quarta-feira, março 30, 2022

Bolsonaro avisou o que faria com o Ministério da Educação

 Bernardo Mello Franco

O Globo

 | Cristiano Mariz/Agência O Globo

O ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, e o presidente Jair Bolsonaro

 (ao fundo) durante cerimônia no Palácio do Planalto em novembro de 2021 

Jair Bolsonaro declarou que botaria a “cara no fogo” pelo ministro da Educação. Quatro dias depois, decidiu rifá-lo do governo. O pastor Milton Ribeiro não caiu por defeitos novos. Sua demissão é uma tentativa de aliviar as queimaduras na imagem presidencial.

As denúncias no MEC chamuscaram um dos pilares do discurso bolsonarista: a mentira de que o governo é imune à corrupção. O escândalo começou com suspeitas de tráfico de influência. Em poucos dias, descobriu-se a existência de um balcão de negócios na pasta.

Dois pastores ligados ao ministro foram acusados de cobrar propina para agilizar a liberação de recursos. Um prefeito contou que o pedágio podia ser pago com um quilo de ouro (cerca de R$ 300 mil na cotação atual).

A revelação das negociatas deu início a um festival de hipocrisia. A bancada evangélica, que indicou o ministro, passou a exigir sua cabeça. O pastor Silas Malafaia, que orava de mãos dadas com Eduardo Cunha, fez discurso indignado contra a corrupção.

No último dia no cargo, Ribeiro finalmente confessou uma heresia. Admitiu ter autorizado a produção de Bíblias com sua foto, distribuídas pelos pastores citados no esquema.

Na carta de despedida, o ministro negou outros pecados que poderão ser julgados pela Justiça dos homens. Citando o nome de Deus, ele se disse interessado numa investigação “com profundidade”. Em seguida, tentou reescrever a história da própria demissão.

“Minha decisão decorre exclusivamente de meu senso de responsabilidade política e patriotismo”, afirmou. A frase contém duas falsidades. A decisão foi de Bolsonaro, e Ribeiro não caiu por ser responsável ou patriota.

O pastor também jurou fidelidade ao presidente, por quem disse ter “respeito” e “gratidão”. Ele deixa para trás uma pasta arrasada, que terá o quinto ministro desde o início do governo.

A corrupção é só uma face da crise na Educação. Antes de virar caso de polícia, a pasta já havia sido sequestrada pela guerrilha ideológica e submetida ao aparelhamento religioso. 


Ensino de história afro-brasileira ainda enfrenta obstáculos

 Edison Veiga

Deutsche Welle

Desde janeiro de 2003 é obrigatório o ensino, em todas as escolas brasileiras, de história e cultura africanas. Mas pesquisadores relatam que tema ainda esbarra no preconceito e falta de regulamentação. 

Trata-se de um movimento iniciado nos anos 1990 que se tornou lei em vigor a partir de janeiro de 2003. "Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira”, diz o texto, datado de 9 de janeiro de 2013.

Este é, portanto, o vigésimo ano letivo em que tal assunto precisa ser abordado pelas escolas brasileiras. Pesquisadores ouvidos pela DW Brasil reconhecem avanço, mas ainda pedem melhorias para que o ensino da história africana deixe de ser algo exótico e passe a ser visto como essencial.

"Existe uma necessidade de mudança para que não tenhamos [nas escolas] a repetição dessa história eurocentrada, muito mais pautada pelos grandes feitos e pelos grandes heróis, que negligência, a história dos povos africanos e também dos povos indígenas”, salienta a historiadora Tatiana Raquel Reis Silva, professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

"É humanamente impossível estudar e entender a história do mundo sem passar pela história do continente africano desde a remota antiguidade”, defende o pesquisador e escritor Nei Lopes, autor de, entre outros, Dicionário de História da África, cujo volume 2 acaba de ser lançado agora. "E faço isso ao meu jeito, como autodidata, porque nunca vi nada disso nos currículos dos cursos elementar, secundário e superior, que incluíam história de todos os continentes, menos o africano.”

Professor de escola pública e pesquisador nas Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade de Estrasburgo, na França, o historiador Philippe Arthur dos Reis ressalta que o tamanho da população negra do Brasil é o principal ponto para justificar que o ensino da história africana seja praticado nas escolas.

"[É preciso] tratar de questões de remetem ao passado de um continente que durante a modernidade foi saqueado não apenas em suas riquezas materiais mas também suas pessoas que viviam ali e foram tratadas como escravas por europeus e brancos brasileiros. Isso se reflete, hoje, pela dificuldade de absorção do negro no mercado de trabalho”, diz ele, lembrando que muitos aspectos da cultura nacional, das artes à gastronomia, são um legado africano.

Legislação

Desde janeiro de 2003 é obrigatório o ensino, em todas as escolas brasileiras, de história e cultura africanas. Mas, e este é um ponto reclamado pelos pesquisadores, jamais foi regulamentada uma carga horária mínima para isso, muito menos princípios para nortear os pontos de vista de tais aulas.

"Ao longo desses anos, temos buscado acompanhar o processo de implementação da lei, do conteúdo. De dez anos para cá, percebemos um maior conhecimento, uma efetivação mais palpável das diretrizes”, pontua Reis Silva. "Avançamos, mas ainda temos muito o que avançar. Muitos professores, sobretudo de cidades pequenas do interior, ainda não têm acesso aos cursos de formação e aos materiais.”

Para Arthur dos Reis, a lei trouxe a questão para o centro do debate. Mas há ainda muitas lacunas e o novo ensino médio, instituído a partir deste ano, falha porque dificulta que o assunto seja contemplado em seus percursos.

De forma geral, o historiador avalia como positiva a legislação mas sente falta de uma visão mais abrangente da história africana. "Não existe efetivamente uma historiografia conectada entre os povos [do continente, como há na Europa]. Parece que não se consegue depreender uma conexão, ainda é algo fragmentado”, comenta.

Co-autor do livro Dicionário de História de África e autor de, entre outros, O Pensamento Africano no Século 20 , o historiador José Rivair Macedo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Indígenas e Africanos (NEAB), recorda que é preciso retroceder 30 anos para contextualizar a política pública de ensino de história africana e afro-brasileira nas escolas.

"Até então as relações raciais existentes no Brasil eram entendidas pelo modelo da mestiçagem, pela democracia racial”, comenta ele. "Em 1995, em vitória dos movimentos negros e sociais, a política racial passou a ser entendida como política pública.” Para ele, a lei de 2003 é consequência desse episódio.

O pesquisador situa o governo Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 2002, como pontapé dessa mudança de perspectiva na esfera pública, os governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff como o momento histórico em que isso se consolidou, de 2003 a 2015, e os governo Michel Temer e Jair Bolsonaro, a partir de 2016, como um período em que "as políticas de inclusão e de valorização da diversidade passaram a ser alvo de questionamentos e objeções”.

Dificuldades e resistência

Ele admite que as dificuldades para a implementação desse ensino resistem ainda hoje. Se no início da vigência da lei o argumento principal era pela falta de materiais e pelo desconhecimento dos temas, agora ele vê uma dificuldade em "conscientização dos educadores”.

"O ensino de história afro-brasileira não se trata apenas do contato com a história da África, mas sim da história da África conectada aos atuais afrobrasileiros, ou seja, inserida em uma política pública que deve ser sustentada pelo estado brasileiro com vistas a eliminação do racismo estrutural de nossa sociedade”, argumenta ele.

A historiadora Reis Silva entende que o problema se torna ainda mais grave quando se percebe que, pela historiografia tradicional, boa parte da população brasileira é educada por meio de episódios que "não fazem referências a ela, aos seus antepassados”. "Isso constituiu um problema. E agora a gente precisa intervir. É urgente e necessário aqui no Brasil o ensino da história africana e, consequentemente, a história das pessoas que aqui vieram”, pontua. "Até para romper com os estereótipos que afetam os descendentes hoje no país.”

Mesmo duas décadas depois da obrigatoriedade, ela nota que ainda há resistência por parte de alguns professores. "Alguns têm uma visão distorcida sobre a África, particularmente aqueles ligados a igrejas neopentecostais que argumentam terem o direito de não ministrar esse conteúdo ‘porque fala da religião do diabo' [referindo-se assim pejorativamente a religiões de matriz africana]. A gente se depara ainda com situações como essas. São problemas de várias ordens, inclusive professores que não entendem a própria realidade”, diz Reis Silva.


A luta do bem contra o mal

 Thomas Traumann 

Veja online

A campanha de 2022 não será entre Bolsonaro e Lula. Será entre o antibolsonarismo e o antipetismo

Partido Liberal/Reprodução/Youtube

O discurso do presidente Jair Bolsonaro no lançamento da sua pré-campanha no domingo (27/03), em Brasília, marcou o tom do que deve ser a campanha dos próximos sete meses: “Não é uma luta da esquerda contra a direita. É uma luta do bem contra o mal”, disse Bolsonaro. É uma declaração que os apoiadores de Lula da Silva concordam em 100%, com a óbvia diferença de quem é identificado como o represente do “bem” e do “mal”. A campanha de 2022 não será entre Bolsonaro e Lula, será entre o antibolsonarismo e o antipetismo.

Lula da Silva lidera hoje as pesquisas porque a maior parte dos eleitores rejeitam mais Bolsonaro do que o PT. No Datafolha, com respostas múltiplas, 55% dos entrevistados disseram que se recusam a votar em Bolsonaro, enquanto 35% não votam em Lula (resultado muito similar ao do segundo turno do mesmo Datafolha, Lula com 55% e Bolsonaro com 34%). Nas pesquisas divulgadas na semana passada pelas empresas FSB, Ipespe, Ideia e Datafolha o candidato Lula tem entre 40% e 43% no primeiro turno com Bolsonaro variando entre 26% e 29%.

A possibilidade de um terceiro com chances diminui a cada semana. Hoje, somados os sete anões da campanha – Sergio Moro, Ciro Gomes, João Doria, Simone Tebet, Eduardo Leite, André Janones e Felipe D’Ávilla – tem entre 21% e 23% das intenções de voto. A possibilidade deste quadro mudar é baixa. Perguntados se podem mudar de opinião até as eleições, 67% dos entrevistados pelo Datafolha afirmaram que “estão totalmente decididos” em quem votar.

Com Lula acima dos 40%, Bolsonaro acima dos 25% e o terceiro colocado abaixo de 10%, a eleição de 2022 será um longo segundo turno. Já de saída, Lula está no segundo turno e muitos eleitores que se desgarraram de Bolsonaro estão voltando a apoiar o presidente porque não surgiu um outro nome capaz de enfrentar o PT. O fracasso de Moro, Doria, Leite e Tebet em se firmar como alternativa a Bolsonaro, empurra o primeiro turno para um estresse que os brasileiros estão acostumados apenas no segundo.

O discurso do medo é uma máxima bolsonarista. No discurso no PL, Bolsonaro disse que “me embrulha o estômago ter que jogar nas quatro linhas da Constituição, mas eu jurei e não foi da boca para fora”, acrescentou, reforçando a cantilena de que seus adversários e a Justiça conspiram contra ele. “O nosso inimigo não é externo, é interno”, disse Bolsonaro. Em 2018, Bolsonaro já havia usado com sucesso o discurso do medo (“O Brasil vai virar uma Venezuela”), mas dessa vez está fazendo não apenas por instinto. Pesquisas encomendas pelo marqueteiro Duda Lima, contratado pelo presidente do PL Valdemar da Costa Neto, mostram que não há outra opção. As eventuais realizações do governo se perdem com o mau humor na economia. A redução nas mortes por Covid até reduziu o desgaste do presidente, mas a volta da inflação é imperdoável.

No domingo, o Datafolha mostrou o tamanho desse pessimismo:

74% acham que a inflação vai aumentar

50% acham que o desemprego vai aumentar

As pesquisas de Bolsonaro mostraram que é um erro insistir em se comparar com o governo Lula, de boa memória para a maioria dos brasileiros. A pesquisa Ipespe traduziu esse sentimento ao perguntar aos eleitores a comparação sobre os dois governos:

58% têm uma avaliação positiva de Lula quando foi presidente. 25% negativa

26% têm uma avaliação positiva de Bolsonaro quando presidente. 54% negativa.

A tática de Bolsonaro será a de desconstruir o governo Lula atacando os governos Dilma Rousseff. A ex-presidente é um ônus para o PT a tal ponto que na semana passada, Lula disse que ela não participará de um novo governo, assim com o ex-ministro José Dirceu. “E essas pessoas que têm experiência podem me ajudar dando palpite, pode me ajudar conversando, pode me ajudar… Sabe, às vezes, às vezes, as pessoas podem me ajudar não fazendo nada”.

Há uma ironia. Desde 2006, as campanhas eleitorais do PT eram marcadas pelos “nós contra eles”, no qual os adversários eram acusados de serem adversários de políticas públicas como o Bolsa Família e o Pro-Uni. O agora aliado Geraldo Alckmin, José Serra e Marina Silva foram apresentados nas campanhas como anti-pobres. Agora, o PT vai enfrentar a mesma tática.

O medo da volta do PT é a única estratégia de Bolsonaro. O medo de um segundo governo Bolsonaro é a principal estratégia da campanha Lula.


Diga-me com quem andas.

 Carlos Brickmann 

O presidente Jair Bolsonaro chamou o espetáculo de “evento”. Se usasse o nome correto, “comício”, admitiria estar fora da lei: a mania brasileira de regulamentar tudo, sabe-se lá por que, faz com que a campanha eleitoral só se inicie oficialmente no dia 20 de julho. OK, Bolsonaro está em campanha desde que tomou posse, em janeiro de 2019. Lula talvez esteja em campanha até há mais tempo. Mas é como a censura russa à guerra contra a Ucrânia: é guerra, morre gente, mas tem de ser chamada de “operação especial”, e tudo fica limpinho. Aqui ninguém faz campanha, embora faça: o nome é eventos.

Aliás, não é permitido o lançamento de candidatos antes de 16 de agosto. Claro que até a Estátua da Justiça, mesmo de pedra, mesmo vendada, sabe que Lula, Bolsonaro e Moro são candidatos. Mas basta chamá-los de outro jeito – pré-candidatos – que tudo se resolve. Como disse o ex-ditador Getúlio Vargas, há 75 anos, “a lei, ora a lei”.

Enfim, deixa pra lá. Bolsonaro criticou a corrupção na mesma semana em que se comprovou que dois pastores sem cargo oficial manipulavam verbas da Educação, com a decorrente propina, muitas vezes em barras de ouro, e distribuíam Bíblias a estudantes, ilustradas com fotos dos citados reverendos. Ao lado do presidente, gente famosa: Fernando Collor, aquele que confiscou a poupança, lembra-se? E Valdemar Costa Neto, que teve de renunciar duas vezes ao mandato, por envolvimento no Mensalão e por ter sido condenado e preso. E ainda há Augusto Heleno.

O general-cantor

O general Augusto Heleno tem longa história de participação política. Quando o ministro da Guerra, general Sylvio Frota, tentou o golpe contra o presidente Geisel (a quem considerava comunista), Augusto Heleno, capitão, era seu ajudante de ordens. Quando Bolsonaro negociava com o Congresso a manutenção de vetos presidenciais, Augusto Heleno disse, na presença dos ministros Luís Eduardo Ramos e Paulo Guedes (e de um gravador ligado), que não se deveria ceder às chantagens dos parlamentares. E completou com uma síntese impecável de seu pensamento: “Foda-se!”

Mas o condecorado general sabe ser flexível: após cantar em público “se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão...” posou para fotos no “evento” (lembre-se, não é comício) de Bolsonaro, com três caciques do Centrão: Ciro Nogueira, Arthur Lira e Valdemar Costa Neto. Valdemar é o cacique do partido de Bolsonaro.

Não, mas sim

Augusto Heleno garante que o Centrão nem existe mais. Para quem não existe, manda muito! Parte, reparte e sempre fica com a melhor parte.

O soxialismo do profexô

Há quem estranhe a conversão do tucano Geraldo Alckmin ao socialismo, com a missão específica de mostrar que Lula não é nada daquilo que Geraldo Alckmin dizia quando era tucano. Mas política tem dessas coisas: outro socialista (embora não por muito tempo) foi o então presidente da Fiesp, “o patrão dos patrões”, Paulo Skaf.

Nesses dias, o socialismo ganha um militante que só agora revela sua preferência pela ideologia: o técnico Vanderlei Luxemburgo, que todos os jogadores sob seu comando deveriam chamar de “profexô”, ou seja, professor. Luxemburgo deve ser candidato por Tocantins. Sua preferência é o Senado, mas pode tentar a Câmara.

Eu sou o bom

O governador da Bahia, Rui Costa, do PT, concedeu ao governador da Bahia, Rui Costa, do PT, a Medalha do Mérito da Casa Militar do Governador. A condecoração foi criada pelo governador Rui Costa, do PT, em 15 de setembro de 2020. Mas o governador da Bahia, Rui Costa, do PT, não foi o único agraciado com a comenda criada por ele mesmo: ele também as entregou a companheiros de PT baiano e a auxiliares de seu governo.

Entre os premiados pelo governador petista, estão o cacique maior do PT baiano, senador Jaques Wagner; o candidato do PT ao Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues Souza; um oficial da Polícia Nacional da Colômbia, tenente-coronel John Alexander Becerra Zabala, e auxiliares diretos do governador.

Curiosidade

Note: nenhum baiano que não seja do PT mereceu a condecoração.

Não perguntem

Estranhou a presença de um oficial estrangeiro entre os condecorados? Eu também: até agora jamais imaginaria que houvesse petistas na Colômbia.

Múltipla instância

Diogo Castor de Mattos, que atuou em Curitiba na Operação Lava Jato, foi demitido em outubro de 2021 pelo Conselho Nacional do Ministério Público, CNMP. Mas seu nome está no site do CNMP como “membro ativo”, com recebimento normal de proventos. Em janeiro, seus rendimentos brutos superaram os R$ 50 mil.

Segundo a assessoria do Ministério Público Federal do Paraná, ele só deixa a condição de “membro ativo” após sentença judicial transitada em julgado.

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Sete ministros de Bolsonaro

 Elio Gaspari

O Globo

Dois caíram por competência, os demais atolaram

Em três anos de governo, Jair Bolsonaro empossou sete ministros na Educação e na Saúde. Esse desfile seguiu um padrão. Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, na Saúde, respeitaram os critérios de competência profissional e acabaram fritos. Os demais atolaram na inépcia e no destrambelho: Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga, na Saúde; Ricardo Vélez, Abraham Weintraub e Milton Ribeiro, na Educação.

Ribeiro revelou-se um campeão. De um lado, ganha um fim de semana num garimpo ilegal quem for capaz de apontar uma só iniciativa competente que ele tenha patrocinado no MEC. Não mexeu em malfeitorias passadas e meteu-se com pastores das sombras que pediam capilés para tramitar processos junto ao benevolente Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). O ministério que já foi ocupado por Gustavo Capanema, Darcy Ribeiro e Ney Braga acabou nas mãos de um pastor que patrocinava colegas que enfiavam fotografias suas em exemplares da Bíblia. Coisa de deslumbrado.

Existem traficâncias federais, estaduais e municipais, Ribeiro meteu-se em malfeitorias municipais. Os dois pastores que o orientavam levavam prefeitos ao ministério, acompanhavam processos para a construção de escolas ou creches e mordiam os alcaides. Num caso, com pedido de um quilo de ouro, segundo a vítima.

Ribeiro parece típico, mas, no primarismo de suas falas e no silêncio de suas iniciativas, assemelhou-se a Ricardo Vélez e a Abraham Weintraub. Nenhum desses dois expoentes do primarismo deixou registro de que tenha se metido em pastoreios.

O capitão assumiu dizendo que havia formado um ministério de técnicos. Na Educação, atrasou a chegada da internet à rede pública. Em certa medida, até fez o certo quando, em seu governo, a Controladoria-Geral da União detonou o edital do FNDE que torraria R$ 3 bilhões em equipamentos eletrônicos. Essa teria sido uma verdadeira traficância federal, mexendo com o equivalente a dez toneladas de ouro. Os 255 alunos da escola Laura Queiroz, em Itabirito (MG), receberiam 30.030 laptops. Parou de fazer o certo quando não perguntou quem fez o maldito edital.

Bolsonaro cultiva superstições. A cloroquina derrubou dois ministros da Saúde e lesou um terceiro. Felizmente, suas paixões pelo nióbio e pelo grafeno foram contidas. Sua visita a uma empresa americana que pesquisava a transmissão de energia elétrica sem fios ficou no talvez.

Em qualquer época, um ministro deve trabalhar olhando para a gestão de sua pasta e para os desejos do presidente ou de seu círculo de conselheiros. Dos sete ministros da Educação e da Saúde de Bolsonaro, dois (Mandetta e Teich) olharam mais para o serviço. Os outros cinco, pelos mais diversos motivos, olharam mais para o Palácio do Planalto. Ralaram-se.

Ribeiro passará o resto de seus dias lembrando que recebeu os pastores das sombras a pedido de Bolsonaro. Faltou-lhe a percepção do limite. O çábio que patrocinava a causa da transmissão de energia elétrica sem fio foi discretamente colocado em seu lugar, e o assunto morreu. Ribeiro, julgando-se mais esperto, lidava com pastores que ilustravam Bíblias com sua ilustre figura.


Milton Ribeiro cai, mas foi ele quem pôs os dois pastores no MEC e engendrou o esquema?

 Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Agora é saber se o problema acabou, ou se Ribeiro vai matar no peito, se mais e mais histórias vão surgir e o quanto elas desabam no Planalto e no gabinete presidencial 

  Foto: ELI LOPE MEIRA/IPB

 Aparentemente, Milton Ribeiro acatou as 'ordens de cima' e lavou as mãos. 

O presidente Jair Bolsonaro definiu as eleições de 2022 como “luta entre o bem e o mal”, mas foi um tiro pela culatra, porque deixou uma dúvida estimulada pelas próprias imagens do milésimo lançamento de sua candidatura à Presidência ao arrepio da lei eleitoral: o que é o bem e o que é o mal, quem é santo e quem é demônio?

A aliança do ex-presidente Lula com o ex-tucano Geraldo Alckmin é o quê? E o palanque de Bolsonaro com o general Augusto Heleno ao lado do ex-presidente Fernando Collor, que sofreu impeachment por corrupção, e o mandachuva do PL, Valdemar Costa Neto, preso no mensalão do PT?

Se o Lollapalooza é do mal e merece multa por “campanha antecipada” pela estridência do “Fora Bolsonaro”, estranha o ministro do TSE Raul Araújo achar que outdoors de campanha do presidente são do bem, bacanas. E as motos, jet skis, cavalos e palanques de Bolsonaro são o quê? Carnaval eleitoral fora de época pode?

Enquanto Bolsonaro falava no seu Lollapalooza particular sobre o quanto “embrulha o estômago” ter de cumprir a Constituição, as entranhas do governo se contorciam para jogar a culpa toda do novo escândalo no ministro-pastor Milton Ribeiro, que perdeu apoio do Executivo, do Legislativo e da Frente Parlamentar Evangélica, ou “bancada da Bíblia”, e pediu demissão nesta segunda-feira, 28.

Mas, afinal, foi Ribeiro quem pôs os pastores Gilmar e Arilton no MEC e na jogada? Engendrou cobranças de R$ 15 mil, R$ 40 mil, um quilo de ouro, mil bíblias ou grana para campanhas políticas para liberar verbas para as prefeituras? E abriu as asas da FAB para eles? Aparentemente, ele acatou as “ordens de cima” e lavou as mãos.

Estava óbvio que Bolsonaro iria demitir, ops!, acatar o pedido de demissão do ministro, depois de dizer em live que botava “a cara no fogo” por ele. Quando eu anunciei que ele tinha decidido demitir Vélez Rodriguez, o presidente me chamou de “mentirosa” pelo Twitter. Doze dias depois, o primeiro ministro da Educação caiu. 

Agora é saber se o problema acabou, ou se Ribeiro vai matar no peito, se mais e mais histórias vão surgir e o quanto elas desabam no Planalto e no gabinete presidencial. Bolsonaro é craque em sair de fininho do “gabinete do ódio e das fake news”, do “gabinete paralelo da cloroquina”, do “gabinete secreto dos bilhões do Orçamento”. Vai sair também desta vez? O mal está com o pastor Ribeiro e o bem com o chefe dele? Alias, o mal está com o general Silva e Luna e o bem com Bolsonaro?

PS: Se Eduardo Leite renuncia ao governo do RS e fica no PSDB, o resultado da equação é que vem aí o golpe contra a candidatura de João Doria. Os tucanos não têm jeito. 


Em nome de Jesus: Messias (o Jair) e o uso espúrio da fé

 Ricardo Kertzman

Revista ISTOÉ

 (Crédito: Isac Nobrega)

EM BRASÍLIA Bolsonaro recebe líderes evangélicos, em 2020 

Sou judeu não praticante. Ou melhor, não sou religioso. Para falar bem a verdade, não acredito muito em religião. Apenas sou profundamente ligado aos valores do meu povo e tenho enorme apego pela história dos meus antepassados. Ainda assim, minha ligação – e prática – com o judaísmo se dá através das tradições religiosas, que me trazem grande prazer e regozijo quando as pratico junto a amigos e família.

Sou casado com uma cristã e minha sogra é praticamente uma madre, de tão atuante e devota. Por isso conheço de perto outra prática religiosa, bem como convivi de perto, durante anos, num passado remoto, com o espiritismo. Assim posso me considerar um pluralista em termos de fé, ou melhor, de não-fé, pois, como disse anteriormente, não pratico nem acredito muito em religiões, quaisquer que sejam.

Por outro lado, tenho grande respeito pela fé alheia. Considero afortunada a pessoa que encontra nela (fé), conforto, esperança, acolhimento, explicação, razão. Tenho certeza que essas pessoas são, como direi?, emocionalmente e psicologicamente menos atormentadas do que eu. Sim, imagino que não percam tanto tempo encarando a realidade desta vida miserável (em maior ou menor grau de miséria, diga-se) e sofrendo por isso.

ASQUEROSOS

Entretanto, tenho verdadeiro asco, nojo de verdade, de bandidos travestidos de religiosos, sejam rabinos, pastores, padres, xamãs ou o escambau, que utilizam a fragilidade humana e sua busca cega pela ‘salvação’, como fonte de enriquecimento, influência e poder. Tenho engulhos ao assistir um vagabundo extorquir o dinheiro (que já é pouco) de um pobre, prometendo-lhe absolutamente tudo aquilo jamais poderá entregar.

O episódio recente, envolvendo o ex-ministro da Educação, dois ou três ladrões sedizentes pastores e o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, o verdugo do Planalto, em que verbas públicas eram traficadas em nome de Jesus, com bíblias contendo propaganda eleitoral ilegal, em troca de barras de ouro, é apenas uma faceta do negócio em que se transformaram muitas religiões no Brasil e no mundo.

Há países e crenças que, em nome do deus e do livro da ocasião, praticam apedrejamento de mulheres, assassinato de homossexuais, atentados terroristas, suicídios coletivos, castração de jovens, estupros infantis e por aí vai. Não raro, há credos que praticamente obrigam, pela força ou pela chantagem emocional, seus fiéis a ‘doarem’, além de parte dos salários, sob a forma de dízimo, bens de alto valor, como carros, jóias e o que houver.

BRASIL

Por aqui, infelizmente, sobretudo entre os evangélicos, uma casta de religiosos de araque usa e abusa da fé sincera dos devotos, e lhes surrupia, além da alma, coitados, os olhos da cara. O neopentecostalismo – se é que existe esse termo – tornou-se um conglomerado poderosíssimo que comanda grande parte da política e da imprensa nacionais. E comanda, também, ataques de ódio nas redes sociais, a partir da ordem de um ‘pastor’.

O Messias que nos desgoverna defende armas, extermínio de povos, agressão a minorias e outras barbaridades jamais admitidas ou defendidas por Jesus Cristo. Ao contrário. As palavras de amor ao próximo e de misericórdia – estudei a vida inteira em colégios católicos; as conheço muito bem – passam quilômetros de distância do devoto da cloroquina e de seus milhões de seguidores que se declaram… cristãos!

O Messias (Jair), assim como o pastor das barras de ouro, ou o deputado que gastou 160 mil reais do dinheiro dos miseráveis brasileiros com seus dentes novinhos (Marco Feliciano), fazem parte dos mercadores da fé, porcos aproveitadores da fragilidade humana, que não tiram Deus da boca e o diabo de seus bolsos sujos. Se eu acreditasse em céu e inferno, rogaria para que estes velhacos encontrassem o merecido destino após a morte.


Liminar esdrúxula do Lollapalloosa entra para a história dos absurdos jurídicos no Brasil

 Jorge Béja

Tribuna da Internet 

Ministro Raul Araújo afrontou o Código de Processo Civil

O ministro Raul Araújo, do Tribunal Superior Eleitoral, jamais poderia homologar o pedido de desistência do Partido Liberal quanto à Reclamação em que o partido político pediu e obteve liminar proibindo manifestações eleitorais no Lollapalloosa. Não poderia, mas já homologou a desistência, decisão que o ministro tomou no final da noite desta segunda-feira(28).

Era e continua sendo vedado ao ministro acatar a desistência porque a parte contrária já tinha sido citada, isto é, já estava oficialmente ciente da liminar e até recorreu para cassá-la.

NA FORMA DA LEI – Para homologar a desistência do PL, era imperioso, sob pena de nulidade, que a organização do Lollapaloosa concordasse com o pedido de desistência. E isto não aconteceu, em grave desafio ao artigo 485, X, parágrafo 4º do Código de Processo Civil, que diz textualmente: “Oferecida a contestação, o autor não poderá, sem o consentimento do réu, desistir da ação”.

Aqui, no caso, ao recorrer da decisão monocrática do ministro Raul Araújo, a organização do Lollapalooza fez mais do que contestar: recorreu. E quem recorre é porque não está conformado com a decisão recorrida. Não a quer vigente e pede sua cassação.

Recorrer é expressão maior do que contestar. Ou seja, é uma contestação perante a instância superior. Mas não foi isso que aconteceu. 

A CENSURA VENCEU – O PL foi ao ministro de plantão no TSE, dele recebeu a liminar que o partido queria que lhe fosse dada. E depois de concedida, desistiu da ação, que é uma Reclamação. E o ministro, sem atentar para o fato de que sua liminar já produzira efeitos fáticos e jurídicos… sem atentar para o fato de que o réu da Reclamação já havia interposto recurso, que tem peso maior do que mera contestação… voltou a decidir sozinho. E já homologou a desistência.

Com isso a “censura” venceu. E sua liminar esdrúxula entra para história do absurdo. Isto porque se fosse analisada pelo plenário do TSE a liminar do ministro seria cassada, por representar efetiva censura

Espera-se que a organização do show recorra, agora, contra a homologação da desistência. É preciso que o plenário do TSE diga se aquela liminar de censura foi ou não jurídica e democrática. Sem o pronunciamento do plenário do TSE, o que somente ocorrerá se for apresentado recurso contra a homologação da desistência, a liminar do ministro prepondera. Não chega a ser jurisprudência. Mas será uma maligna referência no futuro. E isto jamais poderá acontecer.


Uma vergonhosa decisão judicial

 Editorial

O Estado de São Paulo 

Antes do dia 15 de agosto, não se pode fazer propaganda eleitoral, dispõe a Lei das Eleições (Lei 9.504/1997). Mas essa restrição logicamente não impede o exercício da liberdade de expressão. Por isso, causou grande perplexidade a decisão do ministro Raul Araújo, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibindo manifestações políticas de artistas no festival Lollapalooza e fixando multa de R$ 50 mil por ato de descumprimento. A liminar, que pretensamente vinha aplicar a Lei das Eleições, descumpriu a própria legislação eleitoral, além de ser inconstitucional e contrária à jurisprudência do TSE.

Todo cidadão tem o direito de manifestar suas preferências políticas. Trata-se de uma liberdade fundamental, que a legislação infraconstitucional deve respeitar. Por isso, a Lei das Eleições estabelece que não configura propaganda eleitoral antecipada “a divulgação de posicionamento pessoal sobre questões políticas, inclusive nas redes sociais” (art. 36-A, V). No entanto, Raul Araújo entendeu que balançar a bandeira de um político caracterizaria propaganda político-eleitoral. Tal decisão não tem nenhum respaldo no Direito.

Mas a liminar foi além. Para o ministro do TSE, as manifestações contrárias ao presidente Jair Bolsonaro demonstram que “artistas rejeitam (um) candidato e enaltecem outro”, o que, no seu entender, caracteriza propaganda eleitoral antecipada negativa, “em detrimento de outro possível candidato”. É um caso nítido de abuso interpretativo da lei. Sob o pretexto de fazer valer a legislação eleitoral, o ministro Raul Araújo tentou impedir o direito de crítica contra os governantes, o que fere a Constituição.

É estranho que, depois de mais de três décadas do final da redemocratização do País, seja necessário recordar isso. Todo cidadão tem o direito de criticar os governantes, em privado ou em público. No Estado Democrático de Direito, não existe o crime – ou qualquer limitação legal – referente a maldizer o rei. Não há rigorosamente nenhum problema em xingar Bolsonaro ou qualquer outro governante.

A liminar envolvendo o Lollapalooza também causou perplexidade por sua discrepância com outras decisões do próprio ministro Raul Araújo. Na quarta-feira passada, por exemplo, ele rejeitou caracterizar como propaganda eleitoral antecipada a instalação de outdoors de apoio a Jair Bolsonaro, espalhados por vários Estados. Pelo que se observa, há dias em que Raul Araújo tem especial facilidade de enxergar propaganda eleitoral antecipada, e há outros tantos nos quais os elementos de prova parecem ser sempre insuficientes.

Essa inconstância interpretativa não faz bem à Justiça, especialmente ao seu objetivo de pacificação social. A percepção de que se utilizam, na interpretação da lei, dois pesos e duas medidas diminui a confiança da população no Judiciário.

Todo esse quadro suscita justificada preocupação. Afinal, com liberdade de expressão e direitos políticos não se brinca. Mas o caso tem ainda outra circunstância peculiar e contraditória. A decisão sobre o Lollapalooza foi tomada a pedido do PL, atual partido do presidente da República. Paradoxalmente, no mesmo fim de semana em que acusou artistas de fazerem propaganda eleitoral antecipada, o PL organizou um evento de lançamento da pré-candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição.

A incongruência é manifesta. Artistas não podem se manifestar politicamente, mas Bolsonaro e sua legenda podem fazer um evento cuja finalidade era única e exclusivamente defender e apoiar a reeleição do presidente. No ato do PL, teve até lançamento de slogan: “Capitão do povo”.

Complexa e, muitas vezes, detalhista, a legislação eleitoral tem várias falhas. No entanto, é preciso admitir que a responsabilidade por essa disparidade de tratamento não foi da Lei das Eleições, e sim de quem aplicou a lei. Cabe à Justiça Eleitoral resgatar e defender o seu propósito de preservar a igualdade de condições nas eleições. Não há isonomia se, para cada político, há uma interpretação diferente da lei.



O MEC e os amigos do pastor

  Antônio Gois

O Globo

Um lugar formidável para fazer favores. Essa foi a constatação do físico José Goldemberg ao assumir o cargo de ministro da Educação no governo Collor, em 1991, e perceber que, apesar do orçamento escasso diante das necessidades, os recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) podiam ser distribuídos de maneira arbitrária. “Fui reitor de universidade [a USP], ministro de outra pasta [Ciência e Tecnologia], depois ocupei outras funções, e nunca passei por uma função onde houvesse um fundo grande que dependia basicamente da vontade do ministro”. Esta declaração de Goldemberg foi dada em 2016, no âmbito de um projeto de entrevistas com 17 ex-ministros da Educação desde o governo Figueiredo (a íntegra dos depoimentos, dadas a este repórter, podem ser acessadas no Observatório de Educação do Instituto Unibanco). 

A necessidade de se estabelecer critérios mais técnicos na distribuição dos recursos do MEC aos Estados e municípios apareceu em quase todas as entrevistas do projeto. Nem tudo foi terra arrasada, e é possível identificar políticas relativamente exitosas em diminuir a possibilidade de interferência indevida no dinheiro que precisa chegar aos que mais precisam. Mas, como estamos vendo no caso dos pastores que vendiam facilidades a prefeitos em troca de propina, ainda há muito a avançar.

Um exemplo de política bem desenhada nesse sentido é o Fundeb, que redistribui recursos entre entes federativos, priorizando o número de alunos registrados no Censo Escolar e seu perfil. Ampliado a partir do Fundef - criado em 1996 –, o fundo, apesar de ser executado pelo FNDE, tem seus critérios definidos por lei, de modo que cada município tem segurança no planejamento de quanto deve receber, sem precisar barganhar com lobistas ou políticos.

Outro programa que evoluiu bastante comparado ao que era no passado é o de livros didáticos. Há uma comissão de avaliação das obras apresentadas pelas editoras, é realizada uma negociação de preços, e a distribuição do material é feita considerando os pedidos das redes e a estimativa do número de alunos. Não é um programa totalmente à prova de desvios ou imperfeições, mas é um processo hoje muito mais transparente e técnico do que já foi.

O problema é que nem todos os programas do FNDE se baseiam exclusivamente em critérios técnicos. Há casos em que a análise de cada pleito feito por secretarias é mais complexa do que o que pode ser mensurado por estatísticas oficiais. Por exemplo: a necessidade de renovação da frota para transporte escolar, que não pode ser calculada simplesmente a partir do número de estudantes ou de veículos já distribuídos. Em alguns programas, portanto, por mais que se avance na exigência de critérios técnicos, haverá sempre alguma margem para análise subjetiva. E é aí que aumentam os riscos maiores de desvios.

Num mundo ideal, todos os agentes públicos envolvidos nesse processo atuariam com lisura e bom-senso. No Brasil real, chega-se ao cúmulo de privatizar esse processo de intermediação por mais verbas para pastores que, além de não terem qualificação técnica nenhuma para isso, sequer têm cargos públicos. A frase do ministro Milton Ribeiro -  de que a “prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam, e, em segundo, os que são amigos do pastor Gilmar” - é acintosa para um país que ainda tem sérios problemas educacionais a resolver, muito antes de sobrar algum recurso público para ser distribuído por intermédio dos amigos pastores de Ribeiro e Bolsonaro.


O inferno são os outros

 Editorial

O Estado de São Paulo

No domingo passado, o presidente Jair Bolsonaro lançou ilegalmente a sua campanha pela reeleição durante um ato político-partidário em Brasília. O evento, organizado pelo PL e financiado com recursos públicos do fundo partidário, teve a forma de um comício e os discursos de um comício. E comícios, como determina a Lei Eleitoral, só estão autorizados a partir do dia 16 de agosto.

Mas, por incrível que pareça, o inequívoco ato de campanha antecipada foi o que menos chamou a atenção naquela festa fora de hora. Afinal, todos sabem que Bolsonaro jamais desceu do palanque após a posse e governa, por assim dizer, calculando o potencial de seus atos e palavras para atrair ou repelir eleitores, não para melhorar as condições de vida de todos os brasileiros.

O que merece destaque é o tom do discurso do presidente no evento, indicativo do que será a tônica de sua campanha. No palco, ao lado de familiares, ministros de Estado e aliados da estirpe de Valdemar Costa Neto e Fernando Collor de Mello, Bolsonaro classificou a eleição presidencial deste ano como uma “batalha espiritual”, uma “luta do bem contra o mal”, sendo ele, naturalmente, a encarnação do “bem”.

O que está em jogo em 2022 são questões bem mais terrenas, para as quais Bolsonaro tem poucas respostas a oferecer. Entende-se, portanto, que, para um incumbente que não tem realizações positivas para apresentar aos eleitores que justifiquem a sua recondução ao cargo – ao contrário, há muitos erros a escamotear –, só resta o recurso à narrativa sobrenatural, tratando todos os muitos milhões de brasileiros que não votam em Bolsonaro como se fossem a encarnação do demônio.

Já do lado do “bem”, segundo Bolsonaro, estão ninguém menos que Valdemar Costa Neto e Fernando Collor de Mello. O primeiro, chefão do PL, partido pelo qual Bolsonaro escolheu concorrer à reeleição, é uma das figuras mais proeminentes do escândalo do mensalão petista, tendo sido condenado e preso pelo crime de corrupção; o segundo, ex-presidente da República, brilha com vergonhoso destaque na história brasileira por ter sofrido impeachment em razão de um escândalo de corrupção.

O elástico conceito bolsonarista de “bem” ignora as suspeitas de “rachadinha” que recaem sobre o presidente e seus filhos Flávio e Carlos Bolsonaro. Ignora também o escândalo de corrupção envolvendo a aquisição de vacinas em meio à maior tragédia sanitária que já se abateu sobre o País. 

E o que dizer dos pastores evangélicos que se aninharam no Ministério da Educação, sob o beneplácito do ministro Milton Ribeiro e, ao que parece, do próprio presidente da República, para traficar influência e pedir propina para facilitar o acesso de prefeitos aos recursos do orçamento para a educação? É esse o “bem” que Bolsonaro afirma representar?

No comício em Brasília, Bolsonaro, ademais, classificou como “um velho amigo” o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Afirmou ter citado seu nome no voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff por um “dever de consciência”. Ou seja, o mesmo Bolsonaro que se apresenta ao País como a encarnação do “bem” é o indivíduo que diz ter uma dívida de consciência com um dos mais notórios torturadores da ditadura militar, o que diz muito sobre sua alma.

Por fim, seria o triunfo do “bem” sobre o “mal” a reeleição de um presidente que admite, sem meias-palavras, ter engulhos por ter de cumprir a Constituição? É claro que não.

O bem que o País precisa é o resgate da política como o meio mais eficiente para a concertação pacífica dos interesses da sociedade. É o respeito às leis e à Constituição. É a união dos brasileiros como povo, não como membros de facções irreconciliáveis. É a defesa do meio ambiente. É a valorização da verdade factual e o respeito à liberdade de imprensa. É a superação da irresponsabilidade demagógica e a retomada do diálogo, da confiança e do respeito mínimo entre os cidadãos, mesmo os divergentes. O bem só terá chance de triunfar, portanto, se Bolsonaro for derrotado.


Mundo paralelo impõe gabinete paralelo

  Carlos Andreazza

O Globo

Exonerado Milton Ribeiro, agora ex-ministro da Educação. O cargo é mui cobiçado. Não sejamos ingênuos sobre os interesses em jogo. A forma como os pastores abrigados por Ribeiro venderiam facilidades para furar a fila de liberação de recursos do MEC contrariava o ritmo com que os donos do FNDE partilham a distribuição discricionária dos dinheiros. Não tardaria até o vestiário rachar.

Rachou sobre os mais fracos. Quiseram garimpar fora de Brasília. Ficaram com o mercúrio. Prefeito que ora abre o jogo, sempre inocente, tende a já ter novo padrinho. Os mais fortes, os profissionais, querem o MEC todo. Faz sentido, se já estão dentro do Planalto e se já gerem o Orçamento.

Tampouco sejamos ingênuos sobre a gravidade do que se revelou. Gravíssimo. Cobiças à parte, o ministro deveria estar demitido desde a semana passada. Demorou. O governo, entretanto, tinha — tem — uma propaganda de honestidade a defender. Buscou modalidade dissimulada de demissão. Especulava-se uma licença. Ribeiro se afastaria até que as investigações fossem concluídas.

Tudo pela imagem; pela fraude. Buscava-se, a rigor, saída honrosa para a sustentação do mundo paralelo em que não haveria corrupção no governo Bolsonaro.

Pretendeu-se também, e com algum êxito, ganhar tempo; à cata de algum desvio que pudesse baixar a pressão sobre o Planalto e deixar o caso morrer sem ir além de Ribeiro. No fim de semana, ao mesmo tempo grave ocorrência e paraíso para a distração, houve o despacho censor de um ministro do TSE contra manifestações políticas num festival de música — isso enquanto agentes públicos, entre os quais o presidente da República, infringiam, com total liberdade, a legislação eleitoral. O foco se deslocou. Abriu-se alguma janela, produziu-se espuma, para que se tentasse costurar a acomodação.

Exonerado Milton Ribeiro, tudo indica que as investigações pararão nele. Se andarem, ficarão restritas a ele. Andarão? O ex-ministro é irrelevante, porém. Agiu sob a chancela de Bolsonaro.

Foi Bolsonaro quem investiu Gilmar Santos. Como consequência, o pastor e seu parceiro Arilton estabeleceram gabinete paralelo no MEC. É o que se depreende do conjunto de acusações publicado pela imprensa. Não sabemos se o presidente sabia. Sabemos o que ouvimos de Ribeiro: “Porque a minha prioridade é atender, primeiro, os municípios e, em segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar”.

Que tal a hierarquia de prioridades do então ministro de Estado, em que amizade é valor, como se não houvesse critérios técnicos para a administração de recursos públicos? O ministro por quem Bolsonaro botaria a cara no fogo, ministro cujos princípios autorizam ter a face impressa na Bíblia.

Ouvimos mais de Ribeiro: “Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do Gilmar”.

Qual a questão do Gilmar?

O atendimento ao pastor derivou, de acordo com a palavra do ex-ministro, de pedido especial de Bolsonaro. E qual atendimento tiveram Gilmar e associado? A liberação de dinheiros públicos para prefeitos que, segundo as denúncias, pagavam-lhes propina. Essa seria a questão do pastor.

E quem o fez influente junto a Ribeiro?

Talvez o presidente — sócio de Ciro Nogueira, Arthur Lira e Valdemar Costa Neto no arranjo deste governo — não soubesse que apadrinhava gente assim; mas gente assim, que pediria propina, sem ser parte do governo, teve facilidades no MEC sob as bênçãos de Bolsonaro.

Sem-ser-parte-do-governo é parte relevante. Ribeiro já não é parte do governo.

Gente assim, sem ser parte do governo, tecnicamente mantém o governo sem corrupção. Né? Ajuda a CGU. Gabinete paralelo como fundamento para o mundo paralelo em que o governo seria honesto.

Bolsonaro nomeou o gabinete paralelo. Sem querer? Não sei. Sabemos que, terceirizadas as traficâncias, prospera o governo sem corrupção. Governo puro que, por querer, procurou modos não traumáticos de se livrar de Ribeiro, exonerado “a pedido”. Solução negociada. Bom para o sujeito. Melhor ainda para o presidente. No seu governo, afinal, não há — repita-se — corrupção. Há gabinetes paralelos.

Querem ver?

Na primeira rodada investigativa sobre falcatruas no MEC terceirizadas a pastores, a CGU levou sete meses para concluir — concluo eu — pela eficiência do esquema de gabinetes paralelos. Claro: não sendo os operadores (da fé e dos dinheiros do FNDE) formalmente integrantes do governo, a CGU pôde arquivar a apuração por não haver encontrado irregularidades cometidas por agentes públicos.

Parabéns!

E não mentiu. Para isso servem os gabinetes paralelos; para que o de Bolsonaro seja —há três anos e três meses — um governo sem corrupção. O governo é de Deus. O diabo vai por fora.


A guilhotina populista

 Editorial

O Estado de São Paulo 

Certo e errado, competência e incompetência, interesse nacional e interesse de alguns fazem pouca ou nenhuma diferença quando se trata de servir ao presidente Jair Bolsonaro. Em qualquer caso, cabeças podem cair. O ministro da Educação, Milton Ribeiro, foi demitido, a contragosto do presidente, depois de ter feito uma coisa errada: aceitou um gabinete paralelo, facilitando a bandalheira de dois pastores malandros. Já o presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, perderá o posto por ter feito a coisa certa: comandou com critérios empresariais uma companhia com acionistas no Brasil e no exterior. Diferentes na competência, no estilo de trabalho e na atenção às funções, coincidiram, no entanto, num ponto essencial: contrariaram o projeto de poder de seu chefe, um presidente empenhado na reeleição e, portanto, na preservação das condições políticas, jurídicas e pessoais associadas à Presidência.

Até o escândalo do tal gabinete paralelo, o ministro Milton Ribeiro foi sempre apoiado pelo presidente Bolsonaro. Como seu chefe, nunca levou a sério os mandamentos da boa administração nem respeitou os critérios de impessoalidade e de laicidade da função pública. Errou por omissão e por ação, mostrando-se incapaz de entender as funções da escola, de atividades como o Enem e da política educacional. Teve uma gestão desastrosa, como seus antecessores, e foi fiel aos padrões bolsonarianos, contrários à educação, à cultura e à ciência. Violou até as fronteiras do decoro e do ridículo, ao admitir a impressão de Bíblias com sua foto.

O ministro só perdeu o conforto e a segurança quando o Estadão, recentemente, revelou o gabinete paralelo. Em poucos dias, histórias chocantes foram publicadas pelos meios de comunicação, com gravações de falas indecorosas e testemunhos de prefeitos achacados por pastores ligados, informalmente, ao Planalto e ao Ministério da Educação. Sem poder negar o escândalo nem sua ligação com os vendedores de facilidades, o presidente Bolsonaro tratou de conter os danos e afastou o ministro, já condenado por grupos evangélicos ligados à política bolsonariana.

O presidente da República aproveitou a ocasião para afastar o chefe da Petrobras. Seria mais fácil, supostamente, porque as atenções estariam ocupadas também com a demissão do ministro Milton Ribeiro. Ao propor a substituição do general Joaquim Silva e Luna, o presidente Bolsonaro daria satisfação, talvez, aos descontentes com os preços dos combustíveis.

Outro político poderia gastar algum tempo explicando as condições do mercado internacional, os efeitos da guerra na Ucrânia e as limitações de uma empresa como a Petrobras. Não seria, no entanto, o caso de um populista pouco interessado em questões administrativas e, além disso, conhecido por suas tentativas de intervir na estatal. Com a demissão já anunciada, o presidente da Petrobras ainda apontaria, num pronunciamento público, duas limitações da empresa: não lhe cabe fazer política pública nem, “menos ainda”, política partidária.

Ao indicar para o comando da Petrobras o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Bolsonaro envia ao mercado, aparentemente, um recado tranquilizador. Já havia buscado entendimento com os generais apoiadores de Silva e Luna, ao discutir com eles, previamente, a demissão do presidente da estatal. Pires é respeitado como conhecedor do setor de energia e como defensor de políticas pró-mercado. Mas é cedo para falar sobre sua disposição de manter preços alinhados com o mercado internacional e de cuidar dos interesses dos acionistas. É cedo, também, para especular sobre uma possível defesa de subsídios aos consumidores, assunto complicado, em princípio, por envolver a equipe econômica.

Mas um ponto é certo. Não haverá um novo Bolsonaro. O presidente será o mesmo político populista e autoritário responsável pelo afastamento de Joaquim Silva e Luna, o mesmo explorador da religiosidade envolvido na escolha do pastor Milton Ribeiro, o mesmo candidato ligado ao Centrão e indiferente à boa administração.


Bolsonaro é o retrato fiel da Educação no Brasil

 Ricardo Kertzman

Revista ISTOÉ

 AFP/Arquivos 

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro

O Brasil trata a Educação com total desleixo e desdém. Sempre foi assim, com raríssimas exceções. Não à toa, estamos entre os piores países do mundo em todos os testes internacionais. Não à toa, em pleno século XXI, temos uma sociedade 45% analfabeta funcional. Não à toa, nem metade dos lares possuem sequer saneamento básico. Não à toa, nos matamos na ordem de 60 mil assassinatos por ano. Não à toa, perdemos outras 60 mil vidas em acidentes de trânsito. Não à toa, não à toa, não à toa…

Sim, porque a Educação é a mãe – e a solução! – de praticamente todos os problemas. Quem disse? O mundo! Os países com os maiores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) costumam ser os que possuem os melhores resultados em Educação. E o contrário é, obviamente, inversamente proporcional. Inclusive, poderia citar exemplos crassos de países que deixaram o subdesenvolvimento e a pobreza, a partir de robustas políticas educacionais: Israel, Coréia do Sul, Irlanda e Cingapura.

Como já disse, há séculos, negligenciamos a Educação, e creio, de propósito. A escória política que nos desgoverna (desde sempre) faz o que pode para não mudar esse quadro. E a tragédia se dá nas três esferas: municipal, estadual e federal. Para piorar o que já é horroroso, ainda há os sindicatos, sempre interessados em si próprios e nos conchavos político-partidários, em detrimento dos alunos. Neste sentido, sugiro que acompanhem a luta que trava a excelente deputada estadual Laura Serrano (NOVO-MG).

O desgoverno de Jair Bolsonaro, o verdugo do Planalto, é pródigo na destruição de tudo em que toca. Comparem a crise econômica atual do Brasil – a despeito da pandemia e da guerra na Ucrânia – com o resto do mundo. Estamos muito piores! E vejam os nossos números relacionados à covid-19. Aliás, na Saúde, a sucessão de ministros é também inacreditável – acho que estamos no quarto ou quinto ocupante. Ou seja, nas três principais Pastas do País, impera o caos. Como poderia haver um governo pior?

O tal Milton Ribeiro – aposto que vocês nem sabiam o nome do ex-ministro, certo? – já era. É passado! Seu legado foi tentar excluir crianças com necessidades especiais da sala de aula, ‘para não atrapalhar as crianças normais’. E declarar que ‘jovens homossexuais são fruto de famílias desajustadas’. Porém, nada indica que irá melhorar, já que o novo ministro será indicado por Valdemar da Costa Neto, simplesmente um corrupto notório, condenado e preso no mensalão. Na boa, viver no Brasil é terrivelmente desalentador.


Bolsonaro continuou a enfraquecer direitos humanos em 2021, aponta Anistia

 Deutsche Welle

Novo relatório mundial da Anistia Internacional aponta que Brasil continuou a retroceder na educação, no meio ambiente e no combate à fome em 2021. ONG também destaca má-gestão do governo federal na pandemia.

 © UESLEI MARCELINO/REUTERS 

HRW diz que Bolsonaro tentou minar os fundamentos da democracia

 e divulgou informações falsas sobre a covid-19 em 2021

O ano de 2021 foi mais um no "período prolongado de instabilidade e crise" que o Brasil vem atravessando, e foi marcado por milhares de mortes evitáveis na pandemia, agravamento das desigualdades e da fome, aumento das taxas de evasão escolar, violência policial e recorde de desmatamento.

O retrato sombrio está no relatório mundial da Anistia Internacional, que analisou a situação dos direitos humanos e individuais no ano passado em 154 países, divulgado nesta terça-feira (29/03).

O panorama global também é negativo: apesar da esperança de que 2021 representasse o ano em que o mundo superaria a pandemia de forma equitativa, o que se viu foi grande desigualdade na distribuição de vacinas. Além disso, alguns líderes nacionais usara a pandemia como desculpa para restringir a liberdade de expressão.

A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, resume o tom no prefácio do relatório: "2021 deveria ter sido um ano de cura e recuperação. Em vez disso, tornou-se uma incubadora de mais desigualdades e instabilidade."

No capítulo dedicado ao Brasil, a organização destaca que o governo federal não se comprometeu com a coordenação de respostas efetivas para a gestão da pandemia e, como consequência, "os grupos que sofrem discriminação histórica foram afetados de modo desproporcional pela emergência sanitária, que agravou a crise econômica e social, tornando suas condições de vida mais precárias".

""No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro respondeu à pandemia de Covid-19 com um misto de negação, negligência, oportunismo e desprezo pelos direitos humanos", aponta o relatório.

O relatório cita que, segundo o grupo Alerta, uma coalizão de ONGs, 120 mil mortes poderiam ter sido evitadas até março de 2021, e lembrou que em janeiro pessoas morreram no Amazonas em decorrência da falta de oxigênio nos hospitais. As maiores taxas de mortalidade por covid-19 foram entre pessoas negras e as que vivem em situação da pobreza.

O presidente Jair Bolsonaro, segundo a entidade, "continuou promovendo iniciativas contrárias às necessidades da maioria da população e prejudiciais ao meio ambiente e à justiça climática". E suas declarações, "que muitas vezes aviltavam defensores e ativistas de direitos humanos, também minaram a Constituição e a independência do Judiciário".

Fome e evasão escolar em alta

Outro problema grave de 2021 apontado pela Anistia Internacional foi o aumento da insegurança alimentar no país: segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar, a insegurança alimentar cresceu 54% desde 2018, e, em 2021, 19 milhões de pessoas, ou 9% da população, estavam em insegurança alimentar grave, quando há situação de fome.

A pobreza extrema, por sua vez, cresceu com a redução do auxílio emergencial, e atingia de forma mais grave as mulheres negras: 38% e 12,3% viviam em situação de pobreza ou de pobreza extrema, respectivamente, segundo dados citados no documento.

Na educação, o relatório chama a atenção para o aumento das taxas de evasão escolar em 2021, associado aos problemas do ensino remoto adotado durante a pandemia, como falta de acesso à internet e de equipamentos adequados. No ano passado, o Exame Nacional do Ensino Médio, de ingresso em instituições do ensino superior, registrou o menor número de candidatos em 13 anos.

A imprensa, os movimentos sociais e as ONGs passaram mais um ano sob ataque constante de Bolsonaro, e o presidente por diversas vezes tentou debilitar o Supremo Tribunal Federal e lançou dúvidas sobre o sistema eleitoral, aponta o documento.

Violência e recorde de desmatamento

A violência também chamou a atenção da Anistia Internacional, que mencionou a operação policial na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em maio, que resultou na morte de 27 moradores e um policial, e a chacina no Complexo do Salgueiro, também no Rio, em novembro, que deixou nove mortos.

Um momento negativo para o combate à impunidade policial foi a absolvição, em agosto, de cinco policiais acusados de matar 13 pessoas na favela Nova Brasília, no Rio de Janeiro, em 1994, segundo o relatório. Além disso, o Brasil foi o quarto país com o maior número de assassinatos de líderes ambientais e defensores do direito à terra no mundo.

Além disso, 80 pessoas transgênero foram mortas no país apenas no primeiro semestre de 2021, e o número de estupros no primeiro semestre foi 8,3% maior do que no mesmo período de 2020. Foram registrados 666 feminicídios de janeiro a junho de 2021, o maior número no período desde 2017, início dos registros.

A Anistia Internacional destacou, por fim, que o Brasil também teve má resultados ambientais. Em agosto, a Amazônia brasileira teve a maior taxa de desmatamento para o mês de agosto em 10 anos, e houve aumento de incêndios na região amazônica e outros biomas.

"O que é chocante é que, para qualquer direção em que você olhe, houve retrocesso em relação ao cumprimento das obrigações de direitos humanos no Brasil", afirmou ao jornal Folha de S.Paulo a diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck. "A imagem do Brasil em 2021 é a de um país que emergiu como local de negligência, de violações de direitos humanos e de destruição do meio ambiente (...) É uma fotografia do pior que o Brasil é capaz de produzir."


Comida é insuficiente para 24% dos brasileiros, diz pesquisa

 Deutsche Welle

De acordo com levantamento feito pelo Instituto Datafolha, outros 63% apontaram que a alimentação foi suficiente, e 13% declararam que a quantidade de comida ficou acima do necessário.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha realizada na semana passada aponta que quase um em cada quatro brasileiros não teve o suficiente para comer nos últimos meses. Para 24% da população, a quantidade de comida disponível em casa para alimentar a família foi inferior à que seria necessária.

Dos entrevistados, 63% apontaram que a alimentação foi suficiente, e 13% declararam que a quantidade de comida ficou acima do necessário.

O Instituto Datafolha ouviu 2.556 pessoas em 181 municípios brasileiros entre a terça (22/03) e a quarta-feira (23/03), em levantamento que tem margem de erro de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

A chamada insegurança alimentar é mais evidente entre os mais pobres, ou seja, para quem tem até dois salários mínimos (R$ 2.424) de renda familiar mensal. Desses, 35% responderam que a quantia de comida é insuficiente.

No entanto, dos entrevistados com renda mensal de dois a cinco salários mínimos (R$ 6.060), 13% também disseram que faltou comida, a mesma constatação para 6% dos que recebem entre cinco e dez salários mínimos (R$ 12.120).

Entre as regiões, o Nordeste é a que mais sofre com a insegurança alimentar: 32% das famílias. A região é seguida por Sudeste, Centro-Oeste e Norte, que empatam com 23%, e pelo Sul, com 18%.

Estagnação econômica agravou o quadro

A crise econômica, a inflação, o desemprego e a pandemia podem ser considerados fatores que aumentaram ainda mais a insegurança alimentar no Brasil. Em 2020, por exemplo, um levantamento feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) apontou que a pandemia de coronavírus aumentou o problema da fome no país.

Em 2018, dois anos antes do início da situação pandêmica, assim conceituada em março de 2020, a pesquisa da Rede Penssan indicou que 37% dos domicílios brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar. Esse número subiu para 55% ao fim do primeiro ano da crise sanitária.

Entre os que perderam o emprego durante a pandemia, o número de quem considera a comida na mesa insuficiente chega a 38%. Os desocupados – que não estão em busca de trabalho – somam 28%. Entre os trabalhadores autônomos são 26%, e os assalariados sem registro formal, 20%.

Junto com a pandemia, o desemprego e a estagnação econômica, a inflação piorou ainda mais a situação de muitas famílias nos últimos meses.

Em números oficiais, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) concluiu que a inflação encerrou 2021 com uma variação acumulada de 10,06% em 12 meses no Brasil, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 11 de janeiro último.

O ano passado registrou, portanto, a maior inflação desde 2015, quando o índice fechou o ano a 10,67%, bem acima dos 4,52% que haviam sido registrados em 2020.

gb (ots)


É cedo para dispensar uso de máscaras nas escolas, dizem sociedades médicas

 Gabriela Gonçalves*

O Globo

Especialistas em pediatria, infectologia e imunização afirmam que a demora na vacinação de crianças torna o ambiente escolar mais vulnerável à Covid-19

  Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo/08-03-2022

Liberação de máscaras esbarra na vacinação

 ainda insuficiente na faixa de 5 a 11 anos 

Representantes de algumas das principais sociedades médicas do Brasil afirmam que o fim da exigência do uso de máscara facial para professores e alunos nas escolas é uma medida precipitada. Consultados pelo GLOBO, especialistas de pediatria, imunização, infectologia e saúde coletiva sustentam que o ambiente é mais vulnerável à propagação da Covid-19 em virtude da baixa cobertura vacinal infantil.

Ao menos 20 capitais e o Distrito Federal já dispensaram o uso de máscaras em ambientes abertos, sendo que oito capitais flexibilizaram também em fechados. A medida contrasta com um cenário em que apenas metade do público infantil de 5 a 11 anos tinha recebido a primeira dose do imunizante até sexta-feira e só 12,4% nesta faixa etária têm esquema vacinal completo.

Os estados do Rio de Janeiro e São Paulo dispensaram o uso do item nos dias 7 e 18 de março, respectivamente. A vacinação tem avanço desigual no país e há problemas com dados nos estados.

Para a médica sanitarista Rosana Onocko, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professora da Unicamp, a liberação aumenta o risco de exposição de crianças não vacinadas e suas famílias.

— Não custa nada ter um pouco mais de cautela. Alguns pais estão com medo de vacinar os seus filhos e crianças muito pequenas ainda nem podem receber a imunização — diz.

Ainda que a média móvel de mortes tenha caído 42% nas últimas duas semanas, os meses que antecedem o inverno são mais propícios à disseminação de vírus respiratórios como o da Covid-19.

— Tudo fica mais fechado, é uma situação preocupante — completa Onocko.

Estudo divulgado nesta semana pela Universidade Duke, da Carolina do Norte (EUA), mostrou que o uso obrigatório de máscaras em escolas teve importante papel na queda de casos de Covid-19 no ano passado, mesmo quando já existia vacina. Foi verificada uma redução de 72% no número de ocorrências na comparação entre estados americanos que mantiveram e liberaram as máscaras. O levantamento englobou um universo de mais de 1 milhão de alunos.

O estado de São Paulo manteve a máscara em transportes coletivos, mas cada município pode regular detalhes de sua flexibilização de acordo com os índices locais de vacinação. A cidade de Jaboticabal, por exemplo, obriga o uso do equipamento de proteção em todos os ambientes. Na Câmara Municipal de São Paulo, ele será utilizado até 31 de março: após isso, apenas em ambientes com mais de 50% de ocupação.

No início do ano letivo, a secretaria de educação de São Paulo entregou máscaras às escolas do estado. A assessoria da pasta informou que as unidades estão autorizadas a comprar o equipamento e fornecer aos alunos que solicitarem.

— Assim como não conseguimos fazer distanciamento no transporte público, na escola também é impossível. Deveriam incentivar o uso de máscara pelo menos enquanto os maiores de 5 anos não estão com o esquema vacinal completo — diz Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Um dos colégios privados mais tradicionais de São Paulo, o Dante Alighieri informou que a máscara foi desobrigada em suas dependências. No Rio, o Colégio Federal Pedro II manteve o uso dentro de todas as suas unidades.

Desestímulo

Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabela Ballalai acredita que a flexibilização das máscaras pode até desestimular a vacinação contra Covid. Ela recorda que a proteção contra a doença deixou de ser prioridade para milhares de pessoas no final do ano passado, mesmo com a chegada da variante Ômicron.

A transmissão da subvariante BA.2 está em ascensão no Brasil. Em três semanas, a proporção de casos prováveis da linhagem da Ômicron cresceu de 3,8% para 27,2% no país, segundo o Instituto Todos pela Saúde (ITpS).

A omissão de alguns governos de estados brasileiros, que transferem às escolas a decisão de legislar sobre o uso da proteção, também preocupa médicos e especialistas. Infectologista e coordenadora do comitê de imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia, Rosana Richtmann afirma que a baixa procura pela vacinação das crianças foi motivada justamente pela falta de comunicação entre governos e cidadãos. A dúvida e o medo, diz, contribuem para que se perca a percepção de risco.

— Precisamos entender essa nova variante. Não chegamos a estudar nenhum impacto da retirada em locais abertos — diz Richtmann.

* estagiária sob supervisão de Rafael Garcia


Brasileiro confia mais em cientistas e menos no governo, diz pesquisa

  Beatriz Bulla, 

O Estado de S.Paulo

 ‘Barômetro da Confiança de 2022’, levantamento realizado pela agência Edelman, ouviu a opinião de 36 mil pessoas em 28 países, entre 1º e 24 de novembro de 2021

 Foto: Getty Images

81% dos brasileiros consultados no Barômetro

 da Confiança de 2022 confiam nos cientistas.  

Cerca de um terço dos brasileiros vê o governo como instituição confiável. O dado, registrado no Barômetro da Confiança de 2022, realizado pela Edelman, agência global de comunicação, aponta piora em um indicador que, no Brasil, já estava baixo. A confiança em cientistas cresceu e, no Brasil, é mais alta do que na média mundial. No País, 81% dos entrevistados confiam nos cientistas. No mundo, 75%. Já as autoridades governamentais inspiram confiança em 26% dos brasileiros. No mundo, em 42%.

Com a credibilidade das lideranças políticas e da mídia desafiada no País, a população brasileira vê como “confiáveis” apenas as empresas e, desta vez, as organizações não governamentais. O levantamento anual foi feito com base em mais de 36 mil entrevistas on line em 28 países, entre 1.º e 24 de novembro de 2021. Foram cerca de 1.150 entrevistados em cada país analisado.

Dos brasileiros ouvidos, 34% veem o governo como “confiável”, atrás da mídia (47%), ONGs (60%) e empresas (64%). Houve queda na avaliação de governo (cinco pontos) e mídia (um ponto) e melhora na confiança depositada em empresas (três pontos) e ONGs (quatro pontos), na comparação com a pesquisa divulgada no ano passado.

“A pandemia intensificou os medos. Ela trouxe o medo do desemprego, o medo da morte, o medo da contaminação. A instituição governo não teve a capacidade de atender a sociedade, no sentido de tranquilizá-la”, afirma Ana Julião, gerente-geral da Edelman Brasil. “A partir do momento que esse nível de confiança no governo cai, aumenta a demanda e aumenta o nível de confiança em relação às empresas e ao terceiro setor, que passam a ocupar esse lugar de provedores de bem-estar para a sociedade de uma maneira geral”, diz a especialista.

Entre as categorias analisadas, a credibilidade do governo entre os brasileiros é a mais distante da média global. O Brasil difere em no máximo três pontos porcentuais do panorama mundial quando o assunto é a avaliação da mídia, empresas ou ONGs. Quando o assunto é governo, no entanto, a avaliação que os brasileiros fazem é 18 pontos porcentuais mais baixa do que os dados globais. No mundo, 52% confiam no governo.

População vê como ONGs como organizações confiáveis, aponta estudo

No levantamento deste ano, a avaliação da sociedade brasileira sobre as ONGs deixou a classificação de neutralidade (quando de 50% a 59% dos entrevistados se dizem confiantes) e entrou no campo da confiança (60%).

“Há dois anos as empresas saíram muito à frente no combate à pandemia e ajudaram a sociedade a passar por esse  problema. E elas foram buscar muita parceria com o terceiro setor, que certamente navega com muito mais facilidade nessas questões”, afirmou Ana Julião.

A categoria “mídia” engloba quatro itens: ferramentas de busca, mídia tradicional, mídia própria e mídias sociais. Apesar de as quatro estarem com confiança em queda, o que puxa o indicador para baixo é a credibilidade das redes sociais – única das quatro que se enquadra na categoria de desconfiança.

A preocupação com notícias falsas bateu recordes no mundo. Na média, 76% dos entrevistados vê a disseminação de desinformação como um motivo para se preocupar. No Brasil, 81% veem como um problema.

O estudo também confirmou que consumidores, investidores e empregados esperam que as empresas com as quais se relacionam – e os presidentes destas empresas – tomem a dianteira na discussão de questões sociais relevantes e na formulação de políticas públicas. No Brasil, a maioria dos entrevistados compra (63%), trabalha (58%) e investe (60%) em empresas alinhadas com suas crenças e valores.

“As pessoas não apenas olham para as marcas, para as empresas, mas para as pessoas que estão liderando essas empresas, cobrando dessas pessoas um posicionamento claro”, afirma Ana Julião. O movimento de cobrança das empresas e lideranças empresariais por engajamento em questões sociais já era percebido em levantamentos anteriores à pandemia, mas se intensificou nos últimos anos. Enquanto só 43% veem CEOs, de uma maneira geral, como lideranças confiáveis, o número cresce para 65% quando a pergunta é sobre o CEO da empresa onde o entrevistado trabalha. Ana Julião explica que a proximidade com a liderança aumenta a sensação de confiança.

Entre os entrevistados, 78% esperam que os líderes das empresas estejam à frente da discussão sobre políticas públicas e posicionamento sobre temas caros à sociedade. Isso não significa apoio ao envolvimento direto na política partidária: só 39% dos entrevistados no Brasil acham que os CEOs devem se envolver nas discussões sobre quem deve ser o próximo presidente.

“Lideranças das empresas privadas do EUA, por exemplo, se posicionam com muito mais protagonismo. É uma coisa que não acontece no Brasil, talvez pelo fato de a nossa economia ser muito mais dependente, as lideranças empresariais temem o conflito, temem o posicionamento”, afirma a gerente-geral da Edelman Brasil.

As entrevistas da Edelman foram realizadas online, com cerca de 1.150 entrevistados.


Entenda o que muda com as novas regras para auxílio-alimentação

 Giovanna Sella*, Bússola

Exame

Na última sexta-feira foi editada pelo governo federal a Medida Provisória nº 1.108/22 sobre os recursos do auxílio-alimentação 

(Reuters/Paulo Whitaker)

MP trouxe proibições e endureceu a fiscalização sobre o tema 

 Os últimos dias foram agitados para quem trabalha no mercado de benefícios corporativos. Isso porque na sexta-feira, 25, foi editada pelo governo federal a Medida Provisória nº 1.108/22  (MP) que, entre os pontos principais, assegura que o uso dos recursos disponibilizados aos trabalhadores a título de auxílio-alimentação não sejam desvirtuados com o consumo em outras categorias. Mas afinal, o que isso significa?

O texto publicado nesta segunda-feira, 28, no Diário Oficial da União é expresso ao dispor que a utilização do auxílio-alimentação deve ocorrer “exclusivamente para o pagamento de refeições em restaurantes e estabelecimentos similares ou para a aquisição de gêneros alimentícios em estabelecimentos comerciais”. Este trecho, em específico, impacta diretamente as empresas que trabalham com benefícios corporativos flexíveis, entre elas, a Caju Benefícios.

Neste ponto, a Caju sai na frente e continua garantindo a segurança jurídica às empresas contratantes e usuários da plataforma. Desde que foi fundada, em 2019, a Caju conta com direcionamento jurídico de alto nível e aplicação de tecnologia de dados, conjunto que resultou em um produto que permite total controle das empresas com relação aos valores disponibilizados em cada uma das categorias.

Ou seja, os recursos destinados aos usuários seguirão a regra de usabilidade que a empresa contratante optar, suprindo, assim, a nova obrigatoriedade trazida pela MP.

Adicionalmente, a MP trouxe proibições e endureceu a fiscalização sobre o tema. Ficam proibidos o pós-pagamento e os contratos futuros de empresas fornecedoras de auxílio-alimentação que estabelecem a chamada “taxa negativa”.

Em outras palavras, essa taxa é um desconto para a empresa contratante que, posteriormente, era repassado através de taxas altas pelas fornecedoras de benefícios aos restaurantes e supermercados, que acabavam por fazer um novo repasse para os beneficiários do auxílio-alimentação: os usuários finais.

Com o fim do desconto, a expectativa do governo é que o preço de refeições e produtos alimentícios seja positivamente impactado já que com a inflação em trajetória de alta e os preços dos alimentos sofrendo um dos maiores baques, medidas como esta podem ajudar o setor de abastecimento e alimentação fora do lar, dando assim uma folga ao orçamento de todos os consumidores.

Em caso de desvio de finalidade no uso do auxílio-alimentação, a empresa emissora deste benefício ou o próprio empregador poderão arcar com multas que variam de R$ 5 mil a R$ 50 mil, aplicadas em dobro caso haja reincidência ou embaraço à fiscalização. Por este motivo é fundamental que a escolha de uma empresa de benefícios seja pautada no respaldo jurídico que ela oferece, evitando problemas relacionados ao descumprimento das legislações vigentes.

A MP, que já entrou em vigor, terá efeitos até o dia 26 de maio de 2022, com prorrogação automática por mais 60 dias no caso de não haver conclusão da votação nas duas Casas do Congresso Nacional. Em caso de ausência de votação em até 45 dias, a pauta entrará em regime de urgência.

*Giovanna Sella é advogada trabalhista da Caju Benefícios



RJ lança fundo soberano para equilibrar receitas de royalties do petróleo

 Exame

Com  Estadão Conteúdo

O fundo terá R$ 2,1 bilhões no orçamento de 2022 e é composto por recursos provenientes da exploração do petróleo e de outras fontes

 (Exame/Germano Lüders)

Royalties: Em 2014, com a forte queda da commodity, 

o Rio de Janeiro entrou na pior crise financeira da sua história 

O governo do Rio de Janeiro lança nesta segunda-feira, 28, o Fundo Soberano do Estado, que terá como função reduzir o impacto das oscilações das receitas dos royalties de petróleo nas contas governamentais. O fundo terá R$ 2,1 bilhões no orçamento de 2022 e é composto por recursos provenientes da exploração do petróleo e de outras fontes, informou o governo estadual.

O fundo visa ajudar a reduzir a dependência da economia fluminense do setor de petróleo, equilibrando as contas do Estado tanto nos altos como nos baixos preços. Em 2014, com a forte queda da commodity, o Rio de Janeiro entrou na pior crise financeira da sua história. Desde então, o governo estadual avalia maneiras de se tornar menos dependente do setor.

Além disso, com as mudanças climáticas, a tendência é de que os preços do petróleo sejam menores no futuro, o que pode comprometer a arrecadação, segundo o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, André Ceciliano (PT), autor da Emenda e do Projeto de Lei Complementar (PLC) aprovado no fim do ano passado sobre o tema.

O fundo será usado para custear ações estruturantes para o desenvolvimento econômico e social do Estado, a médio e longo prazo, com investimentos nas áreas de saúde, educação, ciência e tecnologia, e infraestrutura. Para gerir o fundo, será eleito um conselho gestor, formado por diferentes secretários de estado.