quinta-feira, dezembro 27, 2012

Houve acordo para poupar Lula do acórdão?


Hugo Souza
Opinião & Notícia

Ex-presidente se escora no marketing do 'Lula não sabia' e na propaganda petista do único governo diferente 'desde a chegada de Cabral'

 (Reprodução/Internet)
Lula lá, ainda lá, na preferência popular

Não chegou a ser surpreendente, mas, dadas as circunstâncias, foi pelo menos curioso o resultado de uma pesquisa do instituto Datafolha sobre intenções de voto dos brasileiros para as eleições presidenciais de 2014 divulgado às vésperas do ponto final colocado pelos juízes do Supremo ao julgamento do mensalão petista. De acordo com a pesquisa, Dilma ou Lula, os dois maiores protagonistas de um grupo de poder chafurdado na lama da corrupção, venceriam a corrida pelo Planalto se ela fosse hoje — hoje, com a lama ainda fresca, úmida, pegajosa, agarrada nos sapatos dos gerentes do chiqueiro.

Em poucas palavras, o cenário que se delineia no horizonte é o da premiação dada pelo próprio povo, com mais uma presidência da República, a uma das maiores trapaças já levadas a cabo no âmbito das instituições republicanas brasileiras, trapaça alvo de um julgamento que termina quase ao mesmo tempo em que um dos seus principais réus, Marcos Valério, rompe o aparente acordão interpoderes para poupar Lula do acórdão dizendo que o ex-presidente usou dinheiro reservado a pagar parlamentares para pagar despesas pessoais.

Lula lá, ainda lá, na preferência popular, só é algo possível graças à gigantesca estratégia de marketing sobre o mensalão há anos nas ruas sob slogan “Lula não sabia”. Logo ele, que sempre se gabou de saber de tudo sobre o país e sobre o partido que em torno dele se organizou, se estruturou, cresceu e um dia ascendeu ao poder e nele se manteve mediante um verdadeiro culto à sua personalidade onisciente e onipresente.

Visita a ‘Il Padrino’
O marketing teve um episódio tragicômico justamente nesta semana, quando aconteceu uma “visita solidária” de oito governadores de partidos aliados a Lula, no instituto Lula, em São Paulo, para “prestar solidariedade” ao ex-presidente diante da pressão para estender a ele as investigações sobre o mensalão. Pode não ser mera coincidência a semelhança com as antológicas cenas dirigidas por Francis Ford Coppola de mafiosos rastaquera visitando “Il Padrino” para beijar-lhe a mão num segundo e pedir-lhe favores no outro.

É possível também por causa de uma outra vertente de propaganda de massa petista, a do mito da presidência extraordinária de Lula (ver matéria “PT, rei do marketing no exterior”), cheia de supostos prodígios nunca antes realizados na história deste país, por assim dizer. Esta propaganda tem como substrato a ideia de que o PT é, na essência, diferente de outros grupos de poder quaisquer, sobre os quais Lula costuma dizer que governam o Brasil “desde a chegada de Cabral” (o Pedro, e não o Sergio). Um resumo desta enorme patranha pode ser identificado na “Nota à sociedade brasileira”, mais uma em defesa de Lula, divulgada em setembro pelo PT, na qual se diz que “as forças conservadoras” não hesitam em recorrer a “práticas golpistas”:

“Assim foi em 1954, quando inventaram um ‘mar de lama’ para afastar Getúlio Vargas. Assim foi em 1964, quando derrubaram Jango para levar o País a 21 anos de ditadura. O que querem agora é barrar e reverter o processo de mudanças iniciado por Lula, que colocou o Brasil na rota do desenvolvimento com distribuição de renda, incorporando à cidadania milhões de brasileiros marginalizados, e buscou inserção soberana na cena global, após anos de submissão a interesses externos”.

Corrupção ‘pós-paga’
Talvez o cenário mude, talvez a próxima pesquisa Datafolha apresente um resultado diferente, talvez todos os partidos eleitoreiros do Brasil, com suas práticas vis e, se não idênticas, por certo similares, tenham que colocar as barbas de molho quando os órgãos da imprensa de massa, ou melhor, quando as massas começarem a se interessar pelo que se pode classificar como grande corrupção, no sentido de volume de recursos públicos movimentados.

Sim, a grande corrupção, como aquela que alguém já chamou de corrupção “pós-paga” de Lula, com sua carteira de empresas clientes que hoje lhe pagam pequenas fortunas para dar um sem números de palestras aquém e além mar, e que ontem, mais precisamente ao longo de oito anos (no mínimo…), foram agraciadas com vultosos contratos da administração pública federal, empréstimos companheiros do BNDES e com a promoção presidencial para abocanhar contratos bilionários no exterior, como a megaempreiteira Odebrecht.

Com a palavra, o próprio Luiz Inácio, em declaração dada à imprensa em dezembro de 2009: “Eu prefiro que saia manchete para a gente poder investigar, do que não sair nada e a gente continuar sendo roubado e continuar não sabendo o que está acontecendo”.

Naquela mesma feita, o então presidente disse também que a corrupção, vejam vocês, pode acontecer “dentro de casa”, sem que seja percebida. E o “filho do Brasil”, rei das metáforas, comparou a situação com a de um pai que não percebe que “o filho está queimando um baseadinho no quarto”…