domingo, novembro 26, 2006

Sem ritmo nem afinação

Por Lya Luft / Revista Veja
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"Caminhamos com passos atrapalhados num samba de incerto destino"
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Como cidadãos deste país, devemos dedicar alguns pensamentos a quem comanda nosso destino cívico: o novo Congresso, onde vão se produzir grandes consensos – o maior deles, o silêncio sobre nossos mais candentes problemas. Como o fato de que nosso índice de desenvolvimento humano (IDH) desceu mais uma vez: fomos para a 69ª posição, perdendo para vizinhos como Uruguai (43ª), Chile (38ª) e Argentina (36ª). Segundo estudos do Banco Mundial, entre 175 países é no Brasil que se gasta mais tempo para cumprir obrigações fiscais: 2.600 horas por ano por empresa, 800% a mais do que a média dos outros países. Somos campeões na desigualdade social e um dos países que menos crescem no mundo, perdendo só para o Haiti, na América Latina. Embora a equipe do governo trabalhe para garantir o crescimento de 5% do PIB a partir de 2007, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento, estima uma expansão dessa magnitude somente para 2017. O estudo estava pronto antes das eleições, mas só agora vem sendo divulgado. Comentário de uma alta autoridade: "Ora, o Ipea é só um órgão de estudos..."
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Nosso dinheiro duramente ganho (quando temos emprego) vai sobretudo para os impostos, que comem 113 dias de trabalho da classe média, a qual, embora seja a menor parcela da população, é responsável por 60% da arrecadação. O que resta entra no ralo dos serviços que o Estado deveria fornecer de boa qualidade, mas que nós pagamos: gastos com saúde, educação, segurança, previdência privada e pedágios devoraram 31% dos ganhos da tão atacada classe média em 2006. Nós, os professores, bancários, jornalistas, donas-de-casa, balconistas, secretárias, motoristas, que mantemos este país andando.
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Na corrupção, segue animado o baile de máscaras: ninguém fornece dados que permitam processar responsáveis pelo dossiê Cuiabá. Há um assunto de cartilhas que mal consegue emergir; é logo abafado. Sem falar no mensalão, nos sanguessugas, no dinheiro mal aplicado de muitas ONGs, nos escândalos do INSS e outros. Naturalmente o Brasil só podia ter piorado nesse ranking: segundo a Transparência Internacional, passamos para o septuagésimo lugar entre os países mais corruptos, acima apenas da Argentina, do Paraguai, da Venezuela e do Equador.
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Com o país caindo aos pedaços, aviões começaram a fazer o mesmo, ou quase. Nota atualíssima nos diz que só neste ano houve iminência de três colisões nos céus brasileiros – fato gravíssimo! O que está acontecendo em aeroportos e nos ares é o inimaginável fruto do descaso, da desorganização, da falta de autoridade e consenso, brincando com vidas humanas: a próxima pode ser a minha, a sua, a de pessoas que amamos. O governo reduziu gastos com a segurança aérea e vai investir só 40% do necessário em infra-estrutura nesse setor. Sofrendo pela falta de preparo (só 3% falam inglês elementar), treinamento e atividade mais racionalizada, os controladores de vôo afirmam que trabalhar nas condições em que trabalham é um pesadelo.
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Tendo diminuído também os gastos em educação, que deveria ser, junto com saúde e segurança, nossa prioridade absoluta, descemos mais um lance dessa ladeira íngreme. Aumenta o número de jovens chegando ao mercado de trabalho sem qualificação, portanto desempregados. Da população entre 15 e 25 anos, quase 40% não completaram nem o ensino fundamental. Nem vão concluir: o número de jovens assassinados é maior do que nas guerras. Nunca vimos tanta gente morando nas ruas e praças, tantas crianças e jovens pedintes, tantos drogados criminosos, jamais a insegurança grassou de tal maneira em nossas cidades e no campo, nunca fomos tão claramente reféns da violência quase descontrolada. O Brasil também atrai menos investimentos estrangeiros, e caiu do sexto para o 13º lugar na lista dos que mais receberam projetos. A falta de investimento estrangeiro no Brasil colabora para o desemprego, e o país vai perdendo cada vez mais a corrida da competitividade.
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Energia elétrica, rodovias, portos, aeroportos, vivem sob a ameaça de apagão geral. A participação da iniciativa privada em obras foi regulamentada neste ano, mas nenhum processo foi concluído: vivemos no reino do papel, como é de fantasia a riqueza que os políticos querem distribuir e ainda nem foi gerada. Quem pode foge, como os imigrantes da Grande São Paulo que começam a retornar às terras de origem, no Norte e no Nordeste: lá, afirmam, podem viver do Bolsa Família.
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Comentários de uma inesperada catastrofista? Engano: nada do que escrevi acima é meu. Como qualquer alfabetizado pode fazer, colhi frases recentes de nossa imprensa – que precisamos cada vez mais livre, para iluminar nossos passos atrapalhados num samba de incerto destino, sem ritmo nem afinação.

O real complô das elites

Eliane Cantanhede, na Folha de São Paulo
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A presidente do Supremo Tribunal Federal quer aumentar o próprio salário para R$ 30 mil e os dos colegas ministros para perto de R$ 26 mil.
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Como os salários da principal Corte do país definem os limites de remuneração no serviço público, isso pode acarretar um efeito cascata de boas proporções.E o Conselho Nacional de Justiça, criado há pouco justamente como um "olhar externo" no excesso de independência da Justiça para fazer o que bem entender, quer dar um jeito de aumentar os seus salários de R$ 23 mil para nada módicos quase R$ 29 mil.
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Será que vai ser preciso criar um conselho para vigiar o conselho que vigia a Justiça?
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Mas a moda pegou ali na praça dos Três Poderes, onde o Congresso também se assanhou todo querendo aumentos para os parlamentares. Os mais modestos, de 30%. Os mais caras-de-pau, de até 90%.
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Ninguém questiona que suas excelências, os deputados e senadores, os ministros do Supremo e o Conselho de Justiça têm gabarito e direito a bons salários. O problema é a comparação. E a oportunidade.
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Na mesma semana, enquanto eles pediam mais, o governo discutia menos para quem já tem menos -inclusive menos capacidade de pressão. O futuro salário mínimo está sendo cortado de R$ 375 para R$ 367, e os técnicos trabalham freneticamente para aumentar a idade mínima para aposentadoria.O que fica é isso: os poderosos querem ganhar R$ 30 mil e, ao mesmo tempo, cortar R$ 8 do salário mínimo. Ao contrário daquele nosso conhecido que sempre ganha, seja na condição de fortão ou de fraquinho, no mundo real, à margem do marketing, o "fortão" pede muito e se dá bem, e o "fraquinho" não pede nada e só se dá mal.
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E é esse, afinal, o velho, conhecido e verdadeiro "complô das elites".

Corrigindo a verdade

Por Sebastião Nery, na Tribuna da Imprensa
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O general Castelo Branco era diretor da Escola Superior de Guerra no governo de Juscelino Kubitschek e em 58 convidou o saudoso deputado Renato Archer (PSD-Maranhão), oficial da reserva da Marinha e especialista em energia atômica, para fazer uma conferência sobre a política nacional de energia nuclear. E avisou que era proibida a divulgação.
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O jornalista Medeiros Lima, que na época assinava a mais importante coluna da "Ultima Hora", assistiu à conferência e publicou tudo. Castelo ficou uma fera, certo de que Renato tinha traído o compromisso com a ESG. Telefonou para reclamar. Archer explicou o engano, mas em vão.
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Dias depois, Archer foi almoçar no restaurante da Maison de France, no consulado da França no Rio. E encontrou Castelo Branco almoçando com o poeta milionário Augusto Frederico Schmidt, presidente da Orquima, empresa que explorava as areias monazíticas de Guarapari e tinha provocado a famosa Comissão Parlamentar de Inquérito sobre contrabando de minérios atômicos.
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Castelo
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No dia seguinte, Medeiros Lima publicou na coluna da "Ultima Hora" que Castelo almoçava com Schmidt na Maison. O general se enfureceu. Não havia dúvidas de que fora Renato Archer quem dera a notícia para Medeiros publicar. E não tinha sido. Samuel Wainer, diretor da "Ultima Hora", também esteve no restaurante, viu Castelo com Schmidt e passou a notícia para Medeiros. Castelo ligou para Archer, irritado. Archer desmentiu. Castelo não acreditou. O telefonema ia acabando ríspido, quando Castelo mudou de tom:
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- Está bem, deputado. Acredito que não foi o senhor. Então me faça um grande favor. O senhor é amigo do doutor Samuel Wainer. Peça-lhe que consiga do jornalista Medeiros Lima publicar amanhã, na mesma coluna, que eu e o doutor Augusto Frederico Schmidt estávamos de fato almoçando na Maison, mas em mesas separadas. Renato ligou, Wainer pediu, Medeiros corrigiu a verdade.
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ONGs
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O PT e o governo Lula estão como Castelo Branco. Quando não conseguem esconder a verdade, tentam corrigir a verdade. Entre as "heranças malditas" que receberam de Fernando Henrique, uma delas foi a descoberta do uso das ONGs como um grande biombo para contratos e negócios escusos.Como as ONGs são entidades fluidas, voláteis, ectoplásmicas, impalpáveis e camaleônicas, "não governamentais" na teoria e oficiais no faturamento, tornam-se escoadouros escamoteados de dinheiro público.
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Começaram raras e beneméritas, em nome de ações de objetivos públicos com recursos privados. Hoje, são milhares e a maioria piratas. No mundo inteiro os governos de repente estão acordando para o quisto. Fingindo-se de entidades privadas, sem satisfações oficiais a prestar, transformaram-se em vampiras de dinheiro público incontrolado.
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Petrobras
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Sem concorrências públicas, sem licitações, alegando "especialização exclusiva", as ONGs assinam acordos e contratos de serviços de todo tipo com os governos, com entidades governamentais federais, estaduais, municipais, ou com empresas estatais, e, quando cobradas para se explicar, reagem indignadas como se fossem as virgens do terceiro céu (ou setor), intocáveis.
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E pior. Os que as contratam, para não prestarem contas também alegam "urgência de serviços", "características específicas" e outras baboseiras. E o dinheiro público rolando aos milhões. Só o governo federal, no ano passado, gastou mais de R$ 1 bilhão em contratos com ONGs. Imaginem as estatais. E os estados e municípios. É um mundo opaco, misterioso, geralmente corrupto.
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Não é só um problema brasileiro. Agora, na Rússia, está sendo feito um amplo e profundo inquérito sobre as ONGs. O governo já fechou dezenas, a maioria delas descobertas como agentes secretas de interesses externos.
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CPI
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O senador Heráclito Fortes, do PFL do Piauí, fez muito bem e também muito bem agiram os 47 senadores que assinaram e criaram a CPI das ONGs, inicialmente para apurar estranhos contratos e patrocínios da Petrobras para ONGs que se revelaram tesourarias petistas e comitês eleitorais disfarçados.
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É evidente que não pode e não vai ficar só nelas. Outras entidades governamentais, outras empresas públicas que contrataram ONGs também precisam abrir os contratos, prestar contas do que foi pago e do que foi feito.
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Não adianta o douto doutor Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras, sereno e competente profissional que veio da Bahia, de repente enfurecer-se quando cobrado pela imprensa sobre contratos e patrocínios de ONGs que comandaram campanhas do PT nas eleições ou as ajudaram financeiramente.
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Muito menos adianta a valentia de chamar jornalistas (como os do "Globo") de "irresponsáveis", "malvistos aqui", "persona non grata". O País, ainda há pouco, viu muitas vezes esse filme. Lembrem-se da arrogância inicial do Delubio e do Silvinho nas CPIs? No final, se dopavam e choravam.
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A Petrobras custou muita luta do País, de tantos de nós. Não é do PT.

Justiça comanda o acinte

Por Mauro Chaves (*)
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A maior inversão de valores capaz de se abater sobre uma sociedade é a possibilidade, medonha, de os agentes públicos incumbidos de realizar a justiça se transformarem na demonstração mais exuberante da injustiça. Quando os que têm de corrigir são os mais errados, a descrença se torna, no mínimo, dobrada. É a sensação que se tem quando se torce para o mocinho e se descobre, no final do filme, que ele é que é o bandido.
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Muito se tem falado da falta de sensibilidade, em relação às agruras do povo pobre e miserável, por parte dos parlamentares que reajustam seus salários de maneira escandalosa - devendo sua remuneração 'básica' saltar, agora, de R$ 12.847,20 para R$ 24.500,00, afora as verbas 'indenizatórias', os salários extras anuais (13 , 14 , 15...) e demais indecências remuneratórias. Nada se fala, no entanto, sobre os poucos - apenas 11 - que puxam o cordão dos empanzinados, pois é com base nos exorbitantes reajustes destes - os dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) - que se espalha, em imensa cascata, a dinheirama subtraída dos escorchados contribuintes para os felizardos de todos os Poderes.
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Imagine-se agora: se, por um repentino laivo de generosidade social, os 11 ministros do Supremo se contentassem em viver com metade do que ganham ( o que, decerto, não lhes acarretaria qualquer subnutrição), deixando, assim, de propiciar a locupletação geral com base na famigerada 'isonomia', quanto ganharia o Estado brasileiro? Quanto se enfraqueceria a torrencial cascata? Em termos de custo/benefício, esse imenso benefício social não custaria tão pouco, não representaria 'sacrifício' perfeitamente absorvível para um minúsculo grupo de 11 cidadãos que já desfrutam tantos, tantos e tantos privilégios?.A presidente do Supremo, ministra Ellen Gracie, que também preside o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), agora pretende que os integrantes desse colegiado (justamente o encarregado de fiscalizar a lisura da máquina judiciária brasileira!) recebam gratificação (jetom) de 12% (do salário dos ministros do STF) em cada sessão a que compareçam - o que representa reajuste de 24%, já que participam de duas reuniões por mês -, afora o direito a passagens aéreas e a diárias quando tiverem que se deslocar a serviço, para sessões, reuniões, trabalhos, inspeções, correições, missões, etc.
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Com o reajuste proposto a ministra Gracie passará a ganhar R$ 30,3 mil . Em nome da transparência republicana, que se espera das figuras públicas de maior responsabilidade numa democracia digna deste nome, que tal se a elegante magistrada demonstrasse - quem sabe, num site - qual a necessidade de auferir tão elevados proventos? Com viagens e tantas outras despesas pagas pelos cofres públicos, não seria razoável a ministra dar alguma explicação aos cidadãos prestantes sobre o motivo pelo qual precisa ganhar cerca de cem vezes o que ganha a grande maioria das famílias brasileiras, que vivem de salário? Quais serão os grandes e necessários gastos da meritíssima? Roupas? Jóias? Passeios? Parentes? Pensões alimentícias? Escolas? Restaurantes? Baladas? Bebidas? Será que a conspícua dama precisaria gastar tanto dinheiro para viver bem? Se não, contentando-se com menos, não haveria de influenciar seus colegas (de Supremo e de CNJ) na contenção de ambições argentárias que os levasse a respeitar mais o tão suado dinheirinho dos contribuintes?
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Se isso acontecesse e os integrantes da cúpula do Judiciário se conformassem com padrões de ganho mais compatíveis com a pobreza do Brasil, evitar-se-ia a avalanche de aumentos despropositais de gastos da máquina administrativa, propiciando assim maior canalização de recursos públicos para investimentos em educação, saúde, saneamento básico, segurança, infra-estrutura, em favor de toda a sociedade e, especialmente, da sofrida população de baixa renda. Seria o caso, então, de dizer que também por aqui nunca tantos (a população brasileira) deveram tanto a tão poucos (os 11 membros do Supremo).
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Agora, se estabelecermos alguma relação entre o resultado efetivo do trabalho e sua respectiva remuneração, no âmbito do Judiciário - o que caberia aferir em qualquer ramo de atividade - a desproporção se torna acachapante: em todos os níveis a Justiça brasileira é cara e ruim - e ruim, especialmente, pela intempestividade, pela morosidade insuportável dos processos, que sempre resulta em desprezo brutal pelo direito dos credores (com exceção dos spreadadores) e proteção paternal aos infratores e/ou maus pagadores.
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Achou-se a coisa mais natural do mundo o ministro do Supremo Joaquim Barbosa, relator do processo contra os 40 mensaleiros denunciados pelo procurador-geral da República, falar da impossibilidade de a mais alta Corte de Justiça fazer, tempestivamente, aquele julgamento, fosse pelo número excessivo de acusados, fosse pelo fato de o tribunal ser apto para questões constitucionais (e não investigações criminais), fosse porque casos polêmicos exigem a presença de todos os ministros nas sessões - o que é difícil de acontecer (por quê?). No fundo, o ministro Barbosa passou recibo da 'impunidade estrutural' assegurada pela mais elevada instância da Justiça brasileira..É claro que o exemplo desce de cima e se espalha, como poeira entorpecedora, por todos os ambientes e instâncias da Justiça. É por isso que nos fóruns, só por alguns servidores terem participado de mesas em seções eleitorais, eles e todos os demais foram contemplados com quatro dias inteiros de folga após as eleições. E é por isso que em Taboão da Serra, por exemplo, as três juízas das três varas fazem verdadeiro 'revezamento de faltas' - uma sumindo uma semana e passando os despachos para outra, que também some...
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(*) Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e produtor cultural. Artigo publicado no Estado de S. Paulo.

ONGs e Petrobras, a contradição

Por Pedro do Coutto na Tribuna da Imprensa
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A forte irritação do presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, contra os repórteres de "O Globo" e da "Folha de S. Paulo" que divulgaram os repasses de recursos feitos pela estatal a ONGs, e diversos reflexos daí decorrentes, veio assinalar principalmente a contradição essencial que envolve a matéria. Não só especificamente quanto à Petrobras, mas relativamente ao governo federal, governos estaduais e prefeituras. As Organizações - seu nome está dizendo - são Não Governamentais. Como entidades não governamentais podem ser capazes de resolver problemas tipicamente governamentais? Impossível.
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A simples colocação da pergunta fornece a resposta que assinala absoluta impossibilidade. As ONGs propõem-se a atuar no universo das políticas públicas, como a educação, por exemplo, através da formação de mão-de-obra especializada em setores produtivos. Ora, tal tarefa pertence nitidamente ao poder público. Por que motivo dirigentes de ONGs se motivariam para tal tarefa? Ela, em princípio, não fornece lucro. O lucro, no caso, é o avanço da sociedade, a melhoria das condições de vida, o progresso do País.
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São obrigações absolutamente governamentais. Por que cargas d’água os poderes públicos devem delegar estes trabalhos insubstituíveis a terceiros? São atividades específicas de agentes públicos. Por qual razão a Petrobras, ou qualquer outra estatal, deva delegar e transferir responsabilidades a entidades particulares? Ela própria é mais que plenamente capaz de sustentar e executar os serviços cuja realização delega. Não faz sentido. Inclusive, é claro, termina encarecendo a produção visada.
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Sem dúvida alguma. Pois as ONGs, é evidente, não vão trabalhar de graça, por amor à arte. Nem teria cabimento exigir delas tal arrebatamento pelo interesse público. No caso, o interesse público situa-se na esfera de responsabilidade do governo. Seja através da administração direta, seja por intermédio de empresas públicas, ou mesmo por intermédio de sociedade de economia mista, como é o caso da Petrobras.
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São inúmeros os problemas detectados pelo Tribunal de Contas da União, pelo Tribunal de Contas do Estado do RJ, pelo Tribunal de Contas do Município do Rio, envolvendo a prática de órgãos públicos transferirem tarefas a ONGs. Basta ler os diários oficiais. O TCU possui, inclusive, ampla jurisprudência sobre a matéria. As delegações orçamentárias, no plano federal, incluindo o ninho onde habitam as ONGs, elevam-se, incluindo a terceirização de mão-de-obra, a 27 por ento das despesas públicas. Uma grande parte - vale frisar - exigindo comprovação convincente.
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O mesmo ocorre na esfera do TCE-RJ e do Tribunal de Contas da capital fluminense. São inúmeras situações. Uma das mais comuns é o repasse de recursos a ONGs para que estas realizem cursos profissionalizantes. As ONGs não ministram tais cursos. Subcontratam. Por uma coincidência, não mais que coincidência, dirigentes de organizações não governamentais possuem alguma ligação com os donos e dirigentes dos cursos.
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A prática é proibida pelos Tribunais de Contas. Mas é feita. No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, há poucos dias, o TCE entregou um estudo ao governador eleito, Sérgio Cabral, em que está assinalado que os recursos repassados a ONGs e empresas de terceirização elevam-se este ano a 4,1 bilhões de reais. O orçamento em execução no RJ alcança, em números redondos, 33 bilhões. É por essas e outras que o endividamento público cresce sem parar. No universo da União, o endividamento, só na parte mobiliária (títulos públicos em poder dos bancos), é de 1 trilhão e 61 bilhões, 57 por cento do orçamento deste ano.
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Na esfera do RJ, alcança 43 bilhões para uma lei de meios de 33 bilhões. Na área da Prefeitura do Rio, é de 7,5 bilhões para um orçamento de 10 bilhões de reais. O mais grave, entretanto, é que, com a transferência de recursos para ONGs e empresas de terceirização, os poderes públicos vão progressivamente abrindo mão da tarefa de governar.
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Em conseqüência, também, tornam propositalmente difícil o controle dos gastos oficiais pelos Tribunais de Contas. A cada dia, tal fiscalização torna-se mais trabalhosa e complexa, tais e tantos são os agentes executores envolvidos em tarefas que teriam que partir de uma só fonte: os governos. Foram eleitos para isso: executar diretamente os trabalhos a si inerentes. Não para delegar indefinidamente.
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O descontrole nasce daí. A farsa também, fomentando o imobilismo disfarçado por um incrível mimetismo paralisante. Basta chegar a repartições públicas e às Organizações Não Governamentais investidas de tarefas governamentais. As pontas dos lápis estão sempre finamente afiadas. Mas isso não garante o trabalho, muito menos sua produtividade. O episódio relativo à Petrobras e que abrange algumas ONGs é emblemático do impasse efetivamente criado por relações desse tipo.
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Vamos a outro assunto. Há alguns anos, publiquei um artigo, aqui na TRIBUNA DA IMPRENSA, cujo título era "Os amigos do depois", em que eu focalizava a ingratidão humana e o distanciamento entre os que assumem e aqueles que se aposentam ou são substituídos pelo tempo. O reconhecimento ao valor humano é raro. Mas às vezes, excepcionalmente, acontece. Ocorreu agora com o presidente do TCE-RJ, José Graciosa, dando o nome de Humberto Braga, conselheiro aposentado, ao centro cultural que inaugurou. Fez justiça a um pensador, a um intelectual. Foi positivo.

Os Michéis Temeres

Por André Petry / Revista Veja
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Estão fazendo uma injustiça tremenda com o deputado Michel Temer, o presidente do PMDB. E tudo porque ele apoiou o tucano Geraldo Alckmin até o último minuto da campanha presidencial e acaba de declarar apoio ao petista Luiz Inácio Lula da Silva antes de começar o primeiro minuto de seu segundo mandato. É uma injustiça porque, nos bastidores da política em Brasília, se comenta abertamente que Michel Temer não é um só. Pois é: existem dois Michéis Têmeres. Ambos têm 66 anos, ambos presidem o PMDB, ambos se elegeram agora para deputado federal com 99 000 votos – mas são dois.
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No peito de um Michel Temer sempre bateu um coração meio petista. Há um Michel Temer que sempre quis integrar o governo de Lula. Sempre. No início do primeiro mandato, quando o então todo-poderoso José Dirceu negociava a adesão do PMDB ao governo, um entusiasta da negociação era justamente Michel Temer, o petista. E na semana passada quem se sentou à mesa com Lula e anunciou a adesão do PMDB ao governo foi o mesmo Michel Temer, o petista. Não se deve confundi-lo com o outro Michel Temer, em cujo peito sempre bateu um coração meio tucano. Esse outro Michel Temer é que subiu no palanque de Geraldo Alckmin. São dois. São gêmeos.
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O que intriga a política brasiliense é que os Michéis Têmeres poderiam vir a público revelar sua dupla existência. Qual o problema? Gêmeos não podem ser políticos? Gêmeos não podem ter preferências políticas diferentes? Em vez disso, os dois Michéis Têmeres insistem em tentar enganar a platéia como se fossem um só. Não se dão conta de que é esse disfarce que gera a injustiça.
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Agora mesmo, antes de ser chamado para conversar com Lula no Palácio do Planalto, Michel Temer andava irritado. Irritado porque o presidente não o chamava nunca. Alguém lembrou: "Ele também não pode querer que o Lula esqueça que menos de um mês atrás ele estava com Alckmin no Vale do Anhangabaú". Injustiça. Quem estava lá era Michel Temer, o tucano. Quem andava irritado com a demora de Lula era outro Michel Temer, o petista.
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Um dos mandamentos básicos para esconder a existência de dois Michéis Têmeres é nunca, jamais, dizer qualquer coisa que seja muito clara. Assim, um Michel Temer não compromete o outro Michel Temer. Confira no seguinte diálogo:
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Veja – Por que o senhor apoiou Alckmin?
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Temer – Eu ouvia dizer que o partido inteiro estava com Lula. Como não era assim, resolvi restabelecer a verdade. O PMDB ficou dividido e declarei o meu apoio ao Geraldo Alckmin, a quem eu sempre fui mais ligado.

Veja – Por que o senhor agora apóia Lula?

Temer – Agora, identifiquei que a grande maioria gostaria de atender aos apelos do presidente para que o PMDB ingressasse no governo. O que eu fiz foi ser coerente com a decisão do PMDB de apoiar o governo.

Os dois Michéis Têmeres estão sempre a serviço de evidenciar a vontade partidária: vira tucano para mostrar a divisão, vira petista para mostrar a união.
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Não é um disfarce perfeito?

O Brasil e os investimentos: entre o populismo e a África...

Por Reinaldo Azevedo
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Lula gosta de ser inaugural. Tem especial paixão por colecionar ineditismos. A partir de agora, já pode dizer: nunca antes “Estepaiz” exportou tanto capital — vale dizer: nunca antes as empresas “destepaiz” investiram US$ 22,8 bilhões no exterior (marca atingida entre janeiro e outubro). Glórias da globalização, poderíamos comemorar. Olha o Brasil fazendo bonito lá fora! É verdade. Tudo iria bem se a pista que corre na outra mão estivesse demonstrando igual vigor. Mas não. No mesmo período, o país recebeu apenas US$ 13,6 bilhões de Investimento Estrangeiro Direto (IED). Ainda que o IED chegue aos estimados US$ 18 bilhões, que é a expectativa oficial, o saldo será negativo. Pela primeira vez na história.
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Um país emergente que investe no exterior mais do que recebe investimentos está fadado ao fracasso. Ainda que se possa exaltar a competência de alguns setores de ponta da economia brasileira, é óbvio que o real valorizado desestimula a entrada de investimentos produtivos e leva as empresas brasileiras a procurar mercados mais atraentes. Reitero: não há nada de errado em buscar oportunidades de negócios mundo afora. O problema não está nos dólares que saem, mas naqueles que não entram; não está no quanto as empresas brasileiras investem no mundo, mas no quanto o mundo deixa de investir no Brasil.
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Lula vive se orgulhando de nossas reservas. Muito bem. Ele sabe que parte disso se deve ao superávit da balança, e outra, à política de juros, que atrai o capital não produtivo. No caso da balança, continuamos a nos beneficiar da fantástica expansão da China, grande compradora de commodities no Brasil. Mas também nesse caso já começamos a perceber os efeitos do sacrossanto modelo brasileiro, “imexível”, como diria Rogério Magri. A China continua a comprar a nossa soja, mas está nos vendendo manufaturados, concorrendo com a indústria brasileira, que ou quebra ou desemprega. O Brasil já está gerando empregos para... chineses. E nem pode recorrer a mecanismos multilaterais para acusar dumping. Afinal, reconhecemos aquele país como "economia de mercado".
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O Apedeuta está sucateando o Brasil. Lenta e paulatinamente. Se olhamos para o Oeste, topamos com a América Latina populista (exceção feita ao Chile). Se olhamos para Leste, damos de cara com a África. Nunca antes "nestepaiz"...

Reino da impunidade

Por Plínio Zabeu
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O Brasil é destaque no ranking dos países contaminados pela corrupção. Repetidamente vamos percebendo que, se souber fazer, ter recursos para defensores competentes, planejar muito bem, pode hoje o corrupto desenvolver suas atividades com a maior desfaçatez e total ausência de preocupação. Esta não é uma afirmação leviana. É a conclusão de ilustre Ministro do Supremo Tribunal de Justiça.
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Esperávamos por alguma punição aos acusados com provas cabais e suficientes. Vamos para quase dois anos de investigações. CPIs, PF e MP mostraram. Filmes, aviões, caixas de uísque e cuecas recheados de dinheiro foram exibidos ao mundo inteiro.
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Por falar nisso, alguém sabe em que cadeia está o alto funcionário dos Correios filmado recebendo um pacote com 3 mil reais? Ninguém sabe. Tudo vai indo para conta do esquecimento. Fosse um ladrãozinho de feira e estaria preso mesmo.
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Uma das pérolas foi dita pelo Ministro da Justiça com referência ao último – e por enquanto ainda vivo, mas por pouco tempo – ato apelidado de venda de uns documentos para prejudicar um partido: “Querem saber de uma coisa?
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Esse tal de dossiê nem tinha tanta importância assim. Vá lá. Deixem disso...” Bem. E o dinheiro? Bem. O dinheiro pode bem ser o mesmo encontrado com a filha do senador de duplo endereço. A diferença – de 500 mil reais – fica por conta dos juros daquele tempo para cá.
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Assim sendo, vamos ter certeza de que nenhum dos mensaleiros ou do grupo dos quarenta ladrões – tão bem investigado e mostrado ao país por um corajoso procurador da republica – será punido. Uma das causas é o repulsivo foro privilegiado (esta sim uma herança maldita do governo anterior). Outra é o grande número de acusados. Palavras também de Ministro do Supremo: “É totalmente impossível analisar tantos e tantos processos”. Já bastam os que lotam os diversos setores. São milhares e milhares deles que serão encerrados pela prescrição.
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Mas nossos deputados não param não. Está em andamento mais uma “facada” nas nossas contas. Eles recebem 12.500 mensais fixos (15 salários por ano) e mais outro tanto em “verbas de gabinete e indenizatória”. Cada um deles nos custa 100 mil reais por mês. Mas, para receber tais verbas é necessário guardar recibos e comprovantes de despesas. Isso dá um trabalhão! Trabalho? Essa não. Eis que, dia 22/12 à noite, o salário passará a 25 mil. Sem necessidade de votação em plenário.
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Bem. E o presidente? Continua de nada sabendo...

Lula e as zelites

Por Millôr Fernandes/Revista Veja
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I.- NOUTRO DIA, antes da glorificação dos controladores de vôo1, eu estava escarrapachado num magnífico avião2, já na pista de decolagem, tomando meu uisquezinho maneiro, sem aumento de preço (pudera!), prelibando (!) minha chegada a Katmandu, enquanto ouvia o bruaá em volta, quando alguém (o comissário?) falou ao microfone:
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"Os senhores passageiros vão desculpar o atraso de nosso vôo por 35 minutos, mas, como o comandante Paulo Schneider foi atacado por um mal-estar súbito, terá que ser substituído por um nosso companheiro do PT, Valdécio Silva, com grande experiência, 30 anos como motorista de ônibus no interior de Campinas".
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Vocês podem não acreditar, mas, em menos tempo do que o diabo esfrega um olho, o avião estava completamente vazio.
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É por isso que não me canso de dizer, Lula tem toda a razão quando esculhamba as zelites.
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1. Ninguém sabia que existiam.
2. Avião é aqui embaixo. Lá em cima, ele muda de nome na voz do comandante, que o trata com todo o respeito – aeronave. Ele sabe com que está lidando. Ah, antes que eu me esqueça – antigamente era aeroplano.
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II.- NOUTRO DIA, logo depois da vitória esmagadora do grande líder dos povos, que vocês sancionaram como tal, acompanhei um amigo que ia se submeter a uma operação no cérebro, num hospital-modelo aqui do Rio, ali na Praça da Cruz Vermelha. Toda a velha, serôdia, administração, muitos quadros administrativos não reciclados, e até mesmo cirurgiões, tudo gente de direita, tinham sido afastados e substituídos por gente mais ágil, mais capaz, perfeitamente integrada nos novos tempos. Os companheiros.
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O hospital estava em festa. Não tugi nem mugi, entusiasmado como todo mundo. Todos sabem que sou fácil de levar no bico. Mas meu amigo, grã-fino da pesada, não ia nessa – mesmo porque a cabeça era a dele. Perguntou à administradora: "O doutor Helio Rufino já chegou?". "Não, senhor, ele não vem mais. Foi afastado ontem. Mas o senhor pode ficar tranqüilo. Já está tudo pronto, o senhor vai ser operado pelo nosso companheiro Genoino Gushiken Silva, que tem grande experiência no tratamento de feridas e perebas na favela de Murici-do-Oco, em Garanhuns."
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Meu amigo não se deixou impressionar pelo currículo do novo cirurgião e me ordenou, seco e sucinto: "Vamo nessa!".
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Fui. Quase correndo, acompanhei-o para ser operado nos Steits. Aliás, viajamos no mesmo avião em que viajava, com objetivo semelhante, o vice-presidente da República.
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Lula tem toda a razão, não há nada mais antinacionalista do que nossas zelites.
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III.- NOUTRO DIA eu estava lá no Cirque du Soleil, esperando começar o espetáculo, sentado naquele pedaço a que só vai mesmo a zelite das zelites (até tem nome em francês, tapiruge, que minha companheira, que sabe franco francês, logo me traduziu: "O tapir ruge"). Luzes para cá, luzes pra lá, correria pra todo lado, até que um palhaço parou no proscênio e, em mímica perfeita, que todo mundo entendeu, comunicou: "Respeitável público, o que vão (em mímica não dá pra acertar a concordância) assistir agora é mostrado a primeira vez pelo Cirque du Soleil. Atendendo a uma ordem do Senhor Presidente da Bolívia, perdão, Brasil, dez de nossos saltimbancos (não confundir com assaltantes do Erário), canadenses, americanos, ingleses, italianos, húngaros e checos, serão substituídos por companheiros da Administração Federal".
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Vocês sabem de uma coisa? A zelite inteira nem piscou, nem se mexeu. Nem tinha por que piscar ou se mexer. A alegria do palhaço não é ver o circo pegar fogo?
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Pois é, a zelite sabe das coisas. E uma das coisas que ela sabe é que andar no arame ninguém falsifica. Nem faz mais ou menos.
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Ficou esperando a companheirada toda se esborrachar. E ainda saiu rindo pros bares e restaurantes dizendo que a noite foi muito divertida, e que o Cirque é o máximo.
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Lula, como sempre, está cheio de razão. A zelite é masoquista.

Alice no país das maravilhas

por Roberto Jefferson
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O Presidente quer ser Alice, quer viver em um país só de maravilhas.
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A imprensa, pelo menos aquela "marrom", que critica, questiona, não é bem-vinda, já disse o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli. E para limpar a imprensa a faxina começa pela estatal Radiobras, que na opinião de alguns não foi suficientemente aparelhada e andou, durante a campanha eleitoral, divulgando discursos oposicionistas. Assim, o presidente da Radiobras, Eugênio Bucci, colocou seu cargo à disposição de Lula para que o PT possa dar à oposição o silêncio e nada mais. Mas nem toda a imprensa é estatal, ou amiga. E nem todo jornalista fica de fora de entrevistas coletivas de funcionários do Estado só porque não é bem-vindo.
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A unanimidade de pensamentos e opiniões é mero mito. A discordância não é invenção de alguns setores da sociedade. E o discurso de Lula no encontro com governadores foi infeliz.
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O Presidente afirmou que "só não vai conversar quem não quiser conversar. Quem for civilizado e quiser fazer política civilizada vai ter espaço para uma boa conversa. Quem não quiser, nós temos de respeitar o direito de silêncio dos outros". São dois grandes e infelizes absurdos em uma única frase. Primeiro, achar que aqueles que com Lula não concordam não são civilizados. Há maneiras e maneiras de discordar, e algumas podem até mostrar pouca civilidade, mas não é sempre que tal acontece. Há, e deve haver, uma oposição civilizada, e esta é a mais eficaz.
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Por outro lado, a lógica do absurdo em tal declaração coloca qualquer opositor ao lado de criminosos. É certo que o direito ao silêncio está protegido pela Constituição. Mas tal direito, que é de todos, aparece muitas vezes ligado a processos criminais, no qual o réu tem o direito ao silêncio para não produzir prova contra si mesmo. Mas, e pelo menos por enquanto, é sonho de Lula ter toda a oposição no banco dos réus, ou atrás da grade. O país das maravilhas, na verdade, não é aquele que Lula deseja.
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A gente pode até sonhar que está no país das maravilhas, mas, Alice barbuda não dá.

Governo reeleito renasce envelhecido

Por Villas-Bôas Corrêa, no Jornal do Brasil
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O presidente Lula está dissipando, de maneira tão extravagante e perdulária, o seu cacife de mais de 58 milhões de votos que garantem o bis do segundo mandato que as características de governo reeleito, com gosto de prato requentado, acentuam as rugas em volta do nariz e o ar cansado. Até a posse, a 1° de janeiro, serão mais um mês e uma semana com a carga pesada dos desgastes nos acertos finais para bater o martelo nos acordos com os futuros aliados, cada qual ansioso para desembarcar no poder com a pasta bojuda, levando o ministério, a secretaria, a autarquia, que tudo tem o sabor de vitória e da fruição do generoso bolo oficial.
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A reeleição envelhece os governos novos, vergados ao peso dos compromissos assumidos nos palanques da caça ao voto esquivo e da obrigação de superar os sucessos badalados no primeiro mandato, com os exageros e os enfeites do marqueteiro para engambelar o eleitor.
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Em instante de eufórica lucidez, quando confirmada a vitória consagradora por mais de 20 milhões de votos de vantagem, o presidente-reeleito, com jeito de filósofo, reconheceu que não mais poderia apelar para as comparações com as estatísticas dos oito anos dos dois mandatos do seu antecessor para anunciar os recordes "do maior governo que este país já viu".
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Ora, a inspirada observação presidencial na celebração da vitória deve ser completada com a avaliação das suas exigentes conseqüências. Governo reeleito não se expõe ao sol a pino que castiga a pele sem o viço do primeiro mandato. Nem deve abusar da longa exposição na última etapa da travessia.
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A iniciativa da abertura dos contatos, entendimentos para a articulação de acordos, escancarou a portinhola para farândola das ambições espicaçadas. Quem estava quieto, chocando a expectativa, agitou-se e entrou na roda. O que, se não estava arrumado, guardava o decoro do silêncio, botou a boca no mundo.
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E tudo para quê? Para nada. O governo não conseguiu enquadrar o PT, mais rachado do que vidraça de janela de pobre, e que exige conservar o quinhão conquistado, com o penduricalho de novas e amplas reivindicações.
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Foi muito fácil com o PMDB, laranja bichada de muitos gomos. Lula, afinal, acertou uma, seguindo a tática clássica dos velhos manuais da esperteza. Em rodada fulminante, com a oferta na mesa para a decisão rápida uma vez fechado o negócio. Agora, é só distribuir as fatias quando cortar o bolo ministerial e outras guloseimas.
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A indefinição paralisa o governo que não é muito chegado à dureza do batente. Quem não sabe se fica ou se desocupa a moita e cultiva um mínimo de pudor, encolhe-se, finge-se de morto. No outro lado do muro, a especulação avivada pelos rumores, inconfidências, reuniões, alimenta as intrigas, que irrigam a mídia com a permanente troca de farpas ou de grossas descomposturas.
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E depois, cá para nós, que acabrunhante desfile de medíocres na passarela dos prováveis futuros ocupantes da cúpula renovada para o desafio de um segundo mandato melhor do que o primeiro, que reconstruiu o país, fazendo mais do que foi feito "por todos os que governaram este país por mais de cinco séculos".
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Noves fora o mensalão, o caixa 2, a compra de ambulâncias superfaturadas da operação dos sanguessugas, a novelinha do dossiê, a tal quadrilha denunciada pela Justiça e, agora, a vexaminosa bagunça nos aeroportos e as desculpas do ministro da Defesa, Waldir Pires. Bagatelas, ninharias, bobagens.