sexta-feira, janeiro 05, 2007

Perspectivas para a economia em 2007

Carlos Alberto Sardenberg, G1
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A análise das tendências da economia brasileira começa necessariamente por uma avaliação do cenário mundial. E aqui começam as boas notícias: o mundo não estará hostil em 2007. Ao contrário.
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O ano de 2006 foi bem melhor que a encomenda. Não houve recessão, nem um surto inflacionário nos Estados Unidos, a maior economia do planeta (com PIB de US$ 13 trilhões, cerca de 30% de todas as riquezas produzidas mundialmente). A Zona do Euro, contrariando as expectativas, teve bom crescimento. E o Japão foi bastante bem. Assim, as três economias mais ricas completaram quatro anos de forte expansão - um momento raro.
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E o preço do petróleo não explodiu.
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Assim, o mundo entra em 2007 em boa forma. Há uma desaceleração em curso, mas suave - e é até uma boa notícia. Significa que a pressão inflacionária está sendo contida sem excesso de juros e sem recessão. Como a China em particular e os emergentes em geral continuam crescendo, o produto mundial deve registrar expansão de 4,7% em 2007, na previsão do FMI, contra os fortíssimos 5,1% prováveis para 2006.
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Com isso, o Brasil começa sob bons auspícios no quesito das contas externas: negócios e comércio em expansão pelo mundo todo, o que significa, por exemplo, que os importadores de produtos brasileiros continuam comprando.
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Um fato significativo: no final de 2006, a Vale do Rio Doce conseguiu fechar um aumento de 9,5% para o minério de ferro a ser vendo para os chineses em 2007. Isso em cima de aumentos de mais de 100% nos últimos dois anos. Está bom, não é mesmo?
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É um sinal importante de que os preços de comodities, cuja elevação turbinou as exportações brasileiras, não estão caindo. Claro, não sobem como nos últimos tempos, mas permanecem elevados.
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Vai daí que as exportações brasileiras devem ter, em 2007, uma expansão menor, mas ainda expansão. Se cresceram 25%, na média, nos últimos quatro anos, podem ter um aumento de 5% agora, encostando nos US$ 145 bilhões.
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As importações devem crescer mais depressa que as exportações, mas ainda se espera um superávit elevado, na casa dos US$ 38 bilhões.
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Continuam, pois, entrando dólares na economia - sinal de que não haverá pressão maior sob a cotação da moeda americana. O real pode até se desvalorizar, mas não muito.
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A dívida externa pública praticamente desapareceu (o governo brasileiro deve cerca de US$ 75 bilhões e as reservas já encostam nos US$ 85 bilhões).
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Resumo da ópera: não há problemas à vista no setor externo.
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No interno, parece tudo calmo no front da inflação. Visto o panorama de hoje, não se vislumbra nenhum fato que possa pressionar preços em 2007. Para a ampla maioria dos analistas, a inflação brasileira, depois de sete anos de bem sucedida aplicação do regime de metas, entrou numa fase de estabilidade. A partir daqui, deve girar em torno dos 4% ao ano.
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E se é assim, os juros devem continuar em queda. Nesse quesito, a grande novidade de 2007 é que a taxa real de juros (taxa básica de juros, aquela fixada pelo Banco Central, menos a inflação esperada) deverá girar em torno de 8% - abaixo da marca dos 10%. Ainda é elevada, se comparada com outros países, mas é preciso observar: até aqui, na era do Real, os juros reais só caíram abaixo dos 10% por um mau motivo, a escalada da inflação. Agora, deve haver uma combinação de inflação baixinha, com juros em queda.
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Isso traz duas conseqüências importantes para o consumo: aumenta o poder aquisitivo dos salários e favorece o crédito, especialmente o crédito às pessoas. Nesse aspecto, 2007 vai repetir 2006, com moderação. Até aqui, houve uma explosão do crédito concedido às pessoas, que praticamente dobrou nos últimos três anos, chegando a R$ 240 bilhões em novembro/06. Pode ir a R$ 280 bilhões em 2007. É esperado um novo impulso no crédito para a casa própria, com prazos cada vez mais longos e prestações fixas, dada a estabilidade da inflação baixa.
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Portanto, como em 2006, também em 2007 o crescimento do PIB será puxado especialmente pelo consumo das famílias.
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E aqui acabam as boas notícias. Todas as más se concentram no quesito contas públicas. Todos os sinais apontam na mesma direção: em 2007, mais uma vez, o governo vai aumentar seus gastos com Previdência (só o novo salário mínimo, R$ 380, vai custar quase R$ 6 bilhões), pessoal e custeio, sobrando muito pouco para investimentos em infra-estrutura. E se está aumentando os gastos, certamente vai aumentar a arrecadação de impostos para pagar tudo isso.
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Mais uma vez, o governo está fazendo a opção pelo consumo em vez de poupar e investir para aumentar a capacidade produtiva do país. Um exemplo: só em 2006 e 2007, o governo federal terá gasto R$ 16 bilhões com os aumentos do salário mínimo - valor equivalente a todo o investimento em infra-estrutura neste ano.
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Assim, o Brasil só vai acelerar o crescimento se houver mais investimentos privados. O problema é que o governo não tem conseguido criar as regras para atrair esses investimentos. Para 2007, o governo promete fazer as tais parcerias público privadas e concessões de rodovias para empresas privadas. Promete também destravar os investimentos em saneamento - todos setores que puxam o investimento.
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Se as promessas forem cumpridas, o país crescerá um pouco mais. Lembre-se: para alcançar um nível de crescimento de 5% ao ano, os investimentos precisam saltar dos atuais R$ 400 bilhões para R$ 500 bilhões/ano. E não é fácil juntar mais R$ 100 bilhões. O governo, incluindo todo o setor público, não consegue investir mais que R$ 20 bilhões/ano.
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O resto fica com o setor privado, que tem dinheiro. Mas que precisa de regras melhores e políticas públicas mais eficientes para investir.

A volta do doutor Segadas

Olavo de Carvalho, filósofo, Jornal do Brasil
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No Brasil, o sujeito possuir uma erudição superior é considerado uma aberração, uma falha de caráter, uma doença. Cada um tem de ler apenas o pouco que seus colegas leram, nem uma linha a mais. Se passar disso, ofende e humilha a corporação, sendo automaticamente condenado por delito de "pedantismo".
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Para redimir-se, deve provar genuflexa humildade ante seus detratores, retribuindo a difamação com favores servis como Otto Maria Carpeaux retribuiu aos comunistas. Pode também compensar a indecente pletora de conhecimentos com demonstrações de modéstia populista, escrevendo sobre samba, futebol, comida ou sexo, para mostrar que erudito também é gente. Mas isso nem sempre funciona. José Guilherme Merquior jamais foi perdoado, pois não fez uma coisa nem a outra. Gilberto Freyre tentou a segunda, mas já era tarde: nenhum populismo, estético ou lúdico, poderia jamais absolver o pecado mortal da adesão ao movimento de 1964.
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Qualquer que seja o caso, o excesso de leituras pode ser perdoado em vida, mas sempre restará uma nódoa póstuma. Comentando o segundo volume dos Ensaios reunidos de Carpeaux (Topbooks), muitos resenhistas se mostram irritados com a erudição do genial ensaísta e historiador literário, só a desculpando quando encontram, com mal disfarçado alívio, algum defeito que a seus olhos o reduza a dimensões mais humanas. De passagem, observo: neste país é proibido escrever sobre os grandes homens com respeito genuíno e admiração humilde. Um ar de superioridade, pelo menos de intimidade desrespeitosa, é absolutamente necessário à boa auto-imagem do crítico, bem como à sua reputação.
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Curiosamente, a erudição em detalhes irrelevantes, de ordem folclórica, histórica ou filológica, não ofende a ninguém. É até um mérito. O que o sujeito não pode é mostrar um conhecimento extensivo das obras maiores, um obsceno domínio dos problemas essenciais em várias áreas do pensamento ou das ciências. Em qualquer discussão pública, a familiaridade com o status quaestionis é não somente desnecessária como inconveniente. Um bom sujeito consente em ignorar tudo o que seus colegas de universidade e mídia ignoram, de modo a não pegá-los jamais de surpresa. Se você diz algo que eles não sabem, isto prova que você é um ignorante, um amador enxerido. Ou então é um louco que anda vendo coisas.
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Porém, o mais grave de tudo, o absolutamente intolerável, é ser erudito sem o correspondente diploma. A recíproca não é verdadeira. Diploma sem conhecimento é normal e decente. Você pode até escrever Getúlio com LH e continuar chefe de departamento universitário. O que não pode é estudar muito sem ser bacharel ou doutor. Isso expõe você ao desprezo das pessoas de bem, como o doutor Segadas do Triste fim de Policarpo Quaresma, indignado ao ver as estantes do vizinho carregadas de livros: "Se não era formado, para quê? Pedantismo!" O romance de Lima Barreto saiu em 1916. Por volta dos anos 50, o Brasil parecia ter mudado. Meio século depois, milhares de Segadas estão de volta a seus postos, mais empombados do que nunca. É o pogréfo, como diria o senhor presidente.

TOQUEDEPRIMA...

Delfim recusa cargos no governo Lula
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Citado para vários cargos no segundo governo Lula, o ex-ministro Delfim Netto decidiu não aceitar convite para a presidência do Banco Central nem tampouco o Ministério da Agricultura. A razão é mais simples do que se supõe: a vida em Brasília já não o seduz.
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Viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido
Por Luiz Antonio Ryff, Nonsense, NoMínimo
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Só para registro, 21 deputados federais que deixaram o cargo para assumir governos estaduais, vice-governadorias e secretarias de Estado serão substituídos por suplentes. Como a próxima legislatura começa no dia 1º de fevereiro, essa turma ficará apenas um mês no posto.
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Mas nada de pegar no batente. O detalhe é que não há trabalho previsto – o Congresso está em recesso em janeiro. Mesmo assim cada novo parlamentar pode faturar cerca de R$ 40 mil em um mês. É a soma do salário (R$ 12.800), auxílio-moradia (R$ 3 mil), ajuda de custo para despesas ao assumir o cargo -equivalentes a um salário (R$ 12.800)- e a verba indenizatória (R$ 15 mil). O salário e o auxílio moradia serão pagos proporcionalmente aos “dias trabalhados”. Além disso, terão direito a recursos extras, como quatro passagens aéreas para seus estados, cota de telefone e Correios.
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Ou seja, lembram aquele personagem vivido pela Regina Duarte na novela Roque Santeiro, a Viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido. Enfim… nada como viver em um país rico, né não?
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Caros deputados
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Quem critica o pretendido aumento dos deputados federais não sabe que os deputados distritais, em Brasília, embolsam ao menos R$ 106 mil por mês, entre vencimentos, verbas de gabinete e indenizatória, auxílio-gasolina etc.
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Serra cria Programa Estadual de Desburocratização
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O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), criou o Programa Estadual de Desburocratização. O objetivo é simplificar os procedimentos e minimizar os entraves que podem comprometer a qualidade da prestação de serviços públicos.
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O Comitê Estadual de Desburocratização, responsável pela condução do projeto, deverá desenvolver estudos e apresentar propostas, coordenar e monitorar a adoção de idéias nas unidades administrativas e propor atos normativos necessários à introdução.
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Vinculado ao Conselho de Governo do Desenvolvimento Econômico e Infra-Estrutura, o Comitê Estadual será composto pelos novos secretários do Emprego e Relações do Trabalho, Guilherme Afif Domingos; da Administração e Gestão, Sidney Beraldo; da Fazenda, Mauro Ricardo Machado Costa; da Segurança Pública, Ronaldo Augusto Bretas Marzagão; dos Recursos Hídricos e Meio Ambiente, Francisco Graziano Neto, e da Justiça e Defesa da Cidadania, Luiz Antônio Marrey, e pelo novo procurador-geral do Estado, Marcos Fábio de Oliveira Nusdeo.
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Vaticano terá o musical pop sobre a Divina Comédia
Veja Online
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O Vaticano anunciou ter planos de patrocinar um espetáculo musical baseado na Divina Comédia, obra prima do poeta florentino Dante Alighieri (1265-1321). A surpresa, no entanto, é a trilha sonora - de acordo com reportagem publicada nesta quarta-feira pelo jornal britânico The Independent, a peça será uma espécie de "ópera rock", com música escrita por um padre liberal. A estréia está prevista para o segundo semestre deste ano.
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O responsável pela trilha sonora, monsenhor Marco Frisina, pretende usar diferentes gêneros musicais de acordo com cada momento do poema. No Inferno, por exemplo, a trilha será de heavy metal, punk rock e jazz; no Purgatório, cantos gregorianos; e no Paraíso, sinfonias clássicas e modernas. De acordo com o monsenhor Frisina, a montagem será importante para reacender o interesse pela Divina Comédia nos dias atuais.
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"O poema é muito relevante", afirmou ele ao jornal italiano La Repubblica. "Se trata de uma fonte inexaurível de mensagens e ensinamentos. E embora seus personagens sejam de uma outra época, falam para os homens de hoje, com sua voracidade por conhecimento, seus medos, seus desejos de elevação rumo a uma beleza divina.” A diretora do espetáculo, Elisabetta Marchetti, já está preparando a montagem, que terá vinte atores e cantores, trinta bailarinos e uma orquestra formada por cem músicos.
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Verbas para a MPB
Radar, Veja Online
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Depois de abrir financiamentos para a produção cinematográfica, o BNDES anuncia em fevereiro a criação de uma linha específica para a indústria musical brasileira. Serão disponibilizados 175 milhões de reais ao longo de três anos para os setores de infra-estrutura, produção e distribuição, incluindo também opções de financiamento para a construção de novas casas de shows.

Os caminhos da pedra

Por Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo
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Já há diversas leituras do(s) discurso(s) de posse de Lula disponíveis da praça.
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Uns viram ortodoxia, outros viram ousadia, houve os que o acharam sectário na crítica às elites, e também os que o acharam conciliador no aceno à oposição. Aqui vai a impressão que as duas falas de Lula, no Congresso e no Planalto, deixaram neste espaço: nenhuma.
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Lula não disse nada de relevante. Não há recado, sinal, pista, nada, absolutamente nada de consistente nas palavras do presidente. Mas os discursos foram bons.
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Foram bons porque para o povo, em seus variados graus de ignorância – de Ipanema ao Vale do Jequitinhonha –, o presidente é cada vez mais um animador de auditório. Em sua reeleição, Fernando Henrique fez um discurso de posse deprimido. Lula foi radiante.
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Isso não é pouco. É bom o país ver que seu líder está, pelo menos, animado. E Lula não pára de se beliscar e repetir: “Saí de onde saí, cheguei aonde cheguei… E agora cheguei de novo”, e por aí vai. Para ele, a vida virou uma grande goleada do Corinthians sobre o Palmeiras em final de campeonato. Tá bom demais.
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Evidentemente, essa história de plano de aceleração do crescimento, que animou tanta gente, não quer dizer rigorosamente nada. Lula e o seu governo não têm a menor idéia do que fazer para empurrar o PIB para cima – e por um lado é bom que não tenham.
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Qual é a fórmula? Para José Serra, é ajeitar a política econômica para seus amigos exportadores da Avenida Paulista ganharem mais dinheiro. A velha receita do Delfim. Não caia nessa, Lula.
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Se for para atender ao chororô dessas falsas locomotivas do crescimento, não mude nada. Deixe a companheira Dilma fazendo essa mímica desenvolvimentista, que está enganando tão bem, e vá apenas apertando os parafusos da máquina. Tire aos poucos a botija da boca da companheirada (acabou a eleição, certo? Daí você volta para São Bernardo), deixe o Estado funcionar, as agências regularem, os investidores perderem o medo do poder público (e da sanha petista), enfim, deixe a vida andar.
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Vá fazendo as reformas possíveis, que, ao contrário do que vendem por aí, não dariam resultado hoje nem amanhã mesmo. O crescimento virá, naturalmente, sem nenhuma dessas receitas acrobáticas de José Serra, Ciro Gomes e companhia salvacionista limitada.
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O Brasil precisa hoje menos de governo que o empurre do que de governo que não o atrapalhe.
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É claro que esse papo de combate ao terrorismo também não quer dizer nada. Intervenção da guarda nacional? Só rindo para não chorar. Esse problema é tão mais delicado do que as bravatas de autoridades e especialistas fazem supor, que dá até preguiça de entrar nele. Quem tiver paciência, releia o penúltimo artigo aqui publicado.
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Mas a fala de Lula sobre o tema foi boa. Sem ironia. Deu uma sacudida moral na sociedade, que por sua vez – ele tem razão (e já foi escrito aqui) – precisa reagir como um todo.
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Já a discussão sobre se isso é terrorismo ou não é terrorismo é a melhor forma de começar a não fazer nada.
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Mas há um enigma no discurso de Lula, que ele vem repetindo há alguns meses. O presidente informa que, depois de governar quatro anos, já sabe “os caminhos da pedra”.
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Como nenhum assessor o corrige, supõe-se que seja isto mesmo o que queira dizer. Resta esperar que a tal pedra não seja muito grande e seus caminhos não sejam ribanceira abaixo.

Início em anticlímax

Editorial da Folha de São Paulo
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O novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva começou sem público, sem planos e sem equipe. Na segunda-feira chuvosa de Brasília, a posse de um presidente reeleito com mais de 58 milhões de votos se reduziu a mera formalidade.
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Indolência, inoperância e mesmice se podem esperar de um governo que inicia um período de quatro anos de gestão sem definir quem ocupará os ministérios. Não se sabe a cargo de quem estará a execução do assim chamado Plano de Aceleração do Crescimento. Pudera, apenas um conjunto indefinido de assessores poderia estar à frente de um acervo inexistente de propostas.
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Vêm de longe as demonstrações presidenciais de inapetência para com as tarefas administrativas. A queda dos principais assessores de Lula ao longo do primeiro mandato lhe deu diversas oportunidades para tomar as rédeas do seu governo. Não soube ou não quis agarrá-las; preferiu investir todas as suas energias na edificação de seu próprio mito, um eco de Getúlio.
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Ocorre que a opção pela ligação direta com as massas perde eficácia quando desaparece do horizonte a perspectiva da reeleição. A melancólica cerimônia de posse é apenas um prenúncio da modorra que prevalecerá no segundo mandato caso Lula não substitua a política do aplauso fácil por planos, metas, quadros e trabalho obstinado.
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O tal PAC, por exemplo, deveria ter começado com um sinal firme de que as despesas de manutenção da máquina federal iriam cair. As medidas anunciadas em dezembro para o reajuste do salário mínimo, porém, vieram no sentido contrário. De que caixa mágica Lula pretende tirar dinheiro para ampliar os investimentos em infra-estrutura, como prometeu anteontem?
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O fato, lamentável, é que Lula não tem a mínima idéia sobre o que fará à frente do Executivo federal até 31 de dezembro de 2010. Trata-se de receita certa para a aceleração do desgaste político num segundo mandato.

Lula inicia sob ameaça de contas não pagas

Folha de S. Paulo
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O segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva começa com um saldo devedor recorde de R$ 17,1 bilhões em investimentos não pagos. São compromissos de gastos assumidos no ano eleitoral de 2006 e, numa parcela menor, em anos anteriores. Eles ameaçam uma das principais promessas feitas pelo presidente anteontem, no discurso de posse: ampliar os investimentos públicos.
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Em 2007, o governo terá de destinar para essas contas pendentes a maior parte do dinheiro dos impostos que poderia usar em investimentos. Se decidir pagá-los, logicamente.
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O valor da pendência -chamada de "restos a pagar"- representa 63% dos investimentos autorizados na lei orçamentária deste ano. Durante a votação do Orçamento no Congresso, deputados e senadores aumentaram em mais de R$ 10 bilhões o volume de investimentos por meio de emendas. A lei de Orçamento autoriza a União a investir R$ 27,2 bilhões.
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Parte desse valor será objeto do tradicional corte de gastos editado no início de cada ano. O que sobrar irá competir com o pagamento das contas pendentes, que bateram recorde ao final de 2006, segundo levantamento da ONG Contas Abertas com base em dados do Tesouro.
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Boa parte do saldo de contas pendentes em investimentos resulta dos compromissos em gastos assumidos no ano eleitoral. O Siafi (sistema acompanhamento de gastos federais) mostra que foram comprometidos R$ 19,7 bilhões em investimentos autorizados em 2006. É menos do que os R$ 26,1 bilhões que a lei orçamentária autorizava. Mas um volume de dinheiro maior do que qualquer outro ano deste governo.
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Do total de compromissos -chamados no jargão orçamentário de empenhos-, apenas R$ 6,5 bilhões foram pagos até 31 de dezembro. O governo deu prioridade ao pagamento de contas pendentes de anos anteriores, que representam 57% dos investimentos pagos em 2006 (R$ 15,2 bilhões).
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O que não foi pago dos compromissos assumidos em 2006 somou-se a contas pendentes de anos anteriores no saldo recorde de R$ 17,1 bilhões.."Preocupante"No ano passado, o TCU (Tribunal de Contas da União) já chamara de "preocupante" o volume crescente de despesas não pagas. Embora os "restos a pagar" acumulados por Lula não firam a Lei de Responsabilidade Fiscal, já que haveria dinheiro suficiente em caixa para honrar os compromissos de gastos, eles prejudicam a execução das leis orçamentárias, na avaliação do tribunal, além de maquiar os resultados fiscais ostentados pelo governo.
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Na prática, os sucessivos superávits primários (parcela dos tributos reservada ao pagamento de juros da dívida pública) ocultam gastos não pagos.
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A mais recente tentativa de impor limites extras aos chamados restos a pagar foi abortada por Lula na última sexta-feira. Ele vetou artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias que limitaria as contas pendentes de investimento e custeio da máquina em 2007 a 70% dos restos a pagar de 2006.
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Entre 2005 e 2006, o Siafi registra aumento de 33% no volume de restos a pagar em investimentos. Ao vetar, Lula atribuiu as contas pendentes a um "descompasso" na execução dos investimentos, cujos pagamentos exigem conclusão das obras ou entrega de bens. Limites extras poriam em risco a continuidade de ações relevantes, argumentou o presidente.
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Dono do maior orçamento de investimento na Esplanada, o Ministério dos Transportes é o que detém também o maior volume de contas pendentes: R$ 2,7 bilhões. Mais da metade refere-se ao programa de manutenção das rodovias federais.
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Os ministérios das Cidades e da Saúde também registram mais de R$ 1 bilhão de investimentos pendentes. Quatro outras pastas -Defesa, Educação, Integração Nacional e Turismo- integram o grupo de ministérios com mais de R$ 500 milhões de restos a pagar.
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Consultado pela Folha, o Tesouro Nacional não se manifestou sobre a possibilidade de cancelar despesas, como aconteceu na transição do governo de FHC para o de Lula.

Lula e o “terrorismo”

Editorial do Estadão
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Mesmo sem cumprir a promessa de promover um “Rio de sangue” na passagem do ano, os traficantes do Rio de Janeiro deixaram um saldo trágico com os atentados que promoveram contra agentes e postos policiais, no dia 28 de dezembro. Foram mortas 18 pessoas, entre as quais 7 queimadas vivas dentro de um ônibus e 7 bandidos. O mais grave é que as autoridades continuam sem saber que medidas tomar para impedir mais violência, pois as milícias constituídas por policiais aposentados e da ativa prometeram revidar os ataques do tráfico.
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A tragédia no Rio de Janeiro levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a convertê-la em objeto do discurso de improviso que pronunciou no parlatório do Palácio do Planalto, quando classificou os ataques como “atos de terrorismo”, disse que eles “extrapolaram o banditismo convencional” e defendeu uma ação conjunta dos governos estaduais e federal para enfrentar o crime organizado com a “mão forte” do Estado. “O que está acontecendo é resultado de erros históricos acumulados por toda a sociedade brasileira”, concluiu, sem em nenhum momento ter feito referências à série de atentados cometidos no ano passado em São Paulo pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
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Além da confusão que fez entre “crime convencional” e terrorismo e entre segurança pública e segurança nacional, Lula mais uma vez tratou dos problemas do País como se a responsabilidade por eles fosse exclusivamente de seus antecessores. Por ironia, o combate ao crime foi tema de um dos discursos que pronunciou ao tomar posse pela primeira vez, em 2003. Ele defendeu, então, um esforço conjunto da União e dos Estados para coibir a criminalidade, prometeu convocar os 27 governadores para discutir segurança e anunciou as diretrizes de sua política para o setor.
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Quatro anos depois, quase todas as propostas que apresentou naquela ocasião não haviam saído do papel. Seu governo fracassou na tentativa de mudar a legislação para reformar as polícias civis e militares. As duas principais fontes de financiamento dos programas de segurança pública, o Fundo Nacional de Segurança Pública e o Fundo Penitenciário Nacional, sofreram cortes profundos. E o Sistema Único de Segurança Pública, que tinha por finalidade integrar as polícias e fazer a gestão unificada dos serviços de informação, teve sua implementação dificultada por divergências políticas e partidárias entre Lula e vários governadores.
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A polêmica Força Nacional de Segurança Pública, por exemplo, foi criada pelo governo federal após mais uma onda de violência e mortes no Rio de Janeiro, com o objetivo de socorrer os governos estaduais. Lula, sempre agindo com vista à reeleição, passou a oferecê-la aos governadores como se fosse uma solução miraculosa para a crise da segurança. Temendo que o envio de tropas federais fosse explorado eleitoralmente, vários governadores recusaram a oferta.
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O início de um novo período de governo deveria ser uma oportunidade - mais uma! - para a formulação de estratégias sensatas, racionais e eficientes para deter a onda de violência que assola o País. Mas para isso seria preciso que Lula descesse do palanque e deixasse de lado a esdrúxula idéia de tratar facções criminosas como o Comando Vermelho ou o PCC - que têm por objetivo o lucro ilícito - como se fossem organizações terroristas - cujo objetivo é sempre a mudança violenta do regime político.
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O grande problema do uso da legislação antiterror é o risco de supressão de liberdades públicas e violação de garantias fundamentais. Na realidade, para se enfrentar o crime organizado não é preciso romper a normalidade do Estado de Direito. Basta pôr em prática as medidas que há muito vêm sendo recomendadas, como a reforma e a depuração das polícias, a consolidação do Sistema Único de Segurança, a reformulação dos fundos nacionais penitenciário e de segurança pública, a gestão articulada das polícias estaduais e federal e a reforma da legislação penal. Acima de tudo, a crise da segurança pública é um problema gerencial e o que se espera do novo governo é que tenha a competência administrativa necessária para enfrentá-la. Mas o discurso de Lula mostra que ele continua sem entender a verdadeira natureza do problema da criminalidade.

Porta aberta para as fraudes

Estado de Minas
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Um dos avanços conseguidos na tramitação do Orçamento da União para inibir a ação de quadrilhas como a máfia dos sanguessugas, que se valeu das verbas de emendas parlamentares para desviar recursos através da venda de ambulâncias superfaturadas, acabou vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
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No texto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) publicado em edição extraordinária do Diário Oficial da União, não foi mantido o artigo que exige, das organizações não-governamentais (ONGs) a declaração de funcionamento regular e a inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) nos últimos três anos para o acesso a verbas públicas. A medida, defendida pela comissão de parlamentares encarregada de estudar instrumentos de controle sobre a tramitação e a execução orçamentárias, era considerada fundamental para, como definiu o deputado Sérgio Miranda (PDT-MG), conter a principal porta de entrada para a corrupção, já que há indícios de que várias dessas organizações foram criadas para servir de fachada para a ação das quadrilhas.
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A alegação do Palácio do Planalto é de que a medida poderia “causar a interrupção de importantes ações governamentais, notadamente aquelas voltadas ao atendimento das populações mais necessitadas nas áreas da saúde e assistência social”. Com a decisão, somente na discussão do Orçamento para 2008 ou com a aprovação de proposta específica pelo Congresso será possível rever a decisão.
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Lula também vetou um dispositivo que obrigava o Executivo a atender as emendas parlamentares e o impedia de cancelá-las ou contingenciá-las. O presidente considerou que o mecanismo “segrega o Orçamento em categorias que não guardam relação com a dinâmica de planejamento e execução das ações de governo”. Ele vetou ainda um dispositivo que tratava de transferências voluntárias para Executivos estaduais e municipais, que definia regra para a distribuição de verbas entre os municípios mais carentes e de fronteira, que tratava de crédito especial e extraordinário, que restringia o contingenciamento e aquele que regulava a redução de restos a pagar.
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Despesas Correntes
Em uma decisão inusitada, o presidente suprimiu um dispositivo proposto pela própria equipe econômica quando do envio da LDO ao Congresso: o redutor, em 0,1 ponto percentual do PIB, das despesas correntes da administração federal, descontadas as transferências constitucionais e legais para governos de Estados e prefeituras, o complemento de atualização monetária do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), os recursos para o Fundo Constitucional para o Distrito Federal, os subsídios e subvenções ao setor agrícola, a aquisição e formação de estoques reguladores e a compensação aos governos estaduais e administrações municipais por causa da desoneração do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) gerada com a Lei Kandir.
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Responsável pela mudança de orientação, o Ministério do Planejamento argumenta que muitas das despesas de caráter obrigatório, como as vinculadas ao salário mínimo, obedecem políticas específicas, que não podem ser alteradas.

Descobertas mais fraudes da máfia

Correio Braziliense
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O Congresso Nacional sepultou as denúncias contra parlamentares acusados de envolvimento com os sanguessugas, mas continuam a ser desvendadas fraudes na compra de ambulâncias com dinheiro do Orçamento. A Controladoria Geral da União (CGU) confirmou novas irregularidades em convênios firmados por quatro municípios com empresas do grupo Planam, beneficiárias do esquema de corrupção. As cidades ficam no Mato Grosso, Pará e Rio de Janeiro.
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A fiscalização constatou indícios de conluio em contratos executados, em 2002, pelas prefeituras de Jaciara (MT), Novo Repartimento (PA), Belford Roxo (RJ) e Paracambi (RJ). Para a controladoria, houve combinação de resultado entre servidores públicos e os representantes do grupo Planam, para que a empresa mato-grossense dirigida por Darci e Luiz Antônio Vedoin fosse a vencedora nas concorrências públicas. Dos quatro processos realizados por Jaciara, sempre na modalidade convite, três foram vencidos por empresas ligadas à dupla, no caso Santa Maria, Klass e Enir-PP.
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A auditoria da CGU tem reforçado as investigações da Polícia Federal, que por dois anos levantou detalhes do esquema. O primeiro passo da fraude, segundo a PF, seria o contato com os prefeitos interessados em comprar ambulâncias. Durante esse contato, os donos da Planam mostravam aos dirigentes municipais que poderiam entregar o veículo pronto para uso de forma mais rápida que pelos trâmites normais. O administrador ficaria, então, livre da burocracia.
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Com o aval do prefeito, a quadrilha acionava assessores parlamentares que preparavam as emendas ao Orçamento, com os recursos destinados à aquisição dos veículos. A etapa seguinte, de analisar o convênio e liberar os recursos, cabia ao Ministério da Saúde, onde os sanguessugas contavam com a ajuda da assessora especial Maria da Penha Lino para garantir o andamento dos processos. Por último, a Planam se encarregava de montar as ambulâncias e entregá-las aos prefeitos.
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InquéritosA pedido da Procuradoria Regional da República em Brasília, mais de 30 prefeitos são investigados pela Polícia Federal por supostos acertos com a família Vedoin. Por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), a PF apura indícios contra 84 parlamentares que teriam sido beneficiados com a propina distribuída pela quadrilha em troca de emendas. No Congresso, dos 67 deputados e três senadores acusados pela CPI dos Sanguessugas de participação nas fraudes, praticamente todos encerrarão a atual legislatura, em 31 de janeiro, sem qualquer punição.
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As irregularidades nas licitações de ambulâncias foram levantadas pela CGU durante auditoria em 60 municípios sorteados dentro de um programa de fiscalização. O governo federal identificou também fraudes na aplicação de recursos destinados ao transporte escolar (leia abaixo). A controladoria descobriu que as prefeituras simularam gastos inexistentes com combustíveis.
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Foram encontrados ainda problemas no programa Bolsa Família, como a falta de localização de beneficiários nos endereços que constavam no banco de dados do programa e a concessão indevida do benefício a famílias com renda per capita acima do estabelecido em lei. No total, a controladoria fiscalizou recursos da ordem de R$ 395,1 milhões, repassados pela União para a execução descentralizada de programas federais, em diversas áreas como educação e saúde.
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OS PROBLEMAS
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Ambulâncias
Os convênios para a aquisição de ambulâncias realizados em 2002 pelas prefeituras de Jaciara (MT), Novo Repartimento (PA), Belford Roxo (RJ) e Paracambi (RJ) com o grupo Planam apresentaram irregularidades. A fiscalização da CGU encontrou indícios de conluio entre os participantes. De quatro licitações na modalidade convite realizadas por Jaciara, por exemplo, o grupo empresarial da família Vedoin venceu três.
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Transporte Escolar
Em Ipupiara (BA), segundo a CGU, a prefeitura simulou a compra de R$ 103 mil em combustível, em 2004. Cinco veículos deveriam ser abastecidos, mas a controladoria apurou que dois deles não rodaram durante todo o ano. Em Santo Antônio dos Milagres (PI), o município informou gastos, em 2005, com 21 mil litros de óleo diesel para o transporte escolar, mas os fiscais calcularam que não seriam necessários mais do que 8 mil litros.
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Bolsa Família
A auditoria da CGU identificou irregularidades envolvendo a execução do Bolsa Família por parte dos municípios fiscalizados, desde a falta de localização de beneficiários nos endereços que constavam no banco de dados do programa até a concessão indevida do benefício a famílias com renda per capita acima do estabelecido em lei para caracterizar pobreza ou extrema pobreza.

Brasil investe apenas 3% do PIB

Pedro do Coutto, na Tribuna da Imprensa
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As coincidências são essenciais a todos os setores da vida humana, da mesma forma que os encontros e desencontros, e o jornalismo, claro, não foge à regra, mesmo porque sem ele nada acontece. No último dia de 2006, reportagem de Regina Alvarez e Gerson Camarotti ("O Globo") focaliza o tema retomada do crescimento econômico e ouve diversas pessoas, personagens, como os de Pirandello, à procura de uma forma de realizar tal projeto. Entre eles o ex-ministro da Fazenda do governo Sarney, Mailson da Nóbrega, em cujo período a inflação alcançou 84 por cento ao mês.
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Além disso, foi condenado pelo STF como autor de um corte na correção das contas do FGTS de milhões de trabalhadores. No mesmo dia - aí a coincidência -, o jornalista Marcelo Billi, "Folha de S. Paulo", complementa a equação do problema: em 2006, a indústria teve o pior resultado da história. A causa está no fato de que aplicar no mercado financeiro rende mais - frisou - do que investir na produção.
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Mailson da Nóbrega, como todo mundo, defende mais investimentos. Como? Reformando, diz ele, a Previdência Social (INSS) e o sistema do ICMS. Cortar gastos. É a linguagem de sempre. Impressionante que não se fale em aumentar a receita. Só em se reduzir direitos do trabalho, como ocorreu com o Fundo de Garantia. Além disso, o rendimento do capital supera a inflação do IBGE. O reajuste dos salários fica abaixo dela. As perdas salariais, através dos anos, são enormes. Os lucros dos bancos crescem sem parar. Todos nós recebemos, hoje, pelo menos, a metade dos vencimentos mensais que deveríamos perceber.
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Dentro de um quadro assim, regido por forças tão divergentes e por padrões monetários diversos, os investimentos públicos diminuem. E, sem eles, não há hipótese de a economia poder se expandir. A taxa inflacionária do ano passado, segundo o evangelho do IBGE, ficou em 4 por cento. Mas o governo pagou - e paga - juros anuais de 13,25 por cento apenas para rolar (não abater) a dívida interna mobiliária, que se aproxima velozmente de 1 trilhão e 100 bilhões de reais, como revelou o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes. Este é um fato, não uma opinião.
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Deveria ter sido considerado pelo ex-ministro Mailson da Nobrega, também por Mario Ernesto Humberg, Marcio Pochman, Flavio Castelo Branco, Fabio Giambiagi, Mario Bernardini, Paulo Godoy, Sinesio Batista da Costa e pelos dirigentes sindicais Paulo Pereira da Silva, Henrique Silva Santos e José Lopez Feijó, ouvidos, todos eles, pelos repórteres de "O Globo". Nada falaram sobre a dualidade, no Brasil cada vez mais injusta, entre capital e trabalho. Isso de um lado.
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De outro, nem "O Globo" nem a "Folha de S. Paulo" focalizaram com nitidez a questão dos investimentos. Eles representaram menos de 3 por cento no orçamento de 2006 e estão estimados em 3,5 por cento da lei de meios para 2007. Se nós os considerarmos em termos de Produto Interno Bruto, significam aproximadamente 3 por cento. No ano passado, somaram 47 bilhões. Este ano a previsão é que atinjam 63 bilhões de reais. O orçamento do exercício que começa é de 1 trilhão e 800 bilhões. O programa de investimentos, como se constata, é muito pequeno. Assim a economia não pode voltar a crescer. E se ela não crescer, o mercado de empregos tampouco avança.
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Inclusive porque o País pagou aos bancos, em 2006, segundo o balanço da Secretaria do Tesouro Nacional publicado dia 30, 179,5 bilhões. A dívida mobiliária interna equivale a 57 por cento do orçamento e a 54 por cento do PIB. Quanto a rede bancária vai receber este ano? Incrível que os economistas fujam deste ângulo da questão. Por quê? Um mistério? Nada disso. Na verdade, porque as elites brasileiras têm um impulso exagerado em servir ao capital e relegar o trabalho para segundo plano, agravando o impasse histórico.
Os tecnocratas, no fundo, sempre pensam que, amanhã ou depois, podem ser convocados pelo Itaú, pelo Bradesco, pelo Santander, pelo Unibanco, como foi o caso do ex-ministro Pedro Malan. E então podem prosseguir suas carreiras na iniciativa privada, que, em nosso País, não é tão particular como nos Estados Unidos. Aqui, vive se realimentando de recursos públicos.
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Veja-se o caso das privatizações no governo FHC. Foram financiadas pelo BNDES e pelos fundos de pensão, cujos recursos são estatais. Previ, do Banco do Brasil, Petros, da Petrobras, Funcef, da Caixa Econômica Federal, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social detêm algo em torno de 75 por cento do capital efetivo das empresas privatizadas. As direções da Vale do Rio Doce e da CSN, por exemplo, são privadas. Não o capital com que passaram a operar há seis e cinco anos.
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Uma autêntica privatização à brasileira foi o que aconteceu. Por que os tecnocratas não abordam este lado do problema. Deveriam fazê-lo honestamente. Até porque a solução de qualquer impasse começa pelo pensamento.

O pacto pelo contribuinte

por Denis Rosenfield, filósofo, no Blog do Diego Casagrande
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A sociedade gaúcha disse, mais uma vez, não ao aumento de impostos. Não se trata de um problema apenas conjuntural, relativo a uma suposta ausência de articulação política da nova governadora gaúcha, Yeda Crusius, mas de um problema que diz respeito a uma questão propriamente estrutural: a carga tributária ficou insuportável! Por que a população gaúcha deveria pagar mais pelo telefone, que utiliza, pela gasolina de seu automóvel, pelo cigarro, que fuma, pelos refrigerantes e cervejas, que bebe, pela energia que consome? Em nome de quê? De um déficit das finanças públicas do qual ela não é responsável? Por que o setor produtivo deveria arcar mais uma vez com uma carga tributária e com outras medidas, que prejudicam a sua competitividade?
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Os contribuintes estão cansados de receber pelos impostos pagos um serviço que não corresponde ao que gastam com as finanças públicas. Não há proporção entre o que é gasto e os serviços que recebem em retorno. Ademais, alguns setores e Poderes do Estado ganham salários muito elevados para os padrões brasileiros e mesmo internacionais, de tal maneira que se torna ainda mais gritante a disparidade social. Enquanto a sociedade e as empresas são cada vez mais enxugadas dos seus recursos, os estamentos estatais desfrutam de condições extremamente vantajosas. A percepção da opinião pública é a da injustiça.
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Quando do tarifaço do agora ex-governador Rigotto, houve uma forte reação da sociedade, capitaneada pelas federações empresarias e outras entidades profissionais, que se fizeram efetivamente representar por um setor dos deputados. A opinião pública foi mobilizada e deu razão aos que defenderam, e defendem, um não aumento, e mesmo uma redução, da carga tributária. O projeto de aumento dos impostos, apesar de aprovado naquele então, produziu um grande desgaste do governador e trouxe, igualmente, as federações empresariais ao papel de protagonistas políticas. A sociedade, no seu conjunto, começou a adquirir consciência do que estava e está ocorrendo. Os políticos deveriam ter aprendido deste episódio a seguinte lição: seria muito difícil aprovar um novo aumento da carga tributária! A opinião pública está mudando e os deputados estão cientes disto!
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Em linha de continuidade com esta reconfiguração da opinião pública e na esteira de políticos e partidos que compreenderam a necessidade de uma nova forma de gestão pública, foi organizado um movimento que galvanizou a sociedade gaúcha, em torno de um novo pacto, denominado Pacto pelo Rio Grande. Entre outras propostas sugeridas, estava a necessidade uma nova forma de governar, de administrar as finanças públicas, que estaria em consonância com os serviços que deveriam ser prestados pelo Estado. Das medidas propostas, destacavam-se o não aumento dos recursos e vencimentos dos três Poderes e um não aumento da carga tributária. Num fato raro na história gaúcha e, diria, nacional, todos os partidos, com raras exceções de alguns deputados, se uniram em torno de um projeto comum. O otimismo era tanto que dava para desconfiar. Os mais céticos já se perguntavam por quanto tempo iriam os políticos e partidos sustentar as posições assumidas.
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No pacote que terminou rejeitado da governadora Yeda, produziu-se uma cena bastante curiosa, na medida em que políticos, partidos e mesmo representantes de associações de classe tiveram de se enfrentar com a sua postura passada. A alternativa foi a seguinte: seguir as suas convicções ou, mais uma vez, colocá-las de lado como se nada significassem. Houve um lado francamente deprimente nesse episódio, pois líderes e protagonistas importantes do Pacto simplesmente mudaram de posição. Alguns tentaram contorcionismos verbais como se estivessem seguindo o espírito daquilo mesmo que estavam traindo. Diga-se, a bem da verdade, que políticos coerentes deixaram as secretarias para as quais tinham sido escolhidos e permaneceram com as suas convicções. Deputados votaram majoritariamente contra o pacote, em sintonia com a opinião pública. Apenas dois partidos mantiveram a coerência: o PFL e o PT. E uma democracia só pode verdadeiramente funcionar quando os políticos e partidos são coerentes com suas propostas. Caso contrário, a cena pública termina se desestruturando.

O governo começou sem começar

Eliane Cantanhêde , Folha de São Paulo
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Lula tomou posse num governo que começou sem começar. Sem o pacote econômico tão prometido, sem metas, sem definição de reformas e sem equipe. Onde já se viu presidente assumir sem tirar a foto da equipe ministerial?.Mas, enfim, esse é o Lula que a gente já conhece bem. Na dele, sem paciência para preencher ministérios (o primeiro mandato chegou ao fim com seis "interinos"), sem dar muita bola para o Congresso, sem muito gosto por programas feitos e acabados, adorando um improviso e... sem pressa.
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Lula confia no seu taco e na sua sorte. No que, aliás, faz muito bem, porque taí um homem de sorte. Até na posse. Choveu torrencialmente todo o dia 1º de janeiro em Brasília, mas, na horinha que ele tinha de subir no Rolls Royce para desfilar em carro aberto, a chuva parou e o sol deu o discreto ar de sua presença.
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Lula, assim, chega ao segundo mandato de peito inchado pelos 60% dos votos, desdenhando a oposição e a imprensa, achando que pode fazer e acontecer - porque, no fim, tudo acaba dando certo. Mais ou menos como tem sido desde sempre.
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Questão de estrela - e não é a estrela do PT, que acabou sendo uma grande usente da festa de posse tanto no Planalto, quanto no Congresso, quanto nas ruas. Nem Dona Marisa, que já surpreendeu plantando estrela de flores vermelhas nos jardins do Alvorada e pintando outra no próprio maiô, usou desta vez a tradicional cor do partido. Preferiu um vestido amarelo bem forte (aliás, bonito e apropriado, com uma capa feita por bordadeiras do Nordeste).
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O vermelho ficou restrito às gravatas da posse, inclusive de não petistas e de boa parte dos peemedebistas. Não deve ter sido homenagem às esquerdas, ou ao PT. Simplesmente, é mais bonito.
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Acaba a posse, Lula vai descansar uns dias, porque, afinal, ninguém é de ferro. Na campanha, o lema era: "Deixem o homem trabalhar!". Eleito com folga e já empossado, passou a ser: "Deixem o homem descansar!". Faz sentido. O pior já passou - para ele.
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Lula vai descansar, provavelmente numa praia, deixando em Brasília várias promessas em aberto: anunciar o já tão anunciado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) lá pelo dia 15, formar uma equipe de "notáveis" para o segundo mandato, combater o "terrorismo" no Rio e arredores.
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Mas deixando pra um dia, quem sabe, a expectativa de um índice de crescimento de 5% ao ano (índice lançado para 2007 e abandonado antes mesmo da posse) e a pressão para que as coisas andem logo. Calma! Pra quê pressa?.Aliás, não custa lembrar que janeiro é mês de recesso no Judiciário e no Legislativo, de descanso do presidente, de debandada de boa parte dos ministros e de muita chuva. Depois, vem fevereiro, muito calor, Carnaval, sabe como é...
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Então, gente, ainda não se sabe quando o governo que começou começa.
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Enquanto isso, recomenda-se ler os discursos da posse, muito bonitos, cheios de boas intenções, de manifestações pró-maioria, pró-miseráveis, pró-crescimento, pró-combate à violência. A cada um de nós, só resta concordar sinceramente. E esperar. A esperança, como todos sabemos, é a última que morre.

O que faltou dizer

Valdo Cruz, Folha de São Paulo
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Em sua reposse, Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que manterá o figurino de pai dos pobres, que "acelerar, crescer e incluir" serão os verbos a serem conjugados no segundo mandato e que a educação será uma prioridade.
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O presidente petista, porém, não foi muito claro ou simplesmente omitiu em seus dois discursos, um no Congresso outro no Planalto, alguns pontos que levantam muitas dúvidas sobre seu segundo mandato.
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Não houve uma só citação, por exemplo, sobre algo que atormenta e muito empresários nacionais e estrangeiros: a insegurança jurídica para quem decide investir em projetos no Brasil.
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Tudo indica que o governo Lula continuará com sua política de intervir nas agências reguladoras e não se mostra interessado em alterar algumas regras dos chamados marcos regulatórios, como o de energia, que vêm afugentando investimentos no setor.
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Retirar esse tema da pauta da posse não parece ter muito sentido para quem, no Congresso, disse ter a compreensão de que "o investimento público não pode, sozinho, garantir o crescimento" e que é preciso, parar isso, "desonerar e incentivar o investimento privado" no país.
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O presidente tampouco falou em reforma da Previdência, apesar de estar sendo discutida dentro do governo uma forma de buscar mudanças na legislação previdenciária. O petista não quis se comprometer com o tema num momento de comemoração, tendo diante do Palácio do Planalto cerca de 10 mil pessoas.
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Lula também não esclareceu como conseguirá combinar sua repetida promessa de "responsabilidade fiscal" com "mudanças de postura e ousadia na criação de novas oportunidades para o país".
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Sem reforma da Previdência e sem cortes de gastos correntes da União, o cenário mais provável é que, para atender a ordem presidencial de acelerar investimentos públicos, a equipe econômica seja obrigada a sacrificar parte do superávit primário em 2007. Ninguém assume isso publicamente --nem Lula em seus discursos, nem sua equipe econômica--, mas é o que deve acontecer no primeiro ano do segundo mandato.
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Por falar em reformas, o presidente também não tocou na trabalhista. Há anos se fala que, para reduzir o custo Brasil e incorporar mais trabalhadores ao mercado formal, seria necessário alterar as regras trabalhistas no Brasil. O ex-sindicalista Lula não demonstra grande entusiasmo pelo tema. No primeiro mandato, o assunto foi estudado, discutido, mas não andou. O mesmo ritual deve ser observado nessa segunda fase, mas o petista evitou deixar isso claro.
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Agora, não se pode dizer o mesmo quanto à disposição de Lula em atender às camadas mais baixas da população. Seu discurso mostrou que o aumento do salário mínimo para R$ 380, contrariando o desejo da equipe econômica que defendia um valor de no máximo R$ 375, faz parte de seu projeto de governo.
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Nos dois discursos feitos no dia da posse, Lula pontilhou sua opção preferencial pelos pobres. Aí, nada de errado. Pelo contrário, num país de tamanha desigualdade social é preciso ter uma atenção especial como esse segmento da população brasileira.
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Lula, porém, mostrou em sua fala o ressentimento que tem contra as elites. "Não faltaram os que, do alto de seus preconceitos elitistas, tentaram desqualificar a opção popular como fruto da sedução que poderia exercer sobre ela o que chamavam de 'distribuição de migalhas'", disse no Congresso Nacional.
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Em outro ponto: "Desconhecem o que é um povo sem feitores, capaz de expressar-se livremente" e "Este povo constitui a verdadeira opinião pública do país que alguns pretenderam monopolizar". Ou seja, não deixou nenhuma dúvida que vai olhar com mais atenção para aqueles que garantiram sua vitória. Nada mais natural.
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Esperança
Feitas as ressalvas, é preciso destacar que o cenário, hoje, é favorável ao presidente Lula em seu início de segundo mandato. Apesar do crescimento dos gastos públicos observado nos últimos anos, não se pode dizer que eles estão fora de controle. Há tempo para se adotar medidas que os coloquem numa rota de crescimento controlado, já que redução, no curto prazo, não está nos planos governamentais.
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A inflação está baixa, as reservas internacionais altas, a dívida externa equacionada. Claro que seria melhor que o presidente tivesse a disposição de atacar reformas impopulares, como as da Previdência e trabalhista, mas há espaço para buscar um crescimento da economia brasileira acima do atual. Talvez algo entre 3,5% e 4% do PIB (Produto Interno Bruto). Chegar à prometida e já abandonada meta de 5% envolveria, porém, medidas mais ousadas. Essas, como ficou claro nos discursos do presidente, não estão na agenda imediata.