Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Patrus Ananias ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, escreveu um artigo publicado neste domingo pela Folha de São Paulo, em que a indigência ideológica e, por conseqüência os fundamentos de sua análise, resvalam numa total falta não apenas de fatos históricos, mas também de conclusões absolutamente fora do lugar.
Patrus Ananias ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, escreveu um artigo publicado neste domingo pela Folha de São Paulo, em que a indigência ideológica e, por conseqüência os fundamentos de sua análise, resvalam numa total falta não apenas de fatos históricos, mas também de conclusões absolutamente fora do lugar.
Seu artigo já na abertura começa com a seguinte interrogação: “...Qual é exatamente a relação entre violência e pobreza?...”
Ora, para alguém bem informado e sem estar tomado pelo espírito de corpo da vagabundagem ideológica, a resposta é... nenhuma. De fato, não existe relação alguma entre violência e pobreza, porque o seu contrário não resiste aos fatos: existe muita violência também nas classes mais abastadas da sociedade, e às vezes, com requintes de crueldade muito mais sofisticados. Estamos falando alguma tolice ? De modo algum, as páginas policiais estão repletas de casos de gente “fina” cometendo crueldades as mais torpes.
Mas onde deseja chegar a interrogação do ministro? Claro, ele desejava chegar à crítica delinqüente de que, o sistema capitalista, com os modelos liberal e neoliberal, são culpados diretos da violência, e de que os pobres são suas únicas vítimas.
Eis o trecho em que ele se revela: “...Cabe-nos o desafio de recuperar a vida como valor central de todas as nossas relações sociais. Faz parte do enfrentamento de um grave problema de ordem ética e moral imposta a partir da hegemonia do pensamento liberal e neoliberal, que nos legou uma sociedade em que as mercadorias perdem a referência de sua razão social e vivem por si, alimentada por uma cultura imediatista e hedonista. Tudo, inclusive o corpo, é mercadoria e se banaliza...”.
O governo deve gerar segurança, e não pagar aos indivíduos pela insegurança que produz sua omissão, sua falta de políticas de combate à criminalidade. O governo deve gerar escolas em condições otimizadas e com qualidade de ensino, e não tentar “pagar” os indivíduos por aquilo que ele deixa de fazer no campo da educação. Porque, no fundo, este “pagamento” não resgata o papel que o Estado deixou de cumprir, nem tampouco restabelece ao individuo aquilo que ele deixou de receber.
Se pobreza gerasse violência, ou indivíduos maus, teríamos cerca de 100 milhões de criminosos no país, o que seria um absurdo. Como absurda é a tese do ministro, que ecoa dos fundamentos estapafúrdios das esquerdas. Ora, a violência que grassa em nosso país faz vítimas em todas as camadas sócio-econômicas. Se os pobres formam, em números absolutos, maior quantidade de vítimas, é porque existem mais pobres do que ricos. Ser criminoso, não há como negar tal evidência, é questão de escolha pessoal, opção que alguém fez entre ser trabalhador e honesto, como a grande maioria dos pobres faz, ou seguir o caminho mais fácil, e mais arriscado, o de cometer crimes para alçar condições social e econômica superiores.
Nega-se a capacidade do indivíduo de se superar, de vencer dificuldades, transpor obstáculos, de lutar e trabalhar pelo próprio progresso. E este foi o espírito que trouxe o ser humano até aqui, seja na capacidade do intelecto, seja no progresso material. Prova está que de somos melhores hoje do que fomos ontem de que, fruto do próprio capitalismo e seus avanços, somos hoje muito mais libertos e vivemos muito mais. Antes do advento do capitalismo, o mundo era um imenso covil de autocratas dominantes a subjugarem na miséria e na escravidão o restante do mundo feito de milhões de pessoas. Vivíamos à metade do que vivemos, e em condições sub-humanas.
Em 1995, com o Plano Real, pode o Estado retornar um pouco às suas origens (ou à função primordial que lhe cabe), e retomar o verdadeiro papel que lhe cabe exercer. Como resultado, até a pobreza sofreu uma dura redução, e conforme já demonstramos aqui, a redução neste período foi muito mais acentuada do que com as “políticas sociais” do atual governo.
Assim, ficou a lição de que, quando o Estado age no sentido de universalizar os meios produção e o acesso por parte de todos dos benefícios que a modernidade oferece, a tendência é termos melhor partição da riqueza. E isto naturalmente acontece a partir dos méritos pessoais que cada indivíduo desenvolve. Não se pode premiar quem não desenvolve esforço algum em sua própria melhoria. E aí está o que seja justiça social, isto é, a todos se oferecem iguais oportunidades de progresso, e a cada um segundo sua própria obra, seu esforço, trabalho e dedicação.
Também já se disse aqui que, se tomássemos toda a riqueza do mundo, e a dividíssemos em partes iguais entre todos os habitantes do planeta, em poucos anos, teríamos de volta a divisão da riqueza nos mesmos moldes que conhecemos hoje. Por quê? Por conta das capacidades individuais, das escolhas e dos caminhos que cada um faz com suas “riquezas” e bens. Assim, não são os sistemas liberal e neoliberal que interferem nas nossas escolhas. Somos nós mesmos, fruto da personalidade de cada um.
Tome-se um exemplo, uma família de quatro irmãos. Todos criados com os mesmos recursos, atenções e meios. Na idade adulta estejam certos de que uns serão mais abastados do que os outros. O mundo é isto: uma imensa família, onde uns mais, outros menos, crescem, progridem e se realizam.
Portanto, não é liberalismo ou o congênere neoliberalismo que alimenta a violência ou a desigualdade, e sim, governos ineptos, incompetentes, corruptos, eivados de salafrários que, mesmo descobertos em seus crimes, e porque legislam em causa própria, acabando criando para si sistemas que, inevitavelmente, os livrarão de cumprirem pena por seus crimes. E isto vale tanto em sociedades capitalistas, quanto socialistas. E tanto é assim, que a própria China está preocupada com seu nível de corrupção.
A rigor, nenhum sistema traz embutido dentro si a regrinha de que é lícito delinqüir. A maldade, queiram ou não, faz parte não de sistemas, mas de seres humanos, de uma pequena parcela. Mas está lá. Errado é deixá-los livres, errado é tentarem encobrir seus rastros por serem “amigos” do poder, errado é tentar justificar a violência como ação de justiça social do pobre contra o rico. Isto é apologia à barbárie.
Achar-se que o Estado deve ser o pai ou a mãe do indivíduo é simplesmente ignorar o próprio sentido de evolução do ser humano. É negar para aqueles que mais se esforçam um prêmio melhor daquele que se concede a quem nada faz. Esta “igualdade” que as esquerdas tanto alimentam não apenas é uma utopia, mas um retrocesso descomunal ao sentido de progresso.
Aliás, talvez esteja aí a inversão de valores que explica o Brasil em muitas de suas mazelas. Grande parte do nosso povo trata o Estado como o “paizão”, a quem devemos servir e louvar. Fruto disto, a classe dominante do momento, acaba se sentindo muito além do que deveria. Porque a ser utopista, prefiro uma sociedade justa e tão consciente em que o Estado acabe se tornando irrelevante. Onde todas as instituições funcionem como engrenagem perfeita, e não aquela que, sem nada produzir, além de me tomar quase metade do fruto do meu trabalho, ainda me obrigue a suportar suas teorias e ideologias capengas, nascidas de seu desequilíbrio mental bestilóide.
Assim, quando uma sociedade não vai bem e tem os problemas sérios que o Brasil enfrenta, regra geral é porque o Estado, no seu gigantismo, se tornou ele próprio o problema maior para o desenvolvimento e progresso desta sociedade. Ou seja, o Estado sempre será o problema, jamais a solução, que só se consegue quando o Estado reduzido à sua real dimensão, esteja presente onde é necessário regular a atividade humana, mas sem nunca tentar ser o seu próprio agente. Do mesmo modo, a mentira instalada no poder acaba sendo a maior cúmplice da criminalidade e da violência.