quinta-feira, março 17, 2011

Diante da verdade não há discurso de Lula que resista.

Adelson Elias Vasconcellos
Durante a campanha eleitoral do ano passado,  publicamos uma série de artigos nos quais jogamos no lixo toda a parafernalia de mentiras contadas pelos petistas sobre o processo de privatização ocorrido no Brasil que, registre-se, teve início ainda no governo Sarney, ganhou certa normatização com Collor e foi levado a efeito com muita competência no governo FHC.

Mostramos números oficiais, portanto, irrefutáveis. Comprovamos não só a extrema necessidade que tínhamos para que o processo fosse conduzido nos termos em que se deu, bem como, os imensos benefícios para todo o país, advindos daquele processo.

Publicamos também artigos sobre o sucateamento da infraestrutura do país, e estatísticas sobre o estado miserável dos serviços públicos em plena era Lula.

Demonstramos também que, tanto a estabilidade econômica, quanto os programas sociais de redistribuição de renda, foram criados e implementados no governo FHC. Lula apenas ampliou de maneira irresponsável aqueles programas, rebatizando-os com o propósito único de se apropriar indevidamente da obra alheia.

O trabalho então realizado aqui no blog tinha por objetivo único mostrar que a verdade sobre nossa história recente, com todas as suas grandes conquistas, estava sendo deturpada e falseada por Lula e seu bando. Lula e o PT sequer participaram dos comícios das Diretas Já. Na Constituição de 1988, que marcou e selou definitivamente a retomada do regime democrático no país, sequer se encontra assinatura desta gente. Até pelo contrário: os três petistas que se insuflaram contra a determinação do partido, acabaram expulsos.

Durante os governos que se seguiram, os petistas agiram como predadores contumazes de qualquer política, programa ou ação de governo. Sabotaram todos os governos, principalmente, os programas sociais e o plano de estabilidade econômica conduzidos por FHC.

Ao assumir, Lula adotou como máxima, a do que nunca antes. Se algum alienígena chegasse ao Brasil a partir de 2003, e nos julgasse apenas pelo discurso de Lula, imaginaria que o país houvera sido descoberta em 2003 por Lula, e não em 1500 por Cabral.

Pois bem, recentemente, o professor de economia da UFRJ, Reinaldo Gonçalves, publicou um estudo sobre a renda dos brasileiros no período em que Lula reinou no Planalto. O resultado deste estudo está publicado no resumo postado abaixo. E ele é derradeiro: mostra que o país anterior a Lula, em alguns aspectos, foi até melhor do que aquele imaginado e desenhado na fantasia do ex. Mais: considerando apenas o crescimento do PIB, Lula conseguiu ser apenas o 19º melhor presidente da História. Isto serve para demonstrar o quanto foi competente a campanha de publicidade que tinha por meta transformar Lula num mito. Mas também serve para comprovar toda a sua falsidade.

Como bem destaca o professor Gonçalves na parte final de seu resumo, o governo Lula quanto a evolução da renda no Brasil se caracterizou por:

1) fraco desempenho pelos padrões históricos do país;
2) muito fraco desempenho quando comparado com outros presidentes;
3) retrocesso relativo;
4) país fortemente atingido pela crise global em 2009.

Isto ilustra e assevera de modo taxativo que um governo jamais deve ser visto e analisado pelos discursos do governante de plantão. O que importa, o que pesa e o que deve contar na hora de sua avaliação são apenas os resultados consequentes de sua ação de governar. E, neste sentido, Lula ficou devendo. Vejam lá as avaliações que hoje os brasileiros fazem sobre a qualidade dos serviços públicos, com a fatal conclusão de que o governo arrecada muito e gasta mal. Já por aí se pode, tranquiliamente, duvidar sobre a veracidade das pesquisas de aprovação do governo Lula.  

Mais recentemente ainda, demonstramos a evolução histórica do salário mínimo a partir de Fernando Henrique, comparado com a série histórica da tabela do imposto de renda na fonte, mais especificamente da faixa de isenção. Vimos que, FHC quando entregou o governo, a faixa de isenção do imposto ia até 5 salários mínimos. Desde que assumiu, Lula reduziu ano após ano esta isenção, caracterizando verdadeiro confisco sobre a faixa de menor salário dos trabalhadores. Isto também vai na contramão do discurso e da propaganda oficial que davam conta de que os trabalhadores só tiveram ganhos reais de salários a partir de Lula. Além do fato de que os aumentos reais tiveram início no governo FHC, o governo do “operário” foi carrasco ao tirar, de forma direta, grande parte destes ganhos via imposto de renda, e a tal ponto que hoje, com apenas 2,86 salários mínimos, o trabalhador já é tributado na fonte. É um acinte!

Portanto, está na hora das centrais sindicais também pararem com este discurso hipócrita em defesa de Lula. Os números oficiais estão aí para demonstrar que , na verdade, o “pai dos pobres” como se tenta alcunhar o senhor Luiz Inácio, jamais passou de mero carrasco dos trabalhadores. Não há discurso que resista à verdade. E esta passa longe do que se conta sobre o senhor Lula e seu governo. Quando muito Lula poderá ser pai é das centrais pelegas que infestam o país. A lei que assinou em favor delas dá bem o retrato de um país feito por muitos, mas para benefício de poucos.

Quanto ao recente reajuste mínimo do salário mínimo, em que o governo repôs apenas a inflação passada, sob a alegação de que não havia recursos para reajuste maior, que acima do índice considerado quebrariam as prefeituras e estouraria o já abalado e elevado déficit da Previdência Social, é preciso lembrar alguma coisinha que o governo de Dilma Presidente parece haver esquecido. Considerado o acordo firmado com as centrais, no próximo ano, em 2012, além da inflação, hoje em torno de 6%, haverá o acréscimo do crescimento do PIB em 2010, que cravou 7,5%. Somado tudo, o reajuste em 2012 será algo em torno de 12 a 14%, a depender da inflação que fechar o corrente ano. Ora, qual o milagre pretende o governo Dilma promover para, em menos de um ano, e sem comprometer o equilíbrio fiscal, arrumar recursos para bancar tamanho reajuste do salário mínimo? É preciso não esquecer que em 2012 teremos eleições, época em que a farra de gastos perde o controle. Contudo, e mesmo assim, bancar um índice como o que se prevê, obrigará o governo Dilma a cortar investimentos, manter os serviços públicos no estado de calamidade em que já se encontram e, claro, conceder o reajuste previsto, além de arrumar dinheiro para a farra das campanhas políticas que se realizarão.

Portanto, se alguém imagina que este país vai criar juízo em tão pouco tempo, é melhor esquecer. Não há discurso que resista a verdade. E a verdade é que o país terá que optar, de hoje a 2012, entre um projeto de país, em que a sociedade toda se beneficie, e um projeto de poder, em que apenas um grupo político, repleto de vigaristas e vagabundos, se locupleta mercê o sacrifício de toda a sociedade.

Evolução da renda no Governo Lula: Conclusões definitivas

Reinaldo Gonçalves (*)

A divulgação dos dados de evolução da renda do Brasil pelo IBGE, bem como a base de dados do FMI, já permitem algumas conclusões definitivas a respeito do desempenho da economia brasileira (renda) durante o governo Lula (2003-10).
Primeira conclusão: fraco desempenho pelos padrões históricos do país

O crescimento médio anual do PIB real é de 4,5% no governo Lula. Mais especificamente, 3,5% em 2003-06 e 4,5% em 2007-10. Mesmo no segundo mandato, a taxa alcançada não supera a média secular do país (1890-2010, período republicano) (4,5%). Portanto, o desempenho do governo Lula é fraco pelos padrões históricos brasileiros.

Segunda conclusão: muito fraco desempenho quando comparado com outros presidentes

Desde a proclamação da república o país teve 29 presidentes (Vargas teve dois mandatos separados temporalmente). Neste conjunto, Lula ocupa a 19ª posição quanto ao crescimento da renda, ou seja, 18 outros presidentes tiveram melhor desempenho.

Quando este conjunto é dividido em quatro grupos, Lula está no terceiro grupo.

De outra forma, pode-se afirmar que Lula teve o 11º pior desempenho no conjunto dos mandatos presidenciais.

Terceira conclusão: retrocesso relativo

No período 2003-10 três indicadores merecem destaque.

O primeiro é a participação do Brasil no PIB mundial. Usando os dados de paridade de poder de compra, verifica-se que não houve alteração, A participação média do Brasil em 2001-02 manteve-se a mesma em 2009-10 (2,90%).

O segundo indicador é a posição relativa do Brasil no ranking da economia mundial quando se considera a taxa de variação real do PIB no período 2003-10. O Brasil ocupa a 96ª posição no painel de 181 países. Ou seja, dividindo este conjunto em quatro grupos, o Brasil está no terceiro grupo. O crescimento médio anual do PIB do país (4,0%) está abaixo da média (4,4%) e da mediana (4,2%) do painel mundial.

O terceiro indicador é o PIB (PPP) per capita. Este indicador de renda para o Brasil aumentou de US$ 7.457 em 2001-02 para US$ 10.894 em 2009-10.

Entretanto, a posição do país no ranking mundial piorou. O país passou da 66ª posição para a 71ª posição. Ou seja, houve retrocesso relativo.

Quarta conclusão: país fortemente atingido pela crise global em 2009

A crise econômica de 2009 teve alcance global. O Brasil é um país marcado por forte vulnerabilidade externa estrutural. O passivo externo bruto ultrapassou US$ 1.292 bilhões em no final de 2010.1 No período 2003-10 houve reprimarização da economia brasileira, inclusive com significativo aumento do peso relativo das commodities nas exportações brasileiras. A maior participação do capital estrangeiro no aparelho produtivo também ocorreu no período em questão. A crescente liberalização financeira e o regime de câmbio flexível implicam maior instabilidade. O resultado é que a crise internacional atingiu fortemente o país em 2009. A queda do PIB real foi de 0,6%. No painel mundial o Brasil ocupa a 85ª posição. Dividindo este painel em quatro grupos, verifica-se que o país está no segundo grupo dos mais atingidos.

Ademais, a frágil posição brasileira é evidente quando se leva em conta que a taxa média (simples) e a mediana de variação do PIB do painel é de 0,1% e 0,2% respectivamente.

Em síntese, durante o governo Lula a evolução da renda do Brasil caracterizou-se por:

1) fraco desempenho pelos padrões históricos do país

2) muito fraco desempenho quando comparado com outros presidentes

3) retrocesso relativo

4) país fortemente atingido pela crise global em 2009.


(*) Email: reinaldogoncalves1@gmail.com
 

A renda desnudada

Roberto Freire – Brasil Econômico

O notabilizado professor de economia da UFRJ, Reinaldo Gonçalves, competente e meticuloso pesquisador que há muito vem se debruçando sobre nossa realidade econômica, bem como nossa inserção na globalização, em seu recente trabalho acadêmico, intitulado "Evolução da renda no governo Lula: cinco conclusões definitivas", toca em alguns pontos essenciais para uma melhor compreensão de seu governo, no que se relaciona a essa variável - renda.

Alimentada por uma fantástica máquina de propaganda, de 2003 a 2010, tendo como mote o bordão "nunca antes na história deste país", usado e abusado por nossos humoristas, o governo Lula alimentou a ilusão de que seria inovador, no que tange às práticas políticas, e modernizador de nossa economia.

Quanto ao primeiro tópico, o que inovou foi a forma desabrida de amealhar apoios, via uso de suborno a parlamentares, no que ficou conhecido como "mensalão".

E quando tal prática foi denunciada resultou na inevitável desmoralização política dos mais importantes quadros de seu partido e da "base", denunciados pelo Procurador Geral da república como quadrilheiros.

Desnudado em suas demagógicas jogadas políticas, usou todo o segundo mandato de seu governo para vender a ilusão de "crescimento fantástico" da economia e de uma distribuição de renda revolucionária. Vistos agora pela ótica de uma pesquisa percuciente, revela-se como uma fraude.

O primeiro aspecto salientado pelo professor Gonçalves é a falácia do crescimento do PIB como um dos maiores da República, quando a média do referido crescimento, nos dois mandatos não superou a média secular do país, 4,5%.

Outro aspecto relevante é a confirmação do retrocesso relativo da posição do país no conjunto da economia mundial, como pode ser inferido pela participação de nossa economia quando se considera a variação real do PIB de 2003 a 2010, no ranking mundial, onde ocupamos a 96ª entre 181 nações.

Se colocarmos a variável renda, o PIB per capita, perceberemos que efetivamente houve uma melhora na renda, saindo de uma renda de US$ 7.457 em 2001-2002, para US$ 10.894, em 2009-2010. No entanto nossa posição no ranking mundial piorou, saímos da posição 66ª para a 71ª.

Ou seja, o mundo enriqueceu a uma velocidade maior que a nossa, no período. Duramente atingido pela "marolinha" que varreu a economia mundial em 2008, nosso ajuste foi influenciado fundamentalmente pelo ciclo eleitoral de 2010, que ao expandir extraordinariamente o crédito e os gastos públicos.

Passadas as eleições o governo Dilma-Lula é confrontado com a "herança" do governo passado- e que o atual tem que calar-, tendo como conseqüência imediata a baixa das expectativas de crescimento para o período 2011-2014.

Em suma, estamos vivendo hoje, e viveremos amanhã, o resultado de um governo irresponsável, que no melhor período da economia mundial, ao invés de efetivar as reformas que o país tanto necessita, agiu como mero cabo eleitoral. E pior com a volta da inflação!

Sem espaço

Raul Velloso, O Globo

A expressiva vitória política do governo para conter o reajuste do salário mínimo dentro de certos limites não impedirá um forte impacto dessa decisão nas contas públicas de 2012. Ali, pela regra em vigor (inflação mais PIB real de dois anos antes), conceder-se-á um reajuste aproximado de 12%, muito acima da elevada inflação do ano precedente. Como conter a inflação nessas condições? Dada a estreita ligação existente entre o reajuste do salário mínimo e o orçamento federal (e, por aí, com o combate à inflação e controle da dívida pública), o ponto é que, no Brasil, a discussão do reajuste do mínimo é mais importante por esse motivo do que por questões dos mercados de trabalho. O Orçamento da União, que envolve parcela significativa da demanda agregada, se tornou, de fato, uma grande folha de transferências, e o grosso delas paga exatamente um salário mínimo.

Quando o mínimo aumenta, os empregadores podem reagir demitindo pessoas, caso seus negócios não comportem a acomodação dos novos níveis salariais. No orçamento público, contudo, não há como retirar pessoas que ganham um

salário mínimo da folha, e o número de recipientes, dadas as regras em vigor, sempre cresce. Sem entrar no mérito dos programas sociais, mas dada a altíssima carga tributária a que já chegamos, é de se concluir, pelas regras atuais, que o elo do mínimo com o orçamento se transformará em breve numa conta explosiva. Do ponto de vista fiscal, a política correta seria desatrelar o reajuste dos benefícios sociais do salário mínimo, garantindo-lhes apenas o que já está na Constituição, ou seja, seu valor real. Curiosamente, os atuais partidos de oposição, que, no passado, podem ter se batido por esse desatrelamento, desta feita queriam aprovar um reajuste absurdo.

Talvez isso se explique pelo grande número de pessoas envolvidas, basicamente eleitores. Em 2008, havia 27,4 milhões de contracheques de um salário mínimo (ou a ele ligados) no orçamento federal, sendo 16,3 milhões de benefícios do INSS; 3,5 milhões de benefícios assistenciais para idosos pobres e deficientes físicos, e 7,6 milhões de benefícios do abono salarial do PIS e do seguro-desemprego. Crescendo a 3% ao ano, o total aumentaria facilmente para 30 milhões este ano. Ou seja, se pensarmos em termos de duas pessoas sustentadas por cada contracheque, chega-se ao total de 60 milhões de prováveis eleitores envolvidos nesses programas em 2011. Penso que, por mais impopular que se afigure, a tese do desatrelamento precisa ser discutida com a sociedade brasileira.

Até porque o problema não fica só aí. Em 2008, havia, ainda, 7,3 milhões de beneficiários do INSS com ganhos acima de um salário mínimo onde o reajuste dos valores unitários aos poucos se aproxima do mesmo aumento do mínimo, embora a Constituição só garanta a reposição da inflação. E temos também 12,4 milhões de beneficiários no Bolsa-Família, tido como o mais eficiente de todos os programas assistenciais, mas cujos pagamentos individuais, pela tradição da área, em breve se aproximarão de um salário mínimo. (No setor de assistência social, a tradição é iniciar programas pagando apenas uma fração do mínimo, mas aos poucos ir aumentando os pagamentos unitários até chegar a um salário mínimo).

Somando tudo isso com os pagamentos a 2,1 milhões de servidores ativos, inativos e pensionistas, chega-se à grande olha federal de quase 50 milhões de pessoas em 2008 (folha total essa que pode facilmente abarcar 54 milhões de pessoas este ano), com valor global de R$ 487 bilhões no ano passado. Isso correspondeu a nada menos do que 74% do total do gasto não financeiro de 2010 (basicamente, três quartos do total). Algo que, convenhamos, é chocante.

Nessas condições, após adicionar a estimativa de R$ 71 bilhões de gastos obrigatórios em saúde e educação (sujeitos, respectivamente, a uma regra constitucional de crescimento mínimo, e à vinculação de receitas), sobram apenas R$ 100 bilhões do total efetivamente gasto em 2010 para os demais gastos. Ou seja, apenas 15% do gasto total efetivo de R$ 658 bilhões no ano passado, para distribuir com outros custeios (R$ 56 bilhões) e investimento (R$ 44 bilhões). Como parte das demais despesas correntes corresponde também a gastos obrigatórios (sentenças judiciais, por exemplo) e existe um nível mínimo de gastos em manutenção obviamente a realizar, a margem para discussão durante a aprovação da lei orçamentária no Congresso pode mal chegar a R$ 68 bilhões, incluídos os R$ 44 bilhões de investimentos.

Isso nos leva, finalmente, à discussão dos cortes de R$ 50 bilhões sobre a lei orçamentária de 2011, aprovada recentemente pelo Congresso. Mesmo que simplesmente se atualize o potencial cortável dos gastos de 2010 pela inflação esperada para 2011, é difícil acreditar na viabilidade de um corte nessa magnitude sem mudanças profundas na configuração do Orçamento federal brasileiro. Adicionando 5% aos R$ 68 bilhões acima indicados, chega-se a novo potencial cortável de R$ 71 bilhões. Em relação a essa parcela, o corte pretendido ficaria em cerca de 70%, algo obviamente de viabilidade pouco crível.

Reforma política: Reinvenção da roda!

Cantinho do humor: Cão com voz

O rapaz maranhense vai para os Estados Unidos para cursar uma escola de Direito (só podia ser!), mas já na metade do primeiro semestre acaba o dinheiro que o pai lhe deu. Aí ele tem uma idéia brilhante. Telefona ao pai e se sai com esta:

― Pai, você não pode acreditar nas maravilhas da moderna educação neste país. Pois não é que eles aqui têm um curso para ensinar os cachorros a falar?

O pai, coroné muito do ricaço, fica maravilhado:

― E como é que faço para que aceitem o Rex aqui de casa?

― É só mandar ele para cá com 50 mil dólares que eu faço a matrícula.

E o pai, claro, cai na conversa e segue a orientação do filho.

Passados mais alguns meses, o rapaz torra a grana e liga outra vez:

― E daí, meu filho? Como vai o Rex?

― Fala pelos cotovelos, pai. Mas agora abriram outro curso aqui, para os cachorros aprenderem a ler.

― Não brinca! E podemos matricular o Rex?

― Claro! Mande-me cem mil dólares e deixe comigo!

E o velho, mais uma vez, manda o dinheiro.

O tempo vai passando, o final do ano vai chegando e o rapaz se dá conta que vai ter que se explicar. Então, resolve pelo óbvio: sem nenhuma consideração, solta o pobre bicho na rua e pega o avião de volta para casa.

O pai vai recebê-lo no aeroporto numa dessas peruas de última geração, mas sua primeira pergunta é:

― Onde está o Rex? Comprei uma revista sobre animais, em inglês, para que ele leia para mim.

― Pai, você não imagina. Já tinha tudo pronto para a viagem de volta, quando vi o Rex no sofá, lendo o New York Times, como fazia todas as manhãs. E aí ele me saiu com esta: “Então, vamos para casa... Como será que está o velho? Será que continua comendo aquela viúva que mora na casa da frente?”

E o pai, mais do que rapidamente:

― Mas que cachorro lazarento! Espero que você tenha metido uma bala nesse filho da puta, antes que venha falar com tua mãe!

― Mas é claro, pai. Foi o que fiz!

― É assim que se procede, filho!...

Dizem que o rapaz acabou por se formar em direito público, administrativo, econômico, ambiental e criminal e hoje é deputado federal em Brasília, com certeza será senador nas próximas eleições e, quem sabe, ministro, não importa de quê.

Quando um ministro se junta aos ignorantes e terroristas do clima.

Adelson Elias Vasconcellos

Nestes terríveis dias que se seguem ao terremoto – melhor seria dizer “terremotos” – no Japão e o tsunami que se seguiu, chega a ser divertido ler-se nos portais da internet, os comentários feitos a partir das notícias que vão chegando e sendo veiculadas.

Nunca li, numa mesma época, tanta porcaria e ignorância conjugadas sobre aquelas duas tragédias naturais. Tragédias naturais porque independem da ação humana para acontecerem. E acontecerem há milhões de anos no planeta em que vivemos, mesmo até antes do surgimento do primeiro humano.

Identificamos duas correntes bem características neste grupo de misto de terroristas com suprema ignorância. Claro, todos têm o sagrado a se manifestar, mas poderiam ao menos se vestir do senso de ridículo, informar-se melhor e somente então manifestar-se.

Um primeiro grupo são os apocalípticos, aqueles que desenham o fim do mundo com qualquer tremor de terra de escala até insignificante. Estes lembram em detalhes as profecias, até as mais absurdas. Tentam encaixar nas previsões de final dos tempos os acontecimentos e de tal forma que os desastres se tornam ponto de partida para os horrores do fim da nossa existência. Menos mal que a humanidade tornou-se menos cativa a este discurso estúpido. Mas eles insistem com suas “verdades bíblicas, sacrossantas, e ai de quem os confrontar com a realidade!

Mas é no segundo grupo de “apocalípticos” que residem o mal maior. São os profetas do clima, aqueles que qualquer vulcão em erupção é fruto da ação maldosa do ser humano, gente que adoraria andar sobre quatro patas e comer capim e morar em árvores. Estes são supremos em sua predatória do bom senso e até do conhecimento, porque falam em linguagem pseudo científico para condenar a espécie humana às profundezas do inferno, tudo porque, há milhares de anos atrás, alguém resolveu sair das cavernas.

Para estes mentecaptos, os terremotos e o tsunami são obra danosa da ação humana, que destrói o planeta e a vida. Não passa pela mente destes asnos que sequer é possível para o conhecimento humano prever o momento exato de um terremoto. Sequer é possível ainda reduzir sua virulência, quanto mais termos capacidade de intervir e até de evitar que aconteçam. Assim, o que se lê de asneiras do tipo ser o terremoto no Japão fruto do aquecimento global, é simplesmente um grandioso espetáculo ... de ignorância.

Será que este povo todo não consegue pensar com mais de um neurônio? E não seria possível antes de escreverem tanta sandice ao menos pegar um pouquinho que fosse de informação para evitarem o absurdo que é destacar o aquecimento global como responsável por qualquer terremoto? Claro que a grande maioria das pessoas que leem tais barbaridades não se deixam levar justamente por seu grau de informação. Mas há quem bate palmas para os absurdos que se escrevem e saem por aí proclamando que o homem é um bicho do demo.

Mas que a ignorância alimente estes absurdos é até compreensível. Injustificável, para se dizer o mínimo, foi a manifestação do ministro Carlos Lupi sobre as consequências. Mesmo que suas afirmações representassem a mais pura e cristalina das verdades, a importunidade em que as mesmas foram expressas é injustificável para um ministro que, muito ou pouco, representa uma fala oficial de um país chamado Brasil.

E o que disse o apalermado? Isto: “O Brasil vai acabar, apesar de não desejarmos essa tragédia para ninguém, não tendo prejuízo, até ganhando com isso”, afirmou. Segundo o ministro, haverá grande demanda por produtos brasileiros durante a reconstrução de cidades japonesas, como alimentos. “Ao mesmo tempo que vai ter o efeito [negativo] em alguns setores de minérios, vai ter um efeito de melhorar outros setores de exportação para reconstruir um novo Japão. Perde por um lado e ganha para outro, mas a média acho que será positiva”, afirmou.

Muito bem, digamos que Lupi tenha sido apenas pragmático. Mas lá isso são horas de se especular sobre o assunto? Não seria o momento para ele, ao menos, ficar de bico calado, dizendo lamentar o sofrimento pelo qual passa o povo japonês, e até se prontificar, em nome de sua pasta, a estender toda a ajuda que aquele país está a merecer? Não dizer nada, em determinadas ocasiões, senhor ministro, além de representar boa educação, acaba sendo muito mais inteligente...

Aliás, o exemplo de civilidade que o povo japonês tem demonstrado neste momento que, em qualquer outro país seria motivo para pânico, deveria ser copiado e elogiado pelo restante do mundo. Incrível saber-se que, apesar do desastre e todas as consequências ruins que ela vai provocando, como falta de energia, escassez de alimentos e água potável, racionamento de combustível, não se computou até agora um único ato de violência ou de saque. Como sempre digo, o que nos qualifica, ou desqualifica a depender do caso, são os atos que praticamos diante de certa situações de dificuldades, principalmente, a maneira civilizada como reagimos diante da dor e do sofrimento, muito mais do que qualquer papo furado por mais colorido com que ele se reveste.

No caso do ministro Lupi, é o exemplo típico de alguém que perdeu ótima oportunidade de ficar de boca fechada.

Pela quarta vez, PF quer prorrogar caso Erenice.

Adelson Elias Vasconcellos

Parece piada, mas não é: Polícia Federal quer prorrogar investigações do caso Erenice mais uma vez. Será o quarto adiamento se não estou enganado.

Durante seus dois mandatos, Lula se gabava das ações da Polícia Federal. Sempre que explodia algum escândalo próximo de si, saía com a máxima de que mandaria investigar com rigor, apurar com a máxima ligeireza e, se fosse o caso, mandaria punir com a máxima eficiência, mesmo que tivesse de cortar na própria carne.

Bem, o histórico não é lá muito recomendável. Todos os crimes próximos de Lula resultaram em verdadeiros fracassos fosse em termos de investigação e apuração, e quanto às punições, bem a gente sabe como o PT se comporta quando seus “protegidos” são pegos em flagrante delito: além da impunidade, o silêncio cúmplice e servil acaba sendo premiado com boquinhas ricas às custas da sociedade. O último exemplo desta verdadeira máfia, chama-se José Genoíno.

O caso Erenice, esta verdadeira mãe de família, sabemos bem como foi, como e quando começou mas jamais saberemos de algum punido pelo escandaloso tráfico de influência cometido na antessala da então ex-ministra e candidata, Dilma Rousseff. Que, a exemplo do padrinho, nunca soube de nada.

Lembram do escândalo imediatamente anterior, a violação ilegal dos sigilos da turma da oposição? Pois enquanto o caso esteve a cargo da investigação policial, muita porcaria foi sendo revelada. Até que se determinou que o caso passasse à esfera da Polícia Federal e aí ... e aí morreu o assunto sem que ninguém fosse punido.

O Caso Erenice, apesar de todas as provas e evidências sobre o crime e seus personagens, segue na mesma direção. Vai se empurrar com a barriga até que o tema caia em total esquecimento e resulte numa patética conclusão pelo simples arquivamento do caso, seguindo, assim, a regra adotada pelo governo petista de que a lei, com todo o seu vigor e peso, serve apenas para punir adversários tão somente. Para os de casa, as bênçãos do esquecimento e do arquivo morto.

E o irônico é que esta mesma gente se arvora com “moral” de araque para a constituição da tal Comissão da Verdade que investigaria os crimes da ditadura, mas apenas pelo lado do Estado. Os crimes cometidos pela esquerda, bem estes ficariam ao abrigo da própria lei de Anistia.

Prender traficante e sonegadores eis aí uma tarefa simples e fácil para a Polícia Federal. Eficiente ela se tornará no dia em que fizer jus ao discurso do governo, de cortar na própria carne do poder, e prender gente do partido. Aí, de fato, teremos uma polícia federal do Estado, e não apenas a serviço dos interesses escusos do partido no poder.

Em busca da verdade

Percival Puggina

"A verdade vos libertará" (Jo 8:32). Será preciso dizer mais sobre o valor da verdade para o ser humano? A sabedoria desta esplêndida frase repousa, muito especialmente, em evidenciar que assim como a bússola só funciona perante o norte magnético, a liberdade é uma conquista da verdade. E só frente a ela, que a precede, pode ser exercida. A liberdade de quem desconhece a verdade, ou a despreza, é perdição por desorientação, bússola sem ponteiro. Isto posto, não creio que qualquer consciência bem formada recuse-se à busca da verdade ou opte por viver na mentira. É neste enquadramento moral que desejo analisar a criação da tal Comissão Nacional da Verdade, sob exame do Congresso. Em textos anteriores e em diversos programas de rádio e tevê já me posicionei contra a proposta, invocando motivos de natureza histórica e política. Hoje quero apreciar o tema sob este outro aspecto.

"Como o senhor pode ser contra a busca da verdade?". Tal pergunta já veio parar na "Caixa de entrada" do meu correio eletrônico. Eu? Mas eu amo a verdade, moço! Amo-a com amor zeloso e sem ciúmes! Eu a quero universal e para todos. Mas porque a amo, repugna-me a possibilidade de vê-la submetida a lúbricas manipulações. E não tenho a menor dúvida de que é exatamente isso que vai acontecer quando os grandes bandos da política nacional e aqueles "cientistas" das nossas ciências humanas, militantes engravatados, intelectuais sutis e ardilosos, se debruçarem sobre o lixo da história. Os achados de suas pinças ideológicas, dos interesses políticos, dos ressentimentos e das vinditas serão tudo, menos a verdade. Se já fazem isso, descaradamente, nas salas de aula, com a história brasileira e universal, o que não farão com as controvérsias do passado recente?

Vá lá que manipulem a juventude (pois ao que parece quase ninguém se importa). Vá lá que subestimem, não raro com ganhos, a inteligência do povo. Vá lá que apresentem suas maracutaias como maracutaias do bem. Vá lá que vivam afundados em incoerências e contradições. Mas, por favor, não esperem contar com a complacência de quem ainda não perdeu o senso crítico e a capacidade de analisar o que vê.

A verdade, leitor amigo, é um bem imenso. Sabemos todos. No entanto, é preciso reconhecer que a verdade sobre certos fatos históricos sempre terá pelo menos dois lados. Conto um episódio recente para exemplificar a impossibilidade de se chegar a ela sob determinadas circunstâncias políticas e - maior ainda a impossibilidade - através de interessados de insuspeita suspeição. Uma senhora foi a Cuba. Senhora de esquerda, do tipo que usa brinco com estrela, pingente com estrela e tem estrela no carrinho do bebê. Foi cheia de entusiasmo para conhecer a imagem viva do seus afetos ideológicos. O refúgio do companheiro Zé Dirceu. O paraíso caribenho de Lula. A terra do socialismo real. Quando retornou, a família caiu-lhe em cima com suas curiosidades. Longos silêncios, muxoxos e frases desconexas eclodiram, depois de alguns dias, neste desabafo restrito ao circuito mais íntimo: "Tá, aquilo é uma droga. Mas eu não posso ficar dizendo, tá?". Tá, madame. Yo la entiendo. A verdade sobre Cuba fica entre quatro paredes. Agora, vamos cuidar da verdade sobre o Brasil, é isso? Se uma simples militante age assim, o que farão os patrões e patronos da pretendida investigação histórica?

Na perspectiva da verdade, a questão que eu levanto às pessoas de bom senso é esta: no dia em que estiverem interessados em tal ou qual verdade, seja lá sobre o que for, vocês irão buscá-la com o José Genoíno? Com o José Dirceu? Com o Paulo Vannuchi? Com o Franklin Martins? Com uma comissão nomeada pelo ministro Jobim de todos os governos? Não, claro que não. Quem sabe com o Marco Aurélio Garcia, Marilena Chauí, Alfredo Bosi, Luis Eduardo Greenhalgh? Também não? E com Frei Beto, Emir Sader, Chico Buarque? Bem, desisto.

Eis por que desacredito, também, da pretensa Comissão da Verdade. Desse mato, com tais interessados, só sairão cobras e lagartos. Coelhos, aí, duram até a hora da primeira refeição.

Inversão de culpa

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

O PT abriu o ano de 2011, para quando inicialmente estava previsto o julgamento do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), disposto a ajudar os réus - pelo menos os seus - a se livrar das acusações de corrupção, peculato, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, entre outras.

Adepto das críticas à "judicialização da política", como se convencionou qualificar genericamente decisões judiciais que atrapalham interesses políticos, o PT patrocina a politização do processo resultante de denúncia da Procuradoria-geral da República em 2007.

Esse movimento, obviamente com o objetivo de influir na decisão dos ministros do STF mediante uma absolvição à moda da casa, é percebido no tratamento dado aos principais (do ponto de vista político-partidário) réus.

José Dirceu, o "chefe da quadrilha", nas palavras do autor da denúncia e então procurador-geral Antônio Fernando de Souza, voltou a integrar o diretório nacional do partido.

Com ele haviam sido afastados e também retornaram João Paulo Cunha e José Genoino. Este último recentemente assumiu o posto de assessor especial do Ministério da Defesa e Cunha, para espanto geral, foi levado à presidência da Comissão, note-se, de Constituição e Justiça da Câmara.

Um grupo expressivo, do qual faz parte o líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccarezza, defende a volta do ex-tesoureiro e figura símbolo do escândalo, Delúbio Soares, ao partido argumentando que as penas não podem ser "eternas".

Argumento que convenientemente deixa de lado o fato de que a Justiça ainda não se pronunciou. Para o PT o importante é que esse pronunciamento ocorra em um ambiente já insensível aos acontecimentos de 2005, permeado pela impressão geral de que já houve punição suficiente e a conta foi devidamente paga.

Não bastasse, agora que o julgamento foi remarcado para 2012, o PT começa a pôr sob suspeita a isenção do Supremo, difundindo a tese de que julgamento em ano de eleições pressupõe inevitável parcialidade.

Um truque. Bem engendrado, mas insuficiente para convencer alguém de que a culpa de eventual condenação terá sido dos juízes e não dos réus.

Nuclear.
O ex-deputado do PV Fábio Feldmann, hoje consultor para assuntos de meio ambiente, compartilha da convicção dos que veem no risco de desastre na usina de Fukushima o início do fim do uso de energia nuclear.

"Se o Japão que é tido como o país mais eficiente na segurança e prevenção está sob a ameaça de uma tragédia nuclear, o que dizer do restante do mundo?", questiona Feldmann, para quem o que ocorre agora no Japão confirma o que os ambientalistas dizem há anos sobre os perigos dessa fonte de energia.

Espasmo.
A proposta de criação de uma comissão no Congresso para discutir o destino das usinas nucleares no Brasil pode até ser cheia de boas intenções, mas é o tipo da falsa providência.

Sempre que há algum acontecimento de repercussão aparece a sugestão de se criar um grupo de discussão no Parlamento. A comissão para debater a última crise econômica mundial foi instalada com ares de grande evento. A respeito da qual nunca mais se teve notícia.

O Legislativo brasileiro prestaria melhor serviço se, no lugar de simular interesses grandiloquentes, se interessasse por solucionar problemas mais urgentes. Como, por exemplo, a recuperação da credibilidade do Poder.

À margem.
O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, está escandalizado com a atitude da Câmara dos Deputados que simplesmente resolveu não cumprir decisão do STF que assegura a posse dos suplentes de deputados conforme a ordem dos eleitos pelos partidos e não pelas coligações.

"Se um Poder não cumpre uma determinação da Justiça, é de se imaginar que o cidadão comum acredite que igualmente não seja preciso obedecer ao que diz a lei e ao que decide o juiz", diz o ministro.

Pelo direito de dizer “não”, de marchar na contramão

Reinaldo Azevedo

O dia hoje será atípico. Participo de um seminário sobre liberdade de expressão promovido pelo Instituto Millenium, no Rio. Debaterei com outros colegas um tema em particular: o pensamento politicamente correto, questão de que trato amiúde neste blog. A página será atualizado com as principais notícias no dia, mesmo na minha ausência.

Tenho afirmado e escrito freqüentemente que aprecio a democracia menos pelo valor afirmativo do sistema do que por seu valor negativo; ou seja, menos pela prevalência da vontade da maioria do que pela possibilidade de as minorias dizerem o que pensam. Afinal, nas ditaduras, também é permitido concordar. Pode-se dizer “sim” em Nova York, em Trípoli e em Pequim. A segurança para dizer “não” é que distingue os regimes.

Da mesma forma que o teste de resistência da democracia é feito por aqueles que discordam de consensos — sejam estes legítimos ou não, embasados ou não em verdades científicas —, o teste de resistência dos democratas se dá quando confrontados com idéias que consideram absurdas, irrealistas, detestáveis até. Aceitar que o outro exponha a sua “verdade”, por mais estúpida que nos pareça, testa a nossa capacidade de conviver com a diferença. Isso não significa, e meu trabalho espelha essa minha postura, que não devamos, nós também, ser, então, “detestáveis” à nossa maneira aos olhos de quem discorda de nós. É preciso dizer com clareza e destemor o que se pensa, e não com o intuito de destruir o outro, de “eliminar a contradição”, de “extirpar” o adversário, como poderia sugerir certo Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas quem não quer a liberdade de expressão? Bem poucas pessoas teriam a coragem de fazer a defesa aberta da censura. Aprendemos todos que não se fazem certas coisas em público, e alinhar-se com os valores democráticos integra o rol das escolhas educadas, decorosas. Assim, raramente, ou nunca, temos a chance de nos defrontar com um inimigo da liberdade de expressão. Eles, no entanto, existem e se manifestam de forma insidiosa — não raro, recorrem a princípios consagrados pela democracia para poder solapá-la.

Uma expressão está na moda, posta para circular, sobretudo, pelas ONGs: os chamados “temas transversais”, aqueles que atravessariam várias esferas da vida e do conhecimento, transformados, em si mesmos, em valores morais inquestionáveis. O tal Programa Nacional-Socialista de Direitos Humanos, por exemplo, chegava a prever a cassação da licença de emissoras de rádio e televisão se ficasse caracterizado o desrespeito aos direitos humanos. Notem o truque: quem é contra os “direitos humanos”? Ninguém! Quem iria definir o que caracterizava esse respeito? Ali estava a armadilha.

Os chamados “temas transversais” costumam ser uma espécie de bula do chamado pensamento politicamente correto, que perverte o valor democrático essencial: o direito de a minoria expressar a divergência. Essa derivação pervertida transforma a proteção às minorias numa agressão aos valores universais da democracia. Não é raro ouvirmos hoje magistrados, inclusive alguns da nossa corte suprema, a afirmar que a lei deve, sim, tratar desigualmente os desiguais porque cumpriria ao juiz corrigir injustiças que a sociedade a tempo não corrigiu.

Ora, numa democracia, o princípio que estabelece que todos os homens são iguais perante a lei não busca ofuscar a condição dos graúdos, mas estabelecer uma instância — a Justiça — em que o pequeno não será punido porque pequeno nem poupado de seus crimes; em que o grande não será protegido porque grande, mas também não terá seus direitos aviltados por isso.

Como justificar, por exemplo, a concessão de cotas raciais à luz da Constituição brasileira se não por intermédio de valores, e ninguém conseguiria provar o contrário, ausentes em nossa Constituição? Agride-se o princípio fundamental da igualdade dos homens perante a lei argumentando-se a aplicação dos fundamentos do Artigo 3º, a saber:

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

Será lícito, no entanto, aplicar o que prevê os três incisos discriminando pessoas, seja essa discriminação positiva ou negativa? O inciso seguinte do mesmo artigo responde:

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

O debate das cotas, no entanto, foi interditado. O Estatuto da Igualdade Racial aprovado pelo Congresso, embora na sua versão mitigada, coleciona uma penca de agressões à Constituição. Em breve, outro tema voltará ao debate: a chamada lei que criminaliza a homofobia. Não duvido de que as pessoas empenhadas em sua aprovação tenham o propósito de combater a discriminação, mas o texto agride, de maneira inequívoca, a liberdade de expressão. Uma simples opinião que possa ser caracterizada como “ação vexatória de ordem filosófica” — seja lá o que isso signifique — pode render cadeia. O crime será considerado inafiançável e imprescritível.

A patrulha politicamente correta, orientada pela espírito da reparação e da correção das desigualdades e das injustiças, constitui-se numa verdadeira polícia do pensamento. Agride a liberdade de expressão e, muitas vezes, agride os fatos, impedido até mesmo a avaliação da eficiência de determinadas políticas públicas.

Na entrevista publicada pela VEJA, na semana passada, o professor americano de economia Walter Williams, negro, afirma:

“Antes, uma menina grávida era uma vergonha para a família. Hoje, o estado de bem-estar social premia esse comportamento. O resultado é que, nos anos da minha adolescência, entre 13% e 15% das crianças negras eram filhas de mãe solteira. Agora, são 70%.”

No seminário de logo mais, tratarei dessas e de outras questões; tratarei, em suma, do sagrado direito de dizer “não”, de marchar na contramão, mesmo quando tenho de me confrontar com aqueles que se querem monopolistas do bem.

Cabral, um intrometido na autoridade alheia

Comentando a Notícia

Primeiro leiam o texto abaixo, de Rodrigo Rötzsch na Folha online. Parece que alguém resolveu usar uma autoridade que não tem nem nunca teve. Volto depois para comentar:

Cabral cobra Obama por vaga do Brasil no Conselho de Segurança

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), disse hoje que, "se fosse presidente", esperaria que Barack Obama anunciasse, em sua viagem ao Brasil no próximo fim de semana, o apoio à pretensão brasileira de ocupar um assento permanente num Conselho de Segurança da ONU reformado.

"Eu cobraria o mesmo tratamento dado à Índia [em recente viagem a Nova Déli, Obama anunciou apoio a um assento permanente para a Índia no conselho]. Eu não sou presidente, mas tenho essa expectativa", afirmou.

Cabral disse também, que se fosse o goveno brasileiro, lembraria a ele que o etanol brasileiro não pode ser taxado como é taxado'. 'O governo americano nos deve a revogação desse absurdo. Se quer comprar petróleo brasileiro, que trate o etanol com dignidade', completou.

O governador confirmou que Obama e sua família dormirão dois dias no Rio, e que no domingo, o presidente, a mulher e as filhas irão conhecer o Cristo Redentor e a Cidade de Deus, onde funciona uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).

Cabral admitiu ter ficado contrariado com o fato de o governo americano ter escolhido essa favela, e não o Chapéu Mangueira, como ele havia sugerido. "Eu lamentei. Na autobiografia dele, ele dedica três páginas ao encontro da mãe dele com a cultura negra. Esse encontro aconteceu quando ela assistiu ao filme 'Orfeu Negro', que tem 80% de suas cenas no Chapéu Mangueira. Mas a Cidade de Deus está muito bem escolhida. Certamente para ele será uma grande emoção pisar numa comunidade pacificada, que ele pôde ver, em outro filme, como era violenta."

O governador negou que o governo vá promover estratégias para atrair público ao discurso que Obama fará na Cinelândia, no domingo, às 15h. "Obama é um astro, um ícone, vai atrair público espontâneo. Vão vir caravanas de outra cidade."

Questionado pela Folha se esperava um público na casa de 500 mil espectadores, no entanto, Cabral riu. "Rei aqui é o Roberto Carlos. Barack Obama é bem-vindo, vai ser um bom público, mas 500 mil só o Roberto Carlos."

Cabral confirmou ainda que Michelle Obama e suas filhas acompanharão Obama ao Cristo e à Cidade de Deus, mas que não irão ao discurso na Cinelândia e cumprirão uma agenda paralela, conhecendo o Jardim Botânico.

Para o governador, que falou sobre a visita de Obama numa entrevista coletiva após anunciar a instalação de uma nova fábrica da Nestlé no Rio de Janeiro, a visita de Obama se insere no grande momento vivido pelo Estado, que inclui a realização dos Jogos Olímpicos em 2016. "O Obama está vindo conhecer a cidade que ganhou da cidade dele [Chicago] o direito de sediar a Olimpíada."

"O fato de não só o presidente Obama, mas o que os americanos chamam a 'primeira família' [a mulher e as filhas do presidente] virem ao Rio é extraordinário. Eu acho que os democratas têm mais bom gosto que os republicanos. Porque o [ex-presidente George W.] Bush não veio ao Rio, mas o [ex-presidente Bill] Clinton e o Obama sim."

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***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

A quem compete, afinal, a condução da política externa brasileira? Governo federal ou estadual? Não tiro o direito do senhor Cabral se manifestar e expressar sua opinião. Ocorre, porém, que ele é um representante político, governa o estado do Rio de Janeiro, e política externa não é tema de sua alçada ou competência. Mesmo que fosse questionado por algum jornalista, deveria calar-se e não se manifestar, transferindo a responsabilidade pela resposta a quem de direito, no caso, à Presidência da República.

Esta mania ridícula que alguns políticos brasileiros tem de quererem responder a tudo e a qualquer hora, é demonstrativo eloquente do atraso e do provincianismo de que se revestem.

Sérgio Cabral não pode se manifestar em assuntos externos enquanto governador. Ele não é um simples cidadão. Representa uma parte do Estado e sua manifestação deve ocorrer apenas no nível de sua autoridade.

Aliás, neste quesito até infantil de político brasileiro dar pitaco até em assunto que foge à sua alçada, tem seu representante máximo na figura do ex, Luiz Inácio. O raio é que são exatamente os mesmos que, depois, querem ou entendem que a imprensa deve ser “regulada”. Ou seja, uso de um direito para defender que este mesmo direito seja solapado pelo Estado.

Cabral, a exemplo de Carlos Lupi em relação ao Japão, foi outro que perdeu preciosa oportunidade de ficar de bico calado. Deveriam ambos aprender que o silêncio, em muitas ocasiões, mesmo para um político, fala muito mais alto do que qualquer discurso que resolvam proferir, cheios de baboseiras. Além de ser um cartão de visitas da boa educação ou falta dela que possam ter.

O baixo clero da Câmara dos Deputados tomou de assalto o palco e a plateia

Augusto Nunes, Veja online

Três vezes prefeito de Marília, deputado federal em segundo mandato, Abelardo Camarinha acaba de ser escolhido pelo Partido Socialista Brasileiro para representar a legenda no Conselho de Ética na Câmara. Confrontado por jornalistas com o buquê de processos que protagoniza no Supremo Tribunal Federal, o parlamentar delinquente ensinou que o problema não está no caráter que se tem, mas no cargo que se ocupa. “Se a Madre Tereza de Calcutá fosse prefeita”, garantiu, “também teria seis ou sete processos”.

O deputado Camarinha conseguiu ficar mais cínico que o prefeito Camarinha, confirma o vídeo gravado em dezembro. Engajado no exército em guerra por um indecoroso aumento salarial, o oficial do PSB paulista resumiu a discurseira em 24 segundos: “E eu faço um desafio aqui… O… o… o deputado não tem um padrão de vida dum… dum cidadão comum. . Ele é padrinho de casamento, ele é padrinho de formatura, ele tem despesa extra, ele tem bases eleitorais, ele tem convites…”

Muitas outras coisas separam um pai-da-pátria de um brasileiro da planície. Ele também tem verba de gabinete, ele tem 14º salário, ele tem 15º salário, ele tem passagens aéreas de graça, ele tem auxílio-moradia, ele tem carro e combustível por conta dos pagadores de impostos, ele tem plano de saúde cinco estrelas, ele tem uma penca de empregos públicos a distribuir, ele tem negócios ou negociatas a fazer — ele tem, enfim, um vidaço.

E nem assim se sacia. Na última frase do falatório, Camarinha capricha na pose de flagelado a serviço da nação: “Então, eu duvido que se sobreviva com um salário de onze, doze mil reais”. Se pensa assim, deveria ter sugerido um aumento de 2.000% no salário mínimo. Nem apareceu para votar na sessão que aprovou os R$545 com os quais são obrigados a atravessar o mês quase 48 milhões de brasileiros comuns.

A Câmara da Era da Mediocridade é um viveiro de camarinhas — o que torna pouco surpreendente a ascensão ao comando da Mesa do petista gaúcho Marco Maia. Quem viu o Roda Viva desta segunda-feira compreendeu que o terceiro nome na linha de sucessão presidencial tem na cabeça coisas tão profundas que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiga poderia atravessá-las com água pelas canelas. Marco Maia é uma perfeita tradução do Congresso destes trêfegos tempos.

Como registrou no fim do programa a jornalista Eliane Cantanhêde, uma instituição indispensável ao regime democrático hoje é presidida por um deputado do segundo time. Com uma agravante perturbadora: o primeiro time acabou. A Câmara já não tem cardeais. O baixo clero age no palco e aplaude na plateia.

O delator premiado

Ruy Fabiano – Blog do Noblat

Tão indecente – e ilegal - quanto uma candidata a deputada federal receber dinheiro ilícito das mãos de um corruptor, incrustrado na máquina do governo do Distrito Federal, é esse mesmo corruptor estar não apenas livre, mas no comando de um processo de denúncias, manipulado segundo seus interesses – não os da lei.

O corruptor, todos sabem, é o ex-policial Durval Barbosa. A corrompida, a hoje deputada federal Jaqueline Roriz, filha do ex-governador Joaquim Roriz. Ela recebeu R$ 50 mil em dinheiro, em flagrante registrado pelas câmeras de Durval, na campanha de 2006.

Somente cinco anos depois, o ex-policial, que servia ao governador Joaquim Roriz, decidiu denunciá-la. Antes, pôs na cadeia o então governador José Roberto Arruda e expôs alguns de seus principais aliados, defenestrando-os da política.

Posou de herói, pois estaria arriscando a própria pele para redimir-se de ter participado de uma quadrilha que lesou o Estado. Protegido pelo instituto da delação premiada, fez circular a informação de que possuía muitos mais vídeos que os divulgados – algo acima de uma centena -, o que o manteve (e mantém) no comando do processo, tornando-o mais importante que a polícia.

Já aí há um imenso absurdo: se está sob delação premiada, não lhe cabe arbitrar quando e que vídeos irá revelar. Tem obrigação de entregar todos, e explicar por que não o fez antes.

Tudo, porém, ocorre sob a capa de normalidade. Durval circula por Brasília, vai a festas, sai em colunas sociais, como um cidadão normal, em dia com suas obrigações.

Até aqui, supunha-se que servia a Roriz, a quem de fato prestou relevantes serviços, liquidando a carreira de seu inimigo pessoal Arruda. Eis, porém, que agora se volta contra seu antigo patrono e alveja sua filha e herdeira política. Faz mais: derruba-a e põe em seu lugar um aliado, o também ex-policial Laerte Bessa (PSC-DF), suplente de Jaqueline e seu amigo.

Jamais um delator foi tão premiado. Ao que parece, a polícia deu-lhe o comando da política de Brasília. Se é verdade o que se disse na época em que os vídeos começaram a ser divulgados – que o mensalão do DF não era só do DEM, mas que contemplava todos os partidos, inclusive o PT –, Durval tem, em tese, todos sob seu comando. Nada mais surreal. Ou por outra, há algo mais surreal que isso: o fato de não ter havido intervenção política em Brasília após as denúncias iniciais.

A cidade viu-se sitiada por assaltantes do erário. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, apurou que a maioria da Câmara Distrital e figuras-chaves do Executivo formavam uma única quadrilha. Nesses termos, não fazia sentido os corruptos já identificados serem julgados pelos demais. Nem os suplentes escapavam. E encaminhou pedido de intervenção ao Supremo Tribunal Federal, que, não se sabe por quê, não o atendeu. Motivos e provas não faltavam; ao contrário, sobravam.

O que se seguiu era o esperado: a maioria dos parlamentares se reelegeu. Os que foram excluídos estão soltos, preparando sua defesa. E Durval Barbosa paira sobre todos, a lembrar que possui uma filmoteca mortal, que pode a qualquer tempo, como ocorreu agora com Jaqueline, tirar de cena quem ele achar que deva.

Em meio a tudo isso, constata-se que a criminalidade vem crescendo a números surpreendentes no Distrito Federal. Surpreendentes para os distraídos. Durval já percebeu isso há mais tempo. E trocou a função de policial pela de cineasta, uma espécie de Hitchcock do Planalto, a manter em suspense não apenas a plateia, mas também – e sobretudo – o elenco.

O seu Oscar é o mais valioso: a própria liberdade. Jamais um delator foi tão premiado.

Em gravação inédita, delator do mensalão do DEM diz que autoridades têm cópias de suas fitas

Vannildo Mendes, de O Estado de São Paulo

Declaração do ex-secretário Durval Barbosa, o pivô do escândalo do DF, foi dada à empresária Cristina Bonner, acusada de abastecer o esquema

BRASÍLIA - O esquema de corrupção no governo do Distrito Federal era conhecido de autoridades do Judiciário e do Ministério Público pelo menos três anos antes da deflagração da Operação Caixa de Pandora, que investigou a quadrilha em 2009 e culminou com o afastamento do cargo do ex-governador José Roberto Arruda. É o que revela trecho inédito de um vídeo, gravado em 2006 pelo ex-secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, obtido com exclusividade pelo estadão.com.br. Procurado pelo Estado, Durval informou que não entregou vídeos para desembargadores e que disse aquilo apenas para demonstrar prestígio e botar medo na empresária.

O vídeo, com 17 minutos divididos em duas partes, mostra uma conversa de Durval com a empresária Cristina Bonner, dona da empresa de informática TBA, uma das empresas suspeitas, segundo investigação oficial, de abastecer o esquema com propinas em troca de contratos com o governo.

"Eu não sou burro", diz Durval exibindo sobre a mesa a coleção de vídeos que ele havia gravado com políticos recebendo propina em seu gabinete. Espantada e sem saber que também era filmada, Cristina o aconselha a guardar o material explosivo em local seguro: "Tira isso daqui!".

Durval a tranquiliza: "Não! Isso aqui é cópia... (O original) tá lá no meu sobrinho, tá no Ministério Público. Tem cópia também lá com os desembargadores meus amigos. Isso aqui... tem cópia na família. Eu não sou burro. Eu vou responder por ladrão? Eu não sou ladrão".

O vídeo faz parte da chamada coleção da corrupção, uma filmoteca com mais de 30 gravações feitas em sigilo por Durval Barbosa em 2006, no seu gabinete de presidente da estatal Codeplan, "para proteção pessoal futura", como disse à Polícia Federal em 2009, depois de se tornar réu colaborador da justiça. Os vídeos mostram o ex-governador José Roberto Arruda, parlamentares, secretários e autoridades do DF recebendo maços de dinheiro e enfiando em pastas, sacolas, mochilas e até em meias e cuecas.

Inédito.
A íntegra da fita com Cristina Bonner, que está em poder do Ministério Público, havia sido mantida em sigilo até agora. Nos trechos inéditos, a empresária aparece recebendo de Durval a notícia de que ganhara um contrato emergencial de R$ 9,8 milhões, na área de informática. Era a primeira compensação, segundo Durval declara no vídeo, de uma doação de R$ 1 milhão para a caixa de propinas coletadas pelo ex-secretário.

Por meio da assessoria de imprensa, Cristina Bonner negou que tenha sido uma das abastecedoras do mensalão do DEM e que tenha tido qualquer envolvimento no esquema. Informou que a fita de 17 minutos seria uma montagem grosseira, feita por uma empresa de Brasília, "possivelmente mancomunada com Durval e denunciada à justiça". Por isso ela disse que não vai comentar seu teor.

Com gritinhos de entusiasmo, Cristina contorna a mesa para dar um longo abraço em Durval. "Você está feliz?", pergunta ele. "Muuuuito", responde ela, sem conter de emoção.

O advogado da empresária, José Luis Oliveira, disse ao Estado que a "a Justiça já quebrou o IP da empresa que manipulou a fita e tentou postá-la na internet". Disse, ainda, que tem um laudo garantindo que a fita foi manipulada. O advogado refere-se a um empresário que, em abril de 2010, chegou a conseguir uma cópia da gravação de Durval e postou um trecho na rede por alguns minutos. Cristina Bonner recorreu à Justiça e conseguiu bloquear a exibição do vídeo.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Durval Barbosa, tanto quanto todos os demais cretinos que ele entregou, não vale um tostão furado, certo? Mas sua declaração merece reflexão e, principalmente, apuração, dado a gravidade da informação. Vejamos: segundo Barbosa, o conjunto de fitas que gravou foi entregue tanto para o Ministério Público três anos do processo estourar na praça. Então, por que o Ministério Público demorou tanto tempo para instaurar o inquérito? Por que a senhora Jacqueline Roriz teve o conteúdo do seu vídeo divulgado apenas após ter sido eleita para a Câmara Federal? Houve favorecimento a um dos réus neste caso? E quanto a declaração de haver entregue vídeos para desembargadores, verdade, mentira ou bravata?

Já há uns dez dias atrás, Durval Barbosa declarara que da coleção de vídeos que gravou, foram divulgados apenas uma parte4 deles. Onde estão as demais, em poder de quem? E nestes vídeos ainda desconhecidos do públicos, quem são os envolvidos? Por que a divulgação foi fracionada?

E quanto ao tempo em que o Ministério Público ficou com os vídeos sem instaurar inquérito nenhum, por que somente às vésperas da eleição em 2010, o escândalo foi deflagrado? Houve algum interesse político escuso na operação?

Olha gente, há muitas questões em abertas, muitas suspeitas balançando soltas no ar. E dada gravidade e repercussão que o caso teve, tais questões sem respostas e suspeitas na condução do inquérito, seria interessante que o senhor Durval Barbosa, já beneficiado pela delação premiada, dissesse tudo o que sabe e, a depender de suas declarações, que em seguida o Ministério Público se manifestasse para afastar de si a suspeita de algum beneficiamento, até de natureza política, na condução do caso.

Uma certeza, contudo, podemos ter: há muito mais sujeira escondida que precisa ser posta a limpo. Esclarecimento definitivo e sem trapaças é um direito que a sociedade tem e dever dos órgãos encarregados e responsáveis pela apuração dos fatos.

Pesquisa aponta que 72% são contra recriação da CPMF para Saúde

Eduardo Rodrigues, da Agência Estado

Segundo o levantamento realizado pela CNI em parceria com o Ibope, apenas 20% das pessoas entrevistadas são a favor do retorno do tributo

BRASÍLIA - Setenta e dois por cento dos brasileiros são contra a recriação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) para o financiamento da Saúde no País, de acordo com a pesquisa "Retratos da Sociedade Brasileira: Qualidade dos serviços públicos e tributação", divulgada hoje pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Segundo o levantamento realizado em parceria com o Ibope, 20% das pessoas entrevistadas são a favor do retorno do tributo. O restante não soube ou não respondeu. Apesar da grande maioria ser contrária à medida, apenas 37% dos entrevistados souberam responder o que é a CPMF. Segundo a CNI, o conhecimento é menor entre os mais jovens, os com menor escolaridade, os com menor nível de renda e os residentes na região Nordeste.

O levantamento também mostra que a maior parte da população brasileira não somente é contra a recriação da CPMF como também não gostaria do aumento de qualquer outro imposto para melhoria da saúde. Segundo a pesquisa, dois terços dos entrevistados discordam em parte ou totalmente com esta alternativa.

Da mesma forma, o brasileiro associa a má qualidade dos serviços públicos de saúde à má gestão dos recursos por parte dos governantes. Sessenta e três por cento dos entrevistados concordam totalmente com essa premissa e 18% concordam em parte. Além disso, a CPMF é vista como um imposto injusto por 75% dos entrevistados pela pesquisa.

Do total, 63% acreditam que a recriação do tributo aumentará os preços das mercadorias. Segundo a pesquisa, 45% das pessoas ouvidas veem a CPMF como um imposto que afeta somente as pessoas que têm conta bancária, enquanto 38% acreditam que afetam também a outras pessoas.

Serviços públicos
A população brasileira reprova a qualidade dos serviços públicos do País, segundo a pesquisa "Retratos da Sociedade Brasileira: Qualidade dos Serviços Públicos e Tributação", divulgada há pouco pela CNI. Segundo o levantamento realizado em parceria com o Ibope, os brasileiros aprovam apenas quatro de 12 serviços avaliados.

A pesquisa mostra que a população só está satisfeita com os fornecimentos de energia elétrica, água, iluminação pública e ensino superior. O pior resultado é o referente aos postos de saúde e hospitais, que foram reprovados por 81% dos entrevistados.

Entre os serviços que também precisam melhorar na opinião dos brasileiros ainda estão a limpeza e o transporte urbano, rodovias e estradas, conservação de ruas e avenidas, educação fundamental e ensino médio, segurança e atendimento em repartições públicas.

Segundo o levantamento, 81% dos entrevistados acreditam que, "considerando o valor dos impostos, a qualidade dos serviços públicos deveria ser melhor no Brasil". Da mesma forma, para 82% da população, o governo já arrecada o suficiente e, portanto, não precisa aumentar mais os impostos para melhorar a prestação de serviços. Além disso, 87% consideram que a carga tributária no País já é elevada e 79% revelam a percepção de que ela esteja aumentando nos últimos anos.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Eis aí algo para tanto o governo Dilma Presidente quanto, de resto, toda a classe política brasileira, pensarem com carinho. O resultado não deixa margem para dúvidas: se algum político aventureiro, seja de ele de qualquer partido, quiser arriscar seu pescoço em futura eleição, que continue apostando na reedição da CPMF. A reprovação estrondosa vale também para o governo rediscutir de que forma e com que meios irá qualificar os precários serviços de saúde pública do Brasil. 

E a reprovação vale para CPMF, como também para qualquer tentativa malandra dos governos quererem elevar a já pesada carga tributária. É muito dinheiro que se tira da sociedade com resultado zero de retorno.  

Brasileiros acham que governo arrecada muito e gasta mal

Exame.com e informações da Agência EFE

Pesquisa encomendada pela CNI mostrou que 87% da população considera que impostos no país estão muito elevados

VEJA SP
Atendimento em Hospital Público de São Paulo:
saúde pública é reprovada por 81% dos brasileiros

Rio de Janeiro - Um total de 81% dos brasileiros considera que o governo oferece serviços de baixa qualidade por usar de forma inadequada a alta arrecadação de impostos, segundo uma enquete divulgada nesta quarta-feira pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

A pesquisa, realizada em parceria com o Ibope em dezembro do ano passado, mostrou que a maioria dos brasileiros considera que está pagando mais impostos e recebendo menos serviços.

Uma parcela de 87% dos 2.002 contribuintes entrevistados em 140 municípios considera que os tributos que se pagam no Brasil são "muito elevados" enquanto apenas 7% qualifica o valor como "adequado".

Da mesma forma, 79% opina que os impostos aumentaram nos últimos anos, contra 3% que considera que "se reduziram um pouco".

Segundo um estudo divulgado no mês passado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), a carga tributária do país subiu o equivalente a 34,41% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009 até o recorde de 35,04% do PIB no ano passado.

Isso significa que o Estado fica com um pouco mais de um terço de tudo o que é produzido no Brasil.

Dos entrevistados, 82% das pessoas que participaram da enquete acredita que o governo arrecada recursos suficientes para melhorar os serviços que oferece.

Os contribuintes só aprovaram com mais de 50% quatro dos 12 serviços públicos sobre os que foram consultados.

Do total 75% aprovou o serviço de energia elétrica, 66% considerou positivo o fornecimento de água, 61% se disse satisfeito com a iluminação pública e 52% com a educação superior.

A limpeza pública foi aprovada por 50% e reprovada pela outra metade.

Em paralelo, 81% qualificou como baixa ou muito baixa qualidade a saúde pública e 72% reprovou a segurança pública.

O economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco, associa a má qualidade do serviço de saúde à má gestão dos recursos públicos e não à falta de dinheiro.

Os brasileiros descartam que sejam necessárias "novas fontes de receita fiscal para melhorar o setor devido a que consideram que a carga tributária já é muito elevada", resumiu Castelo Branco.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O resultado da pesquisa tem a virtude de, ao menos, levantar uma dúvida sobre a veracidade daquele estupendo índice de aprovação do governo Lula, apontado pelos institutos de pesquisa, não é mesmo?

Somos todos japoneses

Carlos Brickmann (*) , Brickmann & Associados Comunicação

As vidas não se repõem, a dor só o tempo reduz, a tragédia não morre; ao contrário das vítimas, vive para sempre.

Mas o Japão, atingido por um maremoto de grande violência, varrido por um tsunami inacreditável, sacudido por terremotos sucessivos, sofrendo as consequências ainda de alcance desconhecido de explosões em usinas nucleares, este retornará logo à vida normal - e talvez com uma pujança econômica que havia desaparecido nas últimas décadas. Disciplinados, eficientes, corajosos, os japoneses não enfrentam seu primeiro desafio. Como sempre, irão vencê-lo.

O principal problema econômico do Japão nos últimos anos foi uma combinação de endividamento e, talvez para enfrentá-lo, pouco apetite da população por novos gastos. Isto acabou: as políticas econômicas restritivas não têm como sobreviver aos quase US$ 500 bilhões de dólares que o Governo prometeu injetar na economia e aos investimentos públicos que serão necessários para reconstruir o país - os cálculos, no início da semana, atingiam US$ 180 bilhões. A queda no número de empregos (que trouxe de volta ao Brasil grande número de trabalhadores que haviam se mudado para o Japão) também deve desaparecer: reconstruir um país exige trabalho, investimento, gente empregada.

A tragédia cobra seu tributo em privações e sofrimento. E abre a oportunidade para que o Japão se reconstrua ainda mais moderno, aproveitando as lições do abismo para que o país futuro seja melhor e mais seguro. É esperar para ver.

Mas há quem não aprenda
A tragédia japonesa levou o mundo inteiro a reexaminar as usinas nucleares. O mundo inteiro, não: o Brasil, diz o ministro Édison Lobão, não vai rever nada. Ainda quer mais quatro usinas atômicas. "As dificuldades que as usinas do Japão tiveram as nossas não terão", adivinhou Sua Excelência. "As nossas têm proteção muito maior". Decretada a superioridade da indústria nacional sobre a japonesa, Lobão diz que as usinas de Angra "foram feitas com a melhor tecnologia existente" - até, supõe-se, Angra 1, ou "vagalume", de tanto que acende e apaga. "A melhor tecnologia existente" são várias: Angra 1, americana, da Westinghouse; Angra 2, alemã, da KWU; Angra 3, francesa, da Alstom.

Homossexuais...
O ministro das Comunicações do Irã repetiu, em visita ao Brasil, que em seu país não há homossexuais. Como sabemos de experiência própria, ministro não mente. Se diz que não há homossexuais no Irã, é porque não há homossexuais no Irã. Mas, de acordo com o Relatório Kinsey, todos os povos incluem cerca de 10% de gays. Se a Revolução Islâmica sustenta que no Irã não há homossexuais, que aconteceu com os 10% que lá havia antes que tomasse o poder? Foram expulsos? Executados? Obrigados, sabe-se lá como, a voltar para o armário?

...onde estão?
Se não há gays no Irã, por que a lei de lá prevê a pena de morte para eles?

Sem amor...
Do excelente jornalista José Nello Marques, comentando a criação do Dia do Quadrilheiro Junino: "Precisa criar o Dia do Quadrilheiro Janeirino, Fevereirino, Marciano, Abrilino... Não vai faltar homenagem".

De Eliza Besen, assídua leitora desta coluna: "Falta criar o Dia do Edital Dirigido, que será comemorado todos os dias".

Do fiel leitor José Luiz Mello Jr.: "Quem sabe não vem por aí, também, o Dia do Traficante de Influências"?

Ué: por que só de Influências?

...no coração
Dizem que um advogado, preocupado com o caso do Mensalão, aconselhou o ex-deputado José Genoíno, do PT paulista, a cuidar da defesa. E é o que ele, com a inestimável ajuda do ministro Nelson Jobim, está fazendo.

Jogo de números
A nova moda da insegurança em São Paulo é o arrastão em restaurantes. Nesta segunda, houve um assalto pertinho da avenida Paulista, a principal da cidade. Quatro homens fortemente armados roubaram quinze clientes.

Ué, mas os números da segurança em São Paulo não indicam a queda do número de crimes? Sim. Mas este assalto, com 15 pessoas roubadas, é contabilizado como 1 (hum) crime. Se alguém jogar uma bomba num estádio e matar dez mil pessoas, isto é contado como 1 (hum) crime. Estatística pode ser como o biquíni: mostra muito mas esconde o essencial.

Entregou
Twitter é um perigo: foi pelo twitter que a ministra das Comunicações, Helena Chagas, bateu duro em vários aliados do Governo; foi pelo twitter que o jogador Jucilei rompeu relações com a torcida organizada Gaviões da Fiel. O twitter é rápido e o dono nem sempre o acompanha. O senador tucano Aloysio Nunes (SP) entrou via twitter na briga entre o ex e o atual secretário da Segurança de São Paulo: "Policiais que costumam pegar envelopes de bandidos filmam o Secretario Ferreira Pinto entregando envelope a jornalista".

Admitiu aquilo que até agora era negado e que nem o vídeo que citou esclarecia: que o secretário entregou mesmo um envelope ao jornalista.

(*) Publicado no site: www.brickmann.com.br / e-mail: brickmann@brickmann.com.br

Desastres naturais: estamos preparados?

Carla Delecrode, Opinião & Notícia

Especialista analisa o despreparo do Rio de Janeiro para enfrentar situações extremas.

O Japão lida com os efeitos do maior terremoto da história do país

Depois da tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, mais um desastre natural– de promoções lamentavelmente muito maiores– ganhou destaque na mídia. O terremoto do Japão, seguido de um tsunami na última sexta-feira, 11, entra para a história como o maior já ocorrido no país e como possivelmente o desastre mais caro da humanidade, com prejuízos estimados de pelo menos R$ 166 bilhões. As dúvidas que ficam são quanto à eficiência dos governos em lidar com situações extremas e se as autoridades estão preparadas para atender com rapidez os milhares de afetados.

No Brasil, a proporção das chuvas da Região Serrana do Rio de Janeiro evidenciou o despreparo do governo em lidar com tais situações, já que, somente após a catástrofe, as autoridades começaram a falar sobre a importância de um plano de emergência para responder a desastres naturais. No Japão, a realidade era outra. A preparação contra terremotos e outros desastres sempre foi uma preocupação do governo. As crianças são treinadas nas escolas para saberem como agir nestes casos. Há planejamento, monitoramento e alerta. Existem áreas de refúgio e prédios preparados para suportar os tremores.

Para o engenheiro André Dantas, especialista em Logística de Desastres, as principais falhas no evento do Rio foi o repasse de informações e falta de coordenação pelas autoridades. Além disso, a falta de treinamento da comunidade para saber agir em tais situações também é fundamental. “Outra questão é que a comunidade precisa receber a informação e tem de saber o que fazer com ela. Se não houver treinamento isto não vai acontecer.”

No quesito treinamento, o Japão é modelo. O país realiza treinamentos de emergência com a população uma vez por ano. O mesmo acontece na Nova Zelândia. “O resultado é que, por exemplo, teve um terremoto de 7,4 graus em setembro na Nova Zelândia e sabe quantas pessoas morreram? Zero. Um evento de deslizamento de terra, desculpe dizer, é uma mixaria perto de um terremoto. Ou seja: o que aconteceu na Região Serrana do Rio é inaceitável. E posso afirmar que não é falta de recursos financeiros. O que as grandes universidades brasileiras tem de recurso para dois meses eu tinha para um ano inteiro na Nova Zelândia.”, afirmou o especialista ao portal iG.

Até o momento, as autoridades japonesas contabilizam os prejuízos humanos e materiais, sendo estimados 10 mil mortos, mais de 20 mil edifícios abalados e 450 mil japoneses fora de casa. Cerca de 1,4 milhão de pessoas estão sem água, mais de 500 mil estão alojadas nos 2 mil centros de evacuação. Segundo a ONU, 2,6 milhões de casas estão sem eletricidade e 3,2 milhões de pessoas sem abastecimento de gás. Em proporções mínimas, diante dos números do Japão, a situação da Região Serrana dois meses após as chuvas ainda é bastante complicada.

As prefeituras tentam reconstruir as cidades, enquanto ainda procuram 347 desaparecidos, tendo confirmadas mais de 900 mortos. Segundo o Diário de Pernambuco, somente em Nova Friburgo, que é uma das cidades fluminenses mais atingidas pelas chuvas, mais de 340 famílias ainda vivem nos 26 abrigos improvisados e ainda há bairros inteiros cobertos de lama. A Empresa de Obras Públicas do estado (Emop) estima que a reconstrução dos sete municípios atingidos deva levar cerca de dois anos e meio. O Japão enfrenta a crise humanitária de uma forma mais organizada e menos violenta. Até agora, nenhum episódio de saque ou briga foi registrado no país, o contrário do que ocorreu no Rio.

Costa Rica x Rio de Janeiro
Costa Rica tem uma topografia semelhante a do Rio de Janeiro e, em 2010, passou por um grande volume de chuvas. A diferença é que no país existe plano de emergência bem coordenado para responder a situações extremas, como no caso de um grande volume de chuvas, o que reduziu bastante o impacto das enchentes nas regiões afetadas.

Lá, se o Instituto Nacional de Meteorologia da Costa Rica detectar indícios de um possível desastre natural é emitido um aviso metereológico para Comissão Nacional de Emergência (CNE). A informação é repassada para Comitês Locais de Emergência que acionam os mecanismos de resposta e logística. Esses comitês locais, por sua vez, colocam em funcionamento os Centros de Coordenação de Operações, que coordenam evacuação, resgate, abrigos, avaliação de danos, análise de necessidades, aviões e distribuição de assistência humanitária e doações à comunidade.

As tarefas são divididas entre as instituições. O Centro de Operações de Emergência (COE) coordena, com os comitês locais, o suporte logístico e operacional da emergência e o CNE supre o abastecimento de água engarrafada e comida para os abrigos. Após a tragédia, o CNE passa a trabalhar na recuperação das áreas afetadas.

“Minha conclusão é que não há nenhuma coordenação por parte das instituições no Rio de Janeiro. Ou seja: mesmo se houvesse um sistema que detectasse com 24 horas de antecedência o que iria ocorrer não adiantaria”, concluiu o engenheiro Dantas.