Adelson Elias Vasconcellos
Criou-se uma moda ruim no Brasil que é a de envolvidos em escândalos, acharem que lhes basta pedir demissão dos cargos que ocupam, para que os escândalos de corrupção logo sejam esquecidos e, claro, que as devidas punições sejam postas de lado.
Regra geral, a coisa até que tem funcionado. Raros são os servidores em qualquer escalão hierárquico que acabam punidos pelos esquemas de fraudes de que participam. Se o sujeito for político com assento em qualquer casa legislativa, ou mesmo um ministro de estado, a demissão pura e simples parece ter se convertido na máxima punitiva pelos erros e crimes cometidos.
Parte deste processo não se dá apenas pela máxima de que a memória nacional seja muita curta. Talvez, parte isto seja verdade. Passado os primeiros momentos, que podem durar semanas e alguns poucos meses da revelação inicial, tudo parece voltar ao normal. Mas, por outro lado, tornou-se rotina, também, um escândalo ser esquecido por outro escândalo. E é impressionante o números de esquemas fraudulentos cometidos com dinheiro público no Brasil na era petista. Por justiça, não foram eles que criaram a corrupção na vida política nacional, mas a institucionalizaram de tal forma que nãohá um único recanto da esfera pública que tenha lá seu esqueminha de desvios. E, com a maior cara de pau, dizem que fazem tudo pelo bem do país.
Logo no início desta edição, reproduzimos a primeira de uma série de reportagens do jornalista Lucio de Castro, da rede ESPN, batizadas de “Dossiê Volei” que mostram de que forma o dinheiro público do Banco do Brasil tem servido para outros fins que não financiar a boa prática esportiva. Parece que a praga da corrupção que infesta o futebol, ambiciona alastrar-se no segundo esporte mais popular do país.
São dirigentes de entidades que se aliam a maus gestores da coisa pública, para o enriquecimento criminoso.
O mesmo jornalista, por sinal, já havia produzido outra série revelando um esquema também corrupto em relação à construção do estádio do Maracanã e com estreita ligação, até hoje muito pouco esclarecida, envolvendo o estádio do Engenhão que continua interditado para “reformas em sua estrutura”. Sabe-se que o assunto, com muitos indícios da prática nefasta de conflito de interesses, acabou enterrado na impunidade inescrupulosa que tanto mal faz ao país. E Carlinhos Cachoeira, que fim levou? E a Construção Delta que voltou a ter contratos com o governo Sérgio Cabral?
Há como que uma escola informal para a montagem de esquemas de corrupção, com o fim único de desviar dinheiro público exclusivamente para atender interesses pessoais. Quanto mais os órgãos de fiscalização mexem, mais o chiqueiro de lama dá suas caras e exala seu mau cheiro. Contudo, lamenta-se que poucos responsáveis desta má cultura acabem julgados, condenados e presos. E, dos que vão presos, poucos cumprem a integralidade de suas penas, quando não “abençoados” por juízes e magistrados que “sentem” dó em punir os que, repetidamente, infringem as leis do país. É o caso do mensalão, em que uma quadrilha formada com o propósito de corromper as instituições democráticas, acabou “inocentada”, exatamente, pelo crime de formação quadrilha. É como se um monte de gente, apenas por geração espontânea resolvessem, sem mais nem porquê, assaltar os cofres e lavar dinheiro proveniente destes desvios para comprar parlamentares. A decisão fere qualquer bom senso.
Aliás, é uma insanidade o pensamento doentio de alguns de nossos juízes e magistrados. Criminosos, julgados e condenados dentro dos mais rigorosos princípios do estado de direito democrático, acabam como que “perdoados” por um sentimento de “pena em punir”. Isto foi dito, inclusive, durante alguns votos no julgamento do mensalão. Outro caso bem recente, e bem característico desta prática nefasta, é o chefe da facção PCC, vulgo Marcola que, mesmo diante de provas incontestáveis de sua participação na montagem de um esquema que visava retirá-lo da cadeia, encontrou num juiz a doce e cândida decisão de não transferi-lo para um regime diferenciado. Menos mal que, diante da reação imediata de muitos setores da sociedade, o Tribunal de Justiça revogou a decisão magnânima daquele magistrado, e transferiu Marcola para o tal regime diferenciado.
Creio que passa da hora do Poder Judiciário, como um todo, assumir uma posição mais firme contra a impunidade que varre o país de norte a sul. O grau crescente de criminalidade e práticas de corrupção atingiu níveis alarmantes. Se o próprio STF se reveste, de forma arbitrária, para mudar o texto constitucional, dando outra leitura como no caso do casamento de homoafetivos, por que outros juízes não podem colocar seus corações moles de lado e punir com rigor os inúmeros crimes hediondos que são praticados quase diariamente Brasil afora?
Não se pode condescender, em hipótese alguma, com esquemas de desvios de dinheiro público. A reportagem de domingo do programa Fantástico, sobre o estado miserável de escolas públicas em estados do Nordeste, deveria provocar demissão em massa dos responsáveis pela educação nestes estados e municípios. Da mesma forma, deveria provocar imediata ação do próprio MEC, já que ele repassa boas doses de verba pública para estes estados e municípios. Porém, dificilmente, se perceberá medidas não mais do que paliativas, de pura perfumaria, e que não terão como meta dar dignidade à educação daquelas crianças que o programa exibiu (clique aqui para assistir a reportagem).
Não só a educação sofre com o desvio inconsequente de verbas públicas. Muitas são as reportagens exibindo o quadro pavoroso da rede pública de saúde. Não é a importação de médicos que resolverá de vez a falta de estrutura que se observa na maioria dos hospitais e postos de atendimento. A falta de médicos é apenas um sintoma e não a causa do estado deteriorado da saúde no país. Até hoje, o governo petista tem se negado, terminantemente, em criar uma carreira pública para os profissionais de medicina. O Programa Mais Médicos, da forma como foi proposto, não passa de mero adiamento de um problema maior. Até porque, muitos destes profissionais contratados o foram por tempo determinado. O tempo em que prestarão serviços não será suficiente para o Brasil formar a quantidade necessária de profissionais para prover a rede pública de um quantitativo razoável capaz de atender, com um mínimo de dignidade, a população pobre do país.
Assim, constatarmos que a verba do Banco do Brasil, destinada ao vôlei, está sendo usada para outros fins, todos reprováveis, no fundo, não chega a surpreender. Trata-se de mais um caso dentre as centenas que se repetem, provocando prejuízos de bilhões de reais que estão faltando para o benefício coletivo nas áreas de educação, saúde, segurança, saneamento, transporte público, estradas, portos e aeroportos.
Como também não se estranha nenhum um pouco a esdrúxula declaração do governador do Amazonas, quando da inauguração do estádio que receberá, em Manaus, apenas quatro jogos da Copa do Mundo, ao preço fantástico de R$ 600 milhões. Primeiro, ninguém delegou coisa alguma aquele estado. Ele, juntamente com todas as demais unidades da federação, é que se ofereceu para ser uma das sedes. Segundo, o dinheiro não saiu dos cofres do governo estadual, e sim, das arcas profanas do velho BNDES, que já deveria ter abandonado o seu “s” final porque há muito deixou de ser “social”. Terceiro, que o estádio avançou tanto no cronograma quanto no orçamento inicial. Quarto, não existe um plano B de utilização daquela “arena” milionária. Quinto, o dinheiro gasto tanto com o estádio quanto com as não menos milionárias instalações provisórias, beneficiarão a poucos, quando o legado deveria ser à população em geral.
Há uma total inversão de valores e prioridades que está sendo levada adiante no Brasil. Há muita pobreza para ser combatida, muita desigualdade para ser enfrentada, muita de carência de serviços básicos essenciais para ser enfrentada. Não podemos teimar e insistir em ignorar que não temos pobreza, miséria, desigualdade, carência de serviços básicos e uma péssima formação escolar de nossas crianças, sob pena e risco de nos atrasarmos ainda mais em nosso desenvolvimento humano.
Todos os indicadores estão aí para provar o quanto estamos andando para trás, o universo imenso de desafios que precisamos enfrentar no curto e médio prazos. Não nos faltam recursos para tanto. Falta-nos, de um lado, determinação da classe política, e de outro, firmeza do Poder Judiciário em punir com rigor as inúmeras quadrilhas, mesmo que não lhes reconheça tal qualificação, de corruptos que se apropriam de dinheiro público para seu benefício exclusivamente pessoal.
Enquanto a escala de prioridade seguir em oposição às necessidades do país, e centenas de corruptos estiverem livres, leves soltos e abençoados pela Justiça, não temos a menor chance de avançarmos como sociedade justa, livre e democrática. Porque um cidadão só é livre quando pode escolher seu próprio destino diante das oportunidades que a vida lhe oferece. Quais as chances disto acontecer com gente que se acomoda apenas com a esmola do paternalismo estatal? A sociedade em que se abriga este cidadão só é justa quando trata a todos de forma equânime, e não considerando uns mais do que outros. E só é democrática quando abriga em seu seio cidadãos livres e iguais perante as regras que esta sociedade criou para si dentro de princípios civilizados.
Que haja desigualdade na repartição de riquezas é até admissível, já que uns fazem mais do que outros. É uma utopia estúpida pretender que a riqueza seja igual para todos. Mesmo que isto fosse possível em determinado momento, bastariam poucas horas para que uns tivessem mais do que outros.
Contudo, a riqueza que esta sociedade produz e entrega ao Estado para este gerir os bens públicos, é que deve atender a este apelo de igualdade. No Brasil, o que vemos, é um Estado apropriando-se, cada vez com maior ímpeto, da riqueza que a sociedade produz, oferecendo, em troca, muito pouco. E esta equação precisa ser modificada para o bem de todos, e não apenas de alguns.
Portanto, a conclusão a que podemos chegar é esta: o Judiciário brasileiro tem medo de punir, dentro do rigor da lei, aqueles que a infringem. A sociedade chora suas vítimas, mas acha que punir não basta. E a classe política, como manada sem rumo, não acha a direção para resgatar a ordem pública, por medo de ser tachada de repressora, guardando em si os ressentimentos que o regime da ditadura militar deixou como rescaldo. E, nesta festa, a bandidagem, feliz como pinto no lixo, vai se esbaldando sem medo de ser punida. Todos nós, enfim, balançamos, de um modo ou de outro, o berço da criminalidade. E o pior dos exemplos desta conduta também criminosa, infelizmente, se observa no seio do próprio governo da senhora Rousseff. Convido o leitor à leitura do artigo postado mais abaixo, do jornalista Rui Fabiano, sob o título “No olho do furacão”. Vejam lá a descrição da conduta delinquente de ninguém menos do que o secretário da Presidência da República, como que insuflando a uma desobediência civil. É patético!
Mas, se alguém tem a incumbência legal de colocar este trem da segurança pública nos trilhos, sem dúvida, que este papel cabe ao Estado a tarefa principal. E, dentre as instituições abrigadas sob seu guarda chuva estão o Poder Judiciário que deve perder o medo de punir, e os governos, federal e estaduais, sem medo de reprimir. Haverá choro e ranger de dentes, barulho e levantes contra o cumprimento do dever constitucional das duas instituições. Se o povo não poder de influir na escolha dos juízes que habitam os diferentes tribunais do país, tem ao menos a poderosa arma do voto para colocar no poder gente mais comprometida com interesse público, dentre eles a segurança.
Quem sai na chuva, ou se abriga do aguaceiro, ou o melhor que faz é não sair. Governar, em qualquer nível, deve focar a busca constante de resultados positivos para a coletividade. E a coletividade brasileira, vítima maior da criminalidade sem freios, agradeceria muito se governos e o Poder Judiciário assumissem, de modo efetivo, o papel de resguardar a segurança de todos, conforme determina a constituição, e não olhar apenas para os “direitos” dos bandidos e tratá-los por “coitadinhos”. Eles , além de tudo, também matam!!!

