quarta-feira, março 19, 2008

Desinformado ou mal intecionado ?

Adelson Elias Vasconcellos

Se uma pessoa com escassa informação, ou com algum distúrbio fizesse a afirmação de que ''...Crise é 30 vezes maior que a de 1998...'', a gente ainda tentaria relevar. Porém, este não é o caso de Luiz Inácio. Ele também sabe que, entre 1998 e 2008, existe uma enorme diferença.

O primeiro fato é, finalmente, reconhecer que no governo anterior aconteceram “crises internacionais” que atrapalharam, e muito, a vida brasileira, coisa que até então se negava em admitir, pelo menos para o povo.

O segundo fato, e aí é que começa a leviandade e má fé, é querer tornar a crise que ele enfrenta maior do que as cinco que o outro enfrentou. A começar que, as cinco anteriores, ocorreram em países “emergentes”. Depois, desconsiderar que o mundo ainda não havia vivido um período longo de prosperidade, e em todos os países, como o que viveu no período de 2002 a 2007. Acrescente-se, também, que em 1998, a média de crescimento mundial era de 2 a 2,5%, enquanto no período 2002-2007 foi de 5,0% nos países desenvolvidos, e de 7,0 % nos emergentes. Ora, com tamanha prosperidade, que beneficiou a todos, seria natural que todos também chegassem em 2008 mais fortalecidos diante de turbulências. Inclusive o próprio Brasil, que só se beneficiou ainda mais por conta de três razões: apagão elétrico em 2001, o risco país diante da provável eleição do próprio em 2002, considerando-se aqui todo o seus discursos de oposição, e o próprio governo Lula que, se de um lado conservou os fundamentos macroeconômicos que sustentam uma fase de economia estabilizada, por outro, não soube levar adiante um projeto de crescimento que recebera pronto. Privilegiou o aparelhamento do Estado, para a manutenção do poder em nome do seu partido. Foram quatro anos que, e os dados estão aí para provar, que o Brasil simplesmente se manteve estagnado. Somente agora no segundo mandato, recolhendo os projetos que ele próprio cuidou para interromper, reuniu tudo num pacote, deu-lhe um nome marqueteiro-eleitoral e posa pra platéia com um grande desenvolvimentista.

A crise que se abateu sobre os Estados Unidos não chegou ao Brasil é porque até aqui os Bancos Centrais da Comunidade Européia e o próprio FED, se encarregaram de apagar as chamas. Porque se a crise se alastrar e fugir ao controle tanto dos Estados Unidos quanto dos europeus, ela bata aqui sem choro nem vela. As reservas de 195 bilhões de dólares viram pó da noite para o dia, conforme já provamos. E se o preço das commodities despencaram de sua hipervalorização atual, nossa balança comercial entra no vermelho ligeirinho, e em grandes doses. Porque o que sustenta ainda o superávit do comércio exterior não é nenhuma ação do governo federal, do senhor Luiz Inácio, e sim o preço elevado das commodities, responsáveis em 2007, por mais de 60% das nossas exportações. E diga-se ainda o seguinte: deste total, 2/3 são provenientes da atividade mais demonizada pelo atual governo e partido de trambiqueiros, que é o agro-negócio.

Falamos acima dos bancos centrais americano e europeus. Pois bem: o que isto representa senão a ação dos governos para salvar o seu sistema financeiro, exatamente o mesmo que FHC fez com o PROER e do qual até hoje Lula fala mal ? Ora, não é socorro aos banqueiros, e sim ao sistema, porque se ele entrar em colapso quem perde e mais sofre são as pessoas físicas, as que menos recursos tem para se defender. Pois bem: a ação dos países desenvolvidos está justamente salvando a pele dos emergentes, e Lula parece que ainda viu isso.

Mas ter esta consciência até entendo que Luiz Inácio não chegue a yanyo, porém cretinice é querer misturar uma crise em 2008 com outras como a de 1998 dos Tigres Asiáticos. Neste caso, a cretinice tem nome, e não desinformação, e sim, pura má fé.

Um exemplo de má fé é, quando estava na oposição, não admitir sequer a discussão sobre a CPMF, fechando questão e negando sua necessidade, e depois, já no governo, empenhar a alma ao diabo para ter sua continuidade. Má fé sim da parte de quem sempre foi contra às medidas provisórias, mas isto quando foi oposição, porque, agora no governo, ele entende que são indispensáveis à governança do país. Pura má fé é, na oposição, jogar pra torcida com discurso canalha para impedir o país de reformar-se para crescer, e depois no governo, aplaudir tudo aquilo que foi contrário.

Isto do senhor Luiz Inácio dizer que “...até agora não aconteceu nada com o nosso querido Basil..." é puro discurso demagógico além de imbecil. Basta ver o quanto de prejuízo o Banco Central já acumulou com a valorização do real frente ao dólar. É só ver quantos produtos tradicionais em nossa pauta de exportação deixaram de ser vendidos lá fora ! E dizer que “... O Brasil estava desacostumado a crescer. Foram 26 anos de atrofiamento. Mas agora aprendemos. E não tem volta porque nossa política econômica foi baseada na seriedade e não com mágica..." é ser mais cretino ainda. Entre 2003 a 2006, enquanto países emergentes cresceram em médias acima de 5,5%, nossa média ficou pela metade. Em 2007, comemorar os 5,4% de crescimento do PIB é ignorar que ele só foi susperior a Guatemala e Haiti, num ranking de 39 países de mesmo status econômico. A lembrar, também, que foi preciso mudar a metodologia de cálculo do PIB para a gente ultrapassar os cinco por cento. Crescemos sim, mas na carona da prosperidade mundial, e não por obra de ações de um governo que vive ignorando a própria apenas para ostentar uma competência que não tem.

Por sorte do Brasil, o presidente do nosso Banco Central nada tem de petista, e sequer se afina com os discursos dos esquerdopata. Graças a ele, imposto que foi a Luiz Inácio pela comunidade financeira internacional, os postulados básicos de nossa economia estão sendo mantidos desde o Plano Real. É justamente a manutenção desta política que nos beneficiamos.

E o discurso é ainda mais cretino se olharmos, diante da crise atual, e tentarmos achar um único país emergente que esteja sendo atingido ? China? Rússia? Índia? Malásia? México? Chile? Portanto, melhor faria o senhor Luiz Inácio se mantivesse a boca fechada e cantasse menos marra: nunca se sabe se, um dia, precisará lamber no prato em que cuspiu.

Indispensável o aumento das reservas

Estadão

Em 2007, entre os países emergentes, o Brasil foi o que teve o maior crescimento, em porcentagem, das reservas internacionais. Tendo em vista o elevado custo de manutenção dessas reservas, pode-se estranhar que, neste ano, elas tenham aumentado (até dia 14 de março) US$ 14,8 bilhões. Porém é preciso compreender, neste momento, a política seguida pelo Banco Central (BC).No ano passado, as reservas internacionais do Brasil apresentaram crescimento de 110,8%, enquanto as dos dois países que detêm as maiores reservas - China e Rússia - tiveram crescimento de somente 43% e 56,8%, respectivamente. No final do ano passado, nossas reservas representavam apenas 11,7% das chinesas e 39,7% das russas.

Alguns meses atrás, numa economia mundial em prosperidade e com o Brasil tendo saldo confortável na balança comercial, era bastante criticável manter reservas elevadas. Aplicadas, elas obtinham remuneração bem inferior à remuneração dos papéis que o Tesouro era obrigado a emitir para neutralizar a expansão monetária causada por adquiri-las.

A situação mudou desde o início do ano com a crise das hipotecas nos EUA, criando-se um clima que justifica plenamente a política do BC.

É preciso lembrar que as intervenções do BC no mercado cambial têm dois objetivos principais: conter o impulso de valorização excessiva da moeda nacional, que favorece operações especulativas de arbitragem, contribuindo ainda mais para a valorização do real; e dispor de um colchão de reservas capaz de oferecer proteção contra uma eventual crise cambial. Ao mesmo tempo, as reservas internacionais permitem obter taxas de juros mais favoráveis no mercado internacional, na medida em que os credores se sentem mais garantidos.

No momento, com uma taxa básica de juros elevada no Brasil, para enfrentar a ameaça de retomada das pressões inflacionistas, enquanto o banco central norte-americano reduz a sua, há grande probabilidade de aumento das operações especulativas de arbitragem.

Ao mesmo tempo, a forte redução do saldo da balança comercial cria o risco de déficits nas contas correntes do balanço de pagamentos. E também não se pode afastar o risco de uma forte redução do preço das commodities que aumentaria esse déficit. Assim, o reforço das reservas, embora a custo elevado, representa um seguro para o País.

A reforma política que ninguém quer

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Com a mais solene seriedade, o governo e o Congresso discutem há várias semanas - em negociações que envolvem o presidente Lula, poupam a ministra Dilma Rousseff e enchem o tempo vazio de lideranças - sobre a emocionante e recorrente mudança nas regras de tramitação das medidas provisórias.

Não se pode negar a importância do empenho dos presidentes da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia, e do Senado, senador Garibaldi Alves, em desatar o nó que tranca a pauta das duas Casas do Congresso durante tempo indeterminado, enquanto a fila dos projetos de iniciativa dos parlamentares entope gavetas e armários com quase 1.290, esquecidos em meses e anos.

Com as naturais dificuldades em conciliar o interesse do governo em preservar o essencial das medidas provisórias e a evidência de que como está não é possível continuar, mais dia, menos dias, e o acerto deverá ser anunciado com a badalação de praxe. Lula não abre mão do essencial: as MPs editadas têm força de lei e vigência imediata. Mas reconhece que é indispensável varrer o entulho que engasga o Congresso.

Ora, até aí não chega a curiosidade da imensa maioria da população. E é inaceitável que se queira vender a correção de um erro que contribui para a desmoralização do Poder Legislativo com o primeiro e largo passo da encruada reforma política.

Caiação não é pintura. A reforma política é o grande desafio que todos juram apoiar, mas que caiu na funda vala da evidência da sua inviabilidade. Uma longa provação que passa por vários períodos e que se agravou com a precipitação da mudança da capital para Brasília antes de estar pronta e que, de uma só pancada, arruinou o sonho do JK 65.

Era inevitável o ajuste do modelo de Congresso que funcionou no Rio, desde a queda do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945 e o que se instalou nos palácios monumentais da Praça dos Três Poderes, no dia 21 de abril de 1960.

A correria impôs a improvisação do jeitinho para a emergência. E, pouco a pouco, a praga das mordomias, das vantagens, dos benefícios se espalhou como tiririca até a vexatória situação atual. Os pecados da nossa fragilidade de mortais inflaram para os escândalos que se sucedem em desfile interminável.

Desde o luxo perdulário da mania dos palácios de discutível necessidade para acomodar a vaidade dos três poderes até o requinte da desfaçatez da verba indenizatória de R$ 15 mil mensais, à disposição de senadores e deputados para o ressarcimeno das despesas de fim de semana nas suas bases eleitorais.

Um cacho de espertezas: da semana de três dias úteis, passando pelas passagens aéreas pagas pela viúva para o fim de semana nos lençóis domésticos ao faz-de-conta da verificação dos papeluchos que justificam as despesas. Alguns levam o descaro do gasto de R$ 15 mil em três dias com gasolina para as visitas aos eleitores que garantem o desfrute de um dos melhores empregos do mundo.

A ditadura militar dos quase 21 anos do rodízio dos generais-presidente teve a faca e o queijo nas mãos para impor a moralização do Congresso com medidas sanitárias como a redução de três para dois senadores por Estado e de 513 deputados para pouco mais da metade. E o corte sumário das mordomias, a começar pelas passagens para o fim de semana com a família, a redução do número indecoroso de assessores para os gabinetes individuais de parlamentares, e vai por aí afora, que há muito lixo a ser varrido.

Se não há condições para uma reforma política para valer, não chamem de reforma os remendos no tecido roto.

Os EUA, o PT e o Proer

Valdo Cruz, Folha de São Paulo
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Banco Central trabalhando dobrado no final de semana, fechando medidas para conter uma crise econômica e socorrendo bancos de quebradeira. Essa era uma rotina brasileira de alguns anos atrás, até o início da década de 90. Pois bem, esse cenário se repetiu nos últimos dias, mas não por aqui, mas nos Estados Unidos, a pátria do consenso de Washington, daqueles que se acostumaram a ditar as regras da boa governança econômica. Falharam. E feio.

Fico pensando se lá, nos Estados Unidos, existisse o PT. Não o de hoje, que foi domesticado pelo mercado --em certo sentido, ainda bem que foi--, mas o de antigamente. Aquele que atirou pedras no governo FHC quando lançou o Proer, o programa de salvamento dos bancos brasileiros quebrados em 1995. Tal como seu congênere tupiniquim, o PT norte-americano deveria estar lançando torpedos contra o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke. Dizendo que ele está salvando o dinheirinho dos banqueiros americanos.

Só que, hoje, se o Fed não conseguir segurar essa crise, à custa de ajuda a bancos em dificuldades, socorro mesmo, vamos todos para o fundo do poço. Se bater uma crise sistêmica nos Estados Unidos --o que significa uma quebradeira de bancos atrás de banco--, boa parte do mundo vai empobrecer. E a nossa fortaleza externa, erguida sobre os quase US$ 200 bilhões de reservas internacionais, pode começar a ruir rapidamente. Não que cheguemos a uma crise parecida com a vivenciada em anos recentes, mas com certeza daríamos adeus a uma taxa de crescimento que dá gosto de falar, tipo algo na casa dos 5%.

Daí que, nesse momento, o PT do presidente Lula deve é rezar para que são Bernanke não deixe a peteca cair e consiga consertar o estrago que o governo americano, o próprio Federal Reserve e os bancos de lá fizeram nos últimos anos, deixando crescer um mercado de risco no setor imobiliário pronto para explodir. E que explodiu. E cuja capacidade de destruição ainda não se sabe mensurar. O que incomoda a todos.

Até aqui, sobrevivemos. E bem, por sinal. Mas a segunda-feira, dia 17 de março, não foi nada animadora. Os preços das commodities caíram, o dólar subiu, a Bolsa de Valores despencou, o risco-país cresceu. E ainda não sabemos se novos bancos americanos, tal como o Bear Stearns, vão quebrar e terão de ser socorridos pelo Banco Central de lá. Sem falar nos europeus. Imagine se a crise também crescer no velho continente.

Se esse cenário persistir, significa que nossas exportações serão prejudicadas com a queda nos preços da commodities, a inflação poderá ser pressionada com uma alta elevada do dólar e tomar dinheiro lá fora ficará cada vez mais caro com um risco-país crescente. Sem falar que nossas empresas vão perder, momentaneamente, a boa fonte de financiamento do mercado de capitais. Claro que ainda estamos longe de uma catástrofe. Mas estávamos e ainda estamos tão próximos de um novo e duradouro ciclo de crescimento econômico. Será um pena que ele seja interrompido exatamente agora.

Ainda bem que o velho PT não tomou posse com o presidente Lula. Essa é a nossa sorte. Sem ele, teremos, com certeza, condições de atravessar até mesmo uma tempestade econômica. Não sairemos ilesos. Vamos sofrer um bocado. Mas vamos sobreviver.

Perseverar no erro é com PSDB e DEM

José Nêumanne, Estadão

Na última campanha eleitoral pela Presidência da República, o PSDB tinha tanta certeza de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, seria derrotado pelo escândalo do "mensalão" que o então prefeito da capital, José Serra, e o ex-governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin se engalfinharam numa guerra autofágica pela subida honra de vencê-lo. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a cunhar uma frase aparentemente acaciana, mas que não resistia, como não resistiu, aos fatos. Em entrevista à revista Playboy, garantiu que Alckmin era melhor candidato, mas Serra seria melhor presidente. Ainda não dá para saber se Serra seria um bom presidente, pois na única vez que disputou perdeu para Lula. Mas o atual governador paulista já se tinha provado excepcional candidato ao derrotar a prefeita Marta Suplicy, do PT, com ela no cargo e tendo sua gestão aprovada no dia da eleição pela maioria do eleitorado paulistano. A forma desastrada como Alckmin conduziu a candidatura presidencial no segundo turno, que caíra do céu por conta da lambança dos chamados "aloprados", que produziram um falso dossiê para tentar derrotar Serra para o governo estadual e favorecer o senador petista Aloizio Mercadante, deixou claro que melhor candidato que Serra ele não é.

Em benefício do ex-governador é possível dizer que, graças à sua pertinácia, ao afastar o oponente da liça, como fez, ele terminou por prestar um grande serviço ao próprio partido, uma vez que, não se candidatando à Presidência, Serra pôde disputar e ganhar - no primeiro turno - o governo do maior Estado do País. Nunca se saberá se Serra ganharia de Lula, mas qualquer observador isento verificou que a aposta feita pelos tucanos na denúncia de corrupção não passou de sonho de uma noite de verão. E o mais provável é que Lula derrotasse qualquer um deles, uma vez que o PSDB perdera completamente a autoridade de empunhar a bandeira da moralidade depois de salvar a pele de seu ex-presidente nacional Eduardo Azeredo, acusado de ter fundado o esquema que mais tarde seria usado no âmbito federal e já tendo como operador o publicitário mineiro Marcos Valério.

Isso permitiu a Lula e ao PT darem um banho de estratégia política nos adversários, facilitado pelo erro tático de Alckmin, que, em vez de defender a privatização empreendida por seu correligionário Fernando Henrique, perdeu a oportunidade de ganhar o inesperado segundo turno ao ficar numa defensiva tíbia e pouco inteligente. Numa demonstração de clarividência extraordinária, o presidente isolou os tucanos em São Paulo (já que não havia mais o que fazer), derrotando-os em 2006 e preparando o terreno para 2010, numa tentativa de minar o favoritismo dado pelas pesquisas a Serra.

O que talvez nem os mais otimistas estrategistas petistas imaginavam é que tucanos e dêmicos fossem de um egocentrismo tal que terminariam por pôr em risco até esse bastião em que se instalaram nas últimas eleições, desde que desalojaram o PT da Prefeitura da capital em 2004. Os antigos romanos diziam que "errare humanum est, sed in errore perseverare diabolicus est" ("errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico"). Se na Roma dos Césares houvesse um PSDB ou um DEM, é provável que eles substituíssem o diabólico por tucano ou dêmico. Pois a dura batalha entre o ex-governador Geraldo Alckmin, do PSDB, e o prefeito Gilberto Kassab, do DEM, para disputar com o PT é a estulta preservação do erro da última campanha presidencial: um fogo amigo que só poderá levar às cinzas da derrota.

Quando essa luta começou, Marta Suplicy nem ousava se candidatar, principalmente depois de ter presenteado o dístico "relaxa e goza" a qualquer adversário que concorra com ela por votos. Mas agora a ministra do Turismo é candidata e as pesquisas, apesar de anunciarem sua derrota no segundo turno para qualquer um de seus adversários, já reconhecem claramente suas chances.Assim como na última campanha presidencial Alckmin inovou ao usar como puxador de votos seu falecido antecessor, Mário Covas, desta vez contribuirá para o folclore político ao criar o "continuísmo sem continuação". Como PSDB e DEM têm um consórcio que funcionou em São Paulo muito bem até agora, ele não se poderá opor à gestão de Kassab, pois, afinal, esta é a continuidade da de Serra, como dele fora a do citado Covas. Mas, de igual maneira, não lhe será fácil convencer o eleitorado de que ele continuará a gestão de Kassab, sendo o próprio prefeito seu adversário no primeiro turno. É legítimo que o prefeito queira disputar a reeleição, instituto acrescentado à ordem constitucional brasileira por um correligionário do ex-governador, o ex-presidente Fernando Henrique. Alckmin também se julga no direito de disputar a Prefeitura com as pesquisas o apontando como pleno favorito. Caberá ao eleitor decidir entre os dois quem enfrentará a adversária petista no segundo turno e isso é democrático.

O fato, contudo, é que a disputa entre Alckmin e Kassab tem produzido tantas arestas nos dois partidos que lhes dão sustentação e são tradicionalmente aliados que dificilmente aquele dentre os dois que for derrotado no primeiro turno arregaçará as mangas pelo vencedor no segundo, para evitar que a Prefeitura caia de volta nas mãos do PT. Desde Cristiano Machado, o candidato do PSD que foi traído pelas bases que votaram em Getúlio Vargas, do PTB, em 1950, a chamada "cristianização" tem feito vítimas muito ilustres na política brasileira. Caso do dr. Ulysses Guimarães na eleição vencida por Fernando Collor, por exemplo. Com o apoio de Lula e seus aliados, Marta Suplicy pode repetir os feitos do presidente e do governador de São Paulo, passando os favoritos para trás. E, se o conseguir, ainda poderá ajudar Lula a fazer o sucessor em 2010.

A memória curta de Alckmin

Geraldo Alckmin deve estar com sério problema de memória. Por Fernando Barros De Mello e Catia Seabra, da Folha de S.Paulo:

Nunca vi 1º colocado ceder lugar ao 3º, reage Alckmin

O ex-governador Geraldo Alckmin rompeu ontem o estilo contido e reagiu à articulação de vereadores do PSDB em apoio à reeleição de Gilberto Kassab (DEM) à Prefeitura de São Paulo. Em resposta ao terceiro documento produzido pela bancada em favor da aliança, Alckmin disse que nunca viu o primeiro colocado nas pesquisas ceder a vez ao terceiro.

"Claro que sou favorável [à manutenção da aliança]. Agora, por que quem está em primeiro lugar precisa abrir mão para quem está em terceiro? Eu nunca vi isso", afirmou, para completar em seguida: "Só se for para ajudar o PT".


Mal se passaram dois desde que, quando o PSDB discutia seu candidato às eleições de 2006, quando Alckmin, atrás de Serra e Lula nas pesquisas, impôs sua candidatura. Portanto, nós já vimos candidato 1° colocado ceder lugar para o 3° nas pesquisas. E deu no que deu.

A verdade é que esta teimosia do Alckmin já fez o PT mudar seus planos para São Paulo, impondo a candidatura da Marta, por entender que se a aliança PSDB/DEM se desfizer, e cada partido concorrer com seu candidato, existe enorme chance dos petistas recuperarem a Prefeitura. Nem os próprios vereadores tucanos concordam com esta visão distorcida de Alckmin. Claro que, se ele forçar a barra, é provável que Serra acabe aceitando, mesmo que a contragosto, como já ocorrera em 2005.

E a persistir no erro, Alckmin estará se tornando o pior oposicionista tucano à eleição. Dividirá um eleitorado que, de outra forma, garantiria à aliança PSDB/DEM os dois executivos mais importantes do Estado: a prefeitura da capital e o governo do estado.

A seguir, o restante da reportagem da Folha.

Falando contar com "ampla maioria da bancada", o líder Gilberto Natalini divulgou um artigo em que não apenas defende a aliança como exalta o que chamou de conquistas da administração "Serra-Kassab".

Questionado sobre o artigo, Alckmin disse: "Não vi o documento, mas sem ver já achei bom, porque as pessoas devem ter todo o direito de expor suas idéias". O ex-governador defendeu a realização de prévias no PSDB. "Acho que o PSDB já estabeleceu que para 2010 vai ter as primárias e acho que nós deveríamos fazer já", disse.
Nos bastidores, Alckmin manifestou sua irritação a integrantes do comando do PSDB com as declarações de tucanos em favor do atual prefeito.

Kassab chegou ao evento de ontem à noite 10 minutos após a saída de Alckmin e disse preferir "não falar da hipótese de não existir a aliança", por acreditar na manutenção dela. Questionado sobre a declaração do tucano citando pesquisas, disse apenas: "Nunca minimizo as pesquisas, que são importante retrato do momento".

Artigo
No artigo de Natalini, o nome de Kassab está em cinco de oito parágrafos. Não há menção a Alckmin. "Serra e Kassab tomaram posse e, com eles, fincou raízes um princípio ético que se estende até hoje, em cada ação pública. Pouco discurso e muita ação concreta. Seriedade e competência no trato com o dinheiro público", diz o texto do vereador. Natalini afirma que "todos [os vereadores] endossaram o documento".

"Este governo, comandado pelo prefeito Kassab e pelos secretários e subprefeitos, em sua maioria do PSDB, deram [sic] uma nova "cara" para São Paulo com a Lei Cidade Limpa", complementa o texto.

Embora diga não ter restrições à candidatura de Alckmin, Natalini não declarou voto no tucano em caso de duas candidaturas. "Isso é um problema particular meu. Sou extremamente partidário, fiel ao partido, mas em quem vou votar ou deixar de votar é um problema muito particular meu, de foro íntimo", disse em entrevista.

Reunidos na sede do partido, os vereadores informaram ao secretário municipal Andrea Matarazzo a decisão de realizar um ato em favor da aliança no dia 29 --dois dias após a manifestação dos alckmistas.

Os vereadores também decidiram cobrar da direção do partido uma resposta à carta em que sugerem que o diretório municipal seja consultado sobre a aliança. O documento é endereçado ao presidente do partido, José Henrique Reis Lobo. Mas ele não o leu.

Ontem, mais uma vez, Lobo faltou à reunião e designou Matarazzo, vice-presidente do partido, como representante.

Uma grana preta em obras de mostruário

Pedro Porfírio

Projeto do engenheiro francês Eric Romagna ,O teleférico do Alemão seguirá o mesmo modelo implantado na comunidade de Santo Domingo, em Medellín, na Colômbia. Os cabos e os 200 carros serão importados da França. As torres e a montagem da estrutura ficarão a cargo dos brasileiros. Em princípio, custará R$ 120 milhões de reais - ou seja o que se gataria para implantar 20 CIEPs com capacidade para 20 mil alunos.

Honestamente, não estou entendendo bulufas sobre o que o governo federal e, principalmente, o governador Sérgio Cabral estão querendo fazer com essa montanha de dinheiro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)na Rocinha, Manguinhos e no Complexo do Alemão.

Pelo que li, é coisa pra mais de 1 bilhão de reais. Dinheiro concentrado em três focos, como se eles tivessem a função de um mostruário, uma típica obra de fachada.

Com a experiência de quem foi duas vezes secretário municipal de Desenvolvimento Social do Rio de Janeiro posso dizer que essa é a própria obra para inglês ver. E não tem nada a ver com as reais necessidades das populações faveladas, que representam 25% dos seis milhões de viventes nesta terra de São Sebastião.

Tudo o que foi concebido saiu das cabeças de alguns delirantes, mais preocupados com o PAC das empreiteiras. Ninguém perguntou a um morador do Complexo do Alemão, onde serão investidos de cara quase meio bilhão de reais, se ele está interessado nesse teleférico, imitação grosseira de uma peça semelhante implantada em Medelín, onde também o cartel da droga faz suas vilas e projetos sociais.

E também ninguém discutiu no âmbito das representações legítimas se tem sentido gastar esta fortuna em apenas algumas comunidades. Se não seria melhor com esse dinheiro investir maciçamente na rede pública de ensino e implantar corajosamente um programa de saúde baseado na vitoriosa experiência do médico de família.

Com 3% dessa grana, implantei 500 quilômetros de rede de esgotos nas comunidades, através do Projeto Mutirão, sem paternalismo, sem clientelismo e sem empreiteiras e sem propinas. O projeto, que chegou a ser realizado simultaneamente em mais de 300 comunidades, fornecia o material e remunerava diretamente equipes da própria comunidade, em número mínimo, realizando as intervenções sempre mediante prévia discussão com os moradores.

Havia total transparência e uma consciência de que a implantação do saneamento básico pelas mãos dos próprios moradores, sem os preços superfaturados e sempre acrescidos pelas empreiteiras, era uma ação que, além de tudo, reduzia a pressão sobre os hospitais públicos.

Na nossa concepção, o limite do poder público, que tem de estar presente até como resgate social, é a implantação de serviços públicos, nunca a oferta graciosa de bens pessoais ou de família.

Não tem sentido fazer casas para ninguém. Para mim, que cheguei sozinho do Ceará com 16 anos, ninguém nunca me deu casa. E se você quiser saber, o que o trabalhador da periferia quer é meio para construir sua casa com dignidade. Porque se for dar casa quem vive na pior, tem que dar para todos. Aí teremos que construir 10 milhões de moradias com o dinheiro do contribuinte. Voltarei ao assunto.

http://colunaporfirio.blogspot.com

Os engodos do PAC

Adelson Elias Vasconcellos

O povo precisa de serviços públicos, não de ostentação. É com este pensamento que procuro analisar os infindáveis pacs que vão sendo esparramados pelo país, como se nuncadantez nada houvesse sido feito nesta terra brasilis. Muito embora o senhor Luiz Inácio viva repetindo isto à exaustão, a grande verdade é que o Brasil existia antes dele, e continuará existindo depois dele, sim o Brasil sobreviverá a Luiz Inácio.

O assunto do momento, por exemplo, é a tal crise no mercado financeiro norte-americano. Tanto o presidente quanto seu ministro da Fazendo, Guido Mantega, vivem enchendo e estufando o peito dizendo que a crise não nos afeta nem nos afetará. E isto, nos artigos que publicamos, “A vulnerabilidade brasileira” e “A mentira do governo Lula sobre as reservas cambiais”, ficou claro que o perigo existe sim, que a crise pode desestabilizar a economia brasileira, mas não somente ela, o mundo inteiro. Se até agora o ruído ainda afeta mais os EUA e os principais países da Comunidade Européia, não significa que não acabe por desembarcar por aqui com mais intensidade. Prejuízos já temos, basta analisar meticulosamente nossa balança comercial, e sentiremos a falta no item exportações de inúmeros produtos manufaturados que foram tradicionais em nossa pauta e que, por conta da desvalorização do dólar, tornaram nossos produtos caros demais. Perdemos mercados. E para quem acha que o prejuízo é pequeno, é porque não sabe quantos empregos no ramo coureiro-calçadista já foram fechados. Mas isto é papo pra outra hora.

O que importa é que o governo brasileiro esta fazendo apostas, e o risco de perder são reais. O diabo é que os prejuízos não serão pagos pelo governo, e sim pelo povo brasileiro como um todo.

No caso do pac aqui, pac acolá, e a começar pela infra-estrutura, já mostramos que, 90% do anunciado, são obras recebidas no pacote da herança do governante anterior, e até no caso da Ferrovia Norte-Sul, ela começou a ser construído ainda quando José Sarney era presidente. Algumas inclusive foram simplesmente suspensas pelo governo Lula e por ele agora retomadas como se se tratassem de “obras novas”. Engodo. Outras, como é o caso das hidrelétricas e termelétricas, o governo atual não apenas não acrescentou um quilowatt a mais de energia ao que já havia, como também não elaborou um projeto seu sequer ao conjunto todo. Ocorre que, no caso de usinas de geração de energia, existe um prazo muitíssimo longo entre a confecção do projeto e o início das obras. Principalmente as questões ambientais fazem com que um projeto leve até 10 ou mais anos para ser aprovado e liberada sua construção.

Agora, em pleno ano eleitoral, o governo começou a viajar pelo Brasil levando seus pacotinhos de obras. Talvez os mais jovens não se lembrem, mas até uns 15 anos atrás, havia na estrutura do Executivo Federal um ministério chamado de “Ministério do Interior”. Basicamente, era encarregado da execução de pequenas obras pelo país, como saneamento básico, por exemplo, ou construção de açudes e barragens no Nordeste. Já no governo FHC o Ministério foi rebatizado para Ministério de Integração Nacional. Agora peguem todas as obras embutidas nos pacs que Lula tem levado aos governos estaduais e municípios. São exatamente os mesmos tipos de projeto, o mesmo roteiro de obras, com a diferença que, antes, era o Ministro que assinava estas cartas de intenção, deixando que presidente cuidasse de outros assuntos. Portanto, Lula inaugura o estilo de uso político de pequenas obras. Muitas destas obras inclusive, vocês irão perceber, se tratam de emendas feitas pelos parlamentares ao Orçamento da União. Não são nem da lavra do Executivo Federal.

A minha crítica, neste caso, é pelo uso eleitoreiro que Lula vem fazendo quando cumpre apenas aquilo que é dever do Estado, ou seja, estar presente em todos os grotões do país nas áreas da educação, segurança, saneamento, saúde, infra-estrutura.

Recentemente no Rio de Janeiro, o senhor Luiz Inácio em ocasião de grande pompa e circunstância, montou um palanque para o lançamento do PAC em três favelas do Rio. Qual o critério que se utilizou para a escolha de apenas três, até desconheço. Porém, quando anunciaram a construção do tal teleférico, confesso, estranhei. Trata-se de uma engenhoca que, sinceramente, nada tem a ver. E aí fica a minha irritação com nossos governantes. A mania de quererem, a qualquer custo, construir um monumento ao período de suas passagens pelo poder, mesmo que tais “grandes” obras nada tragam de proveito à população.

Existem, de norte a sul, mais de 2.000 obras, “grandes obras”, que tiveram festa de lançamento de pedra fundamental, com direito a bandinha, discurso e ladainhas. Todas ficaram pelo meio do caminho. Vocês já devem ter lido um levantamento feito pelo Tribunal de Contas da União,há questão de uns dois atrás, e que nós aqui reproduzimos. São milhões jogados no lixo, apenas para uso eleitoreiro do momento.

Porém, e para o caso específico do tal teleférico, vou me socorrer do jornalista Pedro Porfírio. Seu testemunho é um tratado de bom senso neste ponto. E vem de encontro à frase inicial com que abri este artigo, a de que o povo precisa é de serviços básicos, não de ostentação. E se serve como exemplo, veja-se o caos da saúde pública carioca. Olhem o que está acontecendo principalmente com o atendimento médico às crianças, ou falta dele, nesta nova infestação de dengue. Não será isto muito mais urgente ? E a segurança ? E a educação ? E o saneamento básico ? Ou seja, não está o povo carioca clamando muito mais por estes serviços básicos à sua melhor qualidade de vida, do que obras de pura ostentação para uso eleitoreiro ? Será que, executando com os mesmos recursos, obras e realizações voltadas a tais necessidades, não se beneficiará um número bem maior de pessoas ? Alguns podem até não gostar, mas o fato é que o senhor Luiz Inácio está banalizando o próprio dever do estado. Tristemente.

A seguir, o excelente artigo do Pedro Porfírio para a nossa reflexão.