Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa
O Senado aprovou projeto de resolução perdoando e renegociando a dívida de 352 milhões de dólares da República do Congo para com o Brasil. Dessa quantia, 278 milhões de dólares são de perdão, ficando o restante para ser saldado até o fim do século. Apesar de sérias críticas de senadores a tamanha generosidade, o projeto foi aprovado por 39 votos contra 21, dada a necessidade de Suas Excelências agradarem o governo Dilma.
É claro que necessitamos ampliar nosso relacionamento e nossa influência junto aos países da África, além da dívida sentimental que temos com o berço de grande parte da nossa população, de origem africana.
Mesmo assim, como lembrou o senador Flexa Ribeiro, essa operação tem embutida a presença de empreiteiras nacionais atuando no Congo e em outros países. Livres da dívida com o estado brasileiro, os governos africanos ficarão mais agradecidos e flexíveis para saldar seus débitos com nossas empresas. No fim, será o tesouro nacional quem pagará o prejuízo, quer dizer, nós.
Também é verdade que o palácio do Planalto nem pensa em perdoar as dívidas dos pequenos agricultores do Nordeste, assolados pela seca, como lembrou o deputado José Agripino. Acresce que o presidente do Congo e sua família, no poder há vinte anos, não caracterizam propriamente uma democracia, mas uma cruel ditadura. Possuem luxuosos apartamentos em Paris, andam em carrões e submetem sua população a altos níveis de miséria.
AVÔ NÃO PODE, BISAVÔ PODE
É óbvio o reconhecimento de que o Senado voltou atrás e mudou o regime dos suplentes de senador, reduzindo-os de dois para um e proibindo a designação de cônjuges, filhos e parentes. O plenário caiu em si, 24 horas depois de não ter alcançado número suficiente para a mudança. Terça-feira, só 46 votos a favor, quando seriam necessários 49. Quarta-feira, 64 votos.
Foi graças ao presidente Renan Calheiros e ao senador Francisco Dornelles que se operou a metamorfose. Além, é claro, de amplo sentimento de vergonha por parte do conjunto.
Mesmo assim, foi mantida a figura de um suplente, senador sem votos autorizado não apenas a substituir, mas suceder o titular, em seu impedimento definitivo. Diante disso, quem protestou foi o senador Roberto Requião, que percebeu no novo texto a proibição de o avô não poder ser suplente, mas o bisavô pode. Além da economia que a extinção do segundo suplente determinará: 25 reais por cada um, o preço da confecção das respectivas carteirinhas…
A COMUNICAÇÃO
Vem desde os tempos de Ramsés II, mas aqui no Brasil avolumou-se o pretexto de que quando um governo vai mal, a culpa é de sua comunicação. No tempo dos militares, até o tonitruante presidente Ernesto Geisel cedeu às pressões de seu radicalíssimo ministro do Exército, Silvio Frota, substituindo o competente Humberto Barreto, civil, por um general, nem tanto do ramo.
Agora, ressurge em especial no PT a mesma cantilena: Dilma vai mal por falhas em sua comunicação. Tentam tapar o sol com a peneira, porque se o governo não vai bem, a responsabilidade éde seu conjunto. E de sua chefe…
PROVA DE FOGO
A partir da semana que vem teremos a prova de ter sido apenas fogo de palha o ímpeto do Congresso de aprovar medidas moralizantes ou, no reverso da medalha, de estarem deputados e senadores mesmo dispostos a recuperar o tempo perdido. Basta verificar se haverá ou não quorum na Câmara e no Senado para a continuação das votações ou se Suas Excelências passarão a gozar as delícias do recesso parlamentar.