sexta-feira, outubro 12, 2007

A cultura brasileira perdeu um gigante

Teatro ocupou maior parte da carreira de Paulo Autran
Do G1, em São Paulo

Ator morreu nesta sexta-feira (12) devido a um câncer no pulmão.
Paulo Autran fez mais de 90 peças em várias décadas de carreira.


Paulo Autran, que morreu nesta sexta-feira (12), aos 85 anos, dedicou a maior parte de seus mais de 50 anos de carreira ao teatro, mas também se destacou no cinema e na televisão.

O ator nasceu no Rio de Janeiro em 1922. Formou-se em direito, no ano de 1945, pela Faculdade do Largo São Francisco (USP) e chegou a advogar. Começa no teatro dois anos depois, com o grupo Artistas Amadores e a peça "Esquina perigosa".

Em 1949, inicia sua longa parceria e amizade com a atriz Tônia Carrero, com "Um Deus dormiu lá em casa (anfitrião)", considerado o seu primeiro papel como ator profissional, com o qual é premiado pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais, de acordo com a biografia "Paulo Autran: um homem no palco", do crítico Alberto Guzik.

A partir daí, Autran participa da encenação de vários textos importantes como "Seis personagens à procura de um autor", de Pirandello, "A dama das camélias", de Alexandre Dumas Filho e "Otelo", de Shakespeare.

Em 1962, faz "My fair lady" ao lado de Bibi Ferreira. Recebe o prêmio de melhor ator da Associação Paulista dos Críticos Teatrais por "Depois da queda", texto do dramaturgo norte-americano Arthur Miller.

Nessa mesma década participa de um dos principais momentos da cinematografia brasileira, atuando em "Terra em transe" (1967), de Glauber Rocha. A partir do final da década de 70, faz um musical, "O homem de la mancha", inspirado em "Dom Quixote", trabalha com diretores conceituados como Fauzi Arap e Antunes Filho.

Mais tarde, atua em novela de sucesso como "Pai herói", "Os imigrantes", "Sassaricando", além de minisséries como "Hilda furacão" e "Um só coração".

Seu último trabalho de destaque foi a encenação da peça "O avarento", de Molière, traduzida e adaptada por Felipe Hirsch. Algumas sessões tiveram de ser canceladas em virtude de internações de Paulo Autran.

Em entrevista à jornalista Marília Gabriela, o ator confessou que, aos 83 anos na época, ainda fumava consideravelmente. "Fumo porque sou burro. Não tenho forças pra largar. Fumo 12, 13 cigarros por dia.”

Ele também fez uma participação no filme "O ano em que meus pais saíram de férias", de Cao Hamburger, escolhido para tentar representar o Brasil no Oscar do próximo ano. Um espaço no Sesc Pinheiros, em São Paulo, ganhou o seu nome neste ano.

Veja momentos da carreira de Paulo Autran em vídeos



O Avarento 1

O Avarento 2

Sassaricando – Velório de Teodora - 1987

Sassaricando – Autran e Carlos Zara – 1987

Poema “Eu, etiqueta” de Carlos Drumond de Andrade

Amar, to love

No meio do caminho

Fernando Pessoa

Guerra dos Sexos - os primos portugueses (1983)

Guerra dos Sexos - Charlô e Bimbo em guerra gastronômica
Paulo Autran e Fernanda Montenegro protagonizam cena antológica em Guerra dos Sexos, novela de Sílvio de Abreu

As rezas do suplente

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Nelson Carneiro era mais uma vez candidato a senador pelo PMDB do Rio de Janeiro. A direção do partido se reuniu para indicar os suplentes. Fez uma lista e foi visitá-lo em casa, no posto 6, em Copacabana.

O senador os recebeu cordialmente, sentaram-se todos, foi servido um cafezinho. Depois, ele abriu a lista, leu os nomes um a um, até terminar:

- Estou vendo que os nomes que vocês me trazem para compor minha chapa de senador têm todos o maior mérito, são companheiros do partido, quase todos ilustres e antigos dirigentes. Mas sinto comunicar-lhes que nenhum deles será meu primeiro suplente. Segundo suplente, qualquer um pode ser. Mas o primeiro já está escolhido, é o professor Paulo César.

Nelson Carneiro
Fez-se um silêncio gelado. Ali, quase ninguém conhecia o professor Paulo César, dono de modestos colégios nos subúrbios do Rio, filiado ao MDB e ao PMDB desde a fundação, e fiel e incansável correligionário de Nelson Carneiro desde que ele, chegado da Bahia em 1958, pela primeira vez se elegeu pelo Rio de Janeiro, antes mesmo de criado o Estado da Guanabara.

O senador explicou pacientemente:

- Sei que alguns de vocês pouco ou quase nada sabem do professor Paulo César. Mas há 30 anos, desde que disputo mandatos no Rio, ele tem sido meu mais fiel e constante companheiro. E por isso vai ser meu suplente.

Paulo César
O senador tomou calmamente um gole de café e concluiu:

- Meus amigos, o que é o suplente? É aquele que, em caso de morte, substitui o efetivo. Por mais que um suplente seja generoso e virtuoso, lá no fundo de sua alma, todos os dias, ele pode até nem dizer, mas sempre reza que o titular morra para ocupar o lugar dele.

E o professor Paulo César, de todos os senhores, é o único aqui presente que tem o direito de desejar a minha morte para assumir o mandato em meu lugar, porque, afinal, há 30 anos, me acompanha e ajuda fraternalmente, generosamente. E mais: ele é o único a quem dou o direito de rezar para eu morrer e ele virar senador. Mas os senhores, não. A nenhum do senhores dou o direito de ficar agourando a minha morte para me substituir.

Paulo César foi suplente e, se rezou, devia ter reza fraca. Não adiantou nada. Nelson cumpriu seu terceiro mandato até o último dia. Só saiu derrotado na eleição seguinte, pelo povo.

Wellington
Contam os jornais que o cabeludo desgrenhado, suplente de senador Wellington Salgado, que é uma fraude geográfica e eleitoral, porque é de São Gonçalo, no Rio, mas suplente do senador Helio Costa, do PMDB de Minas, só ficará no mandato até dezembro porque, doravante, a partir oe próximo ano, o suplente de Helio Costa será o segundo suplente, o Fioravante.

Salgado, que é dono de uma indústria educacional, a "Universidade Universo", já deve ter se ressarcido de sua parte no financiamento da campanha de Helio Costa. Agora será a vez de o segundo suplente receber o segundo pedaço da partilha do mandato.

Quem tem a TV Globo para lhe dar e garantir o Ministério das Comunicações, como Helio Costa tem, não morre pagão. É indemissível.

Escórcio
A imprensa cada dia sabe menos do que diz. O funcionário da presidência do Senado, Francisco Escórcio, flagrado no aeroporto de Goiânia acertando um esquema mafioso para filmar e controlar os vôos dos senadores goianos Demóstenes Torres e Marconi Perilo, pode ter ido lá prestar serviços a Renan Calheiros, mas ele não escova os dentes sem ordem do senador Sarney.

Quando Sarney era proprietário do Maranhão, na ditadura, o Chiquinho Escórcio, imposto por Sarney, chegou a ser suplente do saudoso senador Alexandre Costa, e assumiu algum tempo, quando Alexandre adoeceu.

Quando Sarney foi presidente da República, Escórcio era móveis e utensílios do Palácio do Planalto. No primeiro governo Lula, Sarney nomeou Escórcio sub-subchefe da Casa Civil, substituto de Waldomiro Diniz, aquele avô do Mensalão, que era o vice de José Dirceu.

Defenestrado José Dirceu da Casa Civil, Sarney levou Escórcio para o Senado, para suas missões impossíveis. E, a fim de não dar muito na vista, em vez de o pôr no próprio gabinete, o instalou no gabinete de Renan Calheiros, mas sempre a serviço dele, Sarney (onde ganha R$ 9.200).

Globo e "Veja"
O Congresso (o Senado de um lado e a Câmara do outro) vai ter ótima oportunidade de mostrar ao País quem é que manda mais lá: a Globo ou a "Veja".

O Senado criou a CPI das ONGs, para analisar as relações dos governos (federal, estadual e municipal) e das estatais com as ONGs do País, sobretudo a Fundação Roberto Marinho, a mais poderosa, faturante e rica das ONGs.

E o Câmara criou a CPI que vai desnudar a estranhíssima compra, pela espanhola Telefônica, da TVA, um canal pago da Editora Abril. Como se sabe, empresa telefônica não pode ser dona de canal de televisão.

CPMF primeiro e alíquota depois

Leandro Mazzini e Karla Correia , Jornal do Brasil

Com um prazo cada vez mas exíguo no Congresso para aprovar a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, a CPMF - e com a etapa na Câmara praticamente vencida até semana que vem, na avaliação de alguns líderes - o governo avança com propostas para os senadores a fim de manter em caixa os R$ 38 bilhões previstos de arrecadação para ano que vem. A base espera concluir a votação até 21 de dezembro, a poucos dias do prazo final. Para não encontrar obstáculos, o Palácio do Planalto apresentou uma proposta à oposição: prorrogar a CPMF este ano e negociar uma eventual redução da alíquota depois.

O plano é considerado pelos governistas o melhor para que o Planalto garanta a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 50/2007 até dezembro e não perca a arrecadação de pelo menos R$ 10 bilhões. O dinheiro pode escapar dos cofres do governo caso a CPMF não seja aprovada este ano. Se ficar para o ano que vem, no melhor dos cenários, o Planalto só garantiria a arrecadação a partir de abril. Outra idéia do Planalto é, a partir do ano que vem, dar mais combustível ao carro-chefe da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva no setor social. Usar a CPMF como fomento para o Bolsa Família, no que concerne à fatia dos 0,38% direcionada para o Fundo de Pobreza.

Diante das pressões do DEM e do PSDB no Senado, onde o governo não tem a maioria folgada como na Câmara, o Palácio do Planalto já sabia que não podia garantir a alíquota no índice atual até 2011, prazo previsto pela PEC. Além disso, o fato de a relatoria na Comissão de Constituição e Justiça cair nas mãos da senadora Kátia Abreu (TO), do Democratas, adiantou a negociação. Na Câmara, os deputados já dão como certa. Evitam falar nesse acordo, embora reconheçam esse esforço do governo como o mais viável.

- A CPMF é muito importante para todos, e todos sabem disso - argumentou o líder do PT na Câmara, Luiz Sérgio (RJ), que prevê para hoje uma aprovação tranqüila no segundo turno.

Ontem, em reunião de líderes governistas na qual também participaram alguns deputados da oposição, a base bateu pé e não abriu mão de votar duas medidas provisórias que trancavam a pauta - no primeiro turno, para apressar a votação, o governo revogou duas medidas. O líder do governo, deputado José Múcio (PTB-PE), tinha a expectativa de encher a Casa ontem à noite para votar as MPs 384/07 (que institui o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, o Pronasci) e a 385/07 (que concede ao agricultor contribuinte eventual à Previdência o direito à aposentadoria por idade sem prazos mínimos de contribuição). Múcio admitiu que, sem consenso na reunião, teve de negociar a retirada de trechos da MP do Pronaci - os que tratam dos benefícios financeiros concedidos a menores em áreas de risco.

- Eles podem voltar depois em forma de projeto de lei, mas vamos aprovar a essência da MP - atestou o líder, que mais tarde comunicou a decisão ao presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP).
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Apesar da gritaria da oposição, o clima entre os governistas é de tranqüilidade. O líder do PDT, Miro Teixeira (RJ), acredita que a tendência dos votos a favor do governo é de aumentar. Mas o líder do DEM, Onyx Lorenzoni (RS), tenha dito que não vai baixar a guarda.

- Tenho 14 vice-líderes para obstruir a pauta. O governo só terá votação essa semana se ela entrar pela madrugada. Vamos disputar cada requerimento e retardar ao máximo a sessão - ironizou, ao adiantar que vai usar todo o tempo possível com discursos para procrastinar a votação.

O relator da PEC na comissão especial, deputado Antonio Palocci (PT-SP), também estava confiante ontem. Garantiu que o maior partido aliado não se dividirá dessa vez.

- O PMDB está colaborando, está conosco.

CPI virou moeda de barganha

Ricardo Rego Monteiro

O fantasma de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) começa a atormentar a diretoria da Petrobras, que se tornou, nos últimos meses, alvo de um intenso jogo de barganha que tomou conta da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Disposto a emplacar seu filho no topo do aparelho estatal, o senador Romeu Tuma (SP), recém-transferido para o PMDB, já dispõe de 35 assinaturas para dar entrada no requerimento de abertura de uma CPI com alto potencial corrosivo, segundo avaliações da própria empresa e da base do governo no Senado.

Além de derreter as ações da petroleira negociadas na Bolsa de Nova York, teme-se que uma investigação possa paralisar de vez o já tortuoso Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Responsável por praticamente 50% do PAC, a Petrobras ficaria em meio a um constrangimento capaz de intimidar qualquer diretor ou gerente a assinar uma ordem de pagamento a empreiteiras ou prestadores de serviços.

- Nenhum funcionário de estatal é louco de assinar uma ordem de pagamento ou contrato em meio a uma CPI - afirma um senador da ala governista, que manifestou preocupação com os possíveis estragos que uma investigação parlamentar poderia causar a uma empresa responsável por mais de US$ 100 bilhões no período 2008-2012.

Para instalar uma CPI no Senado, são necessárias 27 assinaturas. De acordo com o senador da base do governo, Tuma já dispõe de oito além do número mínimo. A intenção, segundo o parlamentar, seria investigar os contratos de construção das plataformas P-52 e P-54 e a licitação para construção dos petroleiros da Transpetro, além da aquisição da Suzano Petroquímica por US$ 1 bilhão acima do valor de mercado.

Para consumo externo, Tuma argumenta que a CPI teria por objetivo aumentar a transparência dos negócios da companhia. No seio do Senado, no entanto, não esconde o objetivo de emplacar o ex-deputado Róbson Tuma, seu filho, para algum cargo em estatais. O senador já emplacou o filho mais velho, Romeu Tuma Júnior (PPS-SP), para a Secretaria Nacional de Justiça. De acordo com senadores da base do governo, pretende usar a influência junto ao presidente Lula para ajudar o outro filho, que se encontra sem mandato.

A favor do governo pesa o fato de Tuma ter sacramentado, no início da semana, sua ida para um partido da base aliada (PMDB). Tanto que o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que assinou o pedido, não esconde a preocupação com o destino do requerimento de abertura. O problema, lembra Torres, é que as assinaturas pertencem ao parlamentar, e não ao partido. Dessa forma, caberá a Tuma dar seguimento à CPI.

Tuma foi procurado pelo JB, mas até o fechamento desta edição não havia sido encontrado.

Um senador da ala governista pondera que a entrada no partido aliado de Lula não representa, no entanto, um compromisso de alinhamento irrestrito com o governo, haja vista o papel do partido nas últimas votações de interesse do Planalto no Senado.

- O compromisso com interesses particulares e paroquiais fala mais alto, nessas horas, do que a filiação partidária - argumenta o parlamentar, ao lembrar que a CPI representa mais um elemento de pressão da coalizão de descontentes com o governo por cargos na própria Petrobras.

Esse novo elemento surge no momento em que parece prevalecer a posição da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, na disputa pelos cargos. De acordo com interlocutores da ministra, nos últimos dias, teriam se fortalecido as posições dos diretores de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, e da Área Internacional, Nestor Cerveró, os principais alvos do PMDB da Câmara. Segundo esses interlocutores, tanto Costa quanto Cerveró não devem mais deixar seus postos, respectivamente, para Alan Kardec, ex-gerente de Abastecimento, e José Augusto Fernandes, apadrinhado do presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP).

Impostaço deprimente

por Denis Rosenfield, site Diego Casagrande
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A movimentação dos políticos, em torno da renovação da CPMF e do "impostaço" da governadora Yeda Crusius, é propriamente deprimente. Convicções são abandonadas, coerências jogadas no lixo e contorcionismos verbais, que beiram ao cinismo, tomam o seu lugar. Partidos e parlamentares, com as exceções de praxe, defendem em Brasília o que criticam aqui. Outros defendem aqui o que criticam em Brasília, como se os eleitores fossem idiotas que devessem presenciar com seriedade esse espetáculo. Ele é, na verdade, tragicômico.
O Rio Grande do Sul é reconhecido nacionalmente como um estado sério, em que a política é feita de outra maneira. Até isto está se perdendo. A desonestidade imperante em muitos estados da União não ocorreria entre nós, em todo caso não da mesma maneira ou na mesma intensidade. Há um ano atrás, o estado deu um exemplo para todo o país, com um grande pacto, o Pacto pelo Rio Grande, que resgataria o futuro a partir de uma reforma profunda do presente, baseada no corte dos gastos do Estado, numa gestão eficiente e no não aumento de impostos. Governos anteriores já tinham recorrido a esse expediente – e outros – sem nada mudar no quadro geral. Uma outra alternativa se esboçava no horizonte.

Políticos e partidos compareceram em massa. O auditório Dante Barrone, da Assembléia Legislativa, ficou abarrotado, numa bela cerimônia, em que protagonistas atuais se comprometeram solenemente com essa nova idéia. Ora, os mesmos protagonistas são, agora, os agentes de destruição do Pacto, propondo e justificando um "impostaço", que nada tem a ver com o Pacto pelo Rio Grande, nem, muito menos, com promessas e engajamentos de campanha. Alguns, ao arrepio de qualquer verdade, e sem ficar vermelhos, chegaram a dizer que as medidas do atual governo gaúcho eram coerentes com o Pacto. Deveriam morder a língua, quando mais não seja pela honra que os gaúchos têm com a palavra dada!

Tomemos dois exemplos: o PT e o PSDB. O PT, quando no governo estadual, tentou o seu próprio aumento de impostos e foi barrado na Assembléia Legislativa. Como costuma ocorrer com esse partido, ele está sempre reinventando a roda. Aumento de imposto foi chamado "mudança de matriz tributária", como se os incautos não estivessem vendo a mesma roda que tantas vezes passou diante deles. Depois, no governo federal, continuaram aumentando os impostos, que já tinham tido um incremento brutal no governo tucano. Agora, pretendem continuar extorquindo o bolso dos brasileiros, renovando a CPMF, para melhor mascarar a sua ineficiência administrativa e os cargos para os "companheiros". No estado, sem ruborecer, são contra o "impostaço" tucano que defenderam no governo estadual e defendem no nível federal.
Os tucanos, no governo federal, foram diretamente responsáveis por um dos maiores aumentos tributários da história republicana. Num certo sentido, pode-se dizer que os petistas pegaram carona. Agora, são críticos em relação à mesma renovação da CPMF que criaram. No nível estadual, posicionaram-se contra o "tarifaço" do governo Rigotto e contra a tentativa de Olívio Dutra. Yeda Crusius ganha as eleições baseada na idéia de um novo jeito de governar, que excluía peremptoriamente um aumento de impostos. No exercício do governo, propõe um aumento da carga tributária maior do que fizeram respectivamente os governos Britto e Rigotto. Retrospectivamente, o "tarifaço" deste último chega a parecer brincadeira.

Surpreende, no entanto, a pouca reação da sociedade. No governo anterior, houve uma grande mobilização das federações empresariais, com repercussões intensas nos meios de comunicação. As pessoas estavam mobilizadas. Agora, a reação parece mais bem protocolar, uma forma de manter a coerência, sem muita exposição midiática. Os exemplos do PT e do PSDB não devem evidentemente ser seguidos. Os protagonistas sociais têm uma missão a cumprir e esta consiste em verbalizar os anseios de uma sociedade, que encontra problemas na representação política. Cabe às federações, associações e sindicatos erguer a voz, pois ela é a condição mesma de redução da voracidade tributária estatal.
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* Denis Rosenfield é filósofo, doutor pela Universidade Paris I

Capitão Nascimento bate no Bonde do Foucault

Reinaldo Azevedo, Revista VEJA

Nunca antes neste país um produto cultural foi objeto de cerco tão covarde como Tropa de Elite, o filme do diretor José Padilha. Os donos dos morros dos cadernos de cultura dos jornais, investidos do papel de aiatolás das utopias permitidas, resolveram incinerá-lo antes que fosse lançado e emitiram a sua fatwa, a sua sentença: "Ele é reacionário e precisa ser destruído". Num programa de TV, um careca, com barba e óculos inteligentes, índices que denunciam um "inteliquitual", sotaque inequívoco de amigo do povo, advertia: "A mensagem é perigosa". Outro, olhar esgazeado, sintaxe trêmula, sonhava: a solução é "descriminar as drogas". E houve quem não resistisse, cravando a palavra mágica: "É de direita". Nem chegaram a dizer se o filme – que é entretenimento, não tratado de sociologia – é bom ou não.

Seqüestrado pelo Bonde do Foucault (já explico o que é isso), Padilha foi libertado pelo povo. A pirataria transformou seu filme num fenômeno. A esquerda intelectual, organizada em bando para assaltar a reputação alheia (como de hábito), já não podia fazer mais nada. Pouco importava o que dissesse ou escrevesse, o filme era um sucesso. Derrotada, restou-lhe arrancar, como veremos, do indivíduo Padilha o que o cineasta Padilha não confessou. Por que tanta fúria? A resposta é simples: Tropa de Elite comete a ousadia de propor um dilema moral e de oferecer uma resposta. Em tempos de triunfo do analfabetismo também moral, é uma ofensa grave.

Qual dilema? Não há como ressuscitar o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), mas podemos consultar a sua obra e então indagar ao consumidor de droga: "Você só pratica ações que possam ser generalizadas?". Ou por outra: "Se todos, na sociedade, seguirem o seu exemplo, o Brasil será um bom lugar para viver?". O que o pensamento politicamente correto não suporta no Capitão Nascimento, o anti-herói com muito caráter, não é a sua truculência, mas a sua clareza; não é o seu defeito, mas a sua qualidade. Ele não padece de psicose dialética, uma brotoeja teórica que nasce na esquerda e que faz o bem brotar do mal, e o mal, do bem. Nascimento cultua é o bom paradoxo. Segue a máxima de Lúcio Flávio, um marginal lendário no Brasil, de tempos quase românticos: "Bandido é bandido, polícia é polícia".

A cena do filme já é famosa: numa incursão à favela, o Bope mata um traficante. No grupo de marginais, há um "estudante". Aos safanões, Nascimento lhe pergunta, depois de enfiar a sua cara no abdômen estuporado do cadáver: "Quem matou esse cara?". Com medo, o rapaz engrola uns "não sei, não sei". Alguns tapas na cara depois, acaba respondendo: "Foram vocês". E ouve do capitão a resposta que mais irritou o Bonde do Foucault: "Não! Foi você, seu maconheiro". Nascimento, quem diria?, é um discípulo de Kant. Um pouco desastrado, mas é. A narrativa é sempre pontuada por sua voz em off. Num dado momento, ele faz uma indagação: "Quantas crianças nós vamos perder para o tráfico para que o playboy possa enrolar o seu baseado?".

O Bope que aparece no filme de Padilha é incorruptível, mas violento. O principal parceiro de Nascimento chega a desistir de uma ação porque não quer compactuar com seus métodos, que, fica claro, são ilegais. Trata-se de uma mentira torpe a acusação de que o filme faz a apologia da tortura. Ocorre que o ódio que a patrulha ideológica passou a devotar à obra não deriva daí. Isso é pretexto. O que os "playboys" do relativismo rejeitam é a evocação da responsabilidade dos consumidores de droga na tragédia social brasileira. Nascimento invadiu a praia do Posto 9, em Ipanema.

Já empreguei duas vezes a expressão "Bonde do Foucault" para me referir à quadrilha ideológica que tentou pôr um saco da verdade na cabeça de Padilha: "Confesse que você é um reacionário". "Bonde", talvez vocês saibam, é como se chama, no Rio de Janeiro, a ação de bandidos quando decidem agir em conjunto para aterrorizar os cidadãos. Quem já viu Tropa de Elite sabe: faço alusão também a uma passagem em que universitários – alguns deles militantes de uma ONG e, de fato, aliados do tráfico – participam de uma aula-seminário sobre o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984). Falam sobre o livro Vigiar e Punir, em que o autor discorre sobre a evolução da legislação penal ao longo da história e caracteriza, de modo muito crítico, os métodos coercitivos e punitivos do estado.

No Brasil, os traficantes de idéias mortas são quase tão perigosos quanto os donos dos morros, como evidenciam nossos livros didáticos. Foucault sempre foi um incompreendido. Por que digo isso? Porque ele era ainda mais picareta do que seus críticos apontaram. No filme, aluna e professor fazem um pastiche de seu pensamento, e isso serve de pretexto para um severo ataque à polícia, abominada pelos bacanas como força de repressão a serviço do estado e suas injustiças. Sim, isso pode ser Foucault, mas Foucault era pior do que isso. Em Vigiar e Punir, ele fica a um passo de sugerir que o castigo físico é preferível às formas que entende veladas de repressão postas em prática pelo estado moderno. Lixo.

O personagem Matias, um policial que faz o curso de direito, é o elo entre o Capitão Nascimento, o kantiano rústico, e esse núcleo universitário. A seqüência em que essas duas éticas se confrontam desmoraliza o discurso progressista sobre as drogas e revela não a convivência entre as diferenças, mas a conivência com o crime de uma franja da sociedade que pretende, a um só tempo, ser beneficiária de todas as vantagens do estado de direito e de todas as transgressões da delinqüência. Por isso o "Bonde do Foucault" da imprensa tentou fazer um arrastão ideológico contra Tropa de Elite. Quem consome droga ilícita põe uma arma na mão de uma criança. É simples. É fato. É objetivo. Cheirar ou não cheirar é uma questão individual, moral, mas é também uma questão ética, voltada para o coletivo: em qual sociedade o consumidor de drogas escolheu viver? Posso assegurar: não há livro de Foucault que nos ajude a responder.

Derrotada, a elite da tropa esquerdopata não desistiu. José Padilha e o ator Wagner Moura foram convocados a ir além de suas sandálias. Assim como um juiz só fala nos autos, a voz que importa de um artista é a que está em seu trabalho. Ocorre que era preciso uma reparação. A opinião de ambos – ligeira e mal pensada – favorável à descriminação das drogas ameaçou, num dado momento, sobrepor-se ao próprio filme. Observem: Tropa de Elite trata é da falência de um sistema de segurança em que, segundo Nascimento, um policial "ou se corrompe, ou se omite, ou vai para a guerra".

A falha desse sistema independe do crime que ele é chamado a reprimir. Se as drogas forem liberadas e aquela falha permanecer, os maus policiais encontrarão outras formas de extorsão e associação com o crime. E esse me parece um aspecto importante do filme, que tem sido negligenciado. Um dos lemas da tropa é "No Bope tem guerreiros que acreditam no Brasil". Esse patriotismo ingênuo e retórico tem fôlego curto: um dos soldados da equipe morre, e seu caixão está coberto com a bandeira brasileira. Solene e desafiador, Nascimento chega ao velório e joga sobre o "auriverde pendão da esperança" a assustadora bandeira do Bope: um crânio fincado por uma espada, atrás do qual se cruzam duas pistolas. Outro dos refrões do grupo pergunta e responde: "Homem de preto, qual é sua missão? / Entrar na favela e deixar corpo no chão / Homem de preto, o que é que você faz? / Eu faço coisas que assustam satanás". Resta evidente que o filme não propõe este Bope como modelo de polícia.

Pouco me importa o que pensam Padilha e Moura. O que interessa é o filme. E o filme submete a um justo ridículo a sociologia vagabunda que tenta ver a polícia e o bandido como lados opostos (às vezes unidos), mas de idêntica legitimidade, de um conflito inerente ao estado burguês. O kantiano rústico "pegou geral" o Bonde do Foucault

A inovação que faz falta ao governo

Gustavo H. B. Franco, Revista ÉPOCA

Na semana que passou, o presidente Lula nos explicou o que significa “choque de gestão”, a ministra Dilma reabilitou o “empresário schumpeteriano” e a bolsa de valores no dia seguinte subiu, parecendo ignorar a suposta crise das hipotecas americanas e oferecendo uma indicação de que as referidas autoridades estão cobertas de razão, ou então de que essas idéias – erradas ou muito erradas – não têm mesmo a menor importância.As palavras e os conceitos parecem vítimas inocentes de balas perdidas de um debate ideológico já terminado. O capitalismo venceu, e o socialismo foi uma catástrofe, ao contrário do que dizem os livros didáticos que o governo distribui.

Talvez por isso se diga que, no Brasil, a História é lenta. As autoridades parecem sempre se equilibrar entre um passado idealizado, um “futuro do pretérito” e um presente de onde não podem escapar.

O presidente e a ministra não defendem as idéias perdedoras, descontadas lambugens atiradas na direção de uma angustiada militância. Pelo contrário, alinham-se ao “choque de gestão”, à eficiência da máquina pública, ao capitalismo e às empresas. E contra essa bobagem de reestatizar a Vale do Rio Doce.

Pode haver certo contorcionismo retórico nessas manifestações, como as imortalizadas pelo Grande Irmão no 1984 orwelliano, onde o dicionário também trabalhava para o governo. Com efeito, o significado das palavras tem a ver com os usos e costumes do passado. Mas, como a história começou em 2003, o dicionário vai sendo refeito.

O verbete clientelismo, por exemplo, caiu em desuso, de tal sorte que todos os atos antigamente pertinentes a essa acepção passam a ser designados, a partir desta semana, como “choque de gestão”. Quem lê apenas as manchetes verá que o presidente é pelo “choque de gestão” e está, por conseguinte, a favor dos ventos neoliberais globalizantes.

No assunto do empresário “schumpeteriano”, saiba o leitor que a ministra alude a Joseph Alois Schumpeter (1883-1950), célebre economista austríaco, ex-ministro das Finanças de seu país durante a hiperinflação (1919-1920), depois professor na Alemanha e emigrado para Harvard, onde se estabeleceu em 1932. Notabilizou-se pelo estudo da inovação como mola mestra do capitalismo.

A ministra merece aplausos, pois não está citando Gramsci, nem Rosa Luxemburgo, Hilferding, ou outro economista marxista esquecido, obsoleto e irrelevante. Candidamente, ela reconhece:

– Não é simples ter uma burguesia nacional.Empresários o Brasil tem. Só é preciso que haja reformas que melhorem o clima para os negócios

É louvável o genuíno empenho em compreender o admirável mundo novo, embora com as ferramentas erradas. Schumpeter é um bom começo, embora haja um bom par de coisas a observar sobre o “muso” da área de História do Negócio da Harvard Business School, o pior dos antros formadores de quadros para o capitalismo globalizante.

A primeira é que a inovação vem principalmente por meio de reformas que alteram aspectos institucionais importantes da vida econômica. Não está faltando empresário schumpeteriano no Brasil, mas governo inovador que implemente reformas para melhorar o clima de negócios, onde nossa posição nos “rankings” internacionais só faz piorar.

A segunda é mais básica e, com algum exagero, proposital: não existe mais burguesia. Quem tem os “meios de produção” são os fundos de pensão, expressão fiduciária da classe operária. O empreendedor inovador se institucionalizou em divisões de pesquisa e desenvolvimento e tem o apoio da indústria do capital de risco. Não vamos esquecer uma lição do próprio Marx: o capital não é uma pessoa, é uma relação social, tal qual o “empresário schumpeteriano”. Ao personalizar essa figura, corremos o risco de criar o “empresário chapa branca”, uma distorção que está para a inovação assim como o clientelismo está para o “choque de gestão”.

Viva o lucro!

João Mellão Neto, Estadão

Com a realização do leilão para a concessão de exploração das rodovias federais à iniciativa privada, o governo Lula finalmente se rende à tese - tão contrária ao pensamento esquerdista - de que o Estado não pode tudo e, por conseqüência, de que ao Estado não cabe tudo.

Os intelectuais petistas sempre fizeram questão de retratar os liberais (ou neoliberais) como autênticos vendilhões da Pátria. Na condição de liberal convicto, posso afiançar que essa nunca foi a nossa bandeira. Nós não pugnamos pelo fim do Estado (essa é a tese do anarquismo), tampouco queremos um Estado mínimo (há papéis na sociedade que somente o Estado pode exercer) e muito menos desejamos um Estado fraco. Para que o capitalismo funcione eficientemente é necessário um Estado enérgico, que faça cumprir as regras do jogo. Quando isso não ocorre, o mercado se deixa tomar pela autofagia, a livre concorrência deixa de existir e, com isso, o próprio segredo do sucesso do sistema vira uma farsa. Um capitalismo forte não pode abrir mão de um Estado forte, que, tal como um árbitro esportivo, zela para que o jogo transcorra dentro das normas estabelecidas.

O Estado mínimo, ou mesmo inapetente, para os liberais esclarecidos, também é uma utopia irresponsável. O Estado, pela sua natureza impessoal, é o único ente da sociedade em condições de exercer, exclusivamente, serviços fundamentais como justiça e segurança e, em grande parte, educação e saúde.

Um Estado forte, que cumpra, com desvelo e eficiência, essas funções básicas, é, a nosso ver, o Estado ideal. Todo o resto pode e deve ser feito pelos indivíduos, que são livres e soberanos, e, no campo econômico, pela iniciativa privada.O pensamento esquerdista tem por vício descredenciar a iniciativa privada porque ela, à diferença do Estado, visa o lucro. Eu responderia: ainda bem que é assim. Quem procura ter lucro usa de todo o seu empenho e engenhosidade para cada vez produzir mais, a um custo sempre menor. Não pode explorar os seus clientes nem descuidar da qualidade dos produtos ou serviços que fornece, porque sabe que, se assim for, será devorada pelos seus concorrentes. O Estado, que não enfrenta concorrência, não tem preocupações desse naipe. Assim sendo, fatalmente acabará por ser menos eficiente, ofertando produtos e serviços mais caros e de menor qualidade.

No caso presente - o da privatização da administração das rodovias federais -, todas as empresas e os consórcios que se apresentaram para o leilão, obviamente, não o fizeram por mero civismo ou desprendimento. Todos esperam ter grandes lucros. Fica no ar a pergunta: que importância tem isso? O Estado não tem recursos para manter essas rodovias e, mesmo que tivesse, deveria aplicar esses recursos em áreas mais carentes e fundamentais. Mesmo que o Estado opte por manter tais rodovias sob administração pública, ele jamais lograria fazê-lo com o mesmos custos, padrão de qualidade e excelência de serviços alcançados pela iniciativa privada. Além disso, há um contrato minucioso, assinado entre o poder público e as empresas, estabelecendo, em detalhes, quais os padrões mínimos de serviços exigidos e que grau de qualidade deverão apresentar as rodovias, uma vez nas mãos de particulares. Com toda a certeza, com lucro e tudo, o custo da manutenção dessas rodovias será substancialmente menor do que aquele em que incorreria o Estado se as administrasse diretamente.

Nossa herança ibérica e católica faz o lucro ser algo moralmente condenável. Boa parte dos nossos intelectuais ainda sofre influência desse preconceito. Os anglo-saxônicos, em sua maioria protestantes, não sofrem com dilemas éticos quanto a isso. Essa é uma das razões principais por que o capitalismo se pôde desenvolver com muito mais exuberância na Europa e, em particular, nos Estados Unidos. Max Weber, no livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - considerado pelos especialistas a obra mais importante do século 20 -, descreve de forma sucinta e brilhante essa condição.

Em que me incomoda o fato de saber que o empresário fulano está lucrando rios de dinheiro com a concessão de uma rodovia, ou qualquer outro patrimônio pertencente ao Estado? O que importa, de fato, é que o bem público está sendo bem administrado, apresenta excelentes condições de uso e o preço de sua utilização está saindo mais em conta do que se ele fosse gerido diretamente pelo Estado. O empresário pode enriquecer à vontade. Isso não provoca em mim inveja, revolta ou qualquer outro sentimento de ordem negativa. O que me interessa, isso sim, é se o contrato entre ele e o poder público foi elaborado de forma imparcial e se ele, empresário, o está cumprindo à risca. Assim fica bom para todos: para os usuários, para o Estado e para o empreendedor.Urge que nós abandonemos de vez os nossos conceitos negativos quanto ao lucro. O lucro, em si, não é uma coisa ruim. Ao contrário, é a mola propulsora que faz a economia se desenvolver. Sem a perspectiva de obtê-lo, ninguém empenharia o melhor de si em nenhum empreendimento; ninguém aplicaria esforço em seu trabalho; ninguém se valeria de seus talentos, aptidões e engenho na busca de nada.

Muitas outras áreas da administração pública poderiam ser privatizadas e todos ganhariam com isso. Mas se faz necessário, antes de tudo, abolir os enormes equívocos e preconceitos que ainda existem, neste governo, com relação à livre iniciativa.

Viva, portanto, o lucro! Desde que obtido por meios honestos, sem lesar ou prejudicar ninguém, nem à custa de privilégios espúrios concedidos pelo Estado, é ele, enfim, a causa maior do progresso e da riqueza das nações.
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João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi deputado federal, secretário e ministro de Estado

Cai Renan Calheiros

Editorial Folha de São Paulo

Senador sai de um cargo que já não tinha como exercer; episódio deixa rastro de desmoralização na política brasileira

ENFIM. Um Renan Calheiros abatido anunciou, na noite de ontem, a decisão de licenciar-se da presidência do Senado. Não era outra a expectativa da opinião pública -e, nos últimos tempos, a dos próprios senadores da base governista-, depois de assistir a tão longo processo de desgaste.
Teria sido mais simples, pode-se pensar agora, se Renan Calheiros tivesse resolvido afastar-se do cargo tão logo surgiram as primeiras denúncias a seu respeito. Apostou, entretanto, na conivência de seus pares, na própria capacidade de intimidar os adversários mais renitentes, e nas condições de manipulação que o cargo lhe oferecia.

Deve-se notar que a aposta, a princípio, não teria como lhe parecer equivocada. Foi a maioria dos senadores, em votação secreta, quem lhe deu respaldo para continuar no poder. A indignação da sociedade diante daquele veredicto não teve nenhum impacto sobre seu comportamento.

Num efeito paradoxal, a confiança de Renan Calheiros nos próprios métodos crescia na medida mesma em que se acumulavam novas denúncias contra seu nome. Enquanto alguns de seus aliados do Partido dos Trabalhadores tentavam pateticamente salvar a própria imagem do estrago causado pela farsa da absolvição sigilosa, o presidente do Senado retirou daquele episódio mais forças -e mais certeza de impunidade- para enfrentar as sucessivas revelações a seu respeito. A impunidade não era, contudo, sinônimo de poder.

De certo ponto de vista, em todo o caso Renan Calheiros deu-se como que o enfrentamento entre dois modos de se encarar a política. Ou se trata de um jogo corporativo, em que lobistas, laranjas, parentes e correligionários se articulam para manter-se no usufruto do poder, ou se trata de uma atividade de representação pública dos diferentes interesses da sociedade, na qual todo parlamentar ou governante está forçado, permanentemente, a prestar contas de seus atos.
A última denúncia envolvendo o senador Renan Calheiros -a de que teria articulado um virtual mecanismo de espionagem contra dois de seus adversários no Congresso Nacional- parece simbolizar, tanto quanto a sessão secreta de que saiu absolvido, o predomínio daquela concepção sombria, anti-republicana e arcaica de se fazer política.

Seria injustificável otimismo considerar, porém, que o afastamento de Renan Calheiros represente uma conquista no que tange à modernidade e à transparência institucional no país. Ao contrário, se alguma lição resulta do caso, foi a da extrema resistência da maioria do Senado diante das pressões da opinião pública. Para que Renan caísse, foi necessário que sua presença passasse a ser vista, por alguns senadores, como fonte de ameaça e de chantagem; e, pelo Planalto, como fonte de distúrbios na aprovação da CPMF.Renan Calheiros afasta-se de um cargo que já não tinha como exercer; o rastro de desmoralização que todo o episódio deixa na política brasileira, entretanto, não desaparece com ele.

Votando no capitão

Olavo de Carvalho, filósofo, Jornal do Brasil

Quem quer que tenha acompanhado as minhas aulas sobre a "teoria dos quatro discursos" - e, graças à internet, é um bocado de gente, a esta altura - sabe que uma das principais dificuldades na arte da palavra é a mudança de clave do discurso poético para o retórico. Ninguém faz isso direito, porque a primeira das duas modalidades está focalizada na exteriorização de percepções íntimas, a segunda no manejo deliberado das reações do ouvinte ou leitor.

Expressão é uma coisa, persuasão é outra. Nos dois casos, trata-se de criar uma verossimilhança, mas a verossimilhança poética é pura coerência entre imagens, a retórica, um acordo bem dosado entre o que você quer dizer e o que o público quer ouvir. Por isso o discurso poético se dirige a um auditório geral e indefinido, abrindo-se à multiplicidade imprevisível das interpretações que lhe dêem, ao passo que o retórico se dirige a uma platéia em particular, permanecendo ineficaz sobre as demais, exceto se ouvido como mera produção poética, desligada dos fins práticos a que visava originalmente.

Daí o fenômeno, tão repetidamente comprovado, de que o artista narrador, seja no romance, no teatro ou no cinema, não tenha controle quase nenhum sobre o sentido político-ideológico da história que narra, o qual sentido não depende da narrativa em si, mas dos fatos do mundo exterior - remotos e fora do alcance do artista - a que a platéia associe os episódios narrados, fazendo destes o símbolo daqueles.

Gênios do porte de um Stendhal ou de um Balzac não venceram essa dificuldade - por que deveríamos exigi-lo dos nossos miúdos cineastas tupiniquins? Todos eles são mais comunistas que a peste, mas isso não impediu que em Central do Brasil o menino perdido, fugindo do inferno urbano, encontrasse no Brasil rural os antigos valores que são a essência mesma do conservadorismo: a família, a religião, a segurança, o amor ao próximo. Nem que Cidade de Deus resultasse numa apologia do que pode haver de mais reacionário e pequeno-burguês: subir na vida por meio do trabalho honesto.

Agora, José Padilha é crucificado pela esquerda porque em Tropa de elite, pela primeira vez, o cinema nacional mostra a violência carioca pelo ponto de vista da polícia, que é o dos cidadãos comuns, e não pelo dos bandidos, que é o da classe artística, dos "formadores de opinião" e do beautiful people esquerdista em geral. Padilha não fez isso porque queria, mas porque, tendo optado por uma narrativa realista, teve de ceder à coerência interna entre os vários elementos factuais em jogo, mostrando as coisas como elas aparecem aos olhos de qualquer pessoa que esteja boa da cabeça e não tenha se intoxicado nem de cocaína nem de Michel Foucault - como o fazem aqueles três grupos de criaturas maravilhosas. O resultado é que no seu filme os traficantes são assassinos sanguinários, os policiais corruptos são policiais corruptos, os policiais bons são homens honestos à beira de um ataque de nervos, os estudantes esquerdistas metidos a salvadores do país são clientes que alimentam o narcotráfico e mantêm o país na m...

Todo mundo sabe que a vida é assim, e é por isso que instintivamente todo mundo acha que descer a mão em bandidos, por ilegal que seja, é incomparavelmente menos grave do que o imenso concurso de crimes - guerrilha urbana, homicídios, seqüestros, assaltos, contrabando, corrupção política - que o narcotráfico traz consigo. Daí que, entre as razões do policial idôneo e as da bandidagem - que são as mesmas da esquerda iluminada - o povo já tenha feito sua escolha: capitão Nascimento para presidente.

Livros escolares, professores e doutrinadores

Claudio Shikida, site Instituto Millenium
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Há uma música famosa do rock nacional cujo trecho mais famoso é: "ideologia, eu quero uma pra viver". O apelo não é estranho: muita gente não consegue viver sem uma visão de mundo que lhe dê conforto. Durante algum tempo, na Alemanha, o conforto de pertencer a uma raça superior ajudou muita gente a viver. Outros, claro, preferem a idéia de que sua religião é que salva e que os infiéis devem se converter ou morrer. Há, claro, aqueles que sinceramente acham que as necessidades de poucos devem ser ignoradas em prol da maioria, embora nunca digam que pretendem estar sempre ao lado da maioria.

Experimente conversar com seis amigos seus. Provavelmente terá seis opiniões distintas sobre como o mundo deveria funcionar. O ser humano tem um certo prazer em dizer aos outros como viver. Isto não é um problema quando se vive em uma sociedade descentralizada, isto é, na qual a concentração de poder é baixa. Entretanto, como repetem à exaustão alguns não-liberais, não vivemos em um mundo liberal. Não é preciso ser muito inteligente para se perceber que isto é um fato. Por isto é importante entendermos os diferentes graus de liberdade alcançados pelos países. A Freedom House e o The Fraser Institute, por exemplo, computam índices anuais de liberdades política e econômica respectivamente. Trata-se de uma forma de se entender melhor os benefícios da liberdade conforme a mesma se manifesta no mundo imperfeito e real em que vivemos.

Como nos lembra o blogueiro Bender, liberdade é a palavra-chave para muitos japoneses de Okinawa que, recentemente, protestam contra as tentativas do governo japonês de recontar a história da Segunda Guerra Mundial sob a ótica oficial. É também a palavra-chave de muito chinês sério que não gosta do massacre ideológico que seu governo impõe às suas crianças com livros de história totalmente distorcidos.

No Brasil, atualmente, há uma grande polêmica em torno dos livros didáticos. Polêmica, aliás, similar a esta citada anteriormente. Na blogosfera, por exemplo, a discussão não foi capaz de avançar muito. Há gente que chame o autor X de criminoso, outros acreditam que o autor Y é um descompromissado com a história. É engraçado como mal-intencionados e inocentes se degladiam em torno de uma questão secundária: tentar negar que há doutrinação deste ou daquele autor (ou "que tudo é relativo"). Há anos, qualquer adolescente com um mínimo de discernimento percebe que vários professores de História, com ou sem livros didáticos, buscam impor suas respectivas agendas ideológicas aos alunos por todo o país. Na época do governo militar, naturalmente, o discurso em sala de aula era marxista, socialista e comunista. Claro, nas universidades isto era mais contido por dois motivos: (i) acadêmicos de história são mais sérios no trato da disciplina do que professores de colégio, em média, e sabem que não existe apenas uma visão (normalmente a marxista) da história e (ii) acadêmicos eram vigiados por agentes do governo militar.

Em The Master Plan - Himmler's Scholars and the Holocaust, de Heather Pringle (obrigado, Cisco, pela dica deste ótimo livro), vemos como um jovem com um ideal usou e abusou de um discurso "científico" para avançar sua agenda política. Sim, poderia ser o Che Guevara, mas a história é escrita pelos vencedores. Logo, falo de Himmler. E qual a diferença de Himmler para o ministério da educação japonês ou chinês? Basicamente nenhuma. Todos eram ou são, oficialmente, portadores do monopólio da coerção sobre seu território geograficamente demarcado e reconhecido pelos tratados internacionais. Todos foram, de alguma forma, alçados à categoria de burocratas com poderes sobre a educação de crianças e adolescentes que um cidadão comum jamais sonharia em ter. Claro, a reação dos nativos de Okinawa recebe menos repressão do que a de um chinês - quem não se recorda de Tian An Men, nos anos 90? - ou de um judeu na Alemanha de Himmler, Göbbels, Röhm, Göring e Hitler. A diferença? O grau de liberdade de cada sociedade.

O problema da doutrinação não está no indivíduo que professa tal ou qual crença. Ele pode ser um nazista ou um socialista. Ou um liberal. Mas o que não vale é ele ter o poder de impor sua visão de mundo sobre os outros. Aliás, dentre nazistas, socialistas e liberais, apenas os últimos acreditam que a não-imposição de valores é o caminho para a prosperidade da sociedade. Assim, o problema está no excessivo poder do governo. Não há um único motivo teoricamente consistente, compatível com uma sociedade na qual haja liberdade de pensamento, que justifique a imposição de uma única visão da história por parte de um governo sobre sua população.

Percebeu? O problema está no governo hipertrofiado. Um governo que não cuida do jardim, mas que deseja decidir que sementes plantar e onde. Um governo obeso, tão presente nos elogios dos intelectuais oficiais da América Latina em pleno século XXI como panacéia para todos os males (lembre-se: os intelectuais estão, malandramente, sempre do lado dos "interesses da maioria"...). O governo excessivo é o problema, não a pluralidade de visões que encontramos em qualquer sociedade culturalmente vibrante.

Se você quer uma sociedade pluralista, que forneça às suas crianças e adolescentes o direito ao conhecimento das diversas visões da história, então você não tem escolha: deve lutar pela redução da coerção do governo sobre nós. Em outras palavras, você pode até não querer admitir, mas tem que ser liberal na sua visão de mundo.

Nordestinos votam pelo Bolsa Família

Jornal do Brasil

Deputados do Nordeste fizeram de tudo para não desagradar aos eleitores durante a votação que aprovou a prorrogação da CPMF até 2011. Beneficiária de mais da metade dos recursos do Bolsa Família, a região foi responsável por apenas 25 dos 113 votos contra o imposto do cheque, no segundo turno da Câmara concluído na madrugada de ontem. Outros 106 parlamentares nordestinos votaram a favor da cobrança até o fim do governo Lula. Houve uma abstenção e duas obstruções do DEM da região.

O resultado mostra que as ameaças de que o veto à CPMF seria um risco ao futuro do Bolsa Família surtiram efeito. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse reiteradas vezes, inclusive em audiência pública na Câmara, que o governo não teria dinheiro para manter os programas sociais no próximo ano sem a arrecadação de R$ 38 bilhões do imposto do cheque. Seria um tiro certeiro na região Nordeste, que neste ano recebeu R$ 2,5 bilhões, dos R$ 4,8 bilhões gastos com o Bolsa Família de janeiro a julho.

Ano passado, dos R$ 7,5 bilhões destinados ao programa, R$ 3,9 bilhões foram para o Nordeste. O Sudeste recebeu R$ 1,8 bilhão, o Norte, R$ 733 milhões, o Centro Oeste, R$ 351 milhões e o Sul, R$ 673 milhões.

O caso mais gritante de adesão à CPMF no Nordeste foi o do Ceará. Todos os 22 deputados do Estado votaram a favor do imposto, inclusive o tucano Manoel Salviano. Piauí e Alagoas também só registraram votos favoráveis à cobrança da contribuição sobre movimentações financeiras. No Rio Grande do Norte, foram quatro votos a favor e apenas um contra. O deputado Betinho Rosado (DEM), embora presente à sessão, se absteve.

O líder do PSDB na Câmara, deputado Antônio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), lamentou o resultado da votação. Mas não acredita que os parlamentares do Nordeste tenham votado a favor com medo da reação popular caso o Bolsa Família fosse eliminado. Não soube justificar, porém, a traição de Salviano.

- Não sei o que esse deputado está fazendo no PSDB. Sempre vota contra o partido - comentou Pannunzio. - Perdemos na Câmara porque a oposição é minoria acachapante. O equilíbrio de forças no Senado é maior. Os senadores de oposição não vão permitir a cobrança de um imposto que serve para sustentar os programas sociais que são a muleta eleitoral do governo.

Um truque usado pelos deputados de oposição que não queriam votar contra a CPMF, mas também não poderiam arcar com o ônus de desobedecer a orientação do partido, foi faltar à sessão. Foram registradas nove faltas entre parlamentares de oposição do Nordeste. Duas do PSDB e sete do Democratas.

A Bahia foi o Estado do Nordeste com o maior número de votos contra a CPMF. Ainda assim, foram apenas sete deputados pelo fim da cobrança do imposto, diante de 26 a favor. Faltaram à votação Cláudio Cajado (DEM), Fernando de Fabinho (DEM), Félix Mendonça (DEM), Lídice da Mata (PSB) e Roberto Britto (PP).

Em Pernambuco, seis deputados votaram contra a CPMF e 15 a favor. Um dos votos contrários ao governo veio, porém, de um parlamentar aliado. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), seguiu a orientação da entidade que representa.

Desde o início da discussão da CPMF, a CNI fez oposição branda ao imposto do cheque. Monteiro defendia a redução gradual da alíquota, indicando que, como deputado, votaria com a bancada do governo. Surpreendeu os aliados que contavam com mais esse voto. Um apoio que provou-se desnecessário. No apagar das luzes, a vitória foi mais fácil do que o governo esperava.

Chávez quer acabar com a propriedade privada

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, afirmou na noite de terça-feira que irá desmontar progressivamente o conceito da propriedade privada no país que, segundo ele, não tem lugar dentro de sua "revolução socialista do século XXI". Não foi a primeira vez que Chávez fez essa ameaça e, segundo analistas, não será a última.

Para o cientista político venezuelano Alfredo Ramos Jiménez, diretor do Centro de Investigação de Política Comparada da Universidade dos Andes, em Mérida, as constantes ameaças do presidente fazem parte de uma estratégia do governo para desviar a atenção do público da atual crise econômica pela qual o país está passando.

"O debate que Chávez está promovendo é uma cortina de fumaça para ocultar o fracasso econômico que está sendo seu governo", disse Ramos Jiménez. O analista venezuelano Alberto Garrido afirma que os anúncios de Chávez nunca significam medidas imediatas e causam sempre grande expectativa do que realmente se tornará concreto.

Ontem, Chávez participou do lançamento de seu "comando de campanha" para o referendo de 2 de dezembro sobre a reforma constitucional. Esse comando se encarregará de organizar "batalhões de revolucionários" que terão como dever explicar o funcionamento do referendo e motivar os eleitores a votarem.

No referendo que aprovou a atual Constituição Bolivariana, de 1999, o índice de abstenção chegou a 56%. Durante a cerimônia, o presidente assegurou que sua proposta de reforma de 33 dos 350 artigos da Constituição estabelece a socialização dos meios de produção, da propriedade pessoal, da familiar, a pequena propriedade privada e a pequena e média empresa.

"Não queremos a empresa privada com o objetivo de acumular riqueza às custas da miséria dos demais e vamos desmontá-la progressivamente", afirmou o presidente. "Queremos uma empresa que trabalhe em função do socialismo e dos interesses sociais, produzindo aquilo que é necessário para satisfazer as necessidades da comunidade".

Garrido afirma que a reforma constitucional de Chávez busca uma transição menos brusca do capitalismo para o socialismo dentro da Venezuela. "A Venezuela busca o socialismo, sem ser socialista". Chávez também disse que, atualmente, o socialismo garante a propriedade privada, pois dá ao cidadão moradia, roupas e tempo livre, o que, segundo ele, é negado no sistema capitalista.

Ramos Jiménez explica que a vontade de Chávez de acabar com a propriedade privada não é bem-recebida dentro da própria base política do líder venezuelano. "Muitos dos chavistas estão entre os novos ricos da Venezuela e são contra essa atitude de Chávez".

Segundo o analista, o governo venezuelano não está sabendo aproveitar a atual "bonança" petroleira - o país é o quinto exportador mundial de petróleo - e por isso, cria novas medidas usando o "socialismo do século XXI" como desculpa. Ramos Jiménez afirma que um exemplo recente dessa situação é o aumento anunciado pelo governo dos impostos sobre bebidas e cigarros programados para entrar em vigor semana que vem na Venezuela. "O governo necessita de recursos e usa esses impostos e o socialismo como desculpa".

Suíça reage à invasão bárbara do esquerdismo

por Aluízio Amorim , site Diego Casagrande
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Os esquerdismo e os politicamente corretos estão todos os dias nas ruas agitando e gritando slogans contra globalização. Antes, esses botocudos estavam confinados nos seus currais. Mas, graças à globalização, ao avião a jato inventado pelos norte-americanos, ao barateamento das passagens aéreas em decorrência da performance capitalística e da saudável concorrência imposta pela economia de mercado, os botocudos descobriram que podem usar tudo isso e estão emigrando aos milhares, principalmente para os Estados Unidos e Europa.
Os botocudos são originários da América Latina, da África, das Arábias e de todos os cantos mais atrasados do planeta. Normalmente, os botocudos são “de esquerda”, politicamente corretos, ecológicos, militantes, profissionais de protestos e passeatas e, claro, são contra o capitalismo.

Se você pensa que eles vão para Cuba, para a Venezuela, para a China ou para as Arábias, engana-se. Eles vão todos para os melhores e mais adiantados países capitalistas e liberais do mundo, como EUA, a Suíça, Alemanha e Inglaterra.

Ahá! Não deixam por menos! Sorry, periferia! Nada como o primeiro mundo! Dentre esses imigrantes estão também aqueles que professam essas religiões fundamentalistas. Chegando nesses países democráticos, liberais e tolerantes, querem dar o tom e passam a reivindicar direitos. Querem andar de véus e turbantes, criam verdadeiros guetos raciais e insistem em construir minaretes e mesquitas, no que são rechaçados, com razão, pela cultura dominante no respectivo país.

E sabe o que os politicamente corretos estão afirmando? Que é a mesma coisa que o nazismo, quando esse proibiu a construção de Sinagogas pelos judeus na Alemanha nazi. Mentira! Não é nada disso. Os judeus nunca professaram fundamentalismos e nunca arremessaram aviões contra prédios em outros países, nunca fizeram terrorismo. Trata-se de uma retórica falsa, deletéria e mentirosa.Na França, por exemplo, o país mais condescendente com os botocudos na Europa, sua população resolveu não dar mais colher de chá ao laxismo de socialistas e comunistas. Decidiu por um fim à esculhambação alimentada pelo esquerdismo com suas de greves e tumultos. Providencialmente, nas últimas eleições os franceses elegeram o liberal-conservador (ótimo! conservador e de direita, por que não?) Sarkozy que prometeu descer o sarrafo nos botocudos.

O que estava acontecendo na França, agora acontece na Suíça, um país liberal e democrático que se transformou numa espécie de meca dos botocudos de todos os quadrandes do planeta. Agora eles resolveram se rebelar contra as autoridades desse país e geraram um quebra-quebra recentemente em Berna, a capital suíça.

Se intitulam “ovelhas negras”, em contraposição à propaganda do Partido Popular Suíço (SVP), o maior partido de direita do país (ótimo!), membro majoritário da coalizão de governo. É que num cartaz de campanha do SVP há o desenho de uma ovelha branca dando um coice numa ovelha negra, simbolizando a preocupação dos nativos com a invasão botocuda. A baderna foi armada na praça do parlamento, Bundesplatz, quando o SVP se preparava para realizar um grande comício e foi atacado pelas “ovelhas negras”.

Não é sem razão que o SVP, em sua página na internet denuncia que os esquerdistas querem destruir a democracia. É isto aí, suíços. Se vocês derem moleza para os botocudos eles não vão apenas destruir a democracia, mas o próprio país. Mirem-se no exemplo brasileiro.Os baderneiros chocaram os suíços, acostumados à ordem e ao respeito à lei. Calcula-se que a investida botocuda dará mais votos ainda ao SVP nas eleições que estão marcadas para o próximo dia 21. Os políticos oposicionistas mais conseqüentes, os verdes e similares já estão tentando descolar a sua imagem dos botocudos baderneiros conforme assinala o noticiário internacional.

Pesquisa: palavras não envelhecem com o tempo

Tribuna da Imprensa

Estudo revela que quanto mais os vocábulos são usados, menos muda o som que os representa

Muitas coisas se desgastam com o uso, mas palavras definitivamente não estão na lista. Estudo envolvendo 87 línguas (incluindo português e "brasileiro"), com uma análise estatística cuidadosa do vocabulário de quatro - inglês, espanhol, russo e grego - mostra que quanto mais uma palavra é usada, menos o som que a representa muda, numa escala de milhares de anos.

Publicado na edição desta semana da revista Nature, o trabalho analisa a "taxa de mutação" de palavras cognatas - as que tem som e significado similares em diferentes idiomas - em línguas descendentes do indo-europeu, linguagem pré-histórica que deu origem à maior parte das línguas faladas no Ocidente e a alguns idiomas orientais, como o sânscrito.

A conclusão, que os autores do artigo comparam a uma "lei", é de que quanto mais uma combinação de som e significado é usada atualmente, menos ela terá mudado na evolução do indo-europeu até a sua forma atual, processo que pode ter levado de 6.000 a 10.000 anos.

O estudo sugere ainda uma "meia vida" para palavras - o intervalo de tempo em que um som tem 50% de chance de ser substituído por outro, não relacionado, para expressar o mesmo significado: 750 anos para as palavras menos usadas, e até 10.000 anos para as mais.

No gráfico de taxas de mutação, as palavras cognatas menos substituídas foram as que expressam números, como "dois" (média de 0,09 substituição em 10.000 anos) e pronomes, como "eu" (também 0,09).

Os autores do artigo, liderados por Mark Pagel, do Instituto Santa Fé (EUA) e da Universidade de Reading (Reino Unido) sugerem que as línguas têm um mecanismo de descendência com modificação semelhante ao do código genético. "Especulamos sobre dois mecanismos que podem explicar por que a taxa de modificação desacelera à medida que uma palavra é mais usada", diz Pagel. "Um é de que as palavras mais usadas são 'super-aprendidas', e assim há menos chance de errarmos ao usá-las".

Ele destaca que esses "erros" seriam as mutações sobre as quais a evolução lingüística atua. Outro mecanismo seria o fato de que erros em palavras de uso freqüente têm mais chance de serem corrigidos por outras pessoas. "Chamamos isso de 'seleção purificadora', e especulamos que pode ser esse o fator que mantém a integridade das palavras".

O cientista acredita que a analogia entre palavras e genes é profunda. "Algumas palavras evoluem mais devagar que muitos genes", afirma, citando a palavra para "dois" como exemplo - mudanças nela espalharam-se mais devagar, pela população de fala indo-européia, que o gene que permite que adultos digiram leite.

Pagel é cauteloso diante de tentativas de generalizar seu resultado - de que o uso constante fixa a forma - para outros campos da evolução cultural, como o dos costumes ou da religião. "Língua é apenas um som representando um significado, não é uma idéia. Não creio que possamos dizer que idéias evoluirão mais devagar se forem expressadas com maior freqüência - pode até ser que sim, mas não se pode dizer isso a partir dos nossos dados".

Se o uso de uma palavra faz com que ela mude pouco, e as palavras mais usadas são as mesmas há 10.000 anos, isso significa que a humanidade fala sobre os mesmos assuntos desde a pré-história? "Estamos usando as mesmas palavras, ou sons muito próximos, do que usávamos de 6.000 a 10.000 anos atrás", reconhece Pagel. "Mas uma língua pode produzir um número infinito de sentenças, então talvez seja assim que surgem novos assuntos: usando novas combinações de velhas palavras".