domingo, junho 03, 2018

Democracia não é só ter eleição a cada quatro anos, democracia é viver sem medo

Sebastião Nery
Tribuna da Internet


Em muitas ocasiões. era preciso enfrentar o medo

Velho, muito velho, terno sempre azul e cabeça toda branca, seu Manuel era uma figura querida e conhecida sobretudo em Teresópolis mas também em Petrópolis: revendedor há muitos anos da Loteria Federal. A sorte só chegava a Teresópolis e às vezes a Petrópolis pelas mãos já mirradas do seu Manuel.

Depois que o presidente Geisel deixou o governo, seu Manuel arranjou mais um freguês permanente para seus bilhetes: Geisel. Toda extração, ele levava um bilhete inteiro para o sítio dos Cinamomos, do ex-presidente. Era venda segura e a comissão certa.

GEISEL – 

De repente, Geisel passou a receber no Rio, toda semana, diretamente da Loteria, cinco bilhetes inteiros. Como essa era a cota mínima de um revendedor, o ex- presidente ganhava o desconto de revendedor e seu Manuel perdia sua comissão. Mas não se queixava:

– Quem pode, pode. E ele tem sorte. Uma vez ganhou.

Um cliente de Petrópolis lhe perguntou:

– Seu Manuel, por que o senhor não se queixa lá na Caixa?

– Porque tenho medo.

– Mas o homem já não é mais presidente.

– Eu sei. Ele saiu do governo, mas meu medo do governo ficou.

PAULO ANTONIO – 

Na saudosa e histórica “Adega dos Frades”, um grupo de políticos, jornalistas, empresários, relembrava os tempos de medo da ditadura. Paulo Antonio Carneiro, diretor do “Diário de Petrópolis”, então jovem dirigente do MDB municipal, revendo seus papeis, encontrou umas laudas escritas à mão.

Candidato em 1974 a deputado federal pelo MDB do antigo Estado do Rio, em dobradinha com o vereador Carlos Portella, candidato a estadual, os dois então bem jovens, com menos de 30 anos, Paulo Antonio pediu sugestões para sua primeira aparição no horário do TRE na TV.

O SNI fazia uma pressão brutal, no Tribunal Regional Eleitoral, contra os candidatos do MDB, censurando-lhes os pronunciamentos, sobretudo dos mais jovens e aguerridos. Era preciso ser rápido no gatilho e aproveitar bem aqueles rápidos instantes, com declarações curtas e fortes.

ILHA DO MEDO – 

Paulo Antonio foi para a TV com uma pequena lista delas no bolso. Na sua vez de falar, reviu,memorizou e começou exatamente pela primeira:

– “Democracia não é só ter eleição de quatro em quatro anos. Democracia é viver sem medo”.

Na mesma hora, saíram os três do ar: o programa, Paulo Antonio e a frase. Dias depois, também eram vetadas e saíram da lista eleitoral do MDB fluminense as candidaturas dele e de seu fiel companheiro Portella.

A dívida e o ralo

Editorial
O Estado de S.Paulo 

Campeão da dívida pública entre os emergentes, o Brasil fechou o mês de abril com o governo geral pendurado em soma equivalente a 75,9% do PIB

Campeão da dívida pública entre os emergentes, o Brasil fechou o mês de abril com o governo geral pendurado em R$ 5,04 trilhões, soma equivalente a 75,9% do Produto Interno Bruto (PIB). No fim do ano a proporção era de 74%. O peso do endividamento cresce mês a mês porque o setor público tem sido incapaz de gerar, nas contas primárias, sobras suficientes para liquidar pelo menos parte dos juros. Sobras aparecem, de vez em quando, nos melhores momentos, mas logo somem no ralo dos gastos obrigatórios. O maior gasto desse tipo, sempre crescente, é o previdenciário. As contas primárias (sem a despesa financeira) têm ficado em vermelho, ano a ano, desde 2014, fim do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

A recuperação econômica, embora vagarosa, tem permitido aumento da arrecadação desde o ano passado. Em abril deste ano a receita do governo federal, descontadas as transferências a Estados e municípios, foi 7,4% maior que a de um ano antes, deduzida a inflação. O dado é do Tesouro Nacional. De janeiro a abril a arrecadação líquida chegou a R$ 423,51 bilhões e superou a dos primeiros quatro meses de 2017 por 7,5% reais, isto é, eliminada a variação de preços. A despesa, no entanto, atingiu R$ 428,96 bilhões e o resultado primário foi um déficit de R$ 5,45 bilhões. Foi 27,8% menor que o do ano anterior, mas, de toda forma, ainda faltou dinheiro para atender pelo menos a uma fração da dívida. 

Tesouro Nacional e Banco Central, somados, foram no entanto superavitários, com sobra financeira de R$ 55,76 bilhões. Esse resultado, produzido basicamente pelo Tesouro, reflete apenas em parte o aumento de receita proporcionado pela reativação econômica. A melhora decorreu também do esforço de contenção de gastos. Mas esse esforço foi mais que neutralizado pelo buraco previdenciário. 

O déficit da Previdência chegou a R$ 61,21 bilhões. Foi 14,5% maior que o de um ano antes. Com isso, as contas do governo central chegaram deficitárias ao fim dos primeiros quatro meses, embora tenha havido em abril um superávit sazonal de R$ 7,19 bilhões. 

Todos esses números foram calculados pelos critérios do Tesouro e mostram a diferença entre receitas e despesas livres de custos financeiros. Também o Banco Central (BC) publica mensalmente um relatório sobre as contas públicas. Nesse relatório, o resultado primário corresponde à necessidade de financiamento de cada nível da administração. Com essa diferença de critério, o resultado primário do governo central, no período de janeiro a abril, foi um déficit de R$ 2,65 bilhões, menos negativo que o apontado nos cálculos do Tesouro. Mas o conjunto tem as mesmas características, com o déficit previdenciário (R$ 61,21 bilhões) engolindo o superávit contabilizado nas operações do Tesouro. 

Pelos cálculos do BC, o setor público, formado por governos central, estaduais e municipais e parte das empresas estatais, teve superávit primário de R$ 7,29 bilhões em quatro meses, graças à sobra de Estados e municípios (R$ 10,63 bilhões). Mas o resultado nominal (com os juros) foi deficitário, com resultado negativo de R$ 111,56 bilhões de janeiro a abril. Em 12 meses o buraco foi de R$ 499,25 bilhões, soma correspondente a 7,51% do Produto Interno Bruto (PIB). A média estimada para as economias avançadas é inferior a 3%. 

Com déficit nominal crescente, aumenta o peso do endividamento público sobre a economia. A dívida bruta do governo geral, formado pelos três níveis da administração, alcançou 75,9% do PIB, pelo critério do governo brasileiro. Se a conta incluir papéis do Tesouro detidos pelo BC, a soma passará de 80% do PIB. Por esse critério, a média para países emergentes é próxima de 50%. 

De qualquer ângulo o Brasil sai mal na foto, quando se trata de finanças públicas. Será um argumento para ajustes e reformas? Muitos políticos preferem rasgar a foto. Alguns se dizem progressistas e atribuem à gastança inflacionária o poder mágico de gerar crescimento e emprego. Os fatos desmentem essa bobagem, como desmentiram na gestão petista, concluída com a maior recessão da era republicana. Mas quem se importa com fatos?

Parente perigoso

 J.R. Guzzo
Revista EXAME

Está na cara que temos de estatizar tudo o que passar pela frente, do trióxido de molibdênio à cachaça 51, pregam os arquiduques do “Brasil forte”

(Sergio Moraes/Reuters)
Presidente da Petrobras, Pedro Parente, na sede da empresa no Rio de Janeiro   

Todas as vezes que ouvir falar em “recurso estratégico”, ponha a mão no bolso e segure a carteira: alguém, com certeza, está querendo roubar você. Pode ser gente do governo — tanto faz que seja da situação ou da oposição. Podem ser sindicatos e CUTs. Podem ser, certamente, empreiteiros de obras públicas loucos para construir refinarias, “complexos industriais” e “plantas” disto ou daquilo. Podem ser todos os economistas do “campo progressista”, sem exceção. Podem ser intelectuais, professores de universidade, artistas de novela. Existe à vista alguma coisa que possa ter um valor qualquer? Então, dizem todos os nomeados acima, é “estratégico”. Se é estratégico ninguém pode mexer: a coisa tem de ser “do Estado”, ou do governo. Como tanto o “Estado” quanto o “governo” são uma ideia e não um ser humano, a exemplo do ex-presidente Lula, isso quer dizer, obrigatoriamente, que gente de muita carne e muito osso vai mandar nela. Também obrigatoriamente, essa gente vai criar empresas imensas para cuidar da riqueza da “população”, lotar cada uma delas com funcionários amigos e roubar o pobre do “recurso estratégico” até não sobrar um único osso.

A esquerda nacional, historicamente, é a mãe desnaturada dos gêmeos “bem estratégico” e “empresa estatal”, mas os beneficiários materiais de sua doutrina não são apenas os esquerdistas. Como acontece com tanta frequência na aplicação das ideias “progressistas”, entra na festa todo o tipo de safado que a elite brasileira tem a oferecer — com o tempo, na verdade, vai se descobrindo que é justamente esse bonde do capitalismo terceiro-mundista, tão selvagem quanto a selva no inferno de Dante, quem mais ganha dinheiro com a história de que “o Brasil tem de defender as suas riquezas da cobiça internacional” etc, etc,. Vale qualquer coisa, aí. Está na cara que temos de estatizar tudo o que passar pela frente, do trióxido de molibdênio à cachaça 51, pregam os arquiduques do “Brasil forte” — assim fica tudo só para nós. Simples demais? Pode ser simples, mas não é demais: é apenas a verdade estabelecida pela observação dos fatos, diante da roubalheira que chegou ao ponto de fissão nuclear a partir dos governos Lula-Dilma e que tanta gente está hoje desesperada para colocar de novo em operação.

Em nenhum espaço da vida brasileira a ação dos saqueadores se mostra tão desesperada quanto no petróleo e na Petrobras. Trata-se, possivelmente, da área em que o brasileiro é roubado há mais tempo — espantosamente, desde 1953. Depois da implosão do PT, a Petrobras tem passado com excelentes resultados por um processo de reconstrução. O governo Michel Temer desistiu de encher a empresa de políticos-bandidos, o que deixa absolutamente transtornados os presidentes do Senado, da Câmara e as gangues do Congresso, e permitiu que um executivo de talento, Pedro Parente, tocasse a máquina como ela deve ser tocada. Deu certo. Parente salvou a estatal da falência e criou ali uma cultura de competência, responsabilidade e resultados. É claro que os políticos, de Lula ao extremo anti-Lula, querem matar esse Parente.

O pano de fundo da greve dos caminhoneiros, que tanto barulho levantou, é a guerra entre a liberdade econômica e as forças que querem continuar controlando o petróleo e os combustíveis no Brasil. Na superfície é uma disputa por preços, eliminação de impostos dementes e questões financeiras imediatas — por sinal esses caminhoneiros, onde Lula e a esquerda são detestados, mostraram uma capacidade de juntar gente e mostrar força infinitamente maiores que a “mobilização social” em favor do “Lula Livre”. (A multidão que iria cercar a prisão “até Lula ser solto” nunca passou de 500 pessoas, e hoje está reduzida a nada. Virou uma palhaçada de artistas que agora usam Lula para promover seus shows.) Para além da greve, porém, está a discussão verdadeira: o fim da Petrobras e similares, o estabelecimento da livre concorrência e a construção de um Brasil com chances de progredir.

O que penso sobre a greve dos caminhoneiros e as dúvidas da opinião pública

Percival Puggina
Tribuna da Internet

“Engana-se quem pensa que essa greve traz à população algo que não seja caos. Ela é pelo Diesel e não reduzirá nem o frete”. Esta frase, que postei dia 26/05 nas minhas páginas do Facebook, suscitou inúmeros comentários. A maioria expressando desagrado. Era previsível porque pesquisa feita pelo Instituto Methodus informava, na véspera, que 86% da população apoiava a greve. No entanto, não tenho o hábito de auscultar a opinião pública para decidir o que devo escrever ou falar. Se fosse fazê-lo, não teria escrito ou dito coisa alguma quando poucos, muito poucos, combatíamos as ideias de esquerda e o petismo na segunda metade dos anos 80.

Estou convencido, pela simples aplicação da razão aos fatos, de que é preciso distinguir as motivações. Uma coisa é a greve dos caminhoneiros, com apoio dos transportadores e produtores rurais interessados em reduzir o preço do diesel. Atendida essa reivindicação e isentos do pagamento de pedágio quando vazios, não fica um caminhão no acostamento. Ou alguém acredita que seus condutores continuarão parados até que o país tome jeito, que o Estado encolha, que os impostos diminuam, que a segurança aumente, que as estradas melhorem?

PAUTAS NACIONAIS – 

Outra coisa, então, são as pautas nacionais, sobre as quais muito tenho escrito e das quais poucos se têm ocupado. Quanto mais terrível for a situação no dia 7 de outubro, quanto maior o caos, mais receptiva estará a massa de eleitores a quem lhe oferecer, em 7 de outubro, o conhecido prato feito de mentira, populismo, corporativismo, estatismo e, claro, subsídios públicos. Não vislumbro a menor chance de que em tal situação a maioria do eleitorado decida optar por uma política econômica liberal. Ao contrário, ela se inclinará para o lado de quem lhe oferecer doses mais robustas do mesmo veneno através da mão falsamente dadivosa do Estado. Sou contra o plantio do caos.

Comece a falar em privatização e fim do monopólio e veja o que acontece. Quais as demandas da greve da Federação Única dos Petroleiros (FUP) programada para quarta feira? Demissão do presidente da Petrobras, retirada das Forças Armadas das refinarias onde garantem o abastecimento dos caminhões, manutenção dos empregos, “não às privatizações” e ao “desmonte da Petrobras”.

Ah! Enquanto a empresa era vampirizada pelo governo petista que a transformou em objeto de escândalo e escárnio mundial, a turma da FUP, agora grevista, posava para fotos ao lado de Lula e Dilma. Agora, faz greve e se une aos caminhoneiros… “para o bem do Brasil”. Deve haver apoiador do caos aplaudindo a greve desses hipócritas porque, afinal, ela ajuda o caos, certo?

TIPO BOMBRIL – 

A pluralidade de expectativas em relação aos caminhoneiros é uma evidência de que ela está sendo vista como uma espécie de Bombril com usos contraditórios. Ora é uma porta aberta para a “intervenção militar constitucional”, ora uma oportunidade para o “Fora Temer”, ora uma chance de criar clima para a volta da esquerda ao poder, ora uma oportunidade de acabar com os males do estatismo e ora uma oportunidade de buscar soluções junto ao Estado, ora servirá para acabar com o monopólio do petróleo e ora servirá para preservar definitivamente o monopólio. Entendam-se, porque eu não entendo.

Ponderação final: se você está convencido que a greve é boa para o país, que o “Fora Temer” petista que vi em caminhões, vindo ontem de Santa Maria, é uma boa pauta, que o agravamento do caos institucional fará o que até agora não foi feito, responda para você mesmo, a quatro meses de eleições gerais, qual o grupo político que colherá maior vantagem dele com vista aos próximos quatro anos de poder no país?

É urgente a necessidade de se privatizar não só a Petrobras, mas outras estatais

Roberto Castello Branco
Folha de São Paulo

Precisamos de várias empresas privadas competindo nos mercados de combustíveis

As crises políticas sempre demandam um culpado. No caso da greve dos caminhoneiros, os políticos e parte da opinião pública elegeram a política de preços da Petrobras, cujo responsável era seu presidente, Pedro Parente. Então, "fora, Pedro Parente" e todos voltamos a ser felizes.

Ninguém se deu ao trabalho de observar que o preço do óleo diesel no Brasil é inferior à média global, US$ 1,02 contra US$ 1,07 (dados de 28 de maio da Global Petrol Prices).

O diesel é commodity global e a principal fonte de diferenciação de preços entre países são impostos e subsídios.

Na Venezuela o preço é quase zero, nos Estados Unidos, onde a tributação é baixa, US$ 0,85 e na Noruega, onde os impostos são muito elevados, US$ 2,03 por litro.

Há dois anos, os preços de alimentos sofreram forte alta, o que afetou principalmente as famílias mais pobres. Não houve greve, nem protestos, nem foi pedida a demissão de ninguém.

A razão fundamental é que não havia ninguém para culpar, o culpado foi o mercado, uma entidade impessoal.

No caso do diesel, embora seguindo o mercado global, é o comitê de uma única empresa, uma estatal dona de 99% do refino, quem anuncia os preços.

Essa é mais uma razão para privatizar a Petrobras. Precisamos de várias empresas privadas competindo nos mercados de combustíveis.

Mauro Pimentel/AFP
Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro - 

As pressões sobre o governo para resolver uma situação de excesso de oferta de fretes rodoviários, criada pelo desenvolvimentismo do BNDES, encontraram terreno fértil. Um governo populista, politicamente enfraquecido e num ano eleitoral, foi facilmente capturado.

A greve produziu choque de oferta que afetou toda a atividade econômica.

Vai se processar significativa transferência de renda da sociedade para um grupo de interesse, parte do jogo populista de soma zero. O que acontecerá se amanhã o preço do petróleo chegar a US$ 100 por barril e/ou o dólar a R$ 4?

O tabelamento dos preços dos fretes é uma distorção com significativas implicações negativas.

O fato gerador da greve, o excesso de oferta de caminhões de carga, permanece intacto. A intervenção do Estado só contribuiu para agravá-la, pois a demanda por fretes crescerá mais lentamente.

Existe um velho ditado popular que se aplica muito bem a esta situação: "é possível ignorar as leis da economia, mas elas nunca nos ignorarão".

A crise e a resposta dada pelo governo Michel Temer agravam sem dúvida as incertezas de um ano eleitoral, com repercussões bastante negativas sobre a recuperação da economia.

Uma das lições que se tira desta crise é a urgente necessidade de privatizar não só a Petrobras, mas outras estatais.

É inaceitável manter centenas de bilhões de dólares alocados a empresas estatais em atividades que podem ser desempenhadas pela iniciativa privada, enquanto o Estado não tem dinheiro para cumprir obrigações básicas, como saúde, educação e segurança pública, que até mesmo tiveram recursos cortados para financiar o subsídio ao diesel.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Há alguns anos defendia a privatização (ou fechamento) de todas as estatais, com exceção da Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa  Econômica Federal. Este gigantismo do Estado brasileiro está na raiz da cultura da corrupção nacional, além, claro, do baixo grau de investimentos nos serviços essenciais. Reduzir este gigantismo permitiria reduzir a dívida pública brasileira, cedendo espaço para uma urgente redução da carga tributária, trazendo os juros para uma posição mais decente. 

Por motivos diferentes, a classe política e as esquerdas aliadas às centrais sindicais, fariam o diabo para evitar esta privatização em massa. Comparados à população, estes contrários são insignificantes, mas fazem muito barulho. Porém, em pouco tempo, esta privatização seria aplaudida pelo população em razão dos benefícios consequentes. 

Hoje, nesta ação privatista eu já incluiria a Petrobrás, além de acabar com o monopólio do refino abrindo o mercado para a livre concorrência. 

Além de atrair bilhões em investimentos e gerar milhares de empregos, permitiria que houvesse recursos abundantes para aumentar e qualificar os serviços essenciais (pior do que estão, IMPOSSÍVEL). 

Passa da hora do Brasil deixar a infância de lado e passa a agir como um país sério. 

Esta quantidade imensa de estatais (muitas das quais inúteis e sem serventia) só alimenta o compadrio, o empreguismo de favor para parasitas políticos. Sem retribuição alguma em favor da sociedade.   

Subsídio ao diesel é conta difícil de fechar

O Estado de S.Paulo

O projeto de lei suspende a desoneração da folha de pagamento de 28 setores, de um total de 58 beneficiados pela desastrosa política adotada pela ex-presidente Dilma Rousseff

Como parte da solução improvisada para permitir a redução de R$ 0,46 no litro de óleo diesel prometida aos caminhoneiros por 60 dias para cessar a greve que paralisou o País por mais de uma semana, o Senado aprovou, terça-feira passada, o projeto de lei que suspende a desoneração da folha de pagamento de 28 setores, de um total de 58 beneficiados pela desastrosa política adotada pela ex-presidente Dilma Rousseff. Além de um grande número de empresas ficar de fora da medida, entre elas as transportadoras, só devendo perder essa benesse em 2020, calcula-se que essa reoneração parcial deva proporcionar ao Tesouro uma receita de R$ 3 bilhões em 12 meses.

Como já estamos em meados do ano e a medida só entrará em vigor 90 dias depois de sancionada pelo presidente da República, ou seja, em setembro, o total arrecadado até fim de dezembro será bem menor, sendo insuficiente para cobrir o que deixará de ser arrecadado pela Contribuição sobre Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que será zerada. 

Presume-se que a isenção do PIS/Cofins sobre o óleo diesel, que também faz parte do projeto de lei em causa, venha a ser vetada pelo presidente Michel Temer, como foi acertado pelos líderes do Senado, que só aceitaram aprovar a propositura tal como passou na Câmara dos Deputados para ganhar tempo. A isenção do PIS/Cofins sobre o diesel custaria R$ 13,5 bilhões aos cofres federais, gerando um rombo nas contas públicas difícil de cobrir.

De uma forma ou de outra, o governo terá de compensar a Petrobrás pela perda de faturamento com o subsídio ao óleo diesel. Estima-se que o Tesouro terá de desembolsar R$ 9,5 bilhões para a estatal este ano. Parte dos recursos viria de uma reserva orçamentária estimada em R$ 5,7 bilhões, ou seja, de verbas ainda sem destinação, e o restante de cortes de despesas diversas.

Há ainda a possibilidade de diminuir ou zerar a alíquota do Reintegra – programa pelo qual o governo devolve às empresas 2% do faturamento com exportações – sob a justificativa de que as vendas externas são hoje favorecidas pela elevada cotação do dólar e poderiam prescindir desse incentivo. 

O cobertor é curto, mas, seja como for, o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, assegura que não haverá aumento de impostos.

Retrocesso populista

Rogério Furquim Werneck 
O Globo

Governo está impotente diante da chantagem imposta à sociedade, pronto a sacrificar avanços na política econômica

Levará algum tempo até que se possa ter compreensão clara do vertiginoso retrocesso por que passou a condução da política econômica no país, em menos de dez dias, a partir da segunda-feira, 21 de maio. Mas na história completa desse desastre não poderá faltar a constatação de que atores políticos importantes já vinham desfraldando bandeiras populistas desde a semana anterior.

Já no início da tarde da sexta-feira, 18, a Agência Estado reportava que o ministro de Minas e Energia, Wellington Moreira Franco, se permitira declarar que era preciso repensar a política de preços de combustíveis. Não foi uma manifestação isolada. Na manhã da segunda-feira, 21, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, cumprindo o que adiantara na véspera pelo Twitter, anunciou, em conjunto com o presidente do Senado, Eunício Oliveira, a criação de uma comissão geral do Congresso para debater “as sucessivas elevações de preços de combustíveis” (Agência Estado). No mesmo dia em que os protestos de caminhoneiros começaram a ganhar corpo país afora.

Tais fatos deixam mais do que claro que, tendo em vista a estreita ligação de Moreira Franco com o Planalto e a patente insegurança do presidente com o Congresso, a equipe econômica e a Petrobras estavam fadadas a entrar totalmente “vendidas” no jogo pesado que teve lugar na semana passada. Sem chance de contar com o respaldo do Planalto.

Quaisquer que possam ter sido suas intenções, ao se dispor a reabrir a caixa de Pandora da política de preços de combustíveis, o governo logo perdeu controle da situação. Começou a semana acuado e terminou-a rendido.

Ainda é cedo para se avaliar com nitidez a real extensão do retrocesso populista em curso. Mas uma avaliação preliminar já revela uma perda devastadora de credibilidade da mudança do regime fiscal. A reconstrução da Petrobras, fundada na institucionalização de uma política clara, coerente e duradoura de preços de derivados, era um dos pilares da credibilidade dessa mudança.

Tal política estava bem fundamentada na lógica de formação de preços de bens transacionados internacionalmente em uma economia aberta. Na ideia de que preços internos de derivados devem estar alinhados a preços externos. Exatamente como ocorre com outras commodities, como trigo, soja, alumínio ou celulose. Como derivados podem ser importados ou exportados, esse alinhamento tem a dupla virtude de gerar preços que dão a quem demanda tais produtos noção correta do que sua decisão custa à economia, e de manter o poder de mercado da Petrobras sob controle.

Mas os caminhoneiros estão convencidos de que fazem jus a um subsídio. E o curioso é que querem que o diesel seja subsidiado para que possam amenizar as agruras que agora enfrentam, em decorrência de outro programa de subsídio: o generoso financiamento subsidiado de caminhões promovido pelo BNDES, durante o governo passado, por insistência das montadoras. Combinada à recessão, a expansão excessiva da frota deprimiu fretes. E muitos caminhoneiros vêm enfrentando dificuldades para pagar os caminhões que adquiriram a prazo.

Esse problema de excesso de oferta só será resolvido com a retomada do crescimento da economia. Subsídio não é a solução. E torna a retomada mais difícil. Nas atuais condições, o mais provável é que a concorrência acirrada entre os caminhoneiros faça com que o subsídio ao diesel acabe em boa parte repassado aos demandantes de serviços de transporte rodoviário, não obstante a absurda tabela de preços mínimos de frete exigida pelos grevistas.

Seja como for, o que agora se vê é um governo fragilizado, impotente diante da chantagem que foi imposta à sociedade, pronto a sacrificar avanços de grande importância na condução da política econômica, para conceder subsídios indefensáveis, em meio ao alarmante quadro fiscal que enfrenta o país. Subsídios que, só em 2018, deverão montar a cerca de R$ 14 bilhões.

O que ainda não se sabe é que novas pilhagens sofrerão o Tesouro e o país, nos próximos meses, na esteira do sucesso que tiveram os caminhoneiros.


Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

Nem golpe nem Venezuela

Eliane Cantanhêde
O Estado de S.Paulo

A greve deixa uma conta altíssima, mas as instituições funcionam

A bandeira da “intervenção militar já” é mais nociva do que o refrão “o Brasil vai virar uma Venezuela”. Nenhuma das duas coisas vai acontecer, mas pregar a ditadura é grave e perigoso, enquanto falar em venezuelização é apenas marketing leviano. Logo, uma mobiliza desmentidos e esconjuros até das Forças Armadas, enquanto a outra não passa de papo de botequim.

A paralisação dos caminheiros sacudiu o governo, acionou o Legislativo e o Judiciário e deixou um rastro de prejuízos bilionários, mas ensinou duas lições: 1) diferentemente do que ocorre na Venezuela, as crises são pontuais, enfrentadas por instituições sólidas e solucionadas; 2) a insatisfação é generalizada, inclusive nos meios militares, mas não há lideranças dispostas a transformar o caos em inferno. 

Os radicais são ruidosos, muitas vezes ruinosos, mas são sempre minoria. Têm força para aproveitar uma paralisação com motivos justos para fazer um movimento político sem pé nem cabeça e com pedradas contra os que se dão por satisfeitos e só pensam em voltar para casa com o troféu – e as vantagens – da vitória. 

Diante dos gatos pingados que pedem “intervenção militar já”, num país traumatizado pela longa história de ingerências militares na política e uma ditadura que deixou vítimas e ódio, as Forças Armadas assumiram elas próprias a missão de rechaçar a ideia de golpe.

Até a minha entrevista com o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, de dezembro de 2016, foi tirada do baú. E lá está ele, como a mais reluzente liderança militar nesses tempos difíceis, ironizando “os malucos, os tresloucados” que batem às portas dos quartéis pedindo intervenção.

Também o ministro da Defesa, general Silva e Luna, disse agora a Tânia Monteiro que as Forças Armadas “trabalham 100% apoiando a legalidade, com base na Constituição e sob a autoridade do presidente da República”. E ratificou: “O único caminho de acesso ao poder é pelo voto”.

Fazendo coro, o chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, almirante Ademir Sobrinho, desdenhou, no plural: “Não temos concordância com isso (intervenção), seguimos a Constituição, a democracia”. E, no Planalto, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Sérgio Etchegoyen, outra estrela militar, disse que não vê nenhum militar pensando nisso e ironizou: “Esse assunto é do século passado”.

Que assim seja e a história registre todas essas manifestações enfáticas, mas, pelo sim, pelo não, a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, usou a primeira sessão do plenário após o início da greve para fazer uma declaração que, sem citar caminhoneiros, militares ou “vivandeiras de quartéis”, teve um objetivo claro: condenar ditaduras e fazer uma defesa enérgica da democracia, regime que prevê instrumentos e remédios legais para as crises mais difíceis.

É assim que vamos atravessando crises sucessivas, incrédulos, confusos, indignados e sem saber o que nos reserva uma eleição totalmente imprevisível, mas com a certeza de que nossos “Venezuela’s days” confirmam que temos energia institucional, econômica e social para enfrentar crises e o Brasil jamais será uma Venezuela.

E, por mais que os “tresloucados” não saibam nada ou tenham memória curta, o trauma da ditadura não é só civil, é também militar, e não há lideranças nem vontade nas Forças Armadas para aventuras sem saber como depois sair delas.

Está difícil encontrar homens-bomba contra a democracia. Há militares com liderança e força, mas não querem e sabem que não podem nem devem. E, se há militares que queiram e acham que podem e devem, não têm liderança nem força. Sem unir liderança, força e vontade, não tem golpe. Aliás, não terá golpe nenhum. Que venham as eleições!

O bloqueio das ideias

Fernando Gabeira* 
O Estado de S.Paulo

É tempo também de reorganizar a cabeça, depois desse movimento dos caminhoneiros que parou o País

Aos poucos volta a gasolina aos postos e os alimentos às prateleiras. É tempo também de reorganizar a cabeça, depois desse movimento dos caminhoneiros que parou o País.

Sim, é preciso reorganizar a cabeça. Não vai nisso nenhuma subestimação da inteligência. É que os fatos nos obrigam a uma constante revisão.

Esta semana, por exemplo, lembrei-me duma viagem a Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Isso foi na década dos 90. Rodávamos por estradas precárias e perguntei por que não as reparavam. Alguém me disse que as estradas ali estavam perto da fronteira com a Argentina. Eram tão ruins que desestimulavam uma invasão militar.

Achei bizarro. Afinal, estamos de bem com a Argentina, já havíamos resolvido a questão nuclear fraternalmente. Aquilo era uma desculpa esfarrapada.

Voltando atrás no tempo, sigo pensando que as estradas devem ser as melhores possíveis. Mas percebo, com a paralisação da semana, que num país como o nosso deveriam ser um tema dominante na defesa nacional.

Um país não pode ser tão vulnerável. As notícias de perdas se sucedem: portos, agricultura, comércio, indústria, quase todos os setores da economia nacional foram atingidos.

Isso não quer dizer que nunca mais haverá greve de caminhoneiros. Simplesmente não podem ser devastadoras como esta.

A segunda ideia: como as coisas acontecem sem que sejam detectadas no País. As manifestações de 2013 começaram por causa dos 20 centavos a mais no preços das passagens. E surpreendentemente evoluíram para um protesto geral.

Onde estávamos todos? Talvez mais concentrados no jogo político de Brasília do que propriamente nas tensões sociais. Onde estava o governo, que recebeu uma indicação clara da greve e a subestimou?

Se fosse um pouco mais franco e transparente, pelo menos avisaria à sociedade que algo de muito grave estava para acontecer. Se não quisesse nos defender, ao menos acionaria nossos instintos de autodefesa. Não são necessariamente negativos como uma corrida aos supermercados. Havia muito o que fazer para salvar vidas, garantindo oxigênio, material de hemodiálise, enfim, artigos decisivos para a saúde pública.

As refinarias foram bloqueadas. Como, assim, as refinarias podem ser bloqueadas simultaneamente? Os grevistas chegaram primeiro, embora tenham avisado que iriam desfechar o movimento.

Compreendo a revolta difusa contra políticos que vivem no mundo da lua. Creio que ela é inevitável no Brasil de hoje, em que a sociedade já esgotou sua cota de tolerância.

O governo Temer está preocupado em fugir da polícia e influenciar as eleições. Ele merece uma dose de caos para cair na real. Mas a sociedade, não. Ele já vem sofrendo ao longo desses anos de crise, corrupção, assalto às empresas públicas, como a Petrobrás.

Existe alguma fórmula para evitar que um governo fraco fique de joelhos sem que para isso o próprio País também tenha de se ajoelhar?

O que me ocorre, as ideias ainda não voltaram todas às prateleiras: é um instrumento de Estado, uma lei talvez, que defina que o País não pode parar, independentemente das hesitações do governo.

Ao governo caberia negociar, mas dentro de um quadro em que estradas e refinarias não poderiam ser bloqueadas. Isso subordinaria as próprias negociações.

Por mais rastejante que fosse o governo, por mais concessões que estivesse pronto a oferecer, não estaria ao seu alcance permitir que o País parasse.

Finalmente, uma ideia que me faz lembrar 2013: uma revolta política despojada de uma visão real do que fazer, para onde ir.

Não se deve ignorar a presença no movimento de grupos que defendem a intervenção militar. Mesmo ignorados, estão crescendo. É preciso encará-los. Eles estão vendo a mesma decadência política que nós. Só que propõem uma saída absurda, não só pelas condições internas, mas também pelo isolamento internacional que isso representaria para o Brasil.

Foi num precário processo democrático que chegamos até aqui. E por meio dele vamos encontrar uma saída.

Já vi caminhoneiros precipitarem a queda do governo de Salvador Allende, no Chile. Estava defronte ao Palácio de La Moneda quando os aviões o sobrevoavam, anunciando o golpe. Augusto Pinochet acabou como alguns políticos brasileiros, alquebrado, de bengala, sempre nos colocando o dilema: cadeia ou prisão domiciliar para morrer em casa?

Voltar ao passado não é uma solução. É uma espécie de morte viver a História como uma repetição mecânica.

Não deixa de ser estranho ver tanta gente usando a rede social, que ampliou o potencial humano de livre expressão, pedindo uma ditadura militar. É como usar uma boia para se afogar com ela. Já não é apenas viver a História como morte, mas como suicídio. 

Estamos num ano eleitoral. O País em frangalhos, uma esfera política desmoralizada, é nessa aridez que teremos de plantar a flor da mudança.

Um poeta consegue plantá-la no asfalto. Nossa tarefa não é tão difícil: derrubar pelo voto a maioria dos picaretas, eleger gente nova e empurrá-la para uma aliança com alguns sobreviventes, para que a inexperiência não venha a pesar tanto nas suas decisões.

Conviver com este governo e com todo o universo político é bastante doloroso. Mas não há alternativa. Em outubro já haverá um novo presidente, um novo Parlamento. Podem não ser ideais. Mas a lição destes anos é de que as más escolhas podem levar o País à desintegração.

Os adeptos do voto nulo deveriam parar um minuto e refletir sobre isso. Não existe outro mundo. Você pode deixar os políticos de lado, mas eles têm o poder de arrasar seu cotidiano. 

Por favor, nada de suicídios, como a intervenção, nem masoquismo, como o voto nulo. Pelo menos, vamos tentar sair dessa maré.


JORNALISTA*

Soluções para a greve impactam contas de 2019, dizem especialistas

Exame.com
Com informações  Agência Brasil

Medidas apresentadas para tentar pôr fim à greve dos caminhoneiros poderão agravar o rombo nas contas públicas.

(Ueslei Marcelino/Reuters)
O presidente Michel Temer  

Reduções de tributos, subsídios, reserva de mercado. As medidas apresentadas para tentar pôr fim à greve dos caminhoneiros poderão agravar o rombo nas contas públicas e ampliar as incertezas em relação à recuperação econômica. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil, para os quais o pacote tem efeito somente no curto prazo e deixará uma herança complicada para 2019.

Segundo os economistas, os investidores interpretaram as mudanças temporárias na política de preços da Petrobras como intervencionismo, o que levou às ações da companhia a cair quase 15% nos últimos dias. As consequências, no entanto, podem ir além do mercado financeiro e atingir a economia real, inclusive as taxas de inflação e os juros.

“O preço dos alimentos disparou. Os combustíveis aumentaram significativamente nestes dias, e o custo será repassado para os demais preços da economia lá na frente, num efeito cascata”, diz a professora de economia Virene Matesco, da Fundação Getulio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro. Segundo ela, o governo deveria ter exigido o fim da greve antes de atender as reivindicações dos caminhoneiros.

De acordo com a professora, as projeções de crescimento da economia este ano, que estavam em torno de 2,5%, podem cair. “Por causa da fragilidade econômica brasileira, os impactos tendem a se alastrar para o ano que vem.”

Reformas ainda mais urgentes

Professor do Ibmec do Rio de Janeiro e economista da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo diz que o problema maior vai ficar para 2019. “O próximo governo terá uma dor de cabeça a mais. Cada gasto adicional este ano complicará o cumprimento do teto de gastos no próximo. Se o próximo governo não fizer minimamente as reformas da Previdência e tributária, vai ter shutdown [interrupção] em muitos ministérios no próximo ano”, adverte.

Até agora, as medidas anunciadas pelo governo têm impacto fiscal de R$ 7,5 bilhões a R$ 7,9 bilhões neste ano. Desse total, de R$ 2,5 bilhões a R$ 3 bilhões referem-se à redução a zero da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre o diesel e R$ 4,9 bilhões dizem respeito às transferências do Tesouro Nacional para subsidiar o congelamento do preço do combustível pela Petrobras.

A conta pode aumentar em mais R$ 9 bilhões caso o Senado aprove a redução do PIS/Cofins para o diesel. Os estados também deixarão de arrecadar com a antecipação da mudança da base de cálculo do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), mas o impacto não será uniforme porque as alíquotas variam entre cada unidade da Federação.

Especialista em combustíveis e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires defendeu que o governo optasse pela diminuição temporária da Cide, do PIS/Cofins e do ICMS, com a condição de que os tributos voltassem ao normal assim que o preço do petróleo caísse no mercado internacional.

“O impacto nas contas públicas seria bem parecido com o do modelo atual, mas com a vantagem de que o preço cairia apenas na bomba, sem afetar a política de preços da Petrobras”, diz. Segundo Pires, o intervencionismo na companhia terá consequências além da queda das ações e poderá dificultar as vendas de refinarias da estatal no Sul e no Nordeste, previstas para este ano.

Governo

A equipe econômica discorda dessas projeções pessimistas. Ao anunciar as medidas, o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, reconheceu que a greve dos caminhoneiros pode ter impacto relevante no Produto Interno Bruto (PIB), caso o movimento persistisse. Segundo ele, as desonerações não terão impacto nas contas públicas porque a Lei de Responsabilidade Fiscal obriga o governo a definir a fonte de recursos que compensarão a perda de arrecadação.

Sobre as transferências do Tesouro para cobrir os prejuízos da Petrobras, o ministro disse que a despesa não desrespeitará o teto de gastos nem a regra de ouro (que proíbe aumento da dívida pública para cobrir despesas correntes do governo). Conforme Guardia, o governo vai pedir os R$ 4,9 bilhões por meio de crédito extraordinário no Orçamento, despesa excluída do limite de gastos. Em contrapartida, terá de cancelar outros R$ 4,9 bilhões de despesas que já estavam contingenciadas (bloqueadas).

Em relação ao PIS/Cofins, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, disse que o governo não trabalha com perda de arrecadação e que caberá ao Congresso Nacional, ao votar o projeto, definir de onde sairá o dinheiro que custeará a iniciativa.

Queda inevitável de Parente expõe Petrobras e economia ao populismo

Igor Gielow
Folha de São Paulo

Com saída de executivo, só sobra Ilan Goldfajn como integrante do "dream team" da economia


 Miguel Schincariol/AFP
O ex-presidente da Petrobras Pedro Parente  

Politicamente, a saída de Pedro Parente da Petrobras era inevitável. O executivo só topou entrar na empresa em 2016 se tivesse carta branca para alinhar suas políticas às do mercado.

O problema é que a posição monopolista da Petrobras no refino de petróleo e na definição de preços de combustíveis impossibilita fazer o que Parente fez, a indexação diária à variação do preço internacional da commodity, sem correr enormes riscos.

Enquanto o petróleo estava barato, tudo bem. Bastou ele subir, e sempre haverá essa ciclotimia, ao mesmo tempo em que o dólar experimentou uma disparada, para a coisa degenerar na custosa paralisação dos caminhoneiros.

Naturalmente, nessas horas bodes expiatórios são procurados. E Parente virou o da vez, com até políticos do PSDB ao qual é associadopedindo sua cabeça. Isso, mais a coerência mínima de sair porque a partir de agora sua condição prévia para trabalhar acabou, selaram a demissão. A BRF deverá enfim ganhar um novo presidente-executivo.

Reuters/Reuters
1º.jun.2018: Pedro Parente pede demissão da Petrobras
 depois de dois anos no cargo

Para a estatal, é um risco enorme. Foi a intervenção do governo, histórica e em muitos casos ideológica, que levou a empresa à lona. Políticas demasiadamente intervencionistas e corrupção generalizada são o corolário da defesa da "nossa Petrobras".

Claro que ajustes tinham de ser feitos, e talvez um otimista até acredite que os meses restantes do velório do governo Michel Temer possam abrigar isso, mas é mais fácil crer na volta da irresponsabilidade.

O próximo presidente, seja lá quem for, acaba de ganhar mais uma pergunta obrigatória a responder antes da eleição. Os sinais pendulares da maioria dos pré-candidatos não foram até aqui muito animadores, até porque a população ainda considera a empresa uma espécie de bezerro de ouro a ser venerado, como a pesquisa Datafolha de terça (29) indica.

Para Temer, há o simbolismo extra da perda de uma das pilastras que sustentava a parte ainda respeitada do governo. Sem ele e Henrique Meirelles (ex-Fazenda), que abandonou o naufrágio para tentar uma aventura presidencial para lá de incerta, sobra no "dream team" que o mercado enxergava na economia um solitário Ilan Goldfajn (Banco Central).

A surra política aplicada na crise dos caminhoneiros ao sucessor de Meirelles, o respeitado técnico Eduardo Guardia, é prenúncio da tentação populista que acompanhará o país nos próximos meses e, pior, deverá influenciar o debate eleitoral --e não para melhor.

Por que Parente saiu

Adriana Fernandes, Vera Rosa, Igor Gadelha e Tânia Monteiro
O Estado de S.Paulo

Saída de executivo do comando da Petrobrás foi motivada pela movimentação do Palácio do Planalto e de lideranças do Congresso para reduzir os preços da gasolina e do gás

BRASÍLIA  - A saída de Pedro Parente do comando da Petrobrás foi motivada pela movimentação do Palácio do Planalto e de lideranças do Congresso para reduzir os preços da gasolina e do gás, depois do congelamento do preço do diesel, e pelo interesse do governo e de parlamentares nos R$ 100 bilhões do leilão dos barris de petróleo excedentes do pré-sal para bancar novos subsídios. 

Parente sabia que a crise não estava no fim e sem solução à frente, apesar do pacote de medidas do governo para acalmar os caminhoneiros, que até agora já custou R$ 13,5 bilhões de recursos do Orçamento. 

Além do diesel, o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, passou a defender publicamente um “colchão” para amortecer os preços de outros combustíveis, como a gasolina, ao consumidor. Pré-candidato ao Planalto, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), elegeu como prioridade subsidiar o preço do gás de cozinha.

O sinal de que governo buscava alternativas fiscais rápidas para bancar novas medidas – com o temor de que a greve terminasse num processo de convulsão social – ficou evidente para Parente nos últimos dias.

Na quarta-feira, ele conversou com Maia por telefone. Uma semana antes, em meio à paralisação dos caminhoneiros, o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), em entrevista ao Estado, disse que entre Parente e os consumidores, ficaria com os últimos. No feriado de Corpus Christi, numa conversa reservada com o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, em São Paulo, expôs as dificuldades e o caminho que seguiria. Era a prévia do que apresentaria ontem ao presidente Michel Temer, em reunião que durou 20 minutos. 

Segundo informações obtidas pelo Estado, Parente percebeu o movimento político e decidiu entregar o cargo. Não tomou a decisão de última hora nem pegou Temer de surpresa. Sob pressão, ele avaliou que sua permanência seria contraditória com tudo o que sempre defendeu. 

O agora ex-presidente da Petrobrás já tinha enviado sinais ao Planalto, durante a negociação para pôr fim à greve dos caminhoneiros, de que não faria mais concessões. Dois anos depois de ter assumido uma empresa que virou alvo da Lava Jato, com seu último presidente, Aldemir Bendine, preso, Parente deixou o governo convencido de que suas decisões na Petrobrás não foram uma “escolha caprichosa”, como afirmou em vídeo postado na rede interna da estatal. As tentativas de culpá-lo pela crise dos caminhoneiros o incomodavam. 

O interesse de todos sobre os recursos que podem reforçar os cofres públicos com a revisão do acordo da União e Petrobrás pela exploração do pré-sal foi o fato novo a reforçar a percepção de Parente de que, sem espaço para elevar tributos, além da resistência para manter a política de preços, a nova batalha seria a cessão onerosa. 

A equipe de Michel Temer está preocupada com o “efeito rebote” das manifestações dos caminhoneiros, algo que poderia prejudicar ainda mais a já desgastada imagem do presidente, perto das eleições.

O núcleo político do governo e a cúpula do MDB pressionam Temer por medidas de maior impacto para a crise. O cuidado, porém, é para que possíveis novos anúncios sejam embalados como propostas para reduzir a volatilidade dos preços dos combustíveis ao consumidor, sem interferência na Petrobrás.

Como fonte para os novos subsídios passaram a ser cobiçados s até R$ 100 bilhões que podem sair do leilão do excedente do pré-sal. A área política quer agilizar o processo de acordo da cessão onerosa para que o leilão aconteça ainda em setembro a tempo de garantir nova injeção de recursos para a economia “na ponta”, como afirmou um líder político, sob a condição de anonimato. Em meio à constatação do Planalto de que o subsídio ao diesel não era suficiente para acalmar a insatisfação popular, Parente recebeu um telefonema de Brasília que o questionou sobre quando seria possível colocar o leilão do excedente do pré-sal na rua. 

Desgastado, Parente preferiu sair. Na avaliação do executivo, sua demissão evitaria um desgaste maior para a empresa, servindo de obstáculo à escolha de um nome político para comandá-la, o que se confirmou. 

A greve acabou. O caos na política e na economia continua

 EXAME Hoje

Temer e sua equipe prometeram o impossível. Por lei, o Planalto não pode tabelar a cobrança na bomba

(Ueslei Marcelino/Reuters)
Greve: exército orienta caminhoneiros; paralisação 
jogou o Brasil numa nova leva de incertezas  

Depois da tempestade vem a incerteza. A semana termina com o encerramento de duas greves, dos caminhoneiros e dos petroleiros, que jogaram o Brasil de volta no atoleiro do populismo e que causaram enormes danos à economia e à rotina de sua população. Os efeitos da greve dos petroleiros ficaram mais na ameaça, já que os profissionais ligados à Petrobras retomaram o trabalho antes mesmo das 72 horas de paralisação em 95% das unidades, segundo a companhia.

Mas a greve dos caminhoneiros deve continuar impactando a economia, a política, o orçamento e até o judiciário brasileiro ao longo de 2018. A primeira dúvida é se os postos de gasolina de fato baixarão o combustível em 46 centavos, como prometeu o governo. A situação é surrealista: Temer e sua equipe prometeram o impossível. Por lei, o Planalto não pode tabelar a cobrança na bomba. Ontem, ao mesmo tempo em que o ministro Carlos Marun reiterou que não haverá tabelamento, o governo anunciou medidas multas de até 9,4 milhões de reais para postos que não cumprirem o desconto.

Outra leva de incertezas virá da ginástica orçamentária necessária para garantir os subsídios de 9,6 bilhões de reais à redução do preço do diesel. O governo reonerou a folha de pagamento, ação já votada pela Câmara, mas deixou de fora setores como o de fabricação de veículos, o que abre nova frente de discussões sobre as distribuições de agrados aleatórios. Ontem, anunciou novas medidas pra lá de contestáveis, como cortes em programas para repressão do tráfico, para concessão de bolsas de estudo e até para investimentos no sistema único de saúde.

As próximas semanas também devem ser de forte movimentação na oposição e nos órgãos de controle para analisar brechas legais nas medidas anunciadas de supetão para aplacar os grevistas. Segundo Sérgio Praça, cientista político da FGV e colunista de EXAME, a Medida Provisória 831/2018, que reserva 30% do frete contratado pela Conab para cooperativas é ilegal porque contraria a lei de licitações.

Para fechar a lista de incertezas vem a maior delas: a econômica. As calculadoras de analistas já estimam que os prejuízos diretamente relacionados à greve passarão dos 60 bilhões de reais. Mas os efeitos para o PIB de 2018 ainda são imensuráveis. O mais provável é que a economia cresça menos de 2%, o que solapa candidaturas governistas e abre espaço para discursos mais extremados no processo eleitoral. A greve terminou. Os problemas políticos e econômicos, definitivamente não.

Balanço da greve

 Míriam Leitão
O Globo

Toda greve tem pelo menos três atores: capital, trabalho e setor público. Na paralisação do transporte de carga, o capital não apareceu. Estava presente, mas escondido atrás do trabalho. O governo exibiu em suas hesitações a enormidade da sua fraqueza. Outros poderes ou bateram cabeça, como o Congresso, ou ficaram em silêncio prolongado. O que se viu foi um assustador vazio de poder.

Houve momentos em que a situação parecia fora de controle. O governo cometeu uma sucessão de erros primários no processo negociador, como o de ceder sem pedir contrapartida, fechar acordos com interlocutores que não representavam exatamente o movimento. Ameaçar prender quem descumpria a lei, para nada fazer no momento seguinte. Com essas ameaças sem consequência esvaía-se o pouco de sua credibilidade.

A estrutura do setor é complexa. Há os autônomos, mas muitos deles prestam serviço continuado a um mesmo cliente, portanto têm vínculos com empresas. Há os que pegam o serviço que aparece. Há milhares de empresas pequenas de dois ou três caminhões que são contratadas das grandes transportadoras, que têm também suas próprias frotas. Se, desde o começo do movimento, as empresas tivessem colocado suas frotas e seus contratados nas estradas, certamente o movimento dos caminhoneiros não teria chegado ao ponto em que chegou. Agora, os empresários dizem que não saíram com seus carros porque não havia segurança, mas o clima de insegurança foi criado com a aquiescência deles. É mais sutil do que o locaute clássico, mas fez o mesmo efeito de fortalecer um protesto que foi estrangulando o país e que causou enormes prejuízos ao setor produtivo. Na pauta de reivindicações havia assuntos do interesse das empresas, como a não oneração da folha salarial do setor. Quem paga salário é empresário e não autônomo. Por isso, esse pedido, atendido, foi a perfeita impressão digital da presença patronal no protesto.

Os manifestantes têm seus direitos, claro, e num país cheio de razões para o mau humor eles mostraram o deles, mas da pior forma. Poderiam ter parado seus caminhões e já provariam sua importância na economia brasileira sobre rodas e movida a diesel, mas eles sequestraram as vias públicas e nestes casos foram muito além do tolerável na democracia.

As Forças Armadas se desdobraram de norte a sul do Brasil tentando fazer fluir as mercadorias, seja nas operações de planejamento ou nas ações táticas. Se alguém confundiu seu papel nesta crise não foram eles. Às vozes que pediram intervenção militar, o general Sérgio Etchegoyen deu a resposta perfeita: “isso é coisa do século passado".

O que é deste século e apareceu no movimento foi a dispersão de lideranças organizadas no mundo digital. Fortalecido pela dependência do país ao transporte rodoviário de carga, o movimento passou a ter inúmeros líderes que organizavam seus grupos através dos aplicativos de mensagem. Um dos ministros com quem conversei nestes dias me disse que o governo não estava preparado para este movimento digital. Os governos, como se sabem, ainda são analógicos.

Por várias razões esta foi a pior das greves do transporte de carga que o país já teve. Houve uma em 1999, à qual o governo Fernando Henrique cedeu no quarto dia, depois de ter subestimado sua força no primeiro dia. Houve duas contra o governo Dilma em momentos de sua fragilidade, em 2013 e 2015. O atual é um governo impopular, nos últimos meses do seu período no Planalto e que demostrou medo dos grevistas. Uma coisa é o diálogo sobre o qual o ministro Eliseu Padilha tanto falou. Ele é bem-vindo na democracia. Outra coisa é a tibieza que o governo mostrou em vários momentos. Nesse ambiente os grevistas cresceram e aumentaram exigências.

Era previsível que aparecessem infiltrações, radicalizações, oportunismo político e enfrentamento violento no final de um movimento tão intenso quanto esse. O governo também deveria ter se preparado para este momento.

Temer no Planalto já é quase passado. Os candidatos apareceram e deram declarações em geral confusas ou superficiais sobre o que estava acontecendo. Esta greve mostrou que o país tem extremas fragilidades. É preciso se preparar para reduzir essa vulnerabilidade.

Chegou a fatura

Celso Ming
O Estado de S.Paulo

Grupos econômicos, corporações, entidades de classe e até igrejas conseguem empurrar à sociedade suas contas de consumo

Os prejuízos da greve dos caminhoneiros são incomensuráveis, como se viu. Se ao menos servissem para dar mais consciência ao brasileiro de que subsídios generalizados são uma peste já teria sido bom preço a pagar. Caminhoneiro adorou quando o governo Dilma deu incentivos tributários e creditícios para a compra de caminhões. Graças a mais esse pacote de bondades, de 2009 até agora a frota cresceu 40%, enquanto a economia avançou apenas 11%. O frete despencou porque teve mais caminhão do que carga a transportar. Os irmãos de estrada não aguentaram o tranco, puseram o governo Temer de joelhos e, agora, boa parte dessa conta é empurrada para o contribuinte.

Essa foi apenas uma entre inúmeras distorções que se criaram na economia brasileira nos dois últimos governos. A exigência de que a Petrobrás pagasse boa parte da fatura do consumidor de combustíveis, também ao longo do governo Dilma, foi outra dessas distorções que ajudaram a afundar o caixa da empresa e a destruir patrimônio público que, aliás, já vinha sendo dilapidado pela corrupção, como mostraram o mensalão e o petrolão.

Os caminhoneiros acham natural exigir que os preços do diesel sejam subsidiados e previsíveis com meses de antecedência, embora seu custo seja determinado pelos preços internacionais do petróleo em dólares, que também oscilam diariamente. Querem porque querem que a conta seja empurrada para a frente. E nisso, não estão sozinhos. O limitado governador de São Paulo da hora, Márcio França, também pensa assim.

Os empresários também gostaram quando o governo Dilma passou a desonerar as folhas de pagamentos. A proposta era de que mais investimentos fossem realizados e mais empregos fossem criados. O resultado foi nenhum investimento adicional, nenhum outro emprego e novo rombo no Tesouro, que teve de enfrentar uma renúncia tributária de R$ 85,7 bilhões entre 2012 e 2017. Agora, boa parte das desonerações foi revertida por decretos do presidente Temer publicados nesta quinta-feira para pagar parte das concessões aos caminhoneiros. Ou seja, tenta-se corrigir uma distorção com a reversão de outra. Assim, a distorção continua.

Os empresários também adoraram quando o governo Dilma repassou meio bilhão de reais do Tesouro para o BNDES para que este financiasse com créditos subsidiados o desenvolvimento das empresas destinadas a serem campeões nacionais. Boa parte delas fez lambança com esses recursos, algumas delas quebraram como o grupo de Eike Batista e, como parte da equação, a dívida bruta vai para 80% do PIB.

Não há nada de especialmente errado nem com subsídios nem com isenções tributárias. Podem fazer parte de qualquer política saudável, desde que sejam transparentes e garantidos por receitas orçamentárias.

O problema de fundo é mais do que sabido, embora não reconhecido pelos beneficiários das benesses. Grupos econômicos, corporações, entidades de classe e até igrejas particulares conseguem empurrar para a sociedade suas contas de consumo. Para isso, querem um Estado perdulário para eles próprios e que o contribuinte assuma a conta. Além de que não há o que chegue, a distorção final é uma sucessão de governos fracos.

Nem tudo ao céu, nem à terra

José Paulo Kupfer 
O Globo

A crise dos caminhões expôs espanto generalizado diante de seus devastadores impactos e da dificuldade de encontrar saídas para problemas complexos

Bocas abertas e olhos arregalados foram a contrapartida de abundância no cenário de escassez — de combustíveis, alimentos, serviços e tudo o mais que compõe a vida organizada de uma sociedade — promovido pela greve do setor de transporte de carga rodoviária. O espanto e as surpresas com os acontecimentos que impuseram virtual colapso a inúmeras atividades não se limitaram, contudo, a seus devastadores impactos sobre a rotina das pessoas. Atitudes, diagnósticos e propostas de solução para a crise aguda também causaram perplexidade.

Da mesma forma que, para cada problema complexo existe sempre uma solução simples e equivocada, pode-se concluir que, no caso da paralisação dos caminhões, é possível produzir infinitas explicações aparentemente críveis, mas, em geral, distantes da realidade. Uma delas é a de que as coisas seriam diferentes se, em lugar das estradas de rodagem, os governos da segunda metade do século passado para cá tivessem optado pela ênfase nas ferrovias.

Não há dúvida de que a opção pelo rodoviarismo privou a economia dos ganhos de escala e eficiência do sistema ferroviário, ainda mais quando se está falando de um país de dimensões continentais. Mas os evidentes ganhos dos trens — também das hidrovias e da cabotagem — não diminuiriam a dependência da carga transportada sobre rodas.

São caminhões — não trens ou barcos — que ligam, por exemplo, a produção integrada de leite e frango e se encarregam de chegar aos postos de combustíveis, supermercados, hospitais e farmácias. Como ocorre nos países com amplas malhas ferroviárias da Europa, além dos Estados Unidos e do Japão, o desabastecimento é inevitável quando eles param.

Outra explicação simples e bastante difundida das razões para a crise dos caminhoneiros remete ao estímulo pretensamente excessivo, com crédito barato e farto, no governo Dilma, à compra de caminhões. O “excesso” de veículos de carga teria contribuído para derrubar o preço dos fretes e corroer a margem dos transportadores. Difícil entender como é possível culpar uma política que promove redução nos preços de um importante componente dos custos de produção. Ainda mais quando se fazia necessário renovar uma frota na qual um em cada cinco veículos circulava com mais de 20 anos de idade.

Melhor diagnóstico fez o ex-ministro do Planejamento Dyogo Oliveira, agora presidente do BNDES: “Não há caminhões demais, mas crescimento de menos”, resumiu ele. Mas, se o baixo crescimento está no centro da crise do transporte rodoviário de carga, a raiz do problema pode ser localizada na política de preços adotada no segundo semestre do ano passado pela Petrobras. Não por coincidência, foi ela o estopim da paralisação e de um infindável Fla X Flu de palpites a respeito do seu acerto ou equívoco.

Aqui, novamente, é grande o risco de encontrar respostas simples e erradas para um problema complexo. Não há incompatibilidade entre a preservação das margens da Petrobras e uma política de preços que leve em conta o fato de que os operadores de carga rodoviária trabalham com contratos de prazo fixo, não podendo ficar expostos a variações frequentes dos preços de seu insumo básico.

Por isso mesmo, à luz da experiência internacional, do caráter estratégico do setor de petróleo e ainda mais da posição híbrida da Petrobras — é empresa estatal, detentora de monopólio em partes da cadeia de produção, mas com acionistas privados e competidora em diversos mercados —, é lícito dizer que a política de preços adotada, embrulhada em alta dose de insensibilidade política, não tinha como ficar de pé.

Basta trocar petróleo por taxa de câmbio e caminhoneiros por exportadores/importadores para entender o ponto. Quando a volatilidade aumenta no mercado cambial, o Banco Central atua com diversos instrumentos para suavizar a gangorra da taxa de câmbio. Em analogia, o próprio mercado financeiro poderia criar um instrumento de hedge — algo como um “swap combustível” — que possa ser contratado por transportadores.

No Chile, o cobre é taxado para formar fundos de estabilização e na Noruega os roylaties do petróleo mitigam as variações de preços. Nos Estados Unidos, desde 1973, quando eclodiu a primeira crise do petróleo, transportadores e clientes negociam sobretaxas flexíveis em seus contratos para harmonizar altas e baixas nas preços dos combustíveis. Aqui, onde o costume é brigar por tudo ao céu ou tudo à terra, faltaram filtros e amortecedores, sob a forma de fundos específicos, para conectar e compatibilizar as partes.


José Paulo Kupfer é jornalista

O cartel que joga contra o País

Ary Filgueira25
Revista ISTOÉ

Por trás dos exorbitantes preços dos combustíveis há um conluio entre as três maiores distribuidoras, donas de 70% do mercado, que impede o alívio no bolso do consumidor. Agora, a Agência Nacional do Petróleo tem a oportunidade histórica de acabar com a farra

(Crédito: Felipe Dana)
JOGO COMBINADO 
A BR Distribuidora, a Raízen/Shell e a Ipiranga pressionam 
para que a ANP retome resolução que os beneficiam 

A greve dos caminhoneiros mudou a rotina do brasileiro nas últimas semanas, que passou boa parte do dia em fila, com galão na mão à procura de algum posto para lhe vender uns míseros litros de gasolina. O governo, por sua vez, para convencer a categoria a retornar o trabalho, ofereceu descontos generosos na forma de tributação sobre o óleo diesel e, até mesmo, na isenção total de impostos que incidem sobre o produto. Mas as medidas para conter a alta do preço do combustível serão inócuas se não for atacado um problema que corre a céu aberto e à vista da fiscalização: o cartel composto pelas três grandes distribuidoras que dominam o mercado. São elas, a BR Distribuidora, a Raízen/Shell e a Ipiranga. Enquanto elas ditarem o valor cobrado pelo litro que irriga as bombas dos postos, tão cedo o consumidor não sentirá um alívio no bolso. A questão é como mudar essa lógica deletéria se a própria Agência Nacional do Petróleo (ANP), em determinados momentos, tem transigido com o conluio que deu carta branca para as três bandeiras operarem ao sabor de suas conveniências.

A pressão contra o livre mercado

Em 2008, um lobby pesado do Sindicato Nacional das Empresas de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom) junto ao então diretor da ANP, Haroldo Borges Rodrigues Lima, nomeado pelo ex-presidente Lula, hoje preso, fez uma modificação numa estratégica resolução do Ministério de Minas e Energia. Até então, ela garantia aos postos de gasolina escolher de qual distribuidora comprar combustível. Cabia a eles apenas informar na bomba o fornecedor do produto. Assim, poderiam comprar da distribuidora que oferecesse o menor preço, o que barateava o valor final para o consumidor. Com o cavalo de pau na regra, ficou vedada a comercialização de combustíveis automotivos com revendedor varejista, que optou por exibir a marca comercial de outro distribuidor. Na prática, passou a funcionar assim: um posto com o slogan da BR Distribuidora, Raízen/Shell e Ipiranga ficou impedido de comprar combustível de uma distribuidora de bandeira branca. Somente da marca que estampa em sua fachada. Mesmo que o preço do litro dos fornecedores de bandeira branca seja bem mais barato. Com a medida, as grandes distribuidoras, detentoras de 70% de todo o combustível comercializado no País, conseguiram fidelizar 24 mil postos. Dessa forma, mais que dobraram seu faturamento em dez anos, saltando de R$ 78 bilhões em 2007 para R$ 219 bilhões no ano passado. Pior para você, consumidor.

Bom senso da ANP

Com a greve dos caminhoneiros, foi dado o primeiro passo para livrar os empresários do setor de postos das amarras impostas pelas três gigantes do setor de distribuição de diesel e gasolina. Numa iniciativa de raro bom senso, a ANP resolveu suspender em caráter excepcional, ou seja, temporário, a vinculação de marca para vendas de distribuidoras de combustíveis líquidos. O despacho foi assinado pelo diretor-geral substituto da agência, José Cesário Cecchi. Agora, a ANP tem em mãos a oportunidade histórica de corrigir um equívoco de uma década, ou seja, a partir da retomada e da normalização do abastecimento de combustível no País, tornar permanente uma medida que jamais deveria se constituir uma exceção. Em nota enviada à ISTOÉ, a agência se esforça para descaracterizar o “conluio”, o qual com veemência diz não existir, mas admite que os postos bandeirados de fato se comprometem em contrato a comprar combustíveis apenas da distribuidora a que se vincularem. A ANP admite ainda “estudar” a possibilidade de permitir, de maneira definitiva, que os postos de gasolina escolham de qual distribuidora comprar combustível. As três grandes distribuidoras do produto, a BR Distribuidora, Raízen/Shell e Ipiranga, agora reunidas na Associação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Lubrificantes, Logística e Conveniência (Plural), ameaçam reagir. Há até canelada muito abaixo da linha da cintura: representantes das empresas espalham que podem até processar diretores da ANP envolvidos na decisão de alterar a regra que os beneficiam. Jogo baixo, muito baixo. Que a Agência Nacional do Petróleo não repita 2008 e – de novo – dobre os joelhos, em detrimento do consumidor. A sociedade está atenta.

Os “intervencionistas”

Eduardo Gonçalves e Edoardo Ghirotto
Revista VEJA

Quem são, de onde vêm e a quem estão ligados os que aproveitaram a greve dos caminhoneiros para pedir a volta do regime militar

(Fábio Motta/Estadão Conteúdo)
CANSADOS, PUÍDOS E COOPTADOS – 
Assediados por intervencionistas, grevistas batem continência a militares... 

Não faz muito tempo, intervencionista era a palavra preferida de cientistas políticos e economistas para sintetizar o agônico governo de Dilma Rousseff, que intervinha no câmbio, nos preços dos combustíveis, nos juros e tudo o mais que ousasse oscilar na direção contrária à vontade presidencial. A greve dos caminhoneiros emprestou novo sentido ao termo. Durante os nove dias que durou a paralisação, ele foi usado para identificar grupos que — presencialmente, nas estradas, ou virtualmente, pelas redes sociais — defenderam a “intervenção militar” no governo, eufemismo para “golpe”, dado que não se trata de coisa prevista na Constituição. Os intervencionistas já haviam feito algum alarido em 2015, durante as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, quando surgiram os primeiros grupos de WhatsApp destinados a demonizar políticos e enaltecer generais. Desta vez, porém, a estridência do discurso foi amplificada pela diluição de lideranças entre os caminhoneiros e pelo fato de nenhum movimento organizado ter apadrinhado a paralisação. A categoria não é filiada à Central Única dos Trabalhadores (CUT) nem recebeu apoio de outras agremiações como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou Vem pra Rua. Dessa forma, os intervencionistas encontraram uma avenida livre para trafegar — e aproveitaram.


(Andre Penner/AP)
…e pintam na Régis Bittencourt um “pedido de ajuda” às Forças Armadas, 
que condenaram publicamente a ideia do golpe 

Nas estradas, espalharam faixas, cartazes e farta doutrinação. Nas redes sociais, inundaram os grupos de WhatsApp com uma profusão de postagens falsas, incluindo as que atribuíam a generais do Exército mensagens de que os militares estavam perto de tomar o poder. “Avisem a todos que quem não colocar a faixa de apoio à intervenção poderá ser preso pela Polícia Rodoviária Federal”, dizia uma delas.

Hoje, somados, os maiores grupos de intervencionistas no Facebook chegam a reunir mais de 600 000 integrantes — uma insignificância quantitativa quando se pensa que a cantora Anitta tem 13 milhões de seguidores. Mas a popularidade das redes sociais entre os caminhoneiros — que organizaram a greve basicamente por WhatsApp — e o senso de oportunidade dos grupos intervencionistas anabolizaram a repercussão da grita pela “volta do regime militar”. Segundo o Monitor do Debate Político no Meio Digital, coordenado pelo professor da Universidade de São Paulo Pablo Ortellado, das dez postagens sobre o tema “intervenção” mais populares no Facebook em 29 de maio, oito eram favoráveis aos militares. Juntas, tiveram mais de 1,8 milhão de visualizações e 112 mil compartilhamentos.

No ápice da greve, a maior rodovia pavimentada de São Paulo, a BR-116, que liga a Região Sul à Nordeste, chegou a ter mais de 100 pontos de bloqueio. No trecho que conecta São Paulo a Curitiba, o da Regis Bittencourt, eram cinco. Algumas concentrações se estendiam por mais de 3 quilômetros e chegavam a reunir mais de 1 000 caminhões enfileirados no acostamento. Já acostumados a ficar longos dias longe de casa, os caminhoneiros esticavam redes e varais de uma carreta a outra, montavam mesas para jogar carteado e dominó e colocavam cadeiras de praia na beira da estrada. Era nesse ambiente que recebiam a visita dos grupos intervencionistas, munidos de agrados como panelas cheias de arroz de carreteiro e carnes para churrasco.

O empresário Carlos Carvalho Júnior, por exemplo, que mora em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, administra dois grupos no Facebook pró-militares — Grupo Intervenção Militar – 2014, com 49 000 membros, e Acorda Brasil, com 28 000. Ele disse ter juntado turmas de até trinta pessoas para levar alimentos e faixas até os bloqueios. “Tudo pago do nosso bolso.” Ao chegarem ao local, distribuíam os presentes e partiam para as tentativas de cooptação. “Aos que não sabiam o que era intervenção, a gente explicava e eles acabavam concordando. A ideia é fazer uma nova ordem, estabelecer um tribunal militar, que é mais eficiente, e afastar os políticos corruptos”, diz. Em um bloqueio na cidade de Paranaguá (PR), o doutrinador era o caminhoneiro Nilsson Carlos Aimi, 52 anos, intervencionista de longa data. Churrasqueiro do acampamento, espeto na mão, dizia crer na intervenção como a única forma de “pôr todos os corruptos na cadeia”, armar a população e acabar com o governo que ele considera “comunista”. O termo comunista costuma ser usado por intervencionistas para descrever todo aquele que discorda da ideia do golpe. Fazem parte desse conjunto desde o líder do MBL Kim Kataguiri até o comandante-geral do Exército, o general Eduardo Villas Bôas.

(Emiliano Capozoli/.)
FÃ DA FARDA – 
Membro de uma família de caminhoneiros, Nilsson Aimi acredita
 que militares poriam “imediatamente todos os corruptos na cadeia
”, liberariam o uso de armas pela população e livrariam o Brasil 
do regime “comunista” supostamente em vigor 

No início da semana, diante da velocidade de disseminação das informações falsas aspergidas pelos intervencionistas, o comando do Exército despachou seus generais para declarar em uníssono que a instituição condenava a ideia. Até mesmo o incendiário general Hamilton Mourão, hoje na reserva, criticou as investidas golpistas. “O país não tem de ser tutelado pelas Forças Armadas”, disse ao site de VEJA. A marcha da insensatez avançou a ponto de trazer à razão inclusive o presidenciável Jair Bolsonaro. “Se tiverem de voltar (os militares), que voltem pelo voto”, disse o capitão da reserva.

A concertação de desmentidos, no entanto, nem sempre chegou aos seus principais destinatários, os caminhoneiros. No último dia da greve, em um acampamento próximo ao Porto de Paranaguá, um deles fez cara de espanto quando foi avisado por um policial rodoviário federal de que a paralisação havia terminado e que os áudios que ele acabara de escutar pelo celular — entre eles uma falsa mensagem do general Villas Bôas que advertia que o governo Temer seria destituído — não passavam de fake news.

O caminhoneiro, como a grande maioria de seus colegas de profissão, passou todo o período da paralisação informando-se unicamente através de sites não profissionais e grupos de WhatsApp. Em Jacupiranga (SP), o pastor Flavio de Oliveira Cândido, de uma igreja batista que fornecia alimentação diária aos caminhoneiros estacionados na região, disse ter mantido a TV desligada durante todo o tempo em que recebeu os grevistas por medo de eles “se revoltarem com as notícias desfavoráveis” ao movimento. Os motoristas, portanto, só se atualizavam por meio de mensagens de apoio.

Nem a restrição de informações, porém, impediu que, no fim da greve, os próprios intervencionistas admitissem o insucesso na tentativa de obter apoio à sua causa. Frustrado, Carvalho Júnior, o administrador de grupos pró-militares de Porto Alegre, reconheceu: “Há muito desinteresse da parte dos militares”.

Ao contrário do que ocorreu em abril, às vésperas do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do habeas-corpus em favor do ex-presidente Lula, desta vez nenhum segmento do Exército se deixou inflamar pelas demandas golpistas. Naquela ocasião, a possibilidade de o voto da ministra Rosa Weber resultar na não prisão do ex-presidente acirrou a tal ponto os ânimos entre alguns generais da reserva e jovens oficiais apoiadores de Bolsonaro que o comandante Villas Bôas decidiu agir para serenar os ânimos. Com o conhecimento do governo, ele postou um tuíte em que dizia que “o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição” e estava “atento às suas missões institucionais”. O texto teve ampla repercussão e também provocou reações indignadas. O decano no STF, ministro Celso de Mello, chegou a dizer que “insurgências de natureza pretoriana descaracterizam a legitimidade do poder civil instituído e fragilizam as instituições democráticas”. Na ocasião, um general do alto-comando do Exército disse a VEJA sob condição de anonimato que a não publicação do tuíte pelo comandante provocaria consequências “bem piores”. A postagem teria sido a única maneira de, nas palavras do general, aplacar os ânimos da “horda de hunos” que ameaçava se movimentar naquele momento. Desta vez, porém, a ressonância dos gritos golpistas nas fileiras do Exército foi zero — o que deve contribuir para que a palavra intervencionista, também em sua nova acepção, volte em breve ao merecido esquecimento.

Com reportagem de Victória Serafim


Publicado em VEJA de 6 de junho de 2018, edição nº 2585