Adelson Elias Vasconcellos
Dentre tanta coisa por informar e comentar, creio que a indignação pela decisão do Congresso em manter o mandato do ainda deputado Natan Donadon, apesar do que determina o Código Penal e a própria Constituição em razão de sua condenação em regime fechado – 13 anos -, supera a vontade de informar e comentar qualquer outra coisa. Não bastasse terem faltado à sessão 108 parlamentares, apesar de serem regiamente pagos para cumprir também esta função, o placar de 131 votos contrários e 41 abstenções contra a cassação do mandato, representa um verdadeiro golpe contra as instituições, contra a decência, contra a moral, contra a própria sociedade. Como esta turma, além de verdadeira coisa imoral, é também covarde, já que a votação foi secreta, não consegue sequer respeitar-se a si mesmo, e mantém parlamentar aquele que a lei impugna como parlamentar, uma vez condenado por crimes cometidos contra administração pública, fica fácil prever que o caminho escolhido pelos cafajestes travestidos de representantes do povo, jamais levará a coisa boa.
A edição de hoje do COMENTANDO A NOTÍCIA vai se fixar em apenas dois posts. No anterior, do jornalista Reinaldo Azevedo, em que ele, mais uma vez, demonstra a ilegalidade do que foi cometido e aponta os cúmplices deste lesa pátria, que têm assento no STF, e este breve cortejo fúnebre sobre nossa pobre representatividade política. Não há clima para mais nada.
Quando um Congresso, já desmoralizado no limite, consegue afundar-se ainda mais mantendo o mandato de um condenado, então que esperança se pode ter em um país como este? Já não bastasse nossa política externa enterrar a historia da nossa diplomacia nos desmoralizando de forma patética perante a comunidade internacional, precisaremos chafurdar na lama da degradação com decisão tão porca como a que a Câmara dos Deputados resolveu assumir?
Este congresso de vigaristas e defenestrados, simplesmente, resolveu ignorar aqueles que ele representa. Resolveu ultrapassar os limites que a lei lhe impõe, decidiu ignorar a imensa insatisfação da própria sociedade contra ele mesmo, resolveu de forma indigna manter naquela casa um presidiário, um vigarista com decisão transitada em julgado.
É claro que a decisão de ontem abre precedente para que os mensaleiros, condenados por crimes ainda mais graves, possam alimentar a esperança de receberem o mesmo prêmio. Este, senhores, é o bônus que a população brasileira recebe por confiar seu voto nestes calhordas.
Vai haver manifestações? Não sei, mas deveria. Se houver, e os manifestantes invadirem o prédio do Congresso promovendo vandalismo, quebra-quebra, arrebentando com tudo e com todos, muito embora possamos condenar tais manifestações violentas, ninguém poderá dizer que os “nobres” não pediram para que isso acontecesse.
Não incentivo a violência nestes termos. Porém, neste específico caso, até compreendo que a insatisfação e mais do que ela, a indignação e o sentimento de vergonha e revolta, acabem falando mais alto do que qualquer bom senso. Mas temo que não veremos, neste caso, a mesma indignação que se observa no Rio de Janeiro contra o governador Sérgio Cabral, por exemplo.
É tão imensa a insatisfação popular que, diante desta vergonha descomunal, as pessoas acabem por perder a esperança de ver a política brasileira trilhando um bom caminho. Que se forme no inconsciente coletivo a sensação de impotência, e todos acabem por se conformar com a patifaria desta laia de pervertidos morais.
E, quando uma sociedade se conforma com a putaria que diariamente se vê cometida pelo Congresso, o passo para golpes institucionais fica muito mais próximo de acontecer. E, neste caso, ninguém pode alegar inocência, desconhecimento da gravidade da situação criada. Cada um deles deve ser responsabilizado por cada semente de ódio que cultivou. Diante de um descalabro como o perpetrado pelos deputados, tantos pelos que faltaram, quanto pelos que se abstiveram e pelos que votaram contra a cassação, um país, em uníssono, pode gritar aos quatro cantos: não tenho mais nada a perder.
Ver investido de mandato parlamentar um condenado pela Justiça, a quem nada mais cabe recorrer a não ser cumprir sua pena de prisão, convenhamos, é jogar qualquer valor de civilidade, decência e moral no lixo. A classe política pode agora se orgulhar do esforço empreendido ao longo de décadas de degradação: conseguiram acabar com a esperança da nação, de um dia ser representada por homens probos, honestos, decentes. O Congresso, através das ações degradantes desta escumalha pervertida e sórdida, converteu-se num bordel. Vibram e comemoram hoje todos aqueles que a eles se aliaram para tornar isto possível. O bordel do Congresso está delirante, festejando sua completa desmoralização. Ali, consciências são vendidas ou alugadas a clientes variados.
João Paulo Cunha, Valdemar Costa Neto, Pedro Henry, Natan Donadon e o último dos condenados desta turma, Ivo Cassol, estão se regozijando. Da cadeia, poderão votar inclusive o aumento de seus ganhos. O Brasil acabou de acabar. Não foi por este tipo asqueroso de democracia que o país lutou por vinte anos para derrubar a ditadura militar. Que Deus tenha piedade de nós. Amém!