terça-feira, setembro 18, 2012

Final do baile de máscaras e fantasias


Adelson Elias Vasconcellos

Vai bater o desespero em Lula e no PT. Aliás, a bem da verdade, o desespero já atropelou eles todos. 

Tão logo a matéria da Veja foi divulgada, apareceu o advogado de Marcos Valério para desmenti-la. Foi o que bastou para a tropa de choque do petismo, espalhada pela internet, blogs e imprensa chapa branca, saírem por aí espalhando que se tratava de armação do Grupo Abril contra Lula, o deus do petismo. 

Pois bem. Na medida que esta turminha braba, que baba por seu venerável, pedia a cabeça dos repórteres da Veja, esta sequer se abalou. Sabia que sua reportagem abalaria a república, mas tinha todos os trunfos a seu favor. Já não se tratava de simples conversas não oficiais. E assim pouco a pouco a verdade sobre o que foi noticiado foi tomando a forma de entrevista gravada. 

Portanto, Veja não tramara coisa alguma contra Lula. Ela simplesmente cumprira o seu papel jornalístico. Gravara uma entrevista com uma das figuras centrais do mensalão e publicara a entrevista em respeito aos seus assinantes e leitores.

Claro que vai bater o desespero em Lula e em todos os petistas.  Aliás, na medida em que as primeiras condenações foram acontecendo no STF, este desespero foi encorpando e se agigantando como uma cruel reviravolta sobre a figura até então protegida com unhas e dentes para não ser envolvida no processo e não se tornar ré em ação de responsabilidade.

Não acredito que Lula um dia vá responder na justiça por ter chefiado a quadrilha de feras famintas em golpearem a república, as instituições, a democracia. Mas no tribunal da História, ah, deste ele não escapa. E terá de encarregar para o resto da vida o escândalo maior já vivido pelo país. 

Se fosse possível fazer uma devassa naqueles oito anos que o Brasil foi governado por Lula, talvez o mensalão acabasse sendo suplantado por muitos outros crimes que se cometeu naquele período. 

Parte da Polícia Federal se viu impedida de investigar muita patifaria. Talvez um dia uma comissão da verdade, não oficialmente instalada pelo Estado,  mas constituída pela sociedade, possa ter acesso a documentos e informações capazes de mostrar ao mundo a verdadeira face, o verdadeiro caráter de Lula. Terá chegada a hora do verdadeiro e inapelável julgamento do petista:  ser julgado não pelo que disse,  mas sobretudo pelo fez e deixou de fazer. 

Aí, sim, se terá feito justiça.  Hoje,  ninguém ao contrário dos submissos e vendidos, quer dar golpe contra ninguém. Busca-se apenas a verdade. Golpe quem quis dar foi  Lula e seu bando de delinquentes políticos. Porque o fato de ser o tal “presidente mais popular da história” não é nem era  salvo conduto para trair as instituições e à democracia. Até porque, outros canalhas, autoritários como Lula, até foram mais populares. Exemplos de Saddam Hussein e Adolph  Hitler. No Brasil tivemos Getúlio. O nazista, então, balançava-se sobre uma idolatria quase cega, a mesma que se tenta criar em torno de Lula. O nazista e tirano iraquiano gozaram de 96% de popularidade, e nem por isso a história deixou de julgá-los e condená-los.  Lula até pode ser considerado pelos seguidores como inimputável. Mas não é. É tão cidadão sujeito às leis quanto qualquer outro, por mais popularidade que desfrute. 

Aqui, não estamos pedindo cadeia para petistas, pelo fato de serem petistas. A cadeia que se quer e se deseja, é para políticos inclusive petistas, que cometam crimes contra o Estado e a Sociedade, portanto, para criminosos que, dado o fato de serem políticos, tem gozado de eterna impunidade. Como afirmei em outros artigos, se o Brasil desejar tornar-se um dia num pais civilizado, deve começar a por atrás das grades seus criminosos, sejam eles Zé manés, sem eira nem beira, até políticos, sejam petistas ou de qualquer outra corrente partidária, independente da sua hierarquia, dos postos e cargos que tenham ocupado, ou da popularidade que tenham desfrutado. Aliás, estes populistas são os criminosos mais perigosos, porque conseguem enganar as massas, vendendo-se falsamente como salvadores da pátria, mas estruturados em um caráter doentio e criminoso.

Assim, está na hora de acabar com os bailes de máscaras e fantasias nesta república brasileira.  Lula, durante muitos anos, vem se escondendo atrás de uma máscara e de um exército de laranjas. Está na hora, portanto, de se mostrar o verdadeiro caráter do Lula que a máscara vem ocultando há tempo do país. 

A ação criminosa que alguns pretensos veículos de comunicação tentam criar, com o propósito de chantagear a sociedade, suas instituições, seu estado de direito, é de uma canalhice sem conta. Tenta-se criar a imagem bucéfala de que este levante nacional em nome da justiça, das leis, da ordem legal, contra a impunidade e a corrupção compulsiva instalada no poder, trata-se não mais do que um movimento orquestrado por alguns “conservadores”contra Lula e um provável retorno do ex-presidente ao Planalto. Nada mais deplorável.  Será que esta turma estaria incluindo em sua lista os ministros do STF, cuja maioria, aliás, foi nomeada por Lula e Dilma? Estaria se referindo as elites tão beneficiadas justamente pelo governo Lula, banqueiros e empreiteiros principalmente? 

Ninguém está contra Lula. Ninguém quer lhe impedir movimentos em uma provável vontade de retornar à presidência. Mas isto não significa que devamos fechar os olhos e passar uma borracha em cima de crimes, sim, CRIMES que, num primeiro momento, ele próprio abençoou como se fosse dono das leis, do Judiciário, do país, da sociedade. Não, Lula não é deus nem dono a não ser de sua própria e exclusiva vontade e de seus atos, pelos quais deve responder de maneira  indistinta aos demais cidadãos deste país.  O Brasil não pode ser tratado como o boteco do Lula, onde ele esperneia, dá ordens, manda fechar, dispensa quem não lhe obedeçe. O Brasil é um país de todos sim, e não um pedaço de terra de propriedade de Lula da Silva.    

Portanto, tirem-lhe a máscara e as fantasias mutantes que adornam sua personalidade. Vamos ver se, o que sobra, vale todo este endeusamento com que tentam pintá-lo. Mas não se espantem: o diabo também veste Prada ou Armani. 

Um deus otário


Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa



Major Irineu, de Princesa Isabel, na Paraiba, rico, pão-duro e ateu, não dava um tostão para a igreja. A mulher pedia, o padre pedia, nada.

Uma noite chegaram aflitos dois empregados:

- Coronel, o açude está subindo. A água está no respaldo.

Major Irineu começou a andar de um lado para o outro. Água no respaldo era açude em perigo. E se o açude rompesse, a fazenda estava inundada. A mulher pedia:

- Velho, vá ao Santuário, leve um óbolo e faça uma promessa, precisamos salvar o açude.

E ele andando. E novos emissários chegando. E a água já em cima. Major Irineu entrou no quarto, abriu o nicho, pegou as imagens dos santos, enrolou em um cobertor, montou, tocou para o açude. Na barragem, de metro em metro pôs um santo:

- Rapaziada, vocês mesmos é que sabem para onde querem ir.

A água baixou.

LULA
Marta Suplicy, a ministra botoxuda, disse que “Lula é um Deus”. O brilhante advogado do ex-deputado Roberto Jefferson, Luis Francisco Barbosa, pergunta:  “Lula é um otário? O Mensalão rolava no palácio do Planalto e ele diz que nunca soube de nada. Não só sabia como ordenou o desencadeamento de tudo. Dirceu não fazia nada sem conhecimento dele”.

Marta mais uma vez vendeu sua loura alma suplicante em troca do prato de lentilhas do ministério da Cultura. E o talentoso advogado confundiu “otário” com “falsário”. Ninguém acredita em Lula.

Lula anunciou que ia ganhar para o PT no mínimo dois terços das prefeituras das 26 capitais do pais. Se ele tivesse a credibilidade do Major Irineu de Princesa Isabel, não precisava ser Deus. Bastava pedir ao Padre Cícero para ajuda-lo nas eleições. E seu açude talvez não arrombasse.

MARTOX
No “Panorama Político” de “O Globo”, a Simone Iglesias conta:

- “A conta feita pelo PT é ruim. Fora Goiânia (onde o prefeito Paulo Garcia é uma vitoria do ex-governador Iris Rezende do PMDB), de norte a sul, nas outras 25 capitais, o PT (não ganha em nenhuma) e pode chegar ao segundo turno apenas (!) em Salvador e Fortaleza”.

No pais inteiro, o “Deus Lula” está a caminho de levar uma surra total. Até visitar os Estados ele desistiu, para não ser vaiado. Do Nordeste, avisaram-lhe que a situação está feia. “O Globo” disse em manchete:

- “Lula cancela ida a palanques do PT no Nordeste”.

IBOPE
Só teve coragem de ir a Salvador. Mesmo assim, depois de um truque. Lula avisou que chegaria à Bahia no dia 14, sexta. O Ibope, sempre disponível e complacente, providenciou às pressas uma “pesquisa”:

- “Nelson Peregrino, do PT, em uma semana, passou (sic) de 16% para 27% (11 pontos a mais). O candidato do DEM, ACM Neto, na liderança com 39% dos eleitores, um ponto percentual menos do que o registrado na ultima pesquisa. Mario Kertz, do PMDB, com 6%”.

Ninguém na Bahia engoliu esse “despacho ” do palácio da Aclamação. Esperto, sabendo que era uma deslavada mentira, o Ibope preparou-se para defender-se. No fim da “pesquisa”, avisou (“O Globo”):
- “A margem de erro é de 4 pontos para cima e 4 para baixo”.

Quer dizer : tira 4 acima e 4 abaixo e 8 pontos da pesquisa não valem nada. E só assim Pelegrino, do PT, podia ser fabricado subindo 11 pontos. Lula avisara que só iria onde pudesse dizer que poderia chegar ao 2º turno.

MENSALÃO
E chegou o pânico no terreiro do PT, de Lula, José Dirceu:

- “Lula convocou a general Dilma, rearticulou as tropas e partiu para o contra-ataque no STF e na campanha. Bastou uma reunião de Lula com Dirceu, Marcio Thomaz Bastos e o petista Sigmaringa Seixas para tudo ganhar nova dinâmica e a apolítica Dilma perder velhos pudores e entrar em ação.”(Eliane Cantanhede, Folha). Já estão providenciando os cigarros.

Os demônios em delírio


Comentando a Notícia

Nesta edição, reproduzimos dois comentários do Ricardo Noblat, postados em seu b log. No primeiro, o jornalista sustenta a tese de que a matéria da Revista Veja, sobre declarações dadas por Marcos Valério apontando Lula como chefe do mensalão, são verdadeiras. Até aí tudo bem, como ninguém ouviu o áudio da entrevista,  uns acreditam outros não sobre se, de fato, as declarações apontadas por Veja que teriam sido dadas por Marcos Valério existiram.

Mais tarde, o site do jornal O Globo reproduziu um artigo do mesmo Ricardo Noblat sob o título “A quarta cópia”, informando que Marcos Valério teria mandado produzir um vídeo de excelente qualidade, do qual foram feitas quatro cópias, ficando três guardadas em banco, e uma destas cópias enviada a algum dos acusados ou dos envolvidos como prova de que não blefava quando dizia (ou ameaçava) sobre lhe acontecer alguma coisa fora do comum. 

Juntando-se os dois textos, e creio que Ricardo Noblat não seja do tipo leviano, não apenas a matéria da Veja ganha corpo, como também Noblat dá a entender que Marcos Valério estaria a ponto de explodir diante das promessas que lhe haviam sido feitas pelo PT no sentido de adiar o julgamento do Mensalão até a prescrição das penas. 

Apesar de explosivos , os textos do Noblat tem consistência e, de certa forma, vão de encontro aquilo que acabamos descobrindo na noite de domingo sobre a Revista Veja ter cópia gravada da entrevista e que só não a divulgou por um acordo de cavalheiros feito entre Marcos Valério e seu advogado com os repórteres da Revista Veja. Contudo, parece que o advogado ao desmentir tanto a entrevista quanto às declarações de Valério, teria rompido este acordo, o que liberaria a revista divulgar, por sua parte, o áudio da entrevista. 

Tudo muito certo, tudo muito bom até que...

...até que Noblat resolveu postar em seu blog matéria de Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior, sob o título  “A guerra da Veja contra o retorno de Lula”, em que o jornalista narra um suposto complô armado para evitar que Lula volte à presidência.  No texto, se descreve que a trama em curso envolveria não apenas a Veja, mas também Folha de São Paulo e o Globo, destacando-se Cristiana Lobo, o próprio Ricardo Noblat e Merval Pereira, além, é claro, da turma ligada à Veja. Nada como um julgamento no STF para toda esta gente amante do petismo em delírio supremo...

Ora, ao postar esta matéria, Noblat não terá percebido que o que ela contém contraria frontalmente exatamente os dois textos escritos pelo por ele próprio  em seu blog?  Assim, liberar o conteúdo, sem ao menos acrescentar um único comentário ou observação sobre as acusações que lhe foram feitas, estaria como assentindo com elas? Afinal, Noblat, quem está certo, você ou a Carta Maior? Ou você liberou seus textos sem a plena convicção do que escrevera? 

Não dá. Noblat poderia liberar seus textos, fazer menção à matéria da Carta Maior, mas nunca colocando sua opinião em confronto com um texto liberado em seu próprio blog. 

Aqui, quando discordamos de alguém, é claro que fazemos questão de mostrar e exibir o texto de quem não concordamos, porém sempre tendo o cuidado para, ou antes, ou depois, apresentarmos os pontos discordantes e em seguida nossa própria opinião ou visão.  

Portanto, Noblat, você nos deve ao menos uma explicação: você concorda ou não com a matéria da Carta Maior?  Se concordar, refaça seus textos anteriores, do contrário, se discorda, ao menos dê indício disto aos seus leitores. 

Já que fiz menção à matéria da Carta Maior, o link segue abaixo,  não me surpreendeu nem um pouco. Outros veículos chapa branca, que babam ovo do governo petista para cair na sua cesta os ovos dourados que pagam as contas, já tinham dado sinal de largada nesta impressionante conspiração. Isto é típico de governos autoritários, chinfrins, que precisar criar um inimigo público para se defenderem de seus crimes e, a partir daí, justificar  as baixarias e outros crimes que cometerão tudo feito pelo nosso “bem”. Os demônios dançam a dança do desespero. Estão delirantes, babando raiva por todos os poros.

A história da humanidade, passada e recente,  está cheinha destes exemplos, de governos ou governantes metidos a ditadores, que nutrem profundo desprezo pela verdade e pelas instituições democráticas, e que para ficarem bem na parada, criaram inimigos ocultos, que nada mais é do que uma simples estratégia cafajeste para não serem incriminados,  e  poderem assim justificar seus  crimes futuros.  É uma busca cretina de salvo conduto para delinquir, sem precisar dar satisfações a quem quer que seja.  

Carta Maior, assim como jornalistas, veículos e blogs genuflexos à cartilha petista de serem canalhas e parecerem anjos, segue bem o receituário, e vai somando pontos para que os ovos dourados do capilé oficial continuem sendo despejados em seu balaio.  É a sua contrapartida em prestação de serviços ao cretinismo oficial.  Seu delírio chega a ser doentio,  psicótico. 

Evidente que não vamos reproduzir lixo neste blog.   Mas não vamos sonegar ao leitor tomar contato com a matéria.  A íntegra está aqui. Adiantamos que não há nada ali que um bom normalizador digestivo não resolva.  Talvez um engov antes, outro depois...É delírio supremo imaginar que haja um complô armado contra Lula. A época para derrubá-lo do poder, e pela via legal com motivos plenamente legais e justificados, a oposição se acovardou e deixou passar.  Mas Lula não é dono nem do Brasil e nem da vontade do povo. 

Ah, em tempo: Lula pode voltar à presidência quando bem entender. Ninguém pode negar-lhe direito de concorrer novamente, e é claro, enquanto estiver com seus direitos políticos em vigor.  Quem decide nem é ele, é o eleitor. Mas até lá, talvez deva contratar um bom advogado. Há muita sujeira e lambança escondida debaixo do seu tapete e que precisa ser desvendada.  Prá sorte dele, não há no horizonte ninguém capaz de confrontá-lo numa eleição, mas isto em tese.  Até o pleito, muita coisa pode acontecer capaz de virar o jogo. E uma delas pode ser revelada justamente por outro Roberto Jefferson que resolva abrir o bico. Dentre os atuais 36 réus, quem garante o sigilo fiel de todos?  E, afinal, nem sempre se poderá assassinar um Celso Daniel da vida para calar-lhe a boca, não é mesmo? 

Lambuzado no melado


Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Marcos Valério demorou anos para se revoltar. Só quebrou o código de silêncio firmado com José Dirceu e Delúbio Soares para proteger Lula quando se viu diante da evidência de que lhe havia sido feita uma promessa vã.

Confiou que as instituições seriam fiéis aos coronéis de turno e se renderiam às conveniências do poder.

Isso está dito na reportagem de capa da Veja: "Em troca do silêncio, (Marcos Valério) recebeu garantias. Primeiro, de impunidade. Depois, quando o esquema (do mensalão) teve suas entranhas expostas pela Procuradoria-Geral da República, de penas mais brandas".

E quais seriam essas garantias? Vamos pensar juntos. Não é difícil percebê-las, partindo do princípio de que o PT fez o que fez confiando que aquela concepção de Lula sobre os "300 picaretas" que faziam e aconteciam no Congresso era o retrato do Brasil.

Primeira presunção de garantia: controlada pela maioria governista, comandada por um presidente do PT (Delcídio Amaral) e um relator do PMDB (Osmar Serraglio), a CPI dos Correios não daria em nada que pudesse produzir maiores e concretas consequências.

Segunda: a Polícia Federal sob as ordens do dublê de ministro da Justiça e advogado do Palácio do Planalto, Márcio Thomaz Bastos, cuidaria de limitar as investigações sem levá-las a inconvenientes profundezas.

Terceira: indicado e reconduzido ao cargo pelo presidente da República, o procurador-geral se apresentasse denúncia não o faria de maneira consistente.

Quarta: de composição majoritária teoricamente "governista" e de inescapável apego a formalidades, o Supremo Tribunal Federal não abriria processo.

Quinta: complexa e ampla demais, a denúncia não se sustentaria na fase judicial e poderia se estender à eternidade em decorrência de manobras da defesa.

Sexta: o julgamento não ocorreria tão cedo e, quando acontecesse, crimes estariam prescritos.

Sétima: permeável à influência dos comandantes da banda, a Corte de "maioria governista" teria comportamento de poder subordinado. Seja para absolver os acusados ou para lhes abrandar as punições, conforme a promessa feita a Marcos Valério sobre o pior que lhe poderia acontecer se calado ficasse.

Como a realidade mostrou e ainda não se cansou de demonstrar, o Brasil não é tão arcaico, desorganizado, institucionalmente desqualificado nem tão apinhado de vendidos como supunha o PT ao assumir a Presidência da República.

Há juízes em Brasília, como se repete agora a toda hora. Mas também há deputados, há senadores, há delegados, há agentes de polícia, há procuradores, há, sobretudo, uma sociedade a quem todos eles respondem em grau de responsabilidade muito maior que a lealdade supostamente devida ao modelo do "coronelato" que o PT pretendeu copiar.

Cópia cuja matriz é uma visão equivocada do País. Talvez o erro crasso do PT tenha sido acreditar que o Brasil era pior do que de fato é.

Lambuzou-se no melado ao imaginar que a posse do Estado lhe conferia poderes ilimitados para tratar a tudo e a todos como devedores de obediência total e reverência absoluta a uma hierarquia que só existia na cabeça autoritária do PT.

Caldo de galinha. 
Nota-se pela cautela da reação às declarações de Marcos Valério para Veja, que Lula e companhia não sabem exatamente o quê, mas percebem com nitidez o que vem mais pela frente.

Assim como não compartilham da ilusão da militância de internet de que o mineiro não tenha falado à revista já que as frases foram alegadamente ditas a terceiros, um expediente comum na preservação do sigilo da fonte de informações.

Diante do imponderável e da óbvia existência de lastro (gravações), acham melhor não provocar.

O esperneio de Valério revela que a história real é mais feia que a ora narrada pelo Supremo Tribunal Federal.

A quarta cópia


Ricardo Noblat


Dá-se a prudência como característica marcante dos mineiros.

Teria a ver, segundo os estudiosos, com a paisagem das cidadezinhas de horizonte limitado, os depósitos de ouro e de pedras preciosas explorados no passado até se esgotarem, e a cultura do segredo e da desconfiança daí decorrente.

Não foi a imprudência que afundou a vida de Marcos Valério. Foi Roberto Jefferson mesmo ao detonar o mensalão.

Uma vez convencido de que o futuro escapara definivamente ao seu controle, Valério cuidou de evitar que ele se tornasse trágico.

Pensou no risco de ser morto. Não foi morto outro arrecadador de recursos para o PT, o ex-prefeito Celso Daniel, de Santo André?

Pensou na situação de desamparo em que ficariam a mulher e dois filhos caso fosse obrigado a passar uma larga temporada na cadeia. E aí teve uma ideia. 

Ainda no segundo semestre de 2005, quando Lula até então insistia com a lorota de que mensalão era Caixa 2, Valério contratou um experiente profissional de televisão para gravar um vídeo.

Poderia, ele mesmo, ter produzido um vídeo caseiro. De princípio, o que importava era o conteúdo. Mas não quis nada amador.

Os publicitários de primeira linha detestam improvisar. Valério pagou caro pelo vídeo do qual fez quatro cópias, e apenas quatro.

Guardou três em cofres de bancos. A quarta mandou para uma das estrelas do esquema do mensalão, réu do processo agora julgado pelo Supremo Tribunal Federal.

Renilda, a mulher dele, sabe o que fazer com as três cópias. Se Valério for encontrado morto em circunstâncias suspeitas ou se ele desaparecer sem dar notícias durante 24 horas, Renilda sacará dos bancos as três cópias do vídeo e as remeterá aos jornais O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo. (Sorry, VEJA!)

O que Valério conta no vídeo seria capaz de derrubar o governo Lula se ele ainda existisse, atesta um amigo íntimo do dono da quarta cópia.

Na ausência de governo a ser deposto, o vídeo destruiria reputações aclamadas e jogaria uma tonelada de lama na imagem da Era Lula. Lama que petrifica rapidinho.

A fina astúcia de Valério está no fato de ele ter encaminhado uma cópia do vídeo para quem mais se interessaria por seu conteúdo. Assim ficou provado que não blefava.

Daí para frente, sempre que precisou de ajuda ou consolo, foi socorrido por um emissário do PT. Na edição mais recente da VEJA, Valério identifica o emissário: Paulo Okamotto.

Uma espécie de tesoureiro informal da família Lula da Silva, Okamotto é ligado ao ex-presidente há mais de 30 anos.

No fim de 2005, um senador do PT foi recebido por Lula em seu gabinete no Palácio do Planalto. Estivera com Valério antes. E Valério, endividado, queria dinheiro. Ameaçava espalhar o que sabia.

Lula observou em silêncio a paisagem recortada por uma das paredes envidraçadas do seu gabinete. Depois perguntou: "Você falou sobre isso com Okamotto?"

O senador respondeu que não. E Lula mais não disse e nem lhe foi perguntado. Acionado, Okamotto cumpriu com o seu dever. Pulou-se outra fogueira. Foram muitas as fogueiras.

Uma delas foi particularmente dramática.

Preso duas vezes, Valério sofreu certo tipo de violência física que o fez confidenciar a amigos que nunca, nunca mais voltará à prisão. Prefere a morte.

Valério acreditou que o prestígio de Lula seria suficiente para postergar ao máximo o julgamento do processo do mensalão, garantindo com isso a prescrição de alguns crimes denunciados pela Procuradoria Geral da República.

Uma eventual condenação dele seria mais do que plausível. Mas cadeia? E por muito tempo?

Impensável!

Pois bem: o impensável está se materializando. E Valério está no limiar do desespero.

Revelações de Valério sobre Lula devem ser investigadas, diz procurador-geral


Laryssa Borges
Veja online

VEJA revelou que Marcos Valério começou a detalhar o pacto que fez com políticos para tentar penas mais leves

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel (STF)

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse nesta segunda-feira que são “importantes” as revelações feitas pelo publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza sobre o envolvimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mensalão e de como o petista sabia de cada detalhe do esquema de arrecadação de recursos e de corrupção de parlamentares no Congresso. Conforme revelou VEJA, Valério começou a detalhar nuances do pacto que fez com políticos para tentar garantir penas mais leves no esquema do mensalão.

De acordo com VEJA, o publicitário também projeta que o esquema criminoso movimentou pelo menos 350 milhões de reais. O Ministério Público apontou que o mensalão foi abastecido com 55 milhões de reais de empréstimos dos bancos Rural e BMG e cerca de 74 milhões de reais desviados do Visanet, fundo abastecido com dinheiro público e controlado pelo Banco do Brasil. 

“Marcos Valério é uma pessoa que, ao longo de todo o processo, deixou muito claro que é um jogador. Mas é claro que são declarações importantes que devem ser examinadas”, disse nesta segunda Roberto Gurgel ao chegar para a 24ª sessão plenária convocada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para julgar a ação penal do mensalão.

Para o chefe do Ministério Público, como o ex-presidente Lula não detém mais foro privilegiado, uma eventual investigação deveria ser conduzida em primeira instância. Na hipótese de abertura de um processo a partir das revelações de Valério, Gurgel disse que, em tese, seria possível que o publicitário pudesse costurar um acordo de delação premiada. 

“Delação premiada em novo processo é, digamos, possível. Nesse processo do mensalão não mais”, afirmou o procurador-geral.

Passaportes – 
Apesar de ter defendido a prisão imediata dos réus condenados no julgamento do mensalão, Roberto Gurgel evitou afirmar hoje se pretende requisitar a apreensão de passaportes dos 37 réus julgados pela corte para evitar que eles fujam do país.

‘Estamos fazendo um julgamento de mentirinha’, diz advogado de Roberto Jefferson sobre ausência de Lula


Ricardo Brito 
O Estado de S. Paulo

Marcos Valério aponta Lula como chefe do esquema de compra de apoio político

O advogado Luiz Francisco Corrêa Barbosa, que defende o presidente do PTB, Roberto Jefferson, afirmou neste sábado, 15, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria estar entre os réus do processo do mensalão. "Estamos fazendo um julgamento de mentirinha", disse Corrêa Barbosa, ao comentar a reportagem publicada neste final de semana pela revista Veja. De acordo com a publicação, o publicitário Marcos Valério, segundo pessoas da sua intimidade, apontaria Lula como o chefe do esquema de compra de apoio político.

O defensor de Jefferson foi autor no Supremo Tribunal Federal (STF) de vários pedidos de inclusão do ex-presidente no rol de acusados, desde que o caso chegou à Corte em 2005. O colegiado, contudo, barrou todas as investidas. Na última delas, no dia 15 de agosto passado, o Supremo decidiu que apenas o Ministério Público, por competência legal, é quem pode investigar a participação do ex-presidente no episódio.

Para o advogado, as declarações demonstram que o suposto sistema montado para manter Valério e outros envolvidos no caso em silêncio começou a falhar, diante da iminente perspectiva de réus do processo ir para a cadeia. "Agora a zaga do Lula começou a deixar a bola passar", ironizou.

Corrêa Barbosa disse que, se não ocorrerem cobranças da opinião pública, uma investigação do Ministério Público contra o ex-presidente não vai adiante. Isso porque ele se diz descrente com o fato de o MP abrir uma apuração sobre o envolvimento de Lula. Ele se disse "muito decepcionado com esse pessoal", referindo-se aos procuradores da República.

O advogado de Roberto Jefferson disse que, pela lei, o MP tinha 15 dias para analisar o caso e, se não encontrar indícios de envolvimento do ex-presidente, enviar um pedido ao Judiciário para arquivar a apuração. Se tiver elementos para levar adiante no período, pedir abertura de inquérito. Numa comparação, ele lembrou que o caso do senador cassado Demóstenes Torres (sem partido-GO) demorou três anos para que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pedisse a abertura de inquérito ao STF.

O presidente do PTB será um dos réus que começa a ser julgado a partir desta semana por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter recebido dinheiro para votar, segundo a acusação, favoravelmente ao governo no Congresso.

Marcos Valério deu mesmo a entrevista acusando Lula. E agora, o que vai acontecer?


Carlos Newton
Tribuna da Imprensa


Esta ficando engraçada essa briga na internet a respeito da matéria da Veja com acusações do publicitário Marcos Valério ao ex-presidente Lula. O advogado Marcelo Leonardo, que defende Valério, logo desmentiu a revista, dizendo que seu cliente jamais havia dito tais coisas.

Mas acontece que a direção da Veja agora revela que não somente entrevistou Valério, como dispõe da gravação para confirmar o teor da reportagem.

O que Valério disse, cá entre nós, já se sabia desde sempre. Na época do mensalão, o jurista Helio Bicudo, figura histórica do PT, deu entrevista ao advogado Luiz Nogueira, no programa Sábado Especial, em rede nacional, e afirmou que Lula sabia tudo sobre o mensalão. Mas tem gente que acredita em Papai Noel e no Coelho da Páscoa, que inclusive consegue botar ovo.

O mensalão e o violino


Guilherme Fiúza
O Globo

A elite suja e reacionária deste país está aplicando mais um golpe contra o PT. Este foi o alerta dado pelo presidente do partido, Rui Falcão. Ele ficou indignado com a condenação de João Paulo Cunha, no STF, por corrupção passiva e peculato.

Com a perspectiva de que outros réus do partido tenham o mesmo destino no julgamento do mensalão, Falcão ameaçou: “Não mexam com o PT, porque quando o PT é provocado ele cresce, reage.”

Reage mesmo. E reage com patriotismo. Por sorte, o Sete de Setembro estava chegando, proporcionando mais uma ótima ocasião para Dilma Rousseff falar diretamente ao seu povo, sem passar pela mídia burguesa — que, segundo Falcão, é uma das agentes do golpe, junto com o Judiciário e outros vilões da elite suja.

O golpe é contra o operário e a mulher que mudaram este país. Mas a mulher reagiu no Dia da Independência.

Dilma só disse coisas boas em cadeia nacional de rádio e TV. O melhor do seu pronunciamento, porém, foi o fundo musical. Com a sutileza própria dos revolucionários, que endurecem sem perder a ternura, entraram na comunicação presidencial um violino choroso e um piano adocicado, ornando com perfeição o melodrama dos oprimidos, que resistem firmes ao golpe dos reacionários.

Pronunciamento oficial com fundo musical é um dos maiores avanços trazidos pelo governo do PT. Era o que estava faltando aos nossos governantes: um pouco mais de emoção — especialmente naquele horário, logo antes da novela.

Dilma e Lula não têm tido gancho para chorar em público, mas o violino chorou maravilhosamente por eles, numa versão romântica do Hino da Independência.

Bem que o presidente do PT avisou para não mexer com eles.

Num pronunciamento oficial com toques de showmício, evidentemente o que é falado é o menos importante. E está certo que seja assim. Ninguém vai querer que o telespectador, contando os minutos para ver Carminha, fique prestando atenção na numeralha do Brasil-potência que o PT construiu.

E isso é ótimo, porque só o que faltava era esperarem que a presidente, com todo o trabalho de cabeleireiro, cenografia e trilha sonora, ainda tivesse que dizer coisa com coisa.

Como diz o Hino da Independência, já raiou a liberdade no horizonte do Brasil — inclusive a liberdade de dizer a essa brava gente o que lhe der na telha. Foi desse jeito livre que Dilma Rousseff anunciou uma redução nas tarifas de energia, naturalmente sem mencionar que devia R$ 7 bilhões aos brasileiros por cobranças indevidas nas contas de luz. Mas isso não combinaria com piano e violino.

Também aproveitou a liberdade no horizonte para não dizer que a bondade elétrica do governo popular vai lhe custar R$ 21 bilhões.

A outra boa notícia é que o governo não passa cheque sem fundo: o contribuinte cobre tudo. E cobre feliz, ao som de violino e à luz da economia que ele acha que vai fazer.

Provavelmente foi por isso que Dilma encerrou seu pronunciamento de Sete de Setembro dizendo “viva o povo brasileiro”. Talvez pudesse arrematar com um “Deus lhe pague”.

Viva o povo que aprova o governo do PT, e o protege desses golpes da elite suja e da mídia conservadora. Lula e José Dirceu também prometem reagir, denunciando à OEA o atentado aos direitos dos réus do mensalão.

De fato, é preciso proteger os seus direitos de ir e vir entre os cofres públicos e a caixinha do partido. Se a OEA, a Anistia Internacional e outros organismos progressistas tiverem dúvida, é só prestarem atenção às palavras do ministro Ricardo Lewandowski. Ele já declarou aos seus colegas do Supremo que está em curso um julgamento “heterodoxo”. Ou seja: um julgamento muito estranho, talvez suspeito.

Lewandowski e Dias Toffoli, os ministros heterodoxos com amizades ortodoxas na corte petista, estão dando o melhor de si. Votaram pela absolvição de João Paulo Cunha e vão tentando aliviar o sócio de Marcos Valério que pode ligá-lo a Dirceu. É confortante saber que essas vítimas da elite suja não estão desamparadas. País limpo é país sem sujeira.

O ideal seria que o julgamento do mensalão fosse todo transmitido por boletins da presidente em cadeia nacional, com violino. A mídia golpista ia ver o que é bom para tosse — e para as eleições.

O importante é isso: não deixar que a elite suja desmascare os companheiros limpos, e assim golpeie sua imaculada máquina eleitoral.

Se o eleitorado desconfiar que o país caminha apesar de um governo parasita e perdulário, pode querer desalojar os companheiros de suas cadeiras públicas — o que seria um grave problema social.

O currículo da própria presidente não deixa dúvidas: não se sabe o que seria dessa brava militância sem a bênção do voto (e do emprego que dele emana).

A heroína argentina já está ouvindo panelaços. O tango da viúva melodramática começou a desafinar. Por aqui, a trilha sonora do oprimido, por incrível que pareça, continua dando para o gasto.

O outro lado do balcão


 Wilson Figueiredo 
O Globo

No momento em que o eminente ministro do STF Joaquim Barbosa é citado na imprensa ao expressar dúvidas sobre a utilidade da contratação de empresas de comunicação corporativa e assessoria de imprensa por órgãos públicos, uma análise detalhada das experiências de utilização desse modelo mostra que os governos ganharam agilidade e capacidade de resposta. Principalmente nesta etapa em que a Lei de Acesso à Informação gerou desafios e demandas ao gestor público.

Vale lembrar que a profissão de jornalista passou por muitas transformações. Até os anos 50, editores e repórteres ainda precisavam manter um segundo emprego, normalmente público, para sobreviver.

Vieram em seguida a profissionalização, a exigência do diploma, a proliferação dos cursos de Comunicação Social. A partir da década de 90, as empresas de comunicação surgem como uma nova alternativa de trabalho para os profissionais da área.

Depois de meio século de carreira em jornais, também segui essa trajetória. Já aposentado do jornalismo diário, reencontrei numa das maiores empresas do setor o vício renovado da comunicação.

Descobri que “do outro do lado do balcão”, como se diz no jargão da profissão, existem múltiplas aplicações para as técnicas jornalísticas.

Ali também se trabalha com informação, a base da atividade do jornalista. As empresas empregam profissionais com formação em comunicação e tornaram-se agências de notícias sobre seus clientes, permanentemente municiando os veículos.

A novidade passa agora pelo mesmo tipo de trabalho para as redes sociais, nas quais as consultorias ajudam seus clientes a se relacionar com os internautas.

Iniciei esta nova fase da vida aos 80 anos. Hoje, sete anos depois, arrisco dizer que o trabalho das agências faz diferença no desenvolvimento da comunicação e na construção e proteção da reputação das organizações.

Sempre com base no entendimento de que toda instituição tem o direito de avaliar sua imagem pública e de se comunicar com a sociedade para zelar por ela.

O primeiro impulso veio do setor privado. As empresas entenderam a importância de estruturar sua comunicação e fortalecer suas áreas de relacionamento com a imprensa, um dos principais vetores da formação da imagem pública na sociedade contemporânea.

Além disso, passaram a usar o apoio de agências para questões como design, publicações, comunicação interna, gestão de redes sociais etc.

O movimento chegou também ao setor público, pressionado pelas demandas de transparência por parte da sociedade. Da mesma forma como ocorreu com a publicidade, os órgãos de governo perceberam a vantagem de complementar o trabalho realizado por suas áreas internas com a contratação de agências de comunicação corporativa.

A tendência já está consolidada aqui e no exterior. E o que era há alguns anos apenas uma boa novidade para um velho homem de imprensa tornou-se um mercado extremamente relevante para as organizações e para os profissionais da área de comunicação.

VEJA decide se divulga fita com a entrevista de Marcos Valério


 Ricardo Noblat

A direção da revista VEJA está reunida para decidir se divulga ainda hoje em seu site a gravação da entrevista feita com Marcos Valério, um dos operadores do mensalão, onde ele aponta Lula como o chefe do esquema responsável pela arrecadação de algo como R$ 350 milhões para a compra de apoios políticos e o pagamento de despesas de campanha.

Foi na semana passada, em Belo Horizonte, que a  VEJA entrevistou Valério. E gravou a entrevista.

Marcelo Leonardo, o advogado de defesa de Valério no processo do mensalão, ficou sabendo depois e foi contra a publicação.

"Não é hora de dar entrevistas", decretou ele. E com razão. Valério já foi condenado no Supremo Tribunal Federal por vários crimes. Pegará pena pesada. Mas ainda será julgado por outros.

A revista não concordou em jogar a entrevista no lixo. Ou em arquivá-la. Aí surgiu a ideia de se atribuir as declarações de Valério a amigos e parentes que as teriam ouvido diretamente dele. E reproduzido para a revista.

Na seção Carta ao Leitor, a revista afirma que não houve entrevista. Mas de Lula ao contínuo menos qualificado do PT, todo mundo sabe que Valério falou para a VEJA, sim.

É por isso que os petistas de quatro e cinco estrelas não caíram de pau na revista, muito menos em Valério. Sabiam que mais dia menos dia, Valério acabaria abrindo o bico.

Não querem provocá-lo a revelar mais do que já revelou. E muito menos agora - com um julgamento pela metade e uma eleição às portas.

O acerto de VEJA com Valério e o advogado passou também pela garantia dada pelos dois de que nada diriam que fosse capaz de pôr em dúvida o que a revista publicasse. Até porque eles leram com antecedência o que seria publicado - e aprovaram.

Ocorre que procurado por jornais, o advogado de Valério esqueceu o combinado.

Primeiro disse que Valério nem confirmava e nem desmentia o conteúdo da reportagem.

Depois avançou e disse que Valério não confirmava. Para ao cabo afirmar que ele desmentia.

Aí o caldo entornou - embora uma parcela da direção da VEJA ainda argumente que se deve honrar o compromisso assumido com Valério e o advogado de manter a fita em segredo..

Mensalão: chegou a vez da compra de votos


Gabriel Castro e Laryssa Borges e Silvio Navarro
Veja

Supremo Tribunal Federal começa a julgar nesta segunda-feira o objeto principal da denúncia do mensalão. Quatro partidos estarão na mira

Valter Campanato/ABr
Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes e Celso de Mello: 
Depois de 23 sessões de julgamento, STF iniciou 
na segunda-feira uma etapa crucial do julgamento do mensalão

Era tarde de terça-feira, 14 de junho de 2005, sob os holofotes de toda a imprensa nacional, quando o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) entrou no Congresso Nacional escoltado por dois advogados, arrastando uma mala vermelha com rodinhas, recheada de papéis que, segundo ele, derrubariam a República. Em seis horas e 35 minutos de depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, ele listou pela primeira vez os nomes dos parlamentares que venderam votos ao governo Lula, a elite do esquema que ficaria eternizado como mensalão.

Presidente do extinto PL (hoje PR), o deputado federal Valdemar Costa Neto (SP), um dos cabeças da base parlamentar do governo montada - hoje, sabe-se como - por José Dirceu, insurgiu-se contra Jefferson, dedo em riste, com ares de desespero e ira. “Nós no PL só temos bons deputados. Diga o nome de quem recebe. Caso o PL tenha parlamentares envolvidos, quero que o senhor dê o nome, para nós investigarmos",afirmou. O discurso desmoronou em segundos. Jefferson olhou fixamente para o desafeto e fuzilou: "Eu afirmo que Vossa Excelência recebe".

O deputado do ex-PL era um dos nomes de uma lista que o petebista havia apontado minutos antes: Bispo Rodrigues (PL-RJ), Sandro Mabel (PL-GO) - não é réu na ação penal -, Pedro Corrêa (PP-PE), José Janene (PP-PR) - morreu em 2010 - e Pedro Henry (PP-MT). “Não são todos os deputados que recebem mensalão. Mas deputado Valdemar Costa Neto, deputado José Janene, Pedro Corrêa, Sandro Mabel, Bispo Rodrigues, Pedro Henry, me perdoem, de coração, não posso ser cúmplice de vocês", disse. O Congresso entrou em alvoroço. E o governo Lula, em convulsão.

Depois de 23 sessões de julgamento, o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciará nesta segunda-feira uma etapa crucial do julgamento do mensalão. É o capítulo mais longo do voto do relator, Joaquim Barbosa, e também um dos mais importantes: chegou a vez da compra de parlamentares no governo Lula. O roteiro do voto de Barbosa começa pelos partidos que vitaminaram a base, PTB, PMDB, PL (agora PR) e PP. Em seguida, será a vez do próprio PT, até chegar à aquele que, segundo a Procuradoria-Geral da República, chefiava a quadrilha: José Dirceu.

Condenações 
O STF já condenou João Paulo Cunha por ter fraudado uma licitação na Câmara em favorecimento a Marcos Valério de Souza, o "carequinha", operador do esquema. Valério foi considerado culpado por ter integrado um engenhoso sistema de lavagem de dinheiro. Condenou ex-dirigentes do Banco Rural e do Banco do Brasil por repasses dissimulados ao esquema.

Só agora, entretanto, o julgamento se voltará ao centro da denúncia, o motivo pelo qual o mensalão constituiu a maior ameaça às instituições democráticas desde a redemocratização do país: a negociação de apoio político no Congresso Nacional.

A primeira fase do julgamento não foi dos melhores para os réus. A confirmação do Supremo de que o grupo criminoso se valeu de empréstimos fraudulentos e usou um ardiloso esquema de lavagem de dinheiro ameaça os mensaleiros. Ao atestar que crimes deram início à liberação de dinheiro a parlamentares e confirmar que houve intenção em dissimular a origem e os reais beneficiários do esquema, os ministros colocam os acusados do PP, PMDB, PR e PTB à beira do cadafalso da condenação por corrupção passiva.

Os magistrados foram taxativos ao atestar que não importa o destino que cada parlamentar deu aos recursos desviados. Chegaram a afirmar que, mesmo se a propina tivesse sido destinada à caridade, ainda assim haveria o crime de corrupção.

Com esse entendimento e sob a condução de Joaquim Barbosa, devem ser anunciadas nesta semana as primeiras condenações de deputados e ex-deputados que traíram seu eleitorado e se corromperam no exercício parlamentar. A tese da compra de votos para a aprovação de projetos de interesse do Palácio do Planalto é a base da denúncia do Ministério Público contra o maior escândalo político da Era Lula.

Negacionismo 
A sequência de condenações (dez até agora) tirou o ânimo de mensaleiros e calou os negacionistas porque, ao que tudo indica, os principais pilares da acusação serão aceitos pelo Supremo ainda que petistas e defesa tentem desmentir os fatos. Na semana passada, um trecho da fala do ministro José Dias Toffoli, ex-advogado de petistas, surpreendeu até mesmo seus colegas da corte: "A denúncia conseguiu comprovar o valerioduto. Aquilo que a imprensa chamou de mensalão são cenas que assistiremos no próximo capitulo".

Dos mensaleiros enquadrados nesse trecho da denúncia, dois têm mandato na Câmara: Pedro Henry e Valdemar Costa Neto. Alguns refizeram a trajetória política fora do Congresso: José Borba, na época do PMDB (hoje no PP), virou prefeito do município de Jandaia do Sul, no Paraná. Roberto Jefferson, impedido de concorrer a cargos públicos por ter sido cassado pela Câmara, faz política por meio da presidência do PTB.

Teses 
Ao todo, 23 réus entre políticos, parlamentares e ex-funcionários de partidos começarão a ser julgados por corrupção e lavagem de dinheiro. Os chefes do chamado núcleo político – José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares – também terão suas teses de defesa colocadas pela primeira vez à prova no julgamento da ação penal do mensalão. Neste capítulo de análise da denúncia, os ministros do STF devem confirmar que, para serem condenados por corrupção, não é preciso que a ação, alvo do achaque, tenha sequer sido completada.

Para os réus serem apenados no Supremo, o plenário também deve atestar que os parlamentares lavaram os recursos do valerioduto ao simular que o dinheiro serviria para a quitação de despesas eleitorais. A corte tende a confirmar não ser preciso nem que o processo de lavagem se complete ou que a propina seja incorporada ao patrimônio de cada um.

Ao analisar as acusações de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo políticos, o Supremo terá a oportunidade de ratificar as palavras ditas por Roberto Jefferson naquela tarde de 2005, que ecoam até hoje pelos corredores do Congresso. "Tudo o que eu disse aqui é de conhecimento do ministro José Dirceu. Tudo!".

No Rastro do STF, mais 80 réus no mensalão


Vinicius Sassine
O Globo

Nos estados, porém, Justiça Federal ainda nem chegou à fase de produção de provas

REPRODUÇÃO
Onde tudo começou. 
Ex-chefe do Departamento de Contratação dos Correios, Maurício Marinho,
 flagrado recebendo propina de dois fornecedores da estatal

BRASÍLIA — O escândalo do mensalão tem pelo menos 118 réus em processos abertos em diferentes instâncias da Justiça, o triplo da quantidade de acusados em julgamento há mais de um mês no Supremo Tribunal Federal (STF). O GLOBO teve acesso à lista de processos iniciados a partir da denúncia principal do esquema e aos pedidos de investigação encaminhados pela Procuradoria Geral da República (PGR) às procuradorias da República nos estados.

O mensalão resultou em outros 45 processos na Justiça Federal no Distrito Federal e em quatro estados — Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo —; no Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região, em São Paulo; e no próprio STF, onde um inquérito tramita paralelamente à ação penal julgada pelo plenário da mais alta Corte do país desde 2 de agosto.

O levantamento inédito do GLOBO, feito com base nas duas listas da procuradoria, mostra a real extensão do mensalão no Judiciário brasileiro. Do total de 118 réus, 35 são julgados tanto pelos ministros do STF quanto em processos abertos com o desmembramento das investigações. Outros 80 estão fora do principal julgamento, mas são réus nos demais processos. E três são réus apenas no Supremo: o publicitário Duda Mendonça, sua sócia Zilmar Fernandes e o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato.

Dezenas de acusados ficaram fora da denúncia formulada pela PGR no Supremo e passaram a ser investigados pelo Ministério Público em outras instâncias. Ao todo, 11 procuradorias, em nove estados, e o Ministério Público do Distrito Federal foram acionados para apurar a participação de outros personagens. As investigações também incluíram crimes adicionais supostamente praticados pelos réus no STF.

Nas instâncias inferiores, os processos andam em ritmo mais lento do que no STF. Enquanto os ministros do Supremo já condenaram oito réus por lavagem de dinheiro e um deputado federal, João Paulo Cunha (PT-SP), por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro, a maioria dos processos na Justiça Federal não chegou nem na fase de produção de provas.

Levando em conta todos os processos que tramitam fora do STF, até agora, apenas Marcos Valério, operador do mensalão, seus sócios e Rogério Tolentino, advogado da SMP&B Comunicação, foram condenados na primeira instância da Justiça de Minas Gerais.

Entre os réus, mulher de Valério e doleiros
O mensalão tem mais de 80 réus que não fazem parte da ação penal no STF. O levantamento de ações abertas na Justiça Federal, elaborado pela PGR, inclui os desdobramentos do escândalo dos Correios, em 2005. O ex-chefe de departamento da estatal Maurício Marinho, que apareceu num vídeo recebendo propina, é réu em três ações penais e numa ação de improbidade administrativa em curso na Justiça Federal no DF. O ex-deputado federal Roberto Jefferson, o partido que ele preside — o PTB — e outras 24 pessoas são réus nos processos. A divulgação do vídeo motivou a abertura da CPI dos Correios e a denúncia do mensalão feita por Jefferson, ainda em 2005.

A lista de réus amplia a quantidade de acusados ligados a Marcos Valério e a suas agências de publicidade, entre eles a mulher do operador do mensalão, Renilda Maria Santiago, e doleiros de Minas Gerais. Diretores do Banco Rural que ficaram fora da denúncia principal são réus em processos que tramitam na Justiça Federal em Brasília e em Minas. Doleiros que teriam atuado a serviço do Rural estão no rol de investigados, assim como um grupo de cinco réus num processo em curso na Justiça Federal no Espírito Santo. Eles são suspeitos de lavar dinheiro — “dissimular dinheiro sujo”, conforme a denúncia — dentro do esquema do mensalão. O grupo não conseguiu comprovar a origem de R$ 2 milhões recebidos da SMP&B, de Marcos Valério.

O ex-procurador da Fazenda Nacional Glênio Sabbad Guedes é réu em dois processos na Justiça Federal no Rio, por concussão, corrupção e crimes tributários. Laudos periciais da Polícia Federal (PF) produzidos para as investigações do mensalão resultaram na abertura dos processos. As perícias apontaram suposto envolvimento de Glênio com sócios e empresas de Marcos Valério. Um dos processos abertos investiga um suposto esquema criminoso envolvendo ainda o pai de Glênio, Ramon Prestes, a companheira do ex-procurador, Marcos Valério, Rogério Tolentino e mais três réus. Conforme as investigações, houve “montagem” em contratos de prestação de serviços envolvendo o escritório de Tolentino e o pai do ex-procurador. Glênio já foi preso em 2010 sob suspeita de pagamento de propina a policiais federais para atrapalhar as investigações do mensalão. Ele teria recebido R$ 1,1 milhão de Marcos Valério para atuar em favor de bancos.

Inquérito identifica novos sacadores
No processo por crimes tributários, a defesa dos réus chegou a arrolar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como testemunha de defesa. Um mandado de segurança obtido neste ano pelo ex-presidente evitou o testemunho.

— Lula disse que o mensalão não existe. Por isso ele foi arrolado. O ex-presidente vai depor — disse o pai de Glênio, Ramon Prestes.

Segundo ele, a Justiça reconheceu a validade do contrato com o escritório de Tolentino. Ramon nega as irregularidades apontadas no processo e diz que “a acusação é vasta” e não leva em conta as defesas apresentadas. Inicialmente, o pai de Glênio afirmou que o processo tratava de um “problema de posto de gasolina e jogo no Rio”. O ex-procurador não deu retorno à reportagem.

Desde 2006, um processo na Justiça Federal em Minas apura empréstimos supostamente fraudulentos do banco BMG ao PT e a empresas de Marcos Valério. Quatro diretores do BMG são réus, além do grupo de Marcos Valério, José Genoino e Delúbio Soares, respectivamente ex-presidente e ex-tesoureiro do PT. Um convênio do BMG com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para crédito consignado a aposentados é alvo de inquérito em curso no STF, como desdobramento da denúncia central do mensalão. Esse inquérito, sigiloso, identifica também novos sacadores das contas das empresas de Valério.

Dos quatro diretores do BMG réus do processo, três permanecem na função, segundo a assessoria de imprensa do banco. “O BMG já apresentou sua defesa no referido processo e aguarda decisão da Justiça”, diz a assessoria. O processo está concluso para sentença desde o início de julho deste ano. Sobre o inquérito do STF, o banco sustenta que o convênio com o INSS “seguiu os trâmites burocráticos daquela autarquia”. “O TCU, quando analisou o convênio, não apontou qualquer prejuízo ao INSS e aos beneficiários da Previdência Social”, complementa.

Dois réus de um processo por lavagem de dinheiro na Justiça Federal no estado de São Paulo, Lúcio Bolonha Funaro e José Carlos Batista, esperam ser beneficiados pelas consequências jurídicas da delação premiada. Eles são acusados de dissimular a origem e o destino de R$ 6,5 milhões da SMP&B ao PL, hoje PR. Para isso, eles teriam usado a Garanhuns Empreendimentos, empresa dos dois, segundo a denúncia apresentada à Justiça pelo MPF.

— A defesa busca fazer valer os termos do acordo de colaboração e almeja o perdão judicial ao fim do trâmite do processo —, diz a advogada Beatriz Catta Preta. Os autos estão conclusos para uma decisão do juiz sobre a delação premiada desde o início deste mês.

Com voto duro, Luiz Fux decepciona banca do mensalão


Daniel Jelin
Veja online

Até agora, ministro preterido por Lula em 2006 e nomeado por Dilma em 2011 é o que mais vezes acompanhou o rigor de Joaquim Barbosa: só divergiu uma vez

(Felipe Sampaio/SCO/STF) 
Luiz Fux: 
'Também temos de nos preocupar com a 
dignidade da vítima, que é toda a sociedade brasileira' 

O plenário do STF tem dado amplo acolhimento ao voto do ministro Joaquim Barbosa no julgamento do mensalão. Com três capítulos da denúncia concluídos e 38 sentenças proferidas, ele só foi vencido em três ocasiões. Até agora, Luiz Fux é o ministro que mais vezes acompanhou o rigor do ministro relator. Divergiu uma única vez - a única vez em que Barbosa foi solitariamente vencido em seu voto.

O relator do processo só absolveu dois réus: o ex-ministro Luiz Gushiken, cuja condenação o Ministério Público também havia desistido de pedir, e a ré Ayanna Tenório, ex-executiva do Banco Rural. No caso de Ayanna, Barbosa frisou que desistiu de sua condenação por lavagem de dinheiro não por considerá-la inocente, mas porque o plenário havia decidido absolvê-la de gestão fraudulenta, crime antecedente necessário para a caracterização do segundo delito.

De Barbosa, até o mais otimista dos réus já esperava um voto duro. Foi assim no recebimento da denúncia, é assim agora. De Fux, não.

Magistrado de carreira, Fux foi o primeiro ministro nomeado por Dilma Rousseff, em 2011. À época, a escolha foi festejada pela banca – e recebida com desânimo pelo Ministério Público.

Fux estava no Superior Tribunal de Justiça, onde ganhou fama de conservador em processo penais, com críticas frequentes às investigações dos promotores. Mal assumiu a cadeira no STF, dizendo ter se preparado a vida toda para o cargo, Fux desempatou a votação da Lei da Ficha-Limpa – a favor dos fichas-sujas. Três meses depois, votou pela libertação do terrorista italiano Cesare Battisti.

No julgamento do mensalão, Fux tem sido implacável. Condenou até a ex-gerente financeira da agência do publicitário Marcos Valério, Geiza Dias, que o ministro Dias Toffoli comparou ao frentista do posto que vende combustível adulterado.

Esforço – 
Além de linha-dura, o voto de Fux tem chamado a atenção pelo esforço em aprofundar a doutrina e com isso: distinguir garantia constitucional de chicana jurídica (como na rejeição do desmembramento do processo); e desfazer distorções que a leitura de uma legislação penal antiquada (o Código Penal brasileiro é de 1940) pode ensejar, e que são exploradas com afinco pela defesa (como no caso das provas indiciárias). É um esforço comum a outros ministros, que a ex-ministra Elle Gracie interpretou como uma tentativa de reequilibrar a Corte em casos criminais após anos de excessivo 'garantismo'.

Na primeira fatia do julgamento, quando se analisaram os desvios de dinheiro do Banco do Brasil e da Câmara dos Deputados, Fux lembrou em seu voto que o STF possui "há décadas jurisprudência consolidada no sentido de que os indícios, como meio de provas que são, podem levar a uma condenação criminal". Com isso, estava afastando a tese de que indícios não embasam condenações, como quis a banca dos mensaleiros.

No mesmo capítulo, Fux afirmou que o álibi cabe a quem alega: "Eu não posso dizer: 'não tem provas contra mim'. Eu tenho que dizer: 'não, isso decorreu disso' ". Foi maldosamente interpretado como uma tentativa de inverter o ônus da prova, que de fato cabe à acusação, não à defesa, questão primária que não havia sido ignorada pelo ministro. 

Fux também é dado a frases de efeito, em que tem reiterado justa aversão à corrupção. Já disse que: "A cada desvio de dinheiro público, mais uma criança passa fome, mais uma localidade fica sem saneamento, sem mais um hospital, sem leitos". E que: "Se estamos preocupados com a dignidade dos réus, também temos de nos preocupar com a dignidade da vítima, que é toda a sociedade brasileira". Ao julgar a cúpula do Banco Rural, afirmou que os executivos cometeram "nem gestão fraudulenta, nem gestão temerária, mas gestão tenebrosa pelos riscos e consequências que acarreta à economia popular".

'Conversa fiada' – 
O voto de Fux não tem sido nada animador para os mensaleiros, mas não dá para antever que papel terá nas "cenas dos próximos capítulos", como disse Dias Toffoli. Até agora, o STF cuidou do desvio de dinheiro público e das tramoias bancárias que irrigaram o valerioduto. Na próxima semana, começa a analisar a compra de votos orquestrada pela cúpula do PT.

O deputado cassado José Dirceu, apontado o chefe da quadrilha pelo Ministério Público, chegou a gabar-se em rodas petistas de ter amizade com Fux e a dizer que o ministro "está bem alinhado comigo". O senador cassado Demóstenes Torres também se gabou de conhecer o voto de Fux. Em conversa com o contraventor Carlinhos Cachoeira, interceptada pela Polícia Federal e revelada pelo jornal Folha de S.Paulo, o então senador comentou que o voto do ministro contra a aplicação da Lei da Ficha-Limpa às eleições de 2010 era uma das duas condições que aceitou para chegar ao STF. A outra era livrar a "turma do mensalão". "Bravata", reagiu Fux, sobre os áudios.

Preterido – 
Desde pelo menos 2006 Fux era candidato ao STF. Entre os nomes que o recomendavam, conforme VEJA revelou na edição de 1º de fevereiro de 2006, estavam:  Antonio Palocci, então ministro da Fazenda; Delfim Netto, em seu quinto - e último - mandato como deputado federal; Roger Agnelli, então no comando da Vale e cotado para assumir a Petrobras; e até o chefão do MST João Pedro Stedile.

Apesar do lobby, Fux não emplacou em 2006. Lula preferiu Ricardo Lewandowski. Na decisão, o então presidente foi assessorado por seu ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, hoje advogado de um dos réus do mensalão. Lewandowski é o ministro que mais divergiu de Barbosa: 15 vezes.

Armadilha lulista


O Estado de S.Paulo

Foi perfeita a armadilha montada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a plena concordância da diretoria anterior da estatal, para tornar a Petrobrás refém dos interesses políticos e das irresponsabilidades administrativas do presidente venezuelano, Hugo Chávez, por meio da associação - por enquanto apenas no discurso político dos dois governos - da empresa brasileira com a estatal venezuelana de petróleo PDVSA.

Para alimentar seu delírio megalomaníaco de se transformar em grande líder político regional, o ex-presidente não hesitou em utilizar recursos do Estado brasileiro para auxiliar governantes que poderiam fazer parte do grupo que pretendia liderar, como os da Venezuela, Equador, Paraguai (na época governada por Fernando Lugo) e Bolívia. Do ponto de vista político, o projeto de liderança do ex-presidente pode ter- lhe rendido algumas vantagens. Do lado econômico, porém, além de perdas para empresas brasileiras prejudicadas por atos lesivos aos interesses do País praticados por governos chefiados por supostos aliados de Lula, o projeto de liderança política regional do ex-presidente está tendo consequências danosas para a Petrobrás.

O acordo de associação entre a Petrobrás (com 60%) e a PDVSA (com 40%) para a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, foi assinado por Lula e Hugo Chávez em 2005. A refinaria foi projetada para processar óleo venezuelano e óleo do Campo de Marlim, na Bacia de Campos, em partes iguais. O fato de, durante décadas, a Petrobrás não ter ampliado sua capacidade de refino, tornou a obra urgente.

Iniciada em 2007, a construção foi orçada em R$ 4,75 bilhões. Mas, devido a atraso e a estudos incompletos, a obra foi ficando cada vez mais cara e a previsão de custo mais recente já alcança US$ 20,3 bilhões, ou cerca de R$ 41 bilhões, quase dez vezes a estimativa inicial. Com previsão de inauguração em 2014, a refinaria está com 62% das obras executadas. Mas a Venezuela ainda não pôs um centavo na obra, o que demonstra desinteresse e desrespeito ao acordo de 2005.

Mesmo sem garantias de que a sócia cumpriria sua parte, a Petrobrás, na gestão anterior chefiada por José Sérgio Gabrielli, comprou praticamente todos os equipamentos necessários para o refino do petróleo venezuelano, com teor de enxofre bem mais alto do que o óleo de Marlim. A explicação dada pela empresa para a antecipação da compra desses equipamentos foi a necessidade de "garantir prazos em função do aquecimento do mercado fornecedor de bens e serviços na ocasião". Quaisquer que tenham sido as razões, o certo é que essa antecipação contribuiu para encarecer a obra.

Isso significa que, com ou sem a parceria da PDVSA, a Refinaria Abreu e Lima utilizará metade de sua capacidade instalada para processar petróleo com alto teor de enxofre. Se não obtiver esse óleo por meio da parceria, terá de comprá-lo no mercado externo, onde uma das únicas fornecedoras é a própria PDVSA, que certamente fornecerá o produto a preços de mercado, sem nenhuma vantagem. A Petrobrás está sendo refém da PDVSA, que continua a afirmar sua intenção de cumprir sua parte na sociedade na construção da refinaria, e, quando esta iniciar suas operações, continuará a ser, pois dependerá do petróleo a ser fornecido por ela.

Sem poder salvar a empresa da armadilha criada por Lula ao associá-la com a PDVSA, a presidente da Petrobrás, Graça Foster, diz-se disposta a conceder novos prazos para a venezuelana honrar seus compromissos. "Eles precisam fazer parte desse projeto", disse no Senado. Tendo a aventura lulista avançado tanto, a solução menos ruim talvez seja, de fato, manter a PDVSA como sócia.

A estatal venezuelana vem adiando seguidamente a apresentação das garantias reais exigidas pelo BNDES para a concessão de um financiamento de US$ 4 bilhões que lhe permitiria cumprir parcialmente seus compromissos na sociedade. O novo prazo termina em novembro, mas, mais uma vez, a PDVSA poderá se valer da notória dependência da Refinaria Abreu e Lima do seu petróleo para continuar ganhando tempo.

Lula e a parábola de Itamari


Mary Zaidan
Blog do Noblat

Waldson Carlos Alves Menezes, conhecido como Kçulo, pode ou não se reeleger prefeito de Itamari, pequena cidade do interior baiano, a 330 quilômetros de Salvador. Mas já fez história.

No vídeo que corre solto no YouTube, ele não só é flagrado comprando votos como mostra impressionante intimidade com a corrupção. Didático, o petista Kçulo compara política a uma feijoada. “O feijão é o voto e o dinheiro, o tempero”, ensina. “Se você tem o trocado, a feijoada sai gostosa, cheirosa e bonita.”

A parábola de Itamari é simbólica como todas. Cozida com os mesmos ingredientes que encheram a pança e hoje tiram o sono dos que agora estão no banco dos réus do julgamento da ação penal 470.

Kçulo sumiu. Seu crime, a compra de votos, é o mesmo que entra em pauta na sessão desta segunda-feira da Suprema Corte, quando começa o julgamento do núcleo político do mensalão.

A afirmação de seu advogado segue linha idêntica à dos petistas de primeira grandeza. Atribui tudo à oposição. Ainda que mais amena do que “elite suja e reacionária” e “golpe de conservadores”, usados pelo presidente nacional do PT Rui Falcão, em discurso de desagravo à condenação do deputado João Paulo Cunha, a tese de atribuir o pecado ao adversário é a mesma.

Combina também, em gênero e todos os graus, com a pregação de Lula. O ex-presidente não comparou política a uma feijoada - preferia alegorias futebolísticas -, mas defendeu a prática de ilícitos dos seus partindo de princípios muito semelhantes: os de que a política tem os seus vícios, todo mundo peca, malfeito todo mundo faz.

E foi ainda mais longe. Chegou a admitir que engrossara o caldo por demais – “Humildemente, reconheço que nós fizemos coisas erradas. Mas com tudo de errado que fizemos, o país melhorou muito”, disse, em outubro de 2006, misturando na mesma cumbuca um mea-culpa e o “rouba, mas faz” que imortalizou Adhemar de Barros.

A versão só durou enquanto temia que dessalgassem o seu mandato. Depois disso, negou o tempero e até o feijão.

Amanhã, o ministro relator Joaquim Barbosa abrirá os trabalhos pelos políticos que receberam dinheiro do esquema: Pedro Corrêa e Pedro Henry, do PP; Valdemar Costa Neto, do extinto PL, atual PR; Roberto Jefferson e Romeu Queiroz, do PTB; e José Borba, do PMDB.

O ex-ministro José Dirceu, apontado como chefe da quadrilha pelo procurador-geral, o ex-presidente do PT José Genoíno e o ex-tesoureiro Delúbio Soares fecham a fila.

Se condenada for, Lula ainda tentará fazer crer que essa trinca jamais pertenceu à sua panela. 

Duvidam?

O Risco Institucional das Petralhagens contra o STF


Jorge Serrão  
Alerta Total 

A petralhada arma alguns golpes para impedir que membros de sua cúpula mensaleira acabem condenados à prisão – e peguem cadeia – no julgamento da Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal. A principal petralhagem será a tentativa de fabricar e soltar dossiês contra Joaquim Barbosa – assim que ele assuimir a presidência do STF, em 18 de novembro, após a aposentadoria compulsória de Ayres Britto, que completa 70 anos de idade.

O Partido da Imprensa Governista (o PIG) será mobilizado para desconstruir a imagem de herói agora cultivada por Barbosa. Motivo político: alguns petistas já enxergam como potencial candidato à Presidência da República. Motivo pragmático: atingindo-se o principal acusador dos mensaleiros, os petistas acham que terão mais facilidade para pressionar ou convencer outros ministros do supremo a pegarem mais leve com os mensaleiros na hora da chamada fase de dosimetria das penas – quando serão votadas as penas para cada um dos condenados. 

Além do ataque covarde ao Barbosa, outras artimanhas são previsíveis. Primeira jogada: atrasar ao máximo o desfecho do caso, para além de novembro e, se possível, para o ano que vem, quando o STF terá dois novos ministros indicados pelo governo. Segunda jogada: usar os advogados de defesa para embargarem ao máximo as decisõos dos ministros, atrasando também a decisão final. Terceira jogada: nos bastidores, pressionar ministros a aplicarem as penas mínimas possíveis, para que alguns crimes prescrevam e os réus petistas possam escapar da cadeia, cumprindo penas alternativas como “condenados primários”.

Dificilmente, o julgamento acaba, de fato, este ano. O STF só deve julgar os recursos contra as condenações no ano que vem. Na hora dos recursos, um condenado que pode encontrar salvação é João Paulo Cunha. O regimento interno do STF prevê recursos quando as decisões do plenário não são unânimes, desde que haja pelo menos quatro votos contra uma condenação. João Paulo tem chances de escapar da condenação por lavagem de dinheiro (que prevê de 3 a 10 anos de reclusão).

Motivo: o deputado federal foi condenado por 6 votos a 5. Por isso, vai esticar o máximo a corda e não renunciará ao mandato. Nem a Câmara, controlada pelo PT e aliados, botará sua cassasão em votação. A decisão de condenação no STF já seria suficiente para lhe tirar o emprego parlamentar. Mas como a decisão final não tem data exata para ser dada – após embargos de declaração e embargos infringentes –, João Paulo ganha tempo e continuará “deputando”.

Apesar de o chefão Lula da Silva – que milagrosamente teve o santo nome desligado do mensalão que ele jura nunca ter existido – liderar as manobras de bastidores para livrar os mensaleiros da condenação e cadeia, a petralhada está deprimida e com medinho. Semana que vem, o terror aumenta. O relator Joaquim Barbosa começa seu longo voto da primeira acusação contra o poderoso José Dirceu de Oliveira e Silva, José Genoino e Delúbio Soares. O trio é acusado de corrupção ativa, cuja pena prevista oscila de dois a 12 anos de reclusão. Dirceu também é acusado de formação de quadrilha, mas este deve ser o último tópico do julgamento do Mensalão.

A pressão espúria de bastidores ou o trabalho pessoal e secreto sobre os ministros do Supremo – comandada por Lula e executada por grandes amigos e aliados dele – ocorrerá, a pleno vapor, para tentar salvar José Dirceu. O chefão Lula sabe que a destruição de Dirceu é um investimento de curto prazo em sua própria desgraça. Por isso, serão covardes as petralhagens contra os ministros do STF que insistem em destoar da triunfal vontade nazipetralha.

O tempo é quem revelará se as pressões ocultas terão sucesso. Ou se a maioria do STF terá condições políticas e pessoais de agir conforme sua própria consciência de supremos magistrados independentes. A corte suprema não pode sair desmoralizada deste caso. Se tamanha tragédia ocorrer, e o senso de injustiça prevalecer, o Brasil vai sofrer com a derrocada daquele que deveria ser o mais importante entre os três poderes. 

O certo é que o resultado final do julgamento do mensalão tem tudo para ser um divisor de águas na nossa vida (nada) republicana. Se o Império (ou República) do Crime Organizado sair vitorioso, fatalmente, estará escancarado o caminho para uma ruptura institucional – cujo resultado é imprevisível para um País subdesenvolvido, sem soberania e com liberdades muito relativas.

Nesse cenário de ruptura institucional, o esquema do crime organizado só tem uma chance. Se o pirão não desandar na economia – com crises que baguncem demais a vida da maioria dos formadores de opinião, e das classes média e baixa -, nada se muda radicalmente e tudo fica está para os “puderosos de plantão”. Mas se alguma crise econômica se aprofundar, quem está no poder pode ser trocado.

O risco real, no Brasil, é a constante troca de seis por meia dúzia. Uma quadrilha é substituída por outra, com personagens renovados e diferentes, mas que agem da mesma forma: contra o interesse público nacional. Tal maquiagem institucional sempre beneficia o Governo do Crime Organizado que é operado transnacionalmente. As ordens mafiosas para inviabilizar o Brasil como nação soberana, independente e desenvolvida vêm de fora para dentro.

A organização político-administrativa do crime se consolida com ação permanente dos marionetes usados pela Oligarquia Financeira Globalitária: o esquema político no poder, a máquina estatal que toca a política-econômica e a aparelhagem repressiva fiscal-policial-judiciária, os agentes de influência (sobretudo a mídia) e as forças ocultas (os agentes operacionais do crime).

A perguntinha idiota a ser feita é: quem vai se habilitar a moderar a pancadaria que se desenha em nosso horizonte institucional – se houver quebradeira econômica? Quem souber, nem precisa responder. Basta agir concretamente para conter a ação do Sistema Transnacional do Crime Organizado. Os segmentos esclarecidos da sociedade têm condição de encarar tal missão com competência e sucesso?

Novamente, cabe indagar concreta e objetivamente: quem se habilita para esta parada dura?