terça-feira, junho 19, 2018

Uma imoralidade

Editorial
O Estado de S.Paulo

Política imigratória de Trump nada tem de decente e humano

Desde abril, quando o secretário de Justiça dos Estados Unidos, Jeff Sessions, anunciou a política de “tolerância zero” do governo do presidente Donald Trump no combate à imigração ilegal, quase 2.000 crianças foram separadas de seus pais quando estes foram capturados tentando cruzar a fronteira sul do país.

Entre as crianças, há pelo menos três irmãos brasileiros, de 8, 10 e 17 anos, que foram recolhidos ao abrigo Estrella del Norte, em Tucson, após sua mãe ser capturada ao tentar entrar ilegalmente com eles nos EUA. Mãe e filhos estão detidos em centros de recolhimento de imigrantes ilegais separados por uma distância de 90 km. Só puderam conversar uma vez graças à intervenção da cônsul-honorária do Brasil no Arizona, Rosilani Novaes.

Não se deve apoucar a complexidade da atual crise imigratória, que afeta não apenas os Estados Unidos, mas também países da Europa como Itália, Grécia, Espanha e Alemanha. Por razões distintas, que vão de crises econômicas, guerras, e catástrofes ambientais a perseguições políticas e religiosas, milhões de pessoas buscam refúgio em países que consideram menos hostis à manutenção de suas vidas do que a própria terra onde nasceram e fincaram suas raízes, não raro preferindo o risco de morrer na busca de um conforto incerto a permanecer sob o jugo da opressão ou da miséria.

Ao mesmo tempo não é razoável supor que as nações mais desenvolvidas tenham, tão somente por esta condição, a obrigação de acolher – e os meios para tal – todos os estrangeiros que nelas depositam a esperança de uma vida melhor. Eis aí o desafio que está sobre a mesa de trabalho de grandes líderes mundiais hoje.

Mas uma coisa é certa: sejam quais forem as soluções para os dilemas da grave crise imigratória do século 21, um mínimo de decência e humanidade há de servir como Norte para que se chegue a elas. E, sob quaisquer ângulos que se olhe a política imigratória do presidente Donald Trump, nada há de decente, humano e moral em permitir que crianças sejam separadas de seus pais.

Algumas das críticas mais contundentes à política imigratória do presidente Donald Trump partiram de seu círculo mais próximo, tanto do ponto de vista familiar como das supostas afinidades políticas. No domingo, a primeira-dama dos EUA, Melania Trump, disse à rede de TV CNN que “o país deve impor o respeito à lei, mas também deve governar com o coração”.

Por meio de sua conta no Twitter, o senador republicano John McCain exortou Donald Trump a interromper “agora” a política de separação de pais e filhos, que representa, segundo ele, “uma afronta à decência do povo americano e aos princípios e valores sobre os quais a nação foi fundada”.

A ex-primeira dama Laura Bush, também por meio do Twitter, criticou duramente o presidente Trump: “Moro em um estado fronteiriço (Texas). Compreendo a necessidade de reforçar e proteger as fronteiras, mas esta política de tolerância zero é cruel. É imoral”, escreveu.

A resposta do governo veio por meio de um pronunciamento de Jeff Sessions, marcado pela típica retórica de seu chefe. “Nós não queremos separar filhos de seus pais. Nós não queremos é que pais tragam seus filhos ilegalmente para os Estados Unidos”, disse o secretário de Justiça.

Desde sua posse como presidente dos EUA, Donald Trump tem gerado ou aumentado instabilidades em um mundo que, a bem da verdade, já era bastante confuso antes de sua ascensão ao poder, mas ao menos enxergava nos EUA, “líder do mundo livre”, o farol para que certos valores não fossem perdidos de vista. Falemos de tolerância, compaixão, respeito às liberdades e aos valores democráticos. Evidentemente, tais valores não desapareceram, embora venham sendo relativizados desde janeiro de 2017.

As decisões de Donald Trump não têm feito justiça aos 242 anos de história de seu país, uma história que ajudou a forjar os mais caros valores da democracia ocidental.

Tolerância zero de Trump viola direitos humanos

Editorial
O Globo

Presidente americano insiste em medida que separa filhos dos pais detidos sob suspeita de entrar ilegalmente nos EUA. Decisão é rechaçada pela opinião pública

Com argumentos grosseiramente amarrados numa linguagem agressiva e repleta de inverdades, Donald Trump tenta justificar, sem sucesso, a controversa política de tolerância zero, que separa pais e filhos de imigrantes detidos ao entrar ilegalmente nos EUA. Considerada uma cruel violação dos direitos humanos — inclusive por importantes vozes republicanas, como a da ex-primeira-dama Laura Bush e até mesmo a mulher do presidente, Melania —, a medida se tornou a mais clara agressão aos direitos no governo Trump até agora.

A onda de imigração cresceu vertiginosamente a partir de 2014, somando hoje centenas de milhares de pessoas em fuga da violência de gangues e do narcotráfico, a maioria delas oriunda da América Central, especialmente Honduras, El Salvador e Guatemala. Embora a legislação americana preveja a concessão de asilo ou refúgio político nesses casos, desde que chegou à Casa Branca, em 2017, o presidente americano vem investindo contra a entrada de estrangeiros no país, numa abordagem inversa à do ex-presidente Barack Obama.

Ao assumir a Presidência, Trump editou uma Ordem Executiva (equivalente a decreto presidencial), desfazendo boa parte da legislação de Obama, que priorizava a deportação de membros de gangues, pessoas consideradas ameaça à segurança nacional e suspeitos de praticar crimes. Ao rever a legislação, o governo Trump substituiu esses casos específicos passíveis de deportação pelo termo genérico “delitos criminais”, ampliando o escopo de interpretação de delitos passíveis de deportação.

Em abril de 2018, o procurador-geral, Jeff Sessions, implementou a política de tolerância zero, por meio da qual as autoridades podem processar e deportar suspeitos de crimes, entre os quais entrar ilegalmente nos EUA. Neste processo, as crianças são separadas dos pais e enviadas para centros de assistência social, enquanto os pais, tachados de criminosos, vão para a cadeia.

Assim, não é verdadeiro o argumento de Trump de que foi o Congresso que aprovou a legislação controversa que separa pais e filhos de imigrantes. Pelo contrário, ontem, republicanos prometeram passar uma lei para substituir a de tolerância zero, apesar da oposição de Trump.

A Anistia Internacional classificou a medida como equivalente à “tortura”, e a maior parte da população americana, segundo pesquisas de opinião, rejeita a controversa legislação. Atualmente, cerca de dois mil menores estão separados de seus pais, inclusive a brasileira Maria Bastos, que entrou legalmente nos EUA e requereu asilo, mas foi separada do neto autista.

Alheio ao clamor da opinião pública, Trump diz que apenas cumpre a lei. Para analistas, ele quer aproveitar o drama da situação para forçar o Congresso a aprovar medidas mais duras contra imigrantes, inclusive o financiamento para ampliar o muro na fronteira com o México. Mais um passo rumo a isolamento.

“Desonesto e covarde”: NYT critica Trump por separação de pais e filhos

Gabriela Ruic
Exame.com

Ao menos 2 mil crianças foram separadas de seus pais ao tentar entrar no país. Para NYT, ação de Trump é tentativa "grotesca" de chantagem

(Courtesy CBP/Handout/Reuters)
Centro de Detenção de Imigrantes no Texas, Estados Unidos: 
ao menos 2 mil crianças foram separadas de seus pais
 na tentativa de cruzar a fronteira entre EUA e México 

São Paulo – A atitude do presidente americano, Donald Trump, de tentar culpa os Democratas pela política “tolerância zero” para imigrantes na fronteira dos Estados Unidos com o México, e que resultou na separação forçada de famílias e o aprisionamento de menores de idade, é “desonesta e covarde”.

A dura crítica foi feita pelo consagrado jornal The New York Times, que dedicou um editorial ao tema intitulado “Quando foi que aprisionar crianças se tornou a arte da negociação? ”. “Ver o presidente tentar culpar os democratas pela prática desumana da sua administração de arrancar crianças de seus pais evoca nada mais que um marido abusivo culpando sua esposa pelos espancamentos”, comparou o jornal.

O jornal lembra que a “culpa” pela aplicação da política que abriu margem para a prática que está sendo duramente criticada mundo afora, não é de ninguém a não ser a administração Trump.

“Obama e George W. Bush começaram esforços para cortar o fluxo migratório na fronteira, mas nenhum deles foi tão longe a ponto de perseguir uma política que poderia causar a destruição em massa de famílias. Tampouco o Congresso passou qualquer lei que pudesse justificar essa ação”, notou o jornal, “este toque de maldade pertence inteiramente a Trump – ele escolheu atormentar as famílias sem documentos”, pontuou.

Segundo o NYT, Trump pode usar essa situação para conseguir aprovar um dos dois projetos de reforma do sistema de imigração dos EUA que, em última instância, preveem a construção do famigerado muro entre o país e o México. Uma delas, inclusive, prevê a não separação das famílias ao permitir que as crianças fiquem presas com os pais. “Isso é o que é considerado progresso no clima atual”, lamenta a publicação.

“Se os políticos republicanos têm algum senso de autopreservação, ou decência, irão se recusar a engajar com Trump enquanto ele estiver tentando uma chantagem política tão grotesca”, finaliza a publicação.

“Tolerância zero”

A política de “tolerância zero” contra imigrantes começou a ser aplicada na fronteira dos EUA com o México há pouco mais de seis semanas, depois de o procurador-geral, Jeff Sessions, ter repassado a ordem ao Departamento de Segurança Nacional.

Desde então, ao menos 2 mil crianças foram separadas de seus pais. Elas são levadas para armazéns no Texas que fazem as vezes de centros de detenção, dormindo em gaiolas e se cobrindo com pedaços de papel, enquanto seus pais são presos por “entrada ilegal”.

O governo Trump vem sendo criticado por todos os lados. A ONU e a Unicef vêm denunciando a prática, que chamam de desumana, e entidades médicas alertam para os “danos irreparáveis” que a separação forçada pode ter sob as crianças.

A situação está tão grave para Trump que grupos religiosos que ajudaram e eleger o republicano chamaram a ação de “desumana” e até mesmo a primeira-dama, Melania Trump, tentou se distanciar das ações do marido ao emitir um comunicado em que pedia que os EUA “governassem com o coração”.

Melania critica separação entre pais e filhos na fronteira com o México

Da Redação
Veja online

Comissário para Direitos Humanos da ONU pede fim de política de tolerância zero contra imigrantes que tentam entrar nos EUA

 (Carlos Barria/Reuters)
Melania Trump, em choque com a política de imigração de seu marido
: 'é preciso governar com o coração'. 06/06/2018.

A primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, defendeu no domingo (17) um acordo bipartidário para reformular as leis migratórias no país e acabar com a separação entre pais e filhos na fronteira com o México.

“A senhora Trump detesta ver crianças separadas de suas famílias e espera que os dois lados do Congresso possam finalmente elaborar uma reforma migratória bem-sucedida”, disse à emissora CNN Stephanie Grisham, diretora de comunicação da primeira-dama.

“Ela acredita que o país deve impor o respeito à lei, mas também é preciso governar com o coração”, completou.

O Departamento de Justiça americano adotou, em maio, uma nova política de “tolerância zero” nas fronteiras, segundo a qual todos os imigrantes pegos tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos seriam acusados criminalmente. Isso geralmente leva à separação entre os pais e seus filhos.

De acordo com a Casa Branca, em um recente período de seis semanas, quase 2.000 menores de idade foram separados de seus pais ou tutores.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos também pediu nesta segunda-feira (18) que os Estados Unidos parem de separar as crianças migrantes de seus pais, por considerar essa uma política “inadmissível”.

“Pensar que um Estado busca dissuadir os pais infligindo tal abuso às crianças é inadmissível”, afirmou Zeid Ra’ad Al Hussein na abertura de uma sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra.

Protestos

Parlamentares democratas se uniram a manifestantes reunidos diante de centros de detenção de imigrantes nos Estados de Nova Jersey e Texas, no domingo, para realizar protestos no Dia dos Pais dos Estados Unidos contra a prática do governo Trump.

“Isto não deve ser o que somos como nação”, disse o deputado Jerrold Nadler, um dos sete parlamentares de Nova York e Nova Jersey que se encontraram com cinco detidos dentro de um centro de Elizabeth, em Nova Jersey.

No Texas, o senador Jeff Merkley e outros parlamentares democratas visitaram um Centro de Processamento da Patrulha de Fronteira de McAllen, no sul do Estado, para denunciar a diretriz. O deputado Beto O’Rourke, que concorre ao senado texano, liderou uma passeata rumo a um centro de detenção temporária para crianças imigrantes montado perto de El Paso.

Os acontecimentos coincidiram com a publicação de reportagens sobre a intensificação da pressão política da Casa Branca, até mesmo por parte de alguns colegas republicanos do presidente Donald Trump, sobre a separação das famílias na fronteira.

Autoridades do governo defendem a tática argumentando ser necessária para proteger a fronteira e insinuam que essa política desestimulará a imigração ilegal.

Mas a política atraiu críticas de profissionais de saúde, líderes religiosos e ativistas pró-imigração, que alertam para os traumas psicológicos duradouros que causará nas crianças. Os menores são mantidos em instalações do governo, entregues aos cuidadores adultos ou transferidas temporariamente para lares adotivos.

Trump vem tentando culpar os democratas ao dizer que o apoio destes a um projeto de lei imigratória mais abrangente acabaria com as separações.

(Com informações agências AFP e Reuters)

Entenda por que crianças imigrantes estão sendo separadas dos pais nos EUA

O Globo

Entre 19 de abril e 31 de maio, 1.995 menores de idade foram afastados de 1.940 parentes adultos que entraram nos EUA sem documentos

  Divulgação / AFP
Foto divulgada pela Agência de Alfândega e Proteção de Fronteira dos EUA 
mostra centro de processamento de imigrantes em situação irregular no Texas -  

Na última sexta-feira, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos informou que, entre 19 de abril e 31 de maio deste ano, 1.995 menores de idade foram separados de 1.940 parentes adultos que entraram nos Estados Unidos sem documentos. Desde então, o governo de Donald Trump — que implementou esta política de imigração com o argumento de que ela era necessária para dissuadir estrangeiros de entrar clandestinamente no país — está sob críticas da oposição democrata, de ativistas de direitos humanos, do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos e até de parte do Partido Republicano. Entenda por que essa separação está acontecendo.

Qual é a política adotada por Trump que leva à separação de filhos dos pais estrangeiros que chegam aos Estados Unidos sem documentos?

Com o argumento de que era preciso conter a entrada irregular de imigrantes nos Estados Unidos, sobretudo por sua fronteira sul, o secretário de Justiça de Trump, Jeff Sessions, determinou neste ano que todos os estrangeiros adultos que são detidos por não terem visto de entrada e permanência no país devem ser processados criminalmente. Com isso, os imigrantes sem documentos maiores de 18 anos são levados para presídios. Como menores de 18 anos não podem ser mantidos em penitenciárias comuns, crianças e adolescentes são separados dos pais ou responsáveis presos e levados para abrigos do Escritório de Instalação de Refugiados (ORR, na sigla em inglês), ligado ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Advogados de imigrantes e ativistas têm apontado que muitas vezes a separação de pais e filhos se dá de forma violenta, sem que haja tempo para despedidas, e que os adultos não são informados do destino das crianças.

Isso não acontecia antes?

Embora o governo de Barack Obama (2009-janeiro de 2017) tenha acelerado a deportação de imigrantes em situação irregular, apenas os imigrantes sem documentos que tinham antecedentes criminais eram processados criminalmente. A maioria dos estrangeiros que entravam no país sem documentos e eram detidos ou pediam refúgio tinha seu caso examinado por um juiz de Imigração, que poderia autorizar sua permanência no país ou determinar sua deportação. Nesse caso, as famílias inicialmente eram mantidas juntas em centros de detenção. Posteriormente, uma decisão judicial baseada no Acordo Flores (ver abaixo) determinou que as crianças não podiam ficar detidas, mesmo com seus pais. O governo então se recusou a separar as famílias, que passaram a aguardar em liberdade a decisão do juiz de Imigração.

Por que há casos de estrangeiros em situação irregular que foram deportados de volta para os seus países, mas os filhos permaneceram em abrigos nos Estados Unidos?

Os críticos da estratégia do governo Trump afirmam que ela está sendo implementada sem planejamento adequado. A detenção e o processamento dos casos de imigrantes sem documentos envolvem três agências do Departamento de Segurança Interna — Alfândega e Proteção de Fronteiras; Imigração e Fiscalização Aduaneira; e Serviços de Cidadania —, além dos Departamentos de Justiça e de Saúde. A falta de coordenação entre os órgãos oficiais dificulta o rastreamento de crianças e pais.

A reunificação familiar torna-se particularmente difícil quando um pai ou mãe é deportado sem o seu filho e, assim, não está mais no território americano. Nesses casos, há um risco muito alto de que pais e filhos fiquem permanentemente separados. Funcionários da Imigração dizem que, nesses casos, os pais têm duas opções: eles podem designar um membro da família que more nos EUA para ficar com a custódia da criança, ou a criança pode ser levada para o seu país de origem e entregue às autoridades locais e, em seguida, para os seus pais.

Como essas crianças detidas em abrigos podem ser devolvidas às suas famílias?

Em tese, a custódia dos menores de idade que estão em abrigos pode ser reivindicada por outros parentes que morem nos Estados Unidos. Na prática, isso só acontecerá se esses parentes estiverem com os seus documentos de permanência em dia, porque do contrário eles ficariam com medo de se autodenunciar. Caso a criança não tenha parentes nos EUA, os representantes consulares do seu país de origem podem tentar intervir para que ela seja devolvida a parentes que ficaram nesse país, caso esses parentes existam e reclamem a guarda do menor de idade. Do contrário, a criança ou adolescente terá que esperar até o fim do processo a que os pais que estão presos foram submetidos, quando terão autorização para ficar nos Estados Unidos ou serão deportados junto com os filhos.

Essas são as únicas crianças imigrantes que estão sozinhas nos Estados Unidos?

Não, há também casos de crianças que entram nos Estados Unidos desacompanhadas dos pais ou de responsáveis adultos. Quando apreendidas pela patrulha de fronteira ou pela polícia, elas são encaminhadas para abrigos ou lares que aceitam recebê-las. Apenas entre outubro e dezembro do ano passado, 7.635 crianças passaram por essa situação. Desde 2011, houve cerca de 250 mil casos. Hoje o Escritório de Instalação de Refugiados tem sob sua guarda quase 12 mil menores, dos quais 10 mil entraram no país sem a companhia de um adulto.

O que Trump está fazendo é legal?

Há várias leis, decretos e precedentes judiciais nos Estados Unidos que versam sobre a imigração irregular. Um deles, conhecido como Acordo Flores, de 1997, limita a 20 dias o tempo em que crianças imigrantes podem ficar em um centro de detenção no país. Um estatuto de 2008 também requer que menores desacompanhados sejam transferidos depois de 72 horas de detenção. Não há lei que determine a separação de filhos dos pais, mas tampouco que a proíba. Por isso o governo Trump tem argumentado que há um "vazio legal" que deve ser preenchido por uma nova lei aprovada no Congresso, onde não há entendimento entre republicanos e democratas sobre o tema.

Já o entendimento das convenções e organismos internacionais é de que a imigração irregular não é um crime, mas uma infração administrativa. Portanto, imigrantes sem documentos não poderiam ser processados criminalmente. Convenções internacionais também condenam a separação forçada de crianças dos pais ou responsáveis.

Quem são os estrangeiros que entram nos Estados Unidos pela México?

Embora haja pessoas de todas as nacionalidades, incluindo brasileiros, cada vez mais os imigrantes que chegam pela fronteira sul dos Estados Unidos vêm do chamado Triângulo Norte da América Central, formado por Honduras, El Salvador e Guatemala, países onde os índices de criminalidade e violência estão entre os mais altos do mundo.

Esses estrangeiros são imigrantes ou refugiados?

Muitos imigrantes vindos do Triângulo Norte da América Central têm solicitado asilo em diferentes países, incluindo os Estados Unidos, com o argumento de que são alvo de extorsão, violência e ameaças de integrantes de gangues criminosas, e que tiveram pessoas de sua família mortas em ações desses quadrilhas. De acordo com o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, em 2017 mais de 294 mil pessoas originárias do Triângulo Norte eram refugiadas ou solicitantes de refúgio, um aumento de 58% em relação a 2016. A maioria dos pedidos foi feita no México, Estados Unidos, Belize, Panamá e Costa Rica. 

Os Estados Unidos têm concedido o status de refugiado para centro-americanos?

Não há número precisos relativos a pessoas originárias da América Central. Em 2016, os Estados Unidos receberam 84.994 refugiados vindos de terceiros países — isto é, pessoas que já haviam recebido essa proteção fora dos EUA — e concedeu asilo a 26.124 pessoas que fizeram a solicitação dentro do país. Em 2017, Trump cortou de 100 mil para 50 mil o teto de refugiados que seriam recebidos no país. Não há ainda números fechados de solicitantes de asilo que tiveram seu pedido atendido em 2017.

Segundo o centro de estudos Wola (Defesa dos Direitos Humanos nas Américas), a concessão de asilo nos EUA a centro-americanos varia de estado para estado e de juiz para juiz. Em Nova York, 75% dos juízes de Imigração costumam dar resposta positiva aos pedidos. Em Atlanta, na Geórgia, 90% negam a solicitação de centro-americanos.

Qual é a população imigrante nos Estados Unidos?

Os Estados Unidos têm cerca de 42,4 milhões de imigrantes, em situação regular ou irregular, o que corresponde a 13,3% da população do país, de quase 326 milhões de pessoas. Desses, 45% são de origem hispânica ou latina, o que, segundo as categorias usadas no país, inclui os brasileiros. No entanto, 66% dos 57,4 milhões de residentes nos Estados Unidos que se identificam como latinos ou hispânicos nasceram no país, segundo o centro de estudos Instituto de Política Migratória.





Republicanos se dispõem a barrar separação de famílias imigrantes

O Globo 
Com 'New York Times'

Política controversa do governo Trump irrita membros do próprio partido

  JOHN MOORE / AFP 
Migrantes centro-americanos são detidos perto de McAllen, no Texas - 

WASHINGTON — O rechaço à política de tolerância zero de Donald Trump no combate à imigração ilegal nos Estados Unidos chegou até mesmo ao Partido Republicano, legenda do presidente, que já é palco de uma sublevação interna. Nesta terça-feira, dois governadores republicanos se juntaram a outros dois democratas e cancelaram o envio de soldados da Guarda Nacional ao serviço de patrulhamento das fronteiras, como resposta à política adotada nos últimos meses que já separou milhares de pais e filhos menores de idade, detidos ao tentarem entrar ilegalmente no país. Paralelamente, senadores da legenda também se reuniram e acordaram apresentar legislação no Congresso para interromper as separações o mais rapidamente possível.

À indignação se juntaram os dois principais grupos empresariais americanos, defensorias e governos de países vizinhos, que também pediram o fim das separações, tachadas de “cruéis e desumanas”.

MARIO TAMA / AFP 
Manifestantes marcham contra separação de famílias migrantes em Los Angeles, EUA - 

De acordo com números oficiais do governo americano, 2.342 crianças e jovens imigrantes foram separados dos pais desde o anúncio da medida, no fim de abril. Trump acusa a oposição no Partido Democrata de causar a crise ao bloquear uma reforma migratória no Congresso. O presidente tenta convencer a bancada de seu partido na Câmara a apoiar uma ampla reforma das leis de imigração, que incluiria não apenas o fim das separações, mas também a alocação de bilhões de dólares para a construção de um muro na fronteira com o México — principal carro-chefe de sua campanha presidencial — e outras prioridades. No fim da tarde, o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell anunciou que os senadores do partido decidiram, por unanimidade, se comprometer a aprovar uma lei que dê fim às separações familiares.

— Entendo que, para resolver esse problema, não podemos resolver todos os problemas — afirmou McConnell, em alusão às amplas demandas de Trump. — Esse problema exige uma solução e creio que isso pode ser resolvido com um acordo específico que conserte aquilo que todos acreditamos que deva ser consertado.

Outros nomes do Partido Republicano também se manifestaram contra as separações familiares, entre eles o senador Orrin Hatch, que coletou a assinatura de 11 colegas de bancada pedindo ao procurador-geral, Jeff Sessions, que interrompa a prática enquanto o Congresso trabalha numa maneira de acelerar as deportações de imigrantes ilegais. Pesquisas divulgadas na segunda-feira pela rede CNN e pela Quinnipiac University mostram que dois terços da população americana são contrários às separações familiares de imigrantes detidos na fronteira dos filhos menores.

HANDOUT / AFP 
Crianças migrantes que tentaram atravessar a fronteira para os EUA
 de forma irregular dormem em centro de processamento no Texas - 

A resposta mais intensa, no entanto, veio de quatro governadores que decidiram suspender o envio de soldados da Guarda Nacional às operações de patrulhamento de fronteira. Além de Colorado e Nova York, governados por democratas, Maryland e Massachusetts, comandados por republicanos, afirmaram que não enviarão soldados ou recursos enquanto as separações familiares continuarem.

“Esforços de aplicar a lei imigratória deveriam focar em criminosos, não em separar crianças inocentes de suas famílias”, afirmou o governador de Maryland, Larry Hogan, no Twitter.

Numa sessão a portas fechadas no Capitólio, Trump disse a parlamentares republicanos nesta terça-feira que a construção de um muro na fronteira e a busca de uma solução para as centenas de milhares de jovens indocumentados seriam “muito, muito bem” vistas eleitoralmente. No entanto, não indicou se apoiará alguma medida específica dentre dois projetos de lei sendo redigidos e discutidos na Câmara com estas finalidades.

— Eu não quero crianças sendo retiradas de seus pais. Mas quando tentamos processar os pais por virem para cá ilegalmente, algo deve ser feito, é preciso separar as crianças — afirmou, por sua vez, o presidente em um discurso para empresários.

Trump também comentou a abordagem de seus correligionários republicanos que tentam interromper as separações e criticou uma proposta do senador texano Ted Cruz, que propôs a contratação de novos juízes para os tribunais de imigração a fim de acelerar as ações imigratórias.

— Eles disseram: “Senhor, queremos contratar 5 mil ou 6 mil novos juízes” — afirmou empresários. — Vocês conseguem imaginar quanta propina estaria envolvida em algo assim?

JOE RAEDLE / AFP 
Manifestantes contra política de Trump se reúnem de frente 
a centros de detenção de migrantes - 

Sem dar o braço a torcer, Trump voltou a dizer que os dados que citou sobre a violência na Alemanha — que ele disse ter aumentado por causa da generosa política alemã de acolhida a imigrantes — são corretos. O governo alemão indicou que a violência no país diminuiu em 2017, com menos suspeitos imigrantes. Trump insistiu que a Alemanha mascara os verdadeiros números. A chanceler federal Angela Merkel respondeu que os números divulgados “falam por si mesmos”.

Críticas latino-americanas

Na frente internacional, as Chancelarias de México, Chile e Guatemala também condenaram as separações familiares, e as defensorias de México, Colômbia, Equador, Honduras e Guatemala fizeram um pedido conjunto para que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) interceda para que os EUA detenham a política.

“Esta postura do governo americano é desumana e representa um total desprezo pelos direitos das crianças e dos adolescentes migrantes”, disseram os cinco países em comunicado conjunto.

Órfãos por decreto da Casa Branca

Joan Faus / Brownsville (Texas)
El Pais

A Casa Padre, o maior centro de acolhida de imigrantes menores sem documentos, recebe no Texas centenas de crianças separadas dos pais pela brutal política de imigração nos Estados Unidos

Alguns meninos sorriem. Outros têm o olhar perdido. Outros estão angustiados. De repente, vivem em uma bolha: três refeições ao dia, cama, roupa limpa, cuidados médicos, sala de videogames, um auditório para assistir filmes... Mas sua experiência na Casa Padre, um antigo hipermercado Walmart reconvertido em gigantesco centro de acolhida em Brownsville (Texas), ao lado da fronteira com o México, mascara o trauma da feroz viagem até os Estados Unidos e suaviza a angústia por um futuro incerto. Em pouco tempo, os quase 1.500 imigrantes sem documentos que estão hoje no albergue, o maior desse tipo nos EUA, saberão se serão expulsos do país ou poderão ficar à espera de resolver sua situação jurídica. E cerca de um quarto deles têm uma preocupação muito mais premente: chegaram à fronteira com os pais, mas, ao serem detidos, foram separados deles.

Os meninos são vítimas da nova política de “tolerância zero” do Governo de Donald Trump. Desde abril, o Ministério Público apresenta acusações criminais contra qualquer adulto que entra ilegalmente nos EUA. É levado a um centro de detenção e, se veio com um filho, o menor passa a depender dos Serviços Sociais. O sistema é opaco e se desconhece seu alcance. Não é incomum que o pai seja deportado enquanto o filho continua nos EUA. Entre 19 de abril e 31 de maio, 1.995 crianças foram separadas dos pais quando tentavam entrar nos EUA em postos de fronteira oficiais, de acordo com estatísticas obtidas pela agência Associated Press. Isso exclui os muitos imigrantes que entram no país por vias não oficiais, como atravessar o Rio Grande em um barco.

DEPARTAMENTO DE SALUD Y SERVICIOS SOCIALES
Um menino no refeitório do albergue Casa Padre. 

A diretiva tem um objetivo muito claro: assustar. Por enquanto, no entanto, não obteve o efeito dissuasivo pretendido: fazer com que menos imigrantes – centro-americanos na imensa maioria– empreendam um desesperado périplo a partir de seus países em busca de uma vida melhor.

Não há precedentes de uma política desse tipo em grande escala. A Administração republicana tem cada vez menos leitos para acomodar tantos imigrantes, começou a transferir adultos para prisões e está cogitando levantar acampamentos em massa em bases militares. Trump voltou a dizer na sexta-feira que “odeia” que pais e filhos sejam separados e a culpar falsamente os democratas de terem “forçado isso por lei”. A realidade é que o Governo age unilateralmente. O Comitê de Direitos Humanos da ONU chamou a nova política de “grave violação dos direitos das crianças”. 

Organizações sociais tentam detê-la nos tribunais e há cada vez mais vozes que denunciam a imoralidade de que o país mais rico do mundo e nascido da imigração aja com tamanha crueldade.



A Casa Padre é um reflexo fiel do drama em uma das fronteiras mais desiguais. “Estamos muito perto da capacidade máxima”, diz Juan Sánchez, fundador e presidente da organização Southwest Key Programs, que administra o albergue em um contrato com o Departamento de Saúde e Serviços Sociais. “Nunca esteve assim tão cheio”, explica a um pequeno grupo de jornalistas durante uma visita ao complexo, na última quarta-feira, em que não foi permitido falar com as crianças. “Boa tarde”, dizem alguns. “Tudo bem”. Outros permanecem em silêncio ou parecem desconfortáveis ao se sentirem observados como seres estranhos. Os meninos estão vestindo camiseta e bermudas. Muitos portam uma cruz religiosa.

Naquele dia havia 1.469 menores dormindo no albergue, apenas 28 abaixo do limite. Eles vão para lá depois de passarem um máximo de 72 horas em um centro policial. Todos são do sexo masculino e têm entre 10 e 17 anos de idade. Com exceção de sete índios, os demais são latino-americanos. Pelo menos 70% dos meninos da Casa Padre chegaram completamente sozinhos do México. No entanto, a proporção de menores que viajam com os pais está aumentando, mas são separados ao entrar nos EUA. Em média, as crianças passam 49 dias no albergue. A média nacional é de 56.

  DEPARTAMENTO DE SALUD Y SERVICIOS SOCIALES
Crianças praticando esporte, na quarta-feira, na área externa do albergue Casa Padre. 

O Governo tem a custódia de 11.351 menores imigrantes em uma centena de centros, de acordo com os últimos dados, que não especificam quantos foram separados dos familiares. O número de meninos sob custódia cresceu 20% entre abril e maio. Os menores deixam os abrigos quando é encontrado um membro da família no país ou uma família de adoção. Ficarão com eles até que um juiz decida se podem permanecer nos EUA ou não. No entanto, os Serviços Sociais reconheceram em abril que perderam a pista de cerca de 1.500 meninos porque seus responsáveis não atenderam ao telefone. Há quem argumente que não atendem porque a maioria dos membros da família é formada por imigrantes sem documentos ou porque querem impedir que os meninos se apresentem perante o juiz.

A lotação é palpável na Casa Padre, inaugurada em março de 2017, depois da reconversão de um antigo hipermercado Walmart de 2,3 hectares. Em cada um dos 313 quartos havia quatro camas, mas uma dobrável foi acrescentada para uma quinta pessoa. Metade dos meninos vai para a aula de manhã e a outra à tarde. Antes das refeições, formam-se filas longuíssimas. A Southwest Key demitiu trabalhadores no ano passado pela queda drástica na chegada de imigrantes sem documentos no início da presidência de Trump, mas, com o atual crescimento, precisa de dezenas de novos funcionários.

 (México) JOAN FAUS 

A cerca, na passada quinta-feira, de uns seis metros que separa 
Brownsville (Texas) do Rio Grande e de Matamoros 


Nos quartos e corredores há um rastro de mensagens de motivação e patriotismo. “Imagine as possibilidades da vida”, “América, a bela”, dizem algumas. Há murais com frases de presidentes norte-americanos, inclusive Trump. Na aparência, a dinâmica pode lembrar a de um grande acampamento de verão. Mas os detalhes revelam que os menores não são livres. Cada um usa uma pulseira de identificação. Os funcionários usam fones de ouvido e monitoram todos os movimentos. As “regras” de conduta são explicadas nas paredes. Os meninos só podem ficar duas horas por dia em um pátio externo. Têm direito a duas chamadas telefônicas por semana. Quando um menor chega, passa até 72 horas isolado com supervisão médica. O complexo é um bunker, envolto em uma aura de sigilo. Há cercas e pessoal de segurança nas proximidades.

Como um antigo Walmart, a Casa Padre está no berço do capitalismo. Localizada na típica avenida da periferia norte-americana, está cercada de fast-foods e postos de gasolina. A vida flui. Alheia às histórias angustiadas das quase 1.500 crianças do abrigo. Omar Agustín Rodríguez, de 38 anos, conhece o complexo. Ele ajudou a instalar o ar condicionado. “É bom porque os ajudam e repatriam”, diz ele no McDonald’s dos arredores. Como muitos outros aqui, ele nasceu em Matamoros (México) –cidade separada de Brownsville pelo Rio Grande e por uma cerca de seis metros– mas em 2000 emigrou e agora tem residência permanente. Veio em busca de um trabalho melhor e segurança. Ele lamenta a ruptura das famílias e elogia os sem documentos. “São pessoas que sofrem e lutam. Eu as admiro”.


NERVOS E SATURAÇÃO NOS TRIBUNAIS

A nova política de tolerância zero com a imigração irregular é rapidamente percebida no tribunal federal de Brownsville, a cerca de 15 minutos de carro da Casa Padre, o albergue para menores sem documentos. Agora há julgamentos sobre imigração todos os dias. Na quinta-feira, uma audiência conjunta foi realizada para 17 imigrantes centro-americanos que tinham cruzado o Rio Grande vindos do México alguns dias antes. Antes de maio, apenas dois ou três seriam julgados, aqueles com antecedentes de entrada ilegal nos EUA. O resto não teria sido julgado e teria permanecido em um centro de detenção esperando ser deportado ou pedir asilo.

Todos os imigrantes se declararam culpados. As sentenças maiores foram de 10 dias de prisão e um ano de supervisão para aqueles que tinham antecedentes. Depois de serem libertados, todos serão provavelmente deportados. Eram nove homens e oito mulheres, entre 19 e 65 anos. Estavam com as mãos algemadas e uma corrente ao redor da cintura. Alguns usavam roupas de prisão e estavam visivelmente nervosos. Todos usavam fones de ouvido com tradução para o espanhol.

Pelo menos quatro deles foram separados dos filhos depois de terem sido interceptados pela polícia de fronteira. No caso do hondurenho Álex Roel Guevara, o advogado do Governo reconheceu que não têm informações sobre onde está sua filha, de 13 anos. “Estou preocupado com a minha menina”, queixou-se outro hondurenho, Denis Canales Murillo, que foi separado de sua primogênita, de 11 anos. O juiz Ignacio Torteya respondeu-lhe que o objetivo é reuni-los antes de serem deportados, embora, segundo especialistas legais, isso quase não aconteça. Outra das acusadas, María Josefina Zuñega Alfaro, foi separada do filho de 15 anos. Como é um menino, é possível que esteja na Casa Padre.

Humberto Yzaguirre, o advogado de ofício dos imigrantes, diz que em seus 15 anos de experiência não tinha visto casos de separação de famílias. “Imagine do que estão fugindo. São vulneráveis e não têm nenhum poder para evitar o que o Governo está fazendo. Estão se aproveitando deles. É uma loucura”, disse depois da audiência.

As vítimas brasileiras da radical política migratória de Trump

Amanda Mars
El País

Mulher ficou 17 dias sem falar com três filhos. Consulados do Brasil nos EUA intensificam rastreio enquanto Governo Temer evita críticas diretas às vésperas de Mike Pence chegar a Brasília

  JOSE LUIS GONZALEZREUTERS 
Imigrante salvadorenho Epigmenio Centeno segura a mão de seu filho, Steven. 

A política de tolerância zero contra imigrantes ilegais do Governo Donald Trumpcomeça a atingir famílias brasileiras. Por 17 dias, a brasileira Jaene Silva de Miranda, detida no Estado do Arizona por ter entrado nos Estados Unidos sem documentos, foi impedida de falar com seus três filhos, de 8, 10 e 16 anos. Não sabia nem o paradeiro deles. Só conseguiu ter notícias de seus familiares depois que uma cônsul-honorária do Brasil na cidade de Phoenix a encontrou no centro de detenção na cidade de Eloy. Os três filhos estão em um albergue.

Nos últimos dias, os consulados do Brasil em Los Angeles (Califórnia) e Houston (Texas) passaram a intensificar a busca por cidadãos que teriam sido separados de seus filhos por terem sido flagrados em solo norte-americano sem documentos que o autorizassem a estar lá. Por fazerem fronteira com o México, os dois Estados são os que mais recebem imigrantes ilegais. Ainda não há dados oficiais sobre a quantidade de brasileiros nesta situação nem sobre quantos acabaram presos em centros de detenção. Estimativas extraoficiais preveem que cerca de 11.000 pessoas já teriam sido detidas, entre os brasileiros, os números não passam de duas dezenas.


Saia justa com a visita de Mike Pence

A expectativa é que, nos próximos dias, o esforço concentrado dos dois consulados resulte em um levantamento preciso sobre os brasileiros vítimas da política radical de Trump. O caso de Jaene Miranda foi divulgado inicialmente pelo jornal Los Angeles Times e confirmado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Por enquanto, o Governo Michel Temer está estudando formas de atuação para que se tornem precisos os números de brasileiros atingidos pela medida.

Oficialmente, o trabalho dos consulados seria o de se certificar que o brasileiro detido está sendo mantido em situação de dignidade nas prisões, se está com saúde e recebendo alimento, além de consultar se tem acesso a assistência jurídica, quando necessário.

Neste momento, a saia justa para o governo brasileiro se manifestar de maneira mais enfática ocorre porque o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, está prestes a fazer uma visita oficial ao Brasil. Esse encontro já foi adiado uma vez neste ano, mas deve ocorrer nos dias 26 e 27 de junho. Entre as pautas do encontro estão a crise dos refugiados venezuelanos, a criação de um fórum regional de segurança e a retomada das negociações do acordo para o uso da base de lançamentos de Alcântara (no Maranhão). Em princípio, o tema das vítimas anti-imigração dos Estados Unidos não será debatido.

Chuva de críticas contra Trump e pressão no Legislativo

Enquanto isso, a reação contra Trump nos EUA também cresce. "O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein, qualificou de “abuso infantil” a medida da Casa Branca: “A ideia de que qualquer Estado tente dissuadir os pais infringindo abuso às crianças é inadmissível”.

Mas Trump negocia com reféns. Como tem feito com os dreamers("sonhadores", os imigrantes ilegais que chegaram aos EUA ainda criança), ele utiliza a separação dos pais e de seus filhos como um meio de pressão contra os democratas _e republicanos_ para forçá-los a votar uma nova legislação de imigração que, além de mais restritiva, inclua fundos para o muro com o México.

A expectativa do ocupante da Casa Branca é que a polêmica em torno da linha dura contra os imigrantes se reverta em popularidade, como já aconteceu na corrida presidencial. A questão é que, neste caso, ele está tocando em um ponto muito sensível. A entrada em cena da ex-primeira dama republicana Laura Bush é um termômetro disso e pode fazer muitos membros do partido se voltarem contra Trump pensando nas eleições legislativas de novembro. A mulher de George W. Bush publicou no domingo no The Washington Post um artigo muito duro contra a política de Trump. "Eu moro em um estado limítrofe [Texas]. Eu valorizo a necessidade de proteger e fazer cumprir a lei em nossas fronteiras internacionais, mas essa tolerância zero é cruel. É imoral. E isso parte meu coração", escreveu ela. Foi apoiada por Michelle Obama nas redes sociais. 

EUA não pedirão desculpas por separação de crianças na fronteira

Da Redação
Veja online

Secretária de Segurança Nacional diz que imigrantes ilegais devem enfrentar as consequências e garante que crianças estão bem cuidadas

(Kevin Lamarque/Reuters)
Donald Trump: EUA não serão campo de imigrantes nem abrigo para refugiados.

A secretária de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Kirstjen Nielsen, disse nesta segunda-feira (18) que o governo não pedirá desculpas por ter afirmado que “as ações ilegais têm consequências”. A frase fora dita no contexto da polêmica separação de crianças de suas famílias quando detidas entrando ilegalmente no país.

“Não pediremos desculpas” pela separação de crianças na fronteira, afirmou Nielsen em discurso na Associação Nacional de Xerifes em Nova Orleans(Louisiana).

As autoridades americanas confirmaram a separação de cerca de 2.000 crianças de suas famílias na fronteira com o México em um período de seis semanas. A medida foi tomada com base na política de “tolerância zero” no combate à imigração ilegal, promovida pelo presidente americano Donald Trump.

Nielsen ressaltou que quem “comete ações ilegais sofre as consequências”, independentemente de estar acompanhada por menores de idade ou não. “Este governo tem uma mensagem simples: se alguém cruzar a fronteira de maneira ilegal, será processado”, acrescentou a funcionária.

Nos últimos dias, circularam informações sobre a situação dramática desses menores, mantidos em armazéns transformados em centros de detenção temporários. Em alguns casos, estão divididos em celas.

Como consequência dessas ações, cresceram as críticas da oposição democrata, mas também dentro do próprio Partido Republicano, ao qual pertence o presidente Trump. A própria primeira-dama, Melania Trump, criticou a política e defendeu um acordo bipartidário para reformular as leis migratórias no país.

Nielsen, no entanto, pediu para que as pessoas “não acreditem nas informações da imprensa” e afirmou que as crianças separadas de seus familiares “estão sendo muito bem cuidadas”.


Trump volta a culpar democratas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a tecer comentários negativos sobre os democratas nesta segunda-feira ao responsabilizá-los por “todos os problemas” relacionados à questão imigratória em solo americano. O republicano voltou a pedir a aprovação de uma reforma imigratória pelo Congresso e disse desejar que os imigrantes chegassem aos Estados Unidos com base no mérito.

“Nosso país não se tornará um campo para imigrantes ou um abrigo para refugiados”, disse Trump durante a abertura do Conselho Espacial Nacional.

Trump disse que deseja discutir com a oposição democrata uma reforma no sistema imigratório dos Estados Unidos, mas ressaltou que deseja fazer dos Estados Unidos um país seguro.  “E isso se faz com fronteiras fortes”, acrescentou, referindo-se à sua promessa de construção de um muro na fronteira com o México.

Na noite desta segunda-feira, Trump se reúne com os senadores republicanos Richard Shelby (Alabama) e Shelley Moore Capito (Virgínia Ocidental) para discutir o tema. Já na terça-feira (19), o presidente deve se reunir com congressistas americanos no Capitólio, onde a questão imigratória é um dos temas pautados.

“Temos de aprovar uma medida imigratória logo”, defendeu.

Mais cedo, ao utilizar seu perfil no Twitter, Trump já havia feito críticas aos democratas em torno da questão imigratória. “Crianças estão sendo usadas por alguns dos piores criminosos da Terra como um meio para entrar em nosso país. Alguém viu o crime ocorrendo ao sul da fronteira?”, questionou o presidente, dizendo que isso se deve ao fato de os democratas serem “fracos e ineficazes”  no combate ao crime e em segurança nas fronteiras.

“Digam a eles para começarem a pensar nas pessoas que são devastadas pelo crime que vem da imigração ilegal. Mudem as leis!”, pediu Trump.

 (Com EFE e Estadão Conteúdo)

Crianças imigrantes separadas dos pais podem sofrer trauma por anos, dizem psicólogos

O Globo
Benedict Carey, do New York Times

Menores enfrentam risco de ansiedade, depressão e doenças cardiovasculares


HANDOUT / AFP 
Crianças migrantes que tentaram atravessar a fronteira para os EUA
 de forma irregular dormem em centro de processamento no Texas 

WASHINGTON — Alguns jovens recuam inteiramente, com os olhos vazios, os corpos flácidos, o isolamento como um desafio. Outros não conseguem ficar parados: atentos, hiperativos, sempre inquietos. Alguns pulam compulsivamente para o colo de estranhos, ou agarram suas pernas, sem soltar. E algumas crianças, de alguma forma, encontram força para resistir à súbita separação familiar.
A política do governo Trump de separar crianças imigrantes de seus pais alarmou psicólogos infantis e especialistas que estudam o desenvolvimento humano. Não está claro por quanto tempo os EUA planejam manter 2 mil crianças em centros de detenção perto da fronteira, nem quanto tempo elas terão de esperar até que sejam devolvidas às suas famílias.

Psicólogos já desenvolveram estudos sobre o efeito da permanência de crianças em instituições e, nessas pesquisas, há pistas para os potenciais danos emocionais enfrentados por aquelas separadas dos pais nos EUA. Várias organizações médicas, incluindo as que regulam a psicologia, psiquiatria e pediatria, emitiram cartas de protesto, citando um aumento do risco de ansiedade e depressão nas crianças, bem como estresse pós-traumático e transtorno de déficit de atenção.

“As experiências traumáticas de vida na infância, especialmente aquelas que envolvem a perda de um cuidador ou dos pais, causam risco vitalício de doenças cardiovasculares e mentais”, escreveu sobre o assunto a Associação Nacional de Enfermeiros Pediátricos.

As consequências a longo prazo da separação e da tomada da criança por instituições são difíceis de prever e dependem de muitos fatores, como a idade durante a separação e o tempo longe da família. A privação prolongada entre a infância e a idade escolar, por exemplo, aumenta o risco de problemas emocionais duradouros.

O risco de consequências para a saúde mental também depende da instituição em que as crianças estão sendo mantidas: da equipe, do volume de atividades, se as crianças sabem onde seus pais estão e por quanto tempo serão mantidas em custódia. Instituições — mesmo as melhores e mais humanas — distorcem, por sua natureza, as ligações afetivas que os menores precisam, a troca visceral de amor que conforta, apoia e molda o coração e a mente de uma criança.

— Em orfanatos e outros ambientes institucionais, a taxa de rotatividade de cuidadores é alta, assim como o número de crianças por cuidador. Isso gera um cuidado impessoal, instável e fragmentado, que não apenas causa impacto na fixação ou regulação do estresse, mas também nos parâmetros de crescimento físico, como altura, peso, perímetro cefálico e desenvolvimento cerebral — diz Marinus van Ijzendoorn, professor de desenvolvimento humano na Universidade Erasmus de Roterdã.

Crianças mantidas em instituições, segundo Van Ijzendoorn, anseiam por uma relação que somente as famílias podem oferecer. Mas muito depende de quanto tempo elas foram retidas: uma permanência mais longa em uma idade mais avançada requer um período de recuperação maior, observou ele. "Muitos desses pais estão fugindo para salvar suas vidas. Muitas dessas crianças não conhecem outro adulto além do pai que as trouxe até aqui" escreveu Colleen Kraft, presidente da Academia Americana de Pediatria, em uma declaração pública após uma recente viagem à fronteira.
  
HANDOUT / AFP
Migrantes aguardam em centro de processamento para imigração no Texas - 

AFETO DESDE CEDO

Talvez o mais influente de todos os modernos psicólogos infantis tenha sido John Bowlby, o cientista britânico cujo trabalho em meados do século XX argumentava que bebês já estavam preparados para formar laços afetivos. A qualidade do afeto primário (geralmente) à mãe — seja ele forte e amoroso, incerto ou ausente — ajuda a determinar a trajetória da vida de uma criança.

A teoria do apego de Bowlby compõe muitas abordagens para o tratamento de crianças separadas de seus pais pelas circunstâncias ou, no caso da atual política administrativa, pela burocracia.

Kalina Brabeck, uma psicóloga do Rhode Island College que trabalha com crianças imigrantes que perderam seus pais para a deportação ou por outras razões, disse que a experiência de perda muitas vezes leva a um tipo de estresse pós-traumático.

A maioria das crianças mantidas na fronteira terá traumas acumulados, diz Brabeck. Mesmo antes de seus pais serem detidos, muitas já haviam enfrentado o desafio da imigração, fugindo com poucos recursos de comunidades violentas. Um objetivo do tratamento, diz ela, é superar o que é uma crise de identidade diária.

— Tentamos fazer com que eles contem uma história: quem são, onde nasceram, em que são bons, sua história de migração — afirma.

A terapia inclui aconselhamento de luto, explica Brabeck, e estimula as crianças a confrontar suposições inconscientes — por exemplo, a de que o mundo é um lugar intrinsecamente inseguro.

— Também trabalhamos para conectá-las a outros tipos de suportes, como aconselhadores, professores e igrejas — diz ela.

Apesar do deslocamento, da estranheza e da dor de serem separadas à força dos pais, muitas crianças se recuperam, observa, por sua vez, Mary Dozier, professora de desenvolvimento infantil da Universidade de Delaware.

— Nem todas: algumas nunca se recuperam, mas fiquei impressionada com o bom desempenho das crianças após a sua detenção em instituições, se elas puderem ter um atendimento ágil e estimulante depois disso. Quanto mais cedo eles estiverem fora, melhor. O mais importante para essas crianças agora é o que fazemos em seguida — afirma ela.

EUA: Separadas dos pais, crianças dormem em gaiolas e choram desesperadas

Da Redação
Veja online

Um áudio gravado dentro de um desses abrigos mostra diversas crianças implorando para serem reunidas a seus familiares

(Mike Blake/Reuters)
Crianças imigrantes, muitas das quais foram separadas de seus pais sob uma nova política 
de "tolerância zero" pelo governo Trump, caminham em fila única entre tendas 
em seu complexo próximo à fronteira mexicana em Tornillo, no Texas

Dentro de um armazém antigo no sul do Texas, nos Estados Unidos, centenas de crianças esperam, dentro de gaiolas de metal. Uma das celas era ocupada por 20 crianças. Garrafas de água, sacos de batata frita e grandes folhas de papel, que servem de cobertores, se espalham pelo lugar.

Uma adolescente contou a uma defensora pública que estava ajudando a cuidar de uma criança pequena que não conhecia, porque a tia da menina estava em outro lugar do armazém. Ela conta que teve de usar seu celular para ensinar às outras crianças com quem dividia a cela como trocar fralda.

A Patrulha de Fronteira permitiu que repórteres visitassem a instalação em resposta às críticas contra a política de tolerância zero do governo de Donald Trump, que tem resultado na separação de famílias. Os repórteres não foram autorizados a entrevistar as pessoas ou a tirar fotos.

Mais de 1.100 pessoas estavam dentro da instalação ampla e escura, dividida em alas para crianças desacompanhadas, adultos sozinhos e mães e pais com filhos. As gaiolas de cada ala têm acessos a áreas comuns e banheiros químicos. A iluminação fica constantemente acesa.

Segundo a Patrulha de Fronteira, cerca de 500 menores no local estão acompanhados pelos pais, mas outros 200 estão sozinhos. Muitos dos adultos que cruzam a fronteira sem permissão podem ser acusados de entrada ilegal e levados presos, sendo separados de seus filhos.

Cerca de 2.300 crianças foram tiradas de seus pais desde que o secretário de Justiça, Jeff Sessions, anunciou a nova política de tolerância zero, determinando que os funcionários do Departamento de Segurança Interna encaminhassem todos os casos de entrada ilegal nos Estados Unidos para serem processados criminalmente. Igrejas e grupos de defesa dos direitos humanos criticaram duramente a política, chamando-a de desumana.

Desestímulo a outros imigrantes ilegais

Histórias se espalharam de menores sendo arrancados dos braços dos pais e estes incapazes de saber para onde seus filhos foram levados. Um grupo de congressistas visitou a mesma instituição no domingo e foi designado para visitar um abrigo onde estão cerca de 1.500 crianças, muitas separadas dos pais.

No Vale do Rio Grande, no Texas, que é o corredor mais movimentado para aqueles que tentam entrar nos Estados Unidos, funcionários da patrulha argumentam que precisam reprimir os imigrantes e separar os adultos das crianças para desencorajar outras pessoas. “Quando você isenta um grupo de pessoas da lei, isso cria um atrativo”, justificou o chefe da patrulha, Manuel Padilla.

A secretária de Segurança Nacional, Kirstjen Nielsen, no entanto, nega que este seja o objetivo do governo americano. “Esta não é uma ideia controversa”, alegou Nielsen, ao argumentar que, se um americano fosse acusado de um crime e “fosse preso”, a sociedade entenderia que “fosse separado dos seus filhos”. Ela considerou “ofensivo” que se insinue que a política de separação de famílias tem como objetivo dissuadir outros imigrantes que tentem entrar ilegalmente nos Estados Unidos.

Os funcionários que administram o local onde estão as crianças disseram que todos os detidos recebem alimentação adequada, acesso a chuveiros, roupa lavada e assistência médica. A ideia é que as pessoas passem pouco tempo na instalação. Nos termos da legislação americana, crianças devem ser entregues em até três dias aos abrigos financiados pelo Departamento de Saúde.

Padilla diz que os funcionários no Vale do Rio Grande permitem que famílias com crianças menores de 5 anos fiquem juntas, na maior parte dos casos. Uma defensora pública, porém, que passou várias horas no local diz ter ficado profundamente perturbada com o que encontrou. Michelle Brane, diretora da Comissão de Mulheres Refugiadas, se encontrou com uma garota de 16 anos que estava cuidando de uma menina mais nova há três dias. A adolescente e as outras pessoas em sua gaiola supunham que a menor tinha 2 anos.

Ela contou que, depois que um advogado começou a fazer perguntas, os agentes encontraram a tia da menina e reuniram as duas. Assim, descobriram que a criança tinha 4 anos. Parte do problema era que a menina não falava espanhol, mas k’iche, uma língua indígena da Guatemala. “Ela estava tão traumatizada que não estava falando”, disse Michelle. “Estava apenas encolhida, como se fosse uma bola pequena.”

Trauma

Michelle contou que também viu autoridades na instalação – onde não há brinquedos ou livros – repreenderem um grupo de crianças de 5 anos por brincarem dentro de sua gaiola, ordenando que se acalmassem. Mas um garoto próximo da cela não estava brincando com os outros. Segundo Michelle, ele estava quieto, segurando um pedaço de papel que era uma cópia da carteira de identidade de sua mãe.

“O governo está literalmente levando as crianças para longe de seus pais e deixando-as em condições inadequadas”, disse a defensora. “Se um dos pais deixasse uma criança em uma gaiola sem supervisão com outra criança de 5 anos, eles seriam responsabilizados.”

A chefe da Academia Americana de Pediatria, Colleen Kraft, que visitou um abrigo no Texas, viu uma criança ainda engatinhando que chorava descontroladamente e batia os punhos contra o chão. Os funcionários tentavam consolar a criança, que parecia ter cerca de 2 anos. Ela havia sido tirada de sua mãe na noite anterior. Os funcionários deram a ela livros e brinquedos, mas não podiam segurar ou abraçar a criança para que se acalmasse. “O estresse é esmagador. O foco precisa estar no bem-estar dessas crianças”, disse a médica.

Choro desesperado

Entre soluços, várias crianças choram e chamam por seus pais dentro de uma instalação da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos, enquanto um guarda ironiza: “temos uma orquestra, só falta o maestro”.

Esta situação terrível foi revelada pelo site de notícias ProPublica, que divulgou uma gravação do desespero das crianças separadas de seus pais. “Não quero que prendam meu papai, não quero que o deportem”, diz uma menina. “Não quero me separar do papai”, murmura outra.

O guarda de fronteira pergunta em espanhol: “De onde você é?”; “El Salvador, Guatemala”, respondem as crianças.


Uma das vozes que mais se destaca é a de uma menina salvadorenha de seis anos que suplica pela presença de sua tia: “Posso ir com a minha tia, pelo menos?! Tenho o número (de telefone) dela. Minha mamãe virá me pegar quando eu for com a minha tia”.

Segundo o ProPublica, o áudio foi gravado na semana passada por uma pessoa que pediu para não ser identificada.

A tia da menina disse ao site que este foi o “momento mais difícil” de sua vida. “Imagine receber um telefonema de sua sobrinha de seis anos que está chorando e pede para você buscá-la. Ela promete se comportar e pede, ‘por favor, me tire daqui, estou completamente só'”.

A mãe da criança foi levada a um centro de detenção em Port Isabel, Texas, e segundo a tia não pôde falar com a filha.

(Com informações Estadão Conteúdo, e agências AFP e EFE)

A comovente gravação que mostra o sofrimento das crianças separadas da família pela Imigração nos EUA

BBC Brasil


Gravação mostra sofrimento das crianças separadas da família na fronteira dos EUA

São quase oito minutos de áudio com choro e súplicas de crianças.

O site Propublica divulgou uma gravação em que é possível ouvir o sofrimento de meninos e meninas imigrantes da América Central, separados de seus pais após tentarem entrar ilegalmente nos Estados Unidos.

A gravação foi feita em um centro de detenção da Patrulha de Fronteira americana, na fronteira do país com o México.

Nela, as crianças não param de chorar e gritam, de forma inconsolável, "mamãe" e "papai".

"Eu não quero que detenham o meu pai. Não quero que deportem ele", diz uma delas, em espanhol, chorando.

Também em espanhol, um agente da fronteira faz piada diante da lamentação generalizada. Ele diz: "Bom, nós temos uma orquestra aqui. Faltava o maestro".

Outro homem grita, ao fundo, para que "não chorem!".

Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Criança em centro de detenção de imigrantes na cidade fronteiriça de McAllen,
 no Texas (EUA): Milhares teriam sido separadas dos pais desde abril 
ao tentarem entrar ilegalmente nos Estados Unidos

Em seguida, são ouvidas vozes de funcionários consulares, trocando informações sobre "número de identificação" de alguém, perguntando de onde as crianças são, onde estão seus pais e se era com eles que estavam viajando.
As crianças que respondem são da Guatemala e de El Salvador.

Uma delas é Alison Jimena Valencia Madrid, uma menina de seis anos de idade, de El Salvador, que protagoniza boa parte da gravação.

Separada da mãe na semana passada, ela implora para que alguém ligue para sua tia, cujo número de telefone afirma saber de cor.

"Eu posso ir pelo menos com a minha tia? Quero que ela venha...", diz a menina. "Quero que a minha tia venha. Ela pode me levar para a casa dela."

Um homem afirma que alguém vai ajudá-la a fazer a ligação, se ela tiver o número.

No áudio é possível ouvir os agentes falando em distribuir comida no local. A menina então insiste sobre a ligação, perguntando se depois de comer podem chamar a tia para buscá-la.

"Eu tenho o número de cabeça", afirma Alison. "Você vai ligar para minha tia vir me buscar? (...) Minha mãe disse para eu ir com a minha tia e que ela vai me buscar lá (com a tia) o mais rápido possível", reforça, ainda chorando e em meio a vozes de outras crianças gritando, aos prantos, "papai" e "meu papai".

"Não chore. Olhe, ela vai explicar a você e vai lhe ajudar", diz o agente à menina em determinado momento da gravação, referindo-se à representante do consulado.

No final do áudio, uma oficial consular se oferece para ligar para a tia dela.

'Por favor, me tire daqui'

A Propublica, que se descreve como uma redação independente, com sede em Nova York, que produz jornalismo investigativo de interesse público conseguiu falar com a mulher depois.

"Foi o momento mais difícil da minha vida", disse ela. "Imagine receber um telefonema da sua sobrinha de seis anos. Ela está chorando e me implorando para ir buscá-la. Ela disse: 'Eu prometo que vou me comportar, mas, por favor, me tire daqui, estou completamente sozinha'."

 Direito de imagem ADUANAS Y PROTECCIÓN FRONTERIZA
 DE ESTADOS UNIDOS Image caption
Meninos imigrantes em centro de detenção: Relatos apontam 
que alguns chegam a ficar separados dos pais por semanas e até meses

A tia, no entanto, afirmou, "com dor", que não podia fazer nada pela menina. A mulher emigrou há dois anos com a filha pequena, fugindo da violência em El Salvador, em busca de asilo nos Estados Unidos. Agora, tem medo de se colocar em situação de risco com a filha, ao tentar ajudar a sobrinha.

Ela disse que se mantém em contato com a criança, que foi transferida das instalações da Patrulha da Fronteira para um abrigo com camas. E que também pôde falar com a irmã, que foi levada para um centro de detenção de imigrantes perto de Port Isabel, no Texas.

Mãe e filha, no entanto, não puderam se comunicar.

Segundo a Propublica, o áudio foi gravado na semana passada dentro de um centro de detenção da Patrulha de Fronteira.

A pessoa que fez a gravação, que pediu para não ser identificada por medo de represálias, diz que "ouviu os gritos e o choro das crianças e ficou arrasada".

Essa pessoa estimou que as crianças teriam entre quatro e dez anos de idade.

Ponderou, ainda, que os funcionários do consulado tentavam tranquilizá-las conversando com elas e lhes dando comida e brinquedos, mas que as crianças não conseguiam se acalmar.

Por que as crianças estão sendo separadas de seus pais?

As crianças estão sendo separadas dos pais na fronteira entre os EUA e o México como resultado da política "tolerância zero" introduzida em maio pelo procurador-geral dos Estados Unidos, Jeff Sessions, e alvo crescente de críticas.

Essa política prevê que adultos que tentam atravessar a fronteira - muitos deles planejando pedir asilo - sejam colocados sob custódia e que enfrentem processos criminais por entrada ilegal no país.

Como resultado, quase 2 mil crianças foram separadas de seus pais depois de cruzarem ilegalmente a fronteira, de acordo com balanço divulgado na última sexta-feira.

Elas ficam abrigadas em centros de detenção, mantidas longe de seus pais.

 Direito de imagem REUTERSImage caption
O procurador-geral dos Estados Unidos, Jeff Sessions, afirma
 que quem entrar nos EUA de forma irregular será processado criminalmente

Mudança

Sessions afirmou que aqueles que entrarem nos EUA de forma irregular serão processados criminalmente. Até então, pessoas detidas tentando entrar ilegalmente no país eram acusadas de crimes de menor potencial ofensivo.

Os adultos processados são separados dos filhos que viajam com eles - estes, passam a ser considerados menores desacompanhados.

Defensores da medida apontam que centenas de crianças são retiradas de pais que cometem crimes nos EUA diariamente.

Como tal, elas são colocadas sob custódia do Departamento de Saúde e Serviços Humanos e enviadas para um parente, lar adotivo ou um abrigo - os funcionários desses locais já estão com falta de espaço para abrigá-los.

Abrigos

Recentemente, uma antiga loja do Walmart no Texas foi transformada em centro de detenção para as crianças imigrantes.

Autoridades também anunciaram planos de erguer acampamentos para abrigar outras centenas delas no deserto do Texas, onde as temperaturas normalmente alcançam 40 graus.

O legislador local, José Rodriguez, descreveu o plano como "totalmente desumano" e "ultrajante". "(É um plano que) Deve ser condenado por qualquer um que tenha um senso moral de responsabilidade", disse ele.

Autoridades da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, da sigla em inglês) estimam que cerca de 1,5 mil pessoas são presas por dia por cruzarem ilegalmente a fronteira.

Nas duas primeiras semanas de "tolerância zero", 658 menores - incluindo muitos bebês e crianças pequenas - foram separadas dos adultos que as acompanhavam, de acordo com o CBP.

Relatos apontam, no entanto, que mais de 700 famílias foram afetadas entre outubro e abril.

Em muitos dos casos, as famílias já foram reunidas, após os pais serem libertados da detenção. No entanto, há casos em que a separação teria durado semanas e até meses.

Trump

Trump culpou os democratas pela política, dizendo que "temos que separar as famílias" por causa de uma lei que "os democratas nos deram".

Não está claro, porém, a que lei ele se refere, pois não há lei aprovada pelo Congresso dos EUA que determine que as famílias migrantes sejam separadas.

Verificadores de fatos dizem que a única coisa que mudou foi a decisão do Departamento de Justiça americano de processar criminalmente os pais pela primeira vez ao cruzar a fronteira. Como seus filhos não são acusados de um crime, eles não podem ser presos junto com eles.

O repúdio das primeiras damas

A polêmica sobre a política de imigração "tolerância zero" de Donald Trump só aumentou nos últimos dias, especialmente depois que foram conhecidas as condições em que se encontram muitas das mais de 2 mil crianças separadas de seus pais desde abril.

 Direito de imagem ADUANAS Y PROTECCIÓN FRONTERIZA 
DE ESTADOS UNIDOS Image caption 
Imagen de imigrantes dentro de uma grande jaula, em centro de detenção, foi publicada 
por autoridades. Jornalistas afirmam terem visto crianças que chegaram desacompanhadas
 em condições semelhantes

Nas instalações onde estão detidas, existem grandes jaulas que, além de abrigar imigrantes adultos, seriam também destinadas a crianças cujos pais tentaram atravessar ilegalmente a fronteira sul com os Estados Unidos.

A medida levou a primeira-dama Melania Trump a romper seu habitual silêncio, no domingo, para criticar a situação.

Por meio de uma porta-voz, ela disse que "odeia ver crianças separadas de suas famílias" e que espera que Republicanos e Democratas "finalmente" trabalhem juntos para alcançar uma reforma imigratória bem-sucedida.

"Ela (Melania) acredita que precisamos ser um país que segue todas as leis, mas também um país que governa com o coração", acrescentou a porta-voz

Na segunda-feira, ex-primeiras-damas de governos democratas e republicanos também comentaram a questão, em repúdio público à política que Trump vem adotando na fronteira.

"Eu vivo em um estado fronteiriço. Entendo a necessidade de reforçar e proteger nossas fronteiras internacionais, mas essa política de tolerância zero é cruel. É imoral. E me parte o coração", escreveu a republicana Laura Bush em um artigo no The Washington Post e no Twitter.

Michelle Obama compartilhou o post em seu perfil no Twitter e escreveu junto à mensagem: "Às vezes, a verdade transcende os partidos".

Ela acrescentou, também no Twitter: "O que está acontecendo a essas famílias na fronteira é uma crise humanitária. Todos os pais que já carregaram um filho em seus braços, todo ser humano com senso de compaixão e decência, devem ficar indignados".