quarta-feira, abril 08, 2020

Desta vez é realmente diferente

Carmen Reinhart
Exame.com

Não há um episódio histórico que possa fornecer qualquer insight sobre as prováveis consequências econômicas da crise global do coronavírus

(Alberto Lingria/Reuters)
CORONAVÍRUS: mais de um terço da população mundial
 está vivenciando algum tipo de quarentena 

Embora as pandemias sejam comparativamente raras e as mais graves mais raras ainda, não conheço um episódio histórico que possa fornecer qualquer insight sobre as prováveis consequências econômicas da crise global do coronavírus. Desta vez é realmente diferente.

Um recurso importante deste episódio que o torna único é a resposta das políticas públicas. Governos em todo o mundo estão priorizando medidas que limitem a propagação da doença e salvem vidas, incluindo o bloqueio completo de uma região (como na China) e até de países inteiros (Itália, Espanha e França, por exemplo). Uma lista muito mais longa de países, incluindo os Estados Unidos, impôs severas proibições de viagens internacionais e proibiu todo tipo de eventos públicos.

Essas medidas não poderiam estar mais longe das respostas em relação ao surto viral mais mortal dos tempos modernos, a pandemia de influenza espanhola de 1918-19 (ver gráfico). Essa pandemia, que custou 675.000 vidas nos EUA e pelo menos 50 milhões em todo o mundo, ocorreu no contexto da Primeira Guerra Mundial. Esse fato, por si só, impede qualquer comparação significativa em relação aos efeitos da pandemia do COVID-19 só nos EUA ou na economia global.



Em 1918, ano em que as mortes por influenza atingiram o auge nos EUA, os prejuízos nos negócios atingiram menos da metade do nível anterior à guerra e foram ainda mais baixos em 1919 (ver gráfico). Impulsionado pelo esforço de produção em tempo de guerra, o PIB real dos EUA aumentou 9% em 1918 e cerca de 1% no ano seguinte, mesmo com os estragos causado pela gripe.



Com o COVID-19, por outro lado, a enorme incerteza em torno da possível propagação da doença (nos EUA e no mundo) e a duração da quase paralisação econômica necessária para combater o vírus tornam as previsões um pouco diferentes das estimativas. Mas, dada a escala e o escopo do choque do coronavírus, que está simultaneamente prejudicando a demanda agregada e interrompendo a oferta, é provável que os efeitos iniciais na economia real superem os da crise financeira global de 2007-09.

Embora a crise do coronavírus não tenha começado como crise financeira, ela pode se transformar em uma de austeridade sistêmica. Pelo menos até que a atividade econômica reduzida resulte em perda de empregos, os balanços das famílias dos EUA não parecem problemáticos, pois estavam no período que antecedeu a CFG (Crise Financeira Global). Além disso, os bancos estão muito mais fortemente capitalizados do que em 2008.

Os balanços corporativos, no entanto, parecem muito menos saudáveis. Como observei há mais de um ano, as obrigações de empréstimos garantidos, CLOs (Collateralized Loan Obligation), cuja emissão se expandiu rapidamente nos últimos anos, compartilham muitas semelhanças com os notórios títulos subprime lastreados em hipotecas que alimentaram a CFG.

A busca por rendimento em um ambiente de baixa taxa de juros alimentou ondas de empréstimos de qualidade inferior – não apenas nas CLOs. Não surpreende, portanto, que a recente queda do mercado de ações tenha exposto altos índices de alavancagem e maiores riscos de inadimplência.

Como se o choque do coronavírus não fosse suficiente, a guerra do petróleo entre a Arábia Saudita e a Rússia quase reduziu pela metade os preços do petróleo, piorando a situação do setor de energia dos EUA. Com grande parte da produção atingida por interrupções nas cadeias de suprimentos e amplos segmentos do setor de serviços mais ou menos paralisados, as inadimplências e falências corporativas entre pequenas e médias empresas devem aumentar, apesar dos estímulos fiscais e monetários.

Além disso, à medida que a crise do coronavírus em 2020 se desenrola, as semelhanças entre títulos corporativos de alto rendimento e títulos soberanos de países em desenvolvimento parecem estar se acentuando.

Enquanto a crise financeira e da dívida dos anos 80 afetou os mercados emergentes, a CFG foi uma crise financeira (e em alguns casos também uma crise da dívida) nas economias avançadas. O crescimento médio anual do PIB da China acima de 10% em 2003-2013 elevou os preços globais das commodities, impulsionando os mercados emergentes e a economia global. E, diferentemente das economias avançadas após a CFG, os mercados emergentes tiveram recuperações econômicas em formato de V.

Nos últimos cinco anos, no entanto, os balanços dos mercados emergentes (tanto públicos quanto privados) deterioraram-se e o crescimento diminuiu significativamente. No entanto, o recente e importante corte nas taxas de juros do Federal Reserve dos EUA e outras medidas em resposta à pandemia também devem facilitar as condições financeiras globais para os mercados emergentes. Mas outras coisas estão longe de serem iguais.

Para começar, a clássica corrida ao Tesouro dos EUA em tempos de estresse global e o aumento no índice de volatilidade VIX[1] revelam um forte aumento na aversão ao risco entre os investidores. Essas ocorrências geralmente coexistem com o aumento nos spreads das taxas de juros de risco e reversões abruptas dos fluxos financeiros à medida que os capitais fogem dos mercados emergentes.

Além disso, a queda nos preços do petróleo e das commodities reduz o valor de muitas exportações dos mercados emergentes e, portanto, afeta o acesso desses países ao dólar. No caso mais extremo (mas não único) do Equador, por exemplo, esses riscos se traduziram em um spread soberano que se aproximava de 40 pontos percentuais.

Por fim, o crescimento econômico da China foi um importante impulsionador de seus significativos empréstimos para mais de 100 países em desenvolvimento de renda baixa a média na última década, como mostrei em recente artigo juntamente com Sebastian Horn e Christoph Trebesch. A grande quantidade de fracos dados econômicos chineses para o início de 2020 aumenta a probabilidade de empréstimos externos substancialmente reduzidos.

Desde a década de 1930, as economias avançadas e emergentes passaram por uma combinação de colapso no comércio global, preços globais de commodities deprimidos e uma desaceleração econômica sincrônica. É verdade que as origens do choque atual são muito diferentes, assim como a resposta das políticas. Mas as políticas de bloqueio e distanciamento que estão salvando vidas também carregam um custo econômico enorme. Uma emergência de saúde pode evoluir para uma crise financeira. Claramente, este é o momento de fazer “tudo o que for preciso” em termos ‘fora da caixa’ para políticas fiscais e monetárias em grande escala.

[1] VIX é o símbolo e o nome popular do CBOE Volatility Index da Chicago Board Options Exchange, medida da expectativa de volatilidade do mercado de ações com base nas opções do índice S&P 500. Ele é calculado e divulgado em tempo real pelo CBOE e é frequentemente chamado de índice de medo ou medidor de medo.

Carmen Reinhart é Professora do Sistema Financeiro Internacional da Kennedy School of Government, da Universidade de Harvard.

Durante e depois da crise

Fernando Henrique Cardoso,
O Estado de S.Paulo

Abra-se o Tesouro para garantir a sobrevivência das pessoas e empresas, depois se vê como pagar

Estamos atravessando tempos bicudos. Não só por causa do coronavírus, mas também porque há um vazio político no mundo. Quando não, há uma histeria direitista sem que se veja o “outro lado” do espectro. Ou sumiu, ou os tempos são outros e mesmo a antiga divisão, que persiste, entre esquerda e direita - com suas variantes ao redor de um centro abstrato - não dá mais conta das reais adversidades do mundo contemporâneo: aquecimento global, substituição de mão de obra por “máquinas inteligentes” e agora, como se fossem poucas as tormentas, as pandemias.

Estou, como bom cidadão - e idoso -, fazendo esforço para me isolar. Confesso que ando cansado de ouvir tanta gente, a toda hora, falando de doenças e mortes. Não me refiro aos especialistas, como o ministro da Saúde, que precisam mesmo falar. Ele tem sido competente, claro e sensível às necessidades do momento. Certos presidentes melhor que não falem, pois falam e “desfalam” ao sabor das circunstâncias, despreparados para entender o presente e, mais ainda, para projetar o futuro.
Sei que é difícil. Na última sexta-feira, assisti no Zoom (ah, quantos inventos de interlocução sem a presença das pessoas foram criados no mundo e como são úteis...) a uma discussão, organizada pela Fundação FHC, entre o ex-embaixador do Brasil na China Marcos Caramuru e um especialista americano em economia chinesa, Arthur Kroeber.

Além dos impactos econômicos da pandemia, discutiram o que poderá acontecer com a geopolítica mundial depois da crise. Kroeber afirmou que a crise reforça a posição dos setores mais duros da sociedade e do governo americano, que veem na China uma ameaça, um vírus a ser contido. O embaixador Caramuru acredita que, se essa visão prevalecer nos Estados Unidos, crescerá a influência chinesa no mundo. Para ele, só os Estados Unidos veem a China como adversária implacável da paz e da prosperidade. Os demais países - nós incluídos - deveriam aproveitar os espaços econômicos no futuro para aumentar nossas exportações e induzir os chineses a fazerem mais investimentos aqui.

É certo que é preciso pensar no depois. Os países e seus povos não vão acabar. A crise virótica, por mais difícil e custosa que seja em termos de vidas e de recursos, um dia vai passar. Mas, e antes disso, durante a pandemia? O óbvio já disse acima e a maioria das pessoas sabe e compartilha: nada, se possível, de ir à rua ou juntar-se com outras pessoas. Estamos todos (os que podemos...) como prisioneiros, não por ordem da Justiça ou pelo arbítrio dos poderosos, mas para tentarmos nos salvar e salvar os outros.

Aproveitemos para pensar no estilo de vida que vivemos. A solidariedade, no cotidiano da maioria das pessoas, transformou-se em mera frase, sem correspondência em atos. Por que não aproveitar a prisão voluntária para pensarmos um pouco mais sobre nós mesmos, nossa família, os amigos, os vizinhos e a sociedade mais ampla?

Sei que para alguns a adaptação em casa é mais fácil. Eu próprio aproveito para escrever e ler. Mas, e as pessoas que vivem nas favelas ou nas periferias sem verde algum, apinhadas sob um mesmo teto? E as que perderão o emprego como consequência indireta do coronavírus? Portanto, ao mesmo tempo que mergulharmos em nossa consciência para ver se ainda somos humanos, é hora de pensar também em como transformar em gesto a intenção de ser solidário. Não faltam boas iniciativas da sociedade civil para angariar e canalizar doações. 

Sem diminuir a importância dessas iniciativas, a ação decisiva é dos governos. Os economistas não sabem qual será a profundidade da crise e em quanto tempo virá a recuperação. Mas num ponto a maioria concorda: às favas (por ora!) a ortodoxia e os ajustes fiscais. Voltamos aos tempos de Keynes e, quem sabe, os mais apressados deixarão de jogar os “social-democratas” na lata de lixo da História.
Os governos, e não só o daqui, começam a perceber que é melhor gastar já e salvar vidas do que manter a higidez fiscal e produzir cadáveres e depressão econômica. A dívida pública vai aumentar. Depois se verá como pagá-la. Este se é dúbio: em geral a maior parte da conta vai para o conjunto da população, e não para os que mais podem. Terá de haver mobilização política para que desta vez seja diferente. 

Que o Tesouro se abra (e se já estiver vazio, que se endivide ainda mais). Com um porém: que os governos usem bem o dinheiro e não transformem gastos extraordinários em gastos permanentes. Melhor haver um “orçamento de guerra” do que criar bazucas permanentes contra o Tesouro.

É disto que se trata: reforçar estruturalmente a saúde pública e a ciência básica, fazer gastos extraordinários para garantir a sobrevivência das pessoas e das empresas mais vulneráveis e, mais à frente, distribuir com equidade a carga de impostos para reduzir o déficit e a dívida pública, que vão crescer inevitavelmente. 

SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Bolsonaro deveria dizer, em público, que é a favor daquilo que é contra

J.R. Guzzo
Gazeta do Povo. (Paraná)

 Agora, para esse caso do coronavírus, já é tarde demais. Mas para uma próxima vez, se houver uma próxima vez, o presidente Jair Bolsonaro deveria fazer exatamente o contrário do que fez, se quiser sair no lucro numa disputa desse tamanho. É simples: basta dizer, em público, que ele é a favor daquilo que é realmente contra, em particular – ou vice versa.

O senhor quer que aconteça “A”, presidente? Então diga que quer que aconteça “Z”. As forças vivas da nação, de Fernando Henrique ao PCC, de Rodrigo Maia a Dilma Rousseff, do STF à Assembleia Geral da ONU, e assim por diante, vão cair matando em cima do que Bolsonaro disser, seja lá o que for. Pronto: daí fica todo mundo contra o que ele, na verdade, também é contra, e a favor do que ele, em segredo, é de fato a favor.

Se Bolsonaro tivesse saído por aí dizendo que o Brasil tinha de se submeter a um confinamento radical – todo mundo trancado em casa, fecha tudo, para tudo, mata, prende e arrebenta - não haveria mais, já há muito tempo, confinamento nenhum neste país. Tinha de dizer, também, que qualquer sugestão de que existe algum tratamento médico possível para o Covid-19 é mentira, traição e coisa de comunista.

Em suma: precisava fazer o que os seus inimigos, sobretudo os que se enxergam como grandes forças na campanha eleitoral de 2022, querem que seja feito. Daí o Brasil voltava a funcionar, na hora.

É verdade que o presidente ia ser acusado de genocídio, e denunciado pelos “juristas brasileiros” nas “cortes internacionais de justiça” por crimes contra a humanidade; ele estaria obrigando os 200 milhões de brasileiros a saírem de casa, irem trabalhar e se contagiarem com o coronavírus, para exterminar a população e ficar mandando no Brasil sozinho, junto com o gabinete do ódio.

Mas e daí? Ele já está sendo acusado de fazer justamente isso. Em compensação, a epidemia estaria sendo tratada pelos médicos e pela ciência, e não pelo guarda noturno e gigantes como os governadores Witzel, Doria, Caiado, Barbalho e mais do mesmo.

O coronavírus, no Brasil, conseguiu o fenômeno de rebaixar questões da química, da farmacologia e da aptidão de gerir a saúde pública ao nível moral dos seus políticos – sobretudo dos governadores, prefeitos e fiscais que todo brasileiro sabe, muito bem, quem são e para o que servem.

Gerou uma massa de mentiras como nunca se viu antes, possivelmente, na história deste país. Levou os meios de comunicação a abrirem mão da lógica, renunciarem ao dever de informar ao público e divulgarem alguns dos mais espetaculares disparates que alguém pode ter lido na vida – como o de que a epidemia pode causar “mais de 600.000 mortos” no Brasil se as medidas de confinamento forem “relaxadas”. Todos, de uma forma ou de outra, se engajaram numa causa que acabou por se tornar maciçamente política – a campanha para impedir a reeleição do atual presidente em 2022.

Bolsonaro pode ser um péssimo presidente. Pode ser, para quem não gosta de nenhum aspecto do seu comportamento, das suas posições ou da sua própria existência, o pior de toda a história do Brasil – passada e futura. Mas a solução para tudo isso está em construir uma candidatura de oposição coerente, ir às urnas e ganhar dele. Tirar vantagem pessoal da desgraça comum, como estão fazendo tantos dos nossos políticos, apenas coloca mais um prego no caixão dessa democracia falida que há por aí.


Gastar hoje, ajustar depois

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

O governo tem que gastar porque só ele tem a capacidade de tomar dívida no tamanho necessário

Quer dizer que o governo não tinha dinheiro para nada, nem para pagar aposentadorias, e agora tem dinheiro de sobra para socorrer pessoas, empresas, estados e municípios? Onde estava escondido esse dinheiro?

Esse tipo de pergunta corre por aí. Na maior parte das vezes, é uma dúvida sincera. Nem todo mundo é versado em economia, de modo que de fato surpreende a facilidade com que, por exemplo, o ministro Paulo Guedes fala em centenas de bilhões de reais. Pessoas sinceras também se surpreendem quando topam com economistas clássicos, ortodoxos e/ou liberais dizendo que é preciso gastar o que for preciso para combater a pandemia.

Mas há também a pergunta que explicita uma crítica. Esta: os fatos derrubaram a tese do ajuste fiscal; o governo tem dinheiro e deve gastá-lo em tudo. Não é preciso explicitar os autores dessas críticas — é o pessoal que levou à explosão do déficit, da dívida pública e da consequente recessão.

Assim, convém comentar as dúvidas sinceras. Não havia, nem há dinheiro escondido. O governo continua operando com déficit primário — ou seja, a receita não cobre as despesas. Neste momento, em que se aproxima uma recessão, as receitas devem cair, de modo que o déficit aumentaria mesmo sem os gastos extras para combater o coronavírus.

E como, então, o governo vai aumentar o gasto? Do mesmo modo que fazia antes: tomando dinheiro emprestado. E quem empresta para o governo? Todo mundo que compra os títulos do Tesouro, incluindo as pessoas físicas, as empresas, os bancos e investidores estrangeiros. Mas estes são minoria, de modo que são brasileiros os que mais emprestam para o governo brasileiro.

E quem vai pagar essa dívida que o governo está empilhando? Os brasileiros, pagando mais impostos. Em algum momento, depois da crise, o governo terá que voltar ao ajuste fiscal, ou seja, gastar menos do que arrecada. Isso porque a dívida não pode aumentar sem parar. Se fosse assim, os credores desconfiariam que o devedor vai dar o calote e ninguém mais toparia emprestar para o governo. Gastando mais do que arrecada e sem conseguir tomar empréstimos, o governo começa a imprimir dinheiro, a inventar dinheiro, e o resultado é inflação. Já vimos esse filme.

Duas conclusões importantes. A primeira: para combater a pandemia, o governo tem que gastar porque só ele tem a capacidade de tomar dívida no tamanho necessário. Isso é possível porque há hoje uma tolerância mundial com o gasto público. Todo mundo minimamente sensato sabe que estamos diante de uma catástrofe sem proporções.

A segunda conclusão: o gasto a mais de hoje tem que ser exclusivamente voltado para os programas de combate ao coronavírus e seus efeitos na vida das pessoas e empresas. Deve ser proibido incluir nos pacotes qualquer gasto permanente ou dirigido a setores que não têm nada a ver com a crise.

Nada disso é novidade. O mundo já passou por várias crises em que o aumento do gasto público foi absolutamente necessário. Formava-se consenso em torno disso.

O que faz a diferença? É a saída da crise. No final dela, todos estão endividados. Alguns continuam assim, achando que dinheiro pinta em qualquer lugar, e caminham para outra crise, a econômica, com inflação, primeiro, e recessão depois. Outros países, outras sociedades conseguem voltar a políticas de equilíbrio.

Tudo considerado, não há contradição alguma entre pregar o equilíbrio das contas públicas, em tempos normais, e o aumento de gastos neste momento. E que fique claro: a conta será paga pelos brasileiros. Por isso mesmo, o dinheiro tem que ser destinado aos mais vulneráveis.

E uma terceira conclusão: diante de uma crise dessa proporção, o governo não precisa apenas gastar mais; precisa gastar mais e já. A pandemia não espera a burocracia se ajeitar. As pessoas já estão em dificuldades.

O cardápio de medidas é quase universal: mandar dinheiro para os mais pobres; preservar empregos e salários; garantir auxílio-desemprego; evitar a quebradeira de empresas; manter o equilíbrio do sistema financeiro.

Todos os governos estão programando isso. A diferença está entre os que fazem e os que anunciam.


Verdade é a melhor arma contra o coronavírus

Rodion Ebbighausen (ca)
Deutsche Welle 

Dimensão da pandemia do novo coronavírus também é resultado de políticas mentirosas, que ignoram fatos. Luta contra doença só será bem-sucedida se a ciência for levada em conta, opina Rodion Ebbighausen.
    

Corpo de pessoa que morreu em decorrência 
do novo coronavírus é transportado em Nova York

A melhor arma no combate ao novo coronavírus é a verdade.

É o que mostra o caso da China, onde o novo coronavírus apareceu pela primeira vez. No início do surto, quando as chances de contenção ainda eram altas, autoridades do Partido Comunista e forças de segurança chinesas intimidaram profissionais médicos. Evidências foram destruídas, fatos foram negados. O resultado: primeiro uma epidemia nacional, depois uma pandemia global.

O caso do Irã também comprova a necessidade de se mostrar todos os fatos. O regime vem mentindo para seu povo há anos. Quando o governo, após longa hesitação e contra a resistência de alguns mulás, tomou algumas medidas contra o coronavírus, a população não as levou a sério. Uma confirmação fatal para o ditado "não se acredita em quem mente uma vez, mesmo quando ele fala a verdade". O resultado: mais de 2.500 mortes confirmadas oficialmente até agora. Mas ninguém confia nesse número.

Nos Estados Unidos, onde o governo valoriza "fatos alternativos", a ameaça do coronavírus foi primeiramente negada e depois subestimada. Quando o impacto da epidemia ficou claro, o presidente Donald Trump relutantemente aprovou algumas medidas. Mas ele não deixa dúvidas de que, em última análise, põe a economia acima da saúde da população. O resultado: mais infecções do que em qualquer outro país do mundo.

Um vírus não se importa com política. Retórica e fraseado não o impressionam. Na luta contra ele, a única coisa que vale são os fatos. O coronavírus pode ser derrotado com conhecimento científico e bom senso.

É um bom sinal que, durante a crise, políticos na Europa e na Alemanha busquem conselhos de cientistas e especialistas em saúde pública e incluam essas avaliações em suas decisões. Parecem ter ficado para trás os últimos meses e anos em que populistas de direita ‒ o partido AfD na Alemanha, o primeiro-ministro Viktor Orbán na Hungria, Matteo Salvini na Itália, para mencionar apenas alguns ‒ marcaram o passo da poitica. A atual situação deixa claro: quando as coisas ficam sérias, políticos desse gênero não têm nada a contribuir.

A pandemia mostra que políticas que ignoram fatos e apenas fazem propaganda têm um preço alto. Não apenas na Europa, mas em todo o mundo. Muitos pagam com suas próprias vidas.

Quando o vírus for derrotado, em alguns meses ‒ e com a ajuda da ciência, isso vai acontecer ‒, então tomara que a constatação de que a verdade importa tenha vindo para ficar. Especialmente na política.




O alto custo de faltar saúde

Raul Velloso
Correio Braziliense

Sem vacina e/ou medicação específica eficaz, e em cima de hospitais falidos, só restaria esperar que a contaminação em alta velocidade do coronavírus tivesse lugar, e, após 14 dias, a imunização automática ocorresse. Ao final de 3-4 meses o processo se encerraria, após um elevado excesso de demanda, mais mortes etc. Uma nova vacina viria depois e tudo se esqueceria.

Nesse caso básico para comparação, o PIB ficaria na mesma trajetória anterior, a exemplo do que teria ocorrido com a crise da gripe H1N1, há pouco concentrada no estado do Rio Grande do Sul. Lá, inclusive, teria havido mais mortos do que haverá agora no Brasil. A maior diferença seria a concentração num estado só (RS), algo que não ocorre hoje.

Em resumo, nesse caso inicial praticamente não haveria perda qualquer de PIB em relação à trajetória projetada previamente, a não ser muito sofrimento localizado, com uma concentração de casos e óbitos num período curto, a exemplo do que já ocorrera em epidemias análogas.

Nada obstante, para estimar o custo da crise atual para o país como um todo, que nos diferencia da média mundial apenas pelo clima (aqui, melhor) e pelo sistema de saúde (bem pior) de que dispomos, algo que a globalização pouco melhorou, a segunda hipótese envolve uma quarentena horizontal, solução de desespero final, como a que estamos aplicando, a exemplo da que se deu na antiga epidemia de varíola. O governo não pode comandar a ida dos funcionários privados para casa, mas pode decretar, por exemplo, que as escolas fechem, o que obriga as crianças, que são muito propensas a transmitir vírus respiratórios, a ficarem em casa. Adotam-se medidas de restrição dos movimentos e aglomerações, fechando escolas, transportes, fábricas, acabando com shows, congregações nas igrejas etc. Suaviza-se a curva dos casos, mantendo a mesma quantidade total, apenas para não ter de mandar doentes de volta para casa em momentos de pico.

Com o coronavírus, as crianças e os adolescentes não têm sintomas. Assim, o vírus não causa problemas sérios nesses grupos, mas, como disse o dr. Osmar Terra, gestor da gripe do Rio Grande do Sul, tirá-los das escolas aumenta o risco de contágio com os avós e os pais que têm de voltar para casa para cuidar das crianças. Sem falar nas interações com a vizinhança de prédios residenciais. Assim, ao contrário do que se esperava, no Rio Grande do Sul, o fechamento das escolas aumentou o número de casos, em vez de diminuir. Ou seja, uma lástima que nem sempre o que se espera com as quarentenas generalizadas tende a acontecer. Só empurram o problema para a frente.

A área médica passa ao largo dos impactos da quarentena horizontal sobre a atividade econômica. Como qualquer leigo deve imaginar, quanto mais ampla e demorada ela for, maiores serão os seus impactos recessivos, primeiro do lado da oferta (comércio e fábricas fechando na marra) e, depois, do lado da demanda, quando a redução dos negócios, vendas etc. se traduzir em queda de demanda. Negócios — especialmente os pequenos, com menos fôlego — mandam funcionários embora e estes não conseguem se realocar facilmente.

Em contraste com as vantagens do “achatamento da curva” (ou postergação dos casos de coronavírus para diminuir a pressão sobre um sistema de saúde falido como o brasileiro), fala-se pouco no YouTube sobre o custo para a sociedade da quarentena horizontal, principal arma posta em prática em nosso país. Ou seja, trata-se da perda de PIB, deduzido o custo adicional dos serviços hospitalares (que a quarentena evitaria ao reduzir a demanda por esses serviços no curto prazo), e em comparação com as projeções que antes se faziam da medida mais abrangente da atividade econômica (ou da renda agregada de uma determinada economia). Nesse contexto, a matéria de ontem no UOL sobre o tema, puxada por declarações de economistas da ONU, é um ponto fora da curva.

Uma medida parcial e grosseira, mas ainda subestimadora desse impacto, poderia ser extraída do socorro financeiro total que a União acaba de anunciar como forma de compensar classes menos favorecidas da devastação que a quarentena causa em suas vidas. Chute por chute, prefiro imaginar um socorro máximo a 77 milhões de desvalidos já cadastrados durante três meses, na base R$ 1 mil por mês médios (tudo isso sendo o que imagino que acabará acontecendo), o que implicaria a transferência total de cerca de R$ 300 bilhões, nada menos que 4% do PIB estimado por mim para 2020. Isso é o piso do cálculo. Daí para bem pior.

De forma mais ampla, pelos melhores números oficiais disponíveis, deveríamos somar a projeção de crescimento do Ipea pós-crise, de -1,8%, com a projeção do Banco Central antes da crise (2,2%), ou seja, os mesmos 4%. De novo, esse número deve ser visto como uma subestimativa do efeito verdadeiro.

Para concluir, será que não se gastaria bem menos ampliando, arrumando e aumentando a eficiência do sistema de saúde? Sou da área financeira pública e afirmo: dinheiro não falta… faltam competência e vergonha.

O Inimigo Invisível - Completo | Conexão Repórter (23/03/20)




O Conexão Repórter desta semana traz as últimas informações sobre o coronavírus (Covid-19) no programa intitulado O Inimigo Invisível. 

O telespectador vai acompanhar uma série de entrevistas exclusivas e reportagens especiais no Brasil e no mundo. Cabrini vai aos hospitais paulistas e registra de perto a guerra à pandemia, além de trazer uma reveladora reportagem sobre a situação atual das favelas frente ao problema, aonde também esteve pessoalmente. 

O jornalístico exibe matérias exclusivas que revelam o dia a dia de brasileiros na Itália e na China e Cabrini conversa ainda com o governador de São Paulo João Doria e com David Uip, maior especialista brasileiro em epidemias e que está na linha de frente no combate no estado brasileiro mais afetado pela pandemia.

O Inimigo Invisível - Semana 2 | Conexão Repórter (30/03/20)




Roberto Cabrini tem acesso aos bastidores de um dos principais hospitais públicos de São Paulo e revela a verdadeira situação para pacientes e funcionários da saúde. O programa exibe relatos dramáticos e imagens da rotina atual de uma UTI superlotada à beira de seu limite, mostrando também uma realidade de desespero: pacientes com suspeita de Covid-19 em leitos a poucos centímetros de outros comprovadamente contaminados, além de doentes graves à espera de atendimento intensivo.

Mostrando que não existem condições ideais para todos, o jornalístico retrata profissionais da saúde estressados e extenuados, que pensam em desistir por não terem condições de trabalho. Cabrini mostra que faltam máscaras e vestimentas adequadas e investiga registros de mortes, dezenas de afastamentos e internações de enfermeiros e auxiliares em estado grave pela rotina de exposição ao vírus. Ao jornalista, profissionais detalham o que estão vivendo e pedem socorro pois sabem que a pandemia está apenas começando. Uma situação, muitas vezes ocultada, agora revelada.

Brasil confirma mais 114 mortes por coronavírus e total chega a 667

Gilson Garrett Jr.,  Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

Em um dia foram 1.661 novos casos confirmados. A maior parte das mortes está em São Paulo





Em um novo balanço divulgado pelo Ministério da Saúde nesta terça-feira, 7, o Brasil confirmou 114 mortes por coronavírus (causador da covid-19) e o total chegou a 667.

O número de infectados registrou o maior aumento de confirmações em 24 horas: foram 1.661 novos casos. No total, o país tem 13.717 de infectados confirmados. Desde o dia 31 de março, os novos casos confirmados no relatório diário passam ou chegam perto de mil.

Segundo o governo, o maior número de mortes confirmadas em um dia não significa que todos os óbitos foram em 24 horas. Atualmente há muitos exames represados e, conforme eles são realizados, os casos crescem. Somente em São Paulo, são cerca de 17.000 exames de detecção que ainda aguardam resultado, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.

Assim como nos últimos relatórios de atualização dos dados da pandemia, a taxa de letalidade vem subindo e agora está em 4,9%. A maior parte das mortes (cerca de 90%) ainda é de pessoas com mais de 60 anos e com algum problema de saúde pré-existente. Só Tocantins não registrou morte por covid-19 até este momento.

Os dados do Ministério da Saúde mostram ainda um comparativo de como foi a evolução do coronavírus no Brasil. Foram 17 dias para atingir 100 casos, sete dias para atingir 1.000 casos e 14 dias para atingir 10.000 casos confirmados.

Número são maiores

Os números são de registros oficiais, mas projeções matemáticas sugerem que eles representam apenas 10% do total real de infectados.

Para calcular o número real de casos de coronavírus no País, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, vai usar uma metodologia similar à de pesquisas eleitorais.

Os testes começam em 15 dias, e antes do fim de maio o país já deve ter uma dimensão mais clara da epidemia.

Originalmente, o objetivo do projeto era fazer o levantamento de forma experimental somente no Rio Grande do Sul, com financiamento de R$ 1 milhão do Instituto Serrapilheira.

Mas o Ministério da Saúde logo percebeu o potencial da ideia. Antes que os técnicos fossem a campo no Sul, firmou um contrato para uma pesquisa de abrangência nacional. Será o primeiro estudo no Brasil a estimar o número de infectados com maior precisão.


Coronavírus: o impacto da doença na saúde mental de adolescentes e jovens

Vibeke Venema
Da BBC Stories


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É possível continuar o atendimento psicológico através de ferramentas online

A crise gerada pela covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, tem um forte impacto na vida de jovens com problemas de saúde mental pré-existentes. A perda da rotina, o fechamento das escolas e o cancelamento das provas são alguns dos fatores envolvidos.

Para adolescentes, perder a liberdade é algo muito difícil. Lígia e sua família, por exemplo, estão em isolamento em seu apartamento no Reino Unido desde o dia 18 de março, porque sua mãe está nos últimos meses da gravidez.

Para alguém que estava sempre fora de casa, encontrando amigos e trabalhando, ela diz que é um desafio ficar presa em um apartamento com quatro pessoas.

"Desde o início do isolamento, minha ansiedade aumentou muito", diz Ligia. "Com frequência, ela vem sem que eu espere. Tenho dificuldade em respirar e pensar direito. É uma sensação de confusão."
O maior "golpe", ela conta, foi o cancelamento das provas do final do ensino médio pelo governo do Reino Unido, para as quais ela estava se preparando (no país o ano letivo começa em agosto e termina em junho do ano seguinte).

"Foi muito difícil. Eu chorei", diz ela. "É como se eu estivesse me preparando para correr uma maratona e, pouco antes do início, já na linha de partida, me dissessem que eu não iria correr."

A jovem continua. "Eu passei muito tempo me preparando para a prova. E agora não posso nem sair para me distrair."

Mas Ligia encontrou estratégias para melhorar sua saúde mental. "Eu arrumo a cama de manhã para não voltar a me deitar. Tento regular minha respiração e ouvir músicas relaxantes", diz.

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Reparar no que faz bem para cada um é essencial nesse momento

Naomi, de 21 anos, diz que sua ansiedade também aumentou muito por causa do coronavírus. Estudante de psicologia, ela teve as provas de final de semestre canceladas e, embora as aulas tenham sido feitas às distância, pela internet, a falta de rotina e incertezas quanto ao curso a afetaram.

Coisas que ela fazia para controlar a ansiedade, como voluntariado e seguir uma rotina rígida que a fazia sair de casa, não são mais uma opção. Então ela teve que desenvolver novas ferramentas.

Naomi tem escrito um diário, onde tenta responder questões como "O que está me fazendo me sentir assim?" e "Pelo que estou grata hoje?".

"Essas perguntas me ajudam a pontuar o que eu fiz durante o dia, o que foi positivo, e também o que me preocupa", diz ela.

Outro ponto positivo é o forte senso de comunidade que a crise do coronavírus criou. "Estamos todos juntos nisso e é bom saber que outras pessoas por aí entendem essa preocupação.
"
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Se manter ativo e manter uma rotina ajudam a lidar com crises

Ao mesmo tempo, ela tem medo de que pessoas como ela, que tem problemas de saúde mental crônicos, sejam esquecidas.

Uma pesquisa do instituto YoungMinds, organização não-governamental pela saúde mental dos jovens, mostrou que a pandemia está tendo um efeito profundo em jovens com questões ligadas a saúde mental. Embora eles entendam a necessidade das medidas de isolamento social, diz a pesquisa, isso não diminuiu o impacto em sua saúde.

Muitos dos que participaram da pesquisa relataram aumento da ansiedade, problemas para dormir, ataques de pânico ou maior desejo de se automutilar.

Profissionais que trabalham no setor de saúde mental juvenil continuam a oferecer apoio, afirma a entidade. "Eles estão fazendo tudo o que podem para chegar aos jovens, apesar do contato presencial não ser possível", diz Emma Thomas, diretora da YoungMinds.

Outra organização que notou mudanças resultantes da crise do coronavírus é a Shout, um serviço de mensagens de celular 24h para pessoas em crise. Na última semana, eles tiveram um aumento constante no número de pessoas procurando o serviço, chegando a mais de mil conversas em um dia.

Cerca de 70% das pessoas que os procuram tem menos de 25 anos. Neste grupo, a entidade percebeu um aumento no número de conversas sobre o coronavírus — elas agora representam 25% dos assuntos do dia.

Entre os atendimentos sobre o coronavírus, 60% envolvem questões ligadas a ansiedade — trata-se do dobro do normal.

"É só ansiedade, ansiedade, ansiedade", diz Amy, uma das voluntárias do Shout. "O tema geral tem sido a falta de controle."

Amy diz que as pessoas em crise têm dificuldade até de falar ao telefone, então mandar mensagens pode ser mais fácil. Em suas conversas, ela procura acalmar e ajudar a pessoa a decidir sobre os próximos passos.

Muitos estão sofrendo com a perda da rotina, então uma das missões de Amy é ajudar a criar uma nova.

"Sem uma rotina, eu sei que muitos hábitos ruins e pensamentos ruins podem aparecer", diz Amy, que já teve ela mesma problemas de saúde mental.

Estratégias para lidar com os problemas

Desde o início do isolamento, John, de 18 anos, tem tido dificuldade para lidar com sua depressão. Sua família está em quarentena desde 15 de março, quando sua mãe teve suspeita de covid-19.

Ser forçado a ficar em casa teve impacto negativo na saúde mental do jovem.

"Normalmente, se eu estivesse muito mal, eu fazia um passeio de ônibus só para conseguir clarear meus pensamentos um pouco", diz ele. "Eu escolhia uma linha de ônibus e percorria ela toda. Agora não posso fazer isso. Estou preso em meus ciclos de pensamento e tenho me sentido mais cabisbaixo que o normal."

John já perdeu um semestre e meio na escola por causa de um episódio de depressão e já tinha se convencido de que iria repetir de ano.

O fechamento da sua escola na verdade o ajudou, porque os recursos agora estão disponíveis online e ele prefere essa forma de aprender.

No entanto, John ainda não conseguiu se encontrar com o novo psicólogo por causa do isolamento, e isso o preocupa.

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Isolamento não significa se afastar das pessoas; é preciso manter contato virtual

"Eu não quero me sentir pior", diz ele. Embora seja "bastante noturno", ele tenta sair do quarto o máximo que pode para que possa dormir melhor.

"Se você está constantemente fazendo atividades no seu quarto, quando você quer dormir vai ficar preso nesses pensamentos. Então eu tento ir para a sala ou para o jardim quando posso. Sinto que isso me ajuda."

Chloe, de 13 anos, ficou acordada até a meia noite nesta semana arrumando seu quarto só para se manter ativa.

"Quando ela começa algo, ela fica bastante obsessiva com isso", diz a mãe, Julie Cambridge.

Filha caçula, Chloe tem déficit de atenção e ansiedade, e desde que as escolas fecharam ela tem "subido pelas paredes", diz Julie. A adolescente normalmente é muito ativa, pratica esportes e está sempre com os amigos.

"Agora eu estou entediada e com preguiça", diz Chloe. "Eu quero sair porque fico com claustrofobia."

Ela ouve música, fala com os amigos nas redes sociais e tem feito aulas à distância. Mas sua ansiedade piorou, e ela tem estado de mau humor.

A filha de 16 anos de Julie, Jade, perdeu a motivação para estudar quando as provas de fim de ensino médio (cujas notas são necessárias para entrar na faculdade) foram canceladas.

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Ouvir música pode ajudar a relaxar

Jade quer estudar biomedicina na universidade. Diz que suas notas são boas, mas quer melhorá-las ainda mais.

"Eu estou preocupada com a 'geração covid', os que não conseguiram fazer as provas. As pessoas vão tratá-los de forma diferente porque eles não fizeram os exames?", diz Julie. "É um senso de realização que eles estão perdendo."

Provas e formaturas são rituais importantes para o desenvolvimento dos jovens, diz o psicólogo Hanspeter Dorner, especialista em crianças e adolescentes. "Perder esses rituais pode ter um impacto negativo, ainda que seja possível passar por eles no futuro", diz ele.

Naomi e seus colegas de faculdade estão querendo fazer justamente isso.

Os jovens estão planejando fazer uma festa de formatura em algum momento no futuro. "Podemos tentar marcar para a mesma época em que nos formarmos para finalmente termos uma comemoração", diz ela.

"A festa é uma forma de encerrar uma fase da vida e é importante que a gente tenha a oportunidade de fazer isso."

7 Dicas para cuidar da saúde mental em casa:

* Mantenha-se em segurança, mas não se afaste das pessoas —
Isolamento significa cortar o contato presencial, mas não é preciso cortar toda a comunicação. Na verdade, é mais importante do que nunca conversar, falar e ouvir, compartilhar histórias e conselhos, e ficar em contato virtual com as pessoas que importam para você.

* Repare nas coisas que fazem você se sentir bem
 Ter uma dieta saudável, se manter ativo fazendo caminhadas ou se exercitando podem nos ajudar a nos sentir melhor. É importante notar quais são as coisas que ajudam a melhorar sua saúde mental e tentar fazê-las na medida do possível.

* Leia menos notícias — 
As atualizações constantes de notícias sobre a covid-19 e as pessoas comentando o assunto nas redes sociais podem ser demais para aguentarmos. É importante ter as informações necessárias para sua segurança, mas tente evitar ficar o dia todo vendo ou lendo sobre isso.

 * Compartilhe seus sentimentos —
Converse com as pessoas que você ama e com seus amigos. Conversar ajuda a tirar um peso das costas e a nos sentirmos um pouco mais positivos se estivermos passando por um momento difícil.

* Não fique sedentário — 
Encontre formas de movimentar seu corpo e mudar seu humor todos os dias. É possível fazer uma caminhada ou correr desde que você evite contato com outras pessoas.

* Tenha uma rotina —
Isso pode ser tedioso, mas vai ajudar a chegar ao fim do dia. Vá dormir e acorde nos mesmos horários, coma regularmente, tome banho, troque de roupa, saia para tomar um ar, marque vídeo chamadas com colegas e amigos, faça o serviço de casa. Mas também não se coloque muita pressão para fazer tudo: é importante ter tempo para o lazer!

* Encontre formas de relaxar e se distrair — 
Encontre coisas que ajudem a respirar profundamente, colocar as preocupações de lado e recarregar.

Fonte: Sarah Kendrick, psicoterapeuta da entidade Shout


“Mudará o modo como enxergamos nosso lar”, diz arquiteta Fernanda Marques

Guilherme Dearo
Exame.com

No exame.talks, Fernanda Marques, CEO e Fundadora do Fernanda Marques Arquitetos Associados, falou sobre mudança na relação com o próprio lar

(SDOnline Fernanda Marques/Divulgação)
Fernanda Marques, CEO e Fundadora do Fernanda Marques Arquitetos Associados: 
"Hábitos surgidos na quarentena podem se transformar em novos hábitos
 e em novos modos de relacionamento" 

Em tempos de quarentena e home office, como repensar o próprio lar, de modo a deixá-lo mais adequado para o trabalho em casa, o lazer e a relação vinte e quatro horas com toda a família – ou consigo mesmo?

Ivan Padilla, editor executivo da EXAME, conversou com Fernanda Marques, CEO e fundadora do Fernanda Marques Arquitetos Associados, escritório com trinta nos de trabalho, localizado no bairro de Vila Olímpia, São Paulo. 

“Vai ser inevitável sair da quarentena com outra ideia do que a gente quer para nossa casa, como a gente vai querer que ela funcione. Nossas casas estão projetadas para quem passa a maior parte do tempo na rua, trabalhando e estudando. Ocupavámos muito pouco nossas próprias casas, mas isso mudou”, analisa Marques.

Para a arquiteta, daremos mais valor à simplificação após a quarentena: “Buscaremos uma vida mais prática, vamos querer resolver o dia a dia com menos objetos, menos produtos. Estamos vendo que dá trabalho fazer a manutenção diária de uma casa cheia de coisa. Após essa quarentena, vamos buscar uma simplificação da decoração da casa, mas sem abrir mão da beleza”, diz.

Marques diz que a quarentena já está impactando nos pedidos dos seus clientes. “Um cliente me pediu para inserir, perto da entrada principal, um armário para guardar os sapatos antes de entrar em casa”, conta.

Com a família vinte e quatro horas em casa, fica mais evidente, para Marques, os detalhes inteligentes de uma residência: a boa iluminação, uma boa circulação do ar, boa distribuição dos cômodos. As coisas ruins também ficam evidentes. Trabalhando oito horas ou mais em casa pode revelar detalhes: a cadeira de trabalho não é tão confortável, a iluminação do quarto não é tão boa.

Para ela, o profissional do arquiteto vai ser mais valorizado depois da quarentena. “Pessoas estão pensando mais a casa delas, estão entendendo o que gostariam de ver de diferente  no lar e por que gostariam dessa diferença, e entendendo a importância da profissão”.

A quarentena, para Marques, também vai mudar o modo como apartamentos são planejados. “Atualmente os quartos são pequenos em relação à área social, a parte de interagir com visitas e com a família é mais valorizada. Contudo, com o home office, a escola em casa, a quarentena, vamos repensar isso. A parte íntima, mais isolada, poderá aumentar. Os terraços fechados, tão comuns hoje, também serão repensados. Poderão surgir os terraços abertos ou parcialmente abertos, porque ficou evidente, nesse isolamento, a importância de sentir o clima, o vento, mudar os ares”.

Dicas para a quarentena

Cada filho e membro da família ter o seu próprio cômodo é luxo no Brasil. A maioria das famílias tem filhos dividindo um quarto, por exemplo. Como resolver a questão da privacidade e do home office e das aulas a distância com várias pessoas trabalhando ao mesmo tempo? Fernanda Marques dá uma dica:

“Sugiro que sala e cozinha seja espaço de convivência do grupo, de modo a deixar o quarto para quem está precisando fazer algo do trabalho, por exemplo. Um rodízio. Em cada momento alguém usa o quarto para um trabalho que precisa de silêncio total. Já um outro, que esteja vendo uma vídeo-aula da escola ou faculdade, por exemplo, usa o fone de ouvido na sala, para não atrapalhar outros integrantes da família”, sugere.

Para ela, é importante que cada membro da família mantenha uma rotina. “É importante ter horários para acordar, trabalhar, ler, se divertir etc.”, analisa. A organização de cada um evitará confusão.
Outra dica é manter em áreas comuns e de fácil visibilidade os produtos de higiene, para lavar as mãos ou as compras do supermercado. Deixar em uma bancada ou no corredor é um exemplo.

Confira a entrevista completa:


Coronavírus: o que fazer para evitar depressão, ansiedade e pânico durante isolamento

Felipe Souza - @felipe_dessDa 
BBC News Brasil em São Paulo


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Entre outras medidas, especialistas recomendam fazer
 ligações em vídeo e usar a criatividade para evitar a rotina.

As medidas adotadas para conter o novo cornavírus, como fechamento do comércio e estímulo ao home office, manterão milhões de brasileiros isolados dentro de casa nas próximas semanas. Muitos deles, sozinhos, em pequenos espaços e por um período ainda desconhecido.

A reportagem da BBC News Brasil entrevistou psicólogos para saber o que fazer para evitar que o isolamento cause ansiedade, síndrome do pânico ou depressão — principalmente entre crianças e idosos.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Claudio Martins, disse que é fundamental não perder o contato virtual com amigos e familiares, além de se manter ocupado. E recomenda que as pessoas que trabalham continuem seus projetos em casa sempre que possível.

"É importante manter o autocuidado com a alimentação, hidratação e se comunicar por meios eletrônicos. É necessário ocupar a mente com outras coisas e não passar o dia vendo notícias sobre coronavírus. Não pode ficar concentrado na doença, pois isso pode gerar uma obsessão mental e incapacitar as pessoas de se desenvolverem", afirmou Martins.

Segundo ele, essa mudança comportamental repentina e a diminuição das relações interpessoais, associados a um estresse coletivo de medo, podem resultar em diversos transtornos psicológicos.

Martins afirma que aproximadamente 25% da população brasileira possui algum grau de depressão e que a falta de cuidados durante o isolamento pode fazer esse número disparar.

Mas o que fazer para evitar que isso aconteça?

1. Interação virtual

O professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, Nelson Fragoso diz que o isolamento é um importante fator de risco para aumentar a ansiedade e, por consequência, a depressão. E que uma das saídas para evitar esses quadros é a interação virtual.

"O ideal é fazer conversas em vídeo para ver as reações da outra pessoa e ter um contato mais humano do que uma simples ligação de voz. Isso também diminui a sensação de distanciamento", afirmou.

Ele disse ainda que é importante participar de grupos de WhatsApp com colegas do trabalho ou até vizinhos, desde que os integrantes não mandem mensagens pessimistas ou apocalípticas.

O ideal, segundo ele, é que as pessoas discutam pontos positivos do isolamento, como dizer o que estão preparando para o almoço, o que fazem durante a tarde para se distrair e sugerir atividades em grupo, mesmo à distância.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Psicologia disse que, durante o tempo de isolamento, toda a convivência com os colegas de trabalho e as outras relações externas — antes dispersas — agora se concentram num espaço restrito. E toda essa carga emocional é descarregada dentro de casa e em todos que estão nesse ambiente.

O especialista diz que é importante usar essa energia em outras atividades para evitar conflitos.

"O principal a se fazer nesse momento é se manter ocupado e calmo. Seja com exercícios físicos, leitura ou qualquer outra atividade. Esse é um fenômeno novo. As pandemias têm um perfil de guerra sem ter uma bomba e contra um inimigo invisível. Isso deixa as pessoas permanentemente inseguras", afirmou.

2. Não fazer tudo no mesmo dia

Mas na ânsia de manter tudo em ordem e ocupar a mente, os especialistas em saúde mental ouvidos pela reportagem disseram que é comum as pessoas em isolamento social tentarem resolver todas as tarefas de uma só vez.

Eles aconselham que essas atividades sejam feitas de maneira parcelada para que elas não se esgotem rápido demais.

"É importante não fazer tudo num dia, como lavar toda a roupa ou limpar a casa inteira. Serão pelo menos 30 dias isolados, então o ideal é fazer tudo com calma e dividir as atividades entre toda a família. Se o filho lava a garagem, o pai cuida do banheiro, e assim por diante", afirmou o professor Nelson Fragoso.

Ele disse ainda que também é importante fazer exercícios de respiração, meditação e, caso a pessoa siga uma religião, ler os livros sagrados dela. A intenção, diz Fragoso, é se manter o mais calmo, amparado e relaxado possível.

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Incerteza sobre contaminação tem levado muitos ao isolamento voluntário

3. Fobia social e transmissão de pânico

Outra preocupação levantada pelo psiquiatra Claudio Martins é que o medo de contrair coronavírus desenvolva um Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).

"A pessoa pode manifestar esse transtorno pelo vício de passar álcool gel nas mãos, além de desenvolver uma fobia social. Principalmente aquelas pessoas que já têm dificuldade de interação acabam ampliando seus medos, mesmo após o fim do isolamento. Para piorar, outras ainda são contaminadas pelo pânico externado pelo outro e passaM a reagir da mesma maneira", afirmou o psiquiatra.

Ele explica que esse contágio do pânico causa efeitos sociais, como a corrida desesperada aos supermercados em busca de papel higiênico ou em revendas de gás, como se tivessem de fazer um estoque por conta de uma possível crise de desabastecimento.

Esse pânico coletivo, diz ele, mobiliza a sociedade de maneira inadequada. E esses fatores psicológicos também podem ser explorados politicamente.

"Um exemplo desses é a pessoa que está calma em casa, mas sabe que o vizinho estocou comida para três meses. Ela, sem necessidade, vai querer fazer o mesmo para se sentir segura e isso pode desencadear uma cadeia de comportamento e gerar um desabastecimento real", afirmou o especialista.

Os especialistas afirmam que a melhor forma de combater esse pânico generalizado é se informar apenas por veículos de comunicação de credibilidade e checar informações, principalmente aquelas recebidas por WhatsApp.

4. Usar a criatividade para fugir da rotina

O professor Nelson Fragoso disse que mesmo sem seguir muitas recomendações, é possível conviver em isolamento por algumas semanas. Mas que a partir da terceira ou quarta semana, é necessário inovar.

"É importante, por exemplo, fazer novas receitas no almoço. Fazer exercícios diferentes em casa. Procurar novos canais no YouTube e tentar quebrar a rotina ao máximo. Parar uma série no meio e começar outra, interromper o livro no meio e começar outro. Desobedecer a ordem natural das coisas e tentar sermos pessoas diferentes é essencial", afirmou.

O professor de psicologia do Mackenzie compara esse período a uma prisão domiciliar, na qual a punição ocorre com quem sai de casa. Ele disse que nesse momento de autodefesa e isolamento também é importante praticar a solidariedade.

"É importante ser criativo, se adaptar a essa nova rotina e não lamentar. Também é hora ser ser solidário. Ajudar o próximo com o que puder. Seja uma aula, fazer uma companhia virtual ou produzir algo que possa doar. Temos esse espírito em grandes tragédias e acho que agora não deve ser diferente."


Pais e educadores frente a crianças em casa

Claudia Costin
Folha de São Paulo

Estamos vivendo, nos últimos dias, um confinamento quase geral, com muitos pais fechados dentro de casa com seus filhos, tentando trabalhar à distância, ao mesmo tempo em que precisam entretê-los e, eventualmente, apoiá-los nas atividades que as escolas enviam. Certamente não é uma atmosfera propícia à paz familiar.

Não se trata, de fato, de um período tranquilo, sob nenhum aspecto. Estamos lidando com uma pandemia que, apesar de prognósticos inicialmente mais positivos, deve chegar, segundo estimativas da OMS, a 100 milhões de casos confirmados —o número de mortos já atingiu 50 mil. Neste contexto, cerca de 165 países no mundo estão com as escolas parcial ou totalmente fechadas. As crianças são consideradas, por epidemiologistas, como potenciais portadoras assintomáticas do vírus, podendo acelerar a contaminação da doença em parcelas da população mais suscetíveis a complicações dela decorrentes.

Médicos e outros profissionais da saúde estão na linha de frente, sofrendo o desgaste físico e emocional de uma luta que lhes tem trazido certo tardio reconhecimento da população, ao mesmo tempo em que muitos contraem a doença.

Professores tanto de escolas públicas quanto de particulares têm reservado tempo e empenho para assegurar que as perdas em aprendizagem não sejam grandes demais. Conversando com dirigentes de educação, diretores de escola e docentes das mais diversas partes do país, acompanho o seu esforço em assegurar que, seja por plataformas de EaD, televisão, rádio, cadernos de exercícios e orientação para as famílias por grupos de WhatsApp, as crianças e jovens continuem a aprender. Afinal, o Brasil já não andava bem em educação antes da crise.

Nesse sentido, as dificuldades dos pais se enquadram num contexto mais geral de tensão e esforço de todos. E, sim, como em guerras ou em outras situações que afligem países, um empenho extra é demandado deles.

Para lidar com esta situação, o Todos pela Educação vem recomendando que façamos algo simples e ao mesmo tempo providencial neste período: que conversemos com as crianças. Explicar o que vivemos e ouvir suas ansiedades e percepções é muito importante para aplainar as tensões.

Vale a pena também lembrar que pais educam e podem usar estas semanas para fortalecer vínculos familiares, formar para a autonomia —inclusive ensinando meninos e meninas a assumirem tarefas domésticas— e preparar adultos aptos a atuar com responsabilidade frente a desafios planetários. E, quando tudo isso acabar, muitos pais certamente passarão a dar mais valor aos professores que, nas escolas, cotidianamente educam seus filhos.


A nudez do Brasil

Roberto DaMatta
O Globo

Em 1978, a ensaísta Susan Sontag publicou na revista “New Yorker” um ensaio intitulado “Disease as Political Metaphor” (“Enfermidade como metáfora política”), no qual ela se concentra no câncer —àquela época uma mazela fatal, mas não esquece a bíblica lepra como castigo divino; a peste bubônica e outras moléstias contagiosas como a tuberculose e a sífilis. Cada qual com a sua etiqueta moral. O interessante, porém, é como ela relembra como alguns grandes pensadores relacionaram doença e sociedade.

Tive uma vivência familiar com a tuberculose que acometia os apaixonados e os que sofriam — como acentua Sontag — de deficiência energética. Emagrecer em demasia (no Brasil, sinal de pobreza) era, com a tosse seca, um mal incurável e, eis o estigma: a tuberculose “pegava”—contagiava.

Um dos meus tios casou-se — prova de um amor honrado —com uma tuberculosa. Morreu de um câncer no pulmão, e eu me pergunto se nas suas agonias ele não teria se juntado à sua amada. Não é por acaso que o livro “A montanha mágica” se passa num sanatório de tuberculosos — uma nação isolada de doentes, na qual todos comiam bem e tinham sua saúde religiosamente vigiada. Tal como nos países totalitários…

O autoritarismo, aprendo com Sontag, tal como poder, isola. Entre nós, ter poder não significa responsabilidade pública solidária e incondicional prometida ao chamado “povo” — essa espécie de vírus pobres para muitos de nós. Pois o poder (um vírus coroado) é um claro transmissor de corrupção, coerção, intriga e perversão ideológica via consanguinidade e o seu equivalente —o companheirismo ideológico. O empoderamento é uma doença na qual mentir e enganar são sintomáticos (leia Hannah Arendt). O poder no Brasil (ou melhor: o poder à brasileira) ainda não encontrou sua vacina. Donde a sua onipotente inconsequência (sou meritocrático, mas quero que meu filho seja embaixador…) e incurável condescendência (esse eu conheço…). Doente, ele corrói vitalidade ética e rotiniza mentiras, primitivismo e violências — esses vírus da política.

Se a tuberculose tinha um ar romântico, a sífilis (de um outro tio) seria o preço do erotismo. Um sifilítico poderoso e genial, como herói de Thomas Mann em “O Doutor Fausto” (de 1947). Tem sífilis e faz um pacto com o demônio para ser uma celebridade singular no mundo. A alegoria com o Hitler do nacional-socialismo é clara.

As doenças são graduadas. Um resfriado não estigmatiza como a lepra. Ao abordar doença e política, Sontag percorre um caminho conhecido dos filósofos e dos antropólogos quando eles sugerem a aversão humana ao caos e à impessoalidade. A bruxaria não é uma irracionalidade, é um idioma, como diz Evans-Pritchard, para contornar infortúnios. Se há o inesperado, a sua personificação denuncia um mal-estar personalizado. Bergson menciona um fato crítico: na Primeira Grande Guerra, feridos por estilhaços demoravam mais tempo a sarar do que os atingidos por rifles inimigos. Neste caso, havia intencionalidade; no outro, havia um inaceitável acaso.

Não pode haver praga maior do que o contagio errático num mundo ancorado por trocas. Nada se iguala à desventura de enfrentar um inesperado e invisível vírus —um assassino sem rumo —num mundo motivado a tudo explicar. O coronavírus desnuda a nossa onipotência.

A pandemia é o que Marcel Mauss chamou de “fato social total”. Um evento que remete a muitas dimensões, rotineiramente lidas como isoladas (ou polarizadas) mas que são, como tudo na vida coletiva, interdependentes. No caso, a vida e a morte, o desprezo (expresso, para nossa repulsa, pelo presidente Bolsonaro) e a solidariedade.

O vírus revela que temos mandões e regras demais que se contradizem. Somos legalistas e especialistas em indecisão: escolhemos não escolher como já disse alhures. O país não aprende a competir e, diante de uma doença mundial que atinge os ditos “desenvolvidos” (também de quarentena!), enxerga a contragosto o seu espantoso atraso, a sua constrangedora má-fé.

O mistério chinês

Percival Puggina.  

 Durante muitos séculos, embrenhar-se na direção do Oriente era, para os europeus, uma aventura cercada de tantos temores quanto lançar-se ao Oceano Atlântico no prelúdio das Grandes Navegações. Fantasias, lendas, superstições. Caberia a Marco Polo, no último quarto do século XIII promover, meio a contragosto das autoridades venezianas, a aproximação com o gigantesco país asiático.

 Imensa maioria dos leitores destas linhas ainda não era nascida quando a China, em 1949, após longa guerra civil, mergulhou na escuridão, tomada pelas mãos tirânicas de Mao Tsé-Tung (ou Zedong) e do Partido Comunista Chinês. A partir de 1976, com a morte de Mao, o regime girou para uma economia capitalista, sem que o partido abrisse mão da condução totalitária do país. Isso permite, a qualquer juízo prudente, identificar a China como um Estado nacional perigoso. Dele não se esperam virtudes, nem valores de nosso apreço. É bom vender para eles, é bom comprar deles, mas evitem-se as más companhias. O comunismo chinês, embora “podre de rico”, não é menos apaixonado pelo poder, nem menos genocida do que os demais experimentos análogos. Apenas é mais esperto e errou menos, dentro do grande erro que é o comunismo. Hoje transmite sua experiência para o Vietnã e para Cuba: Partido Comunista como partido único, capitalismo e ditadura.

 Por isso, não é demasiado lembrar os séculos durante os quais o Oriente, envolto em mistério, suscitava temores. Nada a ver com os muitos povos que compõem a população chinesa, mas tudo a ver com o poder político local e o poder financeiro internacionalmente exercido pelo regime que controla o país.

Se o capitalismo fez bem à economia e vai tirando da pobreza centenas de milhões de chineses, a ditadura do PCC ainda não ouviu falar em liberdade de opinião e transparência das instituições. Ao contrário, divulgar o surgimento do coronavírus transformou num inferno a vida do Dr. Li Wenliang.

Não têm a menor credibilidade os números que o governo chinês divulga sobre os efeitos do novo vírus em sua população. O que há algumas semanas era identificado como teoria da conspiração hoje quase dá para autenticar em cartório. Enquanto os disparates estatísticos chineses berram aos nossos ouvidos e sob nossos olhos, a imprensa brasileira não lhes dedica uma notinha de três linhas e só falam no “grande parceiro comercial do Brasil”. Ou seja, é tudo business? Mas quando Bolsonaro expressa sua angústia com a paralisia das atividades é acusado de estar preocupado com a economia e não com as vidas humanas. E eu devo dormir com um barulho desses?

Ontem (27/03), aqui em Porto Alegre, numa imensa carreata com mais de cinco quilômetros, empresários, autônomos, comerciantes e prestadores de serviços clamavam pela reabertura de seus negócios. Eram pessoas responsáveis, chefes de família, com idosos de sua afeição, unidas para a defesa do direito de proverem seu sustento. Também ontem, João Dória, “o rebelde” almofadinha, a mais estampada antítese de Bolsonaro, novo queridinho da mídia nacional, após armar um circo contra o presidente da República, conclamou a poderosa indústria paulista a se manter ativa. Business!

A grande imprensa brasileira assumiu-se com partido político de oposição. Dedica-se exclusivamente a criticar o governo, exigindo que ele faça tudo para todos. E que faça já. É a coisa mais parecida com o PT que já se criou no Brasil.

A pedra no caminho

Notas & Informações, 
O Estado de S.Paulo

Graças a seu comportamento irresponsável, Jair Bolsonaro começa a conquistar um lugar jamais ocupado por um presidente brasileiro, o de vilão internacional

O presidente Jair Bolsonaro foi reconhecido pela revista norte-americana The Atlantic como “o líder mundial do movimento de negação do coronavírus”. Já a revista britânica The Economist chamou Bolsonaro de “BolsoNero”, numa alusão à lenda de que o imperador Nero tocava harpa enquanto Roma ardia em chamas. E o presidente brasileiro foi o único chefe de Estado citado nominalmente pela The Lancet, uma das principais publicações científicas do mundo, em editorial crítico às respostas de muitos governos à pandemia, especialmente aqueles que “ainda precisam levar a ameaça da covid-19 a sério”.

Assim, Bolsonaro, graças a seu comportamento irresponsável, começa a conquistar um lugar jamais ocupado por um presidente brasileiro – o de vilão internacional. Nem mesmo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, idolatrado por Bolsonaro, persistiu em sua costumeira arrogância diante do avanço dramático da epidemia, rendendo-se à necessidade de prorrogar o isolamento social, mesmo ante o colossal custo econômico dessa medida.

Aparentemente, contudo, Bolsonaro não se importa de ser visto como pária. Ao contrário: decerto feliz com a notoriedade global subitamente adquirida, na presunção de que isso lhe trará votos, insiste em desafiar abertamente as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), adotadas pelo Ministério da Saúde e por governadores e prefeitos de quase todo o Brasil. No domingo passado, o presidente passeou por Brasília, visitando zonas comerciais, pedindo que a vida volte ao normal e cumprimentando simpatizantes que se aglomeravam em torno dele – escarnecendo, assim, de reiteradas recomendações de seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Como se isso não bastasse, Bolsonaro ainda postou em sua conta oficial no Twitter vídeos e imagens que atestavam sua descarada irresponsabilidade. Ao fazê-lo, conseguiu outra proeza: tornou-se o primeiro presidente brasileiro a ter postagens suspensas pelo Twitter, por negar ou distorcer orientações das autoridades sanitárias na luta contra uma epidemia. O Twitter, aparentemente disposto a conter o vírus da desinformação, já havia feito o mesmo em relação a postagens do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, e do chanceler Ernesto Araújo.

O temerário passeio de Bolsonaro por Brasília – apenas um dia depois de o ministro Mandetta ter enfatizado a necessidade do rígido isolamento social, pois, do contrário, “vai faltar atendimento para rico e para pobre” – demarcou definitivamente a fronteira que separa o presidente do resto do mundo civilizado. Bolsonaro hoje só governa o território habitado por seus fanáticos devotos.

Nesse país de valentões, em que a ciência e a razão são tratadas como inimigas, o presidente diz que “é preciso enfrentar o vírus como homem, pô, e não como moleque” – e, no léxico bolsonarista, “moleque” é quem defende quarentena contra a epidemia, para salvar vidas e evitar o colapso do sistema de saúde. Já “homem” é ele, o presidente, que repta o bom senso e escancara sua demagogia ao cogitar de acabar com o isolamento social por decreto: “Estou com vontade, eu tenho como fazer, estou com vontade: baixar um decreto amanhã” para permitir a volta ao trabalho de quem precisa “levar o leite dos seus filhos, arroz e feijão para casa” – ou seja, todo mundo. Se milhares de pessoas morrerem por falta de atendimento médico em decorrência dessa irresponsabilidade, “paciência”, disse o presidente, pois, afinal, “um dia todos vamos morrer”.

Não à toa, o governador de São Paulo, João Doria, pediu aos paulistas que ignorem Bolsonaro: “Não sigam as orientações do presidente, ele não orienta corretamente a população e, lamentavelmente, não lidera o Brasil no combate ao coronavírus e na preservação da vida”. Já o ministro Mandetta, desautorizado tão escandalosamente pelo presidente da República, pediu paciência à sua humilhada equipe e, conforme apurou a jornalista Eliane Cantanhêde, do Estado, citou para seus comandados o poema No Meio do Caminho, de Drummond – aquele do verso “No meio do caminho tinha uma pedra”.