quinta-feira, setembro 18, 2008

Quando a mistificação não resiste estatística séria

Adelson Elias Vasconcellos

Sempre sou confrontado em relação a minha posição conceitual sobre o governo Lula. Apesar das maravilhas contadas e cantadas em verso e prosa pela publicidade oficial, além, como convém a alguns, de enaltecidas pela imprensa genuflexa, aquela que sobrevive sem leitores mas se sustenta com verbas estatais generosas, e apesar, ainda, dos 64% de aprovação popular, continuo vendo este governo de outro modo.

Senão, vejamos: no que é aplaudido e aprovado, convenhamos, de bom mesmo tivemos apenas a continuidade. Qual a base que sustenta tanta aprovação? Programas sociais e estabilidade econômica, correto? Pois, bem, a estabilidade foi conseguida graças a um conjunto de medidas e ações, implementadas no governo anterior, muitas das quais tremendamente impopulares, mas todas condenadas pelo atual governo que se opôs tenazmente afirmando que todas estavam destinadas ao fracasso. E só não se avançou mais em razão da oposição levada a efeito pela bancada petista e seus seguidores de aluguel. Mas o básico foi conseguido, e a meta foi alcançada. A partir daí, e estritamente no plano econômico, não se avançou mais.

Quanto aos programas sociais, é só voltar no passado e concluir que, quem de fato implementou uma rede de proteção social fazendo jus ao nome, foi o governo anterior, através do Comunidade Solidária, comandada pela falecida Ruth Cardoso, esposa de FHC. O governo atual apenas reuniu os programas sociais existentes ao abrigo de apenas um, mudou-lhe o nome e, irresponsavelmente ampliou sem garantias e sem objetividade alguma, a não ser a garantia do voto a favor.

Contudo, e isto afirmei aqui há dois dias atrás, os campos em que o país avançou no período 1995-2002, e que precisavam ser consolidados, como educação, saúde e segurança, não há como negar que regredimos. Do ponto de vista que se analisar, esta é uma constatação irrefutável. E reparem: foram as áreas para as quais o governo pode contar com abundância de recursos, além de programas convenientemente implantados e que precisavam apenas de continuidade e ajustes pontuais. Contudo, tentando fazer terra arrasada do governo anterior, Lula atrasou o progresso destas três áreas e ainda não conseguiu mostrar resultados sequer satisfatórios.

E isto fica muito claro quando uma estatística mais ou menos séria se debruça sobre indicadores que propaganda alguma consegue mascarar. Observem este conjunto de dados:

* Brasil está atrás de Bolívia e Suriname nas taxas de analfabetismo
As taxas de analfabetismo no País registraram queda de 0,4% em 2007, segundo dados divulgados hoje pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad). Mesmo assim, com 10% de analfabetos (14,1 milhões de pessoas) em sua população de mais de 15 anos, o Brasil segue atrás de outros países da América Latina, como Bolívia (9,7%), Suriname (9,6%) e Paraguai (6,3%), estando ainda muito longe dos níveis de alfabetização da vizinha Argentina (2,4%).

Há uma grande variação entre os números registrados nas diferentes regiões do País. Enquanto a região Sul tem 5,4% de sua população com mais de 15 anos analfabeta, o Nordeste chega a 19,9%. A taxa de analfabetismo da região Sudeste é de 5,7%, enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste atingem 10,8% e 8,1%, respectivamente.

* Banda larga do Brasil é uma das piores do mundo, diz estudo
Segundo estudo das Universidades de Oxford e Oviedo, o Brasil está em 38º lugar na qualidade de internet banda larga entre 42 países avaliados. O país ficou à frente apenas de China, Índia, Chipre e México. O Japão faturou o primeiro lugar. "O Brasil está pior do que a gente gostaria", disse Pedro Ripper, presidente da Cisco do Brasil, empresa que encomendou a pesquisa.O estudo considerou as velocidades de download, upload (envio de dados) e a latência (tempo que um pacote de dados leva da fonte ao seu destino) nas conexões de internet dos países. O preço e a densidade de usuários não foram levados em conta.

* Trabalhador brasileiro está mais qualificado, mas ganhando menos
No ano passado, o trabalhador brasileiro estava mais qualificado mas ainda ganhava menos do que em 1997, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2007 (Pnad 2007) do IBGE. De 2006 para 2007 caiu a parcela dos trabalhadores ocupados que estudaram até sete anos e aumentou o percentual de pessoas que estudaram de oito e dez anos (+5,4%) e 11 anos ou mais (+ 5,9%). No entanto, mesmo com aumento da escolaridade, o rendimento médio mensal do trabalhador em 2007 ainda é menor do que era em 1997: diminuiu de R$ 1011 para R$ 960 no período. Mesmo assim, o resultado observado no ano passado ainda apresentou o maior ganho médio desde 1999. Na comparação 2007/2006, o rendimento das pessoas ocupadas cresceu 3,2%.


* Brasil tolera violência policial, diz ONU
Relatório da ONU divulgado ontem ataca as políticas de segurança do Brasil e chama a atenção para a violência policial e "as execuções extrajudiciais" no país, que, diz o estudo, tem um dos índices de homicídios mais altos do mundo.

O relator Philip Alston, autor do documento, inspecionou o Brasil por dez dias em novembro de 2007, quando esteve com autoridades e ativistas e visitou favelas e presídios. Sua conclusão é a de que a violência policial é tolerada pelos governantes e por boa parte da população. Sua principal crítica é em relação às mortes de pessoas já rendidas por policiais. "O assassinato não é uma técnica aceitável nem eficaz de controle do crime", condena Alston.

Alston aponta ainda que o Brasil não evoluiu desde o último relatório, de 2004. Naquela época, segundo o relatório, o índice de homicídios estava "entre 45 e 50 mil por ano", como atualmente [dados do governo federal, divulgados em janeiro deste ano, indicam que o total de homicídios no país caiu 5,11% em 2004, 1,65% em 2005 e 1,93% em 2006, sempre em relação ao ano anterior].

Também afirma, a exemplo do estudo anterior, que hoje grande parte dos assassinatos é cometida por policiais. "No Rio de Janeiro, a polícia mata três pessoas por dia", diz Alston. "Eles são responsáveis por um em cada cinco assassinatos."

Para o relator, há pouco alarme público em relação à violência policial porque a maioria admite que a lei é pouco para combater o crime. O principal motivo para que muitos policiais se envolvam em milícias ou esquadrões da morte é o baixo salário, conclui o relatório.

Quanto à saúde, bem, está a vista de todos: total descalabro. Enquanto este governo nos campos acima não produzir resultados positivos, não me venham com “índices de aprovação”. E, melhor faria o governo Lula se, ao invés de torrar tanto dinheiro público em propaganda mentirosa, o investisse nas escolas caindo aos pedaços ou para colocar em funcionamento hospitais já prontos porém parados por falta de recursos. Aliás, neste campo, até hoje o governo não prestou contas ao país dos R$ 150 bilhões arrecadados a título de CPMF durante cinco anos e que deveriam ir para a saúde !

Por fim, e por favor, parem com esta cascata asquerosa e humilhante de considerar como de “classe média” o cidadão que ganha três salários mínimos por mês. Baixar o padrão salarial para “engordar” a categoria, convenhamos, é sacanagem pura. Já chega que os trabalhadores, conforme a própria estatística do IBGE demonstra acima, ainda estão abaixo da renda média de 11 anos atrás!
E já nem entro no mérito do grande atraso institucional, esta de exclusiva lavra de Lula e seu camburão de lavradazes petistas. É atraso que, para ser recuperado, consumirá de duas a tres décadas, pelo menos.

Assim, não posso aplaudir um governo que, no que tem de positivo para mostrar, recebeu pronto e embalado, e cinicamente se exibe cumprimentando com o chapéu alheio. E, no que tinha a obrigação de evoluir, andou ao ritmo de caranguejo.
Portanto, marquem aí: faço parte da minoria que gira em torno de pouco mais de 10% que lascou ruim ou péssimo. Nem sempre pertencer a minoria, remando contra a corrente, significou burrice. Até pelo contrário...

Palpite imprudente

Editorial Folha de São Paulo

A crise boliviana dá sinais de enfraquecimento enquanto avançam as frágeis negociações entre o presidente Evo Morales e os governadores oposicionistas. A pauta do primeiro encontro, marcado para ontem, incluía levante de bloqueios e desocupação de prédios oficiais, além de temas como autonomia dos departamentos e divisão dos recursos do gás.

A diplomacia brasileira atua bem até o momento; oferece ajuda sem, no entanto, imiscuir-se num assunto interno da Bolívia. Na reunião de governantes sul-americanos de segunda-feira, em Santiago, Brasília condicionou qualquer iniciativa de mediação internacional a um pedido do presidente boliviano, sem apontar soluções para os temas em disputa. Prestigiou-se a tradição brasileira de não-ingerência.

O presidente Lula, no entanto, escorregou ao comentar, anteontem, a expulsão do embaixador dos EUA da Bolívia, acusado de conspirar com a oposição. Ainda que o apoio de Lula à atitude de Morales tenha ficado no condicional -"no caso de o embaixador ter manifestado ingerência nos assuntos do país"-, foi uma declaração infeliz, em desacordo com a neutralidade que o Brasil persegue.

Em diplomacia, palavras importam -e as autoridades brasileiras deveriam medir muito bem todas as suas antes de referir-se à crise boliviana. O assunto da expulsão do embaixador americano diz respeito apenas à Bolívia e aos Estados Unidos.

Bravatas intervencionistas não são novidade em se tratando do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que ameaçou mandar armas para a Bolívia e entrou em altercações com o chefe das Forças Armadas bolivianas. Já de Lula se espera que mantenha o distanciamento não apenas nos atos da diplomacia, mas também nas manifestações públicas.

Uso da terra e produção agropecuária

André Meloni Nassar, Estadão online

Dos diversos temas ligados ao meio ambiente que vêm ganhando relevância na sociedade brasileira, o que mais atinge a produção agropecuária e silvícola é a questão do uso da terra. Mesmo no Brasil, país privilegiado em disponibilidade de terras para produção e conservação, não se pode negar que a terra é um recurso escasso. Essa parece ser a razão imediata que justifica por que a mudança do uso da terra, provocada pela expansão da produção agrícola e de florestas plantadas, passou a ser critério de avaliação de sustentabilidade de ambos os setores. A boa notícia é que há tempos o tema deixou de ser visto como tabu pelas diferentes cadeias produtivas.

O debate sobre uso da terra ganhou importância porque a agropecuária - englobando as áreas ocupadas com lavouras anuais, permanentes e pastagens - e a produção florestal são os setores produtivos que demandam os maiores volumes de terra no País. Na realidade, a agropecuária e as florestas plantadas ocupam, juntas, uma parcela do território brasileiro menor que a ocupada por formas não-produtivas de uso, como reservas indígenas e unidades de conservação. Partindo de um ponto de vista essencialmente ambiental, essas atividades produtivas respondem a fatores de mercado e, por isso, seguiriam na direção contrária da necessidade de conservar e preservar as florestas, a biodiversidade e a paisagem natural, que são formas de ocupação do solo de baixo custo de oportunidade. A conversão de paisagens naturais em produção agropecuária ou florestal - sem se preocupar ainda com que tipo de atividade é o carro-chefe do processo - é vista com importância ainda maior quando se trata do bioma Amazônia.

Mas não é apenas o tema da conversão de terras virgens em áreas produtivas que está em jogo. Por particularidades da legislação ambiental brasileira, os produtores agrícolas e de florestas carregam um não desprezível passivo de reserva legal e, ainda que de menor intensidade, de áreas de preservação permanente. Apesar dos inúmeros questionamentos jurídicos que pairam sobre o Código Florestal de 1965, emendado a última vez via medida provisória em 2001, a legislação ambiental traz ao produtor, proprietário ou possuidor da terra a obrigação de preservar.

No entanto, além das exigências impostas sobre as áreas já abertas, a expansão da produção sobre novas áreas também está sob crítica, seja porque desmatar se transformou em atividade não aceita no Brasil e no exterior, seja porque grande parte das áreas virgens se encontra resguardada na forma de unidades de conservação, reservas indígenas, etc. A defesa legítima de que o setor produtivo deve contribuir com sua parcela para a conservação, aliada a pressões não necessariamente defensáveis do ponto de vista legal contra a possibilidade de expansão das áreas produtivas, cria um ambiente não saudável de competição e disputa entre produção agropecuária e florestal e preservação ambiental.

As conexões entre uso da terra e produção agrícola e florestal se dão, dessa forma, em duas vertentes: 1) Com a contribuição da expansão da produção para o desmatamento, sobretudo nas regiões do bioma Amazônia; e 2) na necessidade de o setor produtivo zerar seu passivo ambiental recuperando, ou compensando, o que seria mais racional, áreas de preservação permanente e de reserva legal nas terras que já são usadas de forma produtiva. Enquanto a segunda abordagem tem caráter mais doméstico, porque se refere à legislação ambiental brasileira, a primeira é fortemente influenciada pelo ambiente internacional. Isso ocorre não somente porque a questão do desmatamento está umbilicalmente conectada com a emissão de gases do efeito estufa, mas porque o desmatamento tem sido usado externamente como argumento para tentar minar as indiscutíveis vantagens do etanol brasileiro feito de cana-de-açúcar ante seus concorrentes.

Dado que ainda não existem registros de que a expansão da produção de cana-de-açúcar provoque desmatamento, uma vez que a cultura cresce basicamente em áreas já ocupadas por pastos e lavouras, foi criado o conceito do efeito do uso indireto da terra. A necessidade de quantificação desse efeito indireto faz parte das legislações européia e norte-americana para biocombustíveis. A idéia do efeito indireto - e é preciso lembrar que ele não se aplica apenas ao caso do etanol brasileiro - diz que é preciso contabilizar no balanço de carbono a quantidade equivalente emitida pelo desmatamento causado indiretamente pela expansão da matéria-prima de base agrícola utilizada na produção do biocombustível. Para nós, brasileiros, essa discussão soa um pouco surreal. Por enquanto, até que alguma metodologia de cálculo seja desenvolvida e amplamente testada e aceita, ela realmente é.

Não há dúvida que o tema do uso da terra foi jogado nas costas dos setores agrícola e florestal como um passivo. No entanto, políticas que estimulem um equilíbrio aceitável entre produção e preservação ambiental podem alterar os sinais do resultado desta equação. Essas políticas passam pela busca de formas inovadoras de compensação das exigências de reserva legal que não inibam novos investimentos no setor agrícola e florestal. Isso é importante porque um país como o Brasil não se pode dar ao luxo de investir menos em produção de alimentos, etanol e produtos florestais. Passam também pelo estabelecimento de sistemas de zoneamento que garantam credibilidade e confiança, sobretudo fora do Brasil, em que a incorporação de novas terras para agropecuária e florestas plantadas se dará equilibrando as necessidades de produção e de conservação. E, por fim, pela criação de mecanismos que estimulem intensos ganhos de produtividade na pecuária, sobretudo nos pastos que são conversíveis para produção agrícola e silvícola, evitando, assim, que o crescimento futuro do rebanho se traduza em novos desmatamentos.

A oposição não sabe onde o galo canta

José Nêumanne, Estadão online

Diz o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que "a oposição foi revogada, saiu da moda". O reconhecimento prévio do malogro neste ano eleitoral reproduz, com exatidão e sinceridade, a situação política esdrúxula que o País vive. E também ajuda a explicar tal fiasco, pois a autocondenação à morte mostra que o prócer, a exemplo dos colegas de bancada, sabe que o galo canta, mas não tem idéia de onde fica o poleiro do qual todo dia este saúda o Sol. O desabafo de Guerra traduz desalento e é também uma confissão de impotência, que resulta da própria incompetência, não apenas para combater o fenômeno que a tirou de moda, mas também para compreender a cena política, condição básica para que a partir de tal compreensão se esbocem as linhas-mestras para enfrentar e resolver o problema. A maior tragédia da oposição brasileira hoje não é a eficiência do governo, mas a própria ineficiência para perceber e atuar.

O patamar a que galgou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - de 64% de popularidade, segundo a última pesquisa Datafolha - não pode ser produto apenas de sua inegável sorte: resulta também de sua capacidade rara de se comunicar com os segmentos mais pobres e numerosos da população. Para isso usa a própria vivência e, da mesma forma, recorre a uma intuição admirável. Além da fortuna, a virtude de saber conciliar o levou ao governo depois de três derrotas seguidas em duas disputas contra o tucano Fernando Henrique e outra com o alagoano Fernando Collor. Isso não é inusitado na história política do Brasil independente. À capacidade de dom Pedro II de atender a liberais e conservadores - facilitada pelo fato de que, segundo glosava uma quadrinha popular no século 19, nada mais igual a um saquarema que um luzia no poder, apelidos jocosos dados pelo povo aos grupos que se revezavam no poder no Segundo Império - deveu-se a longevidade de seu reinado. Do talento do gaúcho Getúlio Vargas para reunir grupos na aparência antagônicos sob seu tacão - os latifundiários do PSD com os proletários do PTB - dependeu outra bem-sucedida aliança, tal como a primeira fundida no chumbo em que se imprimia o Diário Oficial: a conciliação pela via da nomeação.
A diferença entre nosso atual caudilho e os modelos históricos aqui lembrados é que ele realizou a primeira conciliação antes de alcançar o poder, ao submeter à disciplina partidária e a seu comando carismático grupos antes irreconciliáveis da esquerda armada, ao lado de lideranças sindicais e líderes da esquerda eclesiástica. Sob o estandarte socialista da mudança de "tudo o que está aí", mas com um discurso conservador na economia, para não afugentar o voto da classe média e da classe operária especializada, ele subiu a rampa do Palácio do Planalto. No poder, mesmo não sendo um profundo conhecedor da história política nacional, aproveitou-se magistralmente das lições dos grandes conciliadores, radicalizando experiências de união nacional que já tinham sido ensaiadas, mas nunca levadas a cabo até o ponto em que ele as praticou. Foi além de Eurico Dutra e do próprio Getúlio, que montaram Gabinetes de união nacional. E conseguiu de antigos adversários políticos aparentemente inconciliáveis - de egressos da ditadura, como Paulo Maluf, José Sarney e Delfim Netto, a fisiológicos notórios, como Severino Cavalcanti, Jader Barbalho e Renan Calheiros - o que negara a Itamar Franco no grande acordo feito na pós-queda da República de Alagoas. De fato, essa mentalidade de mosqueteiros de fancaria ("todos por cada um e ninguém pelo povo") se repete monotonamente nos palácios brasileiros desde a Independência. Mas Lula lhe deu consistência e vigor: Fernando Henrique, seu antecessor também nisso (os quadros de seus dois governos se repetem no atual, numa monotonia enervante), jamais teria estômago para fazer a defesa vigorosa que o presidente faz de políticos e práticas inconfessáveis - de Severino Cavalcanti aos "mensaleiros".

Lula ganhou a primeira eleição prometendo ser diferente dos adversários e a segunda, garantindo que estes eram farinha do mesmo saco onde escondeu seus companheiros apanhados em flagrante em delitos catalogados ao longo de todo o Código Penal. Para isso contou com a ajuda dos opositores, que lhe entregaram as batatas da vitória no instante em que se negaram a sacrificar a cabeça do então presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo (MG), flagrado em crime idêntico aos de que foram acusados "companheiros" do quilate do ex-presidente do PT do presidente José Genoino e de seu principal organizador, José Dirceu. A elite oposicionista, incapaz de enxergar um palmo além dos narizes empoados de seus baluartes, não foi capaz de compreender o fato.

Lula não dormiu sobre os louros do triunfo nas urnas, conseguido pelos próprios méritos e pela incompetência dos adversários: seu oponente, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), conseguiu o feito de ser menos votado no segundo turno que no primeiro. E no segundo governo faz mais do mesmo, ao repetir a fórmula testada e aprovada de encher os cofres dos banqueiros e a barriga dos miseráveis. Essa fórmula mágica, capaz de içar candidaturas municipais do limbo ao topo (como as de João da Costa, no Recife, e Luiz Marinho, em São Bernardo do Campo), produz efeito de avalanche ameaçando sepultar os sonhos oposicionistas de voltar ao Planalto em 2010. Mas, a bem da verdade, Lula nada tem que ver com a lambança de seus adversários Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM), únicos responsáveis pelo oxigênio injetado na candidatura petista de Marta Suplicy no maior município do País. A eleição paulistana prova que a oposição sai da moda por méritos de Lula e deméritos próprios. Doses de adesão alheia e da falta de visão dela mesma é que podem vir a revogá-la.

Nem é oposição nem o partido do governo

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

É compreensível que os dirigentes e demais abrigados na barraca do PT tentem passar para o eleitor que o sortilégio da legenda que curtiu o calvário da oposição conta com o apoio da imensa maioria da população.

Pena que a esperta versão seja metade verdade e a outra banda uma conversa de esperto para enganar os trouxas. Pois, a evidência que passa pelo raciocínio que não fatiga os neurônios é que na bagunça do quadro partidário, em que se encaixa o flagrante da campanha para prefeitos e vereadores, não há oposição com o mínimo de consistência nem o PT é o grande partido que se apresenta como o favorito na maioria das capitais e municípios.

No caso da tresloucada oposição, o seu martirológio começou antes da posse de Lula para o primeiro mandato, em 2002, quando foi montado no Congresso o balcão para a compra e aluguel de votos para a composição da maioria parlamentar – que é acachapante na Câmara e com os seus riscos no Senado, no pobre Senado dos senadores de garupa, que se "elegem" sem um único voto, como suplentes dos verdadeiros donos dos mandatos.

Com a crise ética que assola o Legislativo e contamina os três poderes, caiu a máscara no descaro dos acertos no toma-lá-dá-cá da cooptação do PMDB e dos avulsos que se bandearam em grupos ou no varejo das unidades.

A fragilidade da oposição pode ser conferida no flagrante das rachaduras e contradições da campanha municipal. Minoritária e dividida na sopa de letras das siglas que não se entendem nos Estados e batem cabeça nos municípios, os líderes dos partidos desistiram da elementar providência de fechar em torno de um candidato para evitar os atritos internos. Nem em Minas foi possível carimbar a popularidade do governador Aécio Neves, como a solução natural, enquanto em São Paulo o governador José Serra não se entende com o antecessor Geraldo Alckmin que, por sua vez, mirou no prefeito Gilberto Kassab (DEM), um aliado que virou alvo.

Na largada da campanha para a sucessão de Lula, o instinto de sobrevivência deverá tanger a oposição para o apoio ao candidato único, com os lanhos das brigas internas.

O governo é o presidente Lula, com a popularidade disparando com a velocidade das sondas espaciais para o recorde de 62% de aprovação e a liderança inquestionável sobre o PT e os demais 15 partidos ou filhotes de siglas que desfilam na parada do apoio ao governo. Uma aliança amarrada com todas as embiras dos interesses atendidos e do empenho de senadores e deputados federais em renovar o mandato, um dos melhores empregos do mundo, que rende mais de R$ 100 mensais com os subsídios, vantagens, benefícios do balaio generoso que escancara o saque ao cofre da viúva.

As especulações de sempre sobre os resultados das eleições de prefeitos em 5.562 municípios e de cerca de 400 mil vereadores (que desperdício!) ajudam a passar o tempo e a aquecer o debate no Congresso.

Desde a restauração do regime democrático, com a derrubada do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 29 de outubro de 1945, com a interrupção dos quase 21 anos da ditadura militar do rodízio dos generais-presidente, e a nova temporada de eleições para valer, a partir da eleição indireta de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985 – o presidente que não tomou posse – de José Sarney a Lula em seus dois mandatos, raras eleições não tiveram os seus resultados antecipados pela nítida preferência das ruas.

Mas, nunca com a certeza de que o presidente elegeria quem ele quisesse. E Lula quer a ministra-candidata Dilma Rousseff. O PT vai a reboque.

Econometria de resultados

Alexandre Schwartsman, Folha de São Paulo

O câmbio não é culpado pelo descompasso entre demanda e produção; a culpa é do "produto potencial"

As contas nacionais até junho de 2008 foram divulgadas na semana passada, confirmando o que se esperava: apesar da ladainha sobre como a combinação ("criminosa", "irresponsável", "neoliberal" etc.) juro-câmbio não permite que o país cresça, o PIB insistiu em aumentar 6% nos últimos quatro trimestres, a taxa mais elevada desde o terceiro trimestre de 1995, refletindo a acelerada expansão da demanda doméstica, que atingiu 8% no mesmo período. Assim, o crescimento médio da economia brasileira desde 2004 ultrapassa 4,5% ao ano, o maior dos últimos 20 anos.

Chama a atenção, porém, o descompasso entre o crescimento da demanda doméstica e o da produção, quase 2%, magnitude não observada desde 1997. Obviamente, expansão da demanda doméstica superior à do produto é equivalente a importações crescendo mais rápido que as exportações, mas essa é uma relação contábil. Cabe a pergunta: são as importações crescendo à frente das exportações que levam o produto a crescer menos do que a demanda, ou, pelo contrário, é o crescimento da demanda que leva à aceleração das importações?

Recentemente foi publicado trabalho que defende a primeira alternativa, argumentando que o câmbio apreciado leva ao descompasso entre demanda e produção domésticas. No entanto, para que isso fosse verdade, seria necessário mostrar que a produção doméstica pode, de fato, se expandir à mesma velocidade que a demanda e, curiosamente, esse é um tema completamente ausente do estudo. Não se encontra nele nenhuma menção ao produto potencial da economia (quanto mais uma mísera estimativa), ou ao grau de utilização da capacidade instalada, ou ainda nenhum argumento mais sólido mostrando que a economia brasileira pode crescer 8% ao ano sem maiores problemas.

Convido meus 17 leitores a inspecionar o gráfico que traça o comportamento das taxas de uso da capacidade na indústria medidas pela FGV e pela CNI. Ambas mostram a ocupação nos níveis mais altos da série, uma forte evidência de que, discurso à parte, a indústria tem encontrado limites à expansão da produção.

É verdade que o investimento aumentou, mas não é necessário ser gênio para concluir que uma taxa de investimento ainda pouco superior a 18% do PIB não sustenta crescimento contínuo de 8%, o necessário para acomodar a demanda doméstica como sugerido pela "econometria de resultados".

Aliás, a aceleração do investimento ocorre precisamente no momento em que a taxa de câmbio se fortalece, mais uma evidência difícil de conciliar com a noção de que é o câmbio forte que inibe a produção.

Pelo contrário, como enfatizado por Afonso Pastore e Maria Cristina Pinotti, há uma relação estreita (e positiva) entre crescimento do investimento e das importações, mostrando que o câmbio forte desempenha papel relevante para aumentar a capacidade de crescimento do Brasil.
Econometria de resultados à parte, os dados revelam que o câmbio não é culpado pelo descompasso entre demanda e produção. A culpa é do tão difamado, e pouco compreendido, "produto potencial".

Brasil nunca ficou imune às crises mundiais

Ludmilla Totinick, Jornal do Brasil

Na opinião dos especialistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Ibmec-RJ, o Brasil sofreu os impactos de todas as crises econômicas mundiais.

De acordo com Paulo Di Blasi, professor de Mercado de Capitais e Finanças Internacionais do Ibmec-RJ, as crises asiática e da Rússia, em 1998, causaram grandes prejuízos econômicos ao país.

– O Brasil sempre teve a dívida externa brasileira e a interna atreladas à moeda americana. Hoje, a dívida interna não é mais presa ao dólar e atualmente somos credores. Por isso, acredito que vamos ter outro comportamento em comparação com os anos anteriores – explicou Blasi.

O economista disse ainda acreditar que a situação atual permite ao país não sofrer fortes impactos da atual crise econômica que afeta os Estados Unidos.

Para o professor de economia da UFRJ Reinaldo Domingues, o país não ficou imune às crises mundiais, pois tem baixa capacidade de resistir às conjunturas externas desfavoráveis.

– Nos anos 30, Getúlio Vargas reagiu bem e adotou políticas eficientes. O mesmo não aconteceu nas crises de 70, 90, 2001 e 2002. O Brasil sempre mostrou que tem vulnerabilidade externa estrutural. Isso acontece devido à liberalização financeira e cambial adotadas pelo governo brasileiro – explicou Domingues.

Medidas
Segundo o professor, a criação de um correspondente bancário no país prejudica a economia nacional e favorece a especulação, de acordo com Domingues, um dos principais responsáveis pela crise da Malásia.

– A medida restringe a oferta de dólar no país e acaba criando um mercado de real fora do Brasil – ressaltou o professor.

O economista critica ainda o financiamento das empresas brasileiras no exterior, que não têm lógica global de atuação.

Outro motivo de preocupação para o professor da UFRJ são as reservas.

– A vulnerabilidade externa brasileira aumenta a cada dia. O passivo externo de curto prazo é de US$ 600 bilhões e, de longo prazo, é de US$ 900 bilhões. Se as pessoas decidirem vender os títulos do Tesouro Nacional e as ações, as reservas vão acabar rapidamente.

Atenção às contas externas

Estadão

Com cerca de US$ 200 bilhões de reservas cambiais, o Brasil é hoje menos vulnerável a choques externos do que na crise de 1998-99, mas, apesar disso, o governo deveria preocupar-se um pouco mais com as perspectivas do comércio internacional. Grande exportador de produtos agrícolas e de outras commodities, o País pode ser afetado pela redução de preços dessas mercadorias. As cotações começaram a cair há mais de um mês e continuaram ladeira abaixo com o agravamento da crise financeira nos Estados Unidos. Para os mais otimistas, ocorre apenas um ajuste limitado, resultante da fuga dos especuladores. A partir da correção, os preços passarão a ser determinados pelas condições materiais do mercado, isto é, pela relação efetiva entre oferta e procura e pelas condições de segurança indicadas pelos estoques. Essa é a opinião manifestada pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Os menos otimistas levam em conta a rápida erosão do saldo comercial brasileiro e das transações em conta corrente.

De janeiro a agosto deste ano o saldo comercial do agronegócio alcançou US$ 40,67 bilhões, resultado 25,52% superior ao de um ano antes. O valor exportado, US$ 48,50 bilhões, foi 27,9% maior que o de igual período de 2007. Mas a expansão da receita decorreu principalmente da elevação de preços no mercado internacional. A receita de soja e derivados, por exemplo, aumentou 71,38%, mas o volume embarcado só se expandiu 4,02%. No caso das carnes, a tonelagem vendida cresceu 4,32% de um ano para outro, mas o valor faturado subiu 36,92%. A mesma explicação vale para o resultado obtido com a venda de vários outros produtos, incluído o café.

O ministro da Agricultura parece ter razão quanto a um ponto: eliminada a especulação, restarão os fundamentos de mercado e isso limitará o tombo das cotações. Pelas projeções atuais, as condições de suprimento da maior parte dos produtos pouco mudarão na próxima temporada. Em alguns casos, prevê-se até uma redução de estoques. Só se projeta um grande aumento para o trigo.O raciocínio mais otimista embute dois pressupostos evidentes: a procura de alimentos não mudará muito, mesmo com forte desaceleração do crescimento mundial, e as cotações perderão, com a fuga dos especuladores, apenas uma gordura dispensável. A primeira hipótese poderá ser confirmada, parcialmente, se a China e alguns outros emergentes mantiverem um crescimento vigoroso, ainda que um pouco menor que o dos últimos anos. A confirmação da segunda hipótese é mais difícil: a gordura dos preços pode fazer falta às contas brasileiras, se não se aumentar o volume embarcado.

Além disso, é preciso levar em conta a rentabilidade dos produtores. Neste momento, os preços agrícolas ainda são maiores do que eram no ano passado, mas os custos de produção também subiram e talvez não caiam tanto quanto as cotações dos produtos. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) iniciou na segunda-feira a primeira pesquisa sobre o plantio da safra 2008-2009. Dia 8 o público saberá como as mudanças no mercado afetaram as decisões de produção.

De qualquer forma, seria bom o governo levar em conta o risco de enfraquecimento das contas externas. Para a balança comercial, o mercado financeiro projeta superávit de US$ 23,60 bilhões em 2008 e de US$ 13 bilhões em 2009. O déficit em conta corrente deverá atingir US$ 28 bilhões neste ano e US$ 34 bilhões no próximo. O investimento estrangeiro direto deverá ser mais que suficiente para tapar o buraco em 2008, mas não em 2009, pelas estimativas do setor financeiro. Mas pelo menos uma respeitada consultoria, a MB Associados, estima para o próximo ano um superávit comercial de apenas US$ 4,4 bilhões. Pelo menos por elementar precaução o governo deveria examinar essa hipótese.

O resultado das contas externas dependerá em boa parte da expansão da demanda interna, em grande parte determinada pelo gasto público. Também disso o governo deveria cuidar: quanto mais ele ficar preso a despesas "contratadas", por meio de aumentos salariais e de vinculações, tanto menos poderá manejar o orçamento, ficando o custo do ajuste para empresas e trabalhadores.

Muito pouco, muito tarde...

Luiz Carlos Mendonça De Barros, Folha de São Paulo

Apesar das advertências, os eventos seguiram seu curso e a crise apresenta-se hoje de uma forma dramática

Preso em casa por uma gripe muito forte, reli um livro sobre a crise final da 6ª República na França em 1958. A dinâmica daqueles remotos acontecimentos guarda uma incrível semelhança com o que acontece hoje nos Estados Unidos. A mesma incapacidade de refletir sobre as causas mais profundas da crise -política na França, financeira nos Estados Unidos- não permitiu ao governo Bush tomar a tempo as medidas necessárias para estancá-la. As ações do governo estão sempre atrasadas em relação aos acontecimentos, provocando um processo de mudança continuada na natureza dos problemas enfrentados.Vejamos como ocorre essa dinâmica no caso da crise bancária norte-americana e que toma conta de outras economias. Sua origem tem duas componentes básicas. De um lado, um segmento importante do mercado financeiro americano -Wall Street- submetido a uma regulação externa muito frágil e, por isso, extremamente alavancado.

Quando quebrou, o banco de investimento Lehman Brothers tinha US$ 650 bilhões em compromissos, contra um capital de US$ 20 bilhões. Para que o leitor leigo possa avaliar esse número, basta dizer que os bancos comerciais são obrigados a seguir uma regulamentação internacional na qual essa relação não pode superar 12 vezes.

A outra componente da crise aparece com o longo período de crescimento econômico experimentado pelo mundo a partir de 2003. Nesse ambiente de grande confiança no futuro, os bancos de investimento aumentaram seus ativos financeiros de forma descontrolada, buscando valorizar suas ações. Para que isso fosse possível, passaram a comprar títulos cada vez mais complexos e de riscos de credito crescentes.

Nessa busca por ativos, foram criados derivativos lastreados por hipotecas concedidas a indivíduos com risco bancário acima dos padrões -os famosos créditos "subprime".

Essa festa terminou em abril e maio do ano passado. Os primeiros sinais de inadimplência entre os devedores "subprime" chamaram a atenção de uns poucos analistas.

Mas a maioria continuou a acreditar na segurança desses papeis de alto risco, e a crise foi se desenvolvendo lentamente nas entranhas do mercado. No inicio deste ano, os problemas ficaram visíveis a olho nu.

Os analistas mais atentos passaram então a mostrar o tamanho das perdas e os riscos que elas representavam para o futuro. Muitos defenderam uma intervenção do governo para retirar do mercado uma grande parte desses títulos tóxicos e evitar uma crise maior. Sem essa medida preventiva a desconfiança poderia se espalhar por todo o sistema e criar uma situação perigosíssima.

Mas o governo republicano do presidente Bush se opunha a essa medida. Não queria resgatar os banqueiros de Wall Street com dinheiro público. Não faltaram vozes advertindo que, se a crise não fosse estancada de imediato, no final da linha o governo seria obrigado a gastar "n" vezes mais recursos para evitar uma catástrofe social.

E, como na França da 6ª República, os eventos seguiram seu curso e a crise apresenta-se hoje de uma forma dramática. No momento em que escrevo esta coluna, o presidente Bush veio a público dizer que o governo fará o necessário para resgatar a confiança no sistema bancário norte-americano. Nada como uma dura crise para que liberais extremados busquem no pensamento keynesiano as soluções para seus problemas.

Um artigo irreparável

Dentre tantos artigos que me são enviados semanalmente, um dos que mais aprecio, sem dúvida, é o do jornalista Pedro Porfírio. E, dentre tantos temas que ele aborda, a VARIG e a forma covarde e entreguista como este governo do “operário” e “defensor dos fracos, oprimidos e trabalhadores” enterrou e entregou de mão beijada um patrimônio de valor incalculável é, sem dúvida, o que mais me atrai a atenção. Sempre que o Pedro Porfírio escreve sobre este assunto, fico tentado a completar seu pensamento com alguma coisa, qualquer coisa. Porém, ao cabo da leitura, nada há a acrescentar. E isto se dá no artigo que publico no post abaixo. Seu pensamento é retilíneo, objetivo, sem malabarismos ou “meias-palavras”. Diz o que precisa ser dito, e ponto final. Nunca resta meio sentido, ou sentido duvidoso.

No artigo de hoje, há passagens que me fazem lembrar que o atual presidente sempre arrolou-se como a única autoridade no país capaz de, em seu governo, defender os interesses dos trabalhadores, arrastando de passagem seu currículo de ex-sindicalista. Ironicamente, os cinco mil e tantos profissionais de excelente nível da extinta VARIG, ficaram órfãos e totalmente abandonados justamente no governo do sindicalista operário. E não se venha dizer que o governo não podia ter feito alguma coisa. Não só podia como teve a oportunidade de fazê-lo. O que se viu foi devastador: o governo simplesmente lavou as mãos, deu de ombros e negou a ajuda que era indispensável e que muito pouco custaria aos cofres do País. O prejuízo, principalmente humano, excede em muito o valor ou o aporte financeiro que era necessário. E não há 64% de aprovação popular capaz de apagar do currículo do Luiz Ignácio esta mácula.

Segue, portanto, para leitura e reflexão, o irreparável artigo do jornalista Pedro Porfírio.

E ninguém deu nada. Nem mais, nem menos

Pedro Porfírio, Tribuna da Imprensa

“Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?”
Do samba do genial Noel Rosa (1910-1937)

Não durou nem um minuto. Nada mais deprimente. Ainda quis olhar nos olhos d’alguns colegas d’outrora. Preferi baixar a cabeça.

Estava com meu filho Pedro Ivo e com a sua Thais, estudante de direito. Era a primeira vez que ele ia a uma evento prenhe de tanta ansiedade. Os dois saíram sem entender nada. Quem entendeu?

Onde estamos? Tremendo circo no país onde a injustiça reina e governa. Para que aquele momento tão frustrante? O que é a vida? Fernando Braga, eu vi menino de calças curtas. Filho de uma grande mãe. Sobrinho de uma grande figura humana. Uma história à parte. Que um dia contarei.

Ele estava lá, com seu irmão Mário. Como o mundo é pequeno. Ele estava lá, com o garbo do ofício, participando da mesma ansiedade. Fez um trabalho sério, altamente profissional. De tanto carinho que tem pelo drama de mais de duas mil famílias, mais parece parte delas.

Antes das duas da tarde, eu estava lá no décimo sexto andar de um edifício moderno da tradicional Avenida Rio Branco. E logo puxei assunto com Fernando Braga. Ele estava preocupado. A crise nos Estados Unidos seria o empecilho.

Viu? Quem se interessou, contava com dólares de lá, essa espécie decadente que não perdeu a pose. Havia uma resistência virtual: dinheiro norte-americano, não. Quem tivesse o gosto por viver perigosamente que o aceitasse. A prudência hoje foge desses dólares sinistros como o diabo foge da cruz. Bem feito.

Não posso dizer que fiquei triste. A tristeza diante de tantas coisas do nosso país de enganados e mal pagos é tão continuada que já criou anticorpos. Mas a revolta não me poupa. A cada dia minha cólera diante de tanta incúria e de tanta hipocrisia é cada vez maior.

Crônica bizarra
Isso tudo faz parte de uma crônica bizarra com as letras da mentira e da impostura. É produto da mais cínica manipulação. Você está sendo pisoteado e, de tal roupagem a agressão se veste, ainda pede mais. Pise-me que eu gosto - tenho a sensação de mais um triunfo da perversão de Sacher Masoch, o menino guerrilheiro que, adulto, introduziu a cultura masoquista naqueles anos conturbados do Século XIX.

Perdoe-me a divagação. Mas são tão pestilentos os ingredientes da eutanásia social que não posso falar daquele sórdido meio minuto sem viajar no tempo e no espaço. Foi o meio minuto do nada, mas também podia ter sido o minuto e meio infame daquela dez da manhã do fatídico 20 de julho de 2006, quando um leiloeiro sebento bateu o martelo do pregão mais aberrante da nossa história: o que entregou de mão beijada a nossa maior empresa aérea aos prepostos de um fundo abutre norte-americano.

Neste 17 de setembro de 2008, quando testemunhei o sentimento de frustração de um leiloeiro de bons propósitos e vi quase lágrimas nos olhos de um punhado de profissionais da melhor cepa, li as entrelinhas de uma farsa engendrada alhures.

Como estava no tablóide servido à entrada do salão iluminado, ia a leilão parte de nossa história. Eram obras do maior dos mestres da construção, o felizmente centenário Oscar Niemeyer. Eram prédios que sangravam pelo fumê de suas paredes de vidro, 40 anos depois que a revista que se projetou no início dos anos 50 pelo talento e o arrojo de Hélio Fernandes e de tantos magníficos sábios da pena, naqueles idos em que saber escrever contava.Estou falando de uma falência decretada no crepúsculo do século passado. Até aquele 2000, quem passava pela Praia do Flamengo não ouvia o gemido de um desenlace letal. De fora, só se via a beleza dos prédios monumentais, três irmãos modernos que foram nascendo um a um, desde 1968, num confronto com as velhas construções.

Houve um dia, porém, em que as máquinas pararam. O império Bloch dava seus últimos suspiros no exercício de uma fatalidade inerente a um regime selvagem do qual poucos escapam. Em se tratando de empresa de comunicação, aí a possibilidade da tragédia é muito maior: tudo conspira contra o sagrado direito à informação.

Quem sofre mais
De uma hora para outra, dois mil profissionais estavam desempregados. Num universo de poucas ofertas, isso podia significar no mínimo 20% da mão de obra. A cortina baixou sem dó nem piedade.

O olho da rua era o caminho sem volta de muitos já cinqüentões, neste país em que viver mais é crime. Começou a novela da massa falida. Um folhetim sem heróis, onde quem pode pega o seu, mesmo que às expensas da fraude e da manipulação.

A tragédia se consumou ante a indiferença ampla, geral e irrestrita. Era o auge do complô contra o Estado social. Quem quiser que se vire: isso vale até hoje, neste dias de mentira das grossas capitaneada por uma súcia sem escrúpulos, pintada de rubro só para contrariar.

As vítimas entraram para o rol dos assassinatos econômicos. Se alguns ainda conseguiram outros empregos, a grande maioria ficou a pão e água. E a novela se arrastou, entre mortos e desesperados.

Tinha-se o leilão do conjunto arquitetônico do Roussel como a fonte do ressarcimento devido e garantido por lei. Não era uma expectativa mansa e pacífica, porque, apesar do previsto no artigo 102 da antiga Lei de Falências, o Ministério da Fazenda do Sr. Lula já havia se interposto no caminho, garantindo o pagamento prioritário da dívida tributária, obtendo o endosso de uma Câmara Cível dessa Justiça que temos.

Corremos atrás do governo, pela porta do Ministério do Trabalho, perplexos diante da ousadia da Procuradora da Fazenda. Diz-se que houve boa vontade do ministro Mântega para um acordo que não despojasse os trabalhadores da única fonte de pagamento possível.

Eu já não acredito em mais nada desse governo, desculpem-me a franqueza. Sabia-se que a Caixa Econômica Federal estava interessada no prédio, que quase caiu nas mãos, a preço de banana, daquele suplente de senador e dona de faculdades que, sendo do Rio, pegou carona no mineiro Hélio Costa.Ninguém apareceu para fazer qualquer oferta. O leilão gorou como um bólido que não passou da mais fantasiosa imaginação. Voltou tudo a estaca zero. Passada a eleição, o governo se sentirá mais à vontade para passar para trás mais esse contingente de trabalhadores especializados.

E contará no seu crime com o espírito de Masoch que, desgraçadamente, paira sobre os brasileiros como um embuste servido a granel no balcão e em domicílio.

A crise por aqui

Carlos Alberto Sardenberg, Portal G1

Eis mais um exemplo de como a crise financeira chega ao Brasil: o Banco do Brasil já reduziu os prazos e aumentou os juros nas operações de crédito ao comércio exterior.

O BB capta recursos no exterior para financiar exportadores brasileiros. E a captação lá fora ficou mais cara. A taxa de juros subiu cerca de dois a três pontos percentuais ao ano.

Até agora, o BB já financiou US$ 8 bilhões para o comércio externo. É o banco om maior participação nesse setor. O BB havia anunciado planos de financiar até US$ 14 bilhões neste ano, mas não deverá mais atingir a meta.

Pessoal do mercado diz que as linhas externas diminuíram, os prazos ficaram mais curtos e os juros, mais altos.

Os bancos aqui estão repassando essa situação. Estão também reduzindo o volume de financiamento por empresa.

Comportamento de manada

Fernando Rodrigues, Folha de São Paulo

BRASÍLIA - No dia 19 de outubro de 1987, a chamada "segunda-feira negra", o mundo parecia ter chegado ao fim. A Bolsa de Nova York caiu 22,6%. Naquele ano, fecharam as portas ou foram comprados 487 bancos comerciais.

Anteontem, as ações caíram 4,4% em Nova York. Um grande banco de investimentos faliu. Há mais na fila.

Por enquanto, neste ano, menos de 15 instituições financeiras encerraram seus negócios nos EUA. Como se vê, há diferenças brutais entre agora e 1987. Mas o clima em Wall Street tem sido parecido. Muito discurso apocalíptico apesar de as comparações mostrarem haver distinções substantivas entre a crise atual e as anteriores.

As similitudes só ficam no campo das interpretações e reações imediatistas. O comportamento de manada do mercado (o mais covarde dos animais) nunca muda. Outro consenso é a incerteza sobre como será o formato do sistema financeiro norte-americano depois de passado pandemônio.

Nos meses após 1987, várias medidas foram tomadas para regular o mercado. Criou-se o "circuit breaker": um mecanismo que interrompe por até uma hora a compra e a venda de ações após quedas de preço abruptas de 10% ou mais.

Em meio ao ceticismo da atual crise, alguma forma de regulação extra será adotada. O Congresso e o próximo presidente dos EUA empurrarão o mercado para um ambiente mais estrito. Gigantes como o Lehman Brothers terão dificuldade para acumular bilhões de operações podres e sem lastro.

Românticos de Cuba podem indagar: por que não fizeram antes regras mais rígidas? Simples. Esse é um dos defeitos inerentes ao capitalismo, um sistema incompleto, injusto, cheio de defeitos e que se constrói a cada crise. Há alternativas para esse sobe-e-desce, claro.

Os exóticos modelos da Venezuela ou da Bolívia, por exemplo.

Crise afeta o Brasil, e muito

Carlos Alberto Sardenberg, Portal G1

Eis como a crise mundial chega ao Brasil, em primeiro lugar. Aliás, já chegou: pela falta e/ou encarecimento de capitais e financiamentos para novos investimentos.

Um exemplo que interessa diretamente: as empresas brasileiras que já ganharam licitações da Petrobrás para a construção de navios e sondas de exploração de petróleo estão, neste momento, negociando financiamentos de bancos internacionais.

Segundo reportagem do jornal “Valor Econômico” de hoje, bancos estrangeiros suspenderam, provisoriamente, por enquanto, operações para financiar R$ 12 bilhões – operações que já estavam em andamento.

Isso porque, no mercado internacional, a taxa de juros pela qual os bancos captam dinheiro subiu fortemente, pela simples razão de que há menos dinheiro disponível.

Eis um exemplo da alta dos juros. A companhia brasileira Braskem fechou recentemente um financiamento internacional, pagando taxa de juros de 1,75% ao ano acima da Libor, taxa de juros que os bancos cobram entre si no mercado de Londres. É a taxa de referência. Pois bem, no empréstimo que fez à seguradora AIG, o Fed, banco central dos EUA, cobrou Libor mais 8,5% ao ano.

Outro exemplo: o risco Brasil, que havia caído para 190 pontos, subiu para perto dos 350 pontos – isso significa que as empresas brasileiras, ao tomarem empréstimos externos, pagam agora a taxa de juros dos títulos americanos, mais 3,5% ao ano, contra 1,9% antes da crise.

Para um país que necessita de capitais para novos investimentos – e que não os tem no país – a crise financeira internacional afeta , e muito.

A crise americana e o Brasil

“A crise americana é quase imperceptível no Brasil”, a declaração é de Lula, o economista, que hoje reafirmou que o Brasil sofrerá pouco com uma crise nos Estados Unidos. Em contrapartida, o deputado José Carlos Aleluia deu o troco: “A Bolsa caiu ’imperceptíveis’ 6,7%”.

Na verdade, e conforme vocês lerão no artigo do Fernando Rodrigues, nem estamos vivendo o fim dos tempos, tampouco esta crise é a “pior” de toda a história. Em 1987, a situação foi muito pior, e todos sobreviveram para contar o quanto ela foi ruim.

Porém, na declaração de Lula há uma mentira fruto da ignorância que o leva a um erro de avaliação, bem como esconde uma tremenda cretinice que é o fato de, obrigatoriamente, o Brasil estar melhor escudado do que em 2001, por exemplo, mas não por obra e graça a “medidas” ou “programas” patrocinados pelo atual governo. Até pelo contrário.

A começar que, todos os fundamentos macroeconômicos que sustentam nossa estabilidade, também serviram para fortalecer o país economicamente. E a cretinice está em que tais fundamentos não foram implementados pelo governo atual que, na oposição, demonizou todas as medidas que, ironicamente, dão sustentação ao país e conservam em alta os índices de aprovação do governo atual junto à população. Talvez o fato de não haver mexido nos fundamentos macros tenha sido, de fato, a única ação positiva do governo atual para estarmos desfrutando desta aparente tranqüilidade.

Mas não foram apenas fatores “internos” que contribuíram para esta calmaria. O crescimento vertiginoso da economia mundial ao longo de pouco mais de 5 anos, permitiram ao país tornar-se um dos maiores beneficiários, muito embora, pudéssemos ter crescido muito mais não fosse a incompetência do governo atual em jogar fora oportunidades.

Assim, e apesar de que estamos melhores sim, mas por conta do que plantamos ao longo de oito anos do governo anterior, dizer que a crise nos afetará pouco ou quase nada é taxar a todos de perfeitos idiotas.

A crise, mesmo no ponto em que se encontra, já nos afeta e muito. E se os desdobramentos se aprofundarem na economia americana, arrastando-a para recessão, não tenham dúvidas, a crise chegara no Brasil com toda a força. Até aqui, a crise serviu para nos beneficiar, quando o preço dos alimentos explodiu no mercado internacional. Deste modo, e graças a competência do agronegócio brasileiro, contra quem o governo atual tudo faz para se indispor e prejudicar, nos foi possível atravessar a crise sem solavancos. Porém, e na medida que os preços das commodities voltarem à sua normalidade, e das quais o país até então foi beneficiado – e muito – poder-se-á notar o quanto deixamos de fazer num período relativamente longo.

Assim, se faz oportuna a leitura dos artigos que a seguir publicamos, sendo dois do Carlos Sardenberg no Portal G!, e outro, do Fernando Rodrigues na Folha de São Paulo, que servem para não nos deixarmos iludir com discursos imbecis e desprovidos de senso de realidade.

E de momento é bom que se diga que compete ao governo saber diagnosticar que a crise, se aprofundada, prejudica a economia mundial como um todo, não apenas os Estados Unidos. O impacto será sentido por todos e, talvez, quando aportar por aqui alguns “letrados” e “especialistas” acordem da pasmaceira em que se encontram, primeiro reconhecendo a quem de direito os méritos da estabilidade econômica e do fortalecimento dos escudos de proteção e blindagem que fazem com que não soframos tanto. E, paralelamente, se convençam das oportunidades jogadas fora por pura incompetência em se fazer o dever de casa. E bom seria se o governo atual já fizesse uma pequena poupança, reduzindo seus gastos, para não sermos surpreendidos. A crise é do lado de lá, mas podemos nos precaver para sermos duramente atingidos.

Talvez seja preciso uma crise como a que se avizinha para o país cair na real. Até aqui, o discurso cretino tem servido para encobrir a quem, de fato, devemos os méritos da nossa estabilidade, e do porquê, mesmo com crescimentos reais de salários e com “tantas virtudes” arrotadas em palanque, o trabalhador médio brasileiro ainda não conseguiu equiparar seus ganhos aos de 1997, ou seja, onze anos depois, os trabalhadores continuam ganhando menos. E este, senhores, é apenas um dos lados. Há muitos outros que a mentira destilada da publicidade oficial tem conseguido esconder.