quinta-feira, março 17, 2011

Quando um ministro se junta aos ignorantes e terroristas do clima.

Adelson Elias Vasconcellos

Nestes terríveis dias que se seguem ao terremoto – melhor seria dizer “terremotos” – no Japão e o tsunami que se seguiu, chega a ser divertido ler-se nos portais da internet, os comentários feitos a partir das notícias que vão chegando e sendo veiculadas.

Nunca li, numa mesma época, tanta porcaria e ignorância conjugadas sobre aquelas duas tragédias naturais. Tragédias naturais porque independem da ação humana para acontecerem. E acontecerem há milhões de anos no planeta em que vivemos, mesmo até antes do surgimento do primeiro humano.

Identificamos duas correntes bem características neste grupo de misto de terroristas com suprema ignorância. Claro, todos têm o sagrado a se manifestar, mas poderiam ao menos se vestir do senso de ridículo, informar-se melhor e somente então manifestar-se.

Um primeiro grupo são os apocalípticos, aqueles que desenham o fim do mundo com qualquer tremor de terra de escala até insignificante. Estes lembram em detalhes as profecias, até as mais absurdas. Tentam encaixar nas previsões de final dos tempos os acontecimentos e de tal forma que os desastres se tornam ponto de partida para os horrores do fim da nossa existência. Menos mal que a humanidade tornou-se menos cativa a este discurso estúpido. Mas eles insistem com suas “verdades bíblicas, sacrossantas, e ai de quem os confrontar com a realidade!

Mas é no segundo grupo de “apocalípticos” que residem o mal maior. São os profetas do clima, aqueles que qualquer vulcão em erupção é fruto da ação maldosa do ser humano, gente que adoraria andar sobre quatro patas e comer capim e morar em árvores. Estes são supremos em sua predatória do bom senso e até do conhecimento, porque falam em linguagem pseudo científico para condenar a espécie humana às profundezas do inferno, tudo porque, há milhares de anos atrás, alguém resolveu sair das cavernas.

Para estes mentecaptos, os terremotos e o tsunami são obra danosa da ação humana, que destrói o planeta e a vida. Não passa pela mente destes asnos que sequer é possível para o conhecimento humano prever o momento exato de um terremoto. Sequer é possível ainda reduzir sua virulência, quanto mais termos capacidade de intervir e até de evitar que aconteçam. Assim, o que se lê de asneiras do tipo ser o terremoto no Japão fruto do aquecimento global, é simplesmente um grandioso espetáculo ... de ignorância.

Será que este povo todo não consegue pensar com mais de um neurônio? E não seria possível antes de escreverem tanta sandice ao menos pegar um pouquinho que fosse de informação para evitarem o absurdo que é destacar o aquecimento global como responsável por qualquer terremoto? Claro que a grande maioria das pessoas que leem tais barbaridades não se deixam levar justamente por seu grau de informação. Mas há quem bate palmas para os absurdos que se escrevem e saem por aí proclamando que o homem é um bicho do demo.

Mas que a ignorância alimente estes absurdos é até compreensível. Injustificável, para se dizer o mínimo, foi a manifestação do ministro Carlos Lupi sobre as consequências. Mesmo que suas afirmações representassem a mais pura e cristalina das verdades, a importunidade em que as mesmas foram expressas é injustificável para um ministro que, muito ou pouco, representa uma fala oficial de um país chamado Brasil.

E o que disse o apalermado? Isto: “O Brasil vai acabar, apesar de não desejarmos essa tragédia para ninguém, não tendo prejuízo, até ganhando com isso”, afirmou. Segundo o ministro, haverá grande demanda por produtos brasileiros durante a reconstrução de cidades japonesas, como alimentos. “Ao mesmo tempo que vai ter o efeito [negativo] em alguns setores de minérios, vai ter um efeito de melhorar outros setores de exportação para reconstruir um novo Japão. Perde por um lado e ganha para outro, mas a média acho que será positiva”, afirmou.

Muito bem, digamos que Lupi tenha sido apenas pragmático. Mas lá isso são horas de se especular sobre o assunto? Não seria o momento para ele, ao menos, ficar de bico calado, dizendo lamentar o sofrimento pelo qual passa o povo japonês, e até se prontificar, em nome de sua pasta, a estender toda a ajuda que aquele país está a merecer? Não dizer nada, em determinadas ocasiões, senhor ministro, além de representar boa educação, acaba sendo muito mais inteligente...

Aliás, o exemplo de civilidade que o povo japonês tem demonstrado neste momento que, em qualquer outro país seria motivo para pânico, deveria ser copiado e elogiado pelo restante do mundo. Incrível saber-se que, apesar do desastre e todas as consequências ruins que ela vai provocando, como falta de energia, escassez de alimentos e água potável, racionamento de combustível, não se computou até agora um único ato de violência ou de saque. Como sempre digo, o que nos qualifica, ou desqualifica a depender do caso, são os atos que praticamos diante de certa situações de dificuldades, principalmente, a maneira civilizada como reagimos diante da dor e do sofrimento, muito mais do que qualquer papo furado por mais colorido com que ele se reveste.

No caso do ministro Lupi, é o exemplo típico de alguém que perdeu ótima oportunidade de ficar de boca fechada.