terça-feira, junho 19, 2018

Republicanos se dispõem a barrar separação de famílias imigrantes

O Globo 
Com 'New York Times'

Política controversa do governo Trump irrita membros do próprio partido

  JOHN MOORE / AFP 
Migrantes centro-americanos são detidos perto de McAllen, no Texas - 

WASHINGTON — O rechaço à política de tolerância zero de Donald Trump no combate à imigração ilegal nos Estados Unidos chegou até mesmo ao Partido Republicano, legenda do presidente, que já é palco de uma sublevação interna. Nesta terça-feira, dois governadores republicanos se juntaram a outros dois democratas e cancelaram o envio de soldados da Guarda Nacional ao serviço de patrulhamento das fronteiras, como resposta à política adotada nos últimos meses que já separou milhares de pais e filhos menores de idade, detidos ao tentarem entrar ilegalmente no país. Paralelamente, senadores da legenda também se reuniram e acordaram apresentar legislação no Congresso para interromper as separações o mais rapidamente possível.

À indignação se juntaram os dois principais grupos empresariais americanos, defensorias e governos de países vizinhos, que também pediram o fim das separações, tachadas de “cruéis e desumanas”.

MARIO TAMA / AFP 
Manifestantes marcham contra separação de famílias migrantes em Los Angeles, EUA - 

De acordo com números oficiais do governo americano, 2.342 crianças e jovens imigrantes foram separados dos pais desde o anúncio da medida, no fim de abril. Trump acusa a oposição no Partido Democrata de causar a crise ao bloquear uma reforma migratória no Congresso. O presidente tenta convencer a bancada de seu partido na Câmara a apoiar uma ampla reforma das leis de imigração, que incluiria não apenas o fim das separações, mas também a alocação de bilhões de dólares para a construção de um muro na fronteira com o México — principal carro-chefe de sua campanha presidencial — e outras prioridades. No fim da tarde, o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell anunciou que os senadores do partido decidiram, por unanimidade, se comprometer a aprovar uma lei que dê fim às separações familiares.

— Entendo que, para resolver esse problema, não podemos resolver todos os problemas — afirmou McConnell, em alusão às amplas demandas de Trump. — Esse problema exige uma solução e creio que isso pode ser resolvido com um acordo específico que conserte aquilo que todos acreditamos que deva ser consertado.

Outros nomes do Partido Republicano também se manifestaram contra as separações familiares, entre eles o senador Orrin Hatch, que coletou a assinatura de 11 colegas de bancada pedindo ao procurador-geral, Jeff Sessions, que interrompa a prática enquanto o Congresso trabalha numa maneira de acelerar as deportações de imigrantes ilegais. Pesquisas divulgadas na segunda-feira pela rede CNN e pela Quinnipiac University mostram que dois terços da população americana são contrários às separações familiares de imigrantes detidos na fronteira dos filhos menores.

HANDOUT / AFP 
Crianças migrantes que tentaram atravessar a fronteira para os EUA
 de forma irregular dormem em centro de processamento no Texas - 

A resposta mais intensa, no entanto, veio de quatro governadores que decidiram suspender o envio de soldados da Guarda Nacional às operações de patrulhamento de fronteira. Além de Colorado e Nova York, governados por democratas, Maryland e Massachusetts, comandados por republicanos, afirmaram que não enviarão soldados ou recursos enquanto as separações familiares continuarem.

“Esforços de aplicar a lei imigratória deveriam focar em criminosos, não em separar crianças inocentes de suas famílias”, afirmou o governador de Maryland, Larry Hogan, no Twitter.

Numa sessão a portas fechadas no Capitólio, Trump disse a parlamentares republicanos nesta terça-feira que a construção de um muro na fronteira e a busca de uma solução para as centenas de milhares de jovens indocumentados seriam “muito, muito bem” vistas eleitoralmente. No entanto, não indicou se apoiará alguma medida específica dentre dois projetos de lei sendo redigidos e discutidos na Câmara com estas finalidades.

— Eu não quero crianças sendo retiradas de seus pais. Mas quando tentamos processar os pais por virem para cá ilegalmente, algo deve ser feito, é preciso separar as crianças — afirmou, por sua vez, o presidente em um discurso para empresários.

Trump também comentou a abordagem de seus correligionários republicanos que tentam interromper as separações e criticou uma proposta do senador texano Ted Cruz, que propôs a contratação de novos juízes para os tribunais de imigração a fim de acelerar as ações imigratórias.

— Eles disseram: “Senhor, queremos contratar 5 mil ou 6 mil novos juízes” — afirmou empresários. — Vocês conseguem imaginar quanta propina estaria envolvida em algo assim?

JOE RAEDLE / AFP 
Manifestantes contra política de Trump se reúnem de frente 
a centros de detenção de migrantes - 

Sem dar o braço a torcer, Trump voltou a dizer que os dados que citou sobre a violência na Alemanha — que ele disse ter aumentado por causa da generosa política alemã de acolhida a imigrantes — são corretos. O governo alemão indicou que a violência no país diminuiu em 2017, com menos suspeitos imigrantes. Trump insistiu que a Alemanha mascara os verdadeiros números. A chanceler federal Angela Merkel respondeu que os números divulgados “falam por si mesmos”.

Críticas latino-americanas

Na frente internacional, as Chancelarias de México, Chile e Guatemala também condenaram as separações familiares, e as defensorias de México, Colômbia, Equador, Honduras e Guatemala fizeram um pedido conjunto para que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) interceda para que os EUA detenham a política.

“Esta postura do governo americano é desumana e representa um total desprezo pelos direitos das crianças e dos adolescentes migrantes”, disseram os cinco países em comunicado conjunto.