sexta-feira, julho 12, 2013

As diferenças: a rapaziada é #, a pelegada é $

Josias de Souza


Excluídas das passeatas de junho, as centrais sindicais e seus penduricalhos (UNE, MST, PT, PCdoB, PDT e etcétera) organizaram o seu próprio ‘Dia Nacional de Luta’. Isso foi ótimo. Ajudou a explicar por que a rapaziada refugou a ‘solidariedade’ da pelegada partidário-sindical. São muitas as diferenças entre os dois movimentos. A principal delas é a forma como os dois grupos se relacionam com os cofres públicos. Um entra com o bolso. Outro usufrui. Vai abaixo uma tentativa de distinguir o novo do antigo:

 ***

A rapaziada é #. A pelegada é $.

A rapaziada é o bolso. A pelegada é imposto sindical.

A rapaziada é coxinha. A pelegada é pastel-de-vento.

A rapaziada é sacolejo. A pelegada é tremelique.

A rapaziada é YouTube. A pelegada é videoteipe.

A rapaziada é Facebook. A pelegada é assembléia.

A rapaziada é máscara de vingador. A pelegada é cara de pau.

A rapaziada é viral. A pelegada é bactéria.

A rapaziada é chapa quente. A pelegada é chapa branca.

A rapaziada é sociedade civil. A pelegada é sociedade organizada.

A rapaziada é banco de praça. A pelegada é BNDES.

A rapaziada é a corrida. A pelegada é o taxímetro.

A rapaziada é asfalto. A pelegada é carro de som.

A rapaziada é horizonte. A pelegada é labirinto.

A rapaziada é fumaça. A pelegada é cheiro de queimado.

A rapaziada é explosão. A pelegada é flatulência.

A rapaziada é o público. A pelegada é a coisa pública.

A rapaziada é combustão espontânea. A pelegada é ignição eletrônica.

A rapaziada é luz no fim do túnel. A pelegada é beco sem saída.

A rapaziada é pressão popular. A pelegada é lobby.

A rapaziada é farinha pouca. A pelegada é meu pirão primeiro.

A rapaziada é terra em transe. A pelegada é cinema novo-velho.

A rapaziada é o desejo de futuro. A pelegada é o destino-pastelão.

A rapaziada é namoro. A pelegada é tédio conjugal.

A rapaziada é grito. A pelegada é resmungo.

A rapaziada é algaravia. A pelegada é palavra de ordem.

A rapaziada é poesia. A pelegada é pedra no caminho.

A rapaziada é dúvida. A pelegada é óbvio ululante.

A rapaziada é Fora Renan. A pelegada é o bigode do Sarney.

A rapaziada é abaixo a corrupção. A pelegada é a perspectiva de inquérito.

A rapaziada é mistério. A pelegada é indício.

A rapaziada é a alma do negócio. A pelegada é o segredo.

A rapaziada é novidade. A pelegada é o mesmo.

A rapaziada é anormalidade. A pelegada é vida normal.

A rapaziada é impessoal. A pelegada é departamento de pessoal.

A rapaziada é decifra-me. A pelegada é devoro-te.

Atrás do fio elétrico

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Não houve greve geral nem comoção nacional. Na comparação, o "Dia Nacional de Lutas" ficou a léguas de distância do impacto provocado pelas três semanas de protestos que deixaram o País em transe e o poder público em pânico.

Contou a ausência do fator surpresa, é verdade, mas evidenciou-se também uma mudança de paradigma: a sociedade prefere conduzir a ser conduzida e dá conta do recado com muito mais competência.

Fala-se de falta de foco nos protestos de junho, na ausência de lideranças, na desorganização e no caráter apolítico visto com receio de que signifique repúdio à atividade inerente ao sistema democrático.

Mas, ao que se viu nos embates das centrais sindicais durante os preparativos para as manifestações de ontem, a garotada mobilizada pela internet tinha mais apelo, se fazia entender muito melhor com sua variedade de bandeiras que os sindicalistas organizados em suas centrais bem estruturadas, sustentadas com verbas públicas e ligadas a esse ou àquele partido.

A massa junina saiu de casa para dizer que queria ser mais bem atendida pelo Estado, respeitada por integrantes dos Poderes constituídos e representada pelos eleitos. Já as centrais, a partir da pauta de reivindicações tradicionais, digladiaram entre dois objetivos: de um lado marcar posição contra o governo, de outro abrir espaço para a defesa de interesses do governo, entre eles a ressurreição do plebiscito da reforma política.

Todo mundo entendeu o sentido do movimento iniciado pela juventude: "Não é só pelos R$ 0,20"; era e continua sendo pelo conjunto da obra. Causou espanto a forma, mas o conteúdo estava explícito.

No caso dos sindicatos a forma é familiar, os instrumentos, tradicionais, mas o conteúdo é subentendido: uma tentativa de recuperar um território perdido - ou melhor, abandonado - desde que os chamados movimentos sociais organizados resolveram trocar as demandas daqueles que representavam por uma parceria (mais das vezes remunerada) com o governo que supostamente detinha o monopólio de todos os anseios.

Sendo um "governo popular", para todos os efeitos os movimentos sentiram-se desobrigados de cumprir cada um o seu papel de acordo com as demandas dos respectivos segmentos. O governo em si daria conta da tarefa. De fato, o mundo oficial ocupou todos os espaços, tirou de cena a intermediação, cortaram-se as cordas vocais da população.

Aconteceu com os estudantes, com os acadêmicos, com os sindicalistas e com todos os grupos que agora são recebidos em Palácio pela presidente Dilma Rousseff a fim de se construir um ambiente de diálogo onde antes havia o monólogo. Consentido, diga-se.

Ficou todo mundo muito bem comportado, a sociedade submergiu. A opinião do público se expressou por intermédio das pesquisas, sempre registrando altos e crescentes índices de popularidade aos inquilinos do poder central. Dilma, um sucesso de bilheteria ainda maior do que Lula.

Quando a população emergiu na fagulha acesa pelo Movimento Passe Livre na fogueira da insatisfação acumulada, viu-se o quanto de fantasia havia no cenário paradisíaco.

Desfeita a miragem, lá se foram centrais, UNE, sem-terra e companhia tentar recuperar o território perdido, disputar as ruas como instrumento de pressão da opinião pública junto às instituições.

Destreinadas, afônicas, atordoadas, ficaram a reboque do abrupto grito anterior e, se prestaram bem atenção no descompasso, são alvos de desconfiança, fazem parte do balaio genericamente chamado de crise de representação.

Vão precisar se reinventar. Por ora tentaram sem grande êxito imitar o inimitável, igualar-se ao inigualável.

Um país em transe e sem agenda. E se um ET pedisse “levem-me a seu líder”?

Reinaldo Azevedo

Li em um dos noticiários eletrônicos que as manifestações e protestos desta quinta foram marcados por “lideranças tradicionais”, que estariam tentando se aproveitar da “energia” (?) das ruas. Parece que essa expressão compreende os líderes da Força Sindical, da CUT, do MST e de outros movimentos sociais. A estes se oporiam, então, entendo, as “lideranças não tradicionais”. Não sei direito o que isso quer dizer. Acho que designa os indignados que falam contra os partidos, contra a política, contra os políticos. Devem ser os “líderes” do Twitter e do Facebook, os representantes de si mesmos, que estariam a evidenciar a crise de representatividade ou, sei lá, a falência dos regimes democráticos tradicionais. ATENÇÃO! VAGABUNDOS INTELECTUAIS QUE FALAM NA CRISE DA DEMOCRACIA TRADICIONAL ESTÃO É INVESTINDO NUMA DITADURA CRIATIVA…

Leiam o noticiário do dia e tentem achar um eixo para as manifestações. Não há. Os sindicalistas dizem querer a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas e o fim do fator previdenciário. Os sem-terra vão reclamar da suposta lentidão nos assentamentos; esse e aquele grupos pedirão que saúde e educação tenham garantidos, respectivamente, 10% do Orçamento da União; outros cobrarão a estatização das empresas de transportes públicos; há quem peça a “desmilitarização da PM”; também existem os que não abrem mão da saída de Renan Calheiros; o povo de não sei onde quer o fim de uma praça de pedágio; os médicos rejeitam – por bons motivos, claro! –, o plano do governo para a área; os pelegos da UNE estão protestando a favor de não sei quê (contra o governo é que não é, certo?)… Bem, meus caros, cada um pegue a sua bandeira ou cartolina, vá para a praça e decida cassar de terceiros o direito de ir e vir. Nos dias em que um lema imbecil e autoritário como “Não me representa” é visto como verdadeira poesia da cidadania, vale, então, o “eu me represento”. Logo, imporei a terceiros a minha vontade e a minha pauta. Quem não gostar que faça o mesmo. O espaço público deixa de ser de todo mundo para ser terra de ninguém.

Ah, é claro que acho divertido ver o petismo passando calor. Há 11 anos combato algumas de suas farsas; há muito mais tempo critico seus viés autoritário e sua concepção totalitária de estado. Mas não me peçam, no entanto, para vibrar com esse “Je ne sais quoi” que tem levado as pessoas às ruas e tem imposto ao Congresso o regime da vaca louca. Não vou. Uma coisa é o PT se defrontar com suas próprias incompetências e ser confrontado com um discurso racionalmente organizado, que aponte uma saída, uma alternativa; outra, muito diferente, é o partido, ou seu núcleo duro, perder influência para a anarquia, de sorte a forçar uma torção à esquerda, como está acontecendo, do processo político.

Esse era, desde o início, o meu receio. E, por ora ao menos, a pior perspectiva que eu enxergava está em curso. Peço que vocês tomem especial cuidado com o discurso de alguns bobocas contra a política. Lembram-se do movimento “Cansei”? Tinha um alvo, sim: significava “cansei do PT”. Ele surgiu não muito tempo depois do mensalão. Foi impiedosamente ridicularizado até por humoristas da TV, que hoje estão a conclamar que o povo saia às ruas, aplaudindo, inclusive, a hostilidade aos políticos.

Isso é má consciência. É preciso que se perceba e se rejeite uma operação intelectual sutil e perigosa que está em curso: “Apostamos que o PT faria tudo diferente. Nós nos decepcionamos. Se é assim, então não queremos mais saber dos políticos”. Como assim? Quer dizer que o petismo era a fronteira possível da política? Quem não quer saber dos políticos quer, então, saber de quem ou do quê?

Eis a hora em que lideranças realmente fazem falta. A presidente Dilma, como se percebe, está perdida – é vaiada até quando anuncia que vai liberar dinheiro para as prefeituras. Quem hoje fala em seu nome é Aloizio Mercadante, cuja arrogância era detestada por seus pares quando estava no Senado… Imaginem, então, falando como o homem forte do Executivo. A oposição, convenham, tenta engrossar a voz das ruas. Ocorre que não temos um coro, mas uma algaravia. O que aconteceria se um ET baixasse no Brasil e pedisse “Levem-me a seu líder”?

“Ah, Reinaldo, veja lá. O senado aprovou em segunda votação uma PEC que permite que projetos de lei de iniciativa popular possam ser apresentados com a assinatura de apenas 0,5% do eleitorado (700 mil assinaturas). O texto também prevê que se apresentem emendas à Constituição, o que hoje não é permitido; nesse caso, será necessário ter a assinatura de 1% (1,4 milhão). E essas assinaturas podem ser colhidas eletronicamente, por intermédio da Internet.”

É? E por que eu deveria ficar contente com isso? Satisfeito eu ficaria se o país adotasse, por exemplo, o voto distrital, de sorte que a população tivesse, aí sim, maior proximidade com seus representantes. Submeter permanentemente a Constituição a minorias organizadas e barulhentas – e nunca à maioria, que é sempre desorganizada e silenciosa – não me parece, lamento, uma boa escolha. A primeira vítima de uma democracia que vivesse sob a tutela de grupelhos organizados seria a segurança jurídica. Onde ela não existe, os investimentos despencam, a confiança vai para o brejo, e se entra na espiral negativa.

“Ah, esse é o discurso apocalíptico dos reacionários, dos que não querem mudar nada…” Besteira! É o discurso dos que acreditam que a mudança só é duradoura quando se investe também na estabilidade. Querem um exemplo do que não fazer? Se você, leitor, fosse um investidor, escolheria hoje a área de transporte público, por exemplo? Por quê? A rigor, todos os setores com tarifas controladas passaram a ser potencialmente perigosos.

Finalmente…

Sim, eu também estou entre aqueles que estranham o silêncio de Lula. Ninguém ignora que duas são as especulações principais: a) a de que estaria doente, evitando, então a exposição pública; b) a de que estaria torcendo para o circo pegar fogo, estimulando no PT o movimento “queremista”, que já está em curso.

Não faço votos no mal de ninguém – nem de Lula. Espero que esteja saudável. Estranho também, reitero, o seu silêncio, mas não vejo por que se deva cobrar que fale alguma coisa, como se guardasse alguma verdade oracular. A democracia lhe garante o direito de falar o que lhe der na telha, mas prefiro a poesia do seu silêncio.

Encerro lembrando que é pura cascata esse negócio de que é próprio das democracias a permanente mobilização da sociedade e coisa e tal. Não! Próprio das democracias é a clareza das regras, democraticamente instituídas, que funcionem e permitam às pessoas cuidar de suas próprias vidas e planejar o seu futuro. Se a gente não consegue ir ao barbeiro ou supermercado porque as vias estão obstruídas, alguma forma de ditadura está em curso…

Ainda voltarei a essas coisas todas. Agora vou ver uma igreja do século 14. Ontem, uma das filhas me perguntou ao passar em frente ao monumento: “Será que dura mais sete séculos, pai?”. Não sei.

Assessores? Tratar no Planalto

Sandro Vaia
Blog do Noblat

Dilma foi mal assessorada na questão da Constituinte exclusiva para a reforma política e por isso ela voltou atrás e resolveu trocar tudo por um plebiscito.

Mas Dilma foi mal assessorada na questão do plebiscito porque, entre outros problemas, não haveria tempo útil de formular uma série de perguntas tão claras, definitivas e incisivas a ponto de responder as questões controversas que formariam o perfil de uma reforma política que pudesse atender aos interesses da Nação, se é que a Nação está tão interessada mesmo numa reforma política.

Como Dilma foi mal assessorada, o PMDB, que é quem dá as cartas no Congresso, não jogou o plebiscito na lata do lixo por uma certa delicadeza, mas deixou o tema para o ano que vem, o que, em outras palavras, pode significar que deixou o tema para aquilo que antigamente se chamava de “calendas gregas”.

A mal assessorada presidente também não foi muito bem instruída na questão da importação de médicos para preencher as necessidades das comunidades mais carentes, e depois de criar atritos incontornáveis com as associações de classe, resolveu repensar a questão da importação de médicos cubanos.

Acontece o seguinte: a presidente foi mal assessorada e não sabia que o modelo de exportação de médicos cubanos, tal como adotada na Venezuela, por exemplo, era uma espécie de modalidade de exploração de mão de obra escrava, pois o governo exportador - Cuba - se apropriava da maior parte da renda originária do aluguel dos profissionais e destinava a eles uma pequena parcela desses ganhos. Péssima ideia para um país que tenta implantar um modelo de “inclusão social”.

Ia pegar mal. A presidente, mal assessorada, parece ter desistido da desastrada ideia.

A presidente, precisando desesperadamente de uma agenda positiva para apagar a má impressão da vaia do Mané Garrincha, resolveu juntar alguns milhares de prefeitos e vice-prefeitos para anunciar seu pacote de bondades e distribuir 3 bilhões de reais para aliviar as finanças mal paradas dos municípios.

Mal assessorada, a presidente anunciou 3 bilhões (que divididos por mais de 5 mil municípios não chegam a somar a média de 600 mil reais para cada um) para todos, e foi vaiada. Os prefeitos esperavam o anúncio de um aumento substancial e permanente do repasse do Fundo de Participação dos Municípios e não um mero ajutório. Por isso vaiaram.

“Ninguém sabe hoje quem apoiará Dilma em 2014”, disse o presidente do PT, Ruy Falcão, com a sabedoria dos alquimistas. Alguém será capaz de captar o verdadeiro sentido da mensagem cifrada emitida por uma eminência tão parda num momento mais pardo ainda para a popularidade e o prestígio da presidente?

Nunca antes na história deste país uma gerente tão eficiente conseguiu ser tão mal assessorada em tantos assuntos e em tão pouco tempo.

A terapia do susto

Nelson Motta
O Globo

O governo é vítima de seu excesso de comunicação, contrastado fragorosamente pela realidade das ruas

Estamos vivendo dias de espanto, com Renan Calheiros se tornando o paladino das forças do bem, ávidas para atender prontamente as reivindicações populares, mesmo cortando na carne do Senado, e com o apoio de Sarney! Estamos dependendo da independência, da grandeza, da integridade e do espírito público do PMDB de Henrique Alves e Eduardo Cunha para evitar desastres armados pelos estrategistas do Planalto e apoiados pelo PT e o PCdoB, como o plebiscito de araque. Que fase!

Seguindo orientação de Lula, 25 governadores, 37 ministros, a base parlamentar aliada e os movimentos sociais foram recebidos pela presidente, filmados e fotografados, mas não falaram nada e nem foram consultados nas propostas e decisões do governo, só ouviram em silêncio, remoendo sua raiva, frustração e impotência. Os prefeitos pelo menos vaiaram.

Pela primeira vez na história deste país, prefeitos recebem dinheiro de um governo e vaiam. Mas todo mundo entendeu que eles não querem um jabá, mas negociar democraticamente a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios e depender menos do poder imperial de Brasília. Com o povo de suas cidades bufando nos seus cangotes, os prefeitos querem mostrar serviço, como nunca na história deste país.

Quando 81% dos brasileiros avaliam os políticos como “corruptos ou muito corruptos”, para conter sua voracidade, associada a empresários inescrupulosos e funcionários venais, são criados incontáveis mecanismos de controle, e de controle do controle, aumentando o poder da burocracia e atrasando os projetos e investimentos públicos. Criando mais dificuldades para vender novas facilidades, aumentam a corrupção. São mais mãos a serem molhadas, mas o custo é sempre repassado aos consumidores finais: nós.

Mas o presidente do PT atribui as dificuldades do governo a falhas de comunicação, como se o governo não gastasse mais de um bilhão de reais por ano em triunfais campanhas publicitárias de João Santana vendendo o Brasil Maravilha de Lula e Dilma. Pelo contrário, o governo é vítima de seu excesso de comunicação, contrastado fragorosamente pela realidade das ruas.

Poucos Zé's e muitos marcos

Haroldo P. Barboza
Alerta Total 

Dizem as más (e as boas também) línguas que este é o país dos Zé's. Desde Alberto até Zenóbio (passando por Mané) temos milhões de José's como precedentes. Não é difícil comprovar este fato. Basta uma contagem ligeira nos cartórios do país.   

Já a contagem de "marcos" (José Marco não é difícil de encontrar) será mais difícil de contabilizar. Temos o sentimento de que a menção desta palavra vem de muito antes do arroto do Ipiranga. 

A cada evento que mexia com os sentimentos do povo, uma personalidade pronunciava esta palavra com ênfase e emoção, dando a impressão de que a partir daquele instante, o sentimento de civismo seria forte o suficiente para unir o povo numa cruzada em busca da dignidade pisoteada pela falta de caráter de seus dirigentes.  

Até onde nossa memória permite, eis alguns "marcos" recentes (com menos de 10 anos de vida) que tendem ao esquecimento até mesmo pelos que sofreram diretamente com o evento que provocou seu "nascimento" (José Marcos Nascimento também é um nome comum).

1) Quando derrubaram Collor, afirmaram que ali estava o marco de uma nova era em nossa administração pública, com o fim da corrupção no governo federal. E como resultado, aqui estamos lamentando o aumento da falência de todas as áreas sociais em função da corrupção que se alastrou em todas as esferas de governo a céu aberto.

2) Quando o plano Real foi lançado afirmaram que ali estava o marco de recuperação da economia de nossa pátria. Que finalmente o povo passaria a ter meios de viver de forma digna, com redução da miséria em função do aumento da produtividade. E como resultado, aqui estamos em segundo lugar no índice de desemprego mundial (só perdemos para a Índia), com a suspeita dívida externa 12 vezes maior do que há 8 anos. A liberação dos aumentos neste último trimestre (mantendo os salários congelados, é claro) é mais uma prova do engodo que nos iludiu por vários anos.

3) Quando o Bateau Mouche afundou com mais de 100 personalidades a bordo, afirmaram que ali estava o marco no tocante à segurança da navegação brasileira, nos rios e em nossas costas. E hoje, continuamos de costas para o problema. Não só no que se refere às viagens sobre as águas, mas no desleixo em relação às viagens por estradas, segurança contra incêndio e limpeza de hospitais.

4) Quando um laboratório colocou comprimidos de farinha contra a gravidez (ao preço do original, claro) afirmaram que ali estava o marco de uma nova era na fiscalização da saúde em geral. E como resultado, temos venda de camisinhas furadas, aumento desproporcional de medicamentos, compras ultrafaturadas de remédios pelos hospitais públicos e abuso por parte dos planos de saúde que deixam morrer pacientes com um dia de atraso na mensalidade.

5) Quando o Palace II (à base de areia e cola) de Sérgio Naya desabou na Barra da Tijuca (RJ) matando 8 pessoas afirmaram que ali estava o marco da construção civil. E hoje, o autor da proeza continua solto sem ter quitado todas as indenizações devidas, assim como outros pilantras do mesmo quilate que continuam construindo armadilhas de baixa qualidade que desabam periodicamente.

6) Quando a P36 da Petrobras afundou matando 11 petroleiros patriotas afirmaram que ali estava o marco que determinaria uma nova conduta de qualidade dentro das empresas públicas. Mas o processo de desmantelamento das mesmas continua no sentido de desvalorizar seu preço para a ocasião do leilão-doação.

7) Quando o índio Pataxó foi covardemente queimado em Brasília por filhotes da elite afirmaram que ali estava o marco da recuperação da Justiça desmantelada. A condenação dos criminosos representaria um exemplo de que ela trata com vigor aos pobres e aos ricos. Acreditamos que o aprendiz de juiz Lalau deve estar recuperando seu vigor para em breve arquitetar novos desfalques nas contas públicas.

8) Quando o Prefeito Daniel foi barbaramente executado afirmaram que ali estava o marco para impulsionar as forças da Lei no sentido de combater o crime que já havia esticado seus braços sobre os gabinetes das autoridades de nossa terra. Outros Prefeitos, líderes de entidades e comunidades já foram eliminados e os gabinetes continuam comandando trânsito livre de armas e drogas por nossas fronteiras.

9) Quando ocorreu a primeira rebelião em Bangu I, afirmaram que ali estava o marco da recuperação do sistema carcerário do país. Que a partir daquele momento o sistema de segurança seria remodelado para servir de exemplo para o resto do país. Hoje, após a 15a. rebelião, temos certeza que lá foi instalado o QG operacional do crime organizado (o QG estratégico continua nos confortáveis gabinetes da administração pública).   

Em passado recente, o corajoso jornalista Tim Lopes foi executado cruelmente. E alguém já disse que este é o marco que vai determinar a liberdade não só da imprensa (que não se rendeu nem à ditadura) como de toda a nação, que está começando a considerar normal ser comandada pelos criminosos de armas de fogo – já que está acostumada com os que usam a caneta.   

Até o momento só deu para perceber que este fato abafou o caso do cantor Belo. E que tende a ser esquecido logo com a ênfase que a própria imprensa dará ao final da novela da noite, aos "comoventes momentos" do Big Bobo Brasil (12, 13, 14,...) e aos candidatos às eleições de 2014, que a partir de julho de 2014 começarão a abraçar idosos, beijar criancinhas de rosto sujo e a montar em jegues mancos caso a seleção de futebol não conquiste a copa de futebol.

E de marco em marco, vamos afundando no charco.

Congadas

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

O Senado aprovou projeto de resolução perdoando e renegociando a dívida de  352  milhões de dólares da República do Congo para com o Brasil. Dessa quantia, 278 milhões de dólares são de perdão, ficando o restante para ser saldado até o fim do século. Apesar de sérias críticas de senadores a tamanha generosidade,  o projeto foi aprovado por 39 votos contra 21, dada a necessidade de Suas Excelências agradarem o governo Dilma.

É claro que necessitamos ampliar nosso relacionamento e nossa influência junto aos países da África, além  da dívida sentimental que temos  com  o berço de grande parte da nossa população,  de origem africana.

Mesmo assim,  como lembrou o senador Flexa Ribeiro, essa operação tem embutida a presença de empreiteiras nacionais  atuando no Congo e em outros países. Livres da dívida com o  estado brasileiro, os  governos africanos  ficarão mais agradecidos e  flexíveis para saldar seus débitos com nossas  empresas.  No fim, será o tesouro nacional quem pagará o prejuízo, quer dizer, nós.

Também é verdade que o palácio do Planalto  nem pensa em perdoar as dívidas dos pequenos agricultores do Nordeste, assolados pela seca, como lembrou o deputado José Agripino. Acresce que o presidente do Congo e sua família, no poder há vinte anos, não caracterizam propriamente uma democracia, mas uma cruel ditadura. Possuem luxuosos apartamentos em Paris, andam em  carrões e submetem sua  população a altos níveis de miséria.

AVÔ NÃO PODE, BISAVÔ PODE
É óbvio o reconhecimento de que o Senado voltou atrás e mudou o regime dos suplentes de senador,  reduzindo-os de dois para um e proibindo a designação de cônjuges, filhos e parentes. O plenário caiu em si, 24 horas depois de não ter alcançado  número suficiente para a mudança. Terça-feira, só 46 votos a favor, quando seriam necessários 49. Quarta-feira, 64 votos.

Foi graças ao presidente Renan Calheiros e ao senador Francisco Dornelles que se operou a metamorfose. Além, é claro, de amplo sentimento de  vergonha por parte do conjunto.

Mesmo assim, foi mantida a figura de um suplente, senador sem votos  autorizado não apenas a substituir, mas suceder o titular, em seu impedimento definitivo.   Diante disso, quem protestou foi o senador Roberto Requião, que percebeu no novo texto a proibição de o avô não poder ser suplente, mas o bisavô pode. Além da economia que a extinção do segundo suplente determinará: 25 reais por cada um, o preço da confecção das respectivas carteirinhas…

A COMUNICAÇÃO
Vem desde os tempos de Ramsés II, mas aqui no Brasil avolumou-se o pretexto de que quando um governo vai mal, a culpa é de sua comunicação. No tempo dos militares,  até o tonitruante presidente Ernesto Geisel cedeu às pressões de seu  radicalíssimo ministro do Exército,  Silvio Frota, substituindo o competente Humberto Barreto, civil, por um general, nem tanto do ramo. 

Agora, ressurge em especial no PT a mesma cantilena: Dilma vai mal por falhas em sua comunicação. Tentam tapar o sol com a peneira, porque se o governo não vai bem, a responsabilidade éde seu conjunto. E de sua chefe…

PROVA DE FOGO
A partir da semana que vem teremos a prova de ter sido apenas fogo de palha o ímpeto do Congresso de aprovar medidas moralizantes  ou, no reverso da  medalha, de estarem deputados e senadores mesmo dispostos a recuperar o tempo perdido. Basta verificar se haverá ou não quorum na Câmara e no Senado para a continuação das votações ou se Suas Excelências passarão a gozar as delícias do recesso parlamentar.

O fim do plebiscito

O Estado de S.Paulo

Com o maciço apoio dos "aliados" do governo, as lideranças partidárias na Câmara dos Deputados jogaram uma pá de cal na demagógica pretensão de Dilma e do PT de realizar no ano que vem um plebiscito sobre a reforma política. É mais uma amostra de que o inferno astral da pupila de Lula perdura. Mas é também mais uma evidência de que, em matéria de esperteza, os políticos - cujos partidos, na opinião de 81% dos brasileiros, são "corruptos ou muito corruptos", segundo pesquisa da Transparência Internacional - estão ganhando de lavada a queda de braço que o voluntarismo autoritário da chefe do governo e a soberba do PT tiveram a ideia infeliz de lhes impor.

Com a decisão de descartar o plebiscito para 2014, os partidos políticos pretendem devolver para o Palácio do Planalto o mico que a teimosia desastrada de Dilma lhes havia jogado no colo. Depois de ter sido obrigada a recuar rapidamente da ideia inconstitucional de propor uma Constituinte específica para tratar da reforma política, a presidente se agarrou à proposta do plebiscito, para o qual propôs cinco questões específicas que seriam submetidas ao eleitorado. Era a maneira como Dilma e o PT imaginavam que atenderiam ao difuso clamor por mudanças. Afinal, a presidente garante que está "ouvindo" o povo nas ruas.

Ora, se estão realmente convencidos de que a reforma política é imprescindível, por que só agora Dilma e o PT "ouviram" a necessidade de realizá-la? Tiveram 10 anos para isso e não moveram sequer uma palha. Estavam surdos? Ou acham que o País só avança na base do tranco?

A verdade é que até agora não tinham a menor intenção de mudar uma situação que julgavam favorável. Com índices de aprovação popular na estratosfera e os políticos muito satisfeitos com a liberalidade da cúpula do governo com o trato da coisa pública, a reforma política podia ficar para as calendas.

O que muda agora?

Um "grupo de trabalho" de deputados vai se encarregar de, em 90 dias, preparar um projeto de reforma política que, se e quando aprovado pelo Congresso, poderá ser submetido a um referendo. Ou seja, será oferecida aos brasileiros a generosa oportunidade de se manifestar sobre o assunto. A extensão e profundidade da reforma que daí resultar, se resultar, dependerá muito do que acontecer no País nos próximos três meses. Os parlamentares já demonstraram que sabem agir com rapidez e eficiência quando a pressão popular morde seus calcanhares. Mas, quando entendem que ninguém está prestando atenção, fazem apenas o que lhes interessa.

Por outro lado, Dilma, Lula e o PT encontram-se numa verdadeira sinuca. Tanto que Lula isolou-se. Mas é claro que não pretendem permanecer de braços cruzados. Declarações feitas nas últimas horas por membros importantes do governo e do partido fornecem alguns indícios do que poderá ser a estratégia petista para o curto prazo.

O líder do partido na Câmara, deputado José Guimarães (CE), foi enfático: "O plebiscito é uma questão de honra para o PT". Já o secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, foi, como de hábito, mais ardiloso: "Não consigo imaginar um combate adequado à corrupção sem uma reforma política. O povo quer uma mudança política de profundidade. A presidenta acertou em cheio quando lançou essa proposta porque ela corresponde exatamente ao anseio mais profundo das ruas, que é o anseio por uma renovação na política. E renovação na política sem reforma política nós não vamos fazer". Quem diria!

Mas tanto Guimarães quanto Carvalho sabem que o plebiscito é carta fora do baralho. Por que, então, a insistência? Porque querem lavar as mãos e ainda sair bem na foto. Não será surpresa, portanto, se em breve Lula e Dilma aparecerem na televisão para proclamar nova palavra de ordem, desta vez sobre o tema "o povo exige plebiscito". E Rui Falcão tentar colocar seu bloco, literalmente, na rua para denunciar, com indignação e fúria, que "os políticos é que são contra". Será que cola?

Problemas reais e ilusões fiscais

Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

É necessário um ajuste de verdade, distante da contabilidade criativa e do corte de gastos inexistentes

Em 2011 a revista “The Economist” publicou uma longa reportagem sobre a Austrália. Nela Glenn Stevens, presidente do banco central australiano, resumia magistralmente o momento econômico do país: “Há cinco anos [2006] uma carga de minério de ferro comprava 2.200 TVs de tela plana (…); hoje [2011] compra 22 mil”.

Muito embora a reportagem tratasse da Austrália, quem trocasse o nome do país para “Brasil” não teria dificuldades para reconhecer o que vinha acontecendo.

De fato, até 2006 conseguíamos em troca do “minério” uma quantidade de “TVs” não muito distinta da obtida em média nos 38 anos anteriores. As coisas, porém, mudaram: cada unidade exportada pelo Brasil pôde ser trocada por uma quantidade muito maior de importações, aumentando a disponibilidade interna de bens.

Na prática, isso permitiu que a demanda interna crescesse a uma velocidade muito superior à do PIB (Produto Interno Bruto) sem grandes danos ao balanço de pagamentos.

Assim, entre 2006 e 2011, a demanda interna se expandiu a pouco mais de 5% ao ano, enquanto o PIB crescia em torno de 4% ao ano; já nos cinco anos anteriores PIB e demanda interna cresciam ambos em torno de 3% ao ano.

Em condições normais, a diferença entre demanda interna e PIB provocaria um rombo formidável nas contas externas, mas a conjuntura que prevalecia no período era tudo, menos normal.

Concretamente, em 2011 a balança comercial brasileira registrou um superavit de quase US$ 30 bilhões; tivesse o país exportado e importado as mesmas quantidades observadas naquele ano, mas a preços de exportação e importação em torno de sua média histórica (nossa definição de “condições normais”), a balança comercial teria registrado um deficit de US$ 46 bilhões.

A situação excepcional a que Stevens se referia nos trouxe, portanto, um ganho próximo a US$ 76 bilhões em 2011, equivalente a pouco mais de 3% do PIB naquele ano.

Desde então as circunstâncias se tornaram menos excepcionais. Os preços ainda estão, numa perspectiva de longo prazo, favoráveis ao Brasil, mas houve uma piora nítida de 2011 para cá.

Nos últimos 12 meses (até maio), a balança registrou um superavit de US$ 8 bilhões; tivessem, porém, prevalecido os preços do terceiro trimestre de 2011, o saldo teria sido de US$ 28 bilhões, uma perda de US$ 20 bilhões (aproximadamente 1% do PIB).

Posto de outra forma, sem os ganhos extraordinários do período 2006-11, ficou muito mais difícil sustentar um modelo de crescimento baseado na expansão da demanda interna, em particular do consumo.

O rápido encolhimento do saldo comercial, em larga medida originado da piora dos preços dos produtos exportados relativamente aos importados, acena com a possibilidade de um deficit externo da ordem de US$ 75 bilhões a US$ 80 bilhões (3,5% do PIB) já em 2013.

Há, portanto, uma queda significativa da capacidade para importar a preços reduzidos precisamente quando a capacidade de reação da oferta doméstica se encontra limitada pelas condições do mercado de trabalho e baixo crescimento da produtividade.

Nesse contexto, políticas de incentivo à demanda se traduzem apenas em pressões adicionais sobre preços e importações (no caso, mais caras), com escasso impacto sobre o PIB.

A solução, como há muito insisto, passa por um ajuste fiscal de verdade, distante da contabilidade criativa e do corte de gastos inexistentes em que o governo se especializou, seja por seus objetivos políticos, seja pela dificuldade de entendimento já demonstrada acerca da natureza dos nossos problemas.

Os anúncios recentes no campo fiscal, em particular novas antecipações de dividendos por parte de bancos públicos com dinheiro emprestado pelo próprio Tesouro (financiado por endividamento!), deixam claro que não há risco de adoção de uma estratégia correta para lidar com inflação alta, deficit externo crescente e PIB medíocre.

Com base em ilusões fiscais, não há como esperar um cenário diferente no futuro próximo.

Entre sinais contrários

Míriam Leitão  
O  Globo

O Copom subiu os juros em meio ponto ontem em um cenário ainda mais complexo do que o da última vez. O dilema entre baixo crescimento e alta inflação se acentuou. Novos indícios de fraqueza do nível de atividade, a insistência da inflação, a alta do dólar, tudo isso se aprofundou nas últimas semanas. Entre uma e outra reunião, houve a eclosão dos movimentos de rua que tornaram as decisões mais difíceis.

José Roberto Mendonça de Barros, em texto divulgado recentemente, citou alguns dados: "O indicador de estoques calculados pela Confederação Nacional da Indústria está subindo há quatro meses; o estoque médio de automóveis na rede de concessionários já é de 53 dias, bem maior do que os 25/26 dias considerados normais. Adicionalmente, o número de recuperações judiciais pela Serasa já é o maior desde 2007." O economista citou também o problema da deterioração dos balanços das empresas com passivo em dólar, com a disparada da moeda americana. A alta do dólar pressiona preços internos. O IC-Br (Índice de Commodities do Banco Central) subiu 5,3% em junho, apesar de as cotações estarem em queda no exterior.

O IBGE divulgou que o emprego industrial caiu 0,5% em maio, o que é o pior número desde novembro de 2009. No acumulado do ano, há 1% de queda do emprego industrial. E reduziram-se as horas pagas.

É nesse contexto que as centrais de trabalhadores marcaram para hoje uma greve. Não tem correlação com o movimento espontâneo que semanas atrás tomou as ruas do Brasil. Agora, é o movimento organizado e, em alguns casos, governista. A pauta de reivindicações é conhecida e provoca um aumento de custos das indústrias, com a redução da jornada de trabalho, ou aumento dos custos do governo, com o fim do fator previdenciário. A hora é ruim para o movimento atingir seus objetivos. Mas o maior interesse das centrais sindicais é dizer que ainda existem, ainda conseguem mobilizar, ainda sabem ir para as ruas. Nos últimos anos, alguns deles estiveram na órbita do governo. Outras centrais, mesmo mais distantes, sempre dependeram do dinheiro público. As centrais sindicais foram surpreendidas pelas manifestações de junho e isso as desconcertou. Foi esse o motivo inicial para o Dia Nacional de Lutas, ainda que cada categoria esteja apresentando sua bandeira.

Ontem, o Fed divulgou a ata de sua última reunião e deixou em aberto a possibilidade de começar a retirar os estímulos econômicos este ano. Tudo dependerá da intensidade da recuperação do país e melhoria do mercado de trabalho. O real se desvalorizou mesmo com as intervenções do Banco Central. A ameaça de enxugamento na liquidez está afetando os países emergentes de várias formas, como alertou o FMI: desvalorização de moeda, queda das bolsas, e perda de valor em títulos de governos, empresas e commodities. Segundo reportagem da Bloomberg, US$ 13,9 bilhões já deixaram os quatro países dos Brics este ano.

No Brasil, mais duas empresas desistiram de fazer captações via debêntures. Desta vez, foram Oi e Comgás. A Oi pretendia captar R$ 800 milhões para financiar capital de giro, alongar dívidas e financiar investimentos. O BNDESPar já havia cancelado uma emissão de R$ 2,5 bilhões. A economia real já sente, na prática, que está mais difícil captar recursos.

No campo da inflação, o governo colhe algum refresco: em junho, o IPCA subiu menos do que o imaginado e houve alta menos espalhada dos preços, os IGPs estão mostrando desaceleração dos reajustes no atacado, e o mês de julho deve ter uma inflação baixa. Mesmo assim, o dólar subindo muito vai produzir seus estragos. A tendência é a inflação reduzir um pouco no segundo semestre, em grande parte pela atuação do Banco Central.

O governo vai anunciar cortes de gastos de custeio, mas isso não chega a ser um reforço relevante na luta contra a inflação, depois de tanta trapalhada fiscal que tem efeito expansionista do gasto público.

A quem se destina essa 'contabilidade criativa'?

O Estado de S.Paulo

Em junho, a Eletrobrás tomou emprestado R$ 2,5 bilhões do BNDES e pagou dividendos atrasados aos acionistas - o maior deles é a União -, mas entre eles está também o BNDES. É o exemplo mais recente da chamada "contabilidade criativa" - expressão que já mereceria inclusão nos dicionários de economia brasileira, num capítulo relativo às práticas fiscais, no mínimo, condenáveis.

Imagine-se que operação semelhante fosse realizada numa hipotética holding privada do grupo Y, que controlasse bancos e empresas abertas. A controladora, também aberta, precisa de caixa. E manda uma controlada tomar empréstimo num banco do grupo para lhe transferir os recursos que estão faltando. Sem contar gastos adicionais (tributos, pagamento de serviços, etc.), o resultado para o grupo Y é um arranjo contábil em que se tirou dinheiro de um caixa para pôr em outro caixa - mas todos os caixas são da holding. As operações são lícitas, mas o objetivo é maquiar as contas. Se você é acionista da holding, vai querer saber que vantagem levou. Se ficou desconfiado, vai procurar o auditor e o órgão regulador para que a operação seja esclarecida.

No caso, a holding envolvida é o Tesouro Nacional. Os contribuintes podem ser equiparados a acionistas minoritários. E a Eletrobrás tomou dinheiro do BNDES para transferir ao Tesouro, com a agravante de que teve de pagar juros "acima do esperado em operações com garantia da União", segundo o Tesouro. A operação (de capital de giro), descrita em reportagem de Eduardo Campos na edição de ontem do jornal Valor, foi autorizada pelo ministro da Fazenda.

A "contabilidade criativa" já atinge proporções que uma gestão fiscal minimamente responsável não admitiria. Mas essa operação Eletrobrás/BNDES não é só um artifício para iludir analistas de contas públicas. É um expediente contábil cujo propósito é permitir que o governo gaste além do que arrecada. Não fosse por essa "criatividade", o resultado primário de junho seria pior do que aquele que será apresentado pelo Tesouro no final deste mês.

Para gastar mais, o governo não pode ignorar o custo da grave deterioração das contas das empresas estatais, seja por conta do reajuste populista de preços de bens e serviços (derivados de petróleo, na Petrobrás, e energia elétrica, na Eletrobrás), seja pelo uso do BNDES como fonte de caixa, à semelhança do que se fazia, no passado, com a "conta movimento" do Banco do Brasil.

BC precisa de ajuda no combate à inflação

Editorial
O Globo

O governo fez um diagnóstico equivocado, optando por estímulos ao consumo, sem obter resultado em termos de crescimento e alimentando a alta de preços

Como esperado pelo próprio mercado financeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar as taxas básicas de juros em meio ponto percentual, que, assim, atingiram o patamar de 8,5% ao ano. A taxa real de juros estimada é de 2,9%, considerando-se a expectativa de inflação para os próximos doze meses. O Brasil passa a figurar novamente, e agora junto com a China, no topo dos juros reais mais altos entre as principais economias do planeta.

Em um momento que a economia brasileira se apresenta com um ritmo de atividade aquém do que havia sido projetado, parece contraditório que o Banco Central, por decisão unânime de seus diretores, tenha resolvido apertar ainda mais a política monetária. O problema é que a inflação se afastou há tempos do centro da meta (4,5%) e se mostra resistente à queda. Diante dos mecanismos remanescentes de indexação automática, baseada na inflação passada, mesmo que a alta de preços seja contida no limite de 6,5%, que é o teto da meta, trata-se de um nível perigoso, com risco de perda de controle. E em função da valorização do dólar no exterior, o câmbio deixou de ser um moderador dos preços no mercado interno e passou a ser um acelerador, pelo encarecimento das importações, e o fato de a exportação de produtos brasileiros (que antes poderiam ser oferecidos para os consumidores domésticos) se tornar mais atraente. O esforço para se retomar as rédeas do controle da inflação seria certamente bem mais doloroso para o país do que um aperto da política monetária nos moldes que está sendo adotado agora. 

Com a inflação se aproximando mais do centro da meta, a economia terá condições de recuperar a confiança dos investidores e ganhará novo impulso, aproveitando fatores favoráveis ao crescimento, como a Copa do Mundo de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016 e as oportunidades na indústria do petróleo a partir da exploração da camada do pré-sal. A elevação nas taxas básicas de juros poderá ser também temporária, se a política econômica, em seu conjunto, vier a contribuir mais efetivamente para o combate à inflação. Em face da crise internacional, o governo fez um diagnóstico equivocado e acreditou que a economia brasileira poderia ficar imune a essa turbulência com medidas de estímulo ao consumo. O resultado foi pífio em termos de crescimento econômico e ainda fomentou pressões inflacionárias latentes.

A sensação de volta da inflação é um dos combustíveis das manifestações que têm se repetido desde junho. Se o governo esperava tirar dividendos políticos da política de estímulo ao consumo, o tiro saiu pela culatra.
Já passou da hora, então, de se buscar o caminho da racionalidade na política econômica. O ajuste nas finanças públicas é novamente necessário. O que não pode é o Banco Central continuar sozinho na luta contra a inflação, sem a contribuição de efetivos cortes de gastos, pois isso o obrigará a recorrer a juros que já deveriam servir apenas como referência histórica.

O golpe que chamam de diálogo (no caso dos direitos autorais)

Fernando Brant
Tribuna da Imprensa 

Trocando mensagens por e-mail, Caetano Veloso me convidou para me reunir com a turma que, segundo ele, estava estudando muito direito autoral e tinha ideias diferentes das minhas. Sempre fui do diálogo e aceitei seu convite, apesar de não acreditar que ideias boas pudessem partir de pessoas influenciadas pela senhora Vanisa Santiago.

Não frequento redes sociais, mas, por terceiros, tinha conhecimento de alguns da turma, nada que se pudesse levar muito a sério. Afinal, baseavam-se nas loucuras do Randolfe, o deslumbrado.

No dia 17 de junho peguei um avião em Belo Horizonte e fui com a Marisa Gandelmann ao tal encontro. Lá chegando, cheia a sala, ao cumprimentar o Caetano ele me convidou, com ar alegre, a me sentar a seu lado. A dona do pedaço, não a da casa, a empresária dele, me deslocou para o fundo, em um banco. No momento não vi maldade alguma em seu gesto mas, no desenrolar dos acontecimentos, percebi o significado do cenário que a dona dele preparara para mim, o Danilo Caymmi, Walter Franco e Bigonha. Não sei se a impressão que eu formei é a mesma deles. Mas falo por mim.

Quiseram que eu falasse. Disse-lhe que se o que queriam era fiscalização ao ECAD, eu a aceitaria incondicionalmente, desde que não ferisse a Constituição. Afinal são duas as cláusulas pétreas sobre o assunto. A primeira proíbe a interferência do Estado no funcionamento das associações. A segunda, ao estabelecer que ao autor pertence o direito exclusivo de utilizar sua obra, declara que o preço dessa utilização só cabe a ele. Aí também não cabe interferência estatal. E  acrescentei que a verdadeira e mais eficiente fiscalização deveria ser feita pelos autores e artistas, os donos do ECAD.

Mas logo que vi que eles não querem se mover para consertar o que julgam errado, é só reclamar e chamar a tutela do Estado. A partir dessas minhas palavras o chumbo veio grosso. Senti-me, e a posição em que me colocaram na sala acentuou essa impressão, como alvo de tiros do quadro “ O Fuzilamento” de Goya.

A empresária me fulminava sem dizer meu nome, só gritava “ esse aí” só fala em Constituição. Comecei a perceber que talvez a metade dos presentes, tendo seus objetivos, consideram ser a Constituição, não a bíblia do cidadão e da cidadania, mas um obstáculo menor a ser destruído, desvalorizado, varrido da vida do País.

O Antônio Carlos Bigonha, jurista e músico, os interpelou sobre a insensatez que é abrir mão de um direito pessoal , conquistado, privado, e entregá-lo ao Estado. Pedras sobre ele, “ você é músico?”. Ele é e ela não, como se sabe.

Tentei explicar que o peso do voto dos autores nas eleições da UBC é de 95%. Não fui ouvido ou não prestavam atenção ao que eu dizia. Disse que todas as informações de cada autor, tudo o que ele quiser saber, está à disposição dos nossos associados, “on line”, através de senha pessoal. Alguém escutou e assimilou? Nobody.

Danilo Caymmi questionou o fato de se entregarem às mãos estatais no momento em que, em todo o país, os brasileiros se levantam contra a incompetência dos governos quando aos temas essenciais como educação, saúde, segurança e transporte. Nem o que é sua obrigação primária o Estado faz.

Depois de ouvir muita sandice e perceber que o que seria um diálogo era, na realidade, a imposição autoritária das ideias antidemocráticas da maioria, resolvi ficar quieto. Eu me decepcionei com as intervenções agressivas de alguns companheiros de profissão. Outros foram civilizados, Marisa Monte e Fernanda Abreu foram exemplos.

Resolvi não mais me pronunciar, ouvi calado as explanações maliciosas e mentirosas de alguns. Queria que aquele pesadelo terminasse e lamentei não acreditar em certas coisas: uma banho de sal grosso me faria muito bem no enfrentamento da fuzilaria que se dizia diálogo.

No final, quando confirmaram que não conheciam o novo texto que substituiria o do Lindemberg/Randolfe/Creative Common ( um anteprojeto horroroso e inconstitucional) ficou combinado um novo encontro para quando eles o tivessem em mãos. Eu não sabia que o golpe já estava em curso.

Alegaram desconhecer as mudanças no PLS na virada de 17 para o dia 18. No dia seguinte, a empresária do Caetano, o do Roberto Carlos e gente ligada ao sistema Globo já estavam no Senado, em Brasília, conspirando. Conseguiram piorar o que julgávamos impossível de ser piorado. Contra a assinatura e manifesto de mais de 1.200 autores, músicos e artistas, que se expressaram publicamente contra as decisões do CADE, transplantaram-nas para o anteprojeto. E acrescentaram um artigo para livrar a Globo de possível derrota no STJ ( Superior Tribunal de Justiça) quanto ao pagamento dos direitos autorais musicais.

O golpe continuou, com a estratégia de, através de urgência urgentíssima, aprovar o monstro, em um só dia, na comissão e no plenário do Senado. Não sei se o que fizeram com o Senador Aloysio Nunes, que apenas sugeria um tempo para melhor debate da questão, foi fascismo ou stalinismo, os dois são semelhantes. Foram, os nossos colegas, ditatoriais, opressores. Que o poder não caia em suas mãos, Deus nos livre.

Os artistas presentes ao Senado, que não vivem de direitos autorais mas de shows, desprezaram os quase duzentos mil brasileiros que vivem de direitos autorais de execução pública.

Irresponsavelmente, trabalharam para os que usam música e não querem pagar o que devem. Os googles e telefônicas que se negam a reconhecer nossos direitos inscritos na Constituição e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Laboraram para destruir o braço que arrecada e distribui direitos musicais para todos. Se ampararam no “ constitucionalista”(?)senador Humberto Costa, que desafinou ao declarou constitucional o que salta aos olhos que não o é.

Apoiaram-se num medíocre antropólogo do MINC que, descobri, quer destruir os autores para assim ter material de trabalho: nos estudar. Desprezaram a voz dos colegas, várias centenas, tão artistas e tão autores como eles, tão importantes como eles ( a lista é pública, está no no documento “ Vivo de Música”), que abominam as ideias do CADE e seus burocratas amantes de Stalin e que nada conhecem da estrutura dos direitos de execução pública no Brasil e no mundo. Aliás, quem redigiu o monstro que passou pelo Senado quis legislar sobre o que não conhece.

Por último, os artistas que estavam no Senado participando do golpe, representantes deles mesmos e dos interesses dos seus empresários afrontaram os brasileiros que estão nas ruas, em movimento constante, ao abraçarem e enlaçarem personagens que a praça pública está condenando.

Ficaram devendo a discussão prévia prometida e que não houve. Mas essa foi apenas uma batalha. O jogo não terminou.

Quando melhorar...

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Terça-feira, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, garantia que, "em cinco ou seis meses, quando a economia melhorar", a presidente Dilma terá voltado a desfrutar do prestígio junto à população e do apoio político perdido nos últimos meses.

É uma afirmação que se baseia em pressupostos e condicionantes que convém examinar. Fica reconhecido que a perda de chão político sob os pés da presidente Dilma não se deveu a súbitas mudanças de estado de espírito de uma população temperamental, mas aos desarranjos da economia, que se espera agora seja consertada. Não é difícil de identificar os dois principais: a escalada da inflação e o crescimento econômico insatisfatório. Mas há outros: os rombos crescentes nas contas externas, uma indústria que sofre de atrofia nas pernas e, principalmente, a condução deficiente das contas públicas (política fiscal).

Esse reconhecimento implícito dentro do governo não deixa de ser novidade. Até agora, nossas autoridades não identificavam nenhum problema grave. A inflação, por exemplo, era coisa temporária, causada por fatores externos e de reversão garantida. Com alguma paciência, logo viria a convergência, mais ou menos espontânea, para a meta.

O diagnóstico oficial para o PIB fraco era da mesma ordem. A crise externa e a recessão dos países ricos haviam encurtado o mercado para o produto brasileiro, mas, logo depois da primeira curva, viria aí o "pibão grandão", de nada menos de 4,0% a 4,5% ao ano (algumas áreas do governo projetavam até 5,0%), que tiraria as diferenças. Afora isso, os números do pleno emprego e do consumo interno robusto passavam atestado de saúde da economia.

Não basta o reconhecimento do ministro, e do governo, de que alguma coisa desandou. É preciso entender por quê. E, outra vez, o governo não parece interessado no diagnóstico.

Parece óbvio que ela se deveu às aplicações experimentalistas de política macroeconômica adotadas pelo governo Dilma. Foi a tal Matriz de Política Econômica, que se baseou na derrubada dos juros sem fundamentação técnica suficiente (meta dos juros em substituição à meta de inflação), na adoção de uma política orçamentária flácida, em nome da necessidade de adotar critérios anticíclicos (mais despesa em tempos de produção mais baixa) e no incentivo ao consumo sem correspondência na capacidade de oferta da economia.

Isso significa que, para garantir a virada, não basta submeter a economia a alguns ajustes de circunstância e incentivar os puxadinhos de sempre. É preciso mais.

É um equívoco, por exemplo, afirmar que a política fiscal do governo Dilma seja um descalabro. Apesar dos problemas, não é. Ela é apenas insuficientemente rigorosa para assegurar os objetivos pretendidos. Por isso, também, é a mãe das distorções. Menos rigor na administração das contas públicas estufa o consumo, abre rombo nas contas externas e exige um esforço excessivo da política monetária (política de juros) para controlar a inflação.

Tudo isso também provoca deterioração da credibilidade do governo, retrai os investimentos e leva o consumidor a atitudes bem mais conservadoras na administração do seu orçamento doméstico. A redução do apoio à presidente Dilma é consequência de tudo isso.

Já foi dito algumas vezes nesta Coluna que dá, sim, para reverter a situação adversa para o governo. Mas não custa repetir. A melhor sugestão nesse sentido foi manifestada pelo ex-ministro Delfim Netto. Para ele, o choque de credibilidade que mudaria muita coisa depende de que o governo federal assuma o compromisso formal de perseguir e atingir, em três ou quatro anos, o déficit nominal zero na condução das contas públicas. Com isso, receitas e despesas (incluídas as dos juros da dívida) do governo se equilibrariam, a dívida cairia em relação ao PIB e os investimentos voltariam a fluir.

Como não há nada de novo na administração da economia - a não ser a atuação mais realista do Banco Central a partir de abril -, também não dá para contar com que, em apenas cinco ou seis meses, melhore o desempenho da economia, como quer o ministro Gilberto Carvalho.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A análise de Celso Ming é perfeita. De fato, a insatisfação da população teve seu estopim no declínio das nossas virtudes econômicas, a começar pela inflação alta e constante.

 Mas seria simplório demais atribuir a saída às ruas para protestar, apenas por conta de razões econômicas.  A situação da saúde pública está insuportável. Mais indigno disto que está aí, só se não tiver saúde alguma. A insegurança, hoje, está presente em todos os rincões do país e com viés de alta. Nestes dois campos, saúde e segurança públicas, não se viu até o início de junho, o menor interesse do governo Dilma em achar soluções.

Os tais investimentos aos borbotões que o Brasil atrairia com eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas, ficaram pelo caminho, e muito pouco  se percebeu. O velho BNDES de guerra é quem mais tem sustentado o atendimento às exigências das entidades FIFA e COI. Ora, os bilhões que estão sendo injetados em estádios e parque olímpico estão fazendo falta em itens essenciais e que sensibilizam diretamente a população. 

A queda nas pesquisas é decorrência disto tudo, portanto, e não será apenas a economia que terá o dom de recuperar os índices de antes. 

Especificamente, em relação à economia, claro que o tempo joga em favor desta recuperação, mas não tanto. Qualquer mexida nos fundamentos sobre os quais trabalha a equipe econômica vai exigir tempo de maturação para produzir os resultados. E, muito provavelmente, tais resultados só serão sentidos após as eleições. Para implementá-los, contudo, é preciso agir agora, e não se esperar para o depois das eleições. Isto exige desprendimento político. E, como estamos advertindo até antes de Dilma Rousseff assumir, ou ela escolhe o projeto Brasil,  ou o projeto de poder de seu partido. As duas coisas juntas, são irreconciliáveis. 

Porém, quando observamos as agitações internas do governo Dilma, fica difícil imaginar que eles optarão por fazer a coisa certa em benefício do país. Ao receber em seu gabinete entidades como centrais sindicais, MST, UNE e congêneres, não é com responsabilidade fiscal que o governo está preocupado. Para agradar tais entidades, o governo precisará manter o cofre aberto, negociar medidas populistas. Tudo isso vai contra a uma política fiscal responsável. 

Até o Congresso enterrar a ideia de plebiscito, quantos líderes da oposição dona Rousseff chamou em seu gabinete para conversar e ouvir sugestões? Hoje, goste a presidente ou não, a oposição representa cerca de 40% do eleitorado, são tão brasileiros quanto qualquer um de sua base. Por que então o preconceito? Além disto, seria saudável que Dilma olhasse para trás e visse quem logrou trazer a inflação para baixo, lançou as sementes da estabilidade e da modernização da economia e abriu as portas para as conquistas sociais das últimas décadas. Teria muito a aprender.

 Dilma estará daqui a seis meses, fechando 3 dos quatro anos de seu mandato, e estará colecionando mais um pibinho. Talvez a inflação até arrefeça, mas o resto continuará do jeito que está. Hoje, saiu o resultado de maio: retração. E não será de se admirar que  as próximas projeções do PIB para 2013, joguem os índices para abaixo dos 2%!

É muito mais fácil esperar que a reversão de queda nos índices de aprovação se dê  por campanhas de marketing do que por ações efetivas. E será assim por uma razão específica: Dilma chegou ao poder sem ter um miserável e razoável projeto de país. Todas as suas ações se guiaram pelo viés do marketing e do improviso. Nada de muito mexe-mexe, nada de muito estrutural, nada de muito profundo, que é para não entornar o caldo ainda mais.

O problema do governo Dilma, fica claro, não é falta de projetos, é a própria Dilma. Seus  conceitos são inadequados, suas atitudes são antidemocráticas, sua teimosia é patológica, suas ideias de gestão são obsoletas, caquéticas. Com Dilma no governo equivale dizer  que o Brasil tem presidente mas não tem governo.

Não tem pão, comam brioches!

Yvonne Maggie
Portal G1

Esta frase foi atribuída à rainha Maria Antonieta que, na Revolução Francesa, teria respondido ao povo faminto e amotinado, e  acabou perdendo a cabeça em uma fria guilhotina. Parece que nossos governantes estão mais ou menos respondendo dessa forma às demandas da população que ocupou as ruas nesse mês de junho.

Tudo começou em São Paulo como uma passeata contra o aumento de R$ 0,20 centavos nas passagens de ônibus. Um protesto que poderia ter sido como muitos outros. Mas foi o estopim. A polícia respondeu com grande violência, e o que era uma demanda absolutamente justa e factível virou um mar ou um tsunami de gente farta. Farta da precariedade e do abuso dos serviços públicos – hospitais,  escolas e transporte. E o clamor por lisura e probidade dos que andam tratando a coisa pública como particular.

Li muitos artigos esclarecedores. Cito apenas alguns que recomendo enfaticamente: Edmar Bacha: “O Real, a rua e o Governo”, publicado em O Globo, no dia 30 de junho.  André Lara Resende divulgado no site do Simon Schwartzman. Fernando Gabeira. Mesmo com todas essas leituras e ainda as muitas cartas enviadas ao jornal O Globo e os milhares de comentários no FB e programas de TV com debates entre especialistas ao longo do mês de junho, fico sem entender a resposta dos governantes.

A frase de Maria Antonieta às vésperas de ser decapitada, coitada, foi muito malévola. O povo queria mesmo pão e quem não tem pão, imagine brioche! Tinham fome, mas também estavam cansados de uma monarquia que extorquia, que não respeitava minimamente seus súditos.

Claro que a comparação é anacrônica. Afinal, aquela cena do povo em cima do Congresso brasileiro literalmente nada tem a ver com as descrições da queda da Bastilha, sobretudo porque o Congresso continua lá, firme e a Bastilha foi abaixo. A Bastilha era uma prisão que representava a iniquidade da monarquia francesa, e o edifício das duas cúpulas que compõem o Congresso é, hoje, o símbolo máximo da democracia corrompida.  Há algo em comum, pelo inverso.

A resposta dos governantes espanta e talvez possa explicar o que motivou a reação popular. Dilma fez o que pôde. Até foi direta e imediata, tendo se aconselhado em primeiro lugar com o marqueteiro, que a esta altura, já devia ter sido defenestrado. Afinal, como é que com tantomarketing o povo ainda estava descontente? Mas foi ele o primeiro a ser chamado. E a nossa Presidente prometeu uma constituinte, ou um plebiscito. Mas ninguém reivindicava isso. Nem muito menos falava em reforma política. Ninguém nem sabe o que é reforma política. Como disse um dos missivistas do O Globo, o povo nas ruas pedia reforma dos políticos.

E o que se viu? O impensável. No mês de junho Renan Calheiros, com a maior cara de pau, viajou para um casamento em jato da Força Aérea Brasileira. O presidente da Câmara também foi a uma festa levando a família naqueles aviões com passagem paga com o nosso dinheiro. Sergio Cabral trafega de  helicóptero, também com dinheiro retirado do nosso bolso, para o trabalho e para os finais de semana com toda a família. Afinal, será que nunca leram um livrinho sobre símbolos? Mas não era mesmo o passe livre que estavam querendo os manifestantes? Convenhamos!

A coisa engrossou de tal forma que foi preciso o Governo investir na confusão e propor soluções, arranjar um truque. Propor um brioche. O povo, hoje, não está faminto. O povo quer serviços de qualidade, quer governantes que estejam a altura dos seus “cargos”.

Mas eles moram em palácios, encastelados,  rodeados apenas por bajuladores. É preciso  andar nas periferias, ir às igrejas evangélicas que pululam pelas periferias das cidades para ouvir o que as pessoas pedem e de que mal estão sofrendo. É preciso frequentar escolas públicas e, nem que seja por um dia, andar de ônibus ou em trens superlotados. E que tal  tentar se tratar em hospitais da rede pública. Isso os tornaria mais humanos.

Ninguém imaginava às vésperas do mês de junho que uma passeata pelos 0,20 centavos fosse dar no que deu.

O Governo ficou em pânico. A polícia agiu como sempre, truculenta. Vi vídeos que mostram a violência sem razão e pessoas desarmadas sendo espancadas por três ou quatro policiais. Como um no qual uma mulher deitada no chão recebe bordoadas de cassetete e chutes no rosto desferidos por três policiais militares que a deixam no chão a rolar de um lado para o outro, até ser algemada.

Fui à passeata na Presidente Vargas no dia 20 de junho. Milhares de pessoas. Mas não me senti bem. Pensei no passado, na passeata do enterro do estudante Edison Luiz – e se fosse um filho seu? Pensei na passeata dos cem mil e antes disso, na pequena passeata  quando da decretação do Ato Institucional nº 2. Mas não me reconheci naquela Avenida onde milhares de pessoas se acotovelavam e cada um gritava a sua palavra de ordem.

Prefiro o biombo das urnas, embora  nossos  governantes não procedam como representantes eleitos pelo povo, agindo como usurpadores do poder. Agora é preciso correr contra o tempo. Talvez não consigam, mas é possível melhorar os serviços sem chamar médicos de Cuba, ou obrigar estudantes recém-formados em medicina a trabalhar no SUS. É possível melhorar o ensino sim, e em pouco tempo. Há soluções e há quem as queira, mas é preciso sair da inércia, do marketing e, sobretudo, é preciso perder privilégios e descer do salto, antes que acabem por lhes cortar a cabeça.

Como disse Rosinha, a moça que trabalha na minha casa há 26 anos quando ouvíamos o primeiro pronunciamento da presidente Dilma: “Yvonne, eu não sabia que o povo tem poder!”

E é verdade. Hoje, as centrais sindicais se espalharam em manifestações por todo o Brasil. As estradas em muitas regiões foram fechadas. O povo na rua produziu tanto medo aos governantes que era hora de botar um pouco de ordem, será isso? Tudo muito estranho. O Governo não aguentou ouvir o que foi gritado pelo povo desorganizado e sem lideranças – o clamor contra os abusos dos nossos representantes eleitos. Será que agora, quem sabe, em vez de correr para saldar a dívida, correm para salvar a pele, digo as próximas eleições? Afinal, vi pela TV muitas bandeiras vermelhas! Eles estão também reclamando dos desmandos? Ou já surgem novas reivindicações diferentes daquelas exigidas pelos manifestantes populares, ou o tal povo desorganizado?

O Maracanã virou Jockey Club

Sandra Starling
Tribuna da Imprensa

Uma correspondente internacional narrou que o que mais a impressionou numa das manifestações do Rio foi a reação de um menino de 15 anos, morador do morro de São Carlos. “Ele gritava muito forte” – conta –, “dizia saber que nunca teria condição de ir ao Maracanã”.

Semanas antes, assistindo ao documentário “Chico Buarque e o Futebol”, eu, que frequentei muito (outrora) o Mineirão, pude relembrar que, na geral, o povão ficava de radinho em punho porque, na verdade, nada via, a não ser através de pequenas frestas no alambrado. Apesar disso, a posição ali era privilegiada porque permitia xingar o juiz e o bandeirinha, estimular o time do coração e amedrontar o adversário. Foi quando entendi por que na geral todo mundo corria ora para um lado, ora para o outro, permanecendo sempre em movimento, ao contrário da posição de quem via o campo todo de cima, como eu.

Dias antes da final da Copa das Confederações, fiquei sabendo que o governo democrático-popular do Brasil ajoelhara-se aos desmandos da Fifa e admitira o fim da geral. Portanto, excluíra o povão de uma de suas maiores festas: o futebol.

Assisti, como todo brasileiro, extasiada, à final dessa Copa, quando nossa seleção voltou a jogar aquele futebol que nos deixa dilacerados de paixão. E, com os que lotavam o Maracanã, também gritei em frente à televisão: “O campeão voltou, o campeão voltou”. Até que percebi uma coisa nunca antes percebida por mim: dessa vez, os jogadores confraternizavam-se com a torcida após cada gol e saltavam uma pequena cerca para abraçar e serem abraçados pelos torcedores enlouquecidos.

Ué, onde fora parar o fosso que antes separava o campo da geral?

NÃO HÁ NEGROS
Aí, fiquei espiando o passeio das câmeras da TV pelo estádio e não vi um negro sequer. Já havia achado meio esquisita a transmissão de Itália e Uruguai em Salvador: lá também não notei a presença de nenhum negro. Mas como? Na Bahia, futebol sem negros?

Foi aí que minha ficha foi caindo devagarinho, devagarinho: tiraram o povão do campo! Então, agora cheio de classe média educada, de mauricinhos e patricinhas, ou “coxinhas”, fosso e geral para quê? Onde ter gente negra e gente pobre com ingresso mínimo de R$ 300? Como pôde um governo que possui até uma Secretaria (com status de ministério) da Igualdade Racial, e que adotou cotas nas universidades, excluir pobres e negros dos estádios de futebol?

Quando eu era menina, lia boquiaberta a revista “O Cruzeiro”, que sempre cobriu as corridas de cavalo no Jockey Club do Rio: na plateia, madames vestidas na melhor moda e até de chapéu. Ficava sonhando, eu, menina do interior, com o dia em que também pudesse frequentar o Jockey Club em dia de disputa do Grande Prêmio Brasil.

Graças a Deus nunca fiz essa besteira. Mas soube que no Maracanã, no domingo, havia madame de sapato alto e de bolsa Chanel. Agora entendo ainda mais a bronca da rapaziada. Transformaram o Maracanã em Jockey Clube. O garoto de São Carlos tem toda a razão.

Brasil fica mais perto do topo em ranking de juro real

Beatriz Olivon
Exame.com

Com elevação da Selic em 0,50 p.p. para 8,50% ao ano, o Brasil passa a ser o segundo colocado no ranking de juros reais, atrás da China

Marcos Santos/USP Imagens 
No ranking de juros nominais, o Brasil passou para o 3º lugar, 
atrás da líder Venezuela, com taxa de 15,63%, e da Argentina, com 11,38%

São Paulo – Com uma nova alta da Selic de 0,50 ponto percentual, a taxa básica de juros foi para 8,50% ao ano e o Brasil ficou mais perto do primeiro lugar no ranking que compara as taxas praticadas em 40 países. O Brasil vem subindo pouco a pouco no ranking elaborado pelo MoneYou, no qual ocupa a 2ª posição.

O Brasil havia conquistado a 4ª posição após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada em maio; a 5ª após o encontro anterior a esse e a 6ª antes. O país saiu do primeiro lugar do ranking de juros reais em abril de 2012, quando a Rússia passou a ocupar a posição.

Com a Selic anunciada hoje, a taxa brasileira de juro real, descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses, é de 2,5%. A média dos 40 países pesquisados é negativa em 0,4%. A Venezuela segue na última posição, agora com juros reais de -12,3%. A China é o país que possui a maior taxa de juro real (2,9%), seguida pelo Brasil, Chile (2,3%) e Hungria (2,1%).

No ranking de juros nominais, o Brasil passou para o 3º lugar, atrás da líder Venezuela, com taxa de 15,63%, e da Argentina, com 11,38%.

Veja a tabela com os juros reais nos 40 países, incluindo a taxa brasileira. 

País
Taxa Real
1
China
2,9%
2
Brasil
2,5%
3
Chile
2,3%
4
Hungria
2,1%
5
Rússia
2,0%
6
Índia
1,9%
7
Polônia
1,2%
8
Suécia
1,0%
9
Malásia
1,0%
10
Grécia
0,8 %
11
Filipinas
0,8%
12
Argentina
0,5%
13
Indonésia
0,5%
14
Taiwan
0,5%
15
Colômbia
0,3%
16
Coreia do Sul
0,3%
17
Austrália
0,2%
18
México
0,2%
19
Suíça
0,1%
20
Tailândia
0,0%
21
Japão
-0,2%
22
Portugal
-0,3%
23
Áustria
-0,3%
24
Canadá
-0,4%
25
Bélgica
-0,6%
26
Israel
-0,7%
27
África do Sul
-0,8%
28
França
-0,9%
29
Dinamarca
-1,0%
30
Alemanha
-1,1%
31
Espanha
-1,4%
32
Itália
-1,5%
33
Estados Unidos
-1,7%
34
República Tcheca
-1,9%
35
Holanda
-2,0%
36
Reino Unido
-2,1%
37
Turquia
-2,2%
38
Hong Kong
-3,6%
39
Cingapura
-3,6%
40
Venezuela
-12,3%

MÉDIA GERAL
-0,4%