sábado, março 10, 2012

Tarso Genro assinou, como ministro, a lei que agora, como governador, se nega cumprir

Adelson Elias Vasconcellos

Pois é, nada como um dia depois do outro, ou nada como colher no próprio governo, o que semeou na oposição.

Em 16 de julho de 2008, vocês poderão conferir aqui, Tarso Genro assinou junto com Fernando Haddad, Lula, Nelson Machado, Paulo Bernardo Silva, José Múcio Monteiro Filho e José Antonio Dias Toffoli, a Lei nº 11.738/2008, pela qual foi criado e fixado o piso nacional dos professores.  Vamos relembrar alguns destaques da lei para guiar nosso comentário. 

Art. 1o  Esta Lei regulamenta o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica a que se refere a alínea “e” do inciso III do caput do art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

Art. 2o  O piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica será de R$ 950,00 (novecentos e cinqüenta reais) mensais, para a formação em nível médio, na modalidade Normal, prevista no art. 62 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.

§ 1o  O piso salarial profissional nacional é o valor abaixo do qual a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios não poderão fixar o vencimento inicial das Carreiras do magistério público da educação básica, para a jornada de, no máximo, 40 (quarenta) horas semanais.

Art. 3o  O valor de que trata o art. 2o desta Lei passará a vigorar a partir de 1o de janeiro de 2008, e sua integralização, como vencimento inicial das Carreiras dos profissionais da educação básica pública, pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios será feita de forma progressiva e proporcional, observado o seguinte:

II – a partir de 1o de janeiro de 2009, acréscimo de 2/3 (dois terços) da diferença entre o valor referido no art. 2o desta Lei, atualizado na forma do art. 5odesta Lei, e o vencimento inicial da Carreira vigente;
III – a integralização do valor de que trata o art. 2o desta Lei, atualizado na forma do art. 5o desta Lei, dar-se-á a partir de 1o de janeiro de 2010, com o acréscimo da diferença remanescente.

Art. 4o  A União deverá complementar, na forma e no limite do disposto no inciso VI do caput do art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e em regulamento, a integralização de que trata o art. 3o desta Lei, nos casos em que o ente federativo, a partir da consideração dos recursos constitucionalmente vinculados à educação, não tenha disponibilidade orçamentária para cumprir o valor fixado.

§ 1o  O ente federativo deverá justificar sua necessidade e incapacidade, enviando ao Ministério da Educação solicitação fundamentada, acompanhada de planilha de custos comprovando a necessidade da complementação de que trata o caput deste artigo.

Art. 5o  O piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica será atualizado, anualmente, no mês de janeiro, a partir do ano de 2009.

Então vamos lá. Em resumo, a lei estabeleceu um piso mínimo de R$ 950,00, a ser pago a partir de 1º de janeiro de 2008, valor este abaixo do qual não se poderia fixar nenhum valor para o plano inicial de carreira. Temos também pelo Artigo 5º que, a partir de 1º de janeiro de 2009, aquele valor seria corrigido anualmente, como ainda estipulou no Art. 4º que, se algum estado não pudesse pagar aquele valor, ele seria complementado pela União, mediante pedido justificado e encaminhado ao MEC.

Pois bem, na época, Tarso Genro, Ministro da Justiça, era candidato de oposição ao governo do estado do Rio Grande do Sul. E até o mosquito da dengue sabe o quanto de patifaria se utilizou para impedir a reeleição de Yeda Crusius, então governadora, que saneou as finanças do estado, levada à bancarrota pelos governos anteriores do PT e PMDB.

Contudo, a pressão então exercida sobre a governadora que, de fato, não tinha como pagar o piso fixado, não conseguiu o apoio da União que a lei previa. A patifaria correu solta para boicotar seu governo. 

Resultou que Tarso acabou vencendo o pleito e se tornou governador.

No início deste ano, e atendendo o que a lei estipulava, o MEC corrigiu o piso e o fixou em 1.451,00. Tarso imediatamente berrou que não pagaria. O Ministro Público ajuizou ação civil pública que foi acolhida pela Justiça, determinando-se  que  o Estado pagasse o piso fixado na forma da lei. De acordo com a decisão do juiz José Antônio Coitinho, o Estado deve implementar na folha de pagamento de salário do magistério público estadual da educação básica os valores referentes ao piso nacional (R$ 1.451,00), equivalente à jornada de 40 horas semanais. Os vencimentos iniciais referentes às demais jornadas de trabalho terão seus vencimentos pagos de forma proporcional. 

Também deverá ser paga, a todos os professores abrangidos pela Lei 11.738/2008, a diferença entre o que perceberam e o valor que deveriam ter recebido se tivesse sido obedecido o piso salarial nacional para os profissionais do magistério público da educação básica. A decisão é retroativa à 2009.

Pois bem, neste pago não pago do governador, instalou-se na cabeça dos professores que, em peso, votaram em Tarso Genro, a sensação de profunda frustração de que o então candidato prometeu o que agora não quer cumprir. Resumo da ópera: Tarso praticou um estelionato eleitoral , logo ele, tão senhor de acusar os adversários de praticarem o mesmo delito. Não há nenhuma desculpa para Tarso se eximir de atender uma obrigação fixada na lei que ele próprio assinou como Ministro da Justiça.

Hoje, fazendo coro ao protesto do chefe, o Secretário da Educação estadual , resolver engrossar de vez. E o que disse o brioso secretário? Isto:

“Não tem como o poder público sustentar um aumento anual desproporcional ao andamento da economia. Isso não é real, não é viável".

Pois bem, se o leitor clicar aqui, vai acessar reportagem da Folha de São Paulo que reproduzimos destacando um quadro em que são apresentados os salários pagos aos professores em cada estado. Vejam lá: o salário mais baixo, pago à categoria é justamente o do Rio Grande do Sul, governado por Tarso Genro. Depois do Rio Grande do Sul, o estado que paga a menor remuneração é o Amapá, R$ 1.085,00, ou, 37% a mais. Ora, se com uma economia infinitamente menor que a gaúcha, o Amapá consegue pagar 37% a mais, morre no vazio a desculpa do secretário de Educação quanto ao andamento da economia. Somados os crescimentos de 2010 e 2011, houve variação positiva do PIB nacional em mais de 12% afora os crescimentos reais acima da inflação e do próprio PIB na arrecadação de impostos. 

Mas como ele achasse pouco a besteira que disse, resolveu ser mais profundo ainda:

“...O piso da forma como está não é real, é insustentável. Quem defende esse modelo não é responsável...”

Bem, se alguém aqui é irresponsável,  não serão os que defendem o piso, e sim os cretinos que o criaram, no caso, o senhor Tarso Genro.

Além disto, nos discursos  palanqueiros de todos os políticos do país, qual a prioridade que prometem se dedicar depois de eleitos? A Educação, claro. Pois então, eis uma boa hora de demonstrarem que a Educação é para o Estado uma prioridade. Porque, uma coisa é certa, se este piso, que sequer atinge 2,5 salários mínimos, é elevado demais na visão do governo gaúcho, é insustentável como o secretário se apressar em afirmar, então que se reduzam os salários de todos os políticos e se eliminem todas as regalias, vantagens e privilégios que eles próprios se autoconcedem, considerando o número de horas trabalhadas por cada categoria e relevância, para o futuro do país, da função exercida. E poderiam, também, reduzir  a zero estes milhares de cargos de confiança sem nenhuma utilidade, e só servem para abrigar companheiros desempregados. O resultado seriam recursos suficientes para pagar um piso até maior do que o que foi fixado. 

E, se ainda assim, não for possível satisfazer ao que a  lei determina, ela própria prevê que se recorra à União, de forma justificada, e esta complemente com seus recursos o montante que faltar aos estados para pagarem o piso fixado. 

Assim como, comparativamente com estados bem mais pobres, não se justifica que o Rio Grande do Sul pague salários tão miseráveis,  também é inadmissível que a educação continue sendo relevada a importância secundária nos diferentes programas de governo, seja ele estadual ou federal. 

Aliás, bem que o Cpers poderia rever sua histórica aliança com o PT, a quem tem  ajudado a tumultuar e boicotar todos os governos adversários do partido. A lição que poderiam tirar é que, com o PT no poder, os benefícios são distribuídos entre os companheiros, o resto que se vire. Hoje, vemos o PMDB estrebuchando assim como o MST já fez em passado recente e já tendo acontecido o mesmo com a CNBB. Há algum tempo atrás, demonstrei que, a partir da aliança que o Cpers, assim como os demais sindicatos de professores no país, fez com o PT, o magistério vem assistindo a uma redução constante em seus salários.  Acho que está na hora deles reverem se esta aliança lhes é benéfica ou não, porque a realidade está aí para eles se convencerem que os sacrifícios somente eles é que têm bancado.      

Sem dúvida, Tarso honra o apelido que ganhou: Rolando Lero do Planalto. Mas ele não é apenas um enrolador, é muito pior do que isto. Assim, irresponsável mesmo é o governante que paga uma miséria de salário aos professores e depois exige educação de qualidade. E esta irresponsabilidade se acentua ainda mais quando o mesmo que assinou a lei, como ministro, se nega cumpri-la como governador.   

Secretário do RS critica lei do piso: “quem defende é irresponsável”.

A reportagem abaixo do Portal Terra é a demonstração inequívoca de quanto estelionato é feito o PT. Segue o texto que comentaremos no próximo post. 

Foto: Eduardo Seidl / Palácio Piratini/Divulgação
O secretário José Clovis de Azevedo diz que o 
reajuste do piso pelo Fundeb é inviável

Após uma decisão da Justiça gaúcha ter determinado que o governo do Rio Grande do Sul deve cumprir com o piso nacional do magistério, o secretário estadual da Educação, professor Jose Clovis de Azevedo, criticou em entrevista ao Terra a lei da forma como ela vigora atualmente: com reajustes baseados no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). "Eu acho que todo o agente público deve ser republicano, pensar a longo prazo e dar sustentabilidade aos seus projetos. O piso da forma como está não é real, é insustentável. Quem defende esse modelo não é responsável", disse o secretário ao criticar os parlamentares que são contra a alteração na fórmula de cálculo do reajuste.

O governo gaúcho, assim como outros Estados e municípios, defende a aprovação de um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados que altera o critério de correção do piso, que passaria a ser feito com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a inflação. Azevedo não faz críticas diretas ao ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que defendeu o reajuste de 22% no piso este ano como uma forma de incentivar a população a seguir a carreira do magistério, mas diz que é preciso levar em conta dificuldade financeira dos Estados e municípios.

Com professores em estado de greve desde a semana passada pelo cumprimento da lei, Azevedo não teme a interrupção das aulas no primeiro semestre. "Estamos sempre abertos a dialogar com o sindicato, mas não temos como aumentar a nossa proposta. Uma greve não vai fazer surgir mais dinheiro no cofre do governo e só vai prejudicar os alunos", afirmou. O governo apresentou na Assembleia Legislativa uma proposta de reajuste do salário para R$ 1.260,00 até 2014. "Nossa proposta significa 76,6% de reposição salarial mais a inflação de 2013 e 2014, o que dá quase 90%. O Estado não suporta comprometimento maior".

Hoje, o salário básico de um professor com ensino médio no Rio Grande do Sul é de cerca de R$ 800 - o mais baixo do País. O sindicato da categoria (Cpers) cobra os R$ 1.451,00 propostos pelo Ministério da Educação com o reajuste de 22% do Fundeb este ano. Segundo estimativa do secretário estadual, o impacto para as contas públicas seria de R$ 3 bilhões. "Não tem como o poder público sustentar um aumento anual desproporcional ao andamento da economia. Isso não é real, não é viável", afirma.

Azevedo também defende o governador Tarso Genro (PT), que assinou a lei do piso em 2008, quando fazia parte do ministério do governo Luiz Inácio Lula da Silva. "Essa proposta de reajuste pelo Fundeb surgiu no Congresso, não era uma proposta do governo. O MEC apresentou um projeto para mudar isso depois, mas ele ainda não foi aprovado", disse ao destacar que a "promessa de campanha" de Tarso ao defender o piso sempre foi feita com base no reajuste pela inflação.

Segundo o secretário, na quarta-feira foi feita uma reunião entre o governo do Estado e a bancada federal para tratar da aprovação desse projeto no Congresso. "Tem uma grande ação política, que transcende ao meu papel, no sentido de viabilizar o piso. (...) Acredito que vai haver uma sensibilidade de todos para essa mudança (na forma de reajuste) que vai beneficiar os professores. De que adianta uma lei que os Estados não podem cumprir?", questiona.

Reajuste do piso nacional
O novo piso dos professores foi anunciado no dia 27 de fevereiro e elevou o salário dos professores de R$ 1.187,97 para R$ 1.451,00. O valor estipulado para este ano acompanha o aumento do Fundeb de 2011 para 2012, conforme determina a legislação atual. Além do Rio Grande do Sul, outros Estados e municípios alegam dificuldade financeira para pagar o valor determinado.

A lei que instituiu o piso diz que os governos estaduais e municipais podem pedir auxílio ao Ministério da Educação para arcar com o aumento nas despesas, mas até hoje nenhum município ou Estado conseguiu cumprir com todas as exigências impostas pelo MEC. De acordo com o Azevedo, o governo gaúcho ainda não pediu apoio federal por acreditar que o projeto que mudava a forma de correção do reajuste será aprovado no Congresso. "Porque pela inflação nós temos como pagar, sem precisar recorrer ao MEC".

Mesmo assim, ele critica a dificuldade em se obter os recursos federais. "O MEC tem que mudar os seus critérios. Se o MEC é capaz de definir o aumento do piso, esse recurso tem que sair de algum lugar. Os Estados e municípios não têm essa verba. Pelo pacto federativo, a União deveria criar um fundo de sustentação para auxiliar o cumprimento da lei", diz.

O país precisa é cobrar resultados do governo

Adelson Elias Vasconcellos

Por mais que o governo Dilma se esforce em manipular números e maquiar os dados sobre o PAC, a grande verdade é que esta “avalanche” não tem jeito de andar. O doloroso nem é o esforço do governo em tentar uma imagem que, todos sabem, está muito distante da realidade. O que fica difícil de engolir é que o governo, sabendo de todas as razões que culminaram com o crescimento do PIB em 2,7%, em 2011,  tentar se justificar com a crise internacional.  Dez em cada dez analistas diagnostica a mesma coisa: as causas estão todas aqui dentro mesmo. Esta conversa mole sobre o tsunami monetário, tão apregoado pelo discurso presidencial, atinge não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro. E aí, quando comparamos o crescimento do país com os parceiros do BRICS e até da América Latina, constatamos que o nosso 2,7% se situa na rabeira. 

Ora, se os outros, sofrendo do mesmo mal, a tal guerra cambial, conseguem ser mais felizes em se desenvolver, qual a razão que nos impede de alcançar os mesmos índices? Esta pergunta, creio, está aqui dentro, e é esta conclusão que o governo deveria chegar. 

Nesta semana, além do crescimento do PIB em 2011, outra notícia ruim deveria alertar as autoridades econômicas do Brasil para a questão “onde é que o governo está errando”?

Aí se anuncia que o governo tem imenso repertório de medidas, que irá tomar providências, que vai atuar, etc, e quando se tem o parto da montanha o resultado é um traquezinho muito do sem-vergonha, que não vai nos levar a algum. Ao invés de reformas estruturantes, teremos mais do mesmo, ou seja, medidas pontuais, coisinha pouca para atenuar a febre do paciente e não combater o mal que a provoca. Assim, virão mais linhas de crédito do BNDES, mais desonerações seletivas para algumas poucas atividades e ficaremos por aí. Senhores, dá até preguiça para comentar esta ação tão pobre, tão miserável, quanto insuficiente. 

Enquanto insistirmos em aplicar o mesmo receituário para corrigir apenas os sintomas do momento, sem nunca tratar a doença que fragiliza o paciente, nãoa se pode esperar que o país dará rumo a seu desenvolvimento. 

Falta arrojo ao governo Dilma, é como se tivessem medo de agir na direção que a realidade está apontando já faz algum tempo. Há receio, sei lá, de errarem a mão, ou de tomarem medidas que, mesmo impopulares, trariam enorme benefício ao país. É como se o projeto de governo (será que existe um?) tivesse por roteiro básico e único as pesquisas de aprovação que são feitas periodicamente. 

Entretanto, considerando-se o ritmo em que a indústria nacional vem definhando, e a falta de atitude por parte do governo, será preciso uma hecatombe, alguma mudança brusca da direção dos ventos, para fazê-lo desta imobilidade. 

 Enquanto isso, os demais países, que se encontram em crise profunda, pouco a pouco vão resolvendo seus problemas para retomarem seus crescimentos. A continuar perdendo oportunidades, chegará o momento em não apenas aqui, mas em outras partes do mundo surgirão economias com excelentes oportunidades de investimento.

Vemos que, nem com toda a carga tributária que abarrota o Tesouro ano após ano, com os crescimentos reais de arrecadação, o governo consegue elevar minimamente seus investimentos. Considerando-se o ritmo cada dia mais lento de execução dos pacs federais, e sabendo-se a ginástica que é feita para equilibrar as contas e fechar o orçamento, é de se perguntar onde vai o dinheiro?  Resposta: para tudo o que dá retorno ao país, ou seja, em despesas inúteis, verdadeiros monumentos ao desperdício. Assim, o investimento que deveria crescer e não cresce, a carga tributária que deveria reduzir-se e se mantém  intocável, os gastos correntes que precisariam sofrer forte redução ou contenção, continuam crescendo até mais do que o crescimento da própria economia, e as reformas estruturantes que deveria ser enfrentadas com coragem mas vão sendo levadas com a barriga, fica claro que o governo Dilma optou por trabalhar apenas na manutenção do que se tem. Nada de correr riscos, nada de mexer em coisas que possam atrapalhar a próxima eleição. Infelizmente, o país segue sem rumo, culta de um governo sem projeto.  

O alerta que a respeitada revista britânica “The Economist” (post abaixo) faz, deveria servir como aviso ao governo para que, ou diz a que veio, saindo desta passividade irritante e dê um rumo ao país, ou acabará comprometendo todas as nossas conquistas destes últimos 15 anos. O governo petista não tem mais a surrada desculpa usada por Lula durante seus dois mandatos de “herança maldita”. Estão no poder tempo suficiente para terem  elaborado um projeto de governo dedicado a corrigir e sanear nossas muitas deficiências. E até agora o que se viu foi muito discurso vazio, muita promessa inútil, muita improvisação. Até quando insistirá na mesma pantomima e mistificação? 

E não pensem que se trata de  má vontade em relação ao governo Dilma. Ela até que tem sido muito poupada das merecidas críticas e cobranças que o país como um todo deveria estar fazendo. Marcos Gutterman, em seu blog no Estadão, destacou que o comentarista Walter Russell Mead, da American Interest, considera que o atual momento da economia mundial colocou o Brasil numa encruzilhada – ou Dilma faz as reformas duras que nenhum político teve coragem de fazer, porque tiram votos, ou terá de conviver no fio da navalha entre crescimento pífio e inflação alta.

Um dos mais respeitados cientistas políticos americanos, Mead suspeita que talvez tenha sido precipitado festejar a estabilidade do Brasil a partir dos anos 90, após um longo histórico de alternância entre crescimento acelerado e recessão violenta.

Nos últimos anos de euforia, parecia que o tal “país do futuro” havia se transformado no “país do presente”. Para Mead, porém, “o passado ainda assombra o Brasil”.

Está na hora da sociedade brasileira entender uma coisa: Dilma quis ser presidente, ninguém a obrigou assumir o cargo. Quem quer o cargo que aceita os encargos. Ela, por estar à frente da Casa Civil no governo Lula desde 2005, deveria conhecer em profundidade a realidade e os problemas do país. Para ser presidente, trazendo na bagagem toda esta avaliação, apresentou um programa que, em linhas gerais, foi aprovado pela maioria da população. O voto de confiança lhe foi dado. Chegou o momento de cobrarmos a fatura, exigirmos os resultados. Não dá mais para protelar.  

Uma última observação: as dificuldades econômicas do país, conforme se viu pelo crescimento pífio do PIB em 2011, foi apenas um aviso. Existem muitas outras razões para o governo começar a se preocupar em cuidar dos interesses do país prioritariamente, do que ficar fazendo caridade para vizinhos que não se cansam de nos dar chutes no traseiro. A irresponsabilidade pela gastança desenfreada em inutilidades tem limites. Um pouco de responsabilidade com os recursos públicos e maior comprometimento com o país não fariam nada mal. A nação agradeceria comovida. 

Assim, o alerta feito por Mirian Leitão em seu artigo transcrito nesta edição, vem de encontro a tudo quanto temos dito e advertido ao governo: “...Os juros caíram, isso dará um alívio temporário, mas o país continua sem projeto, sem lista de tarefas a executar, sem meta de onde quer chegar. O Brasil continua perdendo o que não pode mais perder: tempo...”

Cenas obscenas

Nelson Motta - O Estado de S.Paulo

No seu clássico Vale Tudo Tim Maia dizia que só não vale dançar homem com homem nem mulher com mulher, mas o verso valia como ritmo e sonoridade, não como discriminação, e ele logo completava, às gargalhadas: "Mas é só até as 21 horas, porque depois tá liberado geral!".

É o tema musical das próximas campanhas municipais. O PT paulista quase "amanheceu de mão dada" com Kassab, numa ousada metáfora sexo-política de Marta Suplicy, que talvez prefira dar a mão a Netinho de Paula. O PR de Valdemar Costa Neto ameaça lançar Tiririca candidato para alguma coisa entre achaque, venda de tempo de TV e chantagem eleitoral. Mas quanto vale, e quanto pesa, um apoio desses? Que fins justificam esses meios? Nos jornais, Edinho Silva, presidente do PT paulista, exalta "a arte da política". Mas se isso é arte, o que seria entretenimento? E pornografia?

No Rio, os jornais publicaram a cena obscena dos arqui-inimigos Cesar Maia e Garotinho abraçados, com seus sorrisos de jacaré, fingindo que esqueceram tudo que um já disse do outro nos últimos 20 anos, com acusadores e acusados chafurdando na mesma lama. Agora eles estão unidos por um nobre objetivo: ganhar a Prefeitura do Rio. Pela renovação dos quadros, injetam sangue novo na política, com a chapa Rodrigo Maia, filho de Cesar, para prefeito, e para vice, Clarissa, filha de Garotinho.

Realiza-se a nefasta profecia do humor carioca, feita no casamento do filho de Cesar Maia com a enteada de Moreira Franco, quando um grupo protestou na porta da igreja exibindo faixas de "Por favor, não procriem!" Agora são os frutos políticos da união dos Maias e Garotinhos que ameaçam o Rio de Janeiro, já tão infelicitado pela dupla de patriarcas.

Ainda bem que, salvo desastre catastrófico, o prefeito Eduardo Paes vai ser reeleito com uma maioria esmagadora. Porque a população do Rio de Janeiro está testemunhando a recuperação e o desenvolvimento da cidade, que vive um de seus melhores momentos, numa conjuntura econômica favorável, com apoio estadual e federal. E, apesar dos velhos e novos problemas, tem o seu melhor prefeito das últimas décadas.

Senado gasta R$ 188 mil para comprar 110 tablets e reduzir uso de papel

Rosa Costa, da Agência Estado

Os 81 senadores e 29 assessores terão direito a um aparelho, da marca Samsung

BRASÍLIA - O Senado iniciou nesta quinta-feira, 8, a distribuição de tablets a cada um dos 81 senadores. Ao todo, no entanto, a operação envolve 110 aparelhos (sendo 29 repassados a assessores), adquiridos ao preço de R$ 188,98 mil da empresa Microsens. Cada aparelho, da marca Samsung, custou cerca de R$ 1,7 mil.

De acordo com a assessoria de imprensa da Casa, a compra foi feita por meio de pregão eletrônico, com base na ata de registro de preços da venda realizada ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Os primeiros portadores de tablets são os senadores da Mesa Diretora que participaram da reunião desta quinta.

O primeiro-secretário, senador Cícero Lucena (PSDB-PB), informou que o uso dos aparelhos reduzirá o consumo de papel (de R$ 277,4 mil no ano passado, somente com a confecção de pautas para as 11 comissões permanentes da Casa). "A ordem do dia (do plenário), as atas das comissões serão modernizadas, possibilitando aos senadores fazer o acompanhamento das matéria por meio dos tablets", afirmou. "É um passo que a Casa está dando na busca de sua modernização", argumentou. Ele disse que os tablets serão pagos em oito meses.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Considerando-se que a produção desta turma é quase nada, as tais atas não devem consumir tanto papel assim, para se dar ao luxo de torrar dinheiro do contribuinte num consumismo inútil. Por lá, o que mais gasta, e é o que os nobres deveriam preocupar-se em poupar, é papel higiênico. O consumo nos últimos anos deve ter crescido espantosamente, em razão de tanta m... que eles têm feito.

Justiça da Itália bloqueia contas do Itamaraty

Veja online

Empresa italiana entregou projetos para o trem-bala à estatal Valec, mas não recebeu pagamento pelos serviços

A Justiça da Itália condenou o governo brasileiro a pagar 15,7 milhões de euros (36,4 milhões de reais) e bloqueou contas bancárias que servem ao Itamaraty no país, na última na quarta-feira, para cobrir o rombo de um calote que teria sido aplicado pela Valec - estatal que cuida das ferrovias - em empresa italiana que elaborou projetos para o trem-bala Rio-São Paulo.

A condenação, em uma ação judicial que discute um débito de 261,7 milhões de euros (607,8 milhões de reais), partiu do Tribunal de Arezzo, na Toscana, e impede o uso de recursos pela Embaixada do Brasil em Roma e seus consulados, o que impõe restrições ao pagamento de pessoal e despesas de custeio.

Segundo os autos, o Brasil não apresentou defesa à sentença que lhe impôs o débito, em setembro do ano passado, o que poderia ter revertido a decisão. Como não pagou o valor em sessenta dias após a notificação, a Justiça expediu mandato de bloqueio e penhora dos recursos, o que vem ocorrendo desde janeiro.

Diante do problema de repercussões diplomáticas, o Itamaraty preferiu não pressionar politicamente o governo italiano. A reportagem apurou que, devido ao desgaste do caso Cesare Battisti, a opção, por ora, foi por fazer apenas gestões para resolver o assunto no âmbito da Justiça.

Sediada em Terranuova Bracciolini, a Italplan Engineering alega nos autos que recebeu da Valec em 2005, após processo de seleção, a tarefa de elaborar o projeto básico, o estudo de avaliação econômico-financeira e o projeto ambiental para o trem de alta velocidade.

Processo - Nos autos, obtidos pela reportagem, a empresa apresenta atos do Ministério dos Transportes publicados no +++++Diário Oficial da União e ofícios da Valec supostamente comprobatórios da requisição dos serviços. Seus advogados alegam que um escritório foi montado em Brasília e que as equipes italianas foram postas quase que integralmente a serviço do trem-bala, mas, ao ser apresentada a conta, em 2009, a Valec havia desistido de usar os projetos e se negou a pagar por eles.

Em sentença de 23 de setembro do ano passado, o Tribunal de Arezzo ordena o pagamento de 15,7 milhões de euros para cobrir apenas as despesas imediatas da empresa, sem prejuízo de impor futuros débitos ao governo.

O estado brasileiro foi condenado solidariamente por deter 100% dos ativos da Valec. A notificação endereçada ao Palácio do Planalto e à Advocacia-Geral da União (AGU) foi entregue em 13 de outubro à Embaixada em Roma, mas não houve questionamento à condenação.

O Ministério das Relações Exteriores confirmou o bloqueio das contas, mas minimizou o caso, dizendo se tratar apenas de uma questão jurídica, que não prejudica as relações com a Itália. Segundo o Itamaraty, a interposição de um recurso ainda está em estudo pela sua assessoria jurídica, em conjunto com a AGU.

Em nota, a presidente da Italplan, Roberta Peccini, informou que o projeto do trem-bala foi analisado e aprovado não só pela Valec, mas o Ministério dos Transportes e o Tribunal de Contas da União (TCU). A Valec não respondeu aos telefonemas e a e-mail enviado à assessoria de imprensa. 

(Com Agência Estado)

Inflação dá sinais de trégua - mas não por muito tempo

Ana Clara Costa e Lucas Sampaio, Veja online

Com aceleração da queda dos juros, controle inflacionário passa para segundo plano e analistas já revisam para cima projeções para o IPCA em 2013

 (Thinkstock) 
Alimentos: grupo puxou desaceleração mas índice 
continua sujeito a choque de preços

Bastou o Índice Nacional de Preços ao Consumidos Amplo (IPCA), medida oficial da inflação, manter um ritmo constante de desaceleração para que, finalmente, após quase dois anos, o mercado voltasse a apostar em uma volta do indicador ao centro da meta de 4,5% ao ano. O número de fevereiro, que ficou em 0,45%, corrobora o cenário de perda de força do índice. Contudo, a queda de 0,75 ponto porcentual na taxa básica de juros (Selic), anunciada na última quarta-feira, coloca em xeque a essa tendência de queda. Analistas ouvidos pelo site de VEJA acreditam que a aceleração do corte de juros passa o recado claro de que o governo, alinhado com o Banco Central, sacrificará novamente o controle da inflação em detrimento do Produto Interno Bruto (PIB).

Um número emblemático para definir esse cenário foi o último resultado da produção industrial, que encolheu 2,1% em janeiro - dado que veio pior do que as expectativas dos analistas mais ortodoxos. O indicador foi interpretado pelo governo como um sinal de que a economia estava prestes a levar um novo tombo - e precisava de socorro. "A inflação em 2012 tem vindo levemente abaixo do que se esperava e a atividade industrial também. E essa é a conjuntura perfeita para o BC acelerar a queda de juros e também para reacelerar a inflação e a atividade nos próximos meses", avalia o economista Sérgio Vale, da consultoria MB Associados.

Esse enigma econômico de manter o alto crescimento e a inflação sob controle parece estar longe de uma resolução no Brasil. Em uma metáfora simplista - porém real - o PIB se configura cada vez mais como o filho preferido de um governo desenvolvimentista, e a inflação permanece como o rebento renegado. Quando o primeiro apresenta o menor sinal de fraqueza, todos os esforços se voltam para reanimá-lo. Já o segundo agoniza, descompassado, ano após ano, sem que haja uma mobilização maior para colocá-lo no prumo.

Ao que tudo indica, a partir de agora, a presidente Dilma passará a acompanhar com mais atenção - e talvez certa obsessão - as previsões do mercado para o PIB de 2012. Economistas acreditam que o foco em crescimento que a presidente nutre tem um componente suplementar. Ocorre que, caso o Brasil cresça 3,5% neste ano - como estima o último boletim Focus -, Dilma terá o segundo pior resultado de crescimento médio em dois anos de governo dos últimos 60 anos. Só não perderá para a gestão Collor, quando o PIB avançou 1,5% em 1991 e recuou 0,5% em 1992.

Para não ser alvo de semelhante comparação, a chefe do Executivo não medirá esforços para chegar ao PIB almejado, que está entre 4,5% e 5% para este ano. "Com isso, voltará à tona toda a discussão de que a inflação no governo Dilma ficará sistematicamente acima da meta ao longo de todo o mandato", diz Vale.

A contrapartida disso será inflação maior já em 2013, segundo as projeções. "Antes do Copom, prevíamos a inflação em 5,3% para o ano que vem. Agora, consideramos um número mais próximo de 6%. No primeiro semestre deste ano, vamos continuar sentindo a desaceleração, mas dentro de um ano, que é quando os efeitos das medidas serão sentidos, o cenário inflacionário tende a piorar", diz Flavio Serrano, economista-sênior da BES Investimentos.

Alimentos - 
A desaceleração dos preços no último mês foi estimulada, sobretudo, pelo grupo Alimentos, cujo índice passou de 0,86% em janeiro para 0,19%. Contudo, na avaliação de Serrano, não fosse por isso o indicador continuaria mostrando sinais ruins. "A economia brasileira não enfrenta choques que pressionem a inflação neste momento. Pelo contrário. O choque de commodities atual é benigno, puxando a inflação de alimentos para baixo. Quando houver um fator que pressione o índice para cima, a inflação pode facilmente chegar em 7%", afirma o economista.

Caixa dois

Lauro Jardim, Radar, Veja online

Carlinhos Cachoeira, preso na semana passada em uma operação da Polícia Federal contra jogos de azar, abasteceu o caixa dois de uma campanha petista em Goiás.

É o que revelam dois vídeos que circulam desde o início da semana entre políticos de Goiás com o flagrante de uma conversa entre o deputado federal Rubens Otoni (PT-GO) e o bicheiro.

No primeiro diálogo, Cachoeira oferece 100 000 reais para ajudar o petista e insinua já ter contribuído com a mesma quantia para o candidato em outra oportunidade.

Na segunda conversa, a negociação do caixa dois de campanha fica ainda mais nítida. Cachoeira ensina ao petista – que concorda com todas as frases ditas – como proceder com o dinheiro:

- Eu não posso aparecer não. (…) E o 100 000, não declara não.

De fato,  tal quantia nunca foi declarada ao TRE por Otoni.

Procurado, Otoni afirma que a conversa filmada aconteceu em 2004, quando lançou-se candidato a prefeito de Anápolis (GO). Na ocasião, o petista conta que lideranças políticas e empresariais de Goiás o procuraram para ajudar Cachoeira a reerguer a Vitapan, sua empresa de produtos farmacêuticos.

Como não ajudou Cachoeira durante aquele período, Otoni diz que virou desafeto do bicheiro. Há anos, o petista diz ser chantageado com a possibilidade de divulgação dos vídeos.

Sobre o dinheiro oferecido para a campanha, no entanto, o deputado não esclarece porque aparece no vídeo aceitando a oferta do bicheiro.

- Não recebi um real dele. Isso é perseguição.

Na semana passada,  uma investigação da PF revelou grampos com conversas do bicheiro com vários políticos. Entre eles, Demóstenes Torres (DEM/GO),  que tem 300 horas de diálogos com o Cachoeira gravados.

O PT da desindustrialização - Participação da indústria no PIB recua aos anos 50

Aguinaldo Brito, Folha de São Paulo

A participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro recuou aos níveis de 1956, ano em que o presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) deu impulso à industrialização do país ao lançar seu Plano de Metas, que prometia fazer o Brasil avançar “50 anos em 5″. Desde então, jamais a fatia da indústria manufatureira do país na formação do PIB havia alcançado nível tão baixo quanto o apurado em 2011. No ano passado, a indústria de transformação -que compreende a longa cadeia industrial que transforma matéria-prima em bens de consumo ou em itens usados por outras indústrias- representou apenas 14,6% do PIB.

Patamar menor só em 1956, quando a indústria respondeu por 13,8% do PIB. De lá para cá, a indústria se diversificou, mas seu peso relativo diminuiu. O auge da contribuição da indústria para a geração de riquezas no país ocorreu em 1985: 27,2% do PIB. Desde então, tem caído. “Temos energia cara, spreads bancários dos maiores do mundo, câmbio valorizado, custo tributário enorme e uma importação maciça. A queda da indústria no PIB é a prova do processo de desindustrialização”, afirmou Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, aponta dois fatores que explicam o declínio da indústria na formação do PIB: o avanço dos serviços e da agricultura; e o crescimento das importações. “A importação pode modernizar o país, mas dependendo do que se importa prejudica a indústria. E esse setor é importante por ofertar boa parte dos empregos mais qualificados”, disse.

O governo diz que tem monitorado o comportamento da indústria, e reconhece que há um processo de “desintegração de alguns elos” da cadeia industrial, mas evita falar em desindustrialização. Heloísa Menezes, secretária do Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, acha que o Programa Brasil Maior, -lançado pelo governo Dilma no ano passado para socorrer alguns setores da indústria- pode ajudar as empresas a enfrentar a valorização do real em relação ao dólar, que favorece os importados.

Política industrial brasileira é 'receita para declínio', diz Economist

BBC Brasil

Artigo diz que modelo brasileiro é voltado para 
o mercado interno o que prejudica a geração de divisas.

O protecionismo do Brasil em relação a sua indústria é uma "receita para o declínio industrial", afirma a revista britânica The Economist em sua edição mais recente.

A atual disputa entre Brasil e México a respeito de um acordo de 2002 que permite o livre comércio de carros entre os dois países, segundo a revista, mostra as diferenças entre os modelos industriais dos dois países.

O México, com uma economia mais aberta após o Acordo de Livre Comércio Norte-americano (Nafta), se tornou uma base para montadoras de todo o mundo e, no ano passado, exportou 2,1 milhões dos 2,6 milhões de veículos que produziu.

Já o Brasil, cuja política, de acordo com a Economist, obrigou as empresas a abrirem fábricas locais para suprirem a demanda interna por carros, exportou somente 540 mil dos 3,4 milhões de veículos produzidos em 2011, faturando meros US$ 372 milhões, enquanto as exportações mexicanas renderam ao país US$ 2 bilhões.

Por causa do menor faturamento, o país pressiona por mudanças no acordo com o México, que incluem o aumento da porcentagem de componentes locais nos veículos e a limitação das importações livres de impostos. Segundo a revista as autoridades brasileiras afirmam que montadoras americanas e asiáticas se beneficiam do acordo, fabricando carros no México que acabam sendo exportados para o Brasil.

"O Brasil vê seu mercado doméstico como um bem a ser protegido. E vê as importações da China, mais baratas por causa do fortalecimento do real, como uma ameaça a sua indústria", diz a publicação. O artigo ressalta que em 2011, a importação de carros pelo Brasil cresceu 30%, sendo que a de veículos fabricados na China teve um aumento de mais de 10 vezes.

Preocupação
A Economist afirma ainda que, apesar do revés que a indústria mexicana sofreu no início do Nafta, em 1994, a abertura à competição com empresas intenacionais fez com que as indústrias locais que sobreviveram ao impacto se tornassem mais eficientes e impulsionassem um crescimento do percentual da indústria no PIB do país.

Já o Brasil teria "um problema de competitividade, e não de mercado", nas palavras de um consultor de São Paulo, citado pela reportagem.

A revista indica que o protecionismo característico da política industrial brasileira pode ter sido o responsável pela queda do percentual de produção industrial no PIB de 17,2% em 2000 para 14,6% em 2011.

A diminuição da produção industrial, causada por impostos elevados e pelo peso dos encargos, também é considerada uma das razões pelas quais a economia brasileira cresceu somente 2,7% no ano passado.

A tentativa de estender o modelo protecionista ao Mercosul, segundo a revista, pode dificultar ainda mais o crescimento da indústria brasileira.

"O Mercosul deveria fornecer um mercado maior para a indústria brasileira. Mas o Brasil está preso em uma série de impasses comerciais com a Argentina, que é ainda mais protecionista", diz a Economist.

A celebração do fiasco

O Estado de S.Paulo

O governo fez um balanço triunfal de mais um fiasco - o primeiro ano do PAC 2 - e reiterou o compromisso de elevar o investimento e conduzir a economia a uma expansão de 4,5% neste ano. A exibição de otimismo contrastou com mais uma notícia ruim divulgada poucas horas antes: em janeiro, a indústria produziu 2,1% menos que em dezembro. O grande assunto do dia anterior havia sido o pífio desempenho da economia nacional no ano passado. Mas tudo será melhor a partir de agora, apesar da crise internacional, garantiram os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Miriam Belchior.

Foram feitos investimentos de R$ 204,4 bilhões em 2011, primeiro ano da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento. Esse é o total das operações realizadas pelos envolvidos no PAC 2 - administração direta, estatais e setor privado. Esse valor corresponde a 21% do previsto para os anos de 2011 a 2014. Mas, como em todo balanço desse programa, o bolo apresentado como investimento é um tanto inflado. Uma parcela de R$ 75,1 bilhões - 36,7% do total - corresponde a financiamentos para habitação. Além disso, a maior parte do dinheiro investido pelas estatais foi aplicada, como em outros anos, por um único grupo - o da Petrobrás.

O chamado PAC orçamentário, incluído no Orçamento-Geral da União e financiado diretamente pelo Tesouro, ficou, de novo, longe da meta fixada para o período. O desembolso, de R$ 28 bilhões, foi maior que o de 2010, mas correspondeu a apenas 69,3% da verba autorizada para o ano, de R$ 40,4 bilhões.

Nenhum ministro deu atenção a esse detalhe nem se dispôs a discutir a enorme parcela de restos a pagar incluída nos desembolsos de cada ano. No ano passado, por exemplo, os restos corresponderam a R$ 18,6 bilhões, dois terços dos R$ 28 bilhões desembolsados. A maior parte da verba aplicada em 2011 destinou-se, portanto, a liquidar compromissos do PAC 1. Para este ano foram transferidos R$ 39,6 bilhões de compromissos assumidos e não quitados.

Apesar da execução medíocre, o PAC 2 foi apresentado no balanço como barreira protetora contra os impactos da crise internacional. É um evidente exagero, até porque, em 2011, o investimento das estatais da União, responsáveis pela maior parte do PAC, foi menor que em 2010.

Mas os dois ministros mantiveram quase sem mudança o discurso otimista e as promessas do ano passado. O Brasil, segundo o ministro da Fazenda, terá condições para um crescimento econômico bem maior que o de 2011. O governo dispõe de meios para enfrentar a enorme onda monetária criada nos países desenvolvidos e assim evitar a valorização excessiva do real. Essa valorização é nociva para a economia nacional porque torna os produtos brasileiros muito caros em moeda estrangeira. O ministro prometeu ficar atento e pronto, o tempo todo, para tomar as medidas necessárias para defender a indústria e animar a economia. Até esse ponto, nenhuma novidade.

Mas ele anunciou, na mesma cerimônia, a redução de uma das metas fixadas para 2012 - um volume de investimento produtivo equivalente a 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB). O alvo foi baixado para 20,4%, porque a proporção alcançada em 2011 ficou em 19,3%, segundo as contas divulgadas no dia anterior. O governo havia estimado uns 19,6% ou 19,7%. A nova meta, explicou o ministro, foi calculada sobre uma base mais baixa que a anterior.

Muito mais importante que esse palavrório é o problema real. O Brasil investe muito menos que o necessário para sustentar um crescimento igual ou superior a 5% por vários anos. Para isso seria preciso investir uns 24% do PIB.

Para investir aqueles 24%, seria preciso elevar a poupança nacional. Isso depende, em primeiro lugar, de uma gestão pública mais eficiente e de uma ampla desoneração do setor privado. Mas o governo continua apostando em benefícios fiscais paliativos, programas oficiais de baixo grau de execução e financiamentos especiais aos beneficiários de sempre - um número pequeno de grandes grupos. O fracasso dessa estratégia está mais que provado. Juros menores podem ajudar, segundo o ministro, mas juros dependem também do gasto público.

Fim da picada! Eis o Brasil: ou segue a lei e se torna ingovernável, ou se ignora a lei para governá-lo!

Reinaldo Azevedo

O Supremo Tribunal Federal acabou sendo protagonista ontem — ainda que não lhe restasse outro papel — de um vexame que há de entrar para a história. Um dia depois de ter declarado inconstitucional a MP que criou o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, teve de voltar atrás. O que tinha determinado a primeira decisão e o que determinou a segunda? Vamos lá.

Desde a aprovação da Emenda Constituição nº 32, em 2001, o Parágrafo 9º do Artigo 62 da Constituição ganhou esta redação:

§ 9º Caberá à comissão mista de Deputados e Senadores examinar as medidas provisórias e sobre elas emitir parecer, antes de serem apreciadas, em sessão separada, pelo plenário de cada uma das Casas do Congresso Nacional.

O texto poderia ser mais claro? Acho que não! Ocorre que, desde 2001, a Constituição é simplesmente ignorada, e não há comissão mista nenhuma para avaliar as MPs. Se aquela que criou o Instituo Chico Mendes teve uma tramitação inconstitucional e está sem validade, todas as outras que a antecederam, de 2001 a esta data, também - mais de 500. Hoje, há 50 tramitando no Congresso que simplesmente não obedeceram a essa determinação. Restou ao Supremo voltar atrás no caso específico e decidir, então, que o que vai na Carta Magna só vale a partir de agora. As novas Medidas Provisórias precisarão passar pela tal comissão.

Problema resolvido? Não sei! Digam-me aqui: qual é a função de um tribunal constitucional? É fazer valer a Constituição. Existe a possibilidade, mesmo com a decisão de hoje, de o tribunal ser inundado por ações de pessoas, empresas, grupos e entidades que se sentiram lesados por MPs que, a rigor, não valem?? Existe.

O tribunal certamente dará um jeito de encontrar uma saída em nome da paz social, já que é impensável declarar a invalidade de mais de 500 MPs. Corresponderia a jogar o país na anomia. Nos últimos 17 anos, as Medidas Provisórias deram o tom da governança no país. De 2001 para cá, a tramitação de todas elas feriu a Carta. Vejam que coisa: fôssemos seguir a Constituição, todas elas deveriam ser declaradas sem efeito; se forem, o país se torna ingovernável.

Há algo de profundamente errado num país que se tornaria ingovernável caso seguisse a letra da lei. Assim, coube à nossa Corte Constitucional decidir contra a Constituição.

O ‘descuido’ dos magistrados do TJ-SP

Elio Gaspari, O Globo

O repórter Flavio Ferreira mostrou que, nos últimos dez anos, desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo receberam seus atrasados acrescidos de juros de 1% ao mês. A taxa deveria ter sido de 0,5%.

Dias depois o presidente da corte, Ivan Sartori, disse que isso aconteceu porque “o tribunal, simplesmente, por descuido, deixou de rever essa forma de correção (os juros de 1%) quando vieram leis específicas da Fazenda”.

Descuido? Com juros compostos não se brinca. Conta lenda que em 1676 os holandeses compraram a ilha de Manhattan aos índios pelo equivalente a 24 dólares. A juros compostos de 7,4% anuais, hoje esse dinheiro seria suficiente para comprar todo o patrimônio imobiliário da ilha.

As cifras recebidas por 29 desembargadores paulistas investigados porque teriam furado a fila de acesso às indenizações sempre soaram esquisitas. Um milhão para cá, R$ 500 mil para lá.

Os magistrados tinham direito ao dinheiro. Afinal, em 2000, o auxílio-moradia dado aos parlamentares foi estendido aos juízes e, oito anos depois, foi reconhecido um crédito retroativo para período de setembro de 1994 a dezembro de 1997.

O auxílio-moradia para desembargadores que viviam e trabalhavam em São Paulo ficou entre R$ 2.500 e R$ 3 mil mensais.

Num exemplo hipotético, com juros de 0,5% ao mês, uma pessoa que fosse indenizada por quantias idênticas, pelo mesmo período de 40 meses, num cálculo feito ao final de dezembro 2010, receberia entre R$ 244.644,31 e R$ 293.573,17. Se os juros fossem de 1%, a fatura ficaria entre R$ 597.860,10 e R$ 717.432,12.

A teoria do “descuido” é pobre. Não foi um erro de conta. Se fosse, teria ocorrido “simplesmente” um constrangedor e bondoso equívoco. Foi uma transgressão.

As “leis específicas da Fazenda” mandavam uma coisa — juros de 0,5% — e o tribunal distribuiu o dobro. Se a lei fixa uma taxa e os desembargadores usufruem de outra, abala-se a confiança que a patuleia deposita em suas sentenças.

Vá lá que todos os desembargadores vissem no estacionamento da Corte o Porsche Cayenne do presidente do Tribunal que autorizou esses pagamentos. Vá lá que se desse aos desembargadores que vieram da advocacia privada o direito de receber licenças-prêmio da Viúva pelo tempo em que trabalhavam em bancas particulares. Vá lá que, por necessidades especiais, 29 afortunados passassem à frente dos outros 324 magistrados. Vá lá que entre essas necessidades estivesse a reforma de um apartamento inundado pela chuva.

Esquisito, porém legal; juros dobrados, não.

Não custa repetir o ensinamento do juiz Louis Brandeis: “A luz do sol é o melhor desinfetante.”

O Tribunal de Justiça de São Paulo precisa divulgar todos os nomes, cifras e cálculos que guarda consigo. Fazendo isso, o Judiciário será o maior beneficiado.

Do jeito que estão as coisas, arrisca-se um pesadelo: um dia, desembargador deixar de ser título, tornando-se adjetivo.

A Justiça e a crítica construtiva

O Estado de S.Paulo

Irritado com perguntas dos jornalistas sobre a suspeita de pagamentos irregulares a desembargadores, sobre os critérios usados pela Corte na correção monetária de créditos trabalhistas dos juízes e sobre o atraso na quitação de precatórios, o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Ivan Sartori, acusou a imprensa de estar empenhada em campanha para denegrir a imagem da Corte.

"Existe uma campanha para denegrir o Judiciário de São Paulo. Repilo esse movimento, partindo principalmente do jornal O Estado de S. Paulo e da Folha de S.Paulo", disse Sartori, na sexta-feira. A entrevista foi convocada por causa da primeira visita da corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, ao TJSP, depois que classificou a Corte como a mais refratária ao controle do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Mas foi Sartori quem monopolizou a atenção dos jornalistas, exaltando-se a ponto de Eliana Calmon recomendar que ele se acalmasse.

A pergunta que mais o irritou foi a relativa aos critérios usados pelo TJSP no rateio dos rendimentos auferidos com base nos convênios firmados com bancos para depósito do dinheiro dos precatórios. Ao ser indagado por nosso repórter Fausto Macedo se a parte da renda que cabe à Corte estaria sendo destinada ao pagamento de passivos trabalhistas de desembargadores, Sartori acusou o Estado de ser parcial. "Foram pagamentos antecipados, questões entre os desembargadores", afirmou.

No mínimo o ministro exagerou em sua veemência, uma vez que esses pagamentos envolvem dinheiro público. Mas a agressividade com que tratou o jornalista não referendou o teor de seus argumentos. O que o presidente do TJSP chama de campanha para "denegrir o Judiciário" nada mais é do que a publicação e a discussão, pelos jornais, dos problemas estruturais da Justiça e das mazelas pessoais de alguns - felizmente, poucos - magistrados acusados de desvio de conduta. E, mais importante, todos esses problemas foram revelados e expostos ao público pelo CNJ.

Desde que o órgão responsável pelo controle da magistratura começou a funcionar, em 2005, era inevitável que suas fiscalizações explicitassem, para a opinião pública, o excesso de privilégios que juízes e desembargadores insistem em apresentar como "prerrogativas". Em seis anos de funcionamento, o CNJ proibiu os magistrados de contratar parentes para cargos de confiança, cobrou rigor das corregedorias estaduais e autuou tribunais que gastavam dinheiro público com viagens, banquetes e coquetéis.

Na defesa de privilégios corporativos, como férias de dois meses e auxílios concebidos para contornar o dispositivo constitucional que estabelece o teto de R$ 26,7 mil para o funcionalismo público, as associações de juízes afirmam que as vantagens financeiras estão previstas por lei. Com isso, relegaram para segundo plano o fato de que nem tudo que é legal é, necessariamente, moral. Indignada com a posição dessas associações - especialmente as controladas por desembargadores paulistas -, a opinião pública mobilizou-se para evitar que elas conseguissem esvaziar as competências do CNJ, arguindo sua inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. A imprensa registrou essa mudança de ventos na Justiça e, em editoriais, apoiou as medidas do CNJ para torná-la mais transparente.

No caso do atraso na quitação dos precatórios, além disso, o presidente do TJSP atribuiu o problema a meros "descuidos" administrativos. Na realidade, o problema é grave e, ao contrário do que diz Sartori, envolve, sim, a discussão sobre os critérios de rateio dos rendimentos auferidos com os convênios firmados com os bancos. O descalabro administrativo constatado pelo CNJ na Justiça paulista mostra como agem juízes estaduais que são rápidos e eficientes quando têm interesse em jogo, mas imputam a "descuidos" o tratamento ineficiente dispensado a quem não consegue receber créditos públicos a que tem direito.

Longe de patrocinar uma campanha para "denegrir" a Justiça, o que a imprensa tem feito é expor os problemas de um Poder que demorou para se modernizar, que se opôs ao controle da magistratura e que não consegue conviver com uma das principais virtudes da democracia - a crítica construtiva.

Engole o choro, Dilma!

Guilherme Fiúza, Revista Época

A troca de guarda no Ministério da Pesca comoveu a República. Os momentos históricos são assim mesmo: abalam os corações mais duros.

A presidente Dilma Rousseff é uma gerente implacável, conforme Lula contou ao Brasil. Uma dama de ferro da administração pública. Dizem que barbados e engravatados tremem na base ao despachar com ela.

Ficou famosa a história de que, numa reunião palaciana, a presidente mandou o ministro da Fazenda “engolir o choro”.

Não é difícil imaginar Mantega se derretendo diante da Tatcher brasileira. Os olhinhos perdidos do ministro devem ter piscado mais do que nunca, especialmente se a voz grave da chefe estivesse naqueles dias de tratar os circundantes como “meu filho” e “minha filha”. Sai de baixo.

E será que algum fato da vida seria capaz de emocionar uma comandante assim tão firme, quase rude de tão pragmática?

Sim. Nenhum ser humano está imune a um evento trágico, desses que testam os limites da existência – como a demissão do companheiro Luiz Sérgio.

Assim como o suicídio de Getúlio Vargas, as baixas em Monte Castelo, a renúncia de Jânio Quadros e a morte de Tancredo Neves, a queda de Luiz Sérgio traz uma carga de comoção quase inassimilável. Duelando com o golpe do destino que deu ao bispo Crivella o emprego de seu companheiro, Dilma chorou.

E tudo indica que o país esteja atravessando um momento histórico especialmente denso, porque um mês antes a dama de ferro também tinha chorado. O outro tsunami emocional viera da despedida do companheiro Fernando Haddad do MEC.

Na ocasião, o detonador da comoção foi a aparição de Lula com a cabeça raspada. Tão ou mais tocante do que o culto evangélico comandado por Crivella na troca de guarda com Luiz Sérgio.

Se você também se emocionou com esse momento histórico, aleluia, irmão.

Mas se você acha que Dilma Rousseff tem que decidir entre a personagem da dama de ferro e a da mulher sensível, e que essas lágrimas todas são para endurecer sem perder a ternura e a eleição de São Paulo, só lhe resta o brado inevitável:

Engole o choro, Dilma! Tenha compostura no cargo e poupe-nos da sua novela mexicana, se não for pedir demais.

Aparências enganam

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

As aparências, sabemos, não são confiáveis. Mostram uma coisa, mas não necessariamente querem dizer a mesma coisa.

Tomemos o caso da eleição municipal de São Paulo, exemplo recorrente, mas expressivo por causa do caráter decisivo para o quadro político nacional.

Aparentemente os petistas estão ávidos pela retirada da candidatura de Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo e, aparentemente, a resistência do PMDB prejudica os planos do PT.

Aparentemente os correligionários do ainda pré-candidato Fernando Haddad fazem de tudo - até abrir mão de um ministério - para que Celso Russomanno, do PRB, desista da candidatura e, aparentemente, a resistência do partido do novo ministro da Pesca sinaliza fracasso na manobra.

No caso da entrega da pasta ao senador Marcelo Crivella, não é apressado pensar que o gesto não tenha tido como objetivo tirar Russomanno da disputa, mas precisamente mantê-lo nela.

Tenta-se matar dois coelhos: acenar com a disposição de dirimir conflitos com o eleitorado evangélico (Crivella foi eleito na condição de bispo da Igreja Universal) e, assim, entre outros benefícios, poder contar com mais uma voz no campo de batalha de ataques a José Serra, do PSDB.

Nesse cenário, atua também Gabriel Chalita, conforme mostram suas declarações iniciais.

Já foi interessante para o PT a retirada dele. Hoje não é mais. Por dois fatores: um, porque nessa altura não há o que o governo possa oferecer ao PMDB para forçar um recuo que deixaria o vice-presidente numa situação periclitante, justamente no momento em que Michel Temer tenta administrar a contestação interna.

Chalita ocupou espaço no programa de TV nacional do partido, retirando de cena lideranças regionais que cederam -a contragosto - ao argumento de que a candidatura era ponto de honra do PMDB contra a hegemonia do PT.

Agora vai dizer que deixou de ser? E o manifesto assinado por 70% da bancada na Câmara ao qual Temer emprestou apoio?

O outro fator que leva o PT a não mais enxergar vantagem na retirada é o reforço que Chalita dará no primeiro turno ao contingente de combate à aliança Serra/Gilberto Kassab.

Por motivos diversos, os interesses convergem e atendem às circunstâncias.

Sempre se pode argumentar que a desistência dos candidatos da base nacional do governo - PMDB, PRB e até o PC do B de Netinho de Paula - daria ao PT um tempo de televisão no horário eleitoral obrigatório (não gratuito, pois custam milhões em renúncia fiscal) mais confortável.

Em termos.  Se seguirem a mesma linha de discurso, a divisão dos fatores não altera o resultado, pois todos os programas serão direcionados contra o mesmo alvo.

Com a vantagem adicional de tornar remota a hipótese de uma vitória do PSDB no primeiro turno e a união das tropas no segundo.

Barrados. 
A lista de políticos atingidos pela Lei da Ficha Limpa organizada pelo site Congresso em Foco já tem mais de 30 nomes relacionados.

Há gente conhecida como Severino Cavalcanti, que não poderá concorrer à reeleição para a Prefeitura de João Alfredo (PE) porque renunciou ao mandato de deputado quando era presidente da Câmara, para evitar processo de cassação por quebra de decoro.

Foi acusado de receber propina na época em que ocupava a primeira-secretaria.

Na listagem constam cinco ex-governadores, dois ex-prefeitos, quatro ex-presidentes de assembleias legislativas e três ex-senadores. Os deputados e ex-deputados são os campeões da ficha suja: 18.

A conferir. 
Pelo andar da carruagem conduzida por petistas que já reclamam uso mais eficaz da máquina federal em favor de Fernando Haddad, a presidente Dilma ainda acabará sendo apontada como responsável caso a candidatura à Prefeitura de São Paulo não deslanche.

Mais fácil que responsabilizar Lula pela escolha, se vier a se revelar equivocada.

Falta projeto

Míriam Leitão – O Globo

A política econômica tem atendido a emergências, quando deveria ter um rumo; ameaça com arsenal de medidas quando deveria implementar reformas que tirassem do caminho os obstáculos ao crescimento; distribui favores quando deveria melhorar o ambiente de negócios. O risco é continuar prisioneiro da briga juros-câmbio-inflação quando o mais acertado é plantar as bases de um novo ciclo de desenvolvimento.

O Brasil deu o salto nos últimos anos porque trabalhou para isso. O país fez reformas, como o Plano Real, a privatização, a nova regulação, o saneamento parcial das contas públicas, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a autonomia e as metas do Banco Central. Tudo isso mudou a economia e abriu novos horizontes. A queda da inflação e a redução do percentual de pobres ajudaram a elevar o patamar de consumo criando o círculo virtuoso da ampliação da classe média. Mas o combate à pobreza ficou mais eficiente exatamente porque o país venceu a hiperinflação. A queda dos juros permitiu a ampliação do crédito que é outro elemento importante do crescimento recente.

A disputa política pela paternidade dos bons frutos é um debate medíocre. Esforços de governos diferentes foram complementares; mas é indiscutível que a pedra fundamental desse novo momento seja a estabilização. É falsa a divisão entre neoliberais e desenvolvimentistas. Primeiro porque não há neoliberais no Brasil, e segundo porque não haveria desenvolvimento sem a estabilização.

Agora é hora de plantar o próximo ciclo e tudo o que o governo tem feito é apagar incêndios, agir em emergências e ficar da mão para a boca, reagindo ao número de cada dia. O dado que preocupou esta semana foi a alta medíocre do PIB, e dentro dele a estagnação da indústria, que ainda caiu 2,1% em janeiro.

Quando o ministro Guido Mantega fala que tem um arsenal de medidas cambiais para desvalorizar o real, ele acaba, no curto prazo, elevando o incentivo a que se traga mais dólares antes que seja disparado o tal arsenal. Isso derruba mais o dólar. Fala-se também em dar mais dinheiro ao BNDES. A dúvida é o que o banco fará com o dinheiro. Nos últimos tempos, tem posto mais dinheiro subsidiado na velha economia do que na nova; em setores poentes, em vez dos emergentes.

Ser desenvolvimentista não é apenas gostar de desenvolvimento. Isso todo mundo quer, independentemente da corrente de pensamento econômico com a qual a pessoa se identifique. A pergunta relevante é que tipo de avanço está sendo projetado pelas decisões tomadas agora. 

Para crescer de forma sustentada o Brasil precisa qualificar brasileiros, reduzir o peso dos impostos sobre o emprego, aumentar a poupança, incentivar investimentos principalmente nos setores de ponta, melhorar a eficiência logística, reduzir a balbúrdia tributária. A lista é conhecida e permanece intocada. 

O Ministério da Fazenda e o Banco Central estão prisioneiros do imediatismo. Quando a inflação sobe, os juros são elevados, isso azeda a relação entre os dois órgãos. Os juros altos derrubam a taxa de inflação, mas valorizam mais a moeda brasileira. A indústria pede socorro aos ministros da Fazenda e do Desenvolvimento e eles reabrem o balcão que distribui vantagens setoriais ou adotam barreiras ao comércio. O Tesouro pensa estar induzindo o investimento de longo prazo transferindo recursos não contabilizados como gastos para o BNDES. O BNDES pensa estar fazendo política industrial despejando volumes extravagantes dos recursos no projeto de formação de grandes conglomerados. Tudo isso dá a impressão de que há um projeto. Não há. O país não está induzindo o próximo ciclo de desenvolvimento. 

A briga com a China mostra bem isso. Quando a indústria reclama dos desequilíbrios provocados pelos produtos chineses, o Brasil ameaça adotar barreiras. Não se dá conta de dois pontos: primeiro, a China é nosso maior superávit comercial; segundo, não se pergunta o que o país que mais cresce no mundo tem feito de certo. Eles estão investindo fortemente em educação, inovação, e na nova energia, por exemplo. O Brasil deve fazer sua lista de que áreas tocar para aumentar a competitividade, mas tanto a indústria quanto o governo esperam que a taxa de câmbio dê de presente essa competitividade. 

O arsenal de incentivos que qualquer governo dispõe serve para apontar os caminhos que a economia deve seguir. Os Estados Unidos não conseguiram ainda retomar o ritmo adequado de crescimento, mas os empregos criados na era Obama são principalmente na transição para a indústria de baixo carbono. 

Frequentemente o governo anuncia incentivos fiscais para a indústria automobilística. Não há vantagem para a indústria investir num novo motor de baixo carbono, na inovação, no carro elétrico. Os carros flex, que foram o grande avanço das últimas décadas, são inúteis porque a política de preços dos combustíveis privilegia o combustível fóssil, em vez do etanol. 

A formação dos grandes conglomerados da carne não produziu nada palpável. O Brasil continua fora dos mercados de qualidade, não houve aumento na exportação do produto. As empresas favorecidas não foram forçadas a exigir que a cadeia produtiva adotasse novas práticas ambientais e sociais. As empresas apenas ficaram maiores e agora entram em novas áreas. 

Os juros caíram, isso dará um alívio temporário, mas o país continua sem projeto, sem lista de tarefas a executar, sem meta de onde quer chegar. O Brasil continua perdendo o que não pode mais perder: tempo.

Mesmo com queda da Selic, Brasil continua com o maior juro real do mundo

Eduardo Tavares, de Exame.com

Para deixar a primeira posição do ranking, seria preciso cortar a Selic em 1,75 pontos percentuais

Divulgação/Banco Central
Com o corte na Selic promovido pelo Banco Central, 
a taxa brasileira, descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses é de 4,2%

São Paulo – O Banco Central (BC) reduziu pela quinta vez consecutiva a taxa básica de juros da economia brasileira. A queda, porém, não foi suficiente para tirar o Brasil do primeiro lugar no ranking dos maiores pagadores de juros reais do mundo.

Segundo levantamento do estrategista-sênior da corretora do Banco Cruzeiro do Sul, Jason Vieira, se o país quiser deixar a colocação ingrata, seria preciso cortar a Selic em 1,75 pontos percentuais.

Com a Selic atual, a taxa brasileira, descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses é de 4,2%. Assim, o Brasil segue líder disparado do ranking, com juros reais que são praticamente o dobro do segundo colocado, a Hungria. 

No levantamento feito pela Cruzeiro do Sul Corretora, é possível observar também que, por causa da crise internacional, vários países estão com juro real negativo. A média dos 40 países pesquisados é de -0,7%.

Fonte: Cruzeiro do Sul Corretora
País
Taxa real
Brasil
4,2%
Rússia
3,4%
Indonésia
2,1%
China
2,0%
Colômbia
1,6%
Taiwan
1,6%
Hungria
1,4%
Filipinas
1,3%
Austrália
1,1%
Índia
0,9%
Suíça
0,8%
Chile
0,8%
Israel
0,5%
México
0,4%
Polônia
0,4%
Malásia
0,3%
Coreia do Sul
0,1%
Japão
0,0%
Tailândia
-0,3%
Suécia
-0,4%
Argentina
-0,6%
África do Sul
-0,8%
Espanha
-1,0%
França 
-1,3%
Alemanha
-1,3%
Grécia
-1,3%
Holanda
-1,5%
Canadá
-1,5%
Áustria
-1,9%
Dinamarca
-2,0%
Itália
-2,2%
Portugal
-2,4%
Bélgica
-2,6%
Estados Unidos
-2,6%
República Tcheca
-2,7%
Inglaterra
-3,0%
Turquia
-4,2%
Cingapura
-4,6%
Hong Kong
-5,3%
Venezuela
-8,5%
Média dos 40 países
-0,7%