa Família está, portanto, correta. O programa, e isto é inegável, tem seus méritos na medida em que reduz as situações de extrema pobreza em que vivem milhões de pessoas. Mas ele é insuficiente para elevar estes milhões a uma condição de independência em relação ao programa em si, ou seja, não fornece alternativas para que estes milhões de beneficiados ascendam de forma positiva não apenas ao mercado de consumo, mas se permitam conquistar uma qualidade de vida superior, andando com suas próprias pernas. e não será apenas com auxilio pecuniário raquítico que conquistará tal condição.
Deveriam nossas autoridades ser menos refratárias à crítica que se faz, não apenas ao programa Bolsa Família, mas, de modo geral, às políticas públicas. Quando se fala em “reforma da previdência”, por exemplo, logo os vigaristas do populismo rombudo se arvoram para atacar os críticos, acusando-os de defenderem a eliminação de direitos dos trabalhadores. Nada mais estúpido. Nesta edição, vimos reportagem dando conta que, em 2015, se projeta que a Previdência irá consumir mais de R$ 400 milhões no pagamento de benefícios variados. Isto equivale a um semestre inteiro de recolhimento de impostos, sem que um tostão sequer seja destinado para salários, educação, saúde, segurança, saneamento e manutenção da máquina pública. Isto é insustentável. Não podemos continuar crescendo miseravelmente como nestes três últimos anos, e continuar aumentando o pagamento de benefícios previdenciários. E ainda resta sustentar o pagamento de benefícios sociais.
Precisamos, portanto, sair da armadilha em que estamos mergulhados e, aperfeiçoar o que já existe e produz resultados positivos, é um dos caminhos alternativos para tornar o crescimento não apenas mais virtuoso, mas benéfico para todos. Somente por aí, o país poderá sonhar com IDHs de primeiro mundo. Se isto requer a adoção de medidas impopulares, que então sejam tomadas, pois o resultado final justifica.
E mudar, não é apenas mudar as promessas, os discursos e ofertas de paraísos artificiais. É mudar o pensamento, a ideologia que alimenta a governabilidade do país. Ao se opor de forma estúpida aos críticos que apontam as necessidades de mudanças, este governo já comprova, de per si, de que não está apto para provocar e impor as mudanças que o Brasil está a exigir. É irrelevante, deste modo, se o governo contesta ou concorda com estudos feitos por organismos internacionais, tanto no plano econômico quanto no social. O que ele não consegue mudar, nem no discurso – apesar de tentar - nem com ações práticas, é desfazer a realidade que se exibe aos olhos de todos, no dia a dia. Pretender, como fez a senhora Rousseff, acabar com a pobreza por decreto, ou baixar juros no grito, ou reduzir as tarifas de energia no berro e coice nas canelas, só serve para comprovar a sua inabilidade e incompetência como mandatária maior do país.
Neste último ranking do IDH, em que subimos apenas um degrau na escada, sinaliza que o programa Bolsa Família precisa acelerar a realização de suas metas, o ritmo de melhorias precisa andar mais rápido. E como avançar com um governo que condena o país a crescimentos ridiculamente baixos do PIB, contra inflação e juros altos? Neste últimos anos, o governo jogou nos cofres do BNDES mais de R$ 300 bilhões e, no entanto, o investimento caiu e o crescimento não apareceu.
Portanto, ao contrário do que o terrorismo petista divulga, quando se fala em aperfeiçoar o Bolsa Família, ninguém está defendendo o fim do programa. Ao contrário. Estamos falando de impor mudanças que tornem as metas que o programa deveria ter em algo palpável, pleno de ser realizado e numa velocidade maior. E isto significa tornar a vida dos mais pobres melhor e com melhor qualidade. Ou será que os pobres não sonham em melhorar de vida, em serem donos do próprio nariz?
Inegável que o Brasil teve avanços no campo social, porém, eles não aconteceram apenas de 2003 para cá. Começaram antes. O relatório evidencia esta evolução, destacando o período em que as mudanças aconteceram. Mas os desafios a serem enfrentados são imensos e, sem crescimento econômico, a missão se torna quase impossível.
O cenário do Brasil deste ano de 2014 é de um país confuso, sem rumo, sem perspectiva, sem projeto, sem ambição de crescimento, com indicadores econômicos em franca deterioração, com dívida pública que não para de crescer, com um governo atabalhoado e perdido por não encontrar na sua caixinha de feitiçarias as palavras mágicas para tirar o país do atoleiro. Está mais do que claro que, se a sociedade quer e pede mudanças, elas somente acontecerão se mudarem os feiticeiros. Os truques do governo atual se tornaram ridículos e sequer são capazes de provocar um singelo efeito visual.
Um último detalhe: no comparativo usado pela ONU para medir a evolução dos indicadores sociais foram consideradas as estatísticas do período de 1980 a 2013. É saudável saber que o Brasil começou a melhorar antes do PT chegar ao poder, e não apesar do PT. Aliás, destaco este trecho do levantamento para reflexão: “...Entre 2000 e 2013, o crescimento do IDH brasileiro foi de 0,67% ao ano, em média – abaixo da média mundial, de 0,74%. Entre 1990 e 2000, o índice havia sido de 1,1%...”
Conclusão: com o PT, a velocidade de melhoria social foi menor do que na década anterior, com FHC e apesar de Collor.
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