Pedro do Coutto, na Tribuna da Imprensa
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As coincidências são essenciais a todos os setores da vida humana, da mesma forma que os encontros e desencontros, e o jornalismo, claro, não foge à regra, mesmo porque sem ele nada acontece. No último dia de 2006, reportagem de Regina Alvarez e Gerson Camarotti ("O Globo") focaliza o tema retomada do crescimento econômico e ouve diversas pessoas, personagens, como os de Pirandello, à procura de uma forma de realizar tal projeto. Entre eles o ex-ministro da Fazenda do governo Sarney, Mailson da Nóbrega, em cujo período a inflação alcançou 84 por cento ao mês.
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Além disso, foi condenado pelo STF como autor de um corte na correção das contas do FGTS de milhões de trabalhadores. No mesmo dia - aí a coincidência -, o jornalista Marcelo Billi, "Folha de S. Paulo", complementa a equação do problema: em 2006, a indústria teve o pior resultado da história. A causa está no fato de que aplicar no mercado financeiro rende mais - frisou - do que investir na produção.
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Mailson da Nóbrega, como todo mundo, defende mais investimentos. Como? Reformando, diz ele, a Previdência Social (INSS) e o sistema do ICMS. Cortar gastos. É a linguagem de sempre. Impressionante que não se fale em aumentar a receita. Só em se reduzir direitos do trabalho, como ocorreu com o Fundo de Garantia. Além disso, o rendimento do capital supera a inflação do IBGE. O reajuste dos salários fica abaixo dela. As perdas salariais, através dos anos, são enormes. Os lucros dos bancos crescem sem parar. Todos nós recebemos, hoje, pelo menos, a metade dos vencimentos mensais que deveríamos perceber.
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Dentro de um quadro assim, regido por forças tão divergentes e por padrões monetários diversos, os investimentos públicos diminuem. E, sem eles, não há hipótese de a economia poder se expandir. A taxa inflacionária do ano passado, segundo o evangelho do IBGE, ficou em 4 por cento. Mas o governo pagou - e paga - juros anuais de 13,25 por cento apenas para rolar (não abater) a dívida interna mobiliária, que se aproxima velozmente de 1 trilhão e 100 bilhões de reais, como revelou o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes. Este é um fato, não uma opinião.
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Deveria ter sido considerado pelo ex-ministro Mailson da Nobrega, também por Mario Ernesto Humberg, Marcio Pochman, Flavio Castelo Branco, Fabio Giambiagi, Mario Bernardini, Paulo Godoy, Sinesio Batista da Costa e pelos dirigentes sindicais Paulo Pereira da Silva, Henrique Silva Santos e José Lopez Feijó, ouvidos, todos eles, pelos repórteres de "O Globo". Nada falaram sobre a dualidade, no Brasil cada vez mais injusta, entre capital e trabalho. Isso de um lado.
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De outro, nem "O Globo" nem a "Folha de S. Paulo" focalizaram com nitidez a questão dos investimentos. Eles representaram menos de 3 por cento no orçamento de 2006 e estão estimados em 3,5 por cento da lei de meios para 2007. Se nós os considerarmos em termos de Produto Interno Bruto, significam aproximadamente 3 por cento. No ano passado, somaram 47 bilhões. Este ano a previsão é que atinjam 63 bilhões de reais. O orçamento do exercício que começa é de 1 trilhão e 800 bilhões. O programa de investimentos, como se constata, é muito pequeno. Assim a economia não pode voltar a crescer. E se ela não crescer, o mercado de empregos tampouco avança.
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Inclusive porque o País pagou aos bancos, em 2006, segundo o balanço da Secretaria do Tesouro Nacional publicado dia 30, 179,5 bilhões. A dívida mobiliária interna equivale a 57 por cento do orçamento e a 54 por cento do PIB. Quanto a rede bancária vai receber este ano? Incrível que os economistas fujam deste ângulo da questão. Por quê? Um mistério? Nada disso. Na verdade, porque as elites brasileiras têm um impulso exagerado em servir ao capital e relegar o trabalho para segundo plano, agravando o impasse histórico.
Os tecnocratas, no fundo, sempre pensam que, amanhã ou depois, podem ser convocados pelo Itaú, pelo Bradesco, pelo Santander, pelo Unibanco, como foi o caso do ex-ministro Pedro Malan. E então podem prosseguir suas carreiras na iniciativa privada, que, em nosso País, não é tão particular como nos Estados Unidos. Aqui, vive se realimentando de recursos públicos.
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Veja-se o caso das privatizações no governo FHC. Foram financiadas pelo BNDES e pelos fundos de pensão, cujos recursos são estatais. Previ, do Banco do Brasil, Petros, da Petrobras, Funcef, da Caixa Econômica Federal, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social detêm algo em torno de 75 por cento do capital efetivo das empresas privatizadas. As direções da Vale do Rio Doce e da CSN, por exemplo, são privadas. Não o capital com que passaram a operar há seis e cinco anos.
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Uma autêntica privatização à brasileira foi o que aconteceu. Por que os tecnocratas não abordam este lado do problema. Deveriam fazê-lo honestamente. Até porque a solução de qualquer impasse começa pelo pensamento.
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As coincidências são essenciais a todos os setores da vida humana, da mesma forma que os encontros e desencontros, e o jornalismo, claro, não foge à regra, mesmo porque sem ele nada acontece. No último dia de 2006, reportagem de Regina Alvarez e Gerson Camarotti ("O Globo") focaliza o tema retomada do crescimento econômico e ouve diversas pessoas, personagens, como os de Pirandello, à procura de uma forma de realizar tal projeto. Entre eles o ex-ministro da Fazenda do governo Sarney, Mailson da Nóbrega, em cujo período a inflação alcançou 84 por cento ao mês.
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Além disso, foi condenado pelo STF como autor de um corte na correção das contas do FGTS de milhões de trabalhadores. No mesmo dia - aí a coincidência -, o jornalista Marcelo Billi, "Folha de S. Paulo", complementa a equação do problema: em 2006, a indústria teve o pior resultado da história. A causa está no fato de que aplicar no mercado financeiro rende mais - frisou - do que investir na produção.
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Mailson da Nóbrega, como todo mundo, defende mais investimentos. Como? Reformando, diz ele, a Previdência Social (INSS) e o sistema do ICMS. Cortar gastos. É a linguagem de sempre. Impressionante que não se fale em aumentar a receita. Só em se reduzir direitos do trabalho, como ocorreu com o Fundo de Garantia. Além disso, o rendimento do capital supera a inflação do IBGE. O reajuste dos salários fica abaixo dela. As perdas salariais, através dos anos, são enormes. Os lucros dos bancos crescem sem parar. Todos nós recebemos, hoje, pelo menos, a metade dos vencimentos mensais que deveríamos perceber.
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Dentro de um quadro assim, regido por forças tão divergentes e por padrões monetários diversos, os investimentos públicos diminuem. E, sem eles, não há hipótese de a economia poder se expandir. A taxa inflacionária do ano passado, segundo o evangelho do IBGE, ficou em 4 por cento. Mas o governo pagou - e paga - juros anuais de 13,25 por cento apenas para rolar (não abater) a dívida interna mobiliária, que se aproxima velozmente de 1 trilhão e 100 bilhões de reais, como revelou o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes. Este é um fato, não uma opinião.
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Deveria ter sido considerado pelo ex-ministro Mailson da Nobrega, também por Mario Ernesto Humberg, Marcio Pochman, Flavio Castelo Branco, Fabio Giambiagi, Mario Bernardini, Paulo Godoy, Sinesio Batista da Costa e pelos dirigentes sindicais Paulo Pereira da Silva, Henrique Silva Santos e José Lopez Feijó, ouvidos, todos eles, pelos repórteres de "O Globo". Nada falaram sobre a dualidade, no Brasil cada vez mais injusta, entre capital e trabalho. Isso de um lado.
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De outro, nem "O Globo" nem a "Folha de S. Paulo" focalizaram com nitidez a questão dos investimentos. Eles representaram menos de 3 por cento no orçamento de 2006 e estão estimados em 3,5 por cento da lei de meios para 2007. Se nós os considerarmos em termos de Produto Interno Bruto, significam aproximadamente 3 por cento. No ano passado, somaram 47 bilhões. Este ano a previsão é que atinjam 63 bilhões de reais. O orçamento do exercício que começa é de 1 trilhão e 800 bilhões. O programa de investimentos, como se constata, é muito pequeno. Assim a economia não pode voltar a crescer. E se ela não crescer, o mercado de empregos tampouco avança.
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Inclusive porque o País pagou aos bancos, em 2006, segundo o balanço da Secretaria do Tesouro Nacional publicado dia 30, 179,5 bilhões. A dívida mobiliária interna equivale a 57 por cento do orçamento e a 54 por cento do PIB. Quanto a rede bancária vai receber este ano? Incrível que os economistas fujam deste ângulo da questão. Por quê? Um mistério? Nada disso. Na verdade, porque as elites brasileiras têm um impulso exagerado em servir ao capital e relegar o trabalho para segundo plano, agravando o impasse histórico.
Os tecnocratas, no fundo, sempre pensam que, amanhã ou depois, podem ser convocados pelo Itaú, pelo Bradesco, pelo Santander, pelo Unibanco, como foi o caso do ex-ministro Pedro Malan. E então podem prosseguir suas carreiras na iniciativa privada, que, em nosso País, não é tão particular como nos Estados Unidos. Aqui, vive se realimentando de recursos públicos.
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Veja-se o caso das privatizações no governo FHC. Foram financiadas pelo BNDES e pelos fundos de pensão, cujos recursos são estatais. Previ, do Banco do Brasil, Petros, da Petrobras, Funcef, da Caixa Econômica Federal, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social detêm algo em torno de 75 por cento do capital efetivo das empresas privatizadas. As direções da Vale do Rio Doce e da CSN, por exemplo, são privadas. Não o capital com que passaram a operar há seis e cinco anos.
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Uma autêntica privatização à brasileira foi o que aconteceu. Por que os tecnocratas não abordam este lado do problema. Deveriam fazê-lo honestamente. Até porque a solução de qualquer impasse começa pelo pensamento.