Rogério Mori (*) – Brasil Econômico
Desde fins de 2010 o Banco Central (BC) vem promovendo uma sequência de ações no sentido de tentar desacelerar o ritmo da expansão da demanda agregada e, com isso, evitar pressões inflacionárias.
De fato, o BC tem se mostrado relativamente preocupado com a elevação da inflação recentemente e existem razões concretas para isso: a variação acumulada do IPCA nos últimos doze meses terminados em fevereiro chegou a 6,0%, ficando cada vez mais distante do centro da meta de 4,5% e se aproximando do limite superior de tolerância.
É claro que as altas dos preços dos alimentos e transportes contribuíram para esse quadro, mas não se pode desconsiderar que desde meados do ano passado a inflação tem apresentado uma trajetória de alta.
Sob essa perspectiva, embora as medidas de aperto monetário e de crédito tenham sido adotadas apenas no fim de 2010 e no começo deste ano, alguns sinais de desaceleração no ritmo da atividade econômica começam a ser delineados.
A produção industrial, por exemplo, recuou em novembro e também em dezembro, já em janeiro deste ano, ficou praticamente estável. Da mesma forma, o emprego na indústria também tem se mantido relativamente estável nos últimos meses.
É claro que esses sinais não representam uma resposta direta ao aperto promovido pelo Banco Central, uma vez que existe uma defasagem de alguns meses entre a implementação de ações de política monetária e seus efeitos sobre a atividade econômica e o ritmo da inflação. Por isso, é mais provável que esses sinais signifiquem uma acomodação da atividade econômica nesse período.
Sob essa perspectiva, a questão chave nessa discussão se centra sobre as perspectivas de médio prazo do ritmo da atividade econômica brasileira. Caso os sinais de acomodação permaneçam, é provável que o Banco Central abrevie o processo de elevação da taxa básica de juros e mantenha o grau de aperto monetário relativo condicionado à trajetória da inflação.
Alternativamente, caso a atividade continue dando mostras de vigor mais adiante e a inflação não ceda, é razoável supor que o Banco Central prossiga na alta de juros por mais tempo.
Nesse contexto, dada a importância dessa questão, é importante ressaltar que interpretar o que está acontecendo com a atividade econômica não é uma tarefa simples no caso brasileiro, uma vez que boa parte dos indicadores são divulgados com uma grande defasagem e muitos deles não têm boa capacidade indicativa quanto ao que de fato está ocorrendo no contexto da economia.
Esse processo tende a ficar ainda mais complexo em momentos de inversão do ciclo econômico, quando as indicações proporcionadas pelos diversos indicadores tendem a não apontar na mesma direção.
De qualquer forma, as informações a ser divulgadas nas próximas semanas terão um peso na decisão do Banco Central com relação a taxa de juros, a Selic. Da mesma forma, o Banco Central também ficará de olho na velocidade da expansão do crédito e também não devem ser inteiramente descartadas novas medidas nessa área.
(*) Rogério Mori é professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas