quinta-feira, dezembro 27, 2012

Torcendo para dar certo em 2013


Adelson Elias Vasconcellos

Há uns dois meses atrás, afirmamos aqui que era ótimo saber que faltava pouco para 2012 se encerrar. Tal comentário era a propósito de inúmeras reavaliações do PIB brasileiro, cada vez mais curto. Se não faltasse tão pouco tempo e, certamente, nosso crescimento acabaria se tornando negativo.

Na semana passada, reproduzimos aqui inúmeros textos sobre as projeções da turma do governo sobre o comportamento do PIB, passado e futuro. Para o próximo ano,  Mantega cravou uns 4%, com a tradicional margem de erro de 2% pontos percentuais para menos. A soberana, do alto de sua empáfia, afirmou categórica que 2013 seria o “ano” e que gostaria de receber como presente de natal um “pibão”.

Pois então: a gente até tenta acreditar na turma, procuramos nos manter tão otimistas quanto Guido Mantega, mas, acreditem, é difícil. Não que o Brasil não tenha potencial, não que nos faltem oportunidades. O governo petista tem oposição a atrapalhá-lo! Nada disso. Só que a colheita sempre será na razão direta da semeadura.

Ora,  tirando os juros puxados para baixo, que outro dever de casa o governo Dilma realizou capaz de se poder afirmar, plenamente, que a coisa agora vai?

Um governo que navega na superficialidade de entender que, para o crescimento ser robusto basta apenas  consumir, não pode colher outros resultados senão o que temos visto. A capacidade de crescimento, em casos assim, fica restrita à capacidade de renda dos brasileiros que, todos sabemos, é muito baixa. 

Por outro lado, desde setembro,  Dilma editou marcos regulatórios na área de portos, aeroportos, elétrico e ferrovias. Em todos se observa a presença do estado como sócio e a redução das margens de lucros das empresas que se aventurarem nesta empreitada. Há um enorme preconceito em relação ao capital privado e, mais fortemente, se este capital vier de investidores globais.

Em sua mensagem de Natal à Nação, a presidente pediu que os empresários confiassem no Brasil. Nem precisava. A questão não é a confiança no Brasil, coisa que jamais faltou em tempo algum. O problema central da falta e até da queda de investimentos é a falta de confiança no governo e seus excessos: excesso de intervencionismo, excesso de regras instáveis sujeitas a chuvas e trovoadas, excesso de Estado como sujeito econômico ativo ao invés de mobilizador, regulador e fiscalizador, excesso de burocracia.   Assim, não há boa vontade empresarial que aguente tanto excesso!!! Sem considerar que, pelo tamanho excessivo e opressor do Estado, o empresário brasileiro precisava sustentar uma das mais altas cargas tributárias do planeta e sem que tenha o retorno correspondente.

E aí a gente olha para as manchetes do dia e se depare com esta:     Mercado eleva projeções para inflação e reduz PIB de 2013. 

A  inflação já sobe para 5,69% e o crescimento cai para 3,3. E olhem que o cálculo sofreu uma intervenção  cirúrgica do IBGE  que o torna menor do que seria no regime anterior! 

E atenção: 2013 nem começou, e o PIB se ensaia menor que o projetado por Mantega. Por enquanto, se mantém dentro da margem de erro para menos, que tem sido a praxe das previsões do Ministro. 

Claro que ainda é um pouco mais do que sido a média do governo Dilma, mas é bom não esquecermos que tal projeção é calculada em cima de uma base fraca. Qualquer movimento mais ou menos positivo  já seria suficiente para que o índice de 2013 seja melhor do que foram 2011 e 2012. 

Mesmo assim, vamos manter o otimismo. Aí a gente olha para os tais marcos regulatórios que teriam o dom de atrair investimentos polpudos e bate o desânimo.  Porque o governo insiste na velha toada de tratar muito mal a quem só pode nos fazer bem. 

Mas é Natal, ano novo, festas prá lá e para cá, em seguida tem carnaval e lá por março o Brasil volta à sua realidade. Dureza, não é mesmo?

Enquanto a massa se delicia nestes meses de farras e festas, férias com muito sol, mar, com o barquinho deslizando mansamente no azul, verde e amarelo do horizonte,  vamos torcer para que os bons ventos voltem a assoprar em nosso  favor. Vamos precisar muito disso. Afinal, um Congresso que entra em recesso sem ao menos aprovar o orçamento para o ano seguinte, deixando a presidência sem instrumentos para manter programas e investimentos, demonstra bem o estado de indigência a que o parlamento brasileiro foi entregue.

Seria ótimo que, neste intervalo, o governo Dilma e sua equipe econômica refletissem melhor sobre o diagnóstico que têm feito sobre “o que está faltando fazer”  para que o nosso PIB de cada dia seja mais gordo do que tem sido. O passo inicial, quero crer, seria abandonar, de vez, a desculpa de imputar à crise econômica de alguns países da União Europeia as causas e os males de nosso baixo crescimento. 

Que a crise de lá atrapalha, não se tem duvidas,  mas isto não é tão grave empecilho para que  o país implemente as reformas estruturais que se fazem necessárias. Contudo, preferem agir na periferia, no cosmético, quando se impõe maior coragem e ousadia para atacar questões importantes como reforma tributária por exemplo. Além disso, seria imprescindível que o governo Dilma atentasse um pouco para a expansão do gasto público em detrimento dos investimentos. Como seria prudente e aconselhável que revisse os tais marcos regulatórios que andou editando para deles retirar o ranço ideológico que os acompanhe e jogasse no lixo o preconceito contra o capital privado.

É possível em 2013, até por ser ano pré-eleitoral, que o governo se esqueça da prudência e ponha o pé no acelerador dos gastos, tentando, artificialmente, ganhar musculatura para em 2014 se habilitar à reeleição (se Lula não mudar de ideia, é claro). 

De qualquer forma, doravante, nossas posições críticas serão ainda mais severas. Entrando em seu terceiro ano de mandato, Dilma não tem mais muito espaço para agir, tampouco desculpas para o deixar de fazer. Os pacotes que, no seu entendimento, serviriam para impulsionar nosso crescimento, já estão na praça, podem e devem ser aperfeiçoados. Mas precisam apresentar resultados concretos e, dado o tempo com que foram preparados, não podem errar a mão. 

Portanto, a nós brasileiros resta torcer e rezar. Rezar muito para tudo dar certo.  

Como afirmamos recentemente, não há bem que sempre dure nem mal que não se acabe. Se em 2012 o país conseguiu julgar e condenar José Dirceu & Cia., por que não conseguirá, em futuro breve, se livrar da gangue de ineptos instalada no poder?

Inflação, pecado e virtude


Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Privatização do Galeão, prevista pelo menos desde 2006, saiu agora, mas com o leilão previsto para setembro de 2013. Sabem como é complicado preparar a papelada!

Em 2011, a inflação oficial, medida pelo IPCA, índice do IBGE, bateu em exatos 6,5%, no teto da margem de tolerância. Neste ano, deve ficar um pouco abaixo de 6%, com alguma desinflação, diz o governo.

Certo?

Errado, nota o economista Alexandre Schwartsman. Acontece que, a partir de janeiro deste ano, o IBGE introduziu modificações nas ponderações do índice. Essas mudanças empurraram o número para baixo.

Sem as mudanças, a inflação deste ano cravaria nos mesmos 6,5% do ano passado. Os economistas não estão contestando as mudanças técnicas feitas pelo IBGE. Mas, nota Schwartsman, a análise mostra que, a rigor, não houve desaceleração da inflação neste ano.

A inflação como virtude
O novo primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, fixou como prioridade: elevar a meta de inflação.

Isso mesmo. Verdade que ele quer chegar a 2% de inflação neste ano, número que é uma mixaria para padrões brasileiros. Aqui, seria o mesmo que zero.

Já no Japão, o problema é o inverso, a deflação, uma queda generalizada no nível de preços, que ocorre há anos. Se na inflação a moeda perde valor a cada dia, na deflação, o dinheiro se valoriza. Amanhã se compra mais.

Isso inibe consumo e investimentos e o país simplesmente para de crescer. Logo, a saída é a volta da inflação – fazer o dinheiro desvalorizar para estimular consumo e investimento.

O Banco Central do Japão não gostou da meta. Disse ser “irrealista”. Quer dizer, eles acham que não conseguem os 2% de alta de preços.

Sugestão: eles poderiam importar técnicos do BC e do Ministério da Fazenda brasileiros. O pessoal aqui faz 2% num trimestre, brincando.

Em troca, os japoneses nos mandam os técnicos para ensinar como se joga a inflação no chão.

De estatal para estatal
A presidente Dilma convenceu-se de que não há como melhorar os aeroportos sem entregá-los à gestão privada. Tenta dar sequência a essa conclusão com as concessões dos principais aeroportos, mas as ideias estatizantes estão tão enraizadas que ela não consegue evitar. Toda vez que privatiza, cria uma estatal.

A última é a Infraero Serviços, criada com o programa de privatização dos aeroportos do Galeão, Rio, e de Confins, Belo Horizonte. Essa estatal nova, subsidiária da velha Infraero, vai prestar serviços não se sabe quais e a aeroportos também não se sabe quais. Vai aqui uma sugestão: a velha Infraero poderia contratar a Infraero Serviços para cuidar do ar-condicionado do Santos Dumont, quebrado por semanas, em pleno verão carioca.

Cobrança.
No mesmo anúncio de privatização, o governo anunciou que vai investir R$ 7,3 bilhões em 270 aeroportos regionais pelo país afora. Foi uma decepção. Dias antes, em Paris, a presidente Dilma havia falado em criar e/ou melhorar nada menos que 800 aeroportos regionais. Não se explicou a redução. É hábito do governo anunciar grandes projetos, sem dar maiores detalhes. Como os investimentos não são especificados, muitos menos os prazos, não há como cobrar. De todo modo, considere a eficiência. O orçamento federal deste ano previa investimentos de R$ 90 bilhões. Até o início de dezembro, tinham conseguido gastar algo como R$ 40 bilhões. Atrasos da Copa. E por falar em cobrança: em 4 de fevereiro de 2009, o então ministro dos Esportes, Orlando Silva, garantia que todos os 12 estádios da Copa estariam prontos e funcionando em dezembro de 2012.

Estão inaugurados dois, o Mineirão e o de Fortaleza. Ainda sem jogos de futebol.

Ainda nesse capítulo: em janeiro de 2010, os governos federal, estaduais e municipais assinaram um documento chamado “matriz de responsabilidade”. Previa que as obras de mobilidade urbana, que seriam o principal legado da Copa, estariam prontas em dezembro de 2012 ou, no mais tardar, no primeiro semestre de 2013.

Sem chance. Muitas foram simplesmente descartadas, as que começaram, estão atrasadas. Diversas estão prometidas para... depois da Copa.

Atrasos 2
E por falar nisso: o governo federal estuda a privatização do Galeão pelo menos desde 2006, quando o então recém-eleito governador Sérgio Cabral reivindicou a medida. Em 2011, Dilma disse que a decisão estava tomada pela concessão. Saiu agora, mas com o leilão previsto para setembro de 2013.

Sabem como é: complicado preparar a papelada.

Sem luz
Faltou energia em vários bairros de São Paulo e em cidades do interior paulista na noite de Natal. No dia 26, faltava energia em Santa Teresa, no Rio, além de outros bairros. As companhias distribuidoras simplesmente não explicaram.

Também, especulamos nós, com essa mania de iluminar fachadas, árvores, ruas... Culpa do espírito natalino, não é mesmo?

A lógica desastrosa de Lula sobre a imprensa


Eugênio Bucci
Revista ÉPOCA

Há coisa de dez dias, em Paris, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reclamou dos jornais. De novo. "Quando político é denunciado, a cara dele sai noite e dia nos jornais", disse ele. Na sequência, lançou uma acusação baixa contra a imprensa: "Vocês já viram banqueiro nos jornais? São eles que pagam as publicidades da mídia".

Segundo Lula, os anunciantes estão a salvo das reportagens investigativas, pois os repórteres e os editores não têm a dignidade de apurar os fatos e de publicá-los com um grau mínimo de independência crítica.

Claro: os jornalistas de brio, honrados, foram ultrajados por ele. O interessante é que quase ninguém se deu ao trabalho de responder à ofensa. Por que será?

Existe uma explicação. Essa história de político falando mal dos jornais e das revistas já se banalizou. Virou uma epidemia. Lula não é o único, embora seja dos mais reincidentes.

Há cerca de dois meses, no final da campanha municipal, em São Paulo, o então candidato a prefeito José Serra (PSDB) deu de acusar os repórteres que formulavam perguntas incômodas (na opinião dele) de ser agentes de "pautas petistas". Ao desqualificar os profissionais que cumpriam seu dever de perguntar, procurava se esquivar das indagações e, em parte, foi bem-sucedido na manobra.

Lula, outra vez, lança mão do mesmo truque. Quando lhe cobram explicações sobre os escândalos de seu partido, investe contra a reportagem. Como ele fala isso a toda hora, seus vitupérios já não chamam a atenção. Deixaram de ser notícia. Daí que os próprios jornalistas não se dão ao trabalho de responder.

Desta vez, porém, uma resposta não pode faltar. O julgamento de Lula está baseado em quatro grandes mentiras, que desinformam a sociedade e podem induzir a enganos desastrosos. Por isso, tratemos de pôr as coisas a limpo.

Primeira mentira. Não é verdade que a imprensa não publica reportagens que incomodam banqueiros. Você, leitor, há de se lembrar. Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos; Luís Octávio Índio da Costa, do Banco Cruzeiro do Sul; Salvatore Cacciola, do Banco Marca; Silvio Santos, do Banco Panamericano; Katia Rabello, do Banco Rural; Ricardo Guimarães, do Banco BMG; entre outros, muitos outros, também se lembram muito bem.

Segunda mentira. Não é verdade que os bancos privados são os maiores anunciantes do Brasil. Segundo um levantamento do anuário Mídia Dados, o Bradesco investiu, em 2011, R$ 905 milhões em publicidade. É muito dinheiro.

Mas atenção: a Caixa, que pertence ao governo federal, investiu mais que o Bradesco: R$ 1,092 bilhão.

E os dois maiores anunciantes privados do país em 2011 não têm nada a ver com bancos: Casas Bahia (R$ 3,3 bilhões) e Unilever (R$ 2,6 bilhões).

Terceira mentira. Não é verdade que qualquer acusação contra político vira manchete assim sem mais nem menos. A imprensa erra, claro que erra, deve ser criticada com rigor - mas a imprensa não é uma instituição corrupta, vendida. Nos escândalos recentes (mensalão etc), acertou muito e ajudou a flagrar os bandidos de colarinho branco.

Quarta mentira. Não é verdade que os anunciantes saem sempre bem na foto. Se assim fosse, nenhuma revista, nenhum jornal, ninguém falaria mal dos governos (federal e estaduais), que anunciam bem mais que os banqueiros privados.

Já vimos que a Caixa é um anunciante mastodôntico, assim como o Banco do Brasil (R$ 587 milhões em 2011), e, não obstante, alguns de seus dirigentes andaram frequentando o noticiário.

Somente o Ministério da Educação, segundo estimativas do mesmo Mídia Dados, veiculou anúncios no valor de R$ 298 milhões em 2011 - e nem por isso está a salvo de críticas.

Essas quatro grandes mentiras põem em marcha uma lógica desastrosa. Nos dois governos de Lula, os gastos de dinheiro público em publicidade se mantiveram em crescimento. Hoje, o governo federal, com suas estatais, é um dos maiores anunciantes do mercado.

Agora que sabemos que, na opinião de Lula, os jornalistas são comprados pelos anunciantes, é o caso de perguntar: com que propósito o governo gasta fortunas em comunicação? Será que pretende comprar jornalistas? Será que os anúncios governamentais são uma tentativa de suborno?

Cuidado. Não caia em embromação. A imprensa pode perfeitamente brigar com os anunciantes, sejam eles estatais, governamentais ou privados. Ela pode até perdê-los. O que ela não pode perder é a confiança do leitor, a sua confiança, que vale mais que banco, mais que ouro.

A boa imprensa, aquela que realmente conta, é refém apenas da verdade. Não cede ao dinheiro do anunciante nem aos gritos dos políticos.

O Estado do medo


Marco Antonio Villa
O Globo

Como o Brasil esqueceu o Maranhão, a família faz o que bem entende. E isto desde 1965

Em meio ao processo do mensalão, as diversas operações da Polícia Federal ou a turbulenta relação entre os poderes da República, o Brasil esqueceu do Maranhão. Na fase final da guerra contra Canudos, em 1897, os oficiais militares costumavam dizer que não viam a hora de voltar para o Brasil. Quem hoje visita o Maranhão fica com a mesma impressão. É um estado onde o medo está em cada esquina, onde as leis da República são desprezadas. Lá tudo depende de um sobrenome: Sarney. Os três poderes são controlados pela família do, como diria Euclides da Cunha, senhor do baraço e do cutelo. A relação incestuosa dos poderes é considerada como algo absolutamente natural. Tanto que, em 2009, o Tribunal Regional Eleitoral anulou a eleição para o governo estadual. O vencedor foi Jackson Lago, adversário figadal da oligarquia mais nefasta da história do Brasil. O donatário da capitania – lá ainda se mantém informalmente o regime adotado em 1534 por D. João III – ficou indignado com o resultado das urnas. A eleição acabou anulada pelo TRE, que tinha como vice-presidente (depois assumiu a presidência) a tia da beneficiária, Roseana Sarney.

No estado onde o coronel tudo pode, a Constituição Federal é só um enfeite. Lá, diversos artigos que vigoram em todo o Brasil, são considerados nulos, pela jurisprudência da famiglia . O artigo 37 da nossa Constituição, tanto no caput como no §1º, é muito claro. Reza que a administração pública “obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência” e “a publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”. Contudo, a Constituição maranhense, no artigo 19, XXI, § 9º determina que “é proibida a denominação de obras e logradouros públicos com o nome de pessoas vivas, excetuando-se da aplicação deste dispositivo as pessoas vivas consagradas notória e internacionalmente como ilustres ou que tenham prestado relevantes serviços à comunidade na qual está localizada a obra ou logradouro”.

Note, leitor, especialmente a seguinte passagem: “excetuando-se da aplicação deste dispositivo as pessoas vivas e consagradas notória e internacionalmente como ilustres”. Nem preciso dizer quem é o “mais ilustre” daquele estado – e que o provincianismo e o mandonismo imaginam que tenha “consagração internacional.” Contudo, a redação original do artigo era bem outra: “É vedada a alteração dos nomes dos próprios públicos estaduais e municipais que contenham nome de pessoas, fatos históricos ou geográficos, salvo para correção ou adequação nos termos da lei; é vedada também a inscrição de símbolos ou nomes de autoridades ou administradores em placas indicadores de obras ou em veículos de propriedade ou a serviço da administração pública direta, indireta ou fundacional do Estado e dos Municípios, inclusive a atribuição de nome de pessoa viva a bem público de qualquer natureza pertencente ao Estado e ao Município”.

Quando foi feita a mudança? A 24 de janeiro de 2003, com o apoio decisivo de Roseana Sarney. Desta forma foi permitido que centenas – centenas, sem exagero – de logradouros e edifícios públicos recebessem, em todo o estado, denominações de familiares, especialmente do chefe. Para mostrar o desprezo pela ordem legal, em 1997 foi criado o município de Presidente Sarney, isto quando a Constituição Federal proíbe e a estadual ainda proibia. Quem criou o município? Foi a filha, no exercício do governo. Mas a homenagem ficou somente na denominação do município. Pena. Os pobres sarneyenses – é o gentílico – vivem em condições miseráveis: é um dos municípios que detêm os piores índices de desenvolvimento humano no Brasil.

Como o Brasil esqueceu o Maranhão, a família faz o que bem entende. E isto desde 1965! Sabe que adquiriu impunidade pelo silêncio (cúmplice) dos brasileiros. Mas, no estado onde a política se confunde com o realismo fantástico, o maior equívoco é imaginar que todas as mazelas já foram feitas. Não, absolutamente não. A governadora resolveu fazer uma lei própria sobre licitação. Como é sabido, a lei federal 8.666 regulamenta e tenta moralizar as licitações. Mas não no Maranhão. Por medida provisória, Roseana Sarney adotou uma legislação peculiar, que dispensa a “emergência”, substituída pela “urgência”. Quem determina se é ou não urgente? Bingo, claro, é ela própria. Não satisfeita resolveu eliminar qualquer restrição ao número de aditivos. Ou seja, uma obra pode custar o dobro do que foi contratada. E é tudo legal. Não é um chiste. É algo gravíssimo. E se o Brasil fosse um país sério, certamente teria ocorrido, como dispõe a Constituição, uma intervenção federal. O que lá ocorre horroriza todos aqueles que tem apreço por uma conquista histórica do povo brasileiro: o Estado Democrático de Direito.

O silêncio do Brasil custa caro, muito caro, ao povo do Maranhão. Hoje é o estado mais pobre da Federação. Seus municípios lideram a lista dos que detém os piores índices de desenvolvimento humano. Muitos dos que lá vivem lutam contra os promotores do Estado do medo. Não é tarefa fácil. Os tentáculos da oligarquia estão presentes em toda a sociedade. É como se apresassem para sempre a sociedade civil. Sabemos que o país tem inúmeros problemas, mas temos uma tarefa cívica, a de reincorporar o Maranhão ao Brasil.

A esperteza da Fazenda


Rolf Kuntz
O Estado de S.Paulo

Ainda há esperteza no Ministério da Fazenda, apesar do fiasco econômico dos últimos dois anos e da colocação do Brasil na corrida global - o último dos Brics e um dos últimos entre os países latino-americanos. O ministro Guido Mantega e sua equipe abstiveram-se espertamente de novas estimativas de crescimento, na edição de dezembro de Economia Brasileira em Perspectiva. Esse boletim, uma das mais engraçadas publicações nacionais, é mais uma tentativa de mostrar a economia no rumo certo, fortalecida por grandes inovações e impulsionada por medidas keynesianas. As reformas são uma piada e o keynesianismo é mais que discutível, porque a grande restrição está obviamente do lado da oferta industrial. Keynes é inocente das tolices de seus "discípulos", assim como Marx, Freud, Adam Smith e Maquiavel.

Ao confrontar oferta e demanda, os autores do boletim concentram a atenção no terceiro trimestre de 2012, dando menos destaque, com muita esperteza, aos dados mais amplos. De janeiro a outubro, o volume de vendas do varejo ampliado - com inclusão de veículos, partes e material de construção - foi 14,5% maior do que o de um ano antes. No mesmo período, a produção geral da indústria diminuiu, apesar do estímulo fiscal concedido a setores importantes, e o investimento encolheu.

A análise do cenário, no discurso oficial, é proporcional ao desempenho da economia. Dos quatro grandes componentes da demanda - consumo privado, gasto geral do governo, investimento privado e exportação -, os dois primeiros continuaram em crescimento. O ministro Guido Mantega chamou a atenção, numa entrevista, para a expansão do consumo familiar e o comparou, em tom triunfal, com os números chineses.

Do lado do investimento privado há um evidente problema de insegurança, reconhecido no último Relatório de Inflação do Banco Central (BC). A linguagem segue o padrão da comunicação tortuosa dos BCs: "Por outro lado, a lenta recuperação da confiança contribuiu para que os investimentos ainda não mostrassem reação aos estímulos introduzidos na economia". Outros fatores podem ter contribuído, mas a desconfiança foi certamente um dos mais importantes.

Um quadro incluído no boletim da Fazenda proporciona algumas indicações ignoradas pelo pessoal do governo. Entre 2002 e os 12 meses terminados em outubro de 2012, o valor importado cresceu 375,6%. O exportado, 307,8%. Não houve maior abertura da economia. Logo, a explicação deve estar em outra variável. A expansão do mercado interno deve ser apenas parte da resposta. Nesse período, a participação de bens importados no consumo interno dobrou e superou 20%.

Quando se comparam os últimos dados com os de 2007, o descompasso entre receita e despesa aumenta muito. Nesse intervalo, o valor das importações aumentou 86,1%, enquanto o das exportações cresceu 53,3%. Entre 2002 e os 12 meses até outubro deste ano, a importação subiu 22% mais que a exportação (diferença proporcional entre 375,6% e 307,8%). Entre 2007 e 2012 essa diferença foi de 61,5%.

Não se trata de efeito da crise. Orgulhosamente, o pessoal da Fazenda menciona um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre o efeito da crise nas exportações de emergentes para a zona do euro. Entre o primeiro semestre de 2011 e o primeiro de 2012, o impacto foi de 0,2 ponto porcentual do Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil, muito menor do que na China e na Índia (0,5 ponto, nos dois países), na Rússia (0,7) e na África do Sul (0,8).

Os grandes entraves ao crescimento são internos e incluem sérios problemas sistêmicos de competitividade. Menos festivo que a Fazenda quando trata da economia real, o BC projeta para os quatro trimestres até o terceiro de 2013 um crescimento de 3,3% para o PIB e de apenas 1,9% para a indústria de transformação, insuficiente para compensar a contração deste ano (estimada em 2,3%). O investimento deve aumentar apenas 3,1%, depois de uma redução de 3,5% em 2012. Mas isso dependerá, convém acrescentar, de uma gestão pública muito mais competente. Chamar o juro mais baixo e o dólar mais alto de "nova matriz macroeconômica", com inflação distante da meta e contas públicas expansionistas, nem de longe atende a esse requisito.

Mercado eleva projeções para inflação e reduz PIB de 2013


Reuters

O mercado voltou a elevar suas estimativas para inflação do Brasil em 2012 e 2013 e reviu para baixo sua previsão para o crescimento da economia no próximo ano, segundo pesquisa Focus, do Banco Central, divulgada nesta segunda-feira.

O levantamento elevou a projeção para a inflação medida pelo IPCA neste ano para 5,69 por cento ante estimativa anterior de 5,6 por cento apurada na pesquisa da semana passada. Já a expectativa para o índice em 2013 passou de 5,42 para 5,47 por cento.

A expectativa dos analistas consultados para o Produto Interno Bruto do Brasil em 2012 se manteve em crescimento de 1 por cento, mas o prognóstico para 2013 foi revisto de expansão de 3,4 por cento para crescimento de 3,3 por cento.

Na quinta-feira passada, o BC divulgou que sua previsão para o crescimento do PIB em 2012 havia caído a 1 por cento, ante 1,6 por cento estimado anteriormente, ao mesmo tempo em que elevou suas contas sobre a inflação neste ano. O BC, porém, viu arrefecimento no preços em 2013.

No relatório divulgado nesta segunda-feira, a estimativa do mercado para a taxa básica de juros (Selic) foi mantida em 7,25 por cento para 2013, mesmo percentual estimado para a taxa em janeiro.

Por Alberto Alerigi Jr. 

O tempo é senhor da razão


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Sem afoiteza, sem açodamento: o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, decidiu negar a prisão imediata dos condenados do Mensalão. Se ninguém tentava fugir, se não havia risco à ordem, não via motivo para determinar as prisões neste momento. Não era a tese de Roberto Gurgel, o procurador-geral da República, para quem a prisão imediata mostraria à opinião pública que a justiça tinha sido feita e que, ao contrário do que se acredita, pessoas poderosas poderiam ir para a cadeia.

Gurgel expôs sua opinião, Barbosa decidiu. Com isso, evitou uma crise com data marcada - o pedido de habeas corpus dos réus presos seria apreciado pelo outro ministro de plantão, Ricardo Lewandowski, que poderia soltá-los, e com isso reforçar outra imagem persistente, a de que preso poderoso é logo libertado. Barbosa tirou um argumento da defesa: a de que a prisão teria de esperar o trânsito em julgado. E manteve o caminho aberto para a aplicação das penas, cumpridas todas as formalidades legais, sem possibilidade de esperneio legítimo.

Esperneio ilegítimo haverá sempre. Basta berrar que é golpe do Supremo, que vivemos sob a ditadura do Judiciário, que as teorias de um jurista nazista foram usadas para a condenação (se bem que Claus Roxin, hoje com 82 anos, tivesse 15 aninhos quando o nazismo foi derrotado, e ainda não tivesse elaborado teoria alguma). Não faz mal: isso poupa o trabalho de ler o processo e entendê-lo. Um sonho companheiro: espernear à vontade, sem estudar nem trabalhar.

Pensar no amanhã
O deputado federal Domingos Dutra, do PT maranhense, apresentou projeto que cria prisões mais caprichadas: água quente, cosméticos, academia de ginástica, acesso a jornais, rádio e TV a cabo. Os detentos manteriam os direitos políticos. Dutra é boa gente, pensa no bem-estar futuro dos colegas políticos.

Querida, encolhi os aeroportos

Quarta-feira, 12. Dilma disse em Paris que pretendia construir 800 novos aeroportos regionais no Brasil - a frase exata é "800 ou mais aeroportos regionais".

Sexta-feira, 21. O pacote de Dilma para o setor prevê a construção ou reforma de 270 aeroportos no Brasil. Daqui a dez dias, no ano que vem, quantos serão?

Porteira aberta
Perseguição pode custar caro. Há muitos e muitos anos, o delegado Marcelo Luís Alves de Freitas, SP, efetuou algumas prisões que a Justiça considerou incorretas. O tempo passou. Dezessete anos depois, o governador tucano Geraldo Alckmin abriu procedimento administrativo e demitiu o delegado. A advogada Tânia Lis Tizzoni Nogueira, representante do delegado Freitas, levou o caso ao órgão especial do Tribunal de Justiça e ganhou por unanimidade: 25x0 (o desembargador Caetano Lagrosta disse que mudou o voto após "a brilhante sustentação oral da advogada"). 

Agora, o custo da perseguição: o delegado é reintegrado, o Governo lhe paga dois anos de salários atrasados, e ainda cabe pedido de indenização por dano moral. Mais custos: abriu-se a porteira. Outros delegados perseguidos pelo PSDB podem seguir o caminho indicado neste processo.

O escândalo do aço
O país avança: no século passado, Monteiro Lobato escreveu um livro notável, O Escândalo do Petróleo e do Ferro. Hoje não se discute o ferro, mas o aço inoxidável. O aço inox é produzido no Brasil por uma só empresa, a Arcelor-Mittal, indiana (que comprou a Acesita). 

A empresa exige, para vender, um contrato terrível que prevê aumento de preços se o comprador vier a importar aço. O monopólio conseguiu elevar a alíquota de importação de 14 para 25%. Resultado: os lucros da Arcelor-Mittal na América Latina são o quádruplo dos que obtém nos EUA e Europa. Há denúncias ainda de favorecimento: distribuidoras ligadas ao monopólio estariam comprando a preços mais baixos, quebrando os concorrentes. 

A questão está no Ministério Público e no Governo Federal.

A conta é nossa
O consumidor brasileiro tem tudo a ver com o problema: o custo inflado do aço inox joga para cima o preço de talheres, utensílios domésticos, máquinas para usinas de álcool, equipamentos médicos, indústria de alimentos. Coisa brava.

A moleza é deles
O jornalista Paulino Senra, assíduo leitor desta coluna, informou à AES-Eletropaulo que um poste de iluminação na praça Lions Club, SP, estava apagado. Ganhou um número de protocolo e a promessa de que o conserto seria feito em até 72 horas (o que, a propósito, já é muito: iluminação é segurança). 

Quatro dias depois, ou mais precisamente cem horas, Senra ligou de novo e recebeu a seguinte informação: "Aqui consta que o serviço foi feito". Claro que não tinha sido feito. No dia seguinte, também nada. Trocar a lâmpada eles não trocam, mas "se o serviço foi feito", como dizem (e não aparecem para ver se a lâmpada acende), ainda vão botar em alguma fatura o que não fizeram.

Este colunista tem outra sugestão: que peguem o número do protocolo e botem em algum lugar.

Calendário maia
Fim do mundo é ter este Maia na presidência da Câmara dos Deputados.

Mexeu com a igualdade, mexeu com todo mundo


Fernando Gabeira
O Estado de S.Paulo

O sucesso do filme Lincoln, de Steve Spielberg, inspirou uma série de artigos nos Estados Unidos ressaltando a importância da política, quando é realizada por pessoas generosas com o objetivo de melhorar a vida de milhões.

Os articulistas esperam que a exibição do filme leve os espectadores a lamentar a mediocridade da atmosfera política de hoje e que desperte o desejo de elevar seu nível por meio da própria participação.

Não vi o filme, apenas as entrevistas de Spielberg e de Daniel Day-Lewis, que interpreta Lincoln. Consegui, entretanto, o livro que, de certa forma, inspirou o filme: Team of Rivals, The Political Genius of Abraham Lincoln, de Doris Kearns Goodwin. A autora se estende também na biografia dos três candidatos que disputaram com Lincoln no Partido Republicano. Todos jovens ambiciosos e capazes, admirados pelos seus eleitores.

Não posso prever que efeito o filme terá nos Estados Unidos. Noto apenas que a época empurrava para a grandeza: todos saíram de casa e cruzaram os Estados Unidos para construir sua carreira. E havia um grande tema esperando por eles: a escravidão.

Os grandes temas ajudam, quando os políticos são capazes. Joaquim Nabuco, no Brasil, enriqueceu sua trajetória na luta contra a escravidão. Lincoln é produto de outra cultura e se insere de modo especial no momento político americano. Mas, como a reflexão sobre a política trata de variáveis universais, pode ser que desperte algum interesse no Brasil.

Vivemos um momento estranho. Dois presidentes, José Sarney e Lula, defendem-se reciprocamente com o argumento de que estão acima de suspeitas ou investigações. Sarney conferiu a Lula a condição de inalcançável e este, por sua vez, no auge do escândalo no Senado, afirmou que Sarney não deveria ser tratado como uma pessoa qualquer. Criaram uma irmandade dos intocáveis. Sarney já tem um museu dedicado à sua vida; Lula está a caminho de construir o seu.

Além de intocável e com um museu ainda em vida, Sarney também é imortal. Essa condição ainda falta a Lula, mas não me surpreenderia se o amigo conseguisse para ele uma cadeira na Academia de Letras.

Na década de 1960, escrevi um artigo ironizando as pessoas que se achavam especiais porque moravam em Ipanema. Até hoje rola pela internet. Jovem existencialista, mostrava a futilidade de se julgar especial por pertencer a algum lugar ou grupo ou mesmo por alguma condição nata. Era a forma de negar a importância das opções cotidianas, a construção de nossa realidade por meio das escolhas mais intrincadas. Sarney e Lula não reivindicam uma vantagem nata, muitos menos a que decorre do pertencimento a um grupo ou lugar. Eles se reclamam intocáveis pelos serviços prestados ao País. E nisso reside seu erro monumental. Não existem serviços prestados ao País que possam garantir uma condição acima de qualquer suspeita. E, se foram prestados com essa expectativa, corrompem as suas próprias intenções generosas.

Sarney e Lula fizeram nesse aspecto particular um pacto pelo atraso. Com o domínio do Congresso que o primeiro exerce e a popularidade do segundo, continuam com potencial de mobilizar a maioria. Mas sempre existirá uma minoria, resistindo com a frase tantas vezes subversiva: somos todos iguais perante a lei.

Compreendo que há uma luta política. Os governistas precisam proteger a imagem de Lula, pois ela é a garantia de futuras vitórias eleitorais. O desgaste de Lula enfraquece um projeto de poder.

Não compreendo, entretanto, o argumento que nos faz retroceder ao período anterior à Revolução Francesa. Esse desejo de poder estendido ao controle da biografia, da inevitabilidade da morte, do alcance da lei, é um desejo patético.

Mesmo aqueles que acham que o mundo começou com o nascimento de Lula, em Garanhuns (PE), ou com o nascimento de José Ribamar, em Pinheiro (MA), deveriam ser sensíveis à bandeira da igualdade.

A fraternidade dos intocáveis é uma construção mental que rebaixa as conquistas do movimento pela democratização no Brasil e nos divide entre semideuses e seres humanos.

Na verdade, o argumento dos dois presidentes aprofunda a desconfiança na política e nos políticos. Por isso a chegada de Lincoln, o filme, apesar de uma cultura e uma época diferentes, pode ser um pequeno sopro de ar fresco na sufocante atmosfera política brasileira.

Nem nos Estados Unidos nem aqui é possível repetir a grandeza política de Lincoln. Já no segundo capítulo do livro de Doris Goodwin é possível imaginar como Lincoln brigaria feio com os marqueteiros modernos: ele se recusava a dramatizar ou sentimentalizar sua infância na pobreza.

Ainda assim, com todas as ressalvas, precisamos de outras épocas, outros líderes, para ao menos desejar algo melhor do que o que estamos vivendo. Não me refiro, aqui, à satisfação majoritária com as condições materiais de vida. Muito menos quero dar à trajetória democrática no século 21 a dramaticidade de um tempo de guerra e escravidão.

Quando um presidente do Brasil diz uma barbaridade, sentimos muito. Quando dois presidentes dizem a mesma barbaridade, isso nos obriga a apelar para tudo, até para um bom cinema.

Depois do cha cha cha della secretaria, Lula se vê em apuros com as denúncias de Marcos Valério. Concordo com os petistas de que não se deva confiar nele, embora tenham confiado tão profundamente em 2003. Mas a melhor maneira de desconfiar é analisar as acusações, apurando-as com cuidado. É assim que se descobre o que é verdade e o que é mentira.

Fora disso, só construindo uma redoma onde Lula e Sarney possam estar a salvo dos percalços que ameaçam os simples mortais. E criar essa visão religiosa de uma santíssima dualidade. E ninguém se ajoelha e reza diante dela, porque a ferramenta hoje não é oração do passado. Basta um #tag.

Se Sarney e Lula se contentassem com um museu e a condição de imortais, tudo estaria bem. Mas, mexeu com a igualdade, mexeu com todos nós.

Crescer ou crescer


Paulo Nogueira Batista Jr.
O Globo

Fundamental é, sem dúvida, o crescimento econômico

O ano de 2012 termina com uma grande decepção: o baixo crescimento econômico do Brasil. Pelo segundo ano consecutivo, a economia cresceu a taxas medíocres e até agora não há sinais convincentes de retomada da atividade no seu conjunto. Aqui e ali, apareceram alguns sinais positivos, mas chegamos ao fim do ano sem a superação inequívoca do quadro de semiestagnação.

Não era o que se esperava. O governo reviu para baixo diversas vezes as suas projeções de crescimento ao longo do ano. A maioria dos analistas previa o começo da recuperação para o segundo semestre, mais tardar último trimestre do ano. O “staff” do FMI, por exemplo, esteve no Brasil e preparou relatório prevendo a recuperação no curto prazo.

Uma das razões desse consenso era a percepção de que certas medidas de estímulo adotadas pelo governo teriam de produzir efeito antes do fim do ano. Entre essas medidas, se destaca a diminuição das taxas de juros. Desafiando a sabedoria convencional, a Fazenda e o Banco Central trabalharam de modo coordenado para viabilizar uma queda sem precedentes dos juros no país — mas o crescimento não veio, pelo menos não de imediato.

Não quero dizer que a queda das taxas de juros não tenha sido de grande importância. Ela contribuiu para depreciar o real, ajudando a corrigir uma distorção que minava a competitividade externa da economia. Além disso, juros menores têm importante efeito positivo sobre o custo da dívida do governo. E, como o setor público é credor líquido em moeda estrangeira, a desvalorização cambial também afetou positivamente as finanças públicas. Com o novo patamar de juros e câmbio, diminuiu consideravelmente o superávit primário requerido para estabilizar a relação dívida pública/PIB. Diminuiu também o custo de carregamento das volumosas reservas do país.

Tudo isso é muito bom, mas o fundamental é o crescimento econômico. Para um país em desenvolvimento como o Brasil, com longo caminho a percorrer, não há opção: é crescer ou crescer. Somos a sexta ou sétima maior economia. Mas em termos de renda por habitante estamos ainda muito atrás dos países avançados. Sem crescimento a taxas elevadas, não há como melhorar de forma sustentada a qualidade e o nível de vida da população. Não há como erradicar a pobreza em que ainda vive boa parte dos brasileiros.

Políticas sociais, de cunho distributivo, são indispensáveis. Muito pode ser alcançado em desenvolvimento social com políticas desse cunho, como mostra a experiência brasileira nos últimos dez anos. Mas não se pode ter ilusões: no longo prazo, o que realmente faz diferença é o crescimento. E crescimento de longo prazo implica aumento do investimento e da produtividade.

Com crescimento medíocre tudo fica mais complicado. Sofre a geração de empregos e renda. O ajustamento das contas públicas se torna mais difícil. Os conflitos se intensificam. O horizonte se estreita.
O crescimento não é solução para tudo, mas sem crescimento não há solução para nada.


Mantega, bem vestido e feliz


O Estado de S.Paulo

O homem feliz não tinha camisa, segundo uma velha fábula. Se um camponês pode ser feliz sem camisa, não há por que estranhar a alegria do bem vestido ministro da Fazenda, Guido Mantega, no fim de mais um ano de baixo crescimento econômico, inflação elevada, investimento em queda e muitos tropeços na política econômica. Num psicodélico café da manhã com jornalistas, em Brasília, ele se declarou realizado com as "transformações difíceis e profundas" realizadas em 2012. Mais que isso, classificou como um quase milagre o conjunto de façanhas econômicas dos últimos anos.

Quanto a isso, pelo menos, ele está certo. A economia brasileira cresceu 2,7% em 2011 e a expansão deste ano deve ficar em torno de 1%, segundo a maior parte das estimativas. O desempenho nestes dois anos é um evento quase sobrenatural, quando comparado com o dinamismo exibido por outras economias emergentes da América Latina e da Ásia. Dificilmente um governo formado por pessoas sem atributos extraordinários conseguiria exibir resultado semelhante. Mas não só o Brasil, segundo o ministro, teve em 2012 um crescimento inferior ao desejado.

O mundo desacelerou, disse ele, destacando como exemplo o caso da China. Pura verdade. A economia chinesa deve fechar o ano com um crescimento de uns 7,5%, enquanto outros países em desenvolvimento devem ter ficado na faixa de 4% a 6% ou pouco mais, embora também sujeitos aos impactos da crise global.

Outros arroubos de autocongratulação poderiam causar inveja ao homem sem camisa, deixando-o, talvez, menos feliz. Errou, segundo Mantega, quem acusou o governo de apenas estimular o consumo. Sem o incentivo aos consumidores, argumentou o ministro, os empresários dificilmente investiriam. Mas o investimento diminuiu, como ele mesmo reconheceu. Não se abateu, no entanto: no próximo ano o valor investido crescerá e chegará mais perto de 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Em outras palavras: voltará ao nível medíocre de antes da queda.

Mas o ministro mostrou-se imbatível. As vendas do comércio varejista cresceram 8% em um ano, como indicou há poucos dias o IBGE. "Qual país tem 8% de crescimento? Nem a China", respondeu ele mesmo. De novo a China entrou na comparação, mas um detalhe foi esquecido: o desempenho da indústria chinesa, uma das mais dinâmicas e competitivas do mundo, com presença cada vez maior em todos os mercados, incluídos o brasileiro e o latino-americano.

Além de esmigalhar a China com suas comparações, o ministro se alongou na descrição das grandes reformas promovidas pelo governo. Chamou a atenção para o corte dos juros promovido pelo governo, como se a política de juros baixos, num país administrado com algum bom senso, fosse independente das condições dos preços, da situação fiscal e também da evolução das contas externas. A mesma observação vale para o câmbio. Não é possível determinar, ao mesmo tempo, a taxa nominal e a taxa real de câmbio. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, parece ter lembrado essa verdade simples, há poucos dias. A inflação, disse ele, pode levar embora os ganhos econômicos obtidos com o câmbio.

O ministro celebrou, enfim, iniciativas por ele descritas como grandes reformas na área dos impostos. Não há, no entanto, nenhuma reforma consolidada até agora. A maior parte dos incentivos a setores da indústria é temporária. Alguns desses incentivos serão prorrogados no começo do ano. A desoneração da folha de pagamentos é um trabalho incompleto. Por enquanto, a carga foi transferida da folha para o faturamento, numa solução muito discutível.

A única mudança de caráter mais permanente está no projeto de alteração da alíquota interestadual do ICMS. Pode ser um avanço, mas seu alcance dependerá de algumas condições. Os governos estaduais serão proibidos de conceder novos incentivos típicos da guerra fiscal ou ainda terão o direito, pelo menos em algumas regiões, de usar esse instrumento? Falta, além disso, criar mecanismos seguros e permanentes de desoneração dos investimentos e das exportações. Por enquanto, há remendos.

Casa de loucos


Paulo Guedes
O Globo

Enquanto Barbosa e Fux consolidam a credibilidade institucional do Supremo, Sarney e Maia descredenciam um Congresso sem agenda

Foi mesmo decisiva a liderança de Joaquim Barbosa, atual presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento do Mensalão. É um exemplo de como uma boa liderança acaba reforçando a reputação e elevando as expectativas de bom desempenho de instituições indispensáveis à construção de uma Grande Sociedade Aberta. Pois é exatamente a falta de boas lideranças à frente do Congresso Nacional que tem criado a maior parte de nossos problemas institucionais.

Enquanto o STF trabalhava seriamente, o Congresso passou oito meses preparando pizzas na CPI do Cachoeira. “Querem intimidar o Parlamento”, reclama agora o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT), ante a decisão do Supremo pela cassação dos deputados mensaleiros. “Deixaram o Legislativo de joelhos”, lamenta também o presidente do Senado, José Sarney (PMDB), diante da decisão do ministro Luiz Fux que anulou sessão do Congresso eivada de procedimentos irregulares para derrubar os vetos da presidente Dilma à lei que redistribui royalties do petróleo. Ora, sabemos que essa batalha travada entre a presidente Dilma e o Supremo Tribunal Federal, de um lado, e os 300 praticantes de canibalismo federativo, de outro, é mais um claro sintoma do vácuo de lideranças construtivas no Congresso.

Sarney e Maia, à frente do Legislativo, devem-nos a iniciativa de uma reforma fiscal que descentralize recursos e atribuições da União para Estados e municípios. Pois a “guerra dos royalties” é apenas outra face da profunda insatisfação com o atual regime de distribuição dos recursos orçamentários entre as unidades da Federação. Sem nenhuma agenda positiva, os congressistas são responsáveis pelo descumprimento até mesmo de suas obrigações parlamentares, como a votação do Orçamento da União para 2013 e a revisão dos critérios de distribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados, cujo prazo se extingue em 31 de dezembro próximo.

Enquanto Barbosa e Fux consolidam a reputação e a credibilidade institucional do STF, Sarney e Maia dão sequência ao visível descredenciamento do Congresso perante a opinião pública. Por essas e outras, fulminou o editorial do GLOBO na ocasião: “Obsessão com royalties faz Congresso perder o rumo: é como se tivesse virado uma casa de loucos.”

O fim do mundo Maia


Ruth de Aquino
Revista Época

A profecia Marco Maia do Juízo Final foi levada a sério. O Congresso antecipou o fim dos tempos... e do trabalho 

Se você estiver lendo esta página, é um sinal de que o mundo não acabou no dia 21 de dezembro. Mas a profecia (Marco) Maia do Juízo Final foi levada a sério pelo Congresso. Nossos representantes da Câmara e do Senado decidiram antecipar o fim dos tempos... de trabalho. Entraram em greve branca e bateram o pezinho, recusando-se a votar qualquer coisa, até mesmo o Orçamento de 2013. Reconheceram que existe um juízo final – do Supremo e da Constituição. Já é um bom presságio.

Não resistiu a uma noite e um dia aquela pantomima toda – de arcas gigantes para a resistência ao STF e calhamaços de 463 páginas com questões essenciais, proteladas e esquecidas ao longo de 12 anos. Alguém deve ter avisado aos congressistas que ainda não é fevereiro, mês de Carnaval e desfiles alegóricos. Tiraram as máscaras. É dezembro, é Natal.

Hora de parar tudo porque faz muito calor, e a preguiça remunerada dos deputados e senadores é mais sagrada que os royalties do petróleo ou os coleguinhas condenados no mensalão. Hora de aproveitar o 14º e 15º salários pagos por nós e usufruir todas as ajudas extras que tornam o Congresso brasileiro um dos mais caros do mundo. 

Eu queria decretar recesso de colunas políticas. Sério. Queria aliviar a pressão e apostar na tolerância. Queria escrever uma carta ao Papai Noel, com pedido de educação para todos, pois isso sim é urgente. É inaceitável que quase metade dos adultos brasileiros, de 25 anos ou mais, não tenha concluído o ensino fundamental, como acaba de revelar o IBGE. Educação é o primeiro passo para a cidadania plena e o voto consciente. 

Queria também desejar a você, leitor, e a sua família 3.060 votos de paz e felicidade – mas os 3.060 vetos atravessaram minhas boas intenções. O ridículo da situação me obriga a pedir ao Papai Noel no ano que vem um Congresso mais ativo e menos guloso. Um Legislativo que não se desmoralize publicamente.

Os números traduzem a irresponsabilidade infantil do Senado. A gráfica imprimiu 416.700 páginas para compor cédulas que acabaram todas no lixo. Gráfica e marcenaria trabalharam em regime de plantão para construir cenário e o enredo da escola de samba que parou no meio da avenida. As dez urnas estavam enfileiradas, como testemunhas toscas da loucura parlamentar. E nós, como sempre, pagamos toda a encenação.

Pedimos então ao Papai Noel que o Congresso não rasgue contratos estabelecidos – porque fica feio. Que não se apresse a votar apenas para inchar os gastos públicos, abrir vagas sem concurso, aumentar seus próprios salários e reduzir para três dias semanais o expediente em Brasília. Que entenda que quem cassa os direitos políticos de congressistas não é o Supremo Tribunal Federal, mas a conduta equivocada e criminosa de cada deputado ou senador. Uma sociedade que se bateu pela Ficha Limpa rejeita condenados como seus representantes.

Torço para que esteja certa a autora do livro 2012, las profecias del fin del mundo, a jornalista mexicana Laura Castellanos. Ela entrevistou antropólogos e historiadores. O apocalipse em 21 de dezembro não foi, segundo ela, previsto pelos maias. A visão do fim do mundo com a chancela de uma civilização antiga acabou se tornando muito popular. Uma peça de marketing com um benefício concreto: rever valores. Segundo o livro de Castellanos, as profecias maias não se concentram em catástrofes. Elas preveem “o despertar da consciência e o renascimento de uma nova humanidade, mais equitativa”.

Queria acreditar. Talvez, no íntimo, acredite. Nada como olhar a perspectiva do fim como um recomeço. Tenho lido artigos de colegas que, com a chegada da velhice, se tornaram arautos do apocalipse. O pessimismo e a desesperança incomodam. Tenho medo de que os jovens se contaminem. Alguns desistem de ter filhos, porque sonhavam com um mundo melhor. Mas a violência, os massacres, a ignorância, a fome, as guerras, os genocídios – tudo isso sempre existiu. Não é invenção de agora.

Também me irrita a mania de alguns velhos – jornalistas ou não – de achar que o mundo acabará quando eles morrerem. É muito egocentrismo. É fácil achar que o baile é ruim só porque somos barrados nele, por extinção de prazo de validade. Se hoje chegamos aos 90 anos, temos não só o direito, mas a obrigação de sonhar. Pelos filhos, netos e bisnetos.

Como os parlamentares também têm família, sugiro um retiro espiritual ou moral para expurgar os pecados e pensar nas lições do ano que termina. Em 2013, já temos uma notícia boa e uma notícia ruim. José Sarney sai de cena. Renan Calheiros entra em cena. O Senado troca seis por meia dúzia.

Reclame, mas não seja chato. Melhor ser um indignado otimista do que um resignado deprimido. Já escrevi isso aqui antes. Vale repetir antes que o mundo acabe.

Não olhar para trás


Míriam Leitão 
O  Globo

Não basta o governo investir, tem que investir certo. “Construir pirâmides não vai desenvolver o país”, diz Armínio Fraga. Trem-bala é pirâmide, na visão dele. Aliás, de muita gente. O governo está neste momento com nostalgia do modelo dos anos 1970. “Não sou pessimista com o Brasil a médio prazo, mas agora o governo está olhando demais para um modelo que deu errado.”

No domingo, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o economista Edward Amadeo publicaram um artigo neste jornal se perguntando se não está chegando ao fim a herança bendita. Foi sobre isso que conversei com Fraga no programa da Globonews.

Por herança bendita, ele entende as reformas que o Brasil fez a partir da década de 1990. Abertura da economia, estabilização, modernização do Estado e inclusão dos mais pobres. Acha que esses bons passos foram dados por governos diferentes, e não apenas o de Fernando Henrique, no qual trabalhou. Destaca avanços importantes no governo Lula, principalmente o combate à pobreza:

— Mas, aos poucos, começou a mudar. Hoje, olhando para trás, dá para saber que a guinada começou no segundo mandato do presidente Lula.

Ele contrapõe o modelo novo, em que houve muitas reformas, com o velho, dos anos 50 a 70, em que houve pouca poupança, pouca ênfase na educação e na produtividade:

— Temos que nos organizar para avançar. No novo modelo, o Estado continua necessário — e nem seria diferente numa sociedade tão desigual quanto a nossa — mas para concentrar-se no que é mais importante. Nos outros setores, tem que atuar apenas como regulador. Hoje, o Estado está entrando cada vez mais na produção e está correndo riscos.

Um dos exemplos é o setor ferroviário. É uma velha demanda brasileira o investimento em ferrovias, mas o governo assumiu todos os riscos da ampliação de investimento e vai garantir a compra de toda a oferta de transporte que for criada:

— É muito melhor ter um setor privado que corre riscos e paga os preços das decisões que toma, e, portanto, tem que pensar bem antes de fazer um investimento, do que ter um Estado que garante tudo.

Ele acha que o BNDES deveria cobrar do setor privado aumento na participação do financiamento ao investimento:

— A história de países que alicerçaram o seu crescimento em bancos públicos não é boa, inclusive a nossa.
O ex-presidente do BC ressalta o ganho da queda dos juros, mas recomenda paciência e disciplina:

— A inflação vem acima da meta há algum tempo e isso não é bom. O governo tem recorrido a artifícios tributários e outros, como o dos combustíveis, para ajudar a inflação. Isso produz uma redução pontual dos preços. Não quer dizer que a inflação está resolvida. A taxa está bem alta no Brasil.

Armínio não está pessimista com o país e vê avanços importantes na educação, por exemplo, principalmente porque as famílias começaram a dar mais valor:

— As pesquisas mostram isso e se as famílias estiverem cobrando dos políticos, escolas, diretores, professores, a situação melhora. Essa área promete. Tem muita coisa boa acontecendo.

Outro avanço ocorre no mercado de capitais que, por esforços das empresas e governo, tem ficado mais confiável e atraído mais investidores:

— Não sou pessimista, mas o país está confuso em sua estratégia e há no governo um certo namoro com um modelo antigo que deu errado.

Armínio acha que o cenário externo será melhor em 2013 e o ciclo vai favorecer. O que está faltando, segundo ele, é o Brasil agir na direção certa.

Brasil perde posto de 6ª maior economia para Reino Unido


Exame.com
Fernando Nakagawa, Estadão Conteúdo

O Brasil deve terminar o ano com Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 2,282 trilhões, pouco abaixo dos US$ 2,443 trilhões previstos para o Reino Unido

Getty Images
A desvalorização do real nos últimos meses fará com que o Brasil 
perca o posto recém-conquistado e volte ao sétimo lugar em 2012

Londres - Um ano após desbancar o Reino Unido na posição de sexta maior economia do mundo, a desvalorização do real nos últimos meses fará com que o Brasil perca o posto recém-conquistado e volte ao sétimo lugar em 2012. A previsão foi feita nesta quarta-feira pelo britânico Centro de Pesquisas Econômicas e de Negócios (CEBR na sigla em inglês). A consultoria, porém, aposta que o Brasil voltará a crescer mais rapidamente e deve voltar a ultrapassar os britânicos em 2014.

Segundo o levantamento, o Brasil deve terminar o ano com Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 2,282 trilhões, pouco abaixo dos US$ 2,443 trilhões previstos para o Reino Unido. "Estamos na disputa cabeça a cabeça com o Brasil há algum tempo. No ano passado, os brasileiros nos ultrapassaram. Este ano, vamos superá-los. A partir de 2014, no entanto, o dinamismo da economia brasileira deve levar o Brasil decisivamente para uma posição acima do Reino Unido", disse o responsável pela pesquisa e diretor-executivo do CEBR, o inglês Douglas McWilliams.

Mesmo com a previsão de que a economia do Reino Unido deve terminar o ano com crescimento perto de zero ou até uma pequena queda, o Brasil perdeu o posto especialmente pela taxa de câmbio. Como o PIB na pesquisa é calculado em dólares, a subida do dólar de mais de 11% no ano faz com que o tamanho da economia brasileira fique menor quando convertido para dólares. Para piorar o fenômeno, o fraco crescimento da economia nacional também deve ser levado em conta, o que acaba potencializando o efeito do câmbio.

Na pesquisa do CEBR, os cinco primeiros da lista são Estados Unidos (PIB de US$ 15,643 trilhões), China (US$ 8,249 trilhões), Japão (US$ 5,936 trilhões), Alemanha (US$ 3,405 trilhões) e França (US$ 2,607 trilhões).

Rosemary, a mulher do ano


Guilherme Fiuza
O Globo

A representante da Presidência da República em São Paulo fez exatamente o que Dilma fez em Brasília: cacifada por Lula, passou a reger o parasitismo do PT

Nesses tempos de devoção às minorias, não é justo deixar de destacar a contribuição de Rosemary Noronha para a causa feminina. O Brasil progressista explode de orgulho por ser governado por uma mulher — que aliás deu a Rosemary sua chance de brilhar — e não pode agora se esquecer de reverenciar mais uma expoente do gênero. Assim como Dilma, Rose chegou lá. O fato de estar enrolada com a polícia é um detalhe.

Rose e Dilma escreveram seus nomes na história do Brasil por serem, ambas, utensílios de Lula. A finalidade de cada uma para o ex-presidente não vem ao caso. O que importa é que ambas funcionaram muito bem. Como se nota pelo ufanismo nacional em torno de Dilma, não se espera mais da mulher moderna opinião própria, autonomia e iniciativa. Basta botar um tailleur vermelho, um colar de pérolas e decorar suas falas. E muito importante: falar o mínimo, para errar pouco. Até outro dia isso era piada entre Miguel Falabella e Marisa Orth (“cala a boca, Magda!”). Hoje é sinal de poder.

O grande símbolo feminino brasileiro da atualidade, que desperta a admiração de Jane Fonda — que tempos! — não tinha feito nada de extraordinário na vida até ser levada pela mão do padrinho ao topo. O feminismo realmente mudou muito.

Lá chegando, seu maior mérito foi usar vestido e não ser o Lula (para os que não suportavam mais o ogro bravateiro), ou ser o Lula de vestido (para os que seguem venerando o filho do Brasil). Sem nenhum plano de governo, com um ministério fisiológico de cabo a rabo, sem um mísero ato de estadista em dois anos de mandato, Dilma se destaca por ser ou não ser Lula, dependendo do ponto de vista. É a apoteose da nulidade, que o Brasil progressista e feminista consagra com aprovação recorde.

Diante desses novos valores, seria injusto não consagrar Rosemary também. A representante da Presidência da República em São Paulo fez exatamente o que Dilma fez em Brasília: cacifada por Lula, passou a reger o parasitismo do PT, cuidando da nomeação de companheiros e dando blindagem política às suas peripécias para sucção do Estado.

No caso de Dilma, a grande orquestra fisiológica foi desmoronando ao vivo, com nada menos que sete ministros nomeados (e protegidos até o fim) por ela caindo de podres, graças à ação da imprensa. A mulher-modelo de Jane Fonda ainda havia parido uma Erenice, a quem preparava para ser a dama de ferro de seu governo (Jane não pode imaginar o que seria isso) — derrubada por fazer na Casa Civil algo muito parecido com as operações fantásticas de Rosemary. Até o uso da Anac como balcão de negócios se repetiu. Por que só Dilma é ícone feminino, se Rosemary mostrou ser um prodígio da mesma escola?

Por algum mistério insondável, a Polícia Federal não fez escutas nos telefones de Rose, ou diz que não fez. As conversas da mulher que regia uma quadrilha grudada em Lula, se apresentando como sua namorada, e que tramou até sabotagem ao julgamento do mensalão — o mesmo que Lula tentara com Gilmar Mendes — não interessou aos investigadores. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que não havia motivos para grampear Rosemary — uma suspeita que está impedida pela Justiça de sair de sua cidade. Esses ministros farsescos do PT podiam ao menos ser mais criativos. Mas não precisa, porque o Brasil engole qualquer coisa.

Marcos Valério disse que Lula teve despesas pagas pelo esquema do mensalão e autorizou operações bancárias do valerioduto. É comovente a desimportância atual dessas declarações. Lula é o líder de um projeto político montado para a permanência no poder a qualquer custo — e essa fraude está exaustivamente demonstrada pelo mensalão, por Dirceu, Erenice, Palocci, Pimentel, aloprados, Rosemary e praticamente todo o estado-maior petista, tanto de Lula quanto de Dilma, flagrados em tráfico de influência para se aferrar ao poder na marra. O que mais é preciso denunciar?

O eleitor brasileiro está brincando com fogo. Enquanto o desemprego estiver baixo, vai continuar afiançando a fraude que finge não ver. O país vai sendo empurrado com a barriga pelos fisiológicos — e essa conta vai chegar. O governo desistiu de controlar a inflação, que vai se afastando da meta (apesar da mudança de cálculo que reduziu o índice). A gastança pública é disfarçada com truques contábeis para esconder o déficit. A arrecadação brutal banca a farra dos companheiros, sem sobra para investimentos decentes — e tome literatura de trem-bala e tarifas mentirosas de energia, que já multiplicam os apagões por manutenção precária.

Como se viu na funesta CPI do Cachoeira, a mafiosa Delta comandava o planejamento da infraestrutura terrestre.

Mas está tudo bem, e oito governadores podem ir de cara limpa prestigiar Lula e sua democracia de aluguel. Se este é o país que queremos, Rosemary é a mulher do ano.

Aonde irá o PT?


Sergio Fausto
O Estado de S.Paulo

Nenhum outro partido tem raízes populares comparáveis às do PT. Não há outro líder político brasileiro com a história de Lula. Essas duas credenciais, no entanto, têm sido utilizadas para negar, encobrir e/ou justificar práticas flagrantemente contrárias ao próprio ideário republicano de que o partido e seu líder maior se diziam os mais legítimos defensores. Não se trata de práticas episódicas, mas de ações sistemáticas pelas quais instituições e recursos públicos são postos a serviço dos interesses do PT e de seus membros.

É uma tragédia política, porque todo país civilizado precisa de uma esquerda verdadeiramente republicana e democrática. E o PT, que poderia representá-la, afasta-se cada vez mais dessa possibilidade. O partido adquire semelhanças crescentes com o velho PRI mexicano - pela interpenetração de partido, Estado e sindicatos - e com o peronismo argentino - pelas mesmas razões, acrescidas da mística criada em torno de seu líder maior.

A possibilidade histórica de o PT representar uma esquerda democrática e republicana se perdeu - resta saber se definitivamente - em meio à sua transformação num partido pragmático e organizado. O velho PT sectário, fechado dentro da esquerda, e consumido por uma vida interna tão vibrante quanto entrópica, cedeu lugar a uma organização partidária orientada para acumular recursos financeiros, ganhar eleições e governar com amplas alianças.

A experiência em governos estaduais e municipais de grandes cidades tornou o partido mais realista e moderado. O acesso a fundos e empregos públicos em cargos de confiança substituiu, em boa medida, para uma parte importante da militância, os estímulos morais que a crença ingênua num difuso ideal socialista oferecia ao petismo original. O horizonte político-teórico convergiu para o projeto de colocar o "Lula lá". Toda discussão sobre socialismo e democracia, ética e política foi posta à margem.

Quando o PT chegou ao governo federal, abriram-se portas ainda mais largas para fortalecer a máquina partidária, organizações e movimentos ligados ao partido. Além disso, criaram-se perspectivas de ascensão social sem precedentes para quadros e militantes partidários. Por meios formalmente legais (nomeação para cargos de confiança, transferência de parte da contribuição obrigatória às centrais sindicais, etc.) ou inteiramente ilícitos, o governo Lula atuou com desenvoltura, em todas as frentes, para contemplar o conjunto dos apetites. O presidente foi pródigo, pelo menos na complacência com o malfeito. Como houve maior redução da desigualdade e da pobreza em seu governo, qualquer crítica passou a ser "udenismo golpista".

O paradoxo desse processo é que a incorporação do PT ao governo e às elites políticas - um elemento indispensável e positivo da democratização do País -, ao invés de fortalecer, enfraqueceu as instituições e a ética republicanas. Um conservador cínico diria que esse foi o custo inevitável para domesticar o partido. Para quem não é uma coisa nem outra, cabe fazer duas perguntas: era realmente inevitável? E, mais importante, devemo-nos conformar com esse custo, mesmo sabendo que ele se pode perpetuar e crescer?

Há exemplos históricos recorrentes de que a ascensão de novos grupos sociais à elite política vem acompanhada de aumento da corrupção. Esta frequentemente ganha caráter sistemático quando a democratização da elite se faz pela entrada de partidos de massa e corporações sindicais. Dessa perspectiva, a Europa é a exceção no mundo ocidental. Nos Estados Unidos, essa foi a regra, em particular nas grandes cidades industriais do norte, como Nova York e Chicago. Na América Latina também, salvo no Chile e no Uruguai.

Essa constatação, porém, não isenta os atores políticos de responsabilidade. No caso do PT, sobressaem dois movimentos concomitantes ao longo de sua história: de um lado, seus líderes e sua militância, com honrosas exceções, jamais assumiram como patrimônio coletivo da democracia brasileira a construção institucional feita a partir da Constituição de 1988 (valeram-se dessas instituições, isso sim, seletiva e instrumentalmente, como é notório na relação esquizofrênica do partido com o Ministério Público e a imprensa); de outro, curvaram-se à lógica da conquista e manutenção do poder quando esta se chocou com princípios éticos em episódios cruciais da trajetória do partido.

Nunca será demais lembrar de Paulo de Tarso Venceslau, militante histórico da esquerda e então secretário de Finanças de São José dos Campos, que em 1995 levou ao conhecimento de Lula denúncias sobre um esquema de corrupção orquestrado por Roberto Teixeira, empresário-compadre do líder maior do partido, em prefeituras do PT. Para apurar as denúncias criou-se uma comissão que recomendou punição a Teixeira. Nada foi feito. Três anos depois, Venceslau seria expulso do partido. Dos membros daquela comissão, o único a se insurgir foi Hélio Bicudo. E se outros tivessem tido a sua coragem? E se Lula tivesse dado o exemplo, cortando na própria carne? A verdade é que não dá para se esconder atrás da história e da sociologia para justificar tudo isso que está aí.

Coragem cívica anda em falta. Não se espere isso dos apparatchiks da máquina petista. O que mais constrange é o silêncio dos intelectuais próximos ao partido. Uma exceção é Eugênio Bucci. Leia-se e releia-se o seu O inferno astral da estrela branca" (29/11, A2). Diz ele que o PT "precisa arcar com a responsabilidade de fortalecer a democracia que ajudou a conquistar". O difícil é que isso implica enfrentar a herança de Lula e José Dirceu, sem os quais, para o bem e para o mal, o PT não seria o que é hoje.

Uma coisa é certa: o PT não mudará enquanto estiver no Planalto. Caberá aos eleitores fazê-lo descer novamente à planície. Pois só a derrota ensina.

A receita de veneno do comissariado


Elio Gaspari
 Folha de São Paulo

Lula acha que pode botar o povo na rua para defender delinquentes; Collor teve a mesma ideia, deu no que deu 

Lula e José Dirceu, bem como os comissários Gilberto Carvalho e Rui Falcão, mostraram-se dispostos a botar povo na rua para defender o que chamam de "nosso projeto". A ideia é tirar a nação petista do inferno astral em que se meteu com o ronco das praças.

Deveriam pensar duas vezes. Talvez três, consultando-se com o senador Fernando Collor de Mello. Em agosto de 1992, ainda na Presidência, acossado por denúncias de roubalheiras, ele foi à televisão e pediu ao povo que o defendesse, vestindo verde e amarelo no dia Sete de Setembro. A garotada o ouviu e saiu por aí vestindo luto, com as caras pintadas. Em dezembro, Collor renunciou à Presidência.

O que vem a ser o "nosso projeto" em cuja defesa o comissariado quer gente na rua? O pedaço dos dez anos de mandarinato petista que garantem popularidade a Lula e à doutora Dilma nada tem a ver com o infortúnio dos mensaleiros e dos jardins de Rose Noronha.

Há gente disposta a sair às ruas para defender muitas iniciativas realizadas pelo PT desde 2003, mas se o comissariado acredita que conseguirá uma mobilização popular para proteger delinquentes condenados pelo Supremo Tribunal ou apanhados pela Polícia Federal, pode estar apostando numa radicalização suicida.

O repórter José Casado acompanhou três comícios de Lula durante a última campanha eleitoral. Viu-o nas praças de São Bernardo, Santo André e Diadema. Em cada uma delas havia algo em torno de 2.000 pessoas. Dois terços da audiência eram compostos por uma plateia que havia chegado em ônibus fretados por comissários. Casado tirou uma prova perguntando a vendedores de água como ia a féria. Muito mal.

Se a ideia é botar povo na rua sem ônibus de prefeituras, dispensando a infraestrutura da Viúva, tudo bem. Se acreditam que podem usar esses recursos sem que ninguém perceba, enganam-se. Produzirão apenas mais situações escandalosas.

Quando Collor teve sua péssima ideia, já existia mobilização popular contra ele. Potencializou-a. Há pessoas indignadas com a postura petista de defesa de delinquentes condenados. Elas ainda estão em casa, quietas. Se o negócio é ir para a rua, elas também podem ir, sem ônibus das prefeituras.

Houve acordo para poupar Lula do acórdão?


Hugo Souza
Opinião & Notícia

Ex-presidente se escora no marketing do 'Lula não sabia' e na propaganda petista do único governo diferente 'desde a chegada de Cabral'

 (Reprodução/Internet)
Lula lá, ainda lá, na preferência popular

Não chegou a ser surpreendente, mas, dadas as circunstâncias, foi pelo menos curioso o resultado de uma pesquisa do instituto Datafolha sobre intenções de voto dos brasileiros para as eleições presidenciais de 2014 divulgado às vésperas do ponto final colocado pelos juízes do Supremo ao julgamento do mensalão petista. De acordo com a pesquisa, Dilma ou Lula, os dois maiores protagonistas de um grupo de poder chafurdado na lama da corrupção, venceriam a corrida pelo Planalto se ela fosse hoje — hoje, com a lama ainda fresca, úmida, pegajosa, agarrada nos sapatos dos gerentes do chiqueiro.

Em poucas palavras, o cenário que se delineia no horizonte é o da premiação dada pelo próprio povo, com mais uma presidência da República, a uma das maiores trapaças já levadas a cabo no âmbito das instituições republicanas brasileiras, trapaça alvo de um julgamento que termina quase ao mesmo tempo em que um dos seus principais réus, Marcos Valério, rompe o aparente acordão interpoderes para poupar Lula do acórdão dizendo que o ex-presidente usou dinheiro reservado a pagar parlamentares para pagar despesas pessoais.

Lula lá, ainda lá, na preferência popular, só é algo possível graças à gigantesca estratégia de marketing sobre o mensalão há anos nas ruas sob slogan “Lula não sabia”. Logo ele, que sempre se gabou de saber de tudo sobre o país e sobre o partido que em torno dele se organizou, se estruturou, cresceu e um dia ascendeu ao poder e nele se manteve mediante um verdadeiro culto à sua personalidade onisciente e onipresente.

Visita a ‘Il Padrino’
O marketing teve um episódio tragicômico justamente nesta semana, quando aconteceu uma “visita solidária” de oito governadores de partidos aliados a Lula, no instituto Lula, em São Paulo, para “prestar solidariedade” ao ex-presidente diante da pressão para estender a ele as investigações sobre o mensalão. Pode não ser mera coincidência a semelhança com as antológicas cenas dirigidas por Francis Ford Coppola de mafiosos rastaquera visitando “Il Padrino” para beijar-lhe a mão num segundo e pedir-lhe favores no outro.

É possível também por causa de uma outra vertente de propaganda de massa petista, a do mito da presidência extraordinária de Lula (ver matéria “PT, rei do marketing no exterior”), cheia de supostos prodígios nunca antes realizados na história deste país, por assim dizer. Esta propaganda tem como substrato a ideia de que o PT é, na essência, diferente de outros grupos de poder quaisquer, sobre os quais Lula costuma dizer que governam o Brasil “desde a chegada de Cabral” (o Pedro, e não o Sergio). Um resumo desta enorme patranha pode ser identificado na “Nota à sociedade brasileira”, mais uma em defesa de Lula, divulgada em setembro pelo PT, na qual se diz que “as forças conservadoras” não hesitam em recorrer a “práticas golpistas”:

“Assim foi em 1954, quando inventaram um ‘mar de lama’ para afastar Getúlio Vargas. Assim foi em 1964, quando derrubaram Jango para levar o País a 21 anos de ditadura. O que querem agora é barrar e reverter o processo de mudanças iniciado por Lula, que colocou o Brasil na rota do desenvolvimento com distribuição de renda, incorporando à cidadania milhões de brasileiros marginalizados, e buscou inserção soberana na cena global, após anos de submissão a interesses externos”.

Corrupção ‘pós-paga’
Talvez o cenário mude, talvez a próxima pesquisa Datafolha apresente um resultado diferente, talvez todos os partidos eleitoreiros do Brasil, com suas práticas vis e, se não idênticas, por certo similares, tenham que colocar as barbas de molho quando os órgãos da imprensa de massa, ou melhor, quando as massas começarem a se interessar pelo que se pode classificar como grande corrupção, no sentido de volume de recursos públicos movimentados.

Sim, a grande corrupção, como aquela que alguém já chamou de corrupção “pós-paga” de Lula, com sua carteira de empresas clientes que hoje lhe pagam pequenas fortunas para dar um sem números de palestras aquém e além mar, e que ontem, mais precisamente ao longo de oito anos (no mínimo…), foram agraciadas com vultosos contratos da administração pública federal, empréstimos companheiros do BNDES e com a promoção presidencial para abocanhar contratos bilionários no exterior, como a megaempreiteira Odebrecht.

Com a palavra, o próprio Luiz Inácio, em declaração dada à imprensa em dezembro de 2009: “Eu prefiro que saia manchete para a gente poder investigar, do que não sair nada e a gente continuar sendo roubado e continuar não sabendo o que está acontecendo”.

Naquela mesma feita, o então presidente disse também que a corrupção, vejam vocês, pode acontecer “dentro de casa”, sem que seja percebida. E o “filho do Brasil”, rei das metáforas, comparou a situação com a de um pai que não percebe que “o filho está queimando um baseadinho no quarto”…