sábado, dezembro 25, 2021
NO NATAL RENASCE NOSSA HUMANIDADE
Um maravilhoso Natal no folclore brasileiro ainda resiste ao consumismo do Papai Noel
Paulo Peres
Tribuna da Internet
Um das festa populares mais conhecidas é o Bumba-meu-boi
Imunes à parafernália dos símbolos natalinos europeus de neves, Papai Noel, trenós, renas e pinheiros, algumas regiões brasileiras ainda conseguem fazer um Natal adequado a nossa cultura popular, sob o verão dos trópicos. A tradição natalina dos brasileiros manifesta-se, autenticamente, nos cantos e danças inventados pela imaginação criadora do povo para acrescentar novas informações ao legado de nossos antepassados índios, negros, portugueses.
Bois de pano e couro, cangaceiros, reis, rainhas, palhaços, embaixadoras e pastoras saúdam o nascimento do Menino com fé, ingenuidade e a peculiar alegria brasileira. Uma festa bem diferente das realizadas nos grandes centros de consumo.
TROCAS CULTURAIS –Há vários folguedos no ciclo natalino, que se inicia em 24 de dezembro e se estende até 6 de janeiro, com a Festa de Reis. Cerimônias, rituais e coletivas, resultantes da trocas culturais entre os indígenas, africanos e portugueses, são encenadas em todo o país, sempre com peculiaridades locais: reisado, guerreiro, bumba-meu-boi, pastoris e folia de reis ou santos reis.
O bumba-meu-boi, por exemplo, aparece em festas natalinas nos Estados de Pernambuco, Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. Já no Maranhão, Piauí, Pará e em alguns municípios do Rio de Janeiro, ele aparece nas festas juninas e, em outras regiões, no carnaval e em eventos próprios, como no Festival de Parintins, no Amazonas com o nome de boi-bumbá.
Nota-se que o folguedo tem diferentes denominações por onde passa: boi-bumbá, boi-de-mamão e boizinho, com diferenças em figurantes, vestimentas e episódios.
FIGURA PRINCIPAL – O boi, no centro da roda, é a atração principal. Um homem, escondido sob um arcabouço de taquara, madeira ou arame, recoberto por pano de chita ou veludo, faz a figura mover-se e dançar. A cabeça, esperta em assustar e investir contra as crianças, é de papelão, madeira ou caveira aproveitada de animal.
Os figurantes dançam ao ritmo da batucada (pandeiros, sanfonas e violas), instrumentos improvisados conforme o gosto e as condições dos participantes.
O tema consiste num boi que dois vaqueiros guardam e um deles sacrifica em momento de raiva. Outra variante, é a presença da mulher Catarina, que tem desejo de comer a língua do boi, geralmente, roubada de um rico fazendeiro, condenando-o assim a morrer. No meio da confusão são requisitadas as presenças do doutor, para salvar o animal e do padre-capelão, para benzer o moribundo.
Muitos personagens intervêm, sempre dançando. Marinheiros, soldados, cangaceiros, palhaços, cavalo-marinho (capitão), ema, caipora, alma do outro mundo. Bichos complicados e não identificados, como o jaraguá e o guariba, surgem no meio do espetáculo, fruto da criatividade da imaginação popular.
TUDO É FESTA – No decorrer da trama acontecem cenas de todos os tipos, revelando as mais variadas influências, sempre satirizando a vida local. Como tudo é festa, o boi acaba ressuscitando depois de inúmeras peripécias. Só as “damas” e os “galantes” não riem e não dão o troco às diabruras dos personagens que declamam, exclusivamente, “loas” ao Menino Jesus.
Já os reisados, com características teatrais, têm maior expressão no Nordeste, além de Minas Gerais e São Paulo. Suas origens remontam ao vasto ciclo de representações derivadas das “janeiras” e “reis” portugueses, autos comemorativos da natividade.
Seus integrantes saem às ruas cantando e dançando, ao som da sanfona, tambor e pandeiro. Suas roupas são artisticamente preparadas e muito atraentes: saiotes axadrezados, capas de cetim enfeitadas com galões dourados e prateados, guardas-peito guarnecidos de lantejoulas, contas, espelhinhos brilhantes. Na cabeça, chapéus ornamentados com espelhos redondos, flores e fitas coloridas.
ENTRAM NAS CASAS – Na “abrição da porta”, um dos rituais do folguedo, pedem para entrar nas casas e tecem louvores aos proprietários. Após as visitas, é hora do teatro, exibido ao público em praça ou local apropriado.
O enredo é um sincretismo entre os “reis” portugueses e as “congadas” de origem africana. O grupo canta, dança e declama. O espetáculo, em forma de revista, dramatiza estórias em que se misturam amor e guerra, religião e história local.
O número e as características dos personagens variam conforme a região em que é representado, sendo mais comuns o rei, a rainha, os embaixadores, os palhaços, além de figuras idealizadas como o lobisomem, o urso, o corcunda, o zabelê e o bumba-meu-boi.
OUTROS FOLGUEDOS – Em 1920, surgiu em Alagoas a Festa dos Guerreiros, como criação local e variante do reisado, embora mais ricos em trajes e episódios. Com o tempo, as representações praticamente substituíram o auto do reisado, reunindo influências também dos caboclinhos e pastoris, que introduziram novos personagens como a lira e o índio Peri. O Mestre é a figura principal do folguedo.
Sob influência portuguesa, o auto do pastoril ou pastorinhas é praticado na Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas, mas no Natal aparece em outras regiões do país. As pastoras, geralmente, em número de doze, dividem-se em dois grupos, chamados cordões, um azul e o outro vermelho encarnado, cores que ostentam nas vestes. Sobre a cabeça levam chapéus de palhinha, filó ou diademas e, nas mãos, arcos ou bastões cobertos de flores e fitas coloridas.
As duas primeiras pastoras de cada cordão recebem o nome de mestra (azul) e contramestra (vermelho). Entre os dois cordões dispostos em fila, um ao lado do outro, fica Diana, a mediadora, trajando metade vermelho e metade azul. Todas cantam e dançam.
As “jornadas” têm como tema o nascimento de Jesus Cristo e os desafios entre os dois cordões. Cada grupo procura a melhor forma de exaltar suas pastoras e prestam homenagens às flores, símbolo das cores que ostentam, a rosa e o cravo.
FOLIA DE REIS – As festas natalinas de Minas Gerais, São Paulo e em alguns municípios do Rio de Janeiro mantêm viva a tradição da folia de reis ou companhia dos santos reis. O folguedo procura reproduzir a viagem dos Reis Magos a Belém para adorar o Menino Jesus, enquanto os palhaços mascarados tentam desviá-los do caminho apontado pela Estrela do Oriente.
Além do sentido bíblico, as folias têm também a função de “pagar uma promessa” ou “alcançar uma graça”. Por isso, é necessário que elas saiam às ruas por um período mínimo de sete anos, depois dos quais os foliões estão “desobrigados” com a folia.
Os foliões partem à meia-noite do dia 24 de dezembro e encerram sua jornada no Dia de Reis, 6 de janeiro. A caminhada é realizada somente aos sábados, domingos e feriados. À frente da folia segue a bandeira, o estandarte empunhado e defendido pelos “alferes”. É ela o símbolo maior, com rosas artificiais que emolduram estampas religiosas, quase sempre os Magos montados em camelos sob a luz da Estrela do Oriente.
O que sabemos sobre São José, o pai de Jesus — e as dúvidas a respeito de sua biografia
Edison Veiga
De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO
José idoso na época do nascimento de Jesus, em quadro de Jean Bourdichon
Quando se fala sobre uma figura que viveu há 2 mil anos, é natural que seja difícil comprovar fatos elementares de sua biografia. Se esta pessoa tinha uma vida simples e morava em uma região pobre, as chances de registros oficiais preservados caem consideravelmente.
Se o personagem acabou se tornando um dos elementos básicos de uma religião — no caso, o cristianismo — é altamente provável que lendas se somem às verdades, e tudo isso ajude a compor não mais uma biografia, mas uma hagiografia.
Por isso que São José, o homem de Nazaré que teria sido marido de Maria, mãe de Jesus, tem sua história recheada de controvérsias. Teria ele realmente sido carpinteiro? Era mesmo um senhor idoso quando se casou com a jovem Maria?
"Tudo o que sabemos a respeito de José se baseia em três tipos de fontes: os evangelhos que falam dele, o material que chamamos de [textos] apócrifos e a tradição", explica o historiador, filósofo e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Juntando tudo isso temos alguma informação a respeito da pessoa de José."
Ele constata, entretanto, que se trata de uma pessoa "bastante controvertida", já que mesmo os textos canônicos — aqueles relatos que integram a bíblia contemporânea — apresentam algumas discrepâncias nas poucas informações a respeito da figura paterna humana da criação de Jesus.
"Na bíblia ele é sempre apresentado como um homem justo, essa é a expressão recorrente", diz o vaticanista Filipe Domingues, doutor pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e vice-diretor do Lay Centre em Roma.
De acordo com as escrituras, Maria era uma moça virgem prometida em casamento a ele. Quando ele percebe que Maria estava grávida, conclui que é de outro homem e, para não expô-la para a sociedade, planeja deixá-la em segredo.
"Em sonho, e isso é uma característica forte de São José, o anjo explica a ele que Maria está grávida do Espírito Santo. Ele aceita essa situação e, consequentemente, aceita o papel de pai adotivo de Jesus", contextualiza Domingues.
O vaticanista explica que essa construção da imagem de José é a tônica: de um homem forte, que em sonho ouvia a voz de Deus.
"E ele não fala, não tem fala de José na bíblia, mas apenas fala sobre ele. Portanto, pode ser considerado um homem silencioso, sereno, introspectivo", analisa.
"Era uma pessoa de ouvir e agir, de ação."
Doutor pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o estudioso de narrativas e documentos sobre santos Thiago Maerki pontua que "sabemos pouco sobre São José porque os evangelhos oficiais nos apresentam poucos momentos da vida dele".
"José viveu em Nazaré, na Galileia. Os evangelhos se referem a ele aclamando-o como 'homem justo' escolhido por Deus para ser o pai amoroso de seu filho Jesus, ao casar-se com Maria", resume o pesquisador e estudioso da vida de santos José Luís Lira, fundador da Academia Brasileira de Hagiologia e professor da Universidade Estadual Vale do Aracaú, do Ceará.
"José passou pela provação da gravidez de Maria, de quem ele era noivo, mas não era o pai do filho dela", pontua Lira.
CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO
José mostrando seu trabalho a Jesus, em quadro de Georges de La Tour
111 anos, muita saúde, todos os dentes na boca
Se faltam palavras a respeito de José nos chamados textos canônicos, há informações importantes que pesquisadores coletaram nos chamados textos apócrifos, relatos sobre o período de Jesus que foram redigidos nos primeiros séculos da era comum e acabaram não sendo reconhecidos como basilares do cristianismo.
O mais completo e importante desses relatos é o texto chamado de História de José, o Carpinteiro, possivelmente escrito entre os séculos 6 e 7.
Ali, esse trabalhador nazareno é apresentado como uma figura mais velha, um homem viúvo já pai de algumas crianças.
Maria, ainda menina, é encarregada de ajudá-lo a cuidar dos filhos. Nesse sentido, quando ela atingisse a idade de 14 anos e meio, eles deveriam se casar.
E é nesse contexto que Maria engravida de Jesus e toda a narrativa cristã se principia.
Um dos aspectos mais curiosos desse texto é que, nele, a morte de José é descrita — quando ele tinha impressionantes 111 anos.
"E o texto ressalta que ele tinha uma ótima saúde, com todos os dentes intactos e tendo trabalhado até seu último dia de vida, o que mostra certo vigor apesar da idade avançada", pontua Maerki.
Sobre a morte, aliás, o relato apócrifo recupera essa ideia de um homem que era sempre avisado e orientado pela voz divina.
"Ele teria sido avisado por um anjo da morte", diz o pesquisador.
"Muito provavelmente isso não tem nenhum fundamento", admite Moraes.
"Mas ajuda a consolidar uma série de coisas. É um texto de pelo menos 1,4 mil anos sobre uma figura controvertida, que é José, sobre quem os evangelhos não dizem muito. Pela tradição, até para preservar o dogma da virgindade de Maria, faz sentido montar a cena de uma jovenzinha com um sujeito muito mais velho."
"A última vez que a bíblia fala a respeito de São José é no episódio do encontro de Jesus no templo, quando ele tinha 12 anos de idade", assinala Lira.
"Quando Jesus inicia sua vida pública, com mais de 30 anos, não se fala mais em José. Numa das pregações de Jesus anunciam que sua mãe ali estava, mas não José. E no momento da crucificação fica claro que Maria era viúva e Jesus a confia a João, evangelista, que dela cuidou daquele dia em diante."
"Isto posto, não se pode afirmar quando ele morreu", conclui o hagiólogo.
Para Lira, "a fonte mais segura" sobre a biografia de José é o pouco que está escrito nos evangelhos.
"Existem outras fontes como os apócrifos, com destaque para a História de José, o Carpinteiro, escrito em copta entre os séculos 6 e 7", lembra.
O pesquisador, contudo, acredita que o documento seja um relato de "duvidosa veracidade", enfatizando que a "própria língua copta surgiu no Egito no século 3, muito depois, portanto, da passagem de José na Terra".
"Eu diria que [o livro apócrifo] é um romance. Muitos foram os escritos de santos, teólogos, historiadores, mas nenhuma fonte é mais segura do que os evangelhos", analisa.
CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO
Teria sido José realmente carpinteiro?
Profissão
Dentro da construção de José no imaginário contemporâneo, um elemento que se faz presente é o aspecto profissional. José era o carpinteiro.
Jesus era o filho do carpinteiro. José era o trabalhador dedicado e Jesus teria aprendido o ofício com o pai, tendo-o praticado até o início de sua missão evangelizadora.
Essa narrativa parte dos textos bíblicos, a partir das traduções consolidadas, e é carregada de elementos da tradição.
Moraes observa que o termo utilizado para descrever José nos textos gregos antigos, contudo, não deixam claro o ofício exato praticado por ele.
"É uma palavra meio genérica, no mundo antigo, para significar artesão ou qualquer profissão de trabalho braçal. O que ele fazia especificamente é muito difícil dizer", comenta o professor.
"A tradição optou por chamá-lo de carpinteiro. Pode ter sido? Pode, mas pode ter sido qualquer trabalhador braçal. Era um fabricante, um artesão, um técnico que fazia alguma coisa. Tanto que depois sua imagem fica vinculada ao trabalho, sendo ele reconhecido como patrono dos trabalhadores na tradição católica", completa ele.
"[O termo carpinteiro] é da tradução. O que a gente sabe é que ele fazia trabalhos manuais", contextualiza Domingues.
"Aí há a discussão: se ele tinha um negócio próprio, então eles não eram tão pobres assim. É, pode ser que não. Mas, por outro lado, eram de Nazaré. Que era e até hoje é uma cidade marginalizada, não era o centro da história toda."
A ideia de um homem mais velho
Domingues conta que são tradições cristãs orientais, como a Igreja Ortodoxa, que consolidaram a ideia de que José já era viúvo quando se casou com Maria.
"A Igreja Ortodoxa aceita que ele tenha tido um casamento antes. Porque, de fato, seria muito estranho um homem mais velho ainda não ter se casado. Por essa narrativa, ele teria tido filhos antes e, nesse sentido, Jesus poderia ter irmãos, mantendo a virgindade de Maria", afirma.
O vaticanista ressalta, contudo, que para a Igreja Católica a narrativa é "simplesmente que José se casou com Maria" sem nada, nos textos, que diga "que ele era um homem velho".
"Criou-se uma tradição. Por muitos anos ele foi apresentado como um homem mais velho. Talvez pela sabedoria, por conseguir ouvir a voz do espírito, por ser uma pessoa tranquila que já viveu muito da vida."
"Não há nada explícito nesse sentido, mas uma tradição que se criou. Na época era normal que o homem fosse um pouco mais velho, mas essa visão de que ele era muito mais velho, enfim, faz parte de todas essas lendas e tradições posteriores. Que, importante dizer: não mudam a essência do que José representa para a Igreja", comenta Domingues.
Lira concorda que não exista, "concretamente, qualquer registro da idade de José ou de Maria, pelo menos biblicamente falando".
"Uma comparação é feita pela idade em que comumente se considera que as pessoas casavam naquela época, mas não é uma regra absoluta, por isso não considero tais idades", argumenta.
"Essa 'velhice' de José se propagou, principalmente, para mostrar que ele teria respeitado a virgindade de Maria. Mas, eu, particularmente, creio que tudo foi obra do Espírito Santo, e José poderia ser jovem ou velho e mesmo assim respeitaria e honraria a missão que lhe foi confiada de cuidar da mãe do filho de Deus e do próprio filho de Deus, a quem ele, José, deu nome: Jesus", afirma o hagiólogo.
Maerki credita à tradição essa construção da imagem de José como um ancião.
"É uma ideia baseada nos livros apócrifos como uma tentativa de mostrar que José, por ser idoso, não teria de fato tido relações sexuais com Maria e não era o pai carnal de Jesus. Foi uma construção ideológica dos evangelhos apócrifos", defende ele.
"Essa concepção acabou muito difundida pela arte religiosa, pela escultura, pelo teatro, pela pintura. E se propagou. Enraizou-se no cristianismo por meio da arte e acabou defendida por grandes teólogos expoentes do cristianismo", explica Maerki.
Quando a questão esbarra na questão de um casamento celibatário ou não, contudo, o dogma católico da virgindade perpétua de Maria acaba sendo um entrave a mais para qualquer discussão.
Na própria bíblia há passagens mencionando irmãos de Jesus. Várias leituras são feitas, conforme o viés interpretativo e conforme a denominação religiosa de quem promove tal interpretação.
O catolicismo, que defende Jesus como filho único, entende a questão como reflexão de tradução, defendendo que em idiomas orientais antigos seria a mesma palavra para designar irmão e primo, por exemplo.
"A origem dessa polêmica pode ser uma questão de tradução da bíblia a partir dos idiomas primitivos", ressalta Maerki.
"No aramaico [falado por Jesus] não havia uma palavra específica para designar primos, isso é comprovado."
Há ainda a ideia, aceita por vertentes protestantes, de Maria tendo outros filhos com José depois do nascimento de Jesus.
"O protestante não tem nenhum problema com o fato de ela ter continuado com sua vida", afirma Moraes.
"O protestante acredita que Jesus é filho do Espírito Santo, que foi gerado nela como obra do Espírito Santo e que José não participa desse processo. Mas, depois de nascido Jesus, ela continuou a sua vida conjugal com seu esposo e, juntos, tiveram filhos e filhas sem nenhum problema", explica.
"Para os católicos, a coisa não é assim porque existe o dogma da virgindade de Maria, como uma mulher que nunca foi tocada por homem algum, manteve-se virgem mesmo vivendo com José."
Em meio a tantas controvérsias, uma passagem do evangelho de João suscita uma outra polêmica.
"É quando, no capítulo 8, a questão da paternidade de Jesus é trazida à tona, com judeus dizendo para Jesus: 'Não somos bastardos, temos um pai que é Deus'", diz o teólogo.
"Alguns intérpretes entendem algo como 'não somos bastardos, enquanto você, Jesus, é'."
"Ou seja, por essa leitura, Jesus teria sido filho de prostituição e a mãe dele saiu com essa conversa de que tinha sido gerado pelo Espírito Santo. Pode significar que, na virada do primeiro século [quando o evangelho de João teria sido escrito], o judaísmo já não engolia isso [de Jesus como filho de Deus]", afirma ele.
"São interpretações polêmicas que também mostram conflitos a respeito da paternidade de Jesus", completa.
"José é uma figura extremamente controvertida."
Mensagem
O vaticanista Filipe Domingues ressalta que a importância da hagiografia de José se baseia na mensagem.
"Jesus nasceu em um contexto de família. Ele tinha um pai, uma mãe e foi criada por uma família com um modelo de masculinidade presente", diz.
"Na época, isso significava que ele teve alguém que lhe ensinou uma profissão e o amparo de um pai protetor", pontua ele.
"A ideia de que Deus se encarnou como menino e nasceu no seio de uma família é muito importante."
Domingues ressalta que essa imagem incorpora então as características de José como "homem justo", "modelo de pai", "homem que protege", "homem que ensina".
Acabou se tornando um modelo cristão de paternidade.
"Não à toa, aqui na Itália o Dia dos Pais é o dia de São José [19 de março]", afirma ele.
"Tornou-se o modelo masculino de santidade, conforme a tradição do catolicismo."
Sua figura passou a ser venerada como a de um santo deste os cristãos primitivos.
"No século 9º, essa devoção propriamente dita se incrementou", explica o hagiólogo Lira.
A data comemorativa, 19 de março, foi oficializada apenas em 1621, sob o papa Gregório 15 [(1554-1623)].
"Papa Pio 9º (1792-1878) proclamou-o 'patrono universal da Igreja'. E, ao longo da história, cada vez mais se teve adeptos à sua devoção", comenta Lira.
Quando nasceu Jesus? Pesquisadores estimam que Ele de fato nasceu em dezembro
Gazeta do Povo
Foto:
Pessoas visitam a Basílica da Natividade, em Belém, na Palestina, 23 de dezembro.
Segundo a tradição cristã, esse é o local do nascimento de Jesus Cristo|
A cada ano, na época do Natal, volta à tona o debate sobre a data exata do nascimento de Jesus Cristo. Durante os séculos, houve várias tentativas de se precisar a data. Um estudo histórico de pesquisadores italianos trouxe uma nova abordagem à questão e chegou à conclusão que Ele de fato nasceu em dezembro, do ano 1 a.C.
Liberato De Caro, pesquisador do Instituto de Cristalografia do Conselho Nacional de Pesquisa de Bari, na Itália, e coordenador da pesquisa, contou em detalhes em entrevista ao National Catholic Register como chegaram a essa conclusão.
Para estimar a data histórica da Natividade, De Caro e o pesquisador Fernando La Greca, da Universidade de Salerno (Itália) analisaram a cronologia de uma série de eventos e elementos. Os principais deles são a Anunciação da Virgem Maria - que segundo a Bíblia teria ocorrido no sexto mês da gravidez de Isabel, prima de Maria e mãe de João Batista; e o calendário de diferentes festividades e peregrinações judaicas.
Com isso, eles concluíram que a Anunciação teria ocorrido logo antes da Páscoa judaica. Isso seria no final do nosso atual mês de março, o que significa que Jesus teria nascido em dezembro.
Segundo o registro do Evangelho de São Lucas, Isabel estava no sexto mês de gravidez quando ocorreu a Anunciação - o anúncio pelo Arcanjo Gabriel para a Virgem Maria de que ela seria mãe de Jesus.
De acordo com o historiador, naquela época eram feitas três peregrinações a Jerusalém: na Páscoa, em Pentecostes (50 dias após a Páscoa), e na Festa dos Tabernáculos (seis meses após a Páscoa). Portanto, o período máximo de tempo entre uma peregrinação e outra era de seis meses (entre a Festa dos Tabernáculos e a Páscoa seguinte).
José e Maria eram peregrinos, de acordo com o Evangelho de Lucas. Como Maria, no momento da Anunciação, não sabia da gravidez de Isabel, os pesquisadores inferem que nenhuma peregrinação tinha sido realizada pelo menos nos cinco meses anteriores a esse momento, quando Isabel estava no sexto mês.
"É inteiramente plausível supor que, se tivesse havido uma peregrinação entre a anunciação do anjo a Zacarias [que Isabel daria à luz João Batista] e a Anunciação, José teria ido a Jerusalém e já saberia por Zacarias sobre a gravidez inesperada de sua esposa Isabel, parente de Maria, já que ela era velha para ter filhos. Notícias tão importantes como essa não ficavam guardadas", argumenta De Caro na entrevista.
No entanto, de acordo com a Bíblia, Maria não sabia da gravidez de Isabel durante a Anunciação.
Isso implica que a Anunciação deve ter ocorrido pelo menos cinco meses após uma peregrinação. Com isso, os autores deduziram que a Anunciação ocorreu entre a Festa dos Tabernáculos e a Páscoa, e que a visita do Arcanjo a Maria deve ter sido logo antes da Páscoa. Se somados os nove meses de gravidez, o nascimento de Jesus deve ter ocorrido ao final de dezembro ou início de janeiro.
Ano do nascimento
Para determinar o ano de nascimento de Jesus Cristo, os historiadores levaram em conta os registros sobre a morte do rei Herodes.
Herodes devia estar vivo no ano em que Jesus nasceu, já que a Bíblia fala de uma suposta matança de inocentes após o nascimento. Segundo historiador do século I Flávio Josefo, Herodes morreu após um eclipse lunar visível de Jerusalém.
Com base em estudos astronômicos atuais e outros elementos históricos, a morte de Herodes teria ocorrido entre os anos 2 e 3 d.C., compatível com o começo convencional da era cristã. O que significa que a Natividade "ocorreu ao final do ano 1 a.C.", diz De Caro.
Três poemas de Natal para esquecer Noel e lembrar que o homenageado se chama Jesus
Carlos Newton
Tribuna da Internet
“Ser o sal da terra, ser a luz do mundo, ser como Cristo é…”
O advogado, jornalista, analista judiciário aposentado do Tribunal de Justiça (RJ), compositor, letrista e poeta carioca Paulo Roberto Peres inspirou-se no Natal para escrever estes três poemas.
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PAPAI NOEL
A lavagem cerebral
Do governo mundial
Substitui no Natal
Cristo por Papai Noel.
Comando inverso papel
De renas puxando trenó
Sobre a neve brasileira
Qual estórias da vovó.
Papai Noel na trincheira
Do capitalismo selvagem
Ilude com sua imagem
O cotidiano da criança.
Seja criança rica, seja criança pobre
Traz um sonho sempre nobre
Que Papai Noel não atenua
Quando é criança de rua.
Criança que dorme nos braços da lua,
Nos bancos das praças ou sob marquises
Com fome, com frio, do crime aprendizes,
Eivadas de medo, de drogas, de suicidas
Estatísticas nas elites esquecidas.
Crianças “crianças” nas brincadeiras,
Nas fantasias aventureiras
Do brinquedo improvisar
Esperando o Natal chegar.
O Papai Noel, como princípio,
Cujo enfeite sempre foi visto,
No lixo ontem joguei.
Armei um humilde presépio
E na bênção de Jesus Cristo
O Natal festejarei!..
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PARABÉNS, JESUS CRISTO!
Parabéns, Jesus Cristo,
Hoje é o seu aniversário!
Estamos felizes,
Embora façamos do cotidiano
Um Natal de sua sabedoria,
Pois os seus dogmas
São a Lei maior deste Universo.
Todavia, neste dia, especialmente,
Queremos presenteá-lo
Através de orações,
De canções e de reflexões.
Mestre, faça sua festa
Em nossos corações,
Abençoe e ilumine esta noite,
Onde o vinho, o pão e a fé
Sejam uma dádiva
Aos famintos e injustiçados.
Sinto-me gratificado
Em fazer do seu aniversário
O maior acontecimento da História
E nele desejar a todos
Um Feliz Natal!
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POEMA DE NATAL
Amigo,
como é gratificante
saber que você existe
e temos os mesmos ideais,
mormente, no que concerne ao Natal,
dia este, onde cada pessoa
seja ela religiosa ou não,
em qualquer lugar do mundo,
tem que parar, tem que pensar,
tem que se curvar pelo
menos um segundo e festejar
o nascimento de
Jesus Cristo,
pois haverá sempre
alguém desejando um Feliz Natal
e não importa de que
maneira isto é feito,
importa sim
o seu significado
e a marca registrada
da presença eterna do
Messias
em cada Ser Humano!
Há 90 anos, Vovô Índio era a tentativa brasileira de destronar Papai Noel
Edison Veiga
De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
CRÉDITO,REPRODUÇÃO
Trecho da capa do livro de Christovam de Camargo
Revirando arquivos de jornais, não é tão difícil encontrar menções ao Vovô Índio em notícias do período natalino da primeira metade do século passado.
Mais precisamente, nos anos 1930, quando foram grandes os esforços em popularizar o personagem, candidato brasileiro a destronar o Papai Noel nos corações das crianças sedentas por brinquedos.
"Vovô Índio e as crianças" foi chamada de capa do jornal O Globo em 24 de dezembro de 1932, com o registro de que a figura havia sido a responsável pela entrega de presentes em uma escola municipal carioca.
O mesmo jornal, em 28 de novembro, havia publicado um verdadeiro manifesto em defesa do Vovô Índio — sob o título "Vamos fazer um Natal brasileiro?" — e, em 20 de dezembro, uma declaração de guerra ao bom velhinho — "Pela deposição de Papai Noel" era o nome do texto.
Na capital paulista, os ânimos não eram diferentes. Em 1935, conforme noticiou O Estado de S. Paulo, foi o Vovô Índio quem levou presentes a órfãos paulistanos em ação promovida pela Força Pública — instituição antecessora da atual Polícia Militar.
Nos anos 1930 houve ainda um concurso nacional para escolher a imagem que melhor representasse o personagem. E, em 1939, uma peça infantil em cartaz no Rio promoveu o inusitado encontro do Papai Noel com o Vovó Índio.
Presidente do Brasil de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954, Getúlio Vargas (1882-1954) nutria simpatia pela figura, atestam pesquisadores.
Há diversas histórias de que ele pessoalmente tenha se empenhado em transformar o Vovó Índio em símbolo do Natal brasileiro — mas, diante da falta de comprovação documental, se confundem os limites entre o que realmente era engajamento do político populista e o que se tornou causo folclórico.
"Vargas tinha o compromisso de nacionalizar o país, criar um Estado nacional, criar uma estrutura nacional. Nesse esforço, ele reforçou a imagem de Tiradentes, por exemplo. E trouxe a ideia do Vovó Índio, deu apoio para difundi-la", explica o historiador e sociólogo Wesley Espinosa Santana, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Mas não pegou na população."
Com contornos de lenda e sem constar de jornais da época, mas apenas de histórias publicadas décadas mais tarde sobre o assunto, o mais famoso desses episódios pode ter ocorrido há exatos 90 anos, no Natal de 1931, quando o presidente teria sido anfitrião de um evento natalino para apresentar o Vovô Índio para a criançada em um estádio do Rio.
Segundo esses relatos, a plateia não aprovou a ideia de receber presentes de um homem vestido de tanga e com cocar na cabeça — a preferência recaía sob o internacional Papai Noel.
"A fábula do Vovô Índio dizia que ele era filho de um escravo africano com uma índia. Foi criado por uma família branca e, por influência de seus irmãos, deixou de ser escravo", explica o jornalista Marcelo Duarte em seus livro O Guia dos Curiosos - Fora de Série.
"O presidente Getúlio Vargas chegou a pensar em transformá-lo em símbolo nacional."
O historiador e sociólogo Santana vê paralelos entre esse mito e a teoria racial brasileira do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997). Afinal, assim como povo o brasileiro, o Vovô Índio também seria a mistura das "três raças tristes".
"O Vovó Índio era o velhinho sábio, filho de preta com índio, criado por uma branca. A ideia de mesclar, colocar o sincretismo cultural e étnico, as três raças tristes brasileiras: o preto porque foi escravizado, o índio porque foi explorado e invadido, o branco porque era obrigado a vir para cá", reflete o professor.
A origem do mito
Se as tentativas de fazer o Vovô Índio emplacar no imaginário nacional datam dos anos 1930, não se sabe exatamente a origem do mito.
O que se sabe é que sua versão mais bem-acabada terminou divulgada por obra de simpatizantes do integralismo, movimento nacionalista que ficou conhecido como uma espécie de fascismo brasileiro.
"Houve um grande esforço da intelectualidade nacionalista brasileira, principalmente uma intelectualidade de direita dos anos 1930, no sentido de criar essa fábula do Vovó Índio como contraponto ao Papai Noel", diz o historiador Leandro Pereira Gonçalves, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de, entre outros, O Fascismo em Camisas Verdes: do Integralismo ao Neointegralismo.
Ele contextualiza, contudo, que se a simbologia nacional era muito importante ao movimento integralista, ele não foi criado pelos integralistas — foi, sim, utilizado por seus militantes.
"O chamado camisa verde acabou se apropriando daquela imagem, daquela simbologia de aversão ao Papai Noel. E isso aparece em jornais e revistas integralistas do período", explica.
Pesquisador vinculado à Universidade de Estrasburgo, na França, o historiador Philippe Arthur dos Reis lembra que o personagem já aparecia anteriormente no cenário musical e artístico brasileiro.
"O JB de Carvalho, por exemplo, poeta de macumbas, já colocava em perspectiva a ideia do Vovô Índio como defensor da cultura. Ele fazia isso da perspectiva de um músico colocando em evidência a cultura negra e indígena", afirma.
"Acho que isso vai estar em diálogo com o integralismo e, então, pode ter ocorrido, sim, um processo de apropriação de ideias."
Autor do livro Fascismo à Brasileira, sobre o movimento integralista, o jornalista Pedro Doria acredita que o personagem seja resultado do caldo nacionalista que reverberava nas primeiras décadas do século 20.
Isso tem a ver com o movimento modernista, cujos expoentes começaram os anos 1920 reafirmando que não havia necessidade de querer ser europeu.
"E começa uma busca pelo que é ser brasileiro. Enquanto [os escritores] Mario [de Andrade] e Oswald [de Andrade] acabam tomando o caminho que ficaria mais famoso, há também o caminho do verde-amarelismo do Menotti [Del Picchia] e do Cassiano Ricardo, mais nacionalismo. É o caminho onde está Plínio Salgado [o fundador da Ação Integralista Brasileira, a AIB]", contextualiza Doria.
Sociologicamente, o Brasil dos anos 1930 pensava então os conceitos de brasilidade. E aí estão nomes como Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) e Gilberto Freyre (1900-1987).
"Vem a ideia de que o barato do Brasil é que somos a mistura de três raças", pontua Doria.
Na São Paulo prestes a comemorar seu quarto centenário de fundação, tomava forma o conceito do bandeirante como herói.
"Mas esse mito é do bandeirante caboclo, filho do português homem com a mulher indígena, herói que fala tupi, era pobre mas bravo e desbravava o Brasil", descreve o jornalista.
Plínio Salgado (1895-1975) ergueu as bases do integralismo misturando esse contexto a uma inspiração extremista: o fascismo italiano.
"Mas seu fascismo brasileiro é modernista, coloca o caboclo como mito fundador, como homem brasileiro ideal, o cara que se mete no mato sem medo, que é a cara do Brasil", diz Doria.
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Reprodução da capa do livro de Christovam de Camargo
O Vovô Índio, assim, passou a ser valorizado dentro dessa narrativa.
"Para os integralistas, o Papai Noel era uma influência ianque. O Vovô Índio representava o caboclo, o cara que estava no mato como o brasileiro, essencialmente brasileiro", comenta Doria.
"É o resultado da busca que todo fascismo tem pela visão idealizada do que é o seu povo."
"Ele, assim, se consolidou na AIB e foi adotado por Getúlio [Vargas] porque fazia sentido de acordo com essa visão", acrescenta.
Emissário de Jesus
A fábula do Vovó Índio foi sacramentada pela lavra do jornalista Christovam de Camargo — que era amigo de Mário de Andrade e, ao que se sabe, não tinha nenhuma ligação com os integralistas. Ele publicou o conto em livro em 1932 e, depois, no jornal Correio da Manhã, no Natal de 1934.
Na história de Camargo, Vovó Índio era um senhor amigo da natureza que trajava penas coloridas e saía distribuindo presentes para os brasileiros. Expulso de sua terra pelo homem branco, morreu — de "puro desgosto" — e foi parar lá nas portas de São Pedro.
Não passou pelo crivo do paraíso, no entanto. Como não tinha sido batizado pela Igreja, o porteiro celestial precisou explica que ele não pode ingressar no céu.
Então apareceu Jesus tentando resolver a situação. Afirmou que em seu aniversário ele próprio tinha o hábito de ir ao Brasil levar mimos para as crianças bem-comportadas e que, se Vovô Índio se convertesse, pronto, ele bem que podia se tornar o emissário dos presentes.
E assim, pela narrativa de Camargo, Vovô Índio se tornou o "bom velhinho" brasileiro.
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Anúncio publicado no Jornal O Aço de 1936
Essa narrativa assumiu importância também pela mensagem religiosa.
Gonçalves lembra que, afinal, "o movimento integralista é cristão, tem sob lema 'Deus, Pátria e Família'".
"O debate da simbologia natalina realmente presente no integralismo brasileiro não é necessariamente o Vovó Índio, mas a valorização do nascimento de Jesus", argumenta o historiador.
Ao mesmo tempo, os integralistas sempre ironizavam a figura do Papai Noel, considerando-a incompatível com o Natal de verão brasileiro.
"Mas apesar de todas as tentativas, a imagem do Vovô Índio não deu certo, não foi enraizada. Naqueles anos 1930 o Papai Noel já estava com a imagem consolidada no imaginário ocidental", acredita Gonçalves.
"O Vovó Índio ficou reservado ao aspecto de uma intelectualidade, da utopia do militante nacionalista em busca de uma alternativa ao capitalismo", comenta o historiador.
Comunistas, burocratas, politicamente corretos: por que tantos querem cancelar o Natal?
Maria Clara Vieira
Gazeta do Povo
Foto: EFE
Árvore de Natal em Berlim: em 2021,
documento da UE propôs evitar “Feliz Natal”
Quando a vacinação contra a Covid-19 ainda caminhava a passos lentos ao redor do mundo, o “cancelamento” do Natal em dezembro de 2020 foi amplamente repercutido e comentado tanto nos países onde a festa do nascimento de Cristo é celebrada entre flocos de neve de verdade como onde o clima do final do ano remete ao Festival do Sol Invicto, a festa pagã que originalmente marcava o solstício de verão.
Parece óbvio, afinal de contas, que, ao menos para cerca de 31,4% do planeta - percentual estimado de cristãos segundo dados do Pew Research Center de 2017 - o feriado de 25 de dezembro é mais do que a data festiva mais rentável do ano: suas raízes estão fincadas pelo Ocidente. Ecoando o historiador britânico Tom Holland, segundo o qual toda civilização ocidental “nada em águas cristãs” - desde seu corpo jurídico básico à noção de direitos humanos -, pode-se dizer que o inverso também é verdade: as raízes do Ocidente estão fincadas no Natal.
Ignorar esta realidade requer que se cerre os olhos para as gigantescas árvores de Natal erguidas nas principais capitais europeias anualmente, enquanto teatros e praças exibem peças, cantatas e toda sorte de decorações dedicadas à data. Não foi à toa, portanto, que o documento interno da Comissão Europeia - instituição independente que aplica as resoluções da União Europeia - vazado no final do mês de outubro causou tanto furor. O guia recomendava que os funcionários evitassem “pressupor que todos são cristãos” e, nas mensagens e comunicados internos substituíssem a saudação “Feliz Natal” por “Boas Festas”, além de evitar nomes associados ao Cristianismo como “Maria” e “João”.
A reação foi enérgica e imediata a ponto de, no dia 1º de dezembro, a comissária de Igualdade da CE, Helena Dalli, anunciar a suspensão da diretriz, afirmando que a versão divulgada "não é um documento maduro e não preenche todos os requisitos de qualidade da Comissão". "As recomendações claramente precisam ser mais trabalhadas. Portanto, retiro as recomendações e trabalharei mais nesse documento", concluiu a comissária de Igualdade, em breve comunicado. Ninguém menos do que o Papa Francisco havia reagido ao texto, classificando-o como um “anacronismo”, fruto de uma “laicidade liquefata”. Em mais uma de suas críticas às ideologias modernas que passou despercebida pela imprensa, o Pontífice foi além: remeteu a iniciativa às ditaduras do nazismo e do comunismo.
Os “cancelamentos” do Natal
Não é a primeira vez na história que o Natal incomoda a ponto de ser alvo de tentativas de “cancelamento”; o que pouca gente imagina é que os pioneiros deste movimento foram os próprios cristãos. Quando a Reforma Protestante aterrissa na Inglaterra do século XVII, as festividades natalinas são proibidas por puritanos, incomodados com as raízes pagãs da tradição.
“A preocupação com isso [a forma correta de celebrar o Natal] é, em si, uma tradição muito cristã. Mas quando você chega à Inglaterra reformada, os puritanos em particular estão muito, muito ansiosos sobre a maneira como eles veem a Igreja Romana como tendo falhado em arrancar os espinhos do paganismo. Existe a tradição de generosidade no Natal que, sem dúvida, surge da maneira como os cristãos entendem seu dever para com os pobres. Mas, nessa época, o sentido já foi misturado e estes grupos se preocupam se essas celebrações não acontecem por motivos cristãos, mas sim por motivos pagãos”, explica Holland.
Apesar de todos os esforços, o Natal continuou dentro das casas: em fevereiro de 1656, o ministro puritano Ezekiel Woodward admitiu, com amargor, que “o povo continua apegado a seus costumes pagãos e abomináveis idolatrias”. Foi somente quando o rei Carlos II subiu ao trono em 1660 que a festa do nascimento de Cristo - com suas árvores, guirlandas e duendes no pacote - voltou à esfera pública, garantindo ao monarca o apelido de “o Rei do Natal”. Do outro lado do oceano, comemorar o Natal “seja pela abstenção do trabalho, festa ou qualquer outra forma” segundo a lei do estado americano de Massachussetts, colonizado por puritanos, podia render uma multa de 5 xelins. A festa só se tornaria um feriado em 1856.
A próxima tentativa de “cancelamento” no Natal começaria, enfim, a se assemelhar aos esforços contemporâneos: o período do terror que sucedeu a Revolução Francesa traria uma guerra declarada às festividades religiosas no espaço comum, que deveriam ser substituídas pelo culto à razão. Algumas décadas depois, seriam os nazistas que fariam o esforço de se livrar do Natal por sua evidente origem cristã e judaica. Desta vez, contudo, o movimento foi mais sutil: ao invés de proibir a festa, a propaganda hitlerista tentou reescrever a história europeia, ressaltando e idealizando as culturas germânicas pagãs e excluindo a herança cristã. Mulheres assavam biscoitos em formato de suástica, a Estrela de Belém se transformou na “roda do sol de Odin” e o Papai Noel ganhou as feições do deus germânico Wotan.
Na mesma época, no continente vizinho, o Natal era expurgado da recém-nascida União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Como uma festa cujo intuito é celebrar a união familiar, a tradição e a religião - o "ópio do povo" de Karl Marx -, o nascimento de Cristo era uma enorme pedra no sapato da "ditadura do proletariado" e seu ateísmo militante. Para não perder por completo o apoio da população, contudo, era preciso agir com estratégia. Quando os soviéticos tomaram a Hungria, em 1948, escolheram o dia seguinte ao Natal para prender o arcebispo local, e, no ano seguinte, substituíram a data por uma celebração da figura de Josef Stálin. Na Rússia, a exemplo da Alemanha, o próprio Stálin incentivaria a comemoração de um Natal descolado do Cristianismo, com figuras da mitologia local, mesmo depois de denunciá-las como “aliadas da Igreja”.
Da proibição ao apagamento
O Natal sobreviveu ao nazismo, ao comunismo, ao fim da URSS e chegou são e salvo ao século XXI, ainda que com o mesmo potencial para causar incômodo. O documento politicamente correto da União Europeia pode ser visto como a ponta do iceberg de uma controvérsia nascida nos Estados Unidos e que tomou proporções internacionais.
Desde o começo dos anos 2000, o uso da expressão "boas festas" versus o bom e velho "Feliz Natal" está no cerne de discussões acirradas que, nos EUA, já alcançaram os palanques. Em 2005, o apresentador da Fox News Bill O'Riley publicou o livro "A Guerra no Natal: Como a conspiração progressista para proibir o feriado sagrado cristão é pior do que você pensava". A obra versa principalmente sobre casos de escolas que, em nome da "pluralidade", estariam evitando símbolos cristãos durante o período natalino. Ainda que contendo informações inverídicas, exageradas ou seletivas - algumas escolas foram falsamente acusadas de proibir as cores verde e vermelho, por exemplo, enquanto governadores republicanos que optaram por "boas festas" passaram incólumes -, as histórias repercutiram no canal.
Naquele ano, a rede de supermercados Wal-Mart "encorajou" seus funcionários a utilizarem "boas festas" no lugar de "Feliz Natal", enquanto a Casa Branca ocupada por George W. Bush também optava pela saudação genérica em seu cartão de final de ano. Seria, contudo, o presidente Barack Obama quem, em 2016, chamaria a atenção por desejar "boas festas" via Twitter, na época em que marcas como Barnes & Noble, Best Buy, Victoria’s Secret e Starbucks evitavam menções à festa religiosa em seus catálogos de dezembro, preferindo referências ao inverno ou à "harmonia social". Tudo isso serviu de armamento para que o então candidato à presidência Donald Trump afirmasse, em um comício em Wisconsin, que traria o "Feliz Natal" de volta.
Assim, ano após ano, a celeuma de grupos progressistas com o Natal ganha um novo capítulo. Ainda em 2016, a American Civil Liberties Union (ACLU) em Indiana entrou com uma ação em nome de um residente da cidade de Knightstown que se opôs a uma cruz exibida no topo da árvore de Natal oficial do município. A cruz foi removida. “Enquanto o próprio governo não promover a doutrina religiosa, essas celebrações são inteiramente constitucionais”, afirmou o representante do grupo.
O argumento da ACLU é, na verdade, extremamente revelador - e essencial para que se compreenda o movimento da União Europeia. "O cerne deste problema é a visão do liberalismo secularista que se tornou a mentalidade dominante das democracias ocidentais. Com a desintegração da Cristandade medieval e o surgimento do Estado nacional moderno como gestor da violência, há a promessa de segurança em troca da perda de algumas liberdades. Há, então, um enfraquecimento das identidades pessoais na esfera pública, e a religião é relegada ao espaço privado. Nasce essa ideia de que você pode professar a religião que quiser, desde que seja dentro da sua casa. Isso surgiu para pôr um fim às guerras religiosas e teve efeitos positivos no sentido de evitar o absolutismo, mas o laicismo também tem seus excessos", explica o historiador Alex Catharino, pesquisador do Russell Kirk Center.
"Um destes problemas é a ideia de que a ação pública, cuja finalidade é a justiça, deve promover uma equalização a qualquer custo. Na prática, você cria um achatamento, destroi a diversidade das culturas locais e a própria identidade da sociedade ao promover uma neutralidade impossível", explica. "O que esses burocratas não entendem é que o Estado é laico, mas é composto por pessoas religiosas - e não é como se na esfera pública elas fossem se despir de tudo. O medo de ferir o diferente pela mera menção ao Natal é perigoso porque caímos na tentação dos regimes totalitários de tentar reescrever a história", explica Catharino.
A reflexão do historiador ecoa a resposta do Papa Francisco à proposta europeia: "A União Europeia deve tomar em mãos os ideais dos Pais fundadores, que eram ideais de unidade, de grandeza, e ter cuidado para não dar lugar a colonizações ideológicas. Isto poderia levar à divisão dos países e ao fracasso. A União Europeia deve respeitar cada país como ele está estruturado dentro, (...) e não querer padronizar. (...) É por isso que o documento do Natal é um anacronismo".
Por que o Natal incomoda tanto?
À parte do “multiculturalismo” amorfo expresso no documento da Comissão Europeia, o universo “woke” tem sua própria cruzada contra o Natal: uma pesquisa rápida revela dezenas de artigos sobre filmes de Natal “problemáticos” que deveriam ser “evitados” por jovens desconstruídos. Entre eles, o clássico “A Felicidade Não Se Compra” (1946), de Frank Capra, cujo protagonista George Bailey seria um homem “abusivo e manipulador” - uma lista de reclamações que parece vir não de jovens usuários do Twitter, mas da encarnação do ranzinza Ebenezer Scrooge, do clássico “Um Conto de Natal” de Charles Dickens (“Que vá para o diabo o Feliz Natal!”, diz o velho).
“O problema com o Natal, como diria G. K. Chesterton, é que ele é um sinal de contradição para quem pensa em tecnologia, riqueza e consumo. É a festa na qual a sociedade é confrontada com um menino frágil que era Deus. O ‘Feliz Natal’ é uma lembrança de que o mundo não é uma marcha inexorável rumo ao progresso, e é o momento de nos voltarmos à nossa pequenez. É quando conservadores e liberais simplificam em achar que é só um problema de Estado: o problema é a cultura”, reforça Catharino.
De fato, talvez poucos pensadores tenham exposto de forma tão clara o incômodo inerente à festa que, mais do que qualquer outra, clama pelo retorno ao familiar. "O período natalino é doméstico; e por esta razão a maioria das pessoas se prepara para ele apertando-se em ônibus, esperando em filas, correndo pelos metrôs, comprimindo-se em casas de chá, e imaginando quando ou se vão chegar em casa algum dia”.
“Exatamente antes do grande festival do lar, toda a população parece ter se tornado desabrigada. É o supremo triunfo da civilização industrial que, nas enormes cidades que parecem ter casas em excesso, há uma desesperada falta de moradia. (...). Tenho em mente o contrário da irreverência quando digo que o único ponto de semelhança entre eles e a família natalina arquetípica é que não há espaço para eles na estalagem. Ora, o Natal é feito de um belo e intencional paradoxo; que o nascimento do desabrigado deve ser comemorado em todos os lares”, escreveu Chesterton, desnudando o motivo pelo qual não é de se surpreender que uma geração afeita à individualidade e ao externo tenha perdido o apreço pela comemoração.
Por trás da Cortina de Ferro que Chesterton viu ser erguida no oriente, sabia-se que o Natal incomodava por sua relação íntima com a religião e a tradição. Há, no fundo deste desprezo, um elemento comum aos burocratas e aos “canceladores” de plantão, também identificado e descrito pelo ensaísta: a aversão à existência de um espaço pessoal, íntimo e inalcançável, capaz de sobreviver às mais nefastas ou insossas ideologias: “que exista uma noite que as coisas brilhem desde dentro: e um dia que os homens procurem por tudo que está enterrado em si mesmos, e descubram – no lugar onde ele está realmente escondido, por trás de portões trancados e janelas cerradas, por trás de portas três vezes trancadas e aferrolhadas – o espírito de liberdade".
Como era o 'Natal' antes do nascimento de Jesus
Edison Veiga
De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO/ WIKICOMMONS
Quadro 'Natividade', de Giorgione, 1507 (reprodução da obra foi recortada)
O título acima pode soar estranho uma vez que, para a sociedade contemporânea ocidental, parece claro que a origem do Natal, muito embora a festa tenha sido apropriada como uma tradição até mesmo desvinculada de crenças, é o nascimento daquele personagem, cerca de 2 mil anos atrás, chamado Jesus — e toda a construção religiosa que seria erguida a partir dele.
Mas há diversos indícios de que as pessoas já comemoravam o Natal cerca de 7 mil anos antes de Cristo, o que faz dessa celebração quase tão antiga quanto o próprio conceito de civilização.
A explicação está nos marcos da natureza: afinal, se a ideia de civilização remonta às origens da agricultura, nada mais natural do que celebrar o solstício de inverno como um momento de renascimento, de renovação.
Claro, estamos pensando sob a ótica do hemisfério norte. O solstício de inverno, que ocorre nessa parte do globo nas proximidades do Natal, indica aquele momento em que a noite chega ao seu máximo — a partir daquele dia, o sol cada dia terá mais tempo para iluminar.
Em um tempo de precária ciência e de exagerada observação dos fenômenos naturais, o sinal era claro: a luz solar renascia nesse momento, aumentando em tempo e intensidade a cada dia desde então. E era o que propiciaria a agricultura da nova safra, a alimentação do ano vindouro.
No livro Religions of Rome, os historiadores Mary Beard e John North lembram que o período dedicado a celebrar o solstício era todo devotado a um deus — Mitra —, durava uma semana e era permeado por celebrações entre as famílias, com trocas de presentes e comilanças típicas. Nada diferente do Natal contemporâneo, portanto.
Oriundo da mitologia persa, Mitra era o deus da sabedoria, representando a luz, o bem sobre o mal.
Aos poucos, no mundo romano, foi dividindo espaço com outra divindade, Saturno: afinal, se era o começo de um "novo" sol, nada mais natural do que render graças àquele que era o deus da agricultura.
Mas Mitra também era a divindade que se confundia com o próprio Sol: com sua carruagem, viajava ele todos os dias pelo céu com o objetivo de iluminar e espantar as forças das trevas.
O 25 de dezembro se torna oficial, portanto, no século 3 da nossa era — mas ainda sem nenhuma alusão a Jesus.
A culpa recai sobre o imperador romano Lúcio Domício Aureliano (214-275). Ele, que havia ascendido hierarquicamente depois de engrossar as fileiras do exército romano, decidiu institucionalizar a festa que já era muito celebrada pelos militares de Roma.
"Tinha um forte apelo junto aos soldados a filiação, do ponto de vista religioso, à divindade do Sol Invictus", comenta o o historiador André Leonardo Chevitarese, autor de, entre outros, A Descoberta do Jesus Histórico, e professor do Programa de Pós-Graduação em História Comparada do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Em sociedades basicamente dependentes dos ciclos da natureza e em um período carente de conhecimentos científicos para justificar as mudanças do tempo, fazia muito sentido que divindades e celebrações tivessem, em seu cerne, o objetivo de justificar os bons e os maus resultados das safras.
"Houve muitas festas de nascimento de grandes personagens e personagens míticos e algumas datas coincidentes com equinócios e solstícios. E mudanças de estações no ano agrícola sempre eram alegremente celebradas", diz o filósofo e teólogo Fernando Altemeyer Junior, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Semear e colher era o ritmo da vida e de celebrar natal, aliás, palavra em corruptela para nascimento."
Então é Natal
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Quadro de Lorenzo Lotto, de 1523
Em paralelo a esse contexto, crescia em tamanho e importância aquela nova religião, no início uma seita judaica perseguida, depois uma nova doutrina. O cristianismo. Seu mito fundador era uma figura nascida em Belém, província romana na Judeia, no Oriente Médio. A data exata? Ninguém sabia naquela época, ninguém sabe ainda hoje.
"Não se tinha clareza, certeza, nenhuma documentação categórica no sentido de dizer a data em que Jesus nasceu", afirma Chevitarese.
"Não sabemos com precisão nem o ano em que ele nasceu, muito menos o dia. As informações que nos chegaram, dos evangelhos, foram de muito tempo depois [da vida do próprio Jesus], escritas por volta do ano 70 [de nossa era], cerca de 40 anos depois do 'evento Jesus Cristo'. E temos algumas informações ali que não batem historicamente com aquilo que sabemos historicamente", explica o historiador, filósofo e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Chevitarese lembra que, ao analisar as narrativas antigas, é possível reconhecer que quando as comunidades cristãs "tomaram a decisão de correr atrás desses dados", eles já haviam sido perdidos.
"Não se tinha mais como recuperar minimamente qualquer história no sentido do factual nascimento de Jesus", acrescenta.
"Não sabemos a data exata do nascimento de Jesus, o filho de Maria e José, o nazareno", resume o filósofo e teólogo Fernando Altemeyer Junior, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Os imperadores romanos e o Natal
Se Aureliano efetivou a comemoração ao Sol Invictus, é preciso lembrar de dois outros imperadores romanos que contribuiriam para a criação do Natal tal e qual conhecemos hoje. Flávio Valério Constantino (272-337) e Flávio Teodosio (346-395).
Enquanto o primeiro permitiu o exercício do cristianismo, o segundo tornou a religião cristã a oficial de Roma, conforme pontua Moraes.
"O que acontece nesse pêndulo histórico é que o cristianismo sai da condição de religião marginal, de seita perseguida, e se torna religião oficial do império", enfatiza o professor da Mackenzie.
Então nada mais natural do que, entendendo Jesus como a "luz da vida", sobrepôr a festa de seu nascimento àquela comemoração pelo Sol Invictus, que nada mais era do que o renascimento do sol — já que o solstício indica que, a partir daquele dia, o sol diário fica cada vez "maior".
"Na narrativa, a ideia de associar Jesus a uma luz, de uma estrela que ilumina os caminhos, tem sentido. Assim, a partir da segunda metade do século 3 há um profundo diálogo entre experiências religiosas e esse é um movimento interessantíssimo para o cristianismo", comenta Chevitarese.
Desta forma, o 25 de dezembro como Natal não foi algo "inventado", mas sim algo "convencionado", como bem esclarece o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.
"Os antigos romanos celebram, na data, o solstício de inverno no hemisfério norte, a festa do Sol Invicto. Os cristãos, desde os primeiros séculos, associaram Jesus à luz que vem para iluminar a humanidade e tirá-las das trevas", afirma.
"Assim, a identificação com o Deus Sol era bastante natural à mentalidade da época. Já havia, nas pregações de São Paulo, por exemplo, a noção de que o 'Deus verdadeiro' cristão já era intuído e estava presente nos panteões da Antiguidade", prossegue.
"As primeiras igrejas cristãs também usavam muitas vezes materiais recolhidos de templos pagãos, para mostrar as antigas crenças não haviam simplesmente sido abandonadas, mas sim integradas e superadas por uma mais verdadeira", diz ele.
"Uma festa da natureza foi reapropriada pelos cristãos dando um novo significado a ela pelo nascimento do Filho de Deus", acrescenta Altemeyer Junior.
Quando, afinal, nasceu Jesus?
A verdadeira data de nascimento do Jesus histórico é um mistério que jamais será revelado, acreditam pesquisadores.
Não há registros da época e os relatos mais precisos que foram preservados, os evangelhos, não se atentaram — ou não conseguiram atentar — para detalhes deste tipo.
"O que Mateus e Lucas [os dois dos quatro evangelistas que narram o nascimento de Jesus] fizeram foi muito mais um olhar teológico, contando o nascimento de Jesus à luz de paralelos com outros nascimentos divinos", contextualiza Chevitarese.
"Assim, Jesus ganharia características de filho de Deus, de um homem divino, de alguém diferente, poderoso, milagreiro, exorcista. Seu nascimento já denunciava que ele era alguém diferenciado", acresnta ele.
"Não falamos de data, porque data mesmo nunca se chegou a um consenso", acrescenta o pesquisador.
"Historiadores suspeitam que Jesus possa ter nascido no fim do governo de Herodes, o Grande, portanto entre o ano 6 e 4 antes da Era Comum. Imagina que loucura: Jesus nasceu 'antes de Cristo'. Só com o passar do tempo se assumiu a data do 25 de dezembro", conclui.
CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO/ WIKICOMMONS
Adoração dos Pastores, de Agnolo Bronzino
Quando o cristianismo se oficializou como religião romana, uma série de concílios passaram a ocorrer para organizar as regras da doutrina. Foi quando apareceu pela primeira vez essa questão do Natal.
"No século 4 ocorreram grandes concílios da igreja definindo dogmas e datas importantes. Foi aí que tivemos a fixação do que a gente chama de Natal. Substituir [uma celebração que já havia] era uma prática comum", diz o historiador Moraes.
Essa oficialização coube ao papa Júlio Primeiro (?-352). No ano de 350 ele publicou um decreto substituindo a veneração ao Deus Sol pela data do nascimento de Jesus. Foi a maneira que ele encontrou para suprimir as festas pagãs de inverno.
"O cristianismo soube dialogar e se aproveitar das interações culturais com outros campos religiosos. É isso que o fez sobreviver: essa capacidade de se transformar para continuar sendo o que ele era", analisa Chevitarese.
"E é isso que faz com que ele sobreviva ainda hoje, todos os dias, se transformando para continuar sendo o que ele é."
"Jesus como Sol Invictus seria absolutamente representativo se colado a Jesus viesse também a data do dia 25 de dezembro", compara o historiador.
"Foi uma data ressignificada, a ressignificação cultural de uma festa. O cristianismo construiu sob uma base já existente", concorda Moraes.
"A data já era celebrada por outros povos, da antiguidade oriental aos gregos e romanos. E como o cristianismo nasceu no império romano, essa data acabou sendo apropriada pelos cristãos. Não da noite para o dia."
Para o sociólogo Ribeiro Neto é preciso atentar para o fato de que "existe uma estratégia comunicativa bem conhecida e praticada na sociedade moderna, mas que sempre existiu". "É mais fácil ressignificar práticas e costumes já arraigados na vida do povo do que criar novos costumes e novas práticas", ressalta ele.
"Por exemplo, quase todas as celebrações que marcam momentos de passagem na vida das pessoas, como formaturas e posses, e festas cívicas, com seus desfiles e pompas, emulam gestos semelhantes realizados pelas religiões", diz o sociólogo.
"Mas, além disso, o cristianismo baseia-se na premissa de que o coração do ser humano sempre anseia por Deus, mesmo que não o conheça ou mesmo o renegue. Sendo assim, para a lógica cristã era natural que a vinda de Cristo já fosse intuída e até comemorada antes mesmo de seu nascimento. O renascer do sol na manhã ou a volta dos dias mais longos do ano após o solstício de inverno seriam sinais a animar a esperança dos seres humanos de que um Deus viria a iluminar suas vidas, assim como o sol sempre volta depois da noite", acrescenta ele.
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Adoração dos Magos, de El Greco
Transformações atuais
Nesse sentido, é possível analisar que o Natal passou por novas ressignificações até chegar ao modelo atual — comercial e não necessariamente religioso.
"Hoje, é uma data consolidada e apropriada pela tradição capitalista. Ou seja: o cristianismo ressignificou o Natal, mas o Natal continua sendo ressignificado", analisa Moraes. "Continua apropriado pelas mais diversas culturas, por momentos históricos e vai ganhando outros significados ao longo do tempo."
"O cristianismo incorporou uma efeméride de crenças anteriores e nesse sentido a gente comemora o Natal até hoje", prossegue. "Mas o Natal continua sendo transformado, ressignificado. Seja pelo modo de produção capitalista, seja pela forma de celebração."