sexta-feira, setembro 10, 2010

Servidora da Receita diz que Corregedoria a orientou 'esquentar' violações

Leonardo Souza, Folha de São Paulo

A servidora Ana Maria Caroto Cano disse, em depoimento à Polícia Civil de São Paulo obtido pela Folha, que recebeu ordens da Corregedoria da Receita Federal para apagar vestígios de quebras de sigilo fiscal realizadas em seu computador de trabalho, na agência do fisco em Mauá (SP).

Foi nesse escritório da Receita que foram violados os sigilos de cinco pessoas ligadas ao candidato a presidente José Serra (PSDB).

"Procedimento administrativo foi gerado no âmbito da corregedoria da Receita, quando Ana Maria teria sido orientada pelo próprio órgão censor a identificar os contribuintes que tiveram os sigilos acessados ou devassados através de sua máquina e obter declarações assinadas obviamente por tais contribuintes no sentido de anuírem a tais acessos", informa o depoimento de Ana Maria à polícia.

Ao fazer a acusação contra o fisco, a servidora admitiu que ela e seu marido, o contador José Carlos Cano Larios, cometeram o crime de forjar documentos. Por conta disso, Ana Maria, uma funcionária do Serpro cedida à Receita, foi presa pela polícia paulista.

Por meio da assessoria de imprensa, a Receita em São Paulo preferiu não comentar o depoimento da servidora. A Folha tentou falar com o corregedor-geral do órgão, Antônio Carlos D'Ávila, mas não conseguiu encontrá-lo.

O caso começou quando uma pessoa chamada Edson Pedro dos Santos foi à polícia para prestar uma queixa. Segundo Santos, na segunda-feira ele foi procurado por um homem que lhe pediu para que assinasse uma declaração de que havia solicitado à Receita que acessasse seus próprios dados fiscais.

O interlocutor de Santos era o marido da funcionária do Serpro.

Os policiais foram atrás, então, do casal Cano. Luiz Carlos admitiu que havia procurado Edson. Em seu escritório, os policiais encontraram 23 declarações semelhantes a que havia sido feita para Edson dos Santos.

Ana Maria, por sua vez, admitiu que pediu ao marido para que procurasse as pessoas que tiveram seus dados violados a partir de sua máquina, mas ressaltou que o fez por ordem da Receita. De acordo com a corregedoria do fisco, no computador dela foram quebrados 31 sigilos fiscais.

A servidora afirmou, contudo, que todos os acessos imotivados realizados a partir de sua máquina foram feitos sem a utilização de sua senha.

Colaborou FERNANDA ODILLA, de Brasília

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Neste e nos dois posts abaixo,  temos o roteiro de tres crimes: um, de natureza político eleitoral - o doissê -, que Dilma e Lula tentam abafar na base do berro. Acham que com histeria, seus discursos inflamados, eivados de mentiras, calúnias e mistificações, terão o efeito de enrolar o eleitor.Sobre algumas destas mentiras, retornaremos mais tarde para repor a verdade que Lula assassinou. Dois, um crime grave cometido contra a constituição do país - as violações de sigilos fiscais. E tres, além das procurações falsas, a ação ilegal da Corregedoria da própria Receita, na tentativa de ocultar os crimes de violações.  

Não foi por outras razões, a não ser o respeito à verdade e ao bom senso, que desde a semana passada insistimos de que a história do estelionatário Atella, petista – quase chega a ser pleonasmo – estava muito mal contado. Com o depoimento dado pelo contador Ademir, ontem, mais claro ficou que algo não se encaixava na tramoia toda.

Quanto ao dossiê VERONICA ir parar nas mãos de petistas da campanha de Dilma, bem, já não dá para eles continuarem iludindo o povo brasileiro.

Se isto terá o dom de virar um resultado que a maioria julga já definido, não sei. Só sei que a oposição não pode vacilar: tem que esfregar aos olhos do eleitor, a verdade sobre um presidente e uma candidata que tentam fraudar eleições, com emprego de métodos criminosos nos quais eles e seu partido se profissionalizaram. O país, convenhamos, bem que merece coisa melhor do que esta dupla de vigaristas e farsantes.

Uma última nota: reparem que foi preciso que a Polícia paulista entrasse nas investigações para trazer a verdade à tona. O que se lê acima, não tem nada a ver com as investigações da Polícia Federal, a do Lula, que, como já cansamos de saber, nunca consegue chegar a nada quando o crime se aproxima de petistas graúdos tampouco dos gabinetes do Planalto.

Comitê do PT recebeu dossiê sobre filha de Serra

Folha de São Paulo

O comitê da pré-campanha da candidata à Presidência Dilma Rousseff teve em mãos um dossiê sobre a filha do adversário José Serra (PSDB) com documentos reunidos pelo PT paulista.

Tal papelada havia sido utilizada pelo partido em 2005 para solicitar ao Ministério Público a abertura de inquérito sobre uma empresa de Veronica Serra e do marido, Alexandre Bourgeois.

O nome de Veronica voltou ao noticiário da campanha presidencial na semana passada. A Receita admitiu que a filha do candidato tucano teve as declarações de bens e de renda violadas, a partir de procuração falsa.

Serra tem responsabilizado Dilma pela quebra de sigilo, o que a petista nega.

A Folha teve acesso a cerca de cem páginas do dossiê do PT paulista sobre Veronica. É o resultado de pesquisa em cartórios de registros de documentos, na Junta Comercial de São Paulo e em sites na internet.

Não há nesse lote de papéis indício de quebra de sigilo bancário ou fiscal.

A papelada circulou no "grupo de inteligência" que no início do ano trabalhava para o comitê de Dilma --equipe que foi desmantelada quando a imprensa noticiou sua existência e as tratativas de contratar "arapongas" para espionar oponentes e até mesmo aliados.

ORIGEM PAULISTA

O material é idêntico ao que o partido havia encaminhado cinco anos antes ao Ministério Público estadual e à Procuradoria da República de São Paulo.

O pedido de abertura de inquérito foi uma iniciativa do então líder da bancada petista na Assembleia Legislativa, Cândido Vaccarezza. Hoje ele é deputado federal, líder do governo na Câmara e apontado como um dos favoritos a ocupar a presidência da Casa a partir de 2011.

Em junho de 2005, Vaccarezza chegou a propor uma CPI na Assembleia para investigar uma suspeita levantada pelo PT de que a empresa de Veronica e do marido havia sido favorecida em leilões na CPTM (companhia de trens), no Metrô e na Sabesp (empresa de saneamento).

As apurações do PT a respeito de Veronica começaram logo após o primeiro turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 2004. Serra era o candidato do PSDB e viria a ganhar a disputa contra a então prefeita Marta Suplicy (PT).

Em 2005, a Procuradoria da República paulista abriu procedimento administrativo (investigação prévia presidida por um procurador) para averiguar "crimes contra a ordem tributária e fraude em licitação" desses leilões.

O procedimento deu origem a uma ação judicial, que passou a tramitar na 8ª Vara Federal Criminal paulista.

Contudo, em 2006, o próprio procurador responsável pelo caso pediu o arquivamento da ação. Veronica e seu marido não chegaram a ser chamados nem acusados de nenhuma irregularidade.

O caso foi arquivado na Justiça Federal e no Ministério Público em 2008.

OUTRO LADO

A liderança do PT na Assembleia disse à Folha que agiu dentro da lei e com o propósito de fiscalizar o uso de dinheiro público, tarefa do Legislativo.

Em notas à imprensa e declarações de seu presidente, José Eduardo Dutra, o PT tem afirmado que o partido e a coordenação da campanha de Dilma "não autorizaram, orientaram, encomendaram, solicitaram ou tomaram conhecimento" de dossiês.

Procurada para comentar as investigações realizadas pelo PT-SP acerca da empresa de Veronica, a assessoria da campanha de Serra soltou uma nota: "As especulações da reportagem dão curso às tentativas do PT de jogar lama na campanha na família do candidato José Serra".

"Trata-se da prática de construir dossiês fajutos com informações falsas e insinuações criminosas. Não cabe nenhum comentário a não ser veemente repúdio a quem fez e a quem está divulgando baixarias", diz o texto.

Advogado diz que procuração falsa também foi usada para genro de Serra

Flávio Ferreira, Folha de São Paulo

O advogado de Veronica Serra, Sérgio Rosenthal, afirmou nesta sexta-feira que uma procuração falsa também foi usada para acessar os dados do genro do presidenciável José Serra, Alexandre Bourgeois.

Rosenthal esteve nesta sexta-feira na Superintendência da Polícia Federal em São Paulo para ter acesso aos autos da investigação sobre a quebra de sigilo de sua cliente e marcar a data do depoimento da filha de Serra.

Ao verificar a documentação do inquérito, o advogado constatou que o genro de Serra teve seu sigilo fiscal violado na agência de Santo André (SP), do mesmo modo que Veronica, ou seja, atráves de uma procuração passada em nome de Antônio Carlos Atella, contendo uma autenticação falsa do 16º Tabelião de Notas de São Paulo. Bourgeois também será ouvido pela PF.

Veronica teve seu sigilo fiscal quebrado pela Receita Federal. Segundo o advogado, ela e seu marido, Alexandre Bourgeois, "estão muito incomodados com a violação de sua privacidade indevida e criminosa. Eles não são políticos, são cidadãos comuns, não tem relação direta com essa campanha que não seja familiar".

Rosenthal também fez uma crítica ao fato de a servidora Adeildda Ferreira dos Santos ter comentado que sua senha era "socializada" no fisco. "Isso tem que ser apurado minuciosamente. É de pasmar que isso ocorra em um órgão federal, na Receita Federal. Os cidadãos não imaginam que seus dados sejam tratados dessa maneira."

Editoria de Arte/Folhapress
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No mesmo espelho em que Fidel se vê, um dia refletirá o verdadeiro Lula

Leiam a notícia a seguir, por Isabel Braga, para o jornal O Globo. Comento em seguida:

Investigação é uma coisa, eleição é outra, diz PF
Isabel Braga, O Globo

O ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, e o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, afirmaram nesta quinta-feira que as investigações sobre a quebra de sigilo fiscal de tucanos na Receita Federal são isentas e não estão pautadas pela eleição.

Segundo o ministro, as investigações estão sendo conduzidas dentro do tempo certo que uma investigação exige. Corrêa acrescentou que a Polícia Federal está respeitando "o devido processo legal e o princípio da qualidade da prova".

A eleição não pauta a Polícia Federal. A Polícia Federal segue com operações pelo Brasil afora, e esse caso não pode, em razão do calendário, ser acelerado. O que nos pauta é o devido processo legal e qualidade da prova.

O que nos estamos imprimindo é um esforço diante da centralidade que isso ganhou no momento sensível que vivemos. Sabemos que esse caso tem uma angustia na sociedade, então estamos colocando mais servidores - disse o diretor-geral da PF.

Corrêa acrescentou ainda que a PF trabalha em sigilo, regra de qualquer inquérito, e que neste caso há a imposição de sigilo Justiça. Segundo ele, as diligências necessárias estão sendo feitas para que a PF cumpra todos os "preceitos legais" e apresente um resultado numa investigação que "se tornou um caso de interesse de toda a sociedade."

O ministro da Justiça não quis se alongar sobre o tema e evitou falar sobre a hipótese de afastamento do secretário da Receita Federal , Otacílio Cartaxo:

- A Polícia Federal tem uma investigação aberta, isenta, que está sendo produzida com celeridade, mas dentro de um ritmo normal. Tem tempo certo para investigação de provas, tempo necessário para segurança que se quer ter nesse tipo de investigação. (A saída de Cartaxo) é uma avaliação do Ministério da Fazenda.

Corrêa e o ministro Barreto participaram nesta quinta-feira de assinatura de convênios de cooperação entre o Ministério da Justiça e o Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília.

COMENTO:
Não por mera coincidência, estamos completando nesta semana, quatro anos em que veio ao mundo o caso dos Aloprados. Bem mais consistente do que o mais novo escândalo petista na praça, o discurso dado pela mesma Polícia Federal à época, por um outro ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, mas que parece ter sido clonado pelo atual ministro, tudo, em suma, parece repetir-se. Nada mudou, até a vítima principal  é a mesma, o ex-governador José Serra.

E qual foi o resultado prático daquele discurso todo de quatro anos atrás? Apesar do crime, do objeto do crime e da existência conhecida dos criminosos, resultou num inquérito, que também foi levado para depois das eleições e ninguém, pasmem, acabou punido. Até pelo contrário: todos os petistas permanecem onde sempre estiveram, aninhados nas gordas tetas do poder.

E a “esplêndida” conclusão do inquérito em 2006, mesmo diante de tantas provas e evidências, resultou em um sonoro deboche para os crentes no senso de justiça dos petistas: para os amigos do poder,  a lei que se dane. Isto é, foi tudo devidamente arquivado sem conclusão de coisa alguma.

Neste caso dos sigilos, há provas do crime, há milhares de vítimas, mas alguém espera que as investigações resultem em se declarar quais são os verdadeiros culpados e que estes, se descobertos, sejam punidos? Esqueçam, ou se iludam à vontade. O Partido do crime organizado no poder jamais pune os seus capangas. Pelo contrário: os agracia com outras benesses e privilégios.

Um parênteses: o mensalão já se arrasta há cinco anos. O escândalo veio à tona ainda no primeiro mandato de Lula. De lá para cá, ele já foi reeleito, está terminado seu segundo mandato e não se sabe quando o processo será destravado pelo ministro Joaquim Barbosa, do STF. E os mesmos mensaleiros estão todos aí, como se nada tivesse acontecido.

Retomando, Lula, em mais uma das muitas declarações estúpidas, disse que São Paulo precisa mudar, que não podem eleger para governador mais uma vez os tucanos e que o PSDB não sabe governar. Se não soubesse, evidentemente, que os paulistanos já teriam trocado . Se não o fizeram, é porque os tucanos não apenas sabem governar, como governam com competência. Lula não pode se arvorar em ser o juiz das escolhas que o povo faz. Pode discordar, mas não lhe compete julgar a opinião de milhões de pessoas. Até porque, São Paulo não apenas é economicamente muito bem resolvida, mas seu povo tem nível de escolaridade e senso de informação bem mais elevados do que a gente da Nordeste. Ou não? Ou se poderia dizer que, pela mesma régua com que Lula julga as escolhas dos paulistas, poderíamos julgar a escolha em Dilma, por exemplo.

Além disso, a sorte do Brasil foi que, antes de Lula e sua turma chegarem ao poder, foram os tucanos que tiveram a missão dura de pôr ordem na casa, garantindo a estabilidade econômica e políticas sociais para redução da pobreza, além de fortalecerem as instituições democráticas, dando-lhes a resistência necessária para impedir que o PT instalasse seu regime de terror. E a prova dos absurdos que eles pretendiam para o Brasil – e ainda pretendem - são as inúmeras tentativas de impor censura à liberdade de expressão, a tentativa de impor a mordaça ao judiciário, o plano maquiavélico de Direitos Humanos e os projetos resultantes dos Confecoms de merda que resultaram em inúmeros projetos que, num provável governo Dilma, vão sim, violar mais este preceito constitucional, que é a livre manifestação do pensamento.

Nem vou perder tempo em analisar o restante da fala que, como sempre, é delinquente, mentirosa, excessivamente agressiva e preconceituosa. Infelizmente, Lula, seja como candidato a qualquer coisa ou como presidente, tem mantido, em palanques, a mesma postura falsa e demagógica de sempre, parece mais animador de auditório do que qualquer coisa. Não sabe o que significa a palavra respeito. E não sabe por ser mau caráter.

E, por mais que, feito cão raivoso, ele tenta rebater as acusações sobre a questão dos sigilos, até agora sequer desculpou-se junto às vítimas, como ainda sequer determinou que se pare com o assalto à constituição e às instituições, que estão praticadas praticadas por gente do seu partido. Até pelo contrário: além de negar, sistematicamente, os crimes, alimenta, pela omissão, que eles prossigam delinquindo de forma continuada, além, é claro, de culpar às vítimas. Sempre haverá uma recompensa para agraciar seus contumazes aloprados. E isto se repete desde 2003.

Quanto a história contada pelo estelionatário Antonio Carlos Atella, continua me parecendo cada dia mais surreal, o que me dá convicção ainda maior quanto à característica de crime político eleitoral por detrás das violações de sigilos da filha e genro de Serra e dos tucanos envolvidos na ação criminosa.

Lula pode tentar enganar a todos quantos ainda não acordaram e não têm consciência da sua delinquência política. Pode achar que a história que tenta reescrever a seu favor permanecerá intocável eternamente. Mas não haverá popularidade suficiente que consiga ocultar, eternamente, o cidadão cafajeste que sempre foi. Por mais simpático que possa parecer. Os tiranos de Cuba, riam sobre cada corpo que assassinavam. Tanto quanto estes, todos os tiranos sentem incomparável prazer em torturar, matar, delinquir. Lula sente um prazer incontido em reverberar por todos os seus poros a sua compulsão indomável à mentira, à demagogia barata e ordinária, a seu comportamento repulsivo de vigarista de quinta categoria. Acha que, pelo fato do povo brasileiro ser constituído por uma imensa maioria de analfabetos e desinformados, todos podem ser induzidos pela sua arrogância e ignorância a lhe servirem de capachos. Nada mais ilusório do que se imaginar acima do bem e do mal. Nada mais grotesco do que um tirano se imaginar inatingível. Nada mais vulgar do que imaginar que a sua torpeza pode ser entendida como atributo de caráter. O tempo ensinará a Lula que o poder o corrompeu e o iludiu quanto à sua própria dimensãoinsignificante. A história tem ensinado que não há perdão para aqueles que fazem da tirania seu fio condutor sobre os povos que um dia governaram. Se Fidel, mesmo agonizante, pode descobrir isto, Lula, por certo, descobrirá esta verdade talvez em menos tempo.

E, por favor, não me peçam para condescender com Lula apenas por se tratar de Lula. Tanto ele, quanto qualquer outro, que se utilize de crimes para assaltar a constituição, garrotear as instituições democráticas e aparelhar o Estado em favor de um partido, para favorecer seu projeto de poder, é tirano, sim. E, por isso mesmo, não merece, nem de minha parte tampouco de todos os quantos defendam os reais valores da democracia e do estado de direito pleno, a menor condescendência. Devem ser tratados por aquilo que realmente são: escória.

Digo isto não apenas por conta da violação de sigilos que só por si já são crimes graves o suficiente para justificar a crítica: mas porque este tipo de crime tem sido comum e revela, no seu conjunto enorme de crimes semelhantes, um método de governança que só beneficia uma parcela ínfima da sociedade, o detentor do poder e sua corte que , feito mariposas diante da lâmpada acesa, circula em seu entorno, genuflexa e submissa. De trapaceiros e vigaristas, o país já tem mais do o necessário. Não precisamos de um representante desta categoria instalado na presidência da República.

Reforma tributária: a sociedade quer, mas o governo, não!

Adelson Elias Vasconcellos

Para os governantes brasileiros, de qualquer nível, presidente, governadores e prefeitos, a bandeira de menos impostos, é válida apenas para discursos na fase de campanha eleitoral. E isto vale, por extensão, para TODA a classe política, incluindo-se aqui, inclusive, a turma do Judiciário. Menos impostos significa menor arrecadação, e arrecadação menor significa menos dinheiro disponível para a gastança desenfreada que ocorre em todos os níveis do poder. Significa menos mamatas e privilégios, menos respeito e responsabilidade com recursos que, afinal, são tirados da sociedade, goste ela ou não.

Há um sentimento de posse por parte do Estado. O dinheiro que se arrecada, uma vez chegado ao caixa do Tesouro, deixa de ser propriedade da sociedade e passa a ser propriedade "deles", coisa nossa, pelas autoridades. Esquecem, rapidamente, de que os recursos advindos das dezenas de impostos, taxas e contribuições, continuam a pertencer à sociedade e que à ela devem retornar na forma de serviços. E, quanto maior a carga tributária incidente, mais elevados devem ser os serviços que são obrigação do Estado.

Porém, as pessoas que habitam o poder tem raciocínio totalmente diferente. Já que a nossa grana está lá, passa a ser tratada como se ao Estado pertencesse e, neste caso, independente da carga e seu peso opressivo para a sociedade, se devolve o mínimo necessário, e o restante deve ser repartido entre eles na forma de privilégios – muitos deles imorais – e que a sociedade se dane.

Esta dicotomia só será encarada de forma diferente no dia em o povo brasileiro, na sua maioria, tiver consciência de que se, por um lado, é seu dever pagar impostos, por outro, é seu direito cobrar transparência e responsabilidade dos governos para que, do volume arrecadado, haja efetivo retorno à sociedade. E EXIGIR, COBRAR faz parte da cidadania.

Não é por outra razão que as oligarquias assentadas no poder, apesar do discurso, na prática, não demonstram o menor interesse em educar o povo brasileiro para tornar-se, efetivamente, um cidadão.

Portanto, esta cascata dos políticos ou candidatos quanto a reforma tributária, redução de impostos, que fazem de boca cheia em tempos de eleição, não passa de pura demagogia.

Esqueça-se Lula, já em final de governo. Consideremos apenas Dilma, a provável sucessora na presidência da república. Em momento algum, quando aborda o tema REFORMA TRIBUTÁRIA, ela transmite segurança no que diz. Seu discurso é vazio, genérico, superficial. Sua afirmações de que é preciso reduzir a carga tributária, fazem parte do discurso feito na medida certa para agradar os públicos que a ouvem. Porém, não se ouve da candidata propostas concretas que sinalizem que, de fato, ao assumir, vá se empenhar para que a prometida reforma tributária se concretizasse. Não é só ela, não: os demais candidatos seguem na mesma direção.

Para que haja uma reforma tributária digna do nome, é preciso acabar com uma coletânea de cultura na gastança pública que imprima à máquina responsabilidade com algo que não lhe pertence. É preciso adotar como critério básico a responsabilidade do Estado para com o cidadão. É preciso reformar todo o aparelhamento inútil de uma máquina hiperdimensionada, inútil, paquidérmica e pondo fim a centenas de privilégios facilmente identificáveis em todos os níveis de poder. É preciso que o Estado entendaque, em última análise, que é ele quem deve servir à sociedade, e não o contrário, como hoje ocorre.

Mudar esta mentalidade, além de ser não tarefa das mais fáceis, exigiria um esforço que se estenderia ao longo do tempo, consumindo três a quatro gerações para concretizar-se. Esta cultura do estado sou eu ou é meu, com que os ocupantes do poder se revestem, é centenária. Mudá-la, portanto, exige, primeiro, educação, e não uma educação qualquer, como se vê atualmente. Segundo, consciência de cidadania, não esta coisa subserviente que vigora no país. Terceira, uma total limpeza do próprio Estado.

Se perguntarem a Dilma esta questão longe dos microfones e holofotes da imprensa, acreditem, ela não apenas vai defender o gigantismo inútil do Estado na forma como o vemos hoje, como ainda considerará ser ainda insuficiente a presença a sua presença na vida da sociedade. Por conseguinte, ao fim e ao cabo de sua peroração, concluirá que o tamanho dos impostos ainda são insuficientes.

Nas reportagens da Veja.com que reproduzimos nos posts anteriores, vimos que há países onde a bandeira da redução de impostos está presente no programa partidário de muitas siglas. No Brasil, acreditem, não há  um só partido que coloque em seus regimentos, programas e estatutos tal compromisso. Como disse, a tal redução da qual o povo tanto cobra dos políticos brasileiros, você verá atendida apenas nos discursos. Uma vez chegados ao poder, eles venderão à sociedade um rol imenso de dificuldades que impossibilitam mudar o complexo tributário que asfixia o país.

Uma destas muitas razões com que os políticos se justificam para empurrarem com a barriga uma reforma decente – e indispensável para o nosso desenvolvimento - é a dificuldade de se atender inúmeros interesses, como se o interesse do país não pudesse ser maior do que os interesses de alguns privilegiados. Depois, de que se teria dificuldades de se obter maioria parlamentar suficiente para aprovar o que é preciso.

Já disse aqui e repito: se houvesse – mas, não há – real interesse do governo federal, por exemplo, de ver aprovada uma reforma digna do nome, ele sequer precisaria, num primeiro momento, do Congresso para tanto. Bastaria que alongasse os prazos de recolhimento de alguns impostos para sinalizar sua decisão firme de aliviar o peso que recai sobre os contribuintes. Sabem por quê? Inicialmente, quiçá o Brasil seja o único país do mundo que paga imposto antes da riqueza ser gerada. Pagamos tributos antecipadamente, e independente dos produtos e serviços gerarem receitas ou, até, lucros. Esta cultura torta e esquisita, passou a ser adotada ainda no tempo da hiperinflação, como forma de proteção à saúde monetária do caixa do governo. Reduzindo-se os prazos, os governos conseguiam, não com certa ginástica, manter certo equilíbrio em seus orçamentos, sem a necessidade de ver ou gerar mais inflação ainda. Contudo, atingida a estabilidade e com a inflação debelada, ou mantida sob controle, esta redução deixou de ser necessária. Se antes era positiva, hoje, se transformou num transtorno a ceifar a capacidade das empresas até para sua própria sobrevivência. Querem ver o resultado deste descalabro?

Sabemos que, comparativamente, o país tem produtos que, se importados seus similares do exterior, e apesar da carga de impostos frutos da importação, eles nos chegam aqui à metade do preço do que fôssemos adquiri-los internamente. Automóveis e eletrônicos são exemplo disto. Além da excessiva carga de impostos, há todo um custo financeiro que incidem sobre o preço final. Sabem por quê? Este custo financeiro é fruto, em grande parte, do fato das empresas precisarem financiar seu capital giro através de empréstimos bancários. Como quase todas as empresas recorrem à rede bancária para obter linhas de crédito para capital de giro, e a procura é maior do que a oferta, os juros cobrados são altíssimos. Para que eles não corroam a rentabilidade dos negócios, as empresas precisam adicionar ou embutir ao preço final, além dos elevados impostos, também o elevado custo financeiro.

E onde está o capital giro natural das empresas? No caixa do Tesouro Nacional, em razão desta loucura chamada sistema tributário, que cobra imposto antes da riqueza ser gerada. Não fosse assim, voltássemos ao período um pouco mais racional, e por certo, a necessidade de se financiar capital de giro junto a rede bancária seria menor. Com menor procura, o sistema financeiro acabaria reduzindo seus juros e taxas, e isto beneficiaria a todos.

Dá prá fazer? Dá, porém também os governos se obrigariam a remanejar seus custos correntes e racionalizariam a máquina pública a uma nova realidade. Outra forma de se aplicar uma reforma sem a necessidade de se recorrer ao Congresso, mas com enormes benefícios para as empresas e consumidores, seria a simples redução de alíquotas. Veja-se o que o governo Lula fez no auge da crise internacional recente: para manter ou até elevar o nível de consumo, ele simplesmente reduziu e até zerou as alíquotas de IPI para inúmeros produtos. Qual a consequência? O desemprego acabou sendo menor do que o que poderia ter sido,  a atividade econômica se manteve aqueccida e o país sofreu menos do que poderia ter sofrido. O governo teve prejuízos? Não, porque se de um lado houve perda de arrecadação por redução nominal de impostos, em termos absolutos, por terem as vendas sido em volumes maiores, acabou recuperando, mesmo que a taxas inferiores, praticamente o mesmo do que foi desonerado.

Portanto, vejam que a adoção de medidas simples, sem a complexidade de negociações legislativas, seriam o suficiente para o governo sinalizar seu real interesse em aliviar seu peso sobre a sociedade em geral.

Além disso tudo, há uma questão que a sociedade precisa entender, exigir, cobrar, reclamar: a pouca transparência tanto no quanto que se arrecada sobre cada item que se consome, bens ou serviços, e a transparência praticamente zero de como o volume arrecadado é aplicado em seu benefício. Aliás, apenas neste último item, acredito que o povo brasileiro levaria um tremendo susto do quanto, efetivamente, lhe é retornado. Claro que, pela péssima qualidade dos serviços, já se pode dimensionar o quanto de descaso o Estado brasileiro retorna à população. Mas transparência, soa como palavrão para a classe política. A gente até sabe por quais motivos...

Como se vê, o discurso da tal reforma tributária, não passa de um engodo, de um discurso hipócrita que se aplica apenas para agradar aos eleitores. Terminada a eleição, o discurso é engavetado e o esquizofrênico sistema tributário permanece vivo e inalterado, para a alegria da classe política, que continuará torrando nosso dinheiro a mãos cheias, e para a tristeza dos trouxas que acreditam nas promessas de campanha.

No fundo, esta má vontade e falta de compromisso dos políticos para se levar adiante uma das reformas mais indispensáveis para o futuro do país, sinaliza, primeiro, sua própria indigência moral: são incapazes de abrir mão de seus privilégios em favor daqueles que os mantém no poder. E, segundo, sinalizam que, empossados em seus cargos, não têm a menor noção do que fazer, a não ser atuarem em causa própria. Por fim, nenhum deles pensa em projeto de país, apenas em projetos pessoais para se locupletarem. Enquanto o Brasil se mantiver devotado apenas ao imediatismo, não haverá jeito de ingressar no mundo civilizado. Seremos sempre, e apenas isso: uma nação em desenvolvimento, um país do futuro, e de um futuro muito, muito distante.

Carga tributária penaliza a todos, sobretudo os mais pobres

Veja online

Complexa, confusa, pesada, pouco transparente e injusta.

Esta é a estrutura tributária brasileira.

Brasileiros de todas as classes sociais e regiões do país sabem que pagam impostos quando consomem. A conclusão está exposta no livro O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo (Editora Record, 196 páginas), do cientista social e sócio-diretor do Instituto Análise, Carlos Alberto Almeida. Tal como em seu best-seller A Cabeça do Brasileiro, o autor expõe no livro as conclusões de pesquisa realizada em todo o país. A que deu origem a O Dedo na Ferida foi realizada no ano passado e revela que, apesar de a população estar ciente de que é tributada ao adquirir bens e serviços, a maioria desconhece a proporção dos impostos embutidos nos preços finais. Os que se arriscam a adivinhar, tendem a ser generosos com o governo e respondem que o volume de impostos é bem menor do que realmente é. Neste sentido, o livro se propõe a jogar luz sobre uma grave deficiência do complexo sistema tributário nacional: o fato de muitos impostos que pesam sobre a economia serem invisíveis ao contribuinte.

O expressivo desconhecimento da população sobre o quanto é tributada no consumo de bens de serviços – 47% da arrecadação provém daí – tem razão de ser. A estrutura tributária brasileira é tão embaralhada que é praticamente impossível saber com precisão quanto se paga de imposto em cada produto. A principal explicação é que, além dos chamados impostos indiretos (PIS, COFINS, IPI, ICMS etc.), que incidem sobre o consumo e cujo impacto no preço final é mais fácil de estimar, existem diversas outras taxas que se diluem nos custos das empresas e acabam sendo transferidas em maior ou menor grau ao consumidor. Está dada a receita para umas das maiores cargas tributárias do mundo, equivalente a 33% do PIB.

A consequência direta do desconhecimento por parte da população do quanto transfere de sua renda aos cofres do governo é a ignorância sobre o tamanho do estado. Para Enlinson Carvalho de Mattos, professor de Finanças Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), um sistema tributário mais transparente possibilitaria ao contribuinte ser um fiscal da utilização dos recursos arrecadados via impostos. “Um sistema mais transparente geraria, portanto, mais cobrança dos governos pelo bom uso do dinheiro público. É como se a população passasse a exigir a contrapartida pelo dinheiro que entregou ao estado”, afirma.

Além de pouco transparente, a estrutura tributária do país pesa sobre o setor produtivo – e indiretamente sobre os consumidores – por sua complexidade. “As empresas brasileiras gastam uma fortuna só para cumprir obrigações acessórias. Isso acaba virando um ônus que é repassado ao consumidor”, explica o consultor tributário Clóvis Panzarini.

Distorção social – Complexa, confusa, pesada, pouco transparente. E também injusta. A estrutura tributária brasileira, por possuir grande quantidade de impostos que incidem sobre o consumo, tem a característica de ser “regressiva”. Em outras palavras, ela tributa igualmente os desiguais. O sistema acaba por penalizar os mais pobres, que têm de arcar, com uma renda menor, com a mesma quantidade de impostos embutidos nos preços dos produtos.

Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) revela que uma família que ganha até dois salários mínimos tem 45,8% de sua renda corroída pelos impostos indiretos. Essa proporção diminui consideravelmente conforme a renda da família aumenta. “Os impostos sobre consumo e serviços não levam em conta a capacidade contributiva das pessoas”, explica Letícia do Amaral, advogada tributarista e vice-presidente do Instituto de Planejamento Tributário (IBPT).

Para calibrar o peso tributário conforme a capacidade contributiva, a solução seria migrar a incidência da carga tributária mais para a renda e menos para o consumo, sugere Maria Helena Zockun, economista e coordenadora de pesquisas da Fipe. A despeito de ser complicada politicamente, a professora defende a urgência de uma reforma. “É complicada porque é transparente. O contribuinte sabe quanto está pagando e o político não quer que ele saiba. Por isso não acontece nada”, lamenta.

A acadêmica argumenta que a regressividade da carga tributária e sua transparência são temas que só serão levados a sério em campanhas eleitorais quando as classes populares tomarem consciência de seu papel como contribuintes. “Enquanto o eleitor não souber, isso não pesa no voto. E enquanto não pesa no voto, não pesa na decisão política”, conclui.

Tamanho do estado - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido publicamente a pesada carga tributária brasileira – de 33,58% do PIB, uma das mais altas do mundo. Sua justificativa é de que ela constitui condição fundamental para que o país possua um estado atuante. “Todos os países desenvolvidos, que têm sistema de bem-estar social, têm carga tributária bem mais elevada, em cerca de 50% do PIB”, comparou Lula, em julho.

Sua candidata à sucessão presidencial, Dilma Rousseff, repete o raciocínio. Em plena campanha, a ex-ministra tem afirmado que a carga tributária brasileira é razoável. Seu principal adversário, o tucano José Serra, diz o contrário: “Não concordo com a afirmação de Dilma que diz que a carga tributária é razoável: ela não é razoável”, afirmou o candidato no início de agosto. Segundo ele, a ex-ministra, ao falar sobre impostos, põe lado-a-lado o país com a Noruega e a Suécia, quando, na verdade, deveriam ser criados parâmetros de comparação com nações em desenvolvimento.

Decisão do Supremo pode abrir caminho para ações contra imposto em cascata

Ana Clara Costa (*), Veja online

Em caso de derrota da União, empresas poderão se basear em sentença do STF sobre incidência da Cofins para realizar novos questionamentos

Cobrança de ICMS sobre ICMS é constitucional. Contudo, há um vácuo jurídico sobre outros tipos de cobrança de imposto sobre imposto

União luta para que imposto em cascata seja considerado constitucional pelo STF (Orlando Brito)

O julgamento de uma ação movida pela Axa Seguros contra a União contestando a constitucionalidade da cobrança da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) coloca o Supremo Tribunal Federal (STF) em situação delicada. Mais do que difinir o futuro da Cofins, a sentença poderá abrir um importante precedente: estimular outras empresas a irem à Justiça para questionar a incidência de impostos em cascata – prática custosa e, infelizmente, corriqueira do sistema tributário brasileiro.

O STF deverá decidir sobre uma questão antiga: deve-se descontar o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a cobrança da Cofins? A questão, de natureza técnica, impacta de forma direta o bolso dos consumidores e o caixa das empresas. Quando o ICMS incide sobre o valor de um produto ou serviço, ele não recai sobre seu preço real, mas sim sobre seu valor acrescido de impostos (como o PIS e Cofins). Uma decisão favorável à Axa Seguros – e, consequentemente, ao contribuinte – pode abrir caminho para que outras companhias contestem pagamentos realizados nos últimos anos. Caso o julgamento seja favorável à União, o STF atestaria, na prática, a constitucionalidade do cálculo do Cofins, impedindo novas ações provenientes de empresas.

O objetivo da Axa – e de outras companhias que movem processos semelhantes, mas que ainda não chegaram ao STF – é reaver valores pagos ao longo de anos, que invariavelmente foram repassados aos consumidores. "Na hipótese de as empresas conseguirem ganho de causa, elas poderão ficar com crédito junto à União. Serão as beneficiárias dessa restituição, caso ocorra", afirma Mario Sérgio Carraro Telles, economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Levar um julgamento até o Supremo não é tarefa fácil. O órgão tem se esforçado, nos últimos anos, para julgar ações atravancadas ao longo de décadas. O caso específico da Axa desenrola-se há cerca de quatro anos e, até o momento, conseguiu ganhar a maior parte dos votos no STF (6 favoráveis e 1 contra). A União, no entanto, utilizou uma manobra para virar o jogo. Lançou mão de uma Ação de Declaração de Constitucionalidade (ADC) em que pede que o STF vote uma questão mais profunda e delicada. "Note-se, por fim, que, se inconstitucional fosse a incidência da Cofins sobre o valor do ICMS embutido no preço das mercadorias e serviços, também o seria, com muito mais razão, a incidência do ICMS sobre o próprio ICMS", diz o documento, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao ampliar essa discussão, a União coloca o STF na espinhosa situação de julgar a própria cobrança do ICMS e, por extensão, a prática de recolher imposto sobre imposto. No caso do ICMS, a cobrança, segundo os juristas, é perfeitamente legal (Emenda Constitucional nº 33 de 2001). “Esse não é um cálculo justo, mas está na Constituição”, afirma Roberto Cunha, sócio da área de assessoria tributária da consultoria KPMG.

Sobre a incidência de ICMS na base de cálculo da Cofins e de outros impostos, não se pode dizer nem que a prática é constitucional nem que é inconstitucional. Como não é garantida por lei, sua aplicação encontra-se em um vácuo jurídico, que abre espaço para contestação.

Ao pedir que a avaliação seja mais ampla, a União não contesta o atual cálculo do ICMS – mas procura indicar que, assim como neste caso, a cobrança da Cofins está em conformidade com a Constituição. “Dificilmente uma decisão do Supremo será contrária ao governo”, afirma o tributarista Felippe Breda, professor da PUC de São Paulo e advogado do escritório Emerenciano, Baggio e Associados. Segundo ele, a influência política é um fator crucial no julgamento do STF. “Não se trata de uma corte acima dos três poderes”, diz.

Procurada por VEJA.com, a Advocacia Geral da União (AGU) – que defende o posicionamento tributário do governo – reconheceu, por meio de um comunicado, que "não será possível descartar a superveniência de outros questionamentos sobre a dinâmica tributária no Brasil", caso a decisão do STF seja a favor da revisão do cálculo da Cofins. No entanto, o órgão defende a manutenção das atuais alíquotas com o argumento de que uma decisão desfavorável ao governo poderia gerar grandes perdas no financiamento de projetos sociais. "Estimamos que um resultado negativo possa trazer um impacto 12 bilhões de reais ao ano nas contas da seguridade social", relata o comunicado.

Se o Supremo tomasse a decisão contrária aos interesses do governo, sua interpretação se estenderia automaticamente a outros questionamentos existentes. Nada impediria que outras empresas entrassem na Justiça para reaver valores pagos "a mais" em função de uma tributação em cascata. Estaria aberto um importante precedente para questionar a forma como está estruturada a cobrança de impostos no país. Longe ainda ser uma "reforma tributária" efetiva, estas ações constituiriam fator inegável de pressão sobre as autoridades por mudanças.

(*) Com reportagem de Beatriz Ferrari

Tributação em cascata é uma peculiaridade brasileira

Ana Clara Costa, Veja online

Desde a criação do ICMS, vários tributos nacionais sofrem “efeito cascata”

A tributação de imposto sobre imposto é uma peculiaridade brasileira. De acordo com o economista Isaías Coelho, professor sênior do Núcleo de Estudos Fiscais da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV), “essa indesejável cumulatividade é incomum nos sistemas tributários mundo afora”.

O exemplo mais emblemático dessa característica é conferido pelo Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), regulamentado pela Constituição de 1988 com o objetivo de tributar tudo o que é produzido e comercializado em território nacional, e também as exportações e importações. O tributo, cujas diferentes alíquotas são fixadas pelos estados, é o mais disseminado e polêmico da estrutura tributária do país. Como está presente em todos os elos de uma cadeia produtiva, seu recolhimento ocorre diversas vezes e leva à cobrança de imposto sobre imposto (em cascata).

Segundo Coelho, este tipo de tributação obedece a uma dinâmica segundo a qual todos os tributos criados devem estar interligados e incidir sobre o valor de um produto já com impostos – e não apenas o seu valor real. "Há uma cultura do imposto sobre o imposto no Brasil", declara. O ICMS, acrescenta o economista, abriu o precedente. Depois dele, vários outros tributos passaram a incidir em cascata.

O ICMS possui ainda o agravante de incidir sobre outros impostos, como a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e o Programa de Integração Social (PIS). Um exemplo comum é o da conta de luz. Ao invés de ser calculado a partir do valor relativo ao consumo, o ICMS usa como base de cálculo a soma consumo mais Cofins. A conta para o consumidor fica, é claro, mais cara.

Para o especialista, além da redução da alíquota de cada imposto (defendida por muitos economistas no âmbito de uma reforma tributária), seria importante que todos os cálculos se baseassem nos valores reais dos bens e serviços. "Essa clareza nas alíquotas seria o primeiro passo. O segundo seria a discriminação do quanto se paga de impostos sobre mercadorias e serviços em todas as compras, como ocorre nos Estados Unidos", diz Coelho. O economista refere-se ao fato de que, naquele país, o consumidor tem plena consciência do valor real do produto e do quanto paga de imposto – a quantia está discriminada em todas as notas fiscais emitidas. "É um exercício de transparência que melhoraria a qualidade da tributação no Brasil", afirma.

Brasil quer menos imposto, mas carece de políticos que levantem essa bandeira

Beatriz Ferrari, Veja online

Cerca de 90% dos participantes em enquete realizada por VEJA.com pedem menor tributação. Contudo, essa demanda não é defendida pela classe política

Inexistem no Brasil partidos comprometidos em transformar essa demanda da sociedade por menos impostos em programas de governo – a exemplo do Partido Republicano nos Estados Unidos

Enquete realizada por VEJA.com nesta semana revelou que os brasileiros estão descontentes com a carga tributária brasileira e não concordam com o posicionamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, que defendem publicamente a arrecadação de impostos no total de 33,58% do PIB em favor de “um sistema de bem-estar social”, a exemplo das “nações desenvolvidas”. Do total de leitores que participaram da enquete, 50,25% não concordam com a postura do governo por acreditar que a gestão competente dos recursos elimina a necessidade de aumentar tributos. A segunda opção mais votada, com 40,38%, aponta total discordância com os impostos elevados, que só serviriam “para sufocar a iniciativa privada e o consumo”. Com votações menos expressivas, a opção “Concordo em parte” foi escolhida por 5,76% dos participantes, e a “Concordo plenamente”, por 3,60%. No total, foram contabilizados 1944 votos. Os leitores também participaram com comentários, criticando, em sua maioria, os impostos altos, que não são transformados em serviços públicos de qualidade para a população.

O resultado evidenciou o enorme descontentamento dos participantes com os altos impostos vigentes no país. Analistas ouvidos por Veja.com apontam, no entanto, que o Brasil carece de representantes na classe política que lutem para traduzir esse descontentamento em reformas efetivas.

De acordo com o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, a dificuldade de se avançar na discussão deste tema advém de um “vácuo político”. Ele argumenta que inexistem no Brasil partidos comprometidos em transformar essa demanda da sociedade por menos impostos em programas de governo – a exemplo do Partido Republicano nos Estados Unidos, que tem na redução da carga tributária uma de suas principais bandeiras. “É preciso ter uma oposição ativa que bata nesta tecla. Nós não temos um partido liberal, que se assuma como tal, do ponto de vista econômico e político”, pontua.

Cortez explica que a ausência de um porta-voz para este tema possui estreita relação com a história recente do país. “A visão liberal é associada à direita, que, por sua vez, é associada ao regime militar. Isso constrange o crescimento de um partido liberal no país”, explica.

Outro aspecto preocupante é o fato de a agenda política nacional pautar-se significativamente em assuntos de curto prazo. Os governantes preocupam-se com a reeleição e ninguém quer perder recursos para implementar complexos programas de governo. “Se nenhum dos entes federativos (União, estados e municípios) quer perder recursos, fica difícil discutir reforma tributária”, afirma Cortez.

O economista Raul Velloso, especialista em contas públicas, destaca a semelhança do resultado da enquete com o que foi constatado pelo cientista político Alberto Carlos de Almeida, no levantamento que deu origem ao livro “O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo” (Editora Record, 196 páginas). “O descontentamento expresso pela população é o mesmo”, afirma. A pesquisa amostral realizada pelo autor em 2009 em todo o território nacional mostrou que 63% da população apoiaria, por exemplo, maior redução do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) da linha branca e dos automóveis. Na região Sul, o índice chegou a 79%. O livro revelou, na avaliação de Velloso, que a população está pronta para responder bem a políticas de redução de impostos. “Os políticos, contudo, não percebem ou não querem incorporar esse pleito em suas agendas”, avalia.

Presidente partido

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

No dia da Independência, de broche da Bandeira Nacional na lapela, o presidente da República fez um pronunciamento à Nação no horário eleitoral do PT para desancar a oposição, defender sua candidata a presidente e confundir a opinião pública acerca das quebras de sigilo fiscal na Receita Federal.

Além de deformar os atributos do poder delegado pelas urnas, o presidente eleito para presidir a todos os brasileiros trabalha para um partido (o que é vedado pela Constituição) e se imiscui indevidamente nas investigações em andamento na Receita e na Polícia Federal.

Procurando dar uma feição oficial ao manifesto acusou seus adversários disso e daquilo, mas não contou o caso direito nem entrou em nenhum detalhe sobre o assunto que põe sob suspeita o governo, o PT e a campanha presidencial do partido.

Luiz Inácio da Silva não esclareceu coisa alguma sobre o que está acontecendo, só afirmou que "baixezas" são cometidas contra a candidata a presidente e, de maneira demagógica, estendeu a "ofensa" às mulheres de todo País.

Se a candidata não sabe - ou não pode - se defender, a maioria das mulheres sabe perfeitamente como fazer isso, embora muitas não disponham de instrumentos suficientes e nem todas obtenham êxito.

No caso, a defesa extensiva de sua excelência seria bem recebida não só por mulheres, mas também por homens. Todos os cidadãos que tiveram o sigilo violado na Receita gostariam de ser defendidos por Lula, mas até agora não mereceram atenção das autoridades, preocupadas com a única mulher que ao governo interessa: Dilma Rousseff.

Tirando ela, a necessidade de protegê-la e a ânsia de que o País inteiro "reconheça" que a eleição está decidida antes mesmo de a eleição acontecer, nada mais parece importar.

Ainda há quem se pergunte o que leva a imprensa de um modo geral a dar crédito à denúncia da oposição de que as quebras de sigilo fiscal descobertas até agora, no ABC paulista e no interior de Minas Gerais, teriam como alvo o candidato a presidente pelo PSDB.

Vários fatores: o histórico de conduta, o fato em si (petistas como agentes da violação, tucanos e parentes do candidato como objetos dos atos), o interesse, mas principalmente a atitude dos suspeitos, agora corroborada pela reação direta e pessoal do presidente Luiz Inácio da Silva.

As mentiras e mais recentemente a contundência deixam pouquíssima margem para dúvidas.

Se não sentisse um aroma de perigo no ar, Lula não se incomodaria com o caso. Por muito mais, a crise aérea de 2006/2007, o presidente da República demorou meses até se pronunciar.

Sendo verdade, como diz o ministro da Fazenda - com outras palavras, claro -, que a Receita Federal é uma peneira, natural seria que o governo demonstrasse um mínimo de preocupação com o fato.

Quanto à "coincidência" de na lista constar os nomes da filha de José Serra, do genro, do marido da prima, do ex-caixa de campanha, de um ministro do governo FH e do vice-presidente do partido do candidato da oposição, torna mais grave por força da eleição.

Insuspeito talvez não, mas mais republicano poderia ser considerado o gesto do presidente da República se no lugar de insultos ele dirigisse ao candidato escusas pelos transtornos causados pelo Estado.

Em seguida, anunciasse uma devassa em regra na Receita, mais especificamente na delegacia de Mauá e respectivas ramificações.

Refresco. A candidata Marina Silva provavelmente se considerasse vítima da Receita caso seu sigilo fiscal tivesse sido quebrado.

Portanto, quem teve a privacidade violada pelo Estado não se "faz" de vítima. Por definição "é" uma vítima, independentemente da filiação partidária.

Só para raciocinar: e se o sigilo fiscal violado fosse o de um dos filhos do presidente Lula? E se o caso acontecesse no governo do PSDB?

A filha de José Serra não é a mais ferida por rumores que envolvem sobrenomes famosos

Augusto Nunes, Revista Veja

Na noite de 7 de setembro, o chefe da campanha de Dilma Rousseff fantasiou-se de chefe do governo brasileiro para debochar do escândalo da Receita Federal no horário eleitoral do PT. Trajando um dos ternos que usava no emprego que abandonou, a bandeira nacional reproduzida no broche que identifica o presidente da República, Lula inocentou liminarmente a afilhada suspeita, absolveu os bandidos de estimação, condenou as vítimas, declarou-se injustiçado pelos preconceituosos de sempre, explicou que a candidata que fabricou é perseguida por ser mulher e tentou transformar o assassinato de uma garantia constitucional numa invencionice do adversário, capaz de usar até a filha para ganhar a eleição.

Na noite seguinte, sempre a muitas milhas do local de trabalho, reapareceu em Minas Gerais com o uniforme de animador de comício. Camisa branca de mangas compridas liberada da cinta para camuflar a barriga, calça escura domingo-no-interior, cataratas de suor banhando o rosto e a roupa, Lula retomou o espetáculo do deboche. “Cadê esse tal de sigilo?”, berrou enquanto andava de lá para cá como pregador evangélico. “Cadê as informações desse vazamento que nunca aparece?”.

Esse tal de sigilo, evidentemente, continua onde sempre esteve: nos dicionários que o orador nunca folheou, ao lado de todos os outros substantivos. O que anda sumido é o direito ao sigilo, sequestrado da Constituição por fabricantes de dossiês decididos a destruir a imagem de José Serra com rumores infamantes sobre a filha Verônica.

Lula também sabe onde encontrar as provas do crime praticado por meliantes que, se fossem aloprados, teriam rasgado o dinheiro que embolsaram. Estão na internet, como lhe contou no começo do ano o próprio José Serra. Mais precisamente, nos blogs e sites estatizados que misturam dados obtidos ilegalmente na Receita Federal e falsidades forjadas para apresentar a filha do adversário como um próspero caso de polícia.

Se visitar a rede, o presidente saberá que a fuzilaria destinada a Verônica Serra não é mais intensa nem mais feroz que a ofensiva movida há muito tempo contra outros sobrenomes famosos. As versões forjadas para atingir a filha do candidato são bem menos picantes, por exemplo, que os rumores envolvendo Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, em histórias temperadas por cifras com zeros demais.

A discurseira dos últimos dias proíbe Lula de ficar indignado com qualquer coisa que encontrar. Como vive repetindo, quem se mete em política não pode queixar-se de ferimentos infligidos a parentes, próximos ou distantes. Caso queira livrar o primogênito de injúrias e calúnias ─ e, simultaneamente, fazer outra provocação a José Serra ─ bastará ao presidente que desdenha do sigilo fiscal revelar, com todos os detalhes, o montante e a origem dos bens do Primeiro Filho.

Como nunca antes neste país

Editorial, O Estado de S.Paulo

Tão profícua tem sido a atuação do presidente Lula na desmoralização das mais importantes instituições do Estado brasileiro, que se torna missão complexa avaliar o que efetivamente tem sido realizado nesse campo, aí sim como nunca antes neste país. Como a lista é longa, melhor ficar nos exemplos mais notórios.

O presidente Lula desmoralizou o Congresso Nacional ao permitir que o então chefe de seu Gabinete Civil, o trêfego José Dirceu, urdisse e implantasse um amplo esquema de compra de apoio parlamentar - o malfadado mensalão. Essa bandidagem custou ao chefe da gangue o cargo de ministro. Mas seu trânsito e influência dentro do governo permanecem enormes, com a indispensável anuência tácita do chefão.

Denunciado o plano de compra direta de apoio de deputados e senadores, o governo petista passou a se compor com toda e qualquer liderança disposta a trocar apoio por benesses governamentais, não importando o quanto de incoerência essas novas alianças pudessem significar diante do que propunha, no passado, a aguerrida ação oposicionista de Lula e de seu partido na defesa intransigente dos mais elevados valores éticos na política. Daí estarem hoje solidamente alinhadas com o governo as mais tradicionais oligarquias dos rincões mais atrasados do País - os Sarneys, os Calheiros, os Barbalhos, os Collors de Mello, todos antes vigorosamente apontados pelo lulo-petismo como responsáveis, no mínimo, pela miséria social em seus domínios. Essa mudança foi recentemente explicada por Dilma Rousseff como resultado do "amadurecimento" político do PT.

O presidente Lula desmoralizou a instituição sindical ao estimular o peleguismo nas entidades representativas dos trabalhadores e, de modo especial, nas centrais sindicais, transformadas em correia de transmissão dos interesses políticos de Brasília.

O presidente Lula tentou desmoralizar os tribunais de contas ao acusá-los, reiteradas vezes, de serem entrave à ação executiva do governo por conta do "excesso de zelo" com que fiscalizam as obras públicas.

O presidente Lula desmoralizou os Correios, antes uma instituição reconhecida pela excelência dos serviços essenciais que presta, ao aparelhar partidariamente sua administração em troca, claro, de apoio político.

O presidente Lula desmoralizou o Tribunal Superior Eleitoral, e, por extensão, toda a instituição judiciária, ao ridicularizar em público, para uma plateia de trabalhadores, multas que lhe foram aplicadas por causa de sua debochada desobediência à legislação eleitoral.

Mas é preciso reconhecer que pelo menos uma lei Lula reabilitou, pois andava relegada ao olvido: a lei de Gerson. Aquela que, no auge do regime militar e do "milagre brasileiro", recomendava: o importante é levar vantagem em tudo. Esse sentimento que o presidente nem tenta mais disfarçar - tudo está bem se me convém - só faz aumentar com o incremento de seus índices de popularidade e sinaliza, por um lado, a tentação do autoritarismo populista, enquanto, por outro lado, estimula a erosão dos valores morais, éticos, indispensáveis à promoção humana e a qualquer projeto de desenvolvimento social.

O presidente vangloria-se do enorme apoio popular de que desfruta porque a economia vai bem. Indicadores econômicos positivos, desemprego menor, os brasileiros ganhando mais, Copa do Mundo, Olimpíada. É verdade, mesmo sem considerar que Lula e o PT não fizeram isso sozinhos, pois, embora não tenham a honestidade de reconhecê-lo, beneficiaram-se de condições construídas desde muito antes de 2002 e também de uma conjuntura internacional política e, principalmente, econômica, que de uma maneira ou de outra acabou sendo sempre favorável ao Brasil nos últimos anos.

Mas um país não se constrói apenas com indicadores econômicos positivos. São necessárias também instituições sólidas, consciência cívica, capacidade cidadã de avaliar criticamente o jogo político e as ações do poder público. Nada disso Sua Excelência demonstra desejar. Oferece, é verdade, pão e circo. Não é pouco. Mas é muito menos do que exige a dignidade humana, senhor presidente da República!

Manobra contábil na capitalização da Petrobrás garante meta fiscal

Comentando a Notícia

Por Adriana Fernandes e Fabio Graner, da Agência Estado, somos informados sobre uma das muitas manobras aplicadas pelo governo Lula, para iludir e enganar a torcida. Comento antes da notícia em si, até porque esta repetição revela um método que se esconde por detrás da ação em si: o governo Lula, e não de agora, está corroendo o equilíbrio das contas públicas, apenas para tentar mostrar ao mercado sua pretensa seriedade e responsabilidade no trato da coisa pública. Caso tais manobras em sequência espantosa não fossem feitas, a realidade da gastança desenfreada revelaria um governo perdulário e pouco afeito à disciplina que a boa administração pública exige.

Evidente que os resultados desta equação poderão não ser sentidos no curto prazo, mas deixam para as gerações futuras um pesado ônus a pagar, além de engessar futuros governos que se obrigarão a retardar o desenvolvimento para recuperar o terreno perdido.

Aliás, seria interessante que não apenas que os atuais partidos de oposição fossem, insistentemente, incisivos na avaliação crítica ao comportamento irresponsável do governo Lula, e fizessem a sociedade brasileira ter consciência de que está sendo ludibriada quanto ao discurso mistificador que Lula espalha por todo o país. Mas, também, a própria imprensa deixassem de ser tão omissa e leniente em relação aos absurdos e abusos que estão sendo cometidos, apenas em nome de um projeto de poder que compromete, no médio e longo prazo a estabilidade econômica de todo o país.

Esta fórmula assassina de se gastar irresponsavelmente, já nos custou em passado recente, 25 anos de estagnação, com todos os males sociais que é capaz de provocar. Lula deita e rola nesta crítica, sem porém, perceber, que está praticando e incorrendo nos mesmos erros que no passado nos levaram quase à bancarrota. O sacrifício para superar este período foi imenso e não pode, sob hipótese alguma, ser jogado no lixo. Como diz o velho ditado popular, cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, tampouco ao senhor Lula. Segue a notícia.

Dinheiro do BNDESPar para comprar ações da Petrobrás será usado, por meio de manobras contábeis, para engordar o caixa do governo

BRASÍLIA - O processo de capitalização da Petrobrás vai permitir ao governo turbinar seu superávit primário - economia para o pagamento de juros da dívida - e dará uma ajuda decisiva para o cumprimento da meta fiscal neste ano.

A engenharia financeira, apurada pelo Estado com diversas fontes, foi montada pelo governo para tornar viável o aumento de capital da Petrobrás e vai render ao Tesouro Nacional uma receita extraordinária semelhante às obtidas em concessões públicas - como de uma rodovia - que será decisiva para melhorar a imagem das contas públicas neste ano, sem que o governo tenha efetivamente feito um controle mais rigoroso de despesas.

Para obter essa arrecadação extra, o processo deverá ser o seguinte: o governo vai receber R$ 74,8 bilhões pela cessão onerosa de 5 bilhões de barris de petróleo à Petrobrás; paralelamente, a Petrobrás venderá R$ 74,8 bilhões em ações para a União e o BNDES - via BNDESPar, o braço do banco que cuida das participações acionárias. O dinheiro que o BNDESPar injetar na Petrobrás representa a receita extraordinária da União.

Em um exemplo hipotético, se o BNDES colocar R$ 10 bilhões no aumento de capital da Petrobrás, a União colocará R$ 64,8 bilhões. Como o Tesouro teve receita de R$ 74,8 bilhões da cessão onerosa, a diferença de R$ 10 bilhões reforçaria o resultado primário.

Esse valor é meramente ilustrativo, pois ainda não está definido qual será o montante aportado pelo BNDESPar. Hoje, segundo dados fornecidos pelo BNDES, a instituição detém R$ 19 bilhões em ações da Petrobrás.

O volume que será liberado para reforçar o caixa do governo ainda não está definido, mas fontes destacam que deverá ser suficiente para que o governo feche seu resultado fiscal, podendo dispensar outra manobra, que é tirar da conta da meta os investimentos prioritários do governo.

Discurso confiante.
A descoberta dessa engenharia ajuda a entender o discurso confiante do secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, de que a meta fiscal deste ano será cumprida sem abatimentos.

Nos últimos 12 meses, o setor público acumula um superávit primário de 2,03% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a meta é de 3,3% - podendo cair para 2,35% do PIB se todos os abatimentos permitidos pela lei, mas questionados pelo mercado, forem usados.

Apesar de dizer que já está apertando o cinto e pode até cortar despesas para cumprir seu objetivo, o fato é que o secretário conta com um grande reforço extra no caixa para sustentar esse discurso confiante no cumprimento da meta.

A capitalização está prevista para ocorrer no fim do mês. A cessão onerosa deve ocorrer quase simultaneamente.

Decreto.
O governo editou ontem um decreto que permite a realização da engenharia financeira para a participação do Fundo Soberano do Brasil (FSB), da Caixa Econômica Federal e do BNDES na capitalização.

Pelo decreto, publicado em edição extra do Diário Oficial, a União poderá trocar ações ordinárias (com direito a voto) por preferenciais (sem direito a voto, mas com preferência para receber dividendos) da Petrobrás com o BNDES.

O Ministério da Fazenda não explicou o teor do decreto. Uma fonte informou apenas que o objetivo do Tesouro foi incluir em sua carteira ações preferenciais da Petrobrás, que hoje não fazem parte do portfólio do Tesouro. A operação deve gerar um resíduo financeiro para o Tesouro, mas irrelevante para o superávit.

O decreto também autorizou o BNDES e a Caixa a vender ou permutar até 217.395.982 de ações ordinárias da Petrobrás com o Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização (FFIE). Administrado pelo Banco do Brasil, o FFIE é o fundo de investimento privado onde estão depositados os recursos do Fundo Soberano do Brasil. "O decreto permite a União reforçar a sua posição no capital da Petrobrás", disse uma fonte.

O PT contra os excessos da democracia

Guilherme Fiuza, Revista Época

A PF dá uma forcinha à expressão “mensalão do DEM”, enquanto o mensalão autêntico dorme no STF

A polícia federal voltou. Quem achou que os bravos combatentes do FBI brasileiro estavam de férias até o final das eleições enganou-se. Aí estão eles de novo, operativos, reativando sua famosa fábrica de manchetes de jornal. No auge da campanha eleitoral, o alvo da Polícia Federal é o bom e velho José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal, aquele que na literatura política tirou do PT o monopólio sobre a palavra “mensalão”.

O público já estava com saudades daquelas operações com nome de tragédia grega e embalagem de novela das oito. Depois de longo silêncio, eis que a Polícia Federal lança seu relatório sobre o caso Arruda. É basicamente o mesmo press release de sempre, acusando o investigado de chefiar uma organização criminosa, mais um punhado de adjetivos picantes do vocabulário da delinquência. A expressão “organização criminosa” pode até não significar nada, mas é sem dúvida uma grande contribuição da polícia para o jornalismo contemporâneo.

Com todo o cuidado para não fazer marola na campanha da candidata do chefe, nada melhor do que bater em cachorro morto – que não grita e ainda por cima é de oposição. Com o relatório Arruda, a PF dá uma forcinha à expressão “mensalão do DEM”, enquanto o mensalão original, nacional, autêntico e insuperável dorme no Supremo Tribunal Federal, esperando o fim da licença médica de seu relator.

Está certíssimo. Afinal, Dilma Rousseff, a líder disparada nas pesquisas, obedece a José Dirceu – apontado pelo Ministério Público como o chefe do mensalão. Não fica nem bem mexer com esse assunto numa hora dessas. Não se sabe o dia de amanhã. Talvez por isso também não saiam releases sobre a organização criminosa (com todo o respeito) de Sarney e seu filho Fernando. Os justiceiros do Estado brasileiro não põem a mão em cumbuca. Melhor chutar o Arruda.

Na Receita Federal também está tudo calmo. Sabe-se agora que não foi só o tucano Eduardo Jorge Caldas quem teve o sigilo fiscal espionado. Entre outros, Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, também foi “pesquisado”. Tudo normal. É para isso mesmo que serve o Estado. Leva-se tanto tempo para tomar o poder que o mínimo a fazer, uma vez lá, é usá-lo para perseguir os inimigos e alimentar os amigos. Quando Lula foi eleito e disse que a Presidência da República era o ponto máximo a que um ser humano podia chegar, em tom de final feliz, não entendeu quem não quis.

Qual é a graça de ter o poder e não mandar a Receita aliviar a família Sarney? Ou não dar uma bisbilhotada nas contas da ex-primeira-dama Ruth Cardoso? Ou não dar uma checada no Imposto de Renda do Mendonção, que, além de ex-ministro, é rico?

Dilma Rousseff já declarou que não tem nada com isso. A ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira contou que foi convocada ao gabinete dela para receber ordens, mas as imagens do circuito interno do Palácio sumiram. Ninguém sabe, ninguém viu. É o mesmo silêncio que cerca a apuração da violação fiscal de Eduardo Jorge. Ele, o cidadão violentado pelo Estado, é quem tem de empreender uma cruzada quixotesca para ter seus direitos reparados, como se fosse um fanático caçando um autógrafo do papa. E, no momento em que aparecem outros adversários políticos do PT na mesma espionagem, o que diz a Receita Federal? Nada.

O negócio é ficar quieto e esperar a imprensa esquecer o assunto. A imprensa, aliás, atrapalha muito nessas questões íntimas do poder. O governo tem quase 80% de aprovação e ainda tem de dar satisfação do que faz ou deixa de fazer com a máquina pública – conquistada com tanto sacrifício na apoteose lulista.

Talvez por isso o partido de Dilma venha propondo tantos projetos de controle social da mídia. O ideal seria, com esses 80%, governar também a pauta dos jornais e das TVs. A candidata do PT quer a convocação de uma Constituinte restrita. Pelo visto, está disposta a acabar com os excessos da democracia.

A culpa é da oposição

Folha de São Paulo, Editorial

Em vez de tomar medidas contra o descalabro da Receita, presidente vai ao programa de sua candidata para atacar as vítimas

Ganhou fama na internet o vídeo em que o presidente Lula responde com maus modos a um rapaz pobre do Rio de Janeiro, que dizia gostar de jogar tênis. Tratava-se de "esporte da burguesia", declarou o presidente, entre alguns impropérios.

Talvez a seus olhos também pareçam simplesmente coisa "da burguesia" as reações ao episódio gravíssimo da quebra do sigilo fiscal de contribuintes, entre os quais pessoas ligadas ao candidato José Serra.

Não pertencia "à burguesia", entretanto, o caseiro Francenildo dos Santos Costa, que depois de dar declarações contrárias aos interesses do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, teve sua conta bancária devassada pelos chefões do poder petista.

Do garoto da favela a personagens do PSDB não há nada em comum exceto o fato de representarem algum potencial de atrito aos poderosos do momento. E estes põem em prática seu longo aprendizado de arrogância e de abuso, tão logo se julgam ao abrigo dos olhos do público.

Fazendo-se entretanto de vítima, como é seu costume, aliás, o presidente da República ocupou parte do horário eleitoral de sua candidata para atribuir ao "preconceito" as críticas que o escândalo da Receita merecidamente recebeu da oposição.

Embalada por uma música sentimental, a aparição de Lula no programa de terça-feira foi uma demonstração deprimente do modo com que o mandatário encara a democracia, o debate político e seu próprio papel institucional.

Conclamou os adversários a manifestarem "mais amor pelo Brasil", como se fosse dos petistas e de seus aliados o monopólio desse sentimento. Criticou "os que só querem destruir", como se tivesse esquecido os tempos em que exerceu oposição sistemática. Condenou a "baixaria", como se fosse elevado o propósito de investigar a declaração de renda da filha de um candidato à Presidência.

Lula nem sequer citou o caso, escapando de explicações acerca do descalabro das violações, sejam as de evidente caráter político, sejam aquelas cujas motivações ainda são menos claras.

Fosse para agir como presidente da República, Lula deveria desde já afastar os responsáveis pela desmoralização da Receita Federal. Preferiu agir segundo os padrões da "república de companheiros" que se estabelece no país, pedindo novamente votos para sua candidata.

Não havendo provas do envolvimento direto de Dilma Rousseff na armação engendrada na Receita Federal, foi por certo temerária e excessiva a atitude tucana de pedir a impugnação da candidatura petista na Justiça Eleitoral. Eleições não se ganham por meio desse expediente.

Mas uma democracia se vê ainda mais atingida quando o Estado se torna aparelho nas mãos de uma camarilha arrogante e impenitente, que o põe a serviço de seus interesses eleitorais, de seu desrespeito com os direitos dos cidadãos, de sua permanente vocação para a chantagem moral e para a intimidação política.

Para ministros, aparição na TV foi ''inadequada''

Mariângela Gallucci - O Estado de S.Paulo

Avaliação é de que Lula transmitiu a impressão equivocada de que fazia pronunciamento oficial como chefe da Nação

Ministros e ex-ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avaliariam ontem que a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no horário eleitoral gratuito para defender a sua candidata, Dilma Rousseff, e atacar o tucano José Serra foi "inadequada" porque transmitiu aos eleitores a impressão equivocada de que ele fazia um pronunciamento oficial como chefe da Nação.

Lula ocupou mais de 20% do programa de Dilma veiculado na terça-feira.

Num ambiente sóbrio, mimetizando um espaço oficial, o presidente fez uma espécie de pronunciamento, no qual acusou a oposição de partir para o ataque pessoal e cometer baixaria.

"Nossa candidata Dilma tem feito uma campanha elevada, discutindo propostas, mostrando o que fizemos e o que ainda vamos fazer pelo Brasil", afirmou Lula no programa do PT. "Infelizmente, nosso adversário, candidato da turma do contra, que torce o nariz contra tudo o que o povo brasileiro conquistou nos últimos anos, resolveu partir para ataques pessoais e para a baixaria."

Ar institucional. Nos meios jurídicos, não há dúvidas de que Lula tem o direito de participar dos programas eleitorais de Dilma, que é a sua candidata e está no mesmo partido. O problema, na avaliação de especialistas, é quando ele tenta dar um ar institucional, de pronunciamento oficial, para atacar o principal adversário da petista. Outro detalhe mencionado pelos especialistas é que, como chefe do Executivo, Lula não deveria falar sobre episódios de quebra de sigilo que estariam sendo investigados no governo.

A vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, disse ontem que vai avaliar a participação de Lula no horário eleitoral. Segundo ela, no episódio da quebra de sigilo fiscal de tucanos, ainda é difícil comprovar intuito eleitoral no vazamento dos dados, "uma vez que essas informações ainda não foram devidamente usadas por nenhum partido na propaganda eleitoral".

"Toda a dificuldade neste momento é demonstrar a conotação eleitoral", explicou a vice-procuradora, argumentando que não há prova até o momento de que foi pedido pelo PT. "A única prova que tem é que o cidadão é filiado ao PT. As pessoas têm filiação com o partido da candidata, mas já que não foi usado, como é que a gente vai demonstrar que essas pessoas agiram a mando da candidata ou a mando do comando de campanha? A menos que apareça alguém dizendo isso, o que não aconteceu até agora."

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Tudo bem que, em razão e em respeito à liturgia de seus cargos, os ministros do TSE emepreguem termos menos "agressivos" para qualificarem a estupidez praticada por Lula da Silva. Porém é de se questionar: se os partidos de oposição ingressarem com ação pedindo rigorosa punição, a penalidade será uma simples multa? Será que Lula e Dilma já não cometeram crimes eleitorais suficientes que caracterizam, de forma inquestionável, abuso do poder político, capazes, inclusive, de se aplicar uma impugnação da candidatura governista? 

Seria oportuno que os ministros do TSE se dessem que ali estão para punir dentro do rigor da lei, independente de quem ultrapassa o limite que a lei. Deste modo, com o mesmo rigor com que julgam políticos de segundo escalão, por mais forte razão devem ser rigorosos com a turma de cima, principalmente aqueles que, costumeiramente, tem reincidido no crime e até debochado das penas que lhe foram impostas.

Esta seria uma boa forma de darem mostras ao país de que TODOS são, efetivamente, iguais perante como preceitua a constituição,  e não uns mais do que os outros, como tem sido praxe nos julgamentos, principalmente, quanto à legislação eleitoral. 

Mundo cão na internet

Ipojuca Pontes, Mídia Sem Máscara

A morte misteriosa de Yves Hublet, o senhor que deu as famosas bengaladas em José Dirceu, e a filmagem do que seria o estupro de Ingrid Betancourt pelos narcoterroristas das FARC, são comentadas por Ipojuca Pontes, que responde aos ataques do ator Sérgio Brito.

1 - O mundo digital, vertiginoso, avança como um maremoto incontrolável. Acabo de receber pela Internet um vídeo que se presume da ex-senadora colombiana Ingrid Betancourt sendo estuprada num cativeiro por supostos integrantes do exército das FARCs, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Seja ela quem for, são imagens de barbárie explícita, captadas por um cérebro doentio - digo, possuído pelo rancor e animalidade revolucionários.

No desenrolar das cenas, por vezes opacas, vemos doze homens abrutalhados, arquejantes, violentando a mulher indefesa. Os guerrilheiros estão encapuzados ou usam máscaras, mas o rosto da vítima expressa impressionante mescla de angústia, sofrimento e dor. Seus gritos são aflitivos, capazes de levar qualquer espectador à comoção. Para rever, eliminei o som.

Os homens estão vestidos com uniformes verde-oliva, calças arriadas. Vez por outra a câmera pontua o bacanal macabro flagrando a imagem de um prato de frutas tropicais, num contraponto de puro nonsense.

Pode-se desconfiar da autenticidade do vídeo? Ele não seria obra, por exemplo, de encenadores? Sem dúvida, mas acho pouco provável, pois o vídeo se apresenta como uma prova elaborada por quem tem certeza do que faz e projeta, ou seja: atingir um alvo específico (familiares) e traumatizar adversários vacilantes. De todo modo, falso ou não, nele não há nenhum traço de erotismo ou pornografia.

Como se sabe, Ingrid Betancourt, ex-senadora "politicamente correta", filha de diplomata formada em Ciências Políticas, em Paris, foi seqüestrada em 2002, sendo resgatada em 2008 numa operação planejada pelo exército colombiano, que tinha como ministro da Defesa, à época, o recém eleito presidente Juan Manuel Santos.

A boa pergunta: como teria chegada tal monstruosidade à Internet? Um vazamento da área de segurança do próprio governo colombiano? Tudo é possível, menos a hipótese da distribuição do vídeo pela ex-senadora Ingrid Betancourt, que, intempestiva, depois do extraordinário resgate, voltou-se contra o governo colombiano.

O certo é que esse vídeo vai perturbar o mundo, tal a sua violência. De minha parte penso que, mesmo de origem duvidosa. se faz urgente o envio de copias aos editores da mídia, bem como aos "nossos" representantes no Congresso Nacional.

2 - Uma outra notícia fulminante, a circular na Internet, diz respeito a morte imprevista de Yves Hublet, escritor de livros infantis que, à época do escândalo do mensalão, acertou algumas bengaladas na cabeça do ex-Chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu, hoje mentor da candidata à presidência da República Dilma Rousseff.

A notícia dá conta de que em maio passado, Yves Hublet, que estava residindo na Bélgica (tinha dupla nacionalidade), veio ao Brasil tratar da publicação de um livro. Ao regressar, fazendo escala em Brasília, o homem das bengaladas foi preso e mantido incomunicável. Mas logo adoeceu e, dizem, morreu de câncer no dia 26 de julho último, sendo o seu corpo cremado em Brasília.

Segundo o informe, depois da cena das bengaladas, transmitida ao vivo pelos noticiários televisivos, o escritor curitibano enfrentou alguns problemas e resolveu sair do país.

É estranho que a grande imprensa não tenha se reportado ao fato. Afinal, Yves Hublet foi transformado em celebridade da noite para o dia. De fato, ele foi louvado por boa margem da população ao punir com bengaladas o ex-Chefe da Casa Civil .

Pergunta final: por qual motivo os jornalões não noticiaram sua morte, pelo menos como retranca do Obituário?

3 - Ainda na Internet dou de cara com uma entrevista do falso ator Sérgio Brito, um canastrão sem voz e sem alma, que há décadas vem parasitando em cima (e por baixo) do teatro tupiniquim. Numa entrevista concedida a fofoqueira Globo News, ele diz:

- "O Ipojuca sempre procurou me prejudicar. Quando o Centro Cultural Banco do Brasil, CCBB, estreou em 1981, ele conseguiu fazer com que eu não ficasse lá. Inventou tudo que pôde. Inventou, até, que eu tinha falado mal da mulher do presidente do Banco do Brasil. Eu não conhecia o presidente do Banco do Brasil - nem o nome da mulher. Criou-se uma situação impossível. Tive de sair".

Além de canastrão, Sérgio Brito é um mentiroso compulsivo. Se ele, que trabalhava no CCBB, não conhecia o presidente do Banco do Brasil, muito menos eu, que tenho horror a banqueiros. O que de fato ocorreu foi o seguinte: em 1989 (e não em 1981), fazendo uma análise da cultura brasileira na era Sarney, para o jornal O Estado de São Paulo, escrevi o seguinte:

- "A idéia de fazer arte a partir do usufruto das benesses oficiais é uma constante para certa camada da vida artística brasileira. Periodicamente, a cada oportunidade, durante congressos, encontros, festivais ou entrevistas, os ativos membros da fauna proclamam aos quatro ventos a necessidade de maior participação (no fundo, intervenção) do Estado na área da cultura. Em tais ocasiões, como num canto coral, os membros da fauna reclamam por maiores verbas públicas, sem as quais - bradam com fúria - o Brasil perderia, como nação, sua própria identidade".

- "Mais do que simples fauna - continuava eu -, trata-se de verdadeira "casta de serviço", particularmente empenhada no desfrute do mecenato estatal para consecução de projetos pessoais desde a chegada, no Brasil Colônia, do fugitivo D. João VI com seu entourage de 15 mil cortesãos".

- "A violência das relações estatizantes na atividade teatral é confirmada pela forma como foi concebido o funcionamento do Centro Cultural Banco do Brasil - o mesmo banco cuja folha de pagamento anual dos funcionários eleva-se acima de US$ 15 bilhões, isto é, mais de uma vez e meia o valor do pagamento do serviço da dívida externa em 1988, considerada por todos uma carga insuportável para os ombros da nação".

No caso específico da demissão do falso ator Sérgio Brito, ela deu-se a partir das seguintes linhas:

- "Pois bem: o CCBB, instalado numa área cuja reforma ultrapassou a casa de US$ 3 milhões, sem consultar associações, entidades, empresariado da área ou criar conselho temporário, e amparado em tributos provenientes de todo território nacional, concentrou nas mãos de uma só pessoa - o ator Sérgio Brito - o orçamento anual de milhões de dólares, o que o torna um ser todo poderoso, embora represente apenas uma tendência do teatro carioca. A fórmula de atuação cultural (que é a de financiar a fundo perdido e sem aprovação de um conselho pluralista, espetáculos cujo orçamento médio varia em torno de US$ 100 mil), coonestando a ação monopolista e evidenciando a prática do dumping econômico, fatalmente levara à marginalidade o empresário que não contar com tais benesses".

- "O privilégio torna-se mais acintoso quando o próprio Sérgio Brito, entronizado como o novo czar que detém as chaves do tesouro informa ao jornal "O Globo" (4/10/89) que pretende montar com o dinheiro público "um texto do auge do surrealismo capaz de espantar qualquer patrocinador com sua associação de imagens inspirados em órgãos sexuais, cogumelos e outras formas".

Como por milagre, em plena era Sarney, ao ler tais linhas, o presidente do Banco do Banco do Brasil (ou talvez do próprio CCBB), que nunca vi mais gordo, demitiu o mentiroso canastrão.

E a partir daí o Centro Cultural Banco do Brasil passou a funcionar de modo democrático, como recomenda a boa ética.