Editorial
O Globo
Presidente americano insiste em medida que separa filhos dos pais detidos sob suspeita de entrar ilegalmente nos EUA. Decisão é rechaçada pela opinião pública
Com argumentos grosseiramente amarrados numa linguagem agressiva e repleta de inverdades, Donald Trump tenta justificar, sem sucesso, a controversa política de tolerância zero, que separa pais e filhos de imigrantes detidos ao entrar ilegalmente nos EUA. Considerada uma cruel violação dos direitos humanos — inclusive por importantes vozes republicanas, como a da ex-primeira-dama Laura Bush e até mesmo a mulher do presidente, Melania —, a medida se tornou a mais clara agressão aos direitos no governo Trump até agora.
A onda de imigração cresceu vertiginosamente a partir de 2014, somando hoje centenas de milhares de pessoas em fuga da violência de gangues e do narcotráfico, a maioria delas oriunda da América Central, especialmente Honduras, El Salvador e Guatemala. Embora a legislação americana preveja a concessão de asilo ou refúgio político nesses casos, desde que chegou à Casa Branca, em 2017, o presidente americano vem investindo contra a entrada de estrangeiros no país, numa abordagem inversa à do ex-presidente Barack Obama.
Ao assumir a Presidência, Trump editou uma Ordem Executiva (equivalente a decreto presidencial), desfazendo boa parte da legislação de Obama, que priorizava a deportação de membros de gangues, pessoas consideradas ameaça à segurança nacional e suspeitos de praticar crimes. Ao rever a legislação, o governo Trump substituiu esses casos específicos passíveis de deportação pelo termo genérico “delitos criminais”, ampliando o escopo de interpretação de delitos passíveis de deportação.
Em abril de 2018, o procurador-geral, Jeff Sessions, implementou a política de tolerância zero, por meio da qual as autoridades podem processar e deportar suspeitos de crimes, entre os quais entrar ilegalmente nos EUA. Neste processo, as crianças são separadas dos pais e enviadas para centros de assistência social, enquanto os pais, tachados de criminosos, vão para a cadeia.
Assim, não é verdadeiro o argumento de Trump de que foi o Congresso que aprovou a legislação controversa que separa pais e filhos de imigrantes. Pelo contrário, ontem, republicanos prometeram passar uma lei para substituir a de tolerância zero, apesar da oposição de Trump.
A Anistia Internacional classificou a medida como equivalente à “tortura”, e a maior parte da população americana, segundo pesquisas de opinião, rejeita a controversa legislação. Atualmente, cerca de dois mil menores estão separados de seus pais, inclusive a brasileira Maria Bastos, que entrou legalmente nos EUA e requereu asilo, mas foi separada do neto autista.
Alheio ao clamor da opinião pública, Trump diz que apenas cumpre a lei. Para analistas, ele quer aproveitar o drama da situação para forçar o Congresso a aprovar medidas mais duras contra imigrantes, inclusive o financiamento para ampliar o muro na fronteira com o México. Mais um passo rumo a isolamento.