sábado, novembro 13, 2010

Retratos de um Brasil sem governo

Adelson Elias Vasconcellos

Os textos que vocês viram nos posts abaixo, sobre educação, desigualdade, saúde e até aeroportos brasileiros, são todos direitos do cidadão, deveres do Estado, e as reportagens não deixam dúvidas quando mostram o quanto estes serviços estão em estados emergenciais. O retrato que se assiste representa a dolorosa realidade de um país cujo governo, desde 2003, prefere construir indústrias de medicamentos e atender povos de outros países, do que cumprir com sua tarefa primordial: atender minimamente o seu próprio povo.

É constrangedor ver que este governo, mercê à imensa competência em mentir, consegue iludir mais de 50% de sua população, para reeleger a continuidade de seu abandono.

E é impossível não sentirmos imensa revolta quando, nossa elite política, sem exceção de quem quer que seja, e nos três poderes, que já vivem nababescamente entre privilégios tão imorais quanto imerecidos, se digladiam para elevarem ainda mais seus astronômicos ganhos, enquanto o povo que sustenta este imenso luxo, sequer tem saúde decente para se tratar. Ambulatórios apodrecendo e falta de medicamentos básicos e essenciais. As reportagens sintetizam de forma dolorosa os quadros de extrema miséria, abandono e descaso do Estado para com os filhos deste país.

Enquanto assistia ao vídeo, comecei a escrever este texto. Senhores, não consegui concluir, tamanha a vontade de explodir de raiva, de indignação, de revolta. Nestes quatros anos e meio de existência do blog, raramente passamos algum tempo sem nos obrigarmos a noticiar alguma calamidade no campo da saúde pública brasileira. Quantas pessoas morrem a espera de tratamento, de atendimento ou de medicamento, muitas vezes básicos e baratos. Talvez isto explique porque Lula se ausenta tanto do país, excursionando pelo exterior.Trata-se de um covarde crônico que prefere se esconder da realidade que seu desgoverno vem condenando o país e seu povo. Nos fóruns onde reluz seus discursos ignominiosos , Lula sabe encher a boca para proclamar que já somos a quinta maior economia do planeta. MENTIRA. Os filmes que as reportagens exibem não permitem que nos enganemos: estamos muito mais próximos dos povos míseros da África do que propriamente de um país com alguma aparência mínima de desenvolvido.

Não, não há propaganda oficial que mascare a dura realidade que o país enfrenta e precisa suportar, fruto de um governo que se esqueceu de governar. Nosso povo está, em muitas regiões, entregue à própria sorte. Talvez seja por isso que o governo Lula não cansa de tentar silenciar a imprensa com projetos que assegurem o retorno da censura. Talvez, pensam estes imbecis, sem que ninguém noticie nossa miséria, o senhor Lula consiga atingir aprovação unânime.

Não, não me peçam para concordar com aumento de um centavo que seja nos salários de qualquer parlamentar, juiz ou ministro. Não merecem. Não fazem por merecer. A luxúria desta gente não pode sacrificar e condenar o restante do país à miséria e abandono.

Assistam aos vídeos, apesar de seus pouco mais de 11 minutos, um, e cerca de 9 minutos um outro. São 11 ou nove minutos que falam mais alto do que os bilhões em propaganda falsa que o governo Lula torra para tentar mascarar a dura realidade da vida dos brasileiros. São 11 ou 9 minutos em que se demonstra toda a repulsa que se pode sentir contra esta canalha assentada no poder, a se locupletar com os 40% de impostos que nos arrancam, apenas para bancar suas festas, solenidades, seus banquetes, seus aparatos imperiais, seus privilégios, sua indecência, sua imoralidade, sua irresponsabilidade, seu descaso para o país que os sustenta.

Vimos no artigo sobre o TCU, na edição de ontem (clique aqui) que, fruto da fiscalização dos seus auditores, e em apenas três obras que exemplificamos, foi possível evitar que cerca de R$ 410,0 milhões fossem para o ralo da corrupção. E Lula ainda se indispõem contra o TCU quando este aponta a má aplicação do dinheiro público, dinheiro que, se aplicado na saúde, por exemplo, reduziriam em muito a desigualdade, a miséria e o abandono da população pobre, além de poupar algumas dezenas de mortes frutos da irresponsabilidade. No total, no último relatório do TCU, se aponta a existência de mais de R$ 2,5 bilhões que estão sendo gastos indevidamente, que estão sendo desviados para os esquemas com que as ratasanas da república se alimentam em proveito próprio.

O Brasil de Lula quer ser a quinta economia do mundo? Até pode, mas primeiro precisará sair do século 19 em que se encontra, mercê dos serviços indignos que presta à sua população. Precisamos chegar ao século 21 em termos de atendimento em qualquer área do serviço público federal, principalmente aqueles que em nossa Constituição são listados como direitos do cidadãos e deveres do Estado.

Enquanto não chegarmos lá, o melhor que Lula ainda pode fazer, recomendando o mesmo para sua pupila, é tratarem de governar o Brasil para os brasileiros. Porque não são recursos que faltam: o que falta é um governo competente, com vergonha e responsabilidade, e que dê prioridade aquilo que é prioridade, no caso, e principalmente, educação e saúde, aqui se incluindo saneamento básico, para que a parte africanizada do Brasil saia da Idade Média. Como dissemos, isto não é e nem pode ser uma esmola do Estado: trata-se de sua maior obrigação, já que a sociedade paga alto preço por isso. O resto tudo é secundário. Como afirmou o senhor Manoel, um dos entrevistados das reportagens da Globo, “...A coisa mais importante no mundo é a vida. A vida não tem preço. As outras coisas são coisas banais. Casa, carro, tudo: são coisas banais. Mas a vida não. A vida é muito preciosa” . E quando se trata de um governo brasileiro, o bem mais precioso que DEVE respeitar e resguardar é a vida de milhões de brasileiros. Nem Lula nem tampouco Dilma Rousseff foram eleitos para governarem a África ou a América dos ditadores latinos. E a Constituição que Lula jurou cumprir foi a nossa, não a dos outros. Portanto, passa da hora do Brasil voltar a ter um governo dedicado para si mesmo.

No teste internacional de educação, com 57 países, somos o número 52

Miriam Leitão, Jornal Bom Dia Brasil, Rede Globo

O Enem é a ponta do iceberg de um problema maior. Falta um compromisso de todos nesse país com a educação. O Enem foi pensado, inicialmente, para ser um teste de aferição da qualidade do Ensino Médio que sempre foi um problema no Brasil. Mas ele virou um teste parecido com o vestibular. Então, quer dizer que teve uma mudança.

Todo economista com quem converso eu pergunto: qual é o desafio econômico do Brasil? Ele responde: educação. Naquele teste internacional de educação, que tem 57 países, nós somos o número 52. Nós estamos lá no final.

O Brasil tem que entender nesse momento, que é um momento decisivo, nós temos a chance de estar no primeiro países do mundo, de ser a oitava economia do mundo. A gente não pode ter esse dado que a gente teve do IDH. Nós temos o mesmo nível de escolaridade do Zimbábue que é um país que está em crise econômica de grande proporção em atraso, em retrocesso, em recessão.

Ou seja, nós não podemos aceitar. O Brasil não pode aceitar esses casos de saúde que mostrou a série de reportagem do Marcelo Canellas que são doenças do século XIX nem esses números horrorosos da educação. Assim, a gente não vai ser grande. A gente não pode achar que vai ser a oitava economia do mundo com saúde e educação desse jeito.

Relatório da CPI dos Desaparecidos critica governo

Gabriel Castro, Veja online


Comissão foi criada há quase dois anos para apurar as causas do desaparecimento de crianças e adolescentes no Brasil

Após quase dois anos de funcionamento, a CPI do Desaparecimento de Crianças chegou a seu relatório final, apresentado nesta terça-feira. A relatora, Andreia Zito (PSDB-RJ) é enfática ao destacar as causas do alto índice de desaparecimentos no país: "O descaso do estado em relação às crianças e adolescente desaparecidos e a falta das delegacias especializadas".

O relatório critica o governo federal pela baixa aplicação de verbas destinadas à resolução do problema. Para sustentar sua argumentação, a deputada apresentou números: em 2010, foram gastos 20% dos recursos destinados ao Fundo Nacional da Criança. Do orçamento da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, o percentual aplicado é menor: 17%.

Ao mesmo tempo, o governo destinou 362 milhões de reais para a publicidade."O governo federal não tem tratado com seriedade o desaparecimento de crianças e adolescentes", diz a relatora em um trecho do texto que deve ser retirado do documento final por pressão de governistas.

O texto apresentado por Andreia Zito também propõe a criação de uma Secretaria da Criança e do Adolescente, a destinação de recursos para delegacias especializadas em desaparecimentos e a elaboração de um projeto de lei tornando obrigatória a obtenção da carteira de identidade para crianças a partir de 6 anos de idade. Além disso, o documento sugere que as emissoras de rádio e TV sejam obrigadas a veicular, nos horários de maior audiência, informações sobre crianças desaparecidas.

ONU: Brasil é o 3º país mais desigual da América Latina

EFE

O Brasil é o terceiro país com maior desigualdade na América Latina, ao lado do Equador e atrás de Bolívia e Haiti, segundo o Relatório Regional sobre Desenvolvimento Humano para América Latina e Caribe 2010, divulgado nesta terça-feira pela Organização das Nações Unidas, em Quito. Brasil e Equador compartilham a posição com 56% de desigualdade (100% equivaleria ao caso hipotético no qual apenas uma pessoa receberia toda a receita).

O representante da ONU no Equador, José Manuel Hermida, indicou durante a apresentação do relatório que o estudo "contribui para a formação de políticas públicas para diminuir a desigualdade".

Para Hermida, a persistência da desigualdade é um obstáculo para o desenvolvimento econômico dos países.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Equador é um dos 15 países mais desiguais do mundo, dos quais, dez estão na América Latina e no Caribe, região com as maiores diferenças econômicas entre seus habitantes.

Ao contrário da América Central, onde a desigualdade caiu desde 1990, na região andina o índice só começou a descer em meados da década atual, assinala o documento.

Parece que a perfeição na saúde do Brasil ficou longe de novo

Alexandre Garcia, Bom Dia Brasil, Rede Globo





A série "Doença do Silêncio" fez um retrato do atraso na saúde brasileira. Malária, tuberculose e mal de chagas são doenças que não precisavam mais estar tão presentes no século XXI.

Eu estou no Hospital de Base de Brasília, o maior hospital da capital do país. Ele é o retrato da saúde, a começar pelas ambulâncias que trazem pacientes de diferentes estados. Nesse hospital, como em outros hospitais públicos, falta tudo. Há um revezamento de falta de material. Ora falta luva, ora a luva rasga na mão do médico, falta uma simples sonda, falta esparadrapo, falta gaze. Para fazer exame, ora o equipamento está enguiçado. Ora não há reagente para fazer exame. Sobram pacientes, faltam médicos. Esse é um retrato da saúde.

Em 19 de abril de 2006, Dia do Exército, Dia do Índio, dia no nascimento de Getúlio Vargas, um dia significativo, o presidente Lula afirmou que "não está longe de atingir a perfeição o tratamento de saúde neste país".

Como mostraram as reportagens de Marcelo Canellas e a equipe dele, essa perfeição na saúde do Brasil parece que ficou longe de novo. Mal de chagas, tuberculose e malária continuam atingindo cidades insalubres da Amazônia, o Nordeste. Tem tuberculose no Rio de Janeiro. Tudo isso afasta do brasileiro a saúde e a felicidade. No entanto, o artigo 196 da Constituição diz que a saúde é direito dos brasileiros e dever do Estado. A gente pode concluir, então, os governos não estão cumprindo seus deveres.

A propósito, há dois dias, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um projeto de emenda à Constituição, incluindo entre os deveres sociais, em que está a saúde, a busca essencial da felicidade.

Países tropicais têm doenças negligenciadas, diz coordenadora de ONG

Jornal Bom Dia Brasil, Rede Globo

Para Fabiana Alves, da iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas, indústria farmacêutica tem pouco interesse em tratar doenças como malária, tuberculose e doença de Chagas.Assista ao vídeo.





Veja organizações que combatem doenças negligenciadas pelo mundo
Jornal Bom Dia Brasil, Rede Globo

Médicos Sem Fronteiras e Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) desenvolvem remédios para combater doenças como a malária.

Apesar dos avanços globais na área da medicina, milhões de pessoas continuam sem acesso a medicamentos essenciais no tratamento de doenças. É com o objetivo de reverter esse panorama que organizações humanitárias, como a Médicos Sem Fronteiras, unem esforços e se comprometem a levar ajuda médica a várias partes do mundo. Você pode acessar o site brasileiro da instituição clicando aqui. Lá é possível ter mais informações de como fazer contribuições.

Após vencer o Nobel da Paz em 1999, a Médicos Sem Fronteiras destinou os recursos do prêmio à criação da Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês), uma iniciativa que, como o nome já sugere, busca pesquisar e desenvolver remédios para combater obstáculos graves como malária, doença do sono e doença de Chagas. Hoje, ela atua em diversos países e é formada por cinco instituições do setor público, entre elas a brasileira Fundação Oswaldo Cruz. Acesse o site da DNDi.

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Doença do silêncio: saiba quais são os sintomas e onde procurar ajuda

Separamos algumas informações importantes sobre malária, tuberculose e doença de chagas. Confira!

Anajás (PA) tem quase metade da população com casos de malária

Marcelo Canellas, Jornal Bom Dia Brasil, Rede Globo

A cidade na Ilha de Marajó com 25 mil habitantes tem 10 mil casos de malária só na primeira metade do ano. A doença mata, maltrata e ameaça o futuro de milhares de brasileiros desde os primeiros anos de vida.



Você conhece, mas ninguém fala dela. Está perto da sua casa, do seu trabalho, da sua família. É doença do silêncio. Em mais uma série especial do Bom Dia, os repórteres Marcelo Canellas e Luiz Quilião cruzaram o país para mostrar os efeitos da tuberculose, do mal de chagas e da malária.

Na África, a malária ainda mata três mil crianças por dia. No Brasil, está concentrada na Amazônia. Em 2009, foram 300 mil casos. No primeiro semestre deste ano, mais de 120 mil. A malária mata, maltrata e ameaça o futuro de milhares de brasileiros desde os primeiros anos de vida.

No calor equatorial da Amazônia, a sensação é de que o corpo congelou. “É um frio que parece que vai quebrar os ossos”, diz um rapaz. Ele estica o braço para mostrar o tremor da doença. “Muito tremor, febre, dor de cabeça, dor nas costas”, relata.

O exame é só para confirmar o óbvio. “Já tem o diagnóstico clínico de malária. Não adianta (dar o cobertor para ele). Nenhum cobertor vai curar isso”, diz o Dr. José Maria de Souza, do Instituto Evandro Chagas que estuda a malária há quase 50 anos.

Todos os dias, dezenas de pacientes prostrados e febris esperam para ser atendidos por ele no ambulatório do Instituto Evandro Chagas em Belém. “Começam os sintomas hoje em que se incluem a febre. Passa um dia sem febre. E dá febre no outro dia. Ou seja, 48 horas”, aponta o médico.

No Brasil, são três tipos de malária: vivax, falciparum e malarie. Todos são transmitidos pela fêmea do mosquito Anáfloes que pica a pessoa e introduz o parasita. É um protozoário que circula no sangue e destrói as hemácias, os glóbulos vermelhos. “Em 48 horas, rompe a hemácia, joga no sangue substâncias tóxicas que produzem esse fenômeno: febre, frio ou cale-frio, e muita dor de cabeça”, destaca Dr. José Maria de Souza, do Instituto Evandro Chagas.

Este ano, o número de testes positivos de malária no ambulatório aumentou em 50%. “Na Amazônia como um todo, aquilo que a gente esperava que 2009 para 200 e poucos mil ultrapassou a casa dos 300 mil”, afirma o médico.

O Brasil conseguiu a façanha de reduzir a malária de 10 milhões de casos anuais em 1940 para 50 mil em 1970. Mas a doença voltou com força, quando os governos da ditadura militar iniciaram os projetos de colonização da Amazônia.

“O que existia de malária nos anos de 1960? Alguns milhares de casos de malária na Amazônia. O que aconteceu com a penetração do homem e a alteração do meio ambiente, a fronteira agrícola que se expandiu? O número de malárias passou de alguns milhares para quase 500 mil casos de malária na década de 80”, explica o infectologista Luiz Hildebrando Pereira da Silva.

O Grupo de Controle da Malária do Ministério da Saúde, criado em 1999, conseguiu reduzir o número de casos para 300 mil por ano. “Na ilha de Marajó, teve um pico de malária importante. Por quê? Por causa da atividade econômica novamente. É o homem que penetra certas áreas e aumenta muito a sua participação, aumenta a degradação ambiental, aumenta a produção de mosquito. Novamente, picos de malária”, afirma o infectologista Luiz Hildebrando Pereira da Silva.

Um carro leva doente do Marajó. A prefeitura da cidade de Anajás mantém uma casa na periferia de Belém para que eles se tratem na capital. “Todas as semanas chega gente com malária. Vem gente de barco. Vem gente de avião”, conta a coordenadora da Casa de Apoio, Maria Mesquita Soares.

Encontramos 60 pessoas em uma casa de oito cômodos. Alguns tiritando de frio. “Esse nunca pegou malária antes. É a primeira vez. Ele está com febre, todo enrolado, com frio”, diz a coordenadora da Casa de Apoio, Maria Mesquita Soares.

“É muita malária. Tem pessoas que passam uma semana, tomam pílula e está de novo com a malária”, aponta o catador de açaí Eliel Furtado.

A agricultora Rosilene Amaral está na sua décima malária. “Está me ardendo tudo, vai me matando”, revela. Dessa vez, a doença veio forte, a ponto de assustar.

A cidade de Anajás está no coração da ilha de Marajó, tem 25 mil habitantes e 10 mil casos de malária só na primeira metade do ano. É quase impossível encontrar alguém que não tenha sido contaminado, pelo menos, uma vez. “Já peguei (malária) muitas vezes já. Umas 17 vezes, mais ou menos”, diz o pescador Miquéias de Almeida.

Velhos, jovens, crianças, ninguém escapa. Uma mulher grávida de quatro meses informa ao repórter Marcelo Canellas que está com a doença.

A cidade foi construída em cima de um imenso criadouro de mosquitos. Toda a área alagada é foco do mosquito. Todas as casas têm palafitas, uma passarela suspensa ajuda as pessoas a caminhar.

A dona de casa Alzira Martins nem sabe mais quantos exames já fez. “Às vezes, a gente guarda papel. Às vezes, não. Tenho uma lata cheia de papéis de malária”, diz.

Na casa da família Souza, é pior. Um menino de um ano e dois meses já está com malária. Outro bebê também está com a doença. “Nesses 11 meses que ela tem, já são umas 15 vezes que ela teve a malária. No máximo, é um mês que passa sem estar com malária”, informa o catador de palmito Eurani dos Santos.

O catador de palmito Manoel de Souza do Rosário calcula que os integrantes da família pegaram a doença cerca de 120 vezes, nos últimos dois anos. “É difícil uma semana que não dá malária”, informa.

Como manter uma vida escolar normal em Anajás? Ter malária entre os estudantes significa uma semana de ausência, pelo menos, mas há casos mais graves. “Tem aluno que está há três meses sem vir à aula, porque a malária não deixa. Quando ele vai melhorando, ela renova”, conta a professora Maria Brasil.

A professora nos leva para conhecer o garoto. No caminho, fica claro porque a cidade é também campeã de casos de hepatite e febre tifóide: o esgoto está junto do cano que leva água potável para a casa das pessoas.

O estudante Richarlis está em casa. Ele conta que a malária passou um pouco, mas o garoto ainda está anêmico e se recupera devagar. “Eu tinha medo que ele morresse”, diz uma mulher.

Nos povoados mais distantes, o agentes de saúde se queixam da falta de remédio. “Outro dia mesmo, eu peguei malária. Eu pego 15 dias e já estou com sintomas de novo, porque não tinha primaquina, só cloroquina. Quase todos os pacientes estão no mesmo caso que eu”, informa o enfermeiro.

Miriam está tomando apenas um dos remédios que tinha que tomar. Ela revela que está com malária, que está com uma dor no estômago. “Não posso comer nada, porque tudo que eu como parece que vai em uma ferida”, diz.

“Ela está sentindo frio e tremores. Provavelmente, ela está com as duas malárias: plasmodium vivax e plasmodium falciparum. Com esse frio, não há o que fazer”, diz o enfermeiro.

As autoridades municipais alegam que não podem fazer mais do que já fazem. “Quando você comprova que é malária, a única medicação é a primaquina e a quinina. São medicamentos que normalmente estão faltando no município. Não tem o remédio no município”, informa a diretora do Hospital de Anajás, Marilândia Lucena. “A gente só está fazendo o tratamento alternativo que é só com a quinina”.

Em Brasília, o Ministério da Saúde reconhece que faltou remédio durante uma quinzena. “Faltou, porque o produtor do medicamento que é a Farmaguinhos da Fiocruz teve um atraso na chegada da matéria-prima que vem da China. Então, houve esse atraso na entrega e atraso na produção”, explica José Lázaro de Brito Ladislau, do Programa Nacional de Controle da Malária.

No ano passado, em mais de 300 mil casos, houve menos de 100 mortes por malária no Brasil. Traço estatístico ou tragédia humanitária? “Para mim, é terrível. Não consigo aceitar isso. Para mim, era para morrer zero. Salvar uma vida é salvar a humanidade. Portanto, perder uma vida é perder a humanidade”, declara o Dr. José Maria de Souza, do Instituto Evandro Chagas.

Pacientes com mal de chagas não conseguem remédio para o coração

Marcelo Canellas, Jornal Bom Dia Brasil, Rede Globo

O problema é que o governo só dá o remédio para chagas. Medicamento para o coração é difícil achar no posto de saúde.




Casa de pau a pique ainda existe. Mal de chagas, também. E não só nos bolsões de pobreza. No Brasil, a DNDi, uma força-tarefa mundial para o desenvolvimento de medicamentos para doenças, já alcançou uma conquista. É o que mostram os repórteres Marcelo Canellas e Luiz Quilião na última reportagem da série Doença do Silêncio.

“Eu comecei a sentir com 33 anos de idade”, conta o aposentado Manoel Mariano do Nascimento. Médico nenhum descobria a causa dos desmaios misteriosos. Manoel ficou furioso. O aposentado lembra como cobrou os médicos: “Vocês são um bocado de burros. Vocês estudaram para quê? Eu preciso saber o que é que eu tenho. Diga logo que eu tenho câncer”.

Não era câncer. Manoel revela como descobriu a doença: “O senhor tem doença de chagas. Eu olhei bem assim e perguntei: ‘o que é isso’”?

O coração de Manoel já sofria de um dos principais efeitos da doença. “Perguntaram se eu queria operar ou morrer. Eu perguntei: ‘me operar como’? Disseram: ‘colocar um marcapasso, porque o seu batimento cardíaco está 29 por minuto’”.

Presidente da Associação dos Portadores de Doença de Chagas, Manoel conhece todo mundo que tem marcapasso em Pernambuco. Ele cita o nome das pessoas. Os voluntários da associação monitoram os casos suspeitos.

A agricultora Severina Maria da Silva limpa o retrato dos parentes que a doença levou e conta que perdeu o marido e pai de chagas. “Quando fazia uns três anos que eu era casada, ele morreu. Ninguém estava esperando. Eu sabia que ele estava doente, mas não esperava que ele fosse morrer assim. Quando eu vi, ele caiu assim. Caiu, e já estava pronto”.

É uma doença típica da pobreza, ligada às condições de vida da população, porque o barbeiro, o inseto transmissor do parasita Trypanosoma cruzi, que causa o mal de chagas, vive nas frestas das casas de pau a pique.

A aposentada Santina Rodrigues da Silva sabe que foi picada por um deles. “Nasci, me criei e me casei tudo em casa de taipa”, revela.

Chagas pode levar até 30 anos para se manifestar no organismo. Tem cura se for descoberta no início. Mas, depois que vira doença crônica, dá para tratar somente as complicações. O problema é que o governo só dá o remédio para chagas. Medicamento para o coração é difícil achar no posto de saúde.

“De vez em quando, uma caixa que a gente consegue e da mais barata. O mais caro a gente tem que comprar. Ou bem você compra remédio, ou bem se alimenta direito”, diz Maria Ribeiro da Silva, filha de Santina.

A escolha da aposentada Josefa Liberto foi a de comprar comida. Para o remédio, não dá. “Eu sinto o coração acelerado. De tempos em tempos, ele fica acelerado”, afirma. Ela ainda revela que não tem R$ 200 para pagar de remédio por mês e, por isso, não consegue se tratar.

O aposentado Manoel Mariano do Nascimento reconhece que não tem condições de prometer a Josefa que ela vai receber os remédios e se tratar sempre que precisar. “Eu não vou prometer uma coisa que eu não posso cumprir. A prevenção e os medicamentos são essenciais. Diante disso, só Deus ou a morte”, declara.

Sem dinheiro e sem remédio, Josefa apenas espera que nada de mal lhe aconteça.

Sem hospitais especializados, sem distribuição de medicamentos, sem nenhum tipo de atendimento médico específico para o mal de chagas, a alternativa oferecida aos doentes é o ônibus. Em Nazaré da Mata (PE), por exemplo, todos os dias, às 4h, a prefeitura leva os pacientes para o Recife. O jogo de empurra só vai acabar mesmo quando amanhecer.

O aposentado Valdeci Vicente de Melo enfrenta a jornada sempre que precisa atualizar um exame no Recife. A doença apareceu bem na fase mais produtiva da vida. Ele conta que está afastado do trabalho há dez anos.

Cada vez que viaja, Valdeci teme não chegar a tempo. “Mas se der um negócio, uma tontura ou um desmaio, tem que socorrer e trazer para aqui. Quando chegar aqui, já está morto. O coração não espera por tempo. É um relógio. É um relógio que para ligeiro”, ressalta.

O relógio de Genaro só não parou por que ele botou um marcapasso. “A parte elétrica do coração fica bloqueada e, com isso, o coração passa a trabalhar menos. Em alguns pacientes com a doença de chagas, em que o bloqueio é só no sistema elétrico, mas não há um envolvimento importante do músculo cardíaco, o implante do marcapasso prolonga a vida, além de melhorar bastante a qualidade de vida”, aponta o cardiologista Wilson de Oliveira Jr, dirige o Ambulatório de Chagas do Hospital Oswaldo Cruz.

Alguns pacientes têm que operar o esôfago, porque a doença de chagas também pode atacar o aparelho digestivo. O Sistema de Saúde paga caro para tentar remediar as consequências da enfermidade, quando poderia ter economizado antes. “Em cada US$ 1 que você investe em prevenção, você economizaria US$ 17”, afirma o cardiologista Wilson de Oliveira Jr.

Em 2006, o Brasil recebeu da Organização Pan Americana de Saúde o certificado de eliminação do Triatoma infestans, a principal espécie de barbeiro transmissor da doença. Mas para o Dr. Wilson, que dirige o Ambulatório de Chagas do Hospital Oswaldo Cruz, no Recife, é um erro acreditar que isso é suficiente. “O grande equívoco é que controle não é sinônimo de erradicação. Em nenhum momento, nós negamos o avanço, mas é necessário dizer que se não permanecer uma vigilância epidemiológica sustentada, com participação inclusive da comunidade, essa doença pode voltar”, alerta.

É muito importante a identificação e o tratamento logo no início, quando a doença tem cura. O desafio é encontrar a dosagem certa para crianças do único remédio eficiente contra chagas, descoberto há 35 anos.

“O benzonidazol disponível é um comprimido de 100 miligramas. É um comprimido que é impossível você imaginar que uma criança vai tomar. É um comprimido grande, duro”, critica Fabiana Piovesan Alves, gerente de estudo clínico da DNDi (sigla em inglês para Medicamentos para Doenças Negligenciadas).

A boa notícia é que o Brasil começa a fabricar um comprimido infantil que já está em fase de liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. “O objetivo final é justamente garantir a eficácia e o tempo de tratamento, porque o tempo de tratamento em chagas é um tempo bastante logo, cerca de 60 dias”, afirma Flávia Morais, coordenadora do Lafepe.

Diante de tão poucas novidades, não deixa de ser uma conquista. “É uma doença de pobre. Para eles, não dá lucro”, declara o aposentado Manoel Mariano do Nascimento.

Justamente por isso, cada dia de vida é uma vitória. Manoel revela que já colocou seis marcapassos. “A coisa mais importante no mundo é a vida. A vida não tem preço. As outras coisas são coisas banais. Casa, carro, tudo: são coisas banais. Mas a vida não. A vida é muito preciosa”, aposta.

Número real de casos de tuberculose em todo país deve chegar a 100 mil

Marcelo Canellas Jornal Bom Dia Brasil, Rede Globo

O número oficial é de 70 mil casos de tuberculose ao ano em todo país. Pelo preconceito, pela falta de informação e pelo abandono, o número real deve ser muito maior e beira aos 100 mil, segundo pesquisadores.




O número oficial é de 70 mil casos de tuberculose ao ano. Mas médicos e pesquisadores não hesitam em afirmar que o número real é muito maior e beira os 100 mil. Isso é resultado do preconceito, da falta de informação e do abandono. Na segunda reportagem da série especial Doença do Silêncio, você vê a ameaça sempre presente da tuberculose.

“O pulmão parece que tem uma ferida aberta, sei lá, uma coisa assim”, diz uma senhora. “Os ossos parecen que estão se desmanchando, porque dói”, afirma um rapaz. “É muito triste você perder uma pessoa - mãe, ou filho ou irmão - de uma doença curável”, declara a agente comunitária Rita Smith.

De Castro Alves a Noel Rosa, houve um tempo em que a tuberculose era a doença romântica dos boêmios. “Esse lirismo terminou. Eu diria que isso tudo terminou na medida em que a tuberculose passou a ser uma doença da exclusão”, declara Margareteh Dalcomo, diretora do Centro de Referência Helio Fraga da Fiocruz.

A peste branca que aterrorizou a população no fim do século XIX e em boa parte do século XX é hoje uma doença conhecida, que tem tratamento, que tem cura. Se ela ainda persiste em pleno século XXI é porque não se desvencilhou de um Brasil arcaico, preso ao passado e profundamente desigual. A tuberculose só se espalha onde as condições de vida são precárias.

A agente comunitária Rita Smith reconhece que a Rocinha tem condições insalubres e que é um local apertado, abafado e cheio de becos escuros. “E isso acarretou hoje em a Rocinha ter hoje o maior índice de doenças respiratórias no estado do Rio de Janeiro”, aponta. “No escuro, você pode ver que a temperatura é diferente de onde é claro”.

Rita nasceu na Rocinha e conhece cada beco da comunidade. Em alguns locais, o sol não bate em hora nenhuma do dia. A casa de Maria é úmida, fria e tomada pelo mofo. “Aqui nem dá sol direito. A roupa nem seca direito. E o cheiro é horrível”, comenta a dona de casa Maria Almeida.

Rita revela que a lavadeira Ademázia Mendes teve três tuberculoses consecutivas e ainda está se tratando. O agravante: Ademázia também é diabética. “Peguei três vezes já. Uma em cima da outra”, diz. O diabetes agrava a tuberculose e, morando em locais pequenos, fica ainda mais difícil a cura.

A agente comunitária se angustia, porque viu a mãe morrer de tuberculose. “Ela era tudo para mim. Eu não tinha mais ninguém”, declara.

A própria Rita pegou a doença e quase morreu. No dia em que ficou curada, jurou que ia fundar uma associação para evitar que as pessoas tivessem o destino da mãe dela. “A cada pessoa que eu ajudo, eu estou tentando fazer alguma coisa por ela que eu não pude fazer”, diz.

O trabalho de Rita tornou a doença conhecida na comunidade. “A tuberculose tinha pulmão e não tinha cara”, afirma a agente comunitária.

Mesmo assim, os índices de contaminação ainda estão muito acima da média brasileira de 38 casos por 100 mil habitantes. “O Rio de Janeiro já tem quase três vezes isso, e a Rocinha já tem mais de três vezes a média do Rio de Janeiro que é semelhante a países como Bangladesh, Paquistão, algumas áreas da Índia. São países de altíssima incidência”, declara Margareteh Dalcomo.

A doutora Margareth, da Fundação Oswaldo Cruz, dirige o Centro de Referência Hélio Fraga. A instituição integra o esforço internacional para testar novos remédios recém descobertos. “Pela primeira vez em 40 anos, sete novas moléculas, sete novos fármacos, sete novos remédios em pesquisa clínica em diversos estágios para serem usados em tuberculose”, ressalta.

O interesse científico aumentou quando a AIDS apareceu e o número de doentes com HIV e tuberculose cresceu demais. Os pesquisadores querem reduzir o tempo de tratamento, que hoje é de no mínimo seis meses, o que impede as pessoas de trabalhar. “Primeiro, pela perda de peso. Segundo, pelo cansaço. Terceiro, pela tosse. A tosse é um sintoma muito incômodo e muito estigmatizante também”, aponta Margareteh Dalcomo, diretora do Centro de Referência Helio Fraga da Fiocruz.

O bacilo da tuberculose é uma bactéria transmitida pelo ar, pela tosse, saliva ou espirro de quem está doente. O cuidado é normal, mas no ambulatório, onde é tratada a tuberculose multirresistente, ele precisa ser redobrado. “Se o paciente não curar a tuberculose, com o primeiro tratamento, ele vai acabar evoluindo para o nosso ambulatório. E isso é o que a gente não quer”, afirma a pneumologista Liamar Ferreira Borga.

O tratamento da tuberculose multirresistente passa de seis meses para dois anos ou mais. Maria Aparecida até procurou ajuda cedo, mas o diagnóstico estava errado. “Uma doutora chegou a dizer para mim que era só alergia, problema de alergia”, lembra.

São pacientes muito pobres, que têm de ganhar até passagem de ônibus para chegar ao ambulatório. “Morreram pessoas por causa dessa doença. Então, como a gente nunca pegou essa doença, e, do nada, você recebe a notícia que está com tuberculose, fica assustado”, conta o estudante Ederson Cleiton.

A desinformação é um dos grandes entraves do tratamento. “Eu estava grávida. Eu pensei que tuberculose era uma doença que não tinha cura. E eu acabei quase me jogando debaixo do carro, porque eu fiquei desesperada”, revela a vendedora Kelly de Jesus.

Os vizinhos fugiram. Os parentes desapareceram. “Eu fiquei sozinha com ela. Ninguém queria nem ir lá em casa. Essa criança ficou muito doente”, diz Eledir de Jesus, mãe de Kelly.

Kelly e a família passaram por poucas e boas até conhecerem a agente comunitária Rita Smith. Só então, descobriram que a doença tem cura e que o tratamento é gratuito por lei. “E ela chora, e acho que chora todo mundo, quando a gente vê que uma coisa dessas que pode ser solucionada. Ninguém abandona o tratamento para morrer sem motivo”, declara Rita.

O Brasil assinou as Metas do Milênio se comprometendo com a erradicação da tuberculose no mundo até 2050. Mas, até 2015, tendo como parâmetro os números de 1990, é obrigado a reduzir pela metade a incidência de casos e a mortalidade.

“Em relação à mortalidade, talvez a gente já chegue ano que vem ou em 2012 na meta. Em relação aos casos, talvez a gente demore um pouquinho, mas, até 2015, seguramente nós vamos atingir a Meta de Desenvolvimento do Milênio”, aposta Dráurio Barreira, coordenador do Programa Nacional de Controle da Tuberculose.

“Eu não acho que seja uma coisa rápida. Eu te juro que eu não acho que seja uma coisa rápida. Vai estar longe, se a gente demorar a fazer alguma coisa. Mas vai estar perto se a gente começar agora”, afirma a agente comunitária Rita Smith. “Porque, quando a gente muda dois ou três, a gente muda a Rocinha, muda o município, muda o estado e muda o país”.

Dengue: aumento de 100% dos casos

Jailton de Carvalho, O Globo

Número de pessoas contaminadas cresce e pode chegar a um milhão logo

O número de pessoas contaminadas pela dengue este ano no país está crescendo de forma alarmante e pode bater a casa do um milhão nas próximas semanas.

O Ministério da Saúde informou ontem que, de janeiro até 16 de outubro, foram notificados 936.260 novos casos da doença. Os dados indicam um aumento de quase 100% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram notificados 489.819 casos.

O número de mortes supostamente provocadas pela dengue também aumentou de 312, ano passado, para 592 este ano.

A doença se expandiu também no Rio de Janeiro, e o estado é apontado pelas autoridades sanitárias como uma das regiões de alto risco de epidemia. Preocupado com o alastramento da doença, e principalmente com a volta do vírus tipo 1, o ministro José Gomes Temporão lançou mais uma edição da campanha nacional de combate à dengue e elevou o tom do alerta contra a ameaça.

As medidas estão orçadas em R$ 1 bilhão. Temporão deve viajar para todos os dez estados em situação mais grave, a partir da próxima semana.

— Esse é um problema muito grave de saúde pública — disse o ministro.

Pelo balanço do ministério, foram notificados 207.142 casos de dengue em Minas Gerais, 202.312 em São Paulo, 91.512 em Goiás e 63.11 no Mato Grosso do Sul. Estes são os estados em que a doença mais avançou.

O Rio de Janeiro está numa posição intermediária na lista nacional. No estado, foram notificados 18.880 casos da doença entre janeiro e 16 de outubro deste ano. Deste total, 37 teriam resultado em morte. Os números estão bem acima dos dados do ano passado, quando foram anotados 6.513 casos da doença, com sete mortes.

Rio de Janeiro é uma das áreas de alto risco de epidemia em 2011.

Para as autoridades sanitárias brasileiras, a situação pode se tornar mais grave ainda no Rio no ano que vem. Técnicos do Ministério da Saúde incluíram o estado na lista de áreas de alto risco de epidemia de dengue em 2011.

Sarampo deixa autoridades de saúde em alerta

Jornal Bom Dia Brasil, Rede Globo

O Ministério da Saúde disse que os casos vieram de fora do país. O medo de contrair a doença tem levado os paulistanos para o posto de saúde. E a vacinação será intensificada.

Alexandre Garcia comenta o problema do lixo hospitalar

Jornal Bom Dia Brasil, Rede Globo

O armazenamento inadequado do lixo hospitalar não é um caso isolado. São raros os municípios que têm incineradores, que têm sistema de guardar o lixo de forma a não contaminar o solo.

Negócio milionário

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Dos dez partidos que integram a aliança que elegeu e a coligação que governará com Dilma Rousseff nenhum até agora se interessou por outro assunto que não fosse a defesa de seus próprios interesses.

Todos aguardam a volta da presidente eleita de Seul para tratar dos cargos federais com mais objetividade. Nenhum deles apresentou ideia alguma sobre como gerenciar esse ou aquele setor de maneira a assegurar mais bem estar à coletividade.

O PMDB quer saber de manter a parte que lhe cabe no latifúndio e o PT pretende recuperar espaços perdidos para os parceiros. Essa é a discussão em pauta.

Uma, mas não a única demonstração de que a política é um negócio. Muito rentável e não raro milionário.

Nos financiamentos de campanha, por exemplo, a conversa em geral é feita na casa dos milhões. O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) fez um levantamento junto à Justiça Eleitoral e chegou ao custo médio de R$ 1,1 milhão para a campanha de cada um dos 513 deputados federais eleitos em 3 de outubro.

"Em quatro anos de mandato cada um receberá de salário um total de R$ 792 mil", informa, querendo mostrar que boa parte dos parlamentares (54%) terá algum tipo de "dívida de gratidão" para com pessoas físicas ou jurídicas que financiaram suas campanhas.

Na bancada de 46 deputados fluminenses, de acordo com os dados de Alencar, 16 extrapolaram a média nacional, sendo a campanha mais cara a de Eduardo Cunha, do PMDB: R$ 4,7 milhões. O ex-governador Anthony Garotinho gastou R$ 2,5 milhões, o líder do PT na Câmara, Luiz Sérgio, R$ 2,3 milhões e o presidente do DEM, Rodrigo Maia, R$ 1,9 milhão.

E assim deve ter acontecido Brasil afora com esse sistema eleitoral que mantém o Legislativo dependente e, portanto, reverente aos grandes financiadores.

Também, mas não só por isso a reforma urge.

No padrão.
Com a mesma facilidade com que avaliou o Enem como "um sucesso total" enquanto eram contabilizados os erros ocorridos no exame, o presidente Luiz Inácio da Silva diz que se for necessário serão feitas novas provas e que a Polícia Federal vai investigar "o que efetivamente aconteceu".

Sobre as investigações efetivas da PF em assuntos que rendam embaraço para o governo quem dá notícias é a ausência de resultados dos inquéritos abertos nos últimos anos.

Roda e avisa.
Está tudo muito bem no caso do Banco Panamericano: o empréstimo do fundo garantidor ao grupo Silvio Santos é legal, o dinheiro é privado, SS apresentou garantias, o presidente Lula esteve há um mês com o empresário (ocasião da descoberta da fraude pelo Banco Central), mas eles não tocaram no assunto e, como diz o presidente do BC, Henrique Meirelles, não recebeu dinheiro público.

De fato, se desconsiderados os R$ 739,2 milhões pagos pela Caixa Econômica Federal em dezembro de 2009 - quando as fraudes já estavam em execução - para comprar 49% das ações do banco.

Queira o bom andamento dos trabalhos do encerramento do governo Lula que a decisão da CEF de que esse era um ótimo negócio não tenha guardado relação alguma com o apoio do SBT à candidata Dilma Rousseff.

Apoio este materializado durante a campanha do segundo turno, quando o SBT exibiu uma versão da agressão de militantes petistas a uma passeata do candidato do PSDB no Rio, com imagens selecionadas e que serviram de base a um discurso do presidente Lula "denunciando" que o adversário havia montado uma farsa.

A TV de Silvio Santos mostrou o candidato José Serra recebendo uma pequena bola de papel na cabeça e ignorou nova agressão ocorrida oito minutos depois.

Na ocasião, muitos se perguntaram o que levaria o SBT a se prestar àquele um papel.

Intensivão.
O deputado mais votado foi aprovado no teste. Mas quem demoraria 40 dias para se provar alfabetizado senão alguém não alfabetizado?

Cala a boca Lula!

Villas-Bôas Corrêa

Como não tem mais o que fazer, o governo do presidente Lula está patrocinando um seminário internacional de comunicação eletrônica, em que escancara a porta para o sonho da criação de uma agencia reguladora do conteúdo da mídia. Um sinônimo maroto para a censura a imprensa. Tudo embrulhado no papel pardo da mistificação.

O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), que conheci como foca em A Notícia do então governador Chagas Freitas, tem todas as credenciais para entrar no debate colocando as coisas nos seus lugares: “o Brasil não precisa de marco regulatório em muitas áreas, nesta principalmente.” Embala: “A expressão marco regulatório é ampla. Temos mecanismos de proteção, classificação de programas na Constituição de 88. Podemos combater avanços, não restrições”.

Morde e sopra ao comentar a declaração do presidente Lula de que a liberdade de imprensa não pode ser usada para inventar mentiras: “autoridades sempre se irritam com a imprensa. Gostam de elogios, não de notícias”.

O presidente Lula é o menos indicado para dar palpites sobre a liberdade de imprensa. Para princípio de conversa, não lê jornais, revistas e muito menos livro. Nem os de Monteiro Lobato da paixão da minha infância. Adora fazer discursos com a sua facilidade para falar de improviso, com gesticulação de ator, suando por todos os poros. Nas solenidades em que deve ler o discurso, o texto preparado pela assessoria é impresso em letras garrafais e muitas vezes abandonado para o improviso.

Não se tem notícia de que o presidente leia os processos que deve aprovar. Confia nos assessores e daí uma boa parte do prestígio da presidente eleita, Dilma Rousseff.

Ora, o presidente Lula é um vitorioso pela suas qualidades, não pelas suas deficiências. Hoje é o líder mais popular do mundo, que conhece como a palma da mão, nas viagens da sua grande curiosidade. Por que fingir o que não é? Como a sua evidente ambição de voltar à presidência em 2014 ou em 2018 se a presidente Dilma também sonhar com a reeleição.

MPF vai recorrer da decisão que mantém validade do Enem

Carlos Lordelo - Estadão.com

Para procurador da República no Ceará, permitir a correção invertida do gabarito 'esfacela o concurso público enquanto instituição'

O Ministério Público Federal no Ceará (MPF-CE) vai recorrer ainda nesta sexta-feira, 12, da decisão do Tribunal Regional Federal (TRF) da 5ª Região que mantém a validade do Enem. A liminar que suspendia o exame caiu nesta manhã por decisão do presidente do TRF. Agora, o MPF-CE quer que o Tribunal Pleno do TRF - todos os desembargadores reunidos em sessão - avaliem um agravo regimental.

"Quando um candidato erra, ele paga o preço. Mas quando a administração pública viola todos os princípios, por que ela não paga o preço? Nossa luta vai continuar", disse ao Estadão.edu o procurador da República no Ceará Oscar Costa Filho, autor das ações que pedem a suspensão do Enem (derrubada nesta sexta-feira) e a anulação do exame (que aguarda avaliação da juíza da 7.ª Vara Federal do Ceará, Karla de Almeida Miranda Maia).

Na ação civil pública em que pede a anulação do exame, Costa Filho chama de "insanáveis" os erros assumidos pelos Ministério da Educação (MEC) relativos à impressão dos cadernos amarelos e à inversão na ordem dos gabaritos.

O procurador reclama que não teve a oportunidade de apresentar seus argumentos ao presidente do TRF, desembargador Luiz Alberto Gurgel de Faria, nesta sexta-feira. "Encaminhei ofício solicitando audiência para assegurar a igualdade no tratamento de partes, uma vez que o ministro da Educação, Fernando Haddad, teve a chance de levar suas explicações."

Segundo Oscar Costa Filho, ao permitir a correção invertida do cartão-resposta, o presidente do Tribunal Federal autorizou o "esfacelamento do concurso público enquanto instituição, não só do Enem". "Não se pode alterar o gabarito de uma prova por um erro da administração pública", pontuou.

O procurador classifica como "engodo" o argumento do MEC de que a Teoria de Resposta ao Item (TRI) permitiria a confecção de uma nova prova, com o mesmo grau de dificuldade, para os prejudicados por problemas de impressão nos cadernos de questões amarelos. "A TRI possibilita analisar a evolução do ensino médio pelo fato de as provas serem comparáveis ao longo do tempo. No entanto, não pode ser usada como argumento para um novo concurso público, porque eu estaria relativizando seu resultado", afirma Costa Filho. "O MEC quer transportar o princípio da TRI para outro uso, o que é gravíssimo."

Ao comentar as falhas na aplicação do exame, como a permissão a candidatos usarem lápis, borracha e relógio, objetos proibidos pelo edital, e até mesmo de aparelhos celulares nos banheiros dos locais de prova, o representante do MPF-CE foi enfático: "Esse Enem é um trem descarrilado desde o princípio."

Perdas e danos

Nelson Motta - O Estado de São Paulo

Há alguns anos, um personagem secundário da Jovem Guarda me processou por ter sido citado em meu livro Noites tropicais como envolvido, junto com outros artistas, em um escândalo com fãs "de menor" em 1965.

Sem me ouvir nem ler o livro, o juiz lhe deu ganho de causa e arbitrou uma indenização que levaria à falência a Editora Objetiva, uma das maiores do país. Foi marcado novo julgamento para que o acusado fosse ouvido.

Com os advogados da editora, apresentamos como provas inúmeros jornais e revistas da época registrando os fatos. Expliquei que na cultura da música jovem os envolvimentos com fãs são um clichê recorrente, que esses escândalos são corriqueiros. Contei que muito do que havia no livro me fora narrado por Erasmo Carlos, um dos envolvidos no caso, e que isto em nada havia diminuído a sua biografia de pai de família e grande artista brasileiro.

O escandalozinho banal passou batido pela história e ninguém foi condenado, dizia o livro. Pelas provas apresentadas e o desânimo do advogado adversário, achamos que era caso encerrado.

Surpresa: o meritíssimo manteve sua sentença, argumentando que, mesmo sendo verdadeiro e provado o fato, a história de cada um pertence a cada um, exclusivamente, e mesmo sendo verdade pública o que ele fez ou não fez, só ele tem direito de contá-lo em um livro. Ponto final.

Seria o fim da história. Todas as biografias deveriam ser escritas ou autorizadas pelos biografados, os crimes de Fernandinho Beira Mar só poderiam ser contados por ele, ou com sua concordância. Seria só obtusidade judicial? Ou pior: seria uma aplicação do tal "direito achado na rua", em que as leis - supostamente feita pelas classes dominantes - podem ser ignoradas pelo magistrado - em favor dos "oprimidos"?

Recorremos ao tribunal superior, ganhamos por 3 a 0 e a sentença absurda foi anulada. Mas é inquietante que em todo o País estejam ocorrendo descalabros semelhantes, provocados por visões voluntaristas e esquerdoides da Justiça. O pior é que eles pensam que estão sendo corretos.

Poucas forças podem causar tantos danos como a burrice bem intencionada no poder.

O cravo não brigou com a rosa

Luiz Antonio Simas, do Blog Histórias Brasileiras

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: "Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas". A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magoo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical . O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar (...), cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

Sim, eu tenho preconceito

Leandro Narloch, Folha de São Paulo

Eu tenho preconceito contra quem se vale de um marketing da pobreza e culpa os outros (geralmente, as potências mundiais) por seus problemas.

Logo depois de anunciada a vitória de Dilma Rousseff, pingaram comentários preconceituosos na internet contra os nordestinos, grupo que garantiu a vitória da candidata petista nas eleições.

A devida reação veio no dia seguinte: a expressão “orgulho de ser nordestino” passou a segunda-feira como uma das mais escritas no microblog Twitter.

O racismo das primeiras mensagens é, obviamente, estúpido e reprovável. Não se pode dizer o mesmo de outro tipo de preconceito -aquele relacionado não à origem ou aos traços físicos dos cidadãos, mas ao modo como as pessoas pensam e votam. Nesse caso, eu preciso admitir: sim, eu tenho preconceito.

Eu tenho preconceito contra os cidadãos que nem sequer sabiam, dois meses antes da eleição, quem eram os candidatos a presidente. No fim de julho, antes de o horário eleitoral começar, as pesquisas espontâneas (aquela em que o entrevistador não mostra o nome dos candidatos) tinham percentual de acerto de 45%. Os outros 55% não sabiam dizer o nome dos concorrentes. Isso depois de jornais e canais de TV divulgarem diariamente a agenda dos presidenciáveis.

É interessante imaginar a postura desse cidadão diante dos entrevistadores. Vem à mente uma espécie de Homer Simpson verde e amarelo, soltando monossílabos enquanto coça a barriga: “Eu… hum… não sei… hum… o que você… hum… está falando”. Foi gente assim, de todas as regiões do país, que decidiu a eleição.

Tampouco simpatizo com quem tem graves deficiências educacionais e se mostra contente com isso e apto a decidir os rumos do país.

São sujeitos que não se dão conta de contradições básicas de raciocínio: são a favor do corte de impostos e do aumento dos gastos do Estado; reprovam o aborto, mas acham que as mulheres que tentam interromper a gravidez não devem ser presas; são contra a privatização, mas não largam o terceiro celular dos últimos dois anos. “Olha, hum… tem até câmera!”.

Para gente assim, a vergonha é uma característica redentora; o orgulho é patético. Abster-se do voto, como fizeram cerca de 20% de brasileiros, é, nesse caso, um requisito ético. Também seria ótimo não precisar conviver com os 30% de eleitores que, segundo o Datafolha, não se lembravam, duas semanas depois da eleição, em quem tinham votado para deputado.

Não estou disposto a adotar uma postura relativista e entender esses indivíduos. Prefiro discriminá-los. Eu tenho preconceito contra quem adere ao “rouba, mas faz”, sejam esses feitos grandes obras urbanas ou conquistas econômicas.

Contra quem se vale de um marketing da pobreza e culpa os outros (geralmente as potências mundiais, os “coronéis”, os grandes empresários) por seus problemas. Como é preciso conviver com opiniões diferentes, eu faço um tremendo esforço para não prejulgar quem ainda defende Cuba e acredita em mitos marxistas que tornariam possível a existência de um “candidato dos pobres” contra um “candidato dos ricos”.

Afinal, se há alguma receita testada e aprovada contra a pobreza, uma feliz receita que salvou milhões de pessoas da miséria nas últimas décadas, é aquela que considera a melhor ajuda aos pobres a atitude de facilitar a vida dos criadores de riqueza.

É o caso do Chile e de Cingapura, onde a abertura da economia e a extinção de taxas e impostos fizeram bem tanto aos ricos quanto aos pobres. Não é o caso da Venezuela e da Bolívia.

Por fim, eu nutro um declarado e saboroso preconceito contra quem insiste em pregar o orgulho de sua origem. Uma das atitudes mais nobres que alguém pode tomar é negar suas próprias raízes e reavaliá-las com equilíbrio, percebendo o que há nelas de louvável e perverso. Quem precisa de raiz é árvore.

Educação – Escolas técnicas

José Celso de Macedo Soares, Instituto Millenium

No eco das trapalhadas do “Enem”, algumas considerações sobre a educação no Brasil. Pequena digressão histórica. A ação do colonizador português, no tocante à educação e cultura, foi predatória. As atividades culturais foram impedidas e as escolas reduzidas à expressão mais simples. Em 1822, quando da independência, não havia nenhuma universidade em funcionamento no Brasil, enquanto na América espanhola já existiam 23 (vinte e três) , sendo que a de São Domingos, a mais antiga, foi criada em 1568. Foram 322 anos de total obscurantismo, com reflexos até hoje.

Não tenho a intenção de discutir e mostrar as sucessivas reformas do ensino, que foram implantadas no país desde a independência. O estigma do analfabetismo continuou sempre a nos perseguir, malgrados os esforços dos governos. Por outro lado, a influência jesuítica na nossa cultura, gerou a inusitada procura do título de “doutor”, a ânsia de entrar na Universidade, revelada por todas as classes sociais. Nossas leis com preponderância do “bacharelismo”, concedem toda classe de vantagens aos que possuem o chamado curso superior, as quais vão desde gratificações especiais até prisão especial. Para não falar do falso “status”.

Desejo, nestas breves linhas, comentar o atual 2º (segundo ) grau. Aqui reside nossa maior fraqueza: a inexistência de número adequado de escolas técnicas para preparar o profissional de grau médio. A Alemanha, que tem maravilhoso sistema educativo, presta especial atenção a esta parte do ensino. Na minha especialidade , a engenharia, estes técnicos são a base de toda indústria alemã. São o elo entre o engenheiro diplomado, cuja finalidade é principalmente projetar e, o mestre que dirige as oficinas. São verdadeiros engenheiros que, em curso de três anos, 01(um) pelo menos trabalhando em fábricas, adquirem todo conhecimento prático e teórico para conduzir o trabalho no campo. Tive experiência própria a respeito. Quando o Presidente Juscelino lançou seu grande programa de construção naval, fui convidado para dirigir os trabalhos de construção naval no Estaleiro Mauá, no Rio de Janeiro, pois tinha me formado em Engenharia Naval na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. O Brasil, à época, não tinha nenhum curso de Engenharia Naval nas suas universidades. Para auxiliar-me fui à Alemanha e contratei dois jovens técnicos em engenharia naval, que vindo trabalhar comigo no estaleiro tornaram-se meu braço direito. Desta experiência tornei-me rigoroso adepto da disseminação de escolas técnicas pelos municípios brasileiros. Seu número deveria ser grandemente aumentado. Facilitar-se-ia o ingresso aos alunos que terminassem o primeiro grau, os quais teriam assim duas opções: ou iriam para uma escola técnica ou caminhariam para o curso superior. Mas, para os que quisessem seguir os cursos superiores, o caminho deveria ser o mais rigoroso possível, afim de que a tentação de ser “doutor” não o seduzisse tão facilmente, como hoje se verifica no Brasil, dada as “vantagens “ indevidas que o titulo propicia, como escrevi anteriormente. A disseminação de escolas técnicas, principalmente pelo interior, seria também elemento importantíssimo para evitar as migrações internas. O preparo de mão de obra técnica nas várias regiões, estimularia a instalação de indústrias, pois estas procurariam sempre as localidades onde pudessem encontrar mão de obra adequada.

Tudo que acabo de escrever sobre educação, de nada vale se não tivermos mestres qualificados, com remuneração à altura de sua profissão, para que possam dedicar-se integralmente à sua tarefa, moldando as gerações futuras, indicando-lhes os rumos e caminhos a percorrer.

Termino com Pitágoras: “Educai as crianças para que não seja necessário punir os adultos”.

Em defesa da estudante Mayara

Janaina Conceição Paschoal, Folha De São Paulo

Não parece justo que Mayara seja demonizada como paulista racista, quando o mote da campanha eleitoral foi o da oposição entre as regiões

Sou neta de nordestinos, que vieram para São Paulo e trabalharam muito para que, hoje, eu e outros familiares da mesma geração sejamos profissionais felizes com sua vida neste grande Estado brasileiro.

É muito triste ler a frase da estudante de direito Mayara Petruso, supostamente convocando paulistas a afogar nordestinos.

Também é bastante triste constatar a reação de alguns nordestinos, que generalizam a frase de Mayara a todos os paulistas.

Igualmente triste a rejeição sofrida pelo candidato da oposição à Presidência da República, muito em função de ele ser paulista. Todos ouvimos manifestações no sentido de que, tivesse sido Aécio Neves o candidato, Dilma teria tido mais trabalho para se eleger.

Independentemente da tristeza que as manifestações ofensivas suscitam, e mais do que tentar verificar se a frase da jovem se "enquadraria" em qualquer crime, parece ser urgente denunciar que Mayara é um resultado da política separatista há anos incentivada pelo governo federal.

É o nosso presidente quem faz questão de separar o Brasil em Norte e Sul. É ele quem faz questão de cindir o povo brasileiro em pobres e ricos. Infelizmente, é o líder máximo da nação que continua utilizando o factoide elite, devendo-se destacar que faz parte da estigmatizada elite apenas quem está contra o governo.

Ultrapassado o processo eleitoral, que, infelizmente, aceitou todo tipo de promessas, muitas das quais, pelo que já se anuncia, não serão cumpridas, é hora de chamar o Brasil para uma reflexão.

Talvez o caso Mayara seja o catalisador para tanto.

O Brasil sempre foi exemplo de união. Apesar das dimensões continentais, falamos a mesma língua.

Por mais popular que seja um líder político, não é possível permitir que essa união, que a União, seja maculada sob o pretexto de se criarem falsos inimigos, falsas elites, pretensos descontentes com as benesses conferidas aos pobres e aos necessitados.

Restos da campanha

Merval Pereira – O Globo

Reza a lenda que José Serra, o candidato tucano derrotado nas eleições presidenciais de outubro, não perdoa o governador de São Paulo Alberto Goldman por ter anunciado o resultado da licitação de um trecho do metrô na semana final da campanha do segundo turno. Assuntos delicados como esse deveriam ficar para depois das eleições, para evitar ruídos políticos.

Houve uma denúncia de manipulação da licitação pela Folha de S. Paulo, que soubera do resultado muito antes da abertura das propostas e registrou o fato em cartório, e a licitação foi anulada, trazendo evidentes prejuízos políticos para Serra.

Se não é verdade, é bem verossímil.

O governo, por sua vez, está revelando nos últimos dias como pensou em tudo para ganhar a eleição.

Não tratou de assuntos delicados na campanha, como as reformas estruturais, e quando o fez foi para prometer reduzir a carga tributária.

Mal se fecharam as urnas, nós os cidadãos ficamos sabendo que havia um movimento de governadores para ressuscitar a famigerada CPMF, e a presidente eleita, embora seja contra, se dispõe a estudar as “necessidades” dos estados.

Estourou também o escândalo de inépcia do Enem, um outro tipo de trapalhada, diferente da ocorrida em 2009, mas sempre prejudicando os alunos.

Sorte do governo que o Enem foi realizado em novembro, depois das eleições.

Sorte não, precaução.

O Enem foi realizado em setembro em 2008 e em outubro em 2009, e este ano, alegadamente por causa das eleições, o calendário teve de ser alterado para novembro.

Como se sabia que a eleição, tanto no primeiro como no segundo turno, tinham dias marcados (3 e 31 de outubro), não havia impedimento para que o Enem fosse realizado em qualquer outro dia, ou mesmo em setembro.

Mas como gato escaldado tem medo de água fria, o governo se precaveu e jogou para novembro a crise que realmente aconteceu.

Como sempre o presidente Lula começou falando grosso com elogios à organização do exame e foi cedendo à opinião pública até admitir que novas provas poderão ser realizadas.

E tem ainda a medida provisória dando, através do BNDES, R$ 25 bilhões para financiar o trem bala entre Rio e São Paulo, dando como garantia as ações de uma companhia privada que ainda não foi constituída, e mais um provisionamento de R$ 5 bilhões para o caso de necessidade.

Isso depois que a presidente eleita ficou a campanha inteira afirmando que o trem bala era importantíssimo, mas não receberia dinheiro público.

O caso mais grave, no entanto, foi o do Banco Panamericano, que o governo sabia que estava quebrado pelo menos desde agosto, devido a uma auditoria rotineira do Banco Central.

O fato de ter havido uma solução de mercado, com a utilização do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para cobrir o rombo de R$ 2,5 bilhões, é louvável, mas não é exatamente correto o governo dizer que não houve dinheiro público na transação.

Quando a Caixa Econômica Federal assumiu 49% do Banco Panamericano em 2009, ele já estava quebrado, sabe-se hoje.

É estranho que a Caixa tenha investido em um banco que há quatro anos maquiava seus resultados sem perceber o que agora aparecem como “indícios de crime do colarinho branco”, na definição do Banco Central.

Mesmo que o empresário Silvio Santos perca todo o seu patrimônio, o erário público terá sofrido um baque com a queda das ações de um banco de que a Caixa Econômica não deveria ter comprado uma participação tão efetiva.

Ou houve uma inépcia muito grande das auditorias independentes e da própria direção da Caixa, ou muita vontade de ajudar uma empresa em dificuldades, de um empresário muito influente nos meios de telecomunicação.

O Banco Central identificou em agosto que havia fraude nos balanços do Banco Panamericano, e o assunto ficou sendo negociado em segredo até recentemente, com a peculiaridade de que a reta final deu-se justamente entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

A sequência do caso é muito sintomática: a fraude foi detectada em agosto, no dia 20 de setembro o empresário Silvio Santos esteve no Palácio do Planalto com o presidente Lula e em 11 de outubro começou a negociação.

Esse timming da negociação, misturado ao timming político, não diz coisas boas sobre a atuação dos envolvidos nela, e nem mesmo verossímil que a audiência com Lula tenha sido para tratar do Teleton.

Lula diz que não é papel do presidente da República tratar de negócios de bancos privados. E tratar do Teleton é?

No dia 20 de outubro, o candidato oposicionista José Serra foi agredido por um bando de petistas em Campo Grande, no Rio, quando fazia uma caminhada com seus correligionários.

A certa altura do tumulto, foi atingido na cabeça por algo pesado, que lhe provocou fortes dores.

Mais tarde, o artefato que atingiu Serra foi identificado como um rolo de fita.

O telejornal matinal da rede de TV SBT, no dia seguinte, exibiu uma filmagem que pretendia reproduzir a seqüência dos fatos ocorridos em Campo Grande no dia anterior, mostrando que Serra fora atingido apenas por uma bolinha de papel e só colocara as mãos à cabeça 20 minutos depois, após conversar com alguém pelo telefone.

A denúncia de que o candidato da oposição armara uma farsa para tentar tirar proveito político de um tumulto insignificante foi prontamente adotada por ninguém menos que o próprio presidente da República, que passou a divulgar a versão do SBT como a verdade dos fatos.

No mesmo dia à noite, o Jornal Nacional demonstrou, com base em uma perícia de Molina, que o momento em que a bolina de papel atingiu Serra é completamente distinto do outro, em que ele foi atingido pelo rolo de fita.

Mas a versão da bolinha de papel foi usada até mesmo na propaganda eleitoral gratuita da campanha petista, e serviu para neutralizar o provável prejuízo político que a campanha petista sofreria.

Mortos compraram R$ 1,2 milhão em remédios na Farmácia Popular

Dimmi Amora, Folha de São Paulo

Auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) encontrou 57,8 mil vendas em farmácias privadas que participam do Programa Farmácia Popular a 17,2 mil pessoas que estavam mortas no dia da venda. A análise foi feita no período entre 2006 e 2009 e estas vendas totalizaram R$ 1,2 milhão.

Outros indícios que as compras estão sendo fraudadas no programa são de que há vendas concentradas num mesmo CRM de médico, num mesmo horário e para pessoas que vivem distante da farmácia, segundo o órgão.

O Acórdão aponta ainda que o governo adotou providências a partir do meio do ano passado que melhoraram o controle e, com isso, a quantidade de operações com suspeita de fraude começou a ser reduzida.

Além destes problemas, o TCU apontou que o Ministério da Saúde concentra as vendas em grandes municípios, deixando 70% das cidades do país, principalmente as regiões Norte e Nordeste, sem farmácias deste tipo. Não há qualquer critério para a escolha de quem vai participar. Manaus, capital do Amazonas, tem 1,7 milhão de habitantes e há 3 credenciadas. Já Caratinga, cidade mineira com 85 mil moradores, tem 27.

O Acórdão diz também que o ministério não estudou adequadamente o custo-benefício do programa, que chega a pagar às farmácias até 2.500% a mais que o custo dos medicamentos comprados pelos governos municipais para farmácias populares públicas. E que grandes redes farmacêuticas estão ficando com a maior parte dos R$ 800 milhões já gastos no programa.

Justiça injusta

O Globo

Espera de 37 anos por decisão da Justiça para receber indenização por atropelamento. Vítima é aposentado e tem 87 anos

SÃO PAULO - Um aposentado de 87 anos esperou 37 anos por uma decisão da Justiça para receber uma indenização dos Correios por ter sido atropelado por um triciclo de entrega de correspondências em São Paulo. Nesta sexta-feira, o português aposentado Amandio Teodósio de Barros obteve uma vitória no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3).

O processo foi julgado favorável ao aposentado durante mutirão Judiciário em Dia, que está sendo realizado com o objetivo de dar vazão aos processos mais antigos.

- Estou lutando pelos meus direitos - afirma Amandio.

O neto de Amandio, Maurício Barros Regado, que acompanhou o julgamento, comemorou a recusa do tribunal ao recurso apresentado pelos Correios.

- Foi uma surpresa para todos nós, se não fosse o mutirão nem sei quanto tempo o processo ainda levaria para ser julgado.

Pelo menos 428 processos foram julgados na sessão do mutirão.

Na ação protocolada em 1974, Amandio pedia uma indenização de 10 mil cruzeiros para cobrir os gastos que teve com duas cirurgias no tornozelo, além de despesas com medicamentos, bengala, meia elástica e funcionários que precisou contratar para tomar conta do hotel do qual era dono e gerente na época. Na decisão divulgada pela Justiça, ainda não há o valor atualizado da indenização.

- Eu cuidava de tudo e depois do acidente foi prejuízo para todo lado, pois o comércio só anda bem quando temos saúde - explicou o aposentado.

Depois do acidente, Amandio passou a ter dificuldades de andar e acabou parando de trabalhar.

A ação foi julgada em 1ª estância em 1999, quando o juiz acatou o pedido de indenização. A empresa, no entanto, recorreu e desde então o processo tramitava no TRF3. Embora a decisão tenha sido novamente favorável ao aposentado, os Correios ainda podem recorrer ao Superior Tribunal de Justiça o que prolongaria a espera da família.

A decisão será publicada em 10 dias e, a partir daí, os Correios terão 30 dias para recorrer. Se não houver recurso a sentença será executada.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Como o Estado brasileiro está nas mãos de uma gangue de larápios, é bem capaz de os Correios ainda recorrerem da decisão, só pelo prazer macabro de postergar o pagamento e aumentar o sofrimento de um brasileiro com “apenas” 87 anos.