quarta-feira, agosto 08, 2012

Vai passar


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O clima no Supremo é solene: pessoas formais, formalmente vestidas, com adereços que indicam seu elevado status, usando uma linguagem empolada, muitas vezes inacessível ao cidadão comum. Há coisas que dá para entender: pessoas de mais idade, com roupas desconfortáveis, reúnem-se depois do almoço para ouvir longos e eruditos discursos. Alguns dormem - e indicam a nós, o cidadão, que a coisa pode ser importante, mas é chata.

Nova cena. Aquele senhor que adorava denunciar a imoralidade dos outros, e acabou perdendo o mandato de senador quando descobriram a sua imoralidade, apareceu na noite de Brasília, no badaladíssimo restaurante Piantella. Abalado, envergonhado? Não, isso é para gente comum, não para Demóstenes Torres, que ainda se sente um pai da pátria, mesmo desmascarado. Sentou-se ao lado do pianista e cantou ao microfone, para o restaurante cheio,Let me try again (deixe-me tentar de novo), de Samy Cahn e Paul Anka, que foi sucesso na voz de Frank Sinatra. Ganhou palmas. É Brasília: fosse um lugar menos habituado a pessoas como ele, talvez preferisse cantar outro sucesso de Paul Anka que fez sucesso na voz de Sinatra, My way: "And now/ my end is near/ and so I face/ the final curtain" (e agora meu ocaso está próximo, e portanto encaro as cortinas que se fecham"). 

Ninguém levou Delúbio Soares a sério quando ele disse que, no final, tudo iria virar uma piada de salão. Pois não é que Delúbio estava certo?

É vendaval

Dilma Rousseff foi a Londres para a abertura dos Jogos Olímpicos, gastou cerca de R$ 1 milhão e foi eclipsada por Marina Silva, que foi de graça, a convite dos organizadores, despertando muitos ciúmes na comitiva. Dilma não vai para o encerramento dos Jogos: escalou seu vice, Michel Temer, para representá-la. Temer vai levar, sabe-se lá por que, 25 assessores.

O nome do jogo
Já está ficando constrangedor: há gente no Supremo fazendo o possível para apressar o julgamento, sob a alegação de que assim permitirá o voto do ministro Cézar Peluso (cuja aposentadoria, por idade, está marcada para 3 de setembro). Por que tanto desespero, por que tanta pressa?

Comecemos pela hipótese boa: os entusiastas de Peluso o consideram um grande penalista, cujo voto terá grande importância. Sem problemas: podem pedir-lhe, caso o julgamento se atrase e não permita seu voto, um parecer, que iluminará a decisão de todos. Não se pode jogar nas costas de um juiz, por melhor que seja, a responsabilidade por um julgamento coletivo. E ninguém é insubstituível. Ruy Barbosa já se foi e o Direito continua. 

E há a hipótese difícil de aceitar. Estariam todos convencidos de que Peluso, no meio do julgamento, já tenha seu voto decidido? E os advogados de defesa que ainda não expuseram seus argumentos, perdem seu tempo? Ou, pior, Peluso seria apenas um pretexto, para que a decisão do Supremo saia antes ou depois das eleições municipais e cause efeito nas urnas?

Não, não, não: que o julgamento siga seu ritmo correto, sem lentidão, sem pressa. O importante não é o voto de Peluso, não é que haja uma decisão antes das eleições: é que no julgamento se faça justiça.

As outras batalhas 1
Marcos Valério que se cuide, mas depois do julgamento do Mensalão ele terá outra batalha complicada: o Mensalão mineiro, que anda mais devagar do que discurso do senador Suplicy, será empurrado para o primeiro plano. O PT não apenas garante que não há Mensalão como se irrita por ver que o Mensalão mineiro, com gente graúda do PSDB (como o deputado Eduardo Azeredo), tenha ficado meio esquecido. 

Vai dar o troco - e Marcos Valério, também envolvido no Mensalão mineiro, apanha de novo.

As outras batalhas 2
Há ainda a CPI de Carlinhos Cachoeira. Surgiram alguns fatos que, ao que tudo indica, terão repercussão no futuro. A senadora Kátia Abreu, do PSD do Tocantins e líder da bancada ruralista, acusou Andressa Mendonça "Cachoeira" de ter tentado intimidá-la, dizendo ter um dossiê contra ela. Andressa já foi acusada pelo juiz Alderico Rocha de tê-lo ameaçado com um dossiê (por isso teve a prisão decretada e está em liberdade sob fiança). 

Tudo o que envolve a bela Andressa merece interesse especial da imprensa.

As outras batalhas 3
A última batalha também envolve um dos escolhidos pelo PT como inimigo preferencial. Diz a Polícia Federal que houve pagamentos de Cachoeira ao escritório em que o antigo procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, é sócio hoje. Brindeiro foi procurador-geral nos dois mandatos de Fernando Henrique e, depois disso, se associou a um escritório de advocacia, que, em 2008 e 2009, recebeu R$ 680 mil de Cachoeira - tudo legal, aberto, com nota. 

Mas agora há referências a mais de R$ 800 mil em pagamentos "para Brindeiro", sem maiores identificações. É uma boa briga.

carlos@brickmann.com.br 
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A carnavalização do juízo


Elio Gaspari
Folha de São Paulo

No julgamento do mensalão, foi-se do ritual ao espetáculo e dele a um arriscado carnaval de agosto

Querem carnavalizar o julgamento do mensalão. O procurador-geral, Roberto Gurgel, viu-se acusado de "desonestidade intelectual" pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro (pode me chamar de Kakay) numa peça de oratória produzida no piano-bar do restaurante Piantella. Na noite de segunda-feira, o advogado do comissário José Genoino pediu ao pianista que tocasse o tema de "O Poderoso Chefão".

Noutro pretório noturno, o bar do hotel Naoum, advogados de defesa dos 38 réus organizaram uma espécie de "bolão". Como votará a ministra Cármen Lúcia? "Essa condena até Papai Noel." Marco Aurélio Mello: "Subiu no muro".

Do outro lado da tribuna, o ministro Marco Aurélio Mello tornou-se uma espécie de comentarista olímpico do julgamento. Terminada a sessão, discute o processo.

Numa entrevista aos repórteres Fausto Macedo e Felipe Recondo, deu à "Ação Penal 470" uma nova dimensão: "Você acha que um sujeito safo como Lula não sabia?" A pergunta, solta, é uma simples e relevante insinuação. Num voto articulado, pronunciado na corte, seria muito mais. De qualquer forma, Nosso Guia não está acompanhando o caso, pois "tem mais o que fazer". Pena que não declare seu interesse pelo futuro de tão diletos companheiros. Sabia-se que Lula era um daqueles ursos que comem os donos, mas não se esperava que comesse José Dirceu desse jeito.

Não há notícia de formação de uma mesa de advogados no bar do Metropolitan Club de Washington para jogar conversa fora durante um julgamento na Corte Suprema. Também não há notícia de um Ministério Público que coloca na internet uma página infantil intitulada "Turminha do MPF", com uma espécie de "mensalão para jovens".

Há faíscas de vaidade no Supremo, mas há também aulas de rigor. A eloquência dos ministros Celso de Mello, Cármen Lúcia e Rosa Weber está no silêncio. Aliás, quem gosta de atribuir lances de vaidade às mulheres, deveria registrar que até hoje passaram três pelo Supremo. Todas demonstraram que "pavão" é um substantivo masculino. (Quem já ouviu falar em pavoa?)

O Supremo Tribunal Federal é chegado a rituais versalhescos. Seus ministros são acolitados por servidores chamados de "capinhas". Levam-lhes papéis, água e recados. Além disso, são encarregados de empurrar e puxar suas cadeiras, como se esse movimento banal precisasse de ajuda. Coisa de rei. (Um ministro conta que várias vezes quase foi ao chão.)

A tendência carnavalizadora faz bem ao espírito nacional. Instalada uma CPI com parlamentares safando seus aliados, surge uma "musa".

Reunida no Rio uma conferência internacional que vai acabar em nada, a cidade carnavaliza-se e o mundo alegra-se. (Durante a Rio+20, maloqueiros da Glória compraram cocares no Saara para filar as quentinhas que eram dadas aos índios que flechavam o BNDES.)

Se há um teatro para produzir nada, carnaval é o melhor remédio, mas esse não é o caso do julgamento do mensalão. Ele produzirá resultados duradouros para o Judiciário e, sobretudo, para o futuro das maracutaias da política nacional.

Se o julgamento ficar nos autos e naquilo que se diz na corte, algo de novo estará acontecendo no Brasil. Prova disso foram as sessões em que falaram a Procuradoria e os primeiros advogados de defesa. Bar é bar, tribunal é tribunal.

De corpo presente


Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Inerte diante de depoentes silentes, condescendente ante o atraso no cruzamento de dados indicativos dos caminhos percorridos por uma organização mafiosa no aparelho de Estado e apática frente a ameaças contra um juiz e uma senadora, a CPI do Cachoeira está prestes a assinar seu atestado de óbito.

A retomada dos trabalhos ontem confirmou as piores expectativas sobre uma comissão de inquérito criada sob a égide torta da vingança: não há unidade de ação e o pensamento de parte de seus integrantes é que a maioria esteja interessada na dispersão intencional de propósitos.

A certa altura da sessão o deputado Miro Teixeira foi claro a respeito: "Há no ar uma suspeita de que existem movimentos feitos com o objetivo de não se chegar a lugar algum. A continuar assim é melhor acabar de vez com a CPI", disse, expressando a insatisfação de integrantes da comissão cujos objetivos independem de conveniências partidárias.

Houve reação explícita à concentração das ações da CPI nas mãos do relator Odair Cunha que, aliás, já se disse convencido de que o esquema Cachoeira não atuou para além das fronteiras da Região Centro-Oeste.

Isso a despeito de a construtora Delta, de quem já se descobriram repasses de mais de R$ 300 milhões a empresas fantasmas da organização, ter crescido a partir da atuação no governo do Rio de Janeiro e chegado a ser a maior contratada das obras do PAC.

A desconfiança sobre rumos e objetivos da CPI não é novidade, dada sua origem.

Mas, o que se viu ontem quando a comissão se absteve de questionar a mulher de Cachoeira, nem se diga sobre a tentativa de chantagear um juiz, mas sobre as ameaças denunciadas pela senadora Kátia Abreu a respeito de quem lady Cachoeira andou espalhando maledicências sobre as quais a senadora a confrontou diretamente, foi inusitado.

Em matéria de renúncia de prerrogativas, algo inédito até mesmo para um Parlamento habituado a se acovardar.

Linha auxiliar. 
Do lado de fora do Supremo, advogados atuam apelando a outras instâncias na tentativa de interditar a fruição do assunto mensalão na sociedade.

O grupo já pediu à Justiça Eleitoral que "fique atenta" à apresentação do tema no horário eleitoral, sugeriu manifestação judicial pela inconveniência do julgamento em ano de eleições, deu abrigo à ideia do PT de proibir o uso do termo "mensalão" e anuncia que representará contra a cartilha feita pelo Ministério Público para explicar o caso a crianças e adolescentes.

Os advogados alegam defesa dos interesses da sociedade.

Interesses que não contam com a mesma diligência quando são agredidos pela verdadeira celebração que os advogados fazem no STF do usufruto de "recursos não contabilizados" nas campanhas eleitorais.

Vinculante. 
Em caso de condenação de Marcos Valério, complica-se a situação do ex-senador Eduardo Azeredo no processo do mensalão mineiro (ainda sem data para julgamento), matriz do esquema montado pelo publicitário para arrecadar dinheiro para a campanha à reeleição de Azeredo ao governo de Minas e depois adotado pelo PT em âmbito nacional.

Faro fino. 
Bom para Fernando Haddad é que a maioria dos eleitores não está atenta a detalhes. Senão, seria o caso de se perguntarem por que deveriam apoiar o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo se a presidente Dilma e a senadora Marta não se sentem na obrigação de dar uma força ao correligionário.

Ilha. 
Demóstenes Torres confraternizando com advogados atuantes no julgamento em curso no STF ao pé no piano do Piantella é uma daquelas cenas que fazem a fama muitas vezes injusta, mas nem sempre, de Brasília.

A pergunta é: 'E Lula?...'


Frederico Mendonça de Oliveira
Tribuna da Imprensa


A história do Ali Babá nada tem a ver com a história do mensalão, mas a voz das ruas associa as duas, vendo Lula como o chefe e os mensaleiros como os ladrões comandados por ele. Pensando bem, Ali Babá foi um ladrão que roubou ladrões, o que não combina com essa escalafobetice a que assistimos perplexos e, os que têm estômago mais sensível, nauseados.

Muito bem, suas excelências estão agora com a batata quente nas mãos, e não há quem, se lúcido, não os veja entre a cruz e a espada. Especialmente porque existe conexão entre pelo menos dois membros do Supremo e a quadrilha que, esperamos, acabará atrás de grades – ou será mentira o que a imprensa revela de ligações dos ministros Toffoli e Levandovsky com Lula et caterva?

A “voz rouca das ruas” de que fala Carlos Chagas ecoa naquele tribunal, mas o silêncio de suas excelências, sugerindo pisarem em ovos, silêncio pouquíssimo quebrado nesta novela de teor escabroso, preocupa. Afinal, vimos cada saída mágica para os escândalos desde décadas que não há como evitar um ceticismo já tido como sabedoria. Sairá coelho dessa cartola? E que coelho será? Coelho mesmo ou um ipissilone desses que temos visto saindo de cartolas há décadas…

A pergunta da voz rouca – rouca de tanto gritar! – das ruas impõe um grande detalhe, que nem detalhe é, de tão essencial nessa encrenca: Lula nada tem a ver com isso? O Zé Dirceu não declarou publicamente que nada era feito sem o consentimento ou mesmo a determinação do babalorixá do PT quando aboletado no trono da Banânia? Por que diabos o ex-“presidente” está excluído da quadrilha que chefiou? Ou será que foi acatado como verdade o lero de o Roberto Jefferson ter sido quem alertou o babalorixá sobre as irregularidades que caudalosamente corriam no Palácio e adjacências? É pedra e cal a palavra do líder petebista?

Será que não há outra saída para a geringonça de poder que está aí que não poupar o falastrão canastrão para não estraçalhar a imagem do “Brasil” aos olhos do mundo? Seria para manter de pé uma falsa imagem de equilíbrio para que tudo prossiga indo no mesmo rumo que dantes no quartel de abrantes? Será que o Obama ter dito “Esse é o homem!” sobre Lula seria uma fala cifrada sobre ser ele a conexão feliz com Wall Street? Estará Obama cochichando nos ouvidos dos detentores do poder que não seria nada oportuno chutar o balde pondo o chefe junto com seus subordinados sob suas excelências no STF e aos olhos do Brasil e do mundo?

Será que o andor tem que ser levado tão devagar porque o santo é de barro? Será que todos medem as palavras diante de tal descalabro conjuntural para que não vá pelos ares tamanho circo de horrores sob o qual se esmaga toda a população brasileira? Se considerarmos o teor que vige em Brasília, a julgar pelo padrão de degenerescência moral que os “representantes do povo” exibem sem qualquer pejo, temos de admitir que somos uns duzentos milhões de energúmenos que nada podem exigir…

A propósito, a leitora Magdala Costa vai ao cerne da coisa, apoiada pelo Francisco Bendl, quando pergunta como fica a Receita nessa história escabrosa. São rios de dinheiro brotando do nada? E isso vai mais longe ainda, se indagarmos sobre a compra de votos para a reeleição do “sociólogo”.

E termino: se punidos os mensaleiros com a severidade devida, permanecerá o Brasil sob Sarneys, Renans, Jucás, Azeredos e quejandos, enquanto Lula zanza pelas vias paralelas do poder e FHC é considerado digno de oitiva pelas elites?

Seria esse julgamento bela encenação, com pirotecnia, para continuar tudo como está?

Lula está curado, mas Haddad ainda precisa de respiração artificial, digamos assim.


Carlos Newton
Tribuna da Imprensa




Em São Paulo, o candidato petista Fernando Haddad saiu da profunda depressão em que se encontrava e teve um alento em sua candidatura a prefeito de São Paulo, porque o médico cardiologista que cuida da saúde de Lula, Roberto Kalil, afirmou que os exames realizados segunda-feira apontaram quadro de normalidade e, assim, o ex-presidente está “totalmente liberado para tudo o que quiser”.

“Ele pode, se ele quiser, ficar falando por 24 horas”, exagerou Kalil, ao liberar Lula para fazer campanha pelos candidatos do PT a prefeituras de todo o país.

“A partir deste momento, está completamente liberado, não existe recomendação, mas com bom senso. Está liberado para uma vida normal”, completou o médico cardiologista, na entrevista à imprensa, dizendo que o inchaço no pescoço do ex-presidente, do qual ele tanto se queixa, é ainda reflexo da quimioterapia e deve continuar por mais dois ou três meses.

Na verdade, Lula ainda tem problemas de locomoção e dificuldades para falar, mas a recuperação continua e o câncer teve remissão. Pode participar das campanhas, mas com certa prudência, sem exageros.

Quem inspira mais cuidados é a candidatura de Fernando Haddad, que ainda está na UTI, porque estacionou nas pesquisas com apenas 6 pontos. Por isso, Haddad admitiu ontem que aguardava “ansiosamente” a liberação médica do ex-presidente Lula para atuar em sua campanha.

“Estávamos todos rezando para que esse dia chegasse logo”, afirmou o petista, durante caminhada na Cidade Tiradentes (zona leste de São Paulo), confirmando que Lula vai gravar para o programa eleitoral pela primeira vez nesta quarta-feira.

O problema de Haddad é que o ex-presidente não pode ficar à disposição do candidato paulistano, porque também tem de atuar em outras campanhas do partido pelo país. Eis a questão shakesperiana, que também afeta Haddad, na dúvida do ser ou não ser (eleito).

O lado B do emprego no Brasil


Letícia Lins e Fabiana Ribeiro
O Globo

Mais de 30 cidades brasileiras têm taxas de desocupação acima de 20%

AGÊNCIA O GLOBO / FOTO: HANS VON MANTEUFFEL
Gerson de Freitas, 35, analfabeto com 5 filhos desistiu de procurar trabalho: 
"Sou feito um menino de abelha, caçando mel pelas matas"

Araçoiaba (PE) e RIO - No mesmo país que reúne 1.133 cidades em condições de pleno emprego, há outras 32 com taxas de desocupação acima de 20%, apontam os dados do Censo 2010. É fato que elas são uma minoria, representando menos de 1% dos 5.565 municípios brasileiros. Mas, sem dúvida, são um retrato das desigualdades regionais que, mais uma vez, persistem, a despeito do crescimento econômico dos últimos anos. Enquanto mais da metade dessas cidades está no Nordeste, o Sul não tem sequer um município com taxa de desemprego tão elevada.

— O mercado de trabalho no Sul é mais organizado, num reflexo do desenvolvimento econômico dos seus estados — resumiu João Saboia, professor do Instituto de Economia da UFRJ.

Campo Alegre do Fidalgo, no interior do Piauí, ostenta a pior taxa de desemprego do país, de 41,82%, de acordo com o último Censo. Na pequena cidade, moram cerca de 4.600 pessoas, boa parte vivendo na zona rural. A lista dos municípios com elevada desocupação passa ainda por outros estados do Nordeste e Norte do país. Pernambuco contribui com três nomes, sendo que o pior cenário aparece em Araçoiaba, a 60 quilômetros de Recife. Lá, a desocupação atinge taxa de 23%.

Em Araçoiaba, oferta de trabalho é coisa rara na cidade, onde só há um grande empregador: a prefeitura. O município, que é dono do pior Índice de Desenvolvimento Humano da Região Metropolitana, não tem uma só indústria. Seus 21 mil habitantes vivem do pequeno comércio (cerca de 60 lojas) e da agricultura de subsistência.

Para o secretário de Infraestrutura e Habitação de Araçoiaba, José Rinaldo Silva Rufino, os números do desemprego levantados pelo IBGE podem estar defasados, por causa da nova realidade econômica vivida em Pernambuco, onde estão sendo implantados polos de desenvolvimento na Região Sul (como o complexo industrial de Suape) e Região Norte do estado (que vem sendo preparada para sediar a sua primeira indústria automobilística, a Fiat). Ele afirma que o dinamismo da economia pernambucana começa a mudar o marasmo em que Araçoiaba vivia antes mergulhada.

— Temos três usinas próximas que empregam mais durante os períodos de colheita, mas há trabalho na entressafra, quando precisam de lavradores para o trato cultural nos plantios de cana. Muitas pessoas da cidade estão trabalhando na construção do presídio de Itaquitinga (cidade vizinha). E há muita gente empregada na construção da Hemobrás (na cidade de Goiana) e de indústrias que vêm se instalando no porto de Suape (no litoral sul pernambucano). São soldadores, montadores, pedreiros e serventes.

Diariamente, quatro ônibus deixam a cidade para conduzir esse pessoal aos seus postos de trabalho, afirma ele. Alguns dos que têm empregos, como os filhos de Maria de Lourdes Gomes, só vêm a Araçoiaba nos fins de semana:

— Eles procuraram muito emprego por aqui. Não acharam nada, foram tentar lá em Suape. Como a passagem de ônibus é cara, ficam por lá mesmo — afirma a pensionista, referindo-se a Severino Augusto e José Augusto.

Ex-morador de favela, Gerson de Freitas, de 35 anos, mora há dois anos em uma casa de alvenaria, cedida pelo poder público e construída em um terreno doado por uma usina. Ele tem cinco filhos e a mulher está doente. Analfabeto, nunca teve carteira assinada e até já desistiu de procurar emprego:

— Tem dia que trabalho como moto-táxi com uma moto emprestada por um amigo. Em outros, preparo lambedor (xarope para tosse) para vender em casa. Mas, para fazer o lambedor, fico feito o menino da abelha, tenho que ir para a mata procurar mel — disse Freitas, acrescentando que a carteira profissional nunca teve serventia. — É tão velha que até a foto já se apagou. Mas não tem nada de emprego escrito.

Prefeitura, maior empregador
Além das 60 lojas que existem na cidade (mercadinhos, farmácias, armarinhos), das lavouras de subsistência e do corte de cana durante os quatro meses de moagem, os moradores de Araçoiaba contam apenas com os 737 empregos da prefeitura, dos quais 419 são efetivos. Os demais — comissionados ou temporários — são recrutados na cidade, cuja receita mensal (incluindo os repasses) chega a R$ 2,95 milhões.

Taxas de desemprego muito elevadas, acima de 20%, são a realidade de inúmeras cidades da Europa, em especial na Grécia e na Espanha. Entretanto, os cenários são bem distintos. Enquanto as cidades brasileiras sem emprego são marcadas por boa parte da população sem sequer o nível médio, o contingente de desempregados na zona do euro tem alto nível de qualificação.

Especialistas lembram, contudo, que o país ainda colhe no mercado de trabalho as benesses do crescimento econômico dos anos recentes.

— O mercado de trabalho é um ponto de orgulho da economia brasileira. A fotografia, ainda que tenha sido tirada em 2010, permanece boa. Foi o emprego que segurou os efeitos da crise internacional e, agora, passado o vale, quando não houve demissões, mas menos contratações, é de esperar que o país consiga sustentar esse indicador — afirmou Maria Andreia Parente, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Dilma tem dificuldade para fechar pacote


Adriana Fernandes e Renata Veríssimo 
Agência Estado

Presidente adia reunião com empresários porque o governo ainda estuda de onde tirar recursos para viabilizar as medidas de estímulo à economia

BRASÍLIA - Com dificuldades para encontrar espaço no orçamento, a presidente Dilma Rousseff adiou a reunião com um grupo de grandes empresários para apresentar as linhas das novas medidas de estímulo ao investimento e crescimento econômico em 2013. Segundo apurou o ‘Estado’, o Palácio do Planalto trabalha com a expectativa de realizar o encontro na próxima terça-feira, mas a data poderá ser adiada novamente por causa das discussões técnicas sobre as medidas.

A intenção inicial era realizar a reunião com os empresários esta semana, mas não houve tempo para avançar na definição das medidas, pela dificuldade da presidente em conciliar os novos cortes de impostos com a queda da arrecadação, provocada pelo ritmo lento da economia.

As discussões das medidas levam em consideração também a proposta do Orçamento da União de 2013, que será encaminhada no fim do mês ao Congresso Nacional, o que tem tornado o trabalho mais complexo.

O governo também aguarda a votação no Senado Federal da Medida Provisória que ampliou o Plano Brasil Maior, a política industrial e de comércio exterior da presidente Dilma. Na Câmara, os deputados incluíram na MP uma série de novas desonerações que não foram acertadas com o governo, como a isenção do PIS, Cofins e do IPI para produtos da cesta básica. A lista de setores beneficiados com a desoneração da folha de pagamento - inicialmente composta por 15 segmentos - também foi ampliada. Os deputados estenderam o benefício para as empresas de transporte rodoviário, aéreo (carga e de passageiros) e navegação, brinquedos e de manutenção de aeronaves, motores, componentes e equipamentos.

Confuso. 
Segundo fontes do governo, o texto das emendas incluídas é confuso e há brechas, inclusive, para que algumas das novas desonerações entrem em vigor este ano. Nem a área técnica, admitem as mesmas fontes, tem a real dimensão do tamanho da desoneração ampliada pelos parlamentares. O mais difícil para a presidente será vetar as desonerações aprovadas, uma vez que ela prometeu ampliar as reduções de tributos e estimulou os empresários a procurarem o Ministério da Fazenda para negociar a desoneração da folha de pagamentos para seus setores.

"Essas desonerações não cabem na proposta de Orçamento com a meta de superávit", admitiu uma fonte. Por isso, há risco de o PAC das desonerações, como está sendo chamado o pacote, ficar bem mais "tímido" do que o previsto. No centro do debate, está a flexibilização da política fiscal. Setores importantes dos ministérios da Fazenda e do Planejamento continuam defendendo uma redução do superávit primário das contas públicas.

Terceira rodada. 
Essa será a terceira reunião da presidente com os empresários. Nas duas primeiras, Dilma aproveitou o encontro para apresentar as medidas de combate à crise internacional e a mudança na forma de remuneração da poupança.

Dilma deve ter um encontro hoje com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, para discutir as medidas. Também terá uma reunião com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. O banco de fomento terá, mais uma vez, papel fundamental na estratégia do governo de alavancar os investimentos.

Dessa vez, os Estados também terão participação importante, o que levou Mantega, a aprovar uma nova rodada de apoio financeiro aos governadores para alavancar aos investimentos no ano que vem, como antecipou o Estado.

Lambanças na Petrobrás


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

As razões puramente técnicas e as explicações contábeis para o primeiro prejuízo trimestral da Petrobrás (veja no Confira) nos últimos 13 anos estão sendo desfiladas uma a uma pela atual diretoria, que atribui, com certa razão, todas as mazelas da empresa à administração anterior.

Esse prejuízo tem algo a ver com questões cambiais, que elevaram em reais dívidas em moeda estrangeira. E está ligado também à redução da produção, que encolheu as receitas com exportações. Mas isso não é tudo. É o resultado de oito anos de uma administração que decidiu levar às últimas consequências o slogan dos anos 50: "O petróleo é nosso".

O "nosso", no caso, é o possessivo que se refere à turma que se apropriou da gestão pública para fazer jogo político. O setor administrativo da Petrobrás foi loteado para atender a interesses da base do governo Lula. E isso ajuda a explicar o que a atual presidente, Graça Foster (foto), admite como existência de focos de hemorragia da empresa - desvios que agora pretende corrigir com um Programa de Eficiência Operacional para o qual já estão destinadas despesas de US$ 5,6 bilhões.

Um dos sinais desses focos de hemorragia, também denunciado por ela, foi a até agora inexplicada disparada dos custos de construção da Refinaria Abreu e Lima (em Pernambuco), cujo orçamento saltou inexplicavelmente de US$ 2,3 bilhões, em 2005, para US$ 20,1 bilhões, neste ano. Graça se limita a afirmar que é um exemplo do que não se pode fazer.

Outro desvio marcante é o uso do caixa da Petrobrás para executar a política populista de preços que acabou por subsidiar combustíveis. Mesmo com os tímidos reajustes, os atrasos dos preços da gasolina e do óleo diesel alcançaram a magnitude de entre 15% e 17%.

É o que explica o avanço do consumo de gasolina, de 17%, em 2011, e, nos primeiros seis meses de 2012, já de 7%. Como as refinarias não têm mais capacidade para novos aumentos de produção, neste ano a Petrobrás se vê obrigada a importar 315% a mais de gasolina do que em 2011, além de ter de revendê-la internamente por preços mais baixos.

Mais uma distorção administrativa imposta pelo presidente Lula foi fazer com que a Petrobrás passasse a funcionar como instrumento de política industrial, obrigando-a a contratar, por preços substancialmente mais altos e prazos de entrega elásticos, materiais e equipamentos de produtores nacionais, por vezes ainda em fase de implantação.

A dilapidação de patrimônio público não é a única consequência do que vem ocorrendo. Outro efeito perverso é a deterioração das condições de produção dos combustíveis renováveis, sobretudo do etanol, que já não consegue competir com os preços subsidiados da gasolina. Desdobramento dessa administração também é agora o alto risco de que o retorno operacional insuficiente inviabilize o programa de investimentos da Petrobrás, que prevê o dispêndio de US$ 236,5 bilhões até 2016.

Mesmo que a atual e as futuras gestões corrijam os desvios atuais, a Petrobrás não está dando conta da missão confiada pelo novo marco regulatório do pré-sal, como a exigência de que participe de todas as novas licitações, na proporção mínima de 30%. Ficam as dúvidas, se somente uma administração mais eficaz bastará para reverter os efeitos de tantas lambanças.

Dilma teme que relação com Lula azede se forem reveladas falhas graves na gestão de Gabrielli na Petrobrás


Jorge Serrão 
Alerta Total 

Enquanto todos os olhos se voltam para o julgamento do mensalão – que hoje terá o espetáculo de cinismo dos advogados de defesa -, um problema ainda maior atormanta a petralhada. A guerra não declarada entre Dilma Rousseff e figuras muito próximas de Luiz Inácio Lula da Silva será uma fonte de desgaste para o governo. O chamado “fogo amigo” (intrigas e lances de deslealdade explícita entre os próprios petistas) costuma fazer mais estragos que a incompetente oposição política.

O caso mais perigoso e – já público – é na Petrobrás. A presidenta da companhia e amiga pessoal de Dilma Rousseff, Maria das Graças Foster, não perde uma oportunidade, nos bastidores, de fustigar seu antecessor no cargo, o baiano José Sérgio Gabrielli – pessoa muito próxima e da inteira confiança de Lula. A própria divulgação dos “prejuízos”da Petrobrás no último trimestre – que poderiam ser trocados por um discurso de lucro menor no semestre – são sinais de que a gestão Graça, com carta branca da Dilma, pretende atingir Gabrielli – o que acerta em Lula, indiretamente.

Dilma sabe que a Petrobrás tem tudo para servir de palco para um mega desgaste na segunda metade de seu governo. Dilma não pretende arcar com o elevado custo político de ser obrigada a liberar os preços dos combustíveis – gerando inflação e uma impressão psicológica de descontrole da economia. Outro risco enorme que Dilma sabe que corre: os acionistas da estatal de economia mista pesquisam várias hipóteses de irregularidades na gestão de Gabrielli na Petrobrás e podem torná-las públicas a qualquer momento.

Graça Foster assumiu a Petrobrás com carta branca para consertar tudo que estivesse errado. O perigo é que Graça, em discurso defensivo, seja obrigada a nominar quem são os responsáveis por problemas nas áreas financeira e de produção da petrolífera. O caso piora porque qualquer informação negativa sobre a Petrobrás tem grande impacto negativo sobre as ações da companhia – já bastante desvalorizadas – e sobre o próprio governo – que é o acionista majoritário.

Os rolos na Petrobrás também tornam tensas as relações entre a Presidenta Dilma e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, que também acumula o encargo de presidente do Conselho de Administração da Petrobrás. Dilma sabe de tudo o que acontece na companhia. Seja porque sua amiga Graça está no comando, ou pela própria experiência dela como ex-presidente do conselho da estatal na gestão Lula da Silva.

Por isso, um estouro de boiada na Petrobrás tem muito mais impacto que qualquer resultado no julgamento do mensalão – que agora indica que pode redundar em cadeia para alguns dos ilustres réus, principalmente Marcos Valério Fernandes de Souza. Uma eventual condenação e prisão dele pode até desencadear um efeito cascata, com o súbido surgimento de dossiês e denúncias na Justiça que comprometam outros membros do politburo petralha.

Alô, Alô, OAB...Responda com toda sinceridade...
Diante da rejeição, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da questão de ordem para desmembrar o processo do mensalão e levar o julgamento para instância inferior, advogados dos réus ameaçam uma medida extrema: recorrerão à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), caso seus clientes sejam condenados.

A alegação é que é inadmissível um condenado não ter direito a recorrer a um tribunal de uma instância superior àquela que o condenou.

A propósito, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) não aceita recursos provenientes do Juizado Especial Criminal (antigo Tribunal de Pequenas Causas) por considerar que a Turma Recursal desse Tribunal – formada por Juízes, e não por Desembargadores – não é de segunda instância.

Injustiça flagrante
Um condenado no Juizado Especial Criminal não tem o direito de recorrer a um tribunal de uma instância superior.

Antes de procurar saber o que a OEA acha disso, seria interessante a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) se manifestar, principalmente respondendo à seguinte pergunta:

Devem ser anuladas as inúmeras sentenças condenatórias prolatadas pelo Juizado Especial Criminal, todas elas sem direito a recurso à uma instância superior?

A Petrobras e uma intriga entre Lula e Dilma


247

Se Gabrielli deixou esqueletos como chefe da estatal, a então ministra da Casa Civil era presidente do Conselho

Foto: Montagem/247

Ao que tudo indica, havia esqueletos no armário da Petrobras. E esse discurso, alimentado por Graça Foster, deve fazer com que a empresa consiga um reajuste considerável nos preços da gasolina.

Sabe-se ainda que Lula, assim como boa parte do PT, ainda não digeriu a demissão de José Sergio Gabrielli da empresa. A esse respeito, o colunista Ilimar Franco, do Globo, narra uma história com uma boa intriga que envolve Lula, a presidente Dilma Rousseff e a estatal. Leia:

O pai da criança
O caso conto como contaram. Um integrando do governo critica para o ex-presidente Lula a “má gestão de Sergio Gabrielli na Petrobras”, por causa do prejuízo de R$ 1,3 bilhão. Depois de ouvir, Lula responde com a pergunta: “Ué, mas na época dele a presidente do Conselho de Administração da Petrobras era a presidente Dilma”.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
O que está por detrás destas intrigas, no fundo, é a tentativa de se tentar livrar Lula das lambanças cometidas na estatal, durante o período em que foi presidente. Mesmo que Dilma Rousseff tenha sido presidente do Conselho de Administração, as ordens e o comando geral sempre estiveram nas mãos de Lula. Sérgio Gabrielli nada mais era do que seu mero capacho. Sempre se dirigiu ao ex-presidente e jamais se curvou à autoridade de Dilma. Não por outra razão, tão logo assumiu a presidência, Dilma tratou de se livrar de Gabrielli. 

Portanto, com ou sem intriga, o fato é que a Petrobrás chegou ao ponto em que se encontra, em razão da administração Lula e sua interferência política excessiva.    

Tendo, assim, maior controle sobre os atos da estatal, pode ser que a Petrobrás volte a ter o mesmo rendimento de antes. Até porque, Lula inflou os dados da companhia a um ponto extremo que, como se vê agora, serviu para mascarar a má administração Gabrielli.   

Greve de 55 mil em refinaria no Pernambuco continua


Letícia Lins
O Globo

Sindicato de trabalhadores e representantes das empresas não fecham acordo

Recife - Não teve acordo. Fracassou a audiência realizada nesta segunda-feira para por fim à greve deflagrada por 55 mil operários que trabalham nos canteiros de obras da refinaria Abreu e Lima e da Petroquímica Suape, ambas em edificação no complexo industrial portuário de Suape, localizado no litoral sul de Pernambuco.

O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplanagem em Geral do Estado de Pernambuco (Sintepav-PE) e o Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon) não conseguiram entrar em entendimento e os trabalhadores permanecem nesta terça-feira de braços cruzados. O Tribunal Regional do Trabalho marcou para essa terça-feira o julgamento do dissídio coletivo.

No entendimento do Procurador do Trabalho Fábio Farias —que mediou o encontro entre as partes — a paralisação é desprovida de cobertura legal, porque foi decretada um dia após ter sido firmada convenção coletiva, que estabeleceu um reajuste salarial de 10,5 por cento, aumentou o valor da cesta básica de R$200 para R$260 e ainda promoveu equiparação salarial entre as categorias que atuam na região.

"No que tange à abusividade da greve, não existe dúvida de que acontece completamente distante do quadro legal admitido no país", afirmou o representante do Ministério Público do Trabalho. O movimento foi decretado à revelia do Sintepav, que chegou a distribuir uma nota na semana passada defendendo " negociações civilizadas" e se dizendo contra "atos de vandalismo, documentos apócrifos e pessoas encapuzadas". No último dia 3, dois homens encapuzados foram detidos nos canteiros da refinaria. Eles teriam tentando ameaçar trabalhadores de áreas administrativas.

Também foram registrados casos de trabalhadores ameaçando colegas com canos de ferro e pedaços de pau para que não trabalhassem. Segundo o Ministério Público do Trabalho, ao invés de paralisar as atividades por discordar do acordo firmado entre a categoria e o sindicato patronal, os operários deveriam ter solicitado a destituição da direção do Sintepav.

"Se já havia acordo, nada mais natural, por parte da representação patronal, esperar que se fosse respeitado. Não foi o que aconteceu. A meu juízo, se a categoria não concordou com o acertado pelo sindicato, a atitude prévia a acontecer, seria a de afastar a direção do sindicato, que ao ver da categoria, talvez, não tivesse cumprido com o dever de representá-los" afirmou o Procurador. Para ele, depois de fechado um acordo entre patrões e empregados, os operários "jamais" deveriam iniciar um movimento grevista". O Sinicon pediu a ilegalidade da greve. 

Apesar de não ter liderado a paralisação – atribuída pelo próprio sindicato trabalhista ‘a ação de grupos estranhos – o Sintepav solicitou ao TRT que a greve não seja considerada ilegal e quer abono dos dias parados.Mas para o MPT embora o sindicato não deva ser penalizado com multas, os operários devem ter os salários descontados pelos dias sem trabalhar. A greve contribui para retardar mais ainda as obras da refinaria, cujo cronograma enfrenta atraso superior a dois anos. O prazo inicial para a Abreu e Lima entrar em operação seria julho de 2012, mas a data - antes da greve – estava remarcada para novembro de 2014.

E agora, Presidente Dilma?


 Adriano Pires 
O Globo

No segundo trimestre de 2012, a Petrobras apresentou prejuízo de R$ 1,35 bilhão, frustrando a expectativa dos investidores, que na média esperavam um lucro de R$3 bilhões no período. É importante ressaltar que esse prejuízo da Petrobras é resultado de uma política de intervenção que começou há 10 anos e desviou o foco da empresa, que deixou de ser a busca de eficiência e lucratividade.

A empresa vem sendo usada como instrumento de política industrial através da obrigatoriedade de um conteúdo local mínimo, que beneficia a indústria local em detrimento da eficiência da Petrobras. O resultado é aumento de custos, atrasos e queda na produção.

Ao não reajustar o preço dos combustíveis no Brasil, de acordo com preço internacional, o governo vem usando a Petrobras como instrumento de política econômica, com o objetivo de controlar a inflação. Por este motivo, a Área de Abastecimento apresentou prejuízo de R$ 7,0 bilhões, o que foi determinante para o resultado global negativo do trimestre.

A empresa também sofreu por ser usada como instrumento de negociação política. O loteamento da empresa entre os partidos aliados ao governo, levou a decisões que não tem racionalidade empresarial, como é o caso da refinaria Abreu e Lima, parte de um projeto político do ex-presidente Lula com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, cujo custo de instalação já se multiplicou por 10, de US$ 2,3 bilhões para US$ 20,1 bilhões.

O prejuízo registrado neste segundo trimestre foi o primeiro resultado negativo desde o primeiro trimestre de 1999. É bom lembrar que 1999 foi um ano atípico tanto na conjuntura econômica doméstica como no setor, o que desqualifica a comparação. Naquela ocasião, o país havia mudado seu regime de câmbio e, consequentemente, passado por uma maxidesvalorização da moeda, que desorganizou a economia. O barril do petróleo estava abaixo de US$ 20 dólares, reflexo da crise econômica que assolava os países emergentes. O monopólio da Petrobras no setor havia sido quebrado, de fato, há apenas um ano e não havia ainda a descoberta dos reservatórios da camada pré-sal.

Se não houver uma mudança de visão, o resultado da Petrobras vai continuar a depender de fatores exógenos a administração da empresa, como o preço do petróleo e a taxa de câmbio, e não de sua eficiência operacional.

Só dez de 41 petroleiras no vermelho


Bruno Villas Bôas
O Globo

Exxon e Chevron lideram lucros bilionários. BP e Encana têm perdas

O resultado da Petrobras, divulgado na sexta-feira passada, colocou a estatal numa lista de dez petroleiras que tiveram prejuízo no segundo trimestre do ano, num universo de 41 empresas do setor que anunciaram seus balanços. Integram a lista a britânica BP, com perdas de US$ 1,38 bilhão, e a canadense Encana, com prejuízo US$ 1,48 bilhão. O setor enfrentou um trimestre mais difícil. Os maiores lucros são os das americanas Exxon Mobil (US$ 15,9 bilhões), ajudado por vendas de ativos, e Chevron (US$ 7,21 bilhões).

Segundo Ricardo Corrêa, da Ativa Corretora, o preço do barril de petróleo pesou sobre as companhias. O petróleo negociado em Nova York (WTI) recuou 18,43% de abril a junho, para US$ 85,37.

— Isso afetou as empresas em geral. As que tiveram grandes prejuízos, no entanto, tiveram seus problemas específicos. Não é natural empresas maduras, como a Petrobras, terem perdas assim — avalia.

No Petrobras, o tombo foi motivado pela defasagem do preço dos combustíveis, o impacto do câmbio na dívida e baixas de poços secos. Já BP teve provisões de US$ 847 milhões para reparar danos do derramamento de óleo ocorrido no Golfo do México, em 2010. Já a canadense Encana foi afetada pela queda da produção de gás natural e os preços do produto.

É Fumaça de Gol... Contra quem?


Jorge Serrão 
Alerta Total 

A turma que estuda marketing e presta atenção nas marketagens conhece bem aquele papo da expressão chinesa wei-ji. A palavrinha significa, ao mesmo tempo, crise e oportunidade. Em politica, na prática, o famoso vocáculo do velho I Ching significa: quando tem crise é que algo muda de algum modo. Ou, na tradução livre de meu oráculo caboclo: “Vai dar merda”...

A petralhada vive seu momento de wei-ji. O julgamento do mensalão, que pareceria uma impunidade cuidadosamente programada, já dá sinais de que pode render dissabores inesperados para os principais membros da “organização criminosa”. O chefão máximo dos petistas, coitado, luta pela sobrevivência, para se livrar totalmente de um câncer (que seus médicos juram ter obtido o milagre da cura). E, agora, a Presidente Dilma Rousseff se vê diante da maior encruzilhada econômica em sua gestão: o preju na Petrobrás.

Dilma está na maior m... Véspera de eleição, não fica bem reajustar os preços dos combustíveis – fator apontado, junto com a alta do dólar, como o vilão para o primeiro prejuízo, em 13 anos (número cabalístico petralha), da maior empresa da América Latina. O último prejuízo da estatal de economia mista foi no primeiro trimestre de 1999, quando houve a maxidesvalorização do real. Na ocasião, a estatal registrou perda de R$ 1,539 bilhão. Agora, o preju foi de R$ 1,346 bilhão. Mas, mesmo com as perdas, a Petrobrás acumula lucro líquido de R$ 7,868 bilhões no primeiro semestre. Por que, então, tanto problema?

A turbulência na Petrobrás tem várias implicações delicadas. Primeiro, a terrível guerra dentro do petralhismo travada entre Dilma e o ex-presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli, que sempre foi protegido do Lula. Quando Dilma emplacou sua amiga Maria das Graças Foster no comando da empresa, para a dura missão de sanear onde havia sérios problemas, acirrou a antipatia interna que uma parte da cúpula petralha tem com ela a séculos, desde quando veio do PDT de Brizola para o PT do Josef Dirceu.

Dilma sabe que a Petrobras é seu calcanhar de Aquiles. Os interesses ali envolvidos são imensos. Quem controla a empresa, na verdade, não é o governo brasileiro – que apenas aproveita suas verbas para politicagens. Quem manda ali, realmente, a Oligarquia Financeira Transnacional que comanda o setor global de petróleo, gás e energia. O objetivo dos controladores se resume em três palavrinhas: lucro, lucro e mais lucro. O poder eles já tem há séculos.

Tal oligarquia globalitária, quando tem seus interesses feridos, contrariados ou prejudicados, é quem faz funcionar o princípio do wei-ji. Ou seja, tira-se do poder quem lhes atrapalha. O processo é simples. Troca-se seis por meia dúzia. Tudo parece que muda, para ficar a mesma coisa. Um fantoche é trocado por outro marionete para que o sistema de poder real mundial não se altere.

Por isso, a crise na petrobrás, uma reviravolta no mensalão, novidades no caso Cachoeira e outras surpresas que podem surgir a qualquer momento, devidamente plantadas na mídia amestrada, são capazes de abrir caminho para mudanças políticas que sejam convenientes para os verdadeiros donos do poder. Os controladores são os donos da bola do jogo.

Como diria o sábio e saudoso locutor esportivo Waldir Amaral (indivíduo competente...), estamos em ritmo de “fumaça de gol”. Pena que seja, novamente, um forte sinal de gol contra o legítimo interesse nacional do Brasil. Que a Oligarquia globalitária arma mais um golpe um golpe, a petralhada aloprada nem precisa ter dúvida. E, neste jogo sujo, tudo indica que os militares nem serão convocados para bater uma bolinha... A nova modalidade já foi testada e aprovada no Paraguai...

Eis a conjuntura em que pode ser criado, de repente, um rápido vácuo de poder – que será ocupado por quem for mais ágil e bem preparado tática e estrategicamente para a missão. “É fumaça de gol”... Mas o jogo do poder real é para “indivíduos competentes”... Vamos esperar para saber na horta de quem vai chover...

Pena que a maioria esmagadora dos brasileiros só possa assistir a este jogo como torcedores ignorantes e bestificados de uma realidade que não conseguem mudar para melhor! Em tempos olímpicos, contentemo-nos com a Medalha de Ouro. Dos tolos, é claro...

Presidente da Petrobras faz autocrítica após resultado ruim


Exame.com
Com informações da AFP

A perda de US$ 663 milhões no segundo trimestre anunciada na sexta-feira tomou de surpresa o mercado, que aguardava ganhos de quase US$ 2 bilhões

Roosewelt Pinheiro/ABr
Graças Foster: as principais razões citadas para o decepcionante resultado
foram a desvalorização do real

São Paulo - A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, fez, nesta segunda-feira, uma forte autocrítica da gestão da quinta maior petroleira do mundo, que registrou no segundo trimestre seu pior desempenho em 13 anos, e afirmou que a empresa deve se concentrar em produzir mais petróleo e reduzir custos.

A perda de US$ 663 milhões no segundo trimestre anunciada na sexta-feira tomou de surpresa o mercado, que aguardava ganhos de quase US$ 2 bilhões.

As principais razões citadas para o decepcionante resultado foram a desvalorização do real (a empresa têm dívida e altos custos em dólares), o fechamento ou abandono de 41 poços perfurados entre 2009 e 2012, a defasagem no preço dos derivados vendidos no Brasil, a queda da produção de petróleo, maiores custos de extração e mais importações de gás devido a um aumento do consumo das termoelétricas.

A Petrobras projetou na segunda-feira que a produção se recuperará no quarto trimestre do ano, e manteve sem mudança sua meta de produção para 2012, em 2 milhões de barris equivalentes de petróleo por dia (bep/d), estável com relação ao ano passado.

Foster, empenhada em tornar mais realistas as metas da empresa desde que assumiu o cargo em janeiro, disse em coletiva de imprensa que as perdas foram provocadas "por uma série de razões, algumas dependem da Petrobras e outras não" e disse que é preciso se concentrar nas causas que a companhia pode controlar.

"A produção, por exemplo, depende de nós, da Petrobras, não depende para nada do governo. Depende de fazer uma boa planificação, de seguir a trilha para planificação que traçamos. Depende unicamente de nós, da recuperação operacional da bacia de Santos" (sudeste do país), disse.

O governo, acionista majoritário da Petrobras, é reticente em repassar a alta dos preços internacionais para a gasolina e o diesel, como o fez em junho e julho, para não empurrar a inflação, o que também afetaria o resultado da empresa.

Com gigantescos investimentos de 236,500 bilhões de dólares previstos para até 2016, o maior plano de investimento empresarial mundial, a Petrobras busca mais que duplicar para 2020 sua produção de petróleo para converter-se em um dos maiores produtores do planeta após a descoberta de gigantescas reservas a mais de 6 km debaixo do solo marinho, na região chamada "pré-sal".

Contudo, desde 2003 a empresa não tem conseguido cumprir com suas metas anuais de produção de petróleo e historicamente seus projetos atrasam. Recentemente, Foster teve que reduzir a estimativa de produção para 2020, de 4,91 milhões de bep/d a 4,2 milhões de bep/d.

Apesar dos grandes investimentos, a produção de petróleo caiu 5% no segundo trimestre deste ano, com relação ao primeiro, em meio a interrupções de operações, uma menor eficiência e a suspensão da extração no campo de Frade, após um vazamento provocado pela petroleira Chevron em novembro de 2011, disse nesta segunda-feira a companhia.

"O trabalho de redução de custos é uma necessidade", insistiu Foster.

"Tenho certeza de que é só uma questão de tempo antes de que aumentemos a produção de petróleo, a capacidade das refinarias e para que tenhamos melhores resultados para nossa companhia", concluiu Foster.

As ações da estatal, que chegaram a recuar mais de 5% no início da sessão, fecharam praticamente estáveis nesta segunda-feira, em queda de 0,1%, a R$ 19,92, enquanto que o Ibovespa subiu 1,9%, a 58.344 pontos.

Analistas veem futuro incerto e pessimista para a Petrobras


Ramona Ordoñez, Bruno Rosa e Bruno Villas Bôas
O Globo

Especialistas criticam uso da empresa como instrumento do governo

PEDRO LOBO/BLOOMBERG/
Refinarias, como a Reduc, 
estão operando no limite para minimizar importações

O prejuízo da Petrobras de R$ 1,3 bilhão no segundo trimestre mostra que a companhia chegou ao fundo do poço, na opinião de analistas. Adriano Pires Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), destacou que os efeitos do câmbio poderiam ter sido minimizados se a Petrobras pudesse ter repassado essa diferença para os preços finais dos combustíveis.

— Esse prejuízo mostra que a Petrobras não aguenta mais ser instrumento da política econômica do governo. Se isso continuar, a estatal vai caminhar para a destruição. Além disso, a empresa é usada para a política industrial. A obrigatoriedade de adquirir materiais e equipamentos junto à indústria nacional em grandes volumes prejudica a companhia, obrigando a empresa não apenas a pagar mais caro, como também atrasando seus projetos diante das dificuldades da indústria nacional de atender plenamente as demandas — alertou Pires.

Segundo Paulo Esteves, analista-chefe da Gradual Investimentos, o prejuízo pode ter sido o fundo do poço da companhia. Segundo ele, com o resultado, o governo pode ser mais amigável com a ideia de ajudar a reduzir a defasagem de preços da Petrobras.

— Pela própria necessidade da Petrobras de produzir caixa para investir em projetos relevantes, acho que o governo pode ser mais amigável com a ideia de ajudar a reduzir a defasagem de preços da Petrobras.

Produção não vai subir até 2013
Lucas Brendler, analista da corretora Geração Futuro, lembra ainda que os próximos meses serão de muitas incertezas para a estatal. Como a produção de petróleo da companhia vai permanecer no mesmo nível até o fim de 2013, a empresa ficará refém da cotação do dólar em relação ao real e da defasagem de preços da gasolina e do diesel no mercado interno:

— Se houvesse repasse dos preços dos combustíveis, a empresa seria mais rentável para seus acionistas. É muita incerteza.

Um analista do setor, que preferiu não se identificar, disse que mais importante que os resultados apresentados ontem pela empresa é a falta de perspectiva de que a distorção nos preços será corrigida.

— Mas isso não deve ocorrer, já que o governo faz uso político da empresa. O mercado está cada vez mais preocupado com essa falta de perspectiva de correção de preços, pois a empresa não consegue gerar caixa o suficiente para dar conta de um plano de investimentos tão audacioso. A importação só sobe e as refinarias estão operando a plena carga, deixando a Petrobras em um cenário difícil— lembrou.

Segundo Luiz Otávio Broad, da Ágora, os resultados vieram muito abaixo da previsão de lucro de R$ 1,9 bilhão da corretora, que era, inclusive, uma das mais pessimistas do mercado.

— A expectativa já era bastante ruim. Era ruim por causa do câmbio, que provocaria perdas cambiais. E também era uma expectativa ruim por causa da defasagem de preços em relação ao mercado internacional. Os números vieram ainda piores — explicou Broad.

Quem foram os vilões do 1º prejuízo da Petrobras em 13 anos


Marcela Ayres 
Exame.com

Analistas esperavam uma forte queda nos resultados, mas não a ponto de a empresa entrar no vermelho

Divulgação
Plataforma da Petrobras: estatal registra primeiro prejuízo
 trimestral em mais de uma década

São Paulo - O dólar foi o principal algoz da Petrobras no segundo trimestre do ano. Depois de 13 anos no azul, a última linha do balanço da estatal indicou prejuízo de 1,3 bilhão de reais entre abril e junho, pegando o mercado de surpresa. Para se ter uma ideia, pesquisa feita pela própria companhia com analistas de 21 corretoras indicava expectativa média de lucro de 4 bilhões de reais para o período - o que já representava menos da metade do resultado obtido pela Petrobras nos três primeiros meses do ano.

No balanço, a estatal afirma que "a desvalorização do real afetou de maneira relevante o resultado financeiro, pelo nosso endividamento denominado em dólares, mas também os custos dolarizados da companhia".

A alta de 10,9% da moeda americana, no trimestre, causou um rombo considerável nas contas da estatal. O resultado financeiro líquido da Petrobras, linha que mais expressa esse impacto, ficou negativo em 6,407 bilhões. No mesmo período de 2011, a companhia havia apresentado um número positivo em 2,901 bilhões.

Apesar de ser um grande motivo, o câmbio não foi o único vilão para os negócios. Maiores gastos com baixas de poços secos ou subcomerciais, perfurados principalmente entre 2009 e 2012 e a diminuição da produção de óleo em função de paradas para manutenção contribuíram para o prejuízo amargado pela estatal.

Balança comercial
A diferença entre o que a Petrobras paga na importação de derivados do petróleo e o que ela cobra no mercado interno também penalizou as contas da empresa. A defasagem só foi diminuída no final do trimestre: de 25 de junho para cá, houve reajuste de 3,94% para o diesel e 7,83% para a gasolina. Duas semanas depois, o diesel subiu outros 6%.

Em relatório, os analistas Frank McGann e Conrado Vegner, do Merrill Lynch, lembram que a mexida não será suficiente para achatar o descasamento entre o preço dos derivados de petróleo no mercado internacional e os valores praticados no país - o desconto da gasolina continuará existindo, batendo em 15%. Para o diesel, o percentual deverá ser de 13%.

Na prática, o consumo aquecido faz com que a estatal tenha que recorrer à importação para atender a demanda. Com isso, a Petrobras forma estoques a custos mais elevados e aumenta a participação de importados no seu mix de vendas. O governo, por outro lado, faz pressão para que a diferença não seja passada adiante com o medo que a subida alimente a inflação. "Isso significa que os ganhos continuarão a ser negativamente afetados, a não ser que o desconto diminua daqui para frente", escreveram McGann e Vegner.

A presidente da empresa, Maria das Graças Foster, afirmou que a companhia está trabalhando para recuperar a rentabilidade. “Desde que assumi a presidência da Petrobras, há cinco meses, venho reiterando nosso comprometimento com a paridade internacional de preços”, disse no balanço. 

Privatizem a Petrobras!


Rodrigo Constantino
O Globo 

A “esquerda caviar” aplaude a estatal, que gastou R$ 650 milhões com patrocínios de 2008 a 2011. Sem falar de blogueiros “chapa-branca”, que recebem gordas verbas

A Petrobras possui controle estatal, mas tem capital misto, com milhares de investidores brasileiros e estrangeiros. O uso político da estatal tem custado cada vez mais a esses investidores, cujos interesses são ignorados pelo governo. O prejuízo divulgado na sexta é mais uma prova disso.

O governo mantém o preço dos combustíveis defasado para segurar a inflação, afetando negativamente o lucro da empresa. Além disso, ele demanda grande participação de fornecedores nacionais nos bilionários investimentos da estatal, o que custa mais e atrasa o cronograma. É o uso da empresa para a política industrial de governo, que já arrecada bilhões em royalties e impostos.

Infelizmente, quando o assunto é Petrobras o debate fica tomado pela emoção, sem espaço para argumentos racionais. A esquerda estatizante e a direita nacionalista se unem ideologicamente, alimentadas por muitos interesses obscuros em jogo, e repetem em uníssono que o setor é “estratégico”. A Embraer, a Telebrás e a Vale também eram “estratégicas”.

Ora, justamente por ser estratégico o setor deveria ser retirado da gestão politizada, ineficiente e corrupta do governo. A exploração do petróleo começou pela iniciativa privada nos Estados Unidos. Desde a primeira prospecção de Edwin Drake em 1859, na Pensilvânia, o setor viu um crescimento incrível com base na competição de várias empresas privadas. O Canadá também conta com dezenas de empresas privadas atuando no setor.

Por outro lado, países como Venezuela, México, Irã, Arábia Saudita, Nigéria e Rússia possuem estatais controlando a exploração de petróleo. Ninguém ousaria dizer que isto fez bem para seus respectivos povos, vítimas de regimes autoritários.

O brasileiro paga uma das gasolinas mais caras do mundo, o país ainda precisa importar derivados de petróleo após décadas de sonho com a autossuficiência, a estatal é palco de diversos escândalos de corrupção, mas muitos ainda repetem, inflando o peito, que “o petróleo é nosso!” Nosso de quem, cara-pálida?

O crescimento da produção de óleo e gás da Petrobras desde que o PT assumiu o governo foi medíocre: somente 2,4% ao ano. Trata-se de um resultado lamentável após tantos bilhões investidos, inclusive com financiamento do BNDES.

A Petrobras, que tinha R$ 26,7 bilhões de dívida líquida em 2007, terminou o primeiro semestre de 2012 devendo mais de R$ 130 bilhões. O endividamento sobe em ritmo acelerado por conta de seu gigantesco programa de investimentos, mas nem os investidores nem os consumidores se beneficiam disso.

A rentabilidade da Petrobras é uma das menores do setor. Seu retorno sobre patrimônio líquido não chega a 10%, metade da média de seus pares internacionais. Os investidores acusam o golpe, e as ações da Petrobras apresentam um dos piores desempenhos no mundo.

Desde 2009, suas ações caíram 5%, enquanto o Ibovespa subiu mais de 40%, e a Vale, mais de 50%. É o governo destruindo o valor da poupança de milhares de pessoas, incluindo todos que utilizaram o FGTS como instrumento para apostar na empresa.

Por que não há maior revolta? Por que não há mobilização pela privatização da Petrossauro, como a chamava Roberto Campos? Parte da resposta é o fator ideológico já citado. Outra parte diz respeito à enorme quantidade de grupos de interesse que mamam nas tetas da estatal.

Seus 80 mil funcionários custaram para a empresa mais de R$ 18 bilhões em 2011, ou quase R$ 20 mil mensais por empregado. Claro que muitos merecem o que ganham, mas como negar o uso da estatal como cabide de emprego para os “amigos do rei”?

Fornecedores nacionais ineficientes ou corruptos também agradecem, pois não precisam competir abertamente no livre mercado. O caminho até a estatal muitas vezes é outro, como comprova o caso do Silvinho “Land Rover”, o ex-secretário do PT que ganhou um carro importado de uma empresa fornecedora da estatal.

Artistas e cineastas engajados da “esquerda caviar” também aplaudem a estatal, que destinou mais de R$ 650 milhões para patrocínios culturais de 2008 a 2011. Isso sem falar de blogueiros “chapa-branca”, que recebem gordas verbas da estatal. A lista é longa.

Os políticos, então, nem se fala. Quem esqueceu Severino Cavalcanti negociando à luz do dia, em nome da “governabilidade”, aquela diretoria que “fura poço”? O ex-presidente Lula era outro que adorava usar a Petrobras para seus fins políticos em parceria com Hugo Chávez.

Só há uma maneira eficaz de acabar com esta pouca vergonha que tem custado tão caro aos investidores da empresa: sua privatização!

Petrobras surpreende e tem prejuízo de R$ 1,3 bi no 2º tri


Marcela Ayres, 
Exame.com 

No mesmo período do ano passado, estatal registrou lucro de R$ 10,9 bilhões

Germano Lüders/EXAME
Petrobras registrou prejuízo líquido 
de 1,3 bilhão de reais no segundo trimestre de 2012

São Paulo - O mercado esperava diminuição nos lucros apresentados pela Petrobras no segundo trimestre do ano. Mas os números vieram piores: bastante afetada pela valorização do dólar, a estatal teve um prejuízo de 1,3 bilhão de reais entre abril e junho, ante lucro de 10,9 bilhões registrado no mesmo período do ano anterior.

Foi o primeiro prejuízo da Petrobras em mais de dez anos. No balanço, a empresa chama a atenção para uma série de fatores que teriam afetado seu resultado operacional. Além do menor volume de produção de petróleo, houve aumento dos custos com manutenção e intervenções em poços, perfurados desde 2009 com encargos mais elevados. 

O ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) da empresa no mesmo período foi de 10,6 bilhões de reais, queda de 33,3% sobre os 15,9 bilhões de igual trimestre no ano passado. A receita da companhia, por outro lado, cresceu 11,5%, passando de 61,7 bilhões para 68 bilhões.

Já a produção de petróleo e gás ficou praticamente em linha com o número alcançado em 2011: 2,33 milhões de barris por dia - uma redução de 1%. 

Área de abastecimento da Petrobras volta a ter prejuízo


Exame.com
Com Agência Estado

No mesmo período do ano passado, a área havia registrado perda de R$ 2,28 bilhões

Bruno Veiga/Divulgação/EXAME
Petrobras: o prejuízo da área de Abastecimento praticamente anulou o lucro 
líquido de R$ 10,673 bilhões da área de Exploração e Produção

São Paulo - A área de Abastecimento da Petrobras voltou a registrar forte prejuízo no segundo trimestre deste ano. Afetada pela política comercial da estatal de não aplicar repasse dos preços internacionais aos produtos vendidos no mercado doméstico, a área reportou prejuízo de R$ 7,03 bilhões entre abril e junho. No mesmo período do ano passado, a área havia registrado perda de R$ 2,28 bilhões.

A alta reflete o efeito do câmbio no período. Com o dólar valorizado em relação ao real, a compra de produtos no mercado externo ficou mais onerosa para a Petrobras. Por isso, a presidente da estatal, Maria das Graças Foster, reiterou no balanço divulgado na noite da sexta-feira a necessidade de a companhia adotar uma política de paridade entre os valores no Brasil e as cotações do mercado externo. "Estamos trabalhando para recuperar nossa rentabilidade. Desde que assumi a presidência da Petrobras, há cinco meses, venho reiterando nosso comprometimento com a paridade internacional de preços", destacou a executiva no documento.

Preocupada com o resultado deficitário da área de Abastecimento, a diretoria da Petrobras anunciou três elevações de preços desde o final do ano passado. A primeira, em 1º de novembro, elevou o preço da gasolina na refinaria em 10%. O diesel foi reajustado em 2%. Depois, no fim de junho, uma segunda rodada de aumentos foi anunciada, com reajuste de 7,83% na gasolina e 3,94% no diesel. Dias depois, a companhia ainda anunciou reajuste de 6% no preço do diesel. "Esses reajustes são necessários para a financiabilidade do Plano de Negócios e Gestão, para preservarmos nossos limites de alavancagem e para garantir a lucratividade da companhia", disse Graça Foster.

O prejuízo da área de Abastecimento praticamente anulou o lucro líquido de R$ 10,673 bilhões da área de Exploração e Produção (E&P). O resultado ficou 0,7% superior ao registrado no segundo trimestre do ano passado. Destaque também para o prejuízo de R$ 5,329 bilhões na área Corporativa da Petrobras. O balanço não dá detalhes desse resultado.

O lucro líquido da área de Gás e Energia encolheu quase 90% entre o segundo trimestre deste ano e o mesmo período do ano passado, para R$ 86 milhões. A área de Distribuição reportou lucro de R$ 472 milhões, mais de 100% maior do que o lucro de R$ 234 milhões do intervalo entre abril e junho do ano passado. A área de Biocombustível apresentou prejuízo de R$ 113 milhões, ante prejuízo de R$ 37 milhões de 2011. Já a área Internacional registrou queda de 93% no lucro no mesmo comparativo, para R$ 42 milhões.

Marasmo governamental


Gil Castello Branco
O Globo

Obras da Copa continuam com execução pífia. A Infraero investiria R$ 2 bilhões neste ano. Aplicou apenas 18% no semestre

 “É a economia, estúpido!”, escreveu James Carville, o marqueteiro do então candidato à presidência dos Estados Unidos, Bill Clinton, em cartaz fixado no comitê da campanha. A frase curiosa explicava as razões da vitória de Clinton sobre George Bush, o pai, que tentara a reeleição inspirado na onda de patriotismo gerada pela vitória americana na Guerra do Golfo, um ano antes.

No Brasil não é diferente. As popularidades de Lula e Dilma estão diretamente relacionadas à expansão da classe média, à melhoria na distribuição de renda e à ampliação do emprego. Os fatos são decorrentes de políticas acertadas, mas, sobretudo, do desempenho da economia. Assim, nem o julgamento do mensalão fará tão mal à eventual reeleição de Dilma quanto a estagnação do Produto Interno Bruto (PIB), já apelidado de “pibinho” pela oposição.

Desta forma, estão a caminho novas medidas de estímulo à economia. A intenção é despertar o “instinto animal” dos empresários em favor dos investimentos. Afinal, depois de 2010, quando o PIB cresceu 7,5%, a economia empacou, com espasmos curtos e esporádicos, fazendo jus à comparação com o “voo da galinha”. A verdade, porém, é que o próprio governo não tem feito o dever de casa.

As obras da Copa de 2014, por exemplo, continuam com execução pífia. A Infraero, que promete investir R$ 2 bilhões neste ano, aplicou apenas R$ 368 milhões (18%) no primeiro semestre. Para a adequação do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro Antonio Carlos Jobim, o Galeão, estão previstos R$ 200,4 milhões até o fim do ano, mas foram investidos irrisórios 9,7% no primeiro semestre de 2012, o equivalente a R$ 19,5 milhões. Aliás, a estatal vive, há anos, verdadeira “anorexia” quanto aos seus investimentos. Nos últimos 12 anos, somadas as dotações autorizadas pelo Congresso Nacional, chega-se a R$ 10,5 bilhões, enquanto as aplicações foram de R$ 5,4 bilhões (51%). A diferença acumulada de mais de R$ 5 bilhões explica o caos nosso de cada dia nos aeroportos brasileiros. O bordão “imagina na Copa” circula nas redes sociais, sendo assunto diário em todas as cidades-sedes.

Os investimentos da União estão no mesmo ritmo. Neste ano, de cada R$ 4 previstos, apenas R$ 1 foi aplicado até julho. Além disso, em valores constantes, o investido em obras e equipamentos até o mês passado é inferior em R$ 3 bilhões às aplicações do mesmo período em 2010.

A letargia tem nome e endereço: Ministério dos Transportes, localizado no bloco R da Esplanada dos Ministérios. Vale lembrar que a Pasta ficou “sob nova direção” após as irregularidades que vieram à tona em 2010 e implicaram na demissão do ex-ministro dos Transportes Alfredo Nascimento. Diante da “casa arrombada”, os novos gestores trancaram a execução, até para não serem envolvidos em escândalos semelhantes àqueles que provocaram a demissão dos antecessores.

Assim, em 2012, tanto os investimentos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) quanto os da Valec Engenharia, Construções e Ferrovias S.A. são os menores dos últimos três anos, mesmo em valores correntes. No Dnit, as aplicações nos primeiros sete meses deste ano atingiram R$ 4,1 bilhões, inferiores aos R$ 6,1 bilhões e aos R$ 5 bilhões de 2011 e 2010, respectivamente.

Na Valec, que vive a “síndrome do Juquinha” – referência ao ex-presidente preso na Operação Trem Pagador -, os investimentos decaíram de R$ 1 bilhão (janeiro/julho de 2010) para R$ 451,9 milhões nos primeiros sete meses deste ano.

Diante do marasmo, a ministra do Planejamento tem despachado no bloco R, tentando agilizar os investimentos, as parcerias e as novas concessões. Com as visitas frequentes ao Ministério dos Transportes, Miriam Belchior ganhou dos técnicos da Pasta o apelido de Supernanny, personagem de um programa de televisão inglês, reproduzido no Brasil, no qual uma superbabá dá orientações a pais de crianças rebeldes. Faz sentido. Para os que não entendem a presença quase diária da ministra no prédio vizinho, que mobiliza grande parte dos investimentos federais, a resposta é clara: “É a economia, estúpido.”

Como a iniciativa privada costuma ficar à espreita analisando a gestão pública, o governo, antes de atiçar o “instinto animal” dos empresários, precisa despertar o seu, para dar amplitude e altura ao “voo da galinha”. Afinal, se as metáforas sobre o crescimento da economia estão associadas ao reino animal, os investimentos públicos não podem caminhar na velocidade de um cágado…