Adelson Elias Vasconcellos
Um dia antes da reunião da presidente Dilma com os “pibões” da economia, escrevi que, a reunião sem agenda propositiva seria perda de tempo. O que se viu foi os empresários cobrarem a mesma coisa de sempre – juros menores, carga tributária menor, investimentos públicos em infraestrutura, câmbio melhor – e ouvirem do governo o mesmo de sempre: promessas. Ninguém chegou para reunião com propostas concretas, com metas definidas do que fazer para superar as dificuldades que atualmente vivem as indústrias, fosse o governo ou os empresários.
A única coisa que mais ou menos se aproxima de uma medida prática foi a tal desoneração da folha de pagamento, ainda em gestação e com mais debates por fazer. De um lado, o governo se convenceu de que o 1,5% que fixou para as atividades que foram brindadas no ano passado precisará ser reduzida para 1,0% no próximo pacote de beneficiados ou privilegiados. Com 1,5% conforme vimos aqui, nem sempre acontecia a desejada redução de encargos. Os empresários deixavam de pagar a contribuição patronal de 20% sobre a folha de pagamento, e acabavam pagando um valor maior quando passaram a contribuir com 1,5% sobre o faturamento bruto. A única coisa que não ficou clara ainda, para mim ao menos, é por que não se aplica a medida para TODOS e se procura sempre privilegiar apenas algumas atividades.
Fora disso, foram promessas de um lado, reivindicações de outro, com saliva para cá e saliva para lá. Política industrial que é o que interessava, nada. Ou em outras palavras, reunião da saliva sem política.
Depois de 14 meses e meio, o governo Dilma continua praticando aquilo iniciado pelo seu antecessor: a política da saliva. Ora, há quanto tempo este processo de desindustrialização vem acontecendo no Brasil? Esta situação não é uma criação de hoje ou de ontem, ela vem sendo desenhada e construída há pelo menos 5 anos. Tendo toda uma estrutura de estatísticas e leituras do mercado, já era para este governo saber, de antemão, quais as causas que estão comprometendo a competitividade da indústria brasileira, e ter à mão medidas e propostas que pudessem atacar os pontos mais nevrálgicos para reduzir ao mínimo as aflições.
Ir para uma reunião com o alto escalão do empresariado, sem ter nada a oferecer, a não ser choramingar para que os empresários invistam mais, sejam mais inovadores? É apostar na saliva sem política.
Poderia a dona Dilma ter acenado, por exemplo, com o alargamento dos prazos de recolhimento de impostos, e isto já seria um bom caminho. No Brasil pagamos impostos antecipadamente, o que é um absurdo. Poderia, também, ter acenado com a simplificação fiscal, o que também sinalizaria a vontade política de, realmente, tocar nos pontos principais fazendo a parte que lhe cabe. Ainda, poderia a presidente Dilma ter apresentado uma minirreforma tributária que suavizasse a carga tributária que sufoca a atividade produtiva. Esta minirreforma poderia vir na forma de alargamento de prazos para recolhimento com a redução de algumas alíquotas, como IPI, PIS, COFINS que oneram a produção. Nada disso precisaria de longas e exaustivas negociações com o congresso em crise de relação instalada já há algumas semanas, mas demonstrariam claramente o real interesse do Governo em querer corrigir algumas distorções impostas por ele mesmo e que penalizam duramente a atividade produtiva, a industrial principalmente.
Querem outra medida ao alcance do Executivo e que poderia aliviar o excessivo Custo Brasil e beneficiaria muito a atividade industrial? Que tal o governo desonerar um pouco a tarifa de energia elétrica, hoje, a quarta mais cara do mundo?
Vejam, as sugestões acima são medidas simples, de benefício direto para as empresas, todas ao alcance do governo, que poderia já ter iniciado seu estudo sobre impactos na receita tributária da União tão logo Dilma Rousseff assumiu.
Porém, quatorze meses de governo e a presidente continua a apostar na política da saliva, sem ter para apresentar uma ideia mínima de medidas aos empresários.
Assim, se há pretensão de se fazer novas reuniões com empresariado, aconselha-se que os empresários só aceitem o convite se houver previamente uma agenda propositiva mínima e desde que o governo tenha algo de concreto para oferecer e apresentar. Do contrário, é melhor cada um cuidar de sua vida, lutando para manter suas empresas em pé. Porque, senhores, a saliva sem política chama-se enrolação. E é praticada por governos incompetentes sem um claro projeto a oferecer para o país, que é o que o governo Dilma está demonstrando.
Os aliados fiéis acham que vai tudo bem, a aprovação do governo segue em alta, etc, etc, etc. A situação de agora é um alerta do que virá mais adiante: enquanto os empresários ainda encontrarem meios de sobreviver tudo bem. Mas se nada for feito, logo, logo, quem começará a sofrer os prejuízos da saliva sem política serão os trabalhadores, com desemprego e queda de renda. Por mais que demore a bater na porta, ninguém colhe competência no jardim da omissão. Porque se alguém está em débito na relação empresas/governo é o governo que até agora não disse a que veio.
Como bem lembrou João Melão Neto em seu artigo para o jornal O Estado de São Paulo (alguns posts mais abaixo), o mandato da presidente já está entrando no outono. Para quem já está no poder há mais de 9 anos, e que nos dois mandatos de Lula era considerada a grande gerentona do governo, já era para Dilma Rousseff, ao assumir a presidência em 2011, ter clara noção dos principais problemas do país. Portanto, em seu segundo ano de mandato, já dava para ter algo a apresentar, ter ao menos adotado algumas medidas em favor da maior competitividade das indústrias brasileiras. Estas medidas, é bom lembrar, são de natureza estrutural, não serve esta mesmice de mais bolsa BNDES. E o que se vê são promessas sem prazo para se cumprir. Esperamos que cesse esta estratégia da saliva sem política.




