Adelson Elias Vasconcellos
Bem, vocês têm, na edição de hoje, algumas reportagens bastante interessantes para se tirar uma conclusão do que é prioridade para o governo, e do que não é. Ontem, comprovamos que, em que todo o discurso de Lula e Dilma, educação e saúde não são prioridades quando se olham as despesas atendidas nos últimos oito anos. Assim, os indicadores destas áreas, vitais para o desenvolvimento do país de forma saudável e sustentável, comprovam a afirmação que fazemos. Isto visto sob o ângulo deste governo. E, se olharmos para o que os próximos anos nos reservam em termos de investimentos, fica fácil.l concluir que: ou o governo eleva a arrecadação de impostos, ou eleva o endividamento do país, ou, uma terceira, via, a combinação de elevação da carga e do endividamento, para fazer frente a tudo o que está previsto..
As reportagens que trazem as informações sobre trem-bala, frota nuclear para a Marinha e usinas nucleares para o Nordeste, sem considerar os caças da FAB cuja opção de Lula se fixará na alternativa mais cara, demonstram que a megalomania de um país que parece nadar em dinheiro, com um povo totalmente feliz e com todas as suas necessidades básicas de sobrevivência plenamente atendidas, pode agora se dar ao luxo de investir no supérfluo e, até diria, na excentricidade.
Não sou contra a nenhum destes “enormes” projetos, desde que o dinheiro que eles irão consumir, não fizesse falta em áreas que, entendo, serem mais prioritárias como saúde, educação, segurança, transporte público, saneamento, moradia. Há poucos dias, postamos uma reportagem de Alexandre Garcia para o Bom Dia Brasil da Rede Globo, em que ele narrava as peripécias que os atendentes do Hospital de Base de Brasília precisavam fazer para darem conta das emergências. Faltam remédios básicos, gaze, esparadrapo. Isto porque é em Brasília, imaginem o estado precário dos hospitais públicos no Nordeste, sem falar nos do Rio de Janeiro.
O país sequer consegue fornecer saneamento à metade de sua população, mas sonha com trem bala, com frota nuclear e usinas nucleares! Vimos na reportagem da revista Veja e nas do Estadão, que o trem de alta velocidade remanejou seu custo inicial à metade, mágica somente possível graças ao truque de se retirar itens importantes e indispensáveis do edital de licitação, como a linha de transmissão, prevista ao custo de cerca de R$ 1,0 bilhão, sem falar nas despesas de contingências, exigência básica em obras deste vulto. Considerem aí, também, as acusações feitas pelo relatório do TCU quanto a preços subestimados. Mesmo assim, vá lá: confiemos que um acréscimo aqui outro ali, o trem tenha um custo final de R$ 35 bilhões de reais. Digam lá os especialistas em obras públicas no Brasil: qual obra que, no início teve um preço avaliado em X reais, e ao final, concluída, seu custo não tenha sido acrescido em pelo menos 50% ao seu valor original? Claro, estou me referindo a obras que tiveram começo, meio e fim sem interrupção, sem ficar pelo meio do caminho. Portanto, estimando-se por baixo, com muito otimismo MEEEESMOOOO, este trem bala não custará menos de seus R$ 50 bilhões. Adicionem aí a frota nuclear, as usinas nucleares, os caças que serão franceses, e os mais caros, e teremos ao final não menos do que R$ 100 bilhões . Ou seja, mais do que a soma de dois anos de todos os investimentos federais diretos somados. Pergunto: podemos nos dar a tamanho luxo, diante das carências vividas pela população brasileira, principalmente na área da saúde, educação, saneamento e segurança pública? Já nem vou me referir a infraestrutura que, fosse outra a tônica federal, e se poderia resolver o problema das estradas rodo -ferroviárias, afora os portos e aeroportos, contando-se com a parceira pública-privada, que não avança dado a politicagem de um lado, e a falta de segurança jurídica de outro, capaz de garantir retorno aos investimentos praticados pela iniciativa privada. O governo queima e torra dinheiro sem necessidade, mas sem o risco de falir, ao contrário do empresário, que não pode praticar desaforo com seu próprio dinheiro, porque senão quebra.
Sinceramente? Não acredito que o país vá tomar rumo nos próximos anos sob o comando de Dilma Rousseff. Entre o discurso da candidata eleita, e as ações que estão em curso, há uma enorme distância, diria até total contradição. Os objetivos que diz pretender para o país, não se ajustam ao figurino de um governo que não sabe escolher a prioridade necessária para investir o dinheiro do contribuinte. É puro delírio ou maluquice achar que torrando 100 bilhões em obras perfeitamente dispensáveis, pelo menos neste momento, o país irá melhorar seus indicadores sociais. Não é esse o caminho, pelo contrário.
Não é de hoje que digo que o governo Lula e, a se ver, a de sua pupila parece perseguir o mesmo rumo, cada dia mais se parece aos governos militares do período 1964-1985, fruto dos quais precisamos ficar estagnados por 25 anos com todos os malefícios sociais e cujos preços terríveis ainda estamos pagando. Por inúmeras vezes comentei que o script é o mesmo. Estamos requentando velhas fórmulas que sabemos não deram certo ontem, e nada nos garante que vá ser diferente em futuro próximo. Esta mania de grandeza de se construir castelos de areia com este espírito farisaico e sem limites, sem atentar para as reais dimensões dos recursos que se dispõem e das carências que requerem urgente atenção, levou-nos ao abismo de uma década e meia perdida. E, nem assim, parece termos aprendido a lição.
Imaginem este dinheiro investido adequadamente na saúde, moradia, transporte público, educação e saneamento! Que verdadeira revolução faríamos no país, de quanta felicidade encheríamos toda a nossa população. Claro, com um povo educado e saudável, aí sim é possível apostar e sonhar. Hoje, nas condições presentes, convenhamos, trata-se de uma aberração sem conta capaz de comprometer o esforço dispensado para alcançar o estágio atual de desenvolvimento que nos encontramos, além de praticar uma recaída dolorosa nas conquistas sociais atingidas. Dentre tantas oportunidades para crescer que o governo dispõe para escolher, optou, pelo que se vê, na do retrocesso. Porque não são, definitivamente, estes projetos que tornarão o povo brasileiro mais rico, mais saudável e mais educado. E é sempre bom lembrar: para se atingir este paraíso delirante, não poderemos contar com a locomotiva da economia mundial. Como sempre se diz: cautela e calda de galinha não fazem mal a ninguém. Assim, melhor faria o governo federal se descesse do pedestal em que se encontra, e tratasse de amenizar as dificuldades enfrentadas pelo povo diante dos indignos serviços públicos que oferece em troca do montante que retira na forma de impostos.




