terça-feira, novembro 05, 2013

Nosso inimigo dorme em Brasília, não em Washington

Adelson Elias Vasconcellos

Nosso inimigo, fica visto, mora aqui dentro das nossas fronteiras. E ele dorme em Brasília.


Quando veio a público as denúncias sobre espionagem, praticadas pelas agências de inteligência americanas, no governo brasileiro e na Petrobrás, sei que fui contra a corrente. Afirmei, está registrado, é só conferir, que a denúncia não tinha a força de dar veracidade ao fato. Várias vezes voltei ao site do Fantástico, da Rede Globo, e revi as reportagens e, muito embora tentasse vislumbrar uma nesguinha que fosse sobre a ação bisbilhoteira, confesso que não mudei a primeira impressão. Continuo afirmando que, nas reportagens, o que se viu foram montagens em quadros que qualquer amador em computação é capaz de fazer. Não há uma única transcrição de conversas telefônicas que tenham sido interceptadas da presidente Dilma, como há uma única informação sobre a Petrobrás e suas estratégias.  

O que há são roteiros de “como espionar” e não fatos e conversas espionadas.  E mantenho a posição inicial: as tais denúncias vazadas por Snowden cheiram muito mais a uma vindita pessoal, fruto de algum ressentimento proveniente de alguma história mal terminada.

Disse, ainda, que o governo até estava em seu papel em recriminar os americanos, porém, tal condenação deveria ater-se aos meios diplomáticos, nada do tipo desafiador, ou pior, cancelar uma visita de Estado. 

Complementei aqueles comentários dizendo que o governo brasileiro tem e mantém uma agência de inteligência,. a ABIN, que exerce igual função que a NSA americana, e que nossas embaixadas, principalmente, nas Américas do Sul e Central, ao seu modo, também exerciam o papel de bisbilhoteiros. 

Semanas se seguiram e o que se viu foi que a mesma NSA, também, teria espionado outros países além do Brasil. Isto serviu para por as coisas nos seus devidos lugares: não éramos melhores do que ninguém. Claro que isto contribuir exacerbado para reduzir um pouco o ego dos nossos “patriotas”. Porém, o mesmo discurso estúpido permanece solto no ar.  E não será com resoluções na ONU que o problema será contornado. Não mesmo! 

E, ainda que se crie qualquer norma internacional que ponha freios à espionagem, tão certo quanto dois mais dois são quatro, é que ela continuará sendo exercida, porque ela faz parte dos costumes da humanidade desde tempos remotos.

Hoje, reportagem da Folha de São Paulo, surpreendeu o mundo nacionalista. Também o Brasil, e durante o governo petista, andou dando suas xeretadas em governos estrangeiros. Informação que acabou confirmada pela própria ABIN que, por outro lado, se mostrou indignada com o vazamento da ação bisbilhoteira. 

Bem, creio que isto põe um ponto final nesta teatralidade protagonizada por dona Dilma e sua trupe. Como condenar nos outros ações que também nós, brasileiros, cometemos? Constrangedor, é o mínimo que se pode dizer. 

Aliás, o país ainda fervilhava sobre os ecos das manifestações de rua. Dilma caia abruptamente nas pesquisas. E, em agosto, começavam a pipocar no noticiário os maus resultados da economia interna. Assim, arranjar um  inimigo externo era oportuníssimo. 

Deste modo, voltamos ao ponto inicial: se todos espionam todos, o que se espera dos governos é maior precaução e proteção, seja em seus sistemas de defesa cibernéticos, seja no monitoramento em tempo real para que este tipo de informação não vaze para o ambiente externo. Acho que estamos entendidos neste ponto. Em relação ao Brasil, o único inimigo que pode nos afetar são governos medíocres aqui dentro mesmo  que, ao invés de assumir suas deficiências, tentam trans ferir a terceiros suas próprias culpas e responsabilidades. Nosso inimigo, fica visto, mora aqui dentro das nossas fronteiras. E ele dorme em Brasília.

Recorde de violência
O Brasil, se não tomar cuidado, e nossas autoridades continuarem omissas, logo se transformará no maior campo de batalha da História. Reportagens transcritas nesta edição, da Exame.com e do jornal O Globo, mostram que, ale de já termos alcançado a impressionante marca de 50.000 homicídios por ano, o número de estupros conseguiu ser maior: são mais de 52 mil/ano.  Nem juntando todas as guerras em curso no planeta, se mata tanto quanto no Brasil, considerado por muitos como um país “pacífico”.  

O tema rende mais do que breves comentários. Mas os números do 7º Anuário Brasileiro de Segurança Pública  não deixam margem à dúvida, afinal são números oficiais: o estado brasileiro onde se mata menos permanece sendo São Paulo, onde, por coincidência, é onde também se tem o maior número de presos por 100 mil habitantes e, também,  onde mais se investe em segurança.   

Já a Bahia, sob o comando petista há quase sete anos, é onde os números da violência mais impressionam, negativamente. Naquele estado é onde menos se prende, e onde mais se mata. 

Pode ser coincidência, mas creio que manter bandido preso é ainda o melhor caminho para se ter alguma segurança no país. Infelizmente, tanto nosso judiciário, a parte do Estado brasileiro contaminada pelo pensamento obtuso das esquerdas, parecem ir na direção contrária. Acham que bandido pode ser paparicado, acariciado e que, num sopro divino, eles se corrigirão sem precisar ir para a cadeia. Tornar-se-ão cordeirinhos num passe de mágica. Porém, tal ocorre só no mundo da fantasia.  No mundo real, e as  estatísticas estão aí  para comprovar, a coisa  acontece de maneira diferente. 

O que esperam as autoridades que aconteça para tomarem a si maior responsabilidade em relação à segurança pública?  Porque aqueles milagres todos prometidos por Lula, Tarso Genro, Dilma Rousseff, José Eduardo Cardoso, dentre outros menos importantes, estão longe de acontecer. Pelo contrário: quanto maior o milagre que prometem, mais violento se torna o país, mais brasileiros morrem todos os dias. Aqui, a pena de morte existe e é apenas para as vítimas.  

O hipócrita que chamou bolsa de esmola foi...LULA! E está gravado!!!

Adelson Elias Vasconcellos

 Uma das coisas mais chatas quando se comenta qualquer coisa sobre política, e especialmente política brasileira, é sermos obrigados a chamar uma autoridade pública de mentirosa e farsante. É chato porque nossa classe política já tem um conceito tão ruim perante a sociedade, sua reputação anda tão abaixo da crítica, que precisar, porque os fatos assim impõem, ter de vir a público desmascarar uma autoridade pública, mostrando o tamanho de sua mentira, chega a ser constrangedor.

Estou me referindo especificamente ao  ex-presidente Lula e sua da atual presidente, senhora Dilma Rousseff.  

Ambos encenaram algo lamentável.  É incrível a capacidade destas duas personagens da vida pública para distorcer fatos e contar lorotas. Houve um tempo que até me indignava com tamanha falta de compromisso com a verdade, e não verdade qualquer, mas episódios concretos, consagrados, e de conhecimento amplo das pessoas.

Encenaram uma peça de ficção na comemoração dos 10 anos do Bolsa Família. Começo pela desfaçatez, até para não ir mais longe, da senhora presidente que, com a cara mais deslavada do mundo afirmou, sem mais nem porque, que não DNA tucano na criação  do Bolsa Família. Alguém precisa ou emprestar uns óculos para senhora dona presidente, ou estender-lhe uma cópia da Medida Provisória assinada por Lula e que originou na criação do Bolsa Família.  Acho que isto seria suficiente para uma senhora, já avó, passando dos 60 anos, criar vergonha na cara e parar de mentir  para o povo e para si mesma. 

Contudo, no presente, chego a achar engraçado deste desespero todo em assumir a paternidade de um programa social que teve origem no Comunidade Solidária, criada pela então esposa do presidente FHC, dona Ruth Cardoso, já falecida. Aliás, o Comunidade Solidária foi o nascedouro de um  leque de 12 programas sociais, cinco dos quais foram englobados sob a bandeira do Bolsa Família. Basta ler, sem má fé e sem preguiça, a Medida Provisória e ponto final.  Como é constrangedor termos que assistir uma presidente da república mentir com tamanho despudor…

Inclusive, seria de se desafiar a dona Dilma a fazer em público a leitura da  MP, se ela tivesse um mínimo de apego à verdade. Mas, por certo, ela não faria, arranjaria uma desculpa qualquer para não se desmoralizar.
Quanto ao discurso do valentão Lula, teve de tudo, até a tentativa canalha de reescrever a história. Lula adora exibir números de seu governo comparando-os com os do governo FHC. 

Já disse várias vezes que Lula usa uma trucagem muito cretina. A comparação distorce os fatos. A melhor comparação a ser feita seria ver o governo que FHC recebeu de Itamar Franco com o que ele entregou para Lula. Reside aí a grande diferença entre ambos. Na economia, tanto quanto  no social, o governo Lula é uma cópia melhorada do governo FHC. Nada muito além disto. 

Era para o ex falar sobre o Bolsa Família, mas ele se valeu do momento para atacar Marina Silva que, aliás, por enquanto, nem candidata é à sucessão de Dilma. E por que o ex se expôs ao ridículo? Simplesmente porque as pesquisas apontam a ex-senadora como a mais forte candidata (ou pré-candidata) na corrida presidencial. Então dê-lhe marreta, dê-lhe impropérios, dê-lhe desqualificação. Lula, tivesse caráter e escrúpulos, não faria tamanho papelão em público. Mas, neste caso, não seria quem é...

Aliás, tivesse caráter e escrúpulos, teria se recusado em ser homenageado pelo Congresso pelo 25 anos da promulgação da Constituição, que ele renegou e só permitiu assinar, ele e seus companheiros do PT, sob “ressalvas”. 

A certa altura da tal solenidade palanqueira, Lula lembrou-se que ali o foco era o Bolsa Família e seus 10 anos de existência. E, para não variar, esqueceu como ele próprio qualificava os programas sociais antes de virar presidente, e discorreu uma ladainha estúpida e mentirosa. 

Para que a gente possa medir o discurso de agora, com o de antes,  assistam o vídeo abaixo. Em seguida, complemento.     


Eis aí. Por que posições tão divergentes? Porque Lula, quer porque quer ser considerado o Pai dos Pobres, quer ser o gênio da criação, aquele que fez a luz e fez nascer o maior programa social do planeta. A ele, pouco importa a coerência. Quanto mais repetir as mentiras que conta mais entende que acabará convencendo o público de que as mentiras são, no fundo, pura expressão da verdade. Sabemos bem qual é esta tática que, aliás, nem nova é, vem do tempo do nazismo. 

Assim, mesmo que outro tenha criado os programas que ele, mais tarde, reuniu em um, sob outro rótulo e nome, ele quer a primazia e todos os créditos. Já provamos aqui que foi a partir do leque de programas sociais criados pelo Comunidade Solidária, que os indicadores passaram a ter vertiginosa melhora. É só alguém pegar as estatísticas do IBGE e observar que a curva começa a sofrer uma brutal melhora somente a partir de 1995. Em 2003, claro, os indicadores continuaram melhorando como vem acontecendo até hoje. Afinal, os programas, mesmo que reunidos em apenas um, continuam provocando melhoria na qualidade de vida das pessoas, como desnutrição infantil, mortalidades materna e infantil, trabalho escravo infantil. No campo da educação, foi a partir do Bolsa Escola, que obrigava os beneficiários a matricularem e manterem frequência de sues filhos nas escolas, que o ensino  fundamental universalizou-se. Nada disto é novidade. São fatos medidos e comprovados. E, nem por isso, Lula abandona o velho de mentir e tentar  cumprimentar o povo com o chapéu alheio. 

Infelizmente, boa parte da intelectualidade e imprensa brasileiras cai neste abismo de mistificações criado por Lula e não o confronta com ele mesmo. Da mesma forma, acontece com Dilma Rousseff. 

Enquanto este pensamento tosco e avesso à verdade se mantiver sem ser contradito com veemência, enquanto Lula e Dilma forem poupados de si mesmos, e a eles forem apregoadas conquistas que pertencem a outrem, contra quem aliás se contrapuseram com absoluta estridência, eles não tem autoridade moral para falar em Comissão da Verdade. Uma comissão que quisesse de fato saber e conhecer a verdadeira história do país, jamais poderia nascer de dois contumazes e compulsivos mentirosos. Não é a toa que, hoje, tem celebridade fazendo ferrenha defesa da censura prévia no país. Não é a toa que o Legislativo se transformou em uma pocilga, verdadeira confraria de salafrários e pervertidos. Como, ainda, não é a toa que o país vive uma baderna sem fim, com a violência se estendendo por todos os rincões, sem que o poder público demonstre um mínimo em coibir e reduzi-la à menor expressão possível. 

Todos estes agitadores e bandidos do quebra-pau não passam de meros capachos dos donos do poder. Enquanto a baderna corre solta, ele se recolhem, em seus palacetes para se locupletarem. E é assim que vamos andando para trás, como nação, porque cindida em vários guetos, e como civilização, porque abraçamos a barbárie e selvageria como valores da democracia.   

Quanto a chamar de hipócritas quem chama o bolsa família de “esmola”, há que se colocar algumas considerações. Quem é que chama de esmola? Largar de forma irresponsável e leviana uma acusação vazia dá bem o tom da pobreza de espírito do ex. Além do mais, quem, em plena campanha de 2002, chamou de “esmola” e que as bolsas deixam o pobre vagabundo, como se vê no vídeo acima, foi o próprio Lula. Ora quem é o hipócrita meu senhor? Quem é o falsário? Quem é leviano e falta com a verdade? Quem é que nunca reconheceu os méritos dos adversários e tentou durante anos sabotar todos os governos democráticos que o antecederam? 

Como seria bom para o país e salutar para a democracia se a imprensa e intelectuais em massa, se dedicassem a desconstruir as impostura deste senhor. Além de repor a verdade no seu devido lugar e no lixo as mentiras que este cidadão não se farta de esparramar, serviria como um norte moral para o Brasil e os brasileiros recobrarem o bom senso, o respeito às leis, a devida consideração a boa moral da qual o país tanto sente falta.   

Portanto, o hipócrita que veio a público chamar as bolsas de esmola foi o senhor Lula que, hoje, de forma cínica e inescrupulosa, tenta colar seus erros nos outros.   

Quanto às críticas que são feitas ao Bolsa Família, que é o fato de não oferecer portas de saída do paternalismo estatal, não tem o dom de desqualificar o programa em si. Um exemplo do quanto faltam tais portas, e para os quais o governo petista não tem demonstrado o menor interesse em criá-las, é o fato de que, dez anos depois de sua criação, o programa mantém pessoas com igual tempo de gozo do benefício. E isto, sim, demonstra que o uso do programa tem sido puramente eleitoreiro. Tem sido usado como moeda de troca na compra de consciências. 

As críticas, portanto, não tem a pretensão de acabar com o programa. Buscam, antes de mais nada, alertar o governo que um programa para ser social precisa ter começo, meio e fim. Até aqui, o Bolsa Família tem mantido o pobre menos miserável. Imaginar que, com R$ 70,00 mensais, alguém saia da miséria, é não conhecer o que vem a ser miséria. Para ser social, o programa precisa servir de trampolim para o cidadão deixar de ser beneficiário. Portanto, o programa estaria se realizando como social, se ao invés de multiplicar seus beneficiários como vem acontecendo desde sua criação, pudéssemos perceber redução deste número, o que significaria que mais pessoas conseguiram superar o degrau mais ínfimo da escola sócio-econômica. 

Da forma como vem sendo conduzido, é inegável que o programa tem se convertido como uma forma de perenização da pobreza. O sujeito nem é miserável, mas também não deixa de ser pobre. Por quê? Porque o programa não estende escada de acesso para esta emancipação.  Nas críticas, Lula deveria ver o interesse de que o programa se aperfeiçoe, se complemente, se torne, efetivamente, um programa social, e não um auxílio assistencialista com propósitos exclusivamente eleitoreiros. E não é no berro  que Lula vai calar alguém. 

A mãe do PAQ

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

O Brasil vive um programa de aceleração da queda. Só quem vê crescimento é a mãe coruja.

A troca do C pelo Q não é erro de revisão. O Brasil um Programa de Aceleração da Queda (PAQ). Só quem vê “crescimento” é a mãe coruja, Dilma Rousseff, o pai, Lula, e o padrinho, Mantega. O objetivo não é afogar o leitor em números e percentagens. Bilhões são um conceito tão remoto para nós quando a moda ridícula dos desfiles “fashion”.   

Mas alguns valores e siglas precisam ser exibidos porque em alguns momentos, porque em algum momento quem pagará o pato é você – ou alguém duvida que a família do PAQ terá ainda mais fome de arrecadação em ano eleitoral?   Para cobrir o rombo da saia, todos os impostos – como o IPTU, para citar apenas um – terão de ser aumentados acima da inflação da inflação. E outros, como a CPMF, serão relançados sob outro nome, para disfarçar o assalto. Aguentem os  próximos parágrafos. Eles justificam os temores de quem sabe a diferença entre crescimento e queda.

As contas públicas  - e isso engloba União, Estados, municípios e estatais -  tiveram um déficit de R$ 9, 048 bilhões em setembro.O pior resultado em 12 anos, desde 2001. O governo diz que é um resultado “sazonal”, por causa da antecipação do 13º, do aumento do salário em 9%, da redução das receitas e da alta dos juros.  Mas todo ano tem setembro e dezembro. Não se inventou ainda o ano de dez meses.

Como explicar o enorme déficit no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) num país que comemora a queda no desemprego? Ele deve fechar o ano com menos R$ 7,2 bilhões, o pior resultado desde que foi criado, em 1990.  Qual será a solução? O governo exigirá curso de reciclagem a quem quiser sacar o seguro-desemprego. Toma!

Pagamos menos de conta de luz? A redução carinhosa deu um curto-circuito nas contas públicas. A luz mais barata resultou em R$ 2,0 bilhões a menos nas receitas do Tesouro no mês de setembro. Alguém acha que o Tesouro ficará assim,  mais pobrezinho?  O populismo é uma doença autoimune e destrói as defesas do organismo. Ou alguém acha que as autoridades de São Paulo assumirão a caridade com passagens de ônibus?  O IPTU existe para que, não é? É o mesmo princípio  dos deputados e senadores, que praticam nepotismo cruzado para driblar a proibição de empregar parentes próximos. Os governos, quando acuados, praticam bondades com nosso dinheiro futuro, Já viu contribuinte ganhar alguma coisa na conta final? Toma!

O déficit de R$ 9 bilhões está maquiado pelo desempenho positivo nos Estados e municípios, que tiveram superávit. Se levarmos em conta só as despesas do governo federal com  pessoal, programas, sociais, custos de administração e investimentos, o rombo é maior. Faltaram R$ 10,5 bilhões  no caixa do Tesouro no mês de setembro. O pior resultado desde 1997. O superávit acumulado  no ano até setembro é de R$ 27,9. No mesmo período do ano passado, foi de R$ 54,8 bilhões. Há metas fiscais para 2013, o governo promete cumprir. Nos últimos quatro anos, a meta foi descumprida três vezes.

Não se amofine, o Brasil está no caminho certo em direção à “neutralidade”, segundo o Banco Central. Como se alguém pudesse ser neutro na história. Essas queixas todas não passam de papo da oposição. O importante é que existem o PAC e a intenção governamental legítima de investir em infraestrutura. É mesmo? O que se investiu nos últimos dois anos em infraestrutura foi pífio. Pouco mais de 2% do PIB. Não se pode culpar só a mãe pela magreza do filho. A família do PAC não se entende sobre coisas básicas, como o menu do almoço, as compras no mercado – ou se o setor privado será convidado. 

Podemos achar difícil entender por que o país derrapa tanto na gestão de recursos. É fácil entender que, ao lado da ineficiência, existe a contribuição de ladrões travestidos de fiscais e de políticos. Imaginar que R$ 500 milhões, ou meio bilhão de reais, deixaram de entrar nos cofres públicos exatamente por quem deveria, na prefeitura de São Paulo, fiscalizar as contas e a liberação de grandes empreendimentos... é muito. E foi gente de confiança do ex-prefeito Gilberto Kassab. Eles enriqueceram com propina e fraude.  Alguns prosseguiram na prefeitura de Fernando Haddad.

São Black Blocs de terno, gravata e colarinho-branco, que depredam na surdina o patrimônio públicos e agem sem pudor em todas as esferas governamentais, com o único intuito de surrupiar a grana do povo, comprar coberturas de alto luxo e Porsches. Esse pessoal precisa tirar a máscara e ser preso. 

Saca essa nova ação integrada das Secretarias de Segurança, com o ministro da Justiça, para investigar e impedir agressões e vandalismo nas ruas? Pois é, também saíram de controle os abusos de autoridades e políticos. Eles arrombam cofres, depredam nossa autoestima e vandalizam nossa economia.    

O neoliberal Bolsa Família

Suely Caldas  
O Estado de S.Paulo

A História se encarrega de juntar ideias e fatos, fazer justiça, costurar acontecimentos e narrar os fatos reais que a política tentou embaralhar, falsear e, por vezes, negar. Só que as duas - a História e a política - protagonizam tempos diferentes. Porque trabalha com o momento presente, a política não tem compromisso com a verdade e se aproveita do mais oportunista apelo do momento. A História trabalha com tempo mais longo, seu papel é recolocar em seus lugares ideias e fatos que a política falseou no passado e contar como se passou a verdade.

Entre o que o Partido dos Trabalhadores (PT) pregou antes e praticou depois que assumiu o poder, passou pouco mais de uma década. Tempo curto, do ponto de vista da História, mas a metamorfose foi tão rápida, flagrante e abrupta que precipitou a percepção da verdade.

O fato mais conhecido desse enredo foi a súbita apropriação da política macroeconômica de Fernando Henrique Cardoso (excomungada e rotulada pelo PT de neoliberal) pelo ex-presidente Lula desde o primeiro dia de seu governo, em 2003. Mas há outros, e vou tratar aqui de três: a privatização, a autonomia do Banco Central (BC) e o programa Bolsa Família. Os três foram gerados em ventres liberais, experimentados e aprovados mundo afora e viraram políticas universais de Estado em países democráticos.

Começando pelo programa Bolsa Família, que acaba de completar dez anos e foi comemorado pelo PT, por Lula e Dilma Rousseff com festa eleitoral. Quem ouve Lula falar imagina que partiram de sua cabeça a concepção e a criação do programa. E com a sua marca: nunca antes experimentado no mundo. O senador petista Eduardo Suplicy conhece e poderia contar ao amigo Lula sobre sua origem e autoria.

Nada nasce de um dia para o outro. A ideia de criar programas de transferência de renda nasceu nos anos 1960/1970 e seu autor foi o economista norte-americano Milton Friedman, o mais talentoso formulador do liberalismo econômico do século passado, criador da teoria monetarista e responsável pelo ideário liberal dos Chicago Boys - referência pejorativa da esquerda da época aos alunos seguidores de Friedman na Universidade de Chicago, onde ele lecionou por 30 anos. A partir dos anos 80, o Banco Mundial passou a recomendar programas de transferência de renda aos países pobres e em desenvolvimento, entre eles o Brasil.

Por aqui, os conselhos do Banco Mundial foram rechaçados pela esquerda (inclusive o PT), tratados como maldição. "Não se combate pobreza com esmola", indignavam-se os petistas. Contra essa maré sempre remou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que desde os anos 80 defendia um programa de renda mínima universal - pobres e não pobres - e citava o liberal Milton Friedman em seus argumentos. Coerente, Suplicy apresentou o projeto ao Senado em 1991, que foi sancionado por Lula em 2004, mas nunca executado. Também em 1991 o economista da PUC-Rio José Marcio Camargo escreveu o texto Pobreza e garantia de renda mínima, apoiando o projeto de Suplicy, mas fechando o foco só nos mais pobres e acrescentando duas sugestões: excluir os idosos e restringir o acesso às famílias com crianças matriculadas na escola.

A ideia foi ganhando forma no início dos anos 90, em discussões de um grupo de economistas do Rio de Janeiro, entre eles Ricardo Paes de Barros, André Urani, Edward Amadeo e Ricardo Henriques (que no governo Lula ajudou a formatar o cadastro único), além de Camargo. Curiosamente, coube a um tucano (o prefeito de Campinas José Roberto Magalhães Teixeira) e a um petista (o governador de Brasília Cristovam Buarque, hoje no PDT) a primeira iniciativa - em 1995 - de criar um programa de transferência de renda no Brasil, que recebeu o nome de Bolsa Escola.

Em alcance nacional, foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quem primeiro implantou o programa - também com o nome de Bolsa Escola -, em 1998, focalizando nos mais pobres e criando duas exigências para as famílias terem acesso: comprovada frequência na escola e carteira de vacinação atualizada da criança. Na época, o PT foi contra e chamava o programa de "Bolsa Esmola". Em sua gestão, FHC também criou outros programas sociais, entre eles o Vale Gás e o Bolsa Alimentação.

O mérito de Lula foi unificar cadastros e concentrar todos os programas sociais de FHC em um único, que chamou de Bolsa Família. Lula e o PT não criaram nada e ainda abandonaram o Fome Zero - que conceberam para concorrer com o Bolsa Escola - e se apropriaram do programa que combateram em 1998. O mérito maior de Lula, no entanto, foi apostar no êxito do Bolsa Família como meio para reduzir a pobreza. Nos últimos dez anos, o número de famílias beneficiadas mais do que dobrou, saltando de 5 milhões, do fim do mandato de FHC, para 13,8 milhões, atualmente. E ajudou muito a tirar milhões de brasileiros da extrema pobreza e outros milhões a ascenderem à classe média.

Ao criar agora o Brasil sem Miséria, a meta de Dilma Rousseff é erradicar a miséria no País. A mesma meta que tinha o ultraliberal Milton Friedman quando concebeu os programas de transferência de renda há cinco décadas. É assim a História.

Privatização e BC. 
Diferentemente do Bolsa Família, a adesão de Lula, Dilma e do PT à privatização e à autonomia do Banco Central é envergonhada e incompleta. Menos ideológico do que Dilma, Lula respeitou o acordo feito com Henrique Meirelles e lhe deu autonomia de decisão no BC em seus oito anos de gestão. Mas na semana passada fez coro ao PT manifestando-se contra a autonomia em lei - ou porque não quer abrir mão do poder ou porque imagina usar isso como bandeira eleitoral.

Mais concentradora e ideológica, Dilma deu sucessivas mostras de que não pretende abrir mão da palavra final em política monetária. E, além de não ajudar, exagerando nos gastos (o déficit fiscal de setembro ultrapassou R$ 10 bilhões), deixa para a direção do Banco Central a solitária e inglória tarefa de controlar a inflação sem liberdade para manejar suas armas.

Quanto à privatização, os dois resistiram o quanto puderam. Lula por oportunismo político-eleitoral, Dilma por convicção ideológica. Mas ela foi obrigada a recuar por motivo simples e pragmático: precisa do capital privado para estimular crescimento e desenvolvimento.

Uma e outra coisa

Mary Zaidan
Blog Noblat

O deputado José Genoíno (SP) ainda presidia o PT quando lançou a pérola – “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” – para tentar explicar as inexplicáveis tramoias do mensalão.

Anos mais tarde o STF condenou petistas ilustres, incluindo o próprio Genoíno, demonstrando que, ao contrário do que o parlamentar dizia, aquela coisa era a mesma coisa. Ou coisa pior. Ainda assim, a frase continua fazendo sucesso.

Na sexta-feira, foi usada pelo ministro Alexandre Padilha para reduzir o impacto da reprovação de estrangeiros do Mais Médicos no Revalida. "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”, repetiu.

E oficializou o médico de segunda classe, que, como a jabuticaba e a tomada elétrica da ABNT, só existe no Brasil. “Os médicos do Mais Médicos estão aqui para cuidar da atenção básica; o Revalida é para quem quer operar, quem quer fazer procedimentos de alta complexidade".

 Foto: Wilson Dias / Abr
Alexandre Padilha, Ministro da Saúde. 

No mesmo dia, questionada sobre o imbróglio da disputa estadual na Bahia, onde o aliado Geddel Lima (PMDB) tende a se unir aos tucanos, a presidente Dilma Rousseff lançou mão de uma variante do dito, aplicando sobre ele a sua linguagem, raciocínio e lógica ímpares: "O que vale é a política nacional e a política de alianças nacional. Se houver problemas que podem interferir na aliança nacional, ele vai ser tratado como uma questão nacional. O que é regional tem de ser resolvido regionalmente".

Diante da impossibilidade de a disputa regional ser uma coisa e a nacional outra, a fala da presidente é uma farsa tão grotesca quanto à que Genoíno quis fazer o País crer.

Ao contrário. Dilma e o PT estão diante de um jogo intrincadíssimo na composição de palanques regionais. Só com o PMDB, principal aliado, o embate se espraia por 11 estados onde estão nada menos do que 68% do eleitorado do País (O Globo).

O tudo por Dilma não é consenso nem dentro do PT, que teme reduzir de tamanho, ter poucos candidatos próprios aos governos estaduais, perder senadores e deputados federais em nome da manutenção da aliança e de uma presidente que não o anima.

A presença mais ativa de Lula, com agenda e palanques independentes, é uma bênção para essa turma que quer manter o poder e os cargos, mas torce o nariz para a quantidade de concessões que lhe é exigida, para o estilo ou a ausência de estilo da candidata. Para eles, uma coisa é pedir votos ao lado de Dilma, outra coisa é subir ao palanque com Lula.

Mas o que temem mesmo é a quebra do maniqueísmo que sempre alimentaram. Sabem que uma coisa era o “nós x eles”; outra coisa será o “todos x nós”.

Nem black nem bloc

Marco Aurélio Nogueira (*)
O Estado de São Paulo

Muitos dos que quebram e destroem são jovens revoltados com a vida infame da periferia, ou outros que procuram algum futuro além do shopping center

Marcos de Paula/Estadão
Bloco. Efeito colateral de uma vida bloqueada, sem esperança, nem utopia

A ação é tão caótica e contundente que é como se somente eles estivessem nas ruas. Além da polícia, claro, seu alter ego. São tão performáticos e agressivos, tão sem agenda e voz coletiva que geram a sensação de que as massas não existem. A violência que praticam não gera comunidade ou democracia, mas seu oposto. Ataca o sistema e seus ícones, mas não os põe em xeque, antes os reforça. Empurra as pessoas de volta para casa, longe das ruas politizadas por junho de 2013.

Nunca se falou tanto em black bloc, essa “tática” clonada da Europa que parece tomar conta das grandes metrópoles brasileiras de uns meses para cá. Não sabemos quase nada do fenômeno. Há duas versões típicas na praça. Uma faz a crítica do movimento como hostil à democracia, desmobilizador e desagregador. Outra faz seu elogio, escancarado ou dissimulado. Afirma que a violência black bloc é fundamental para tirar as massas da letargia, chamar às falas os partidos de esquerda e revelar a face brutal do Estado, ou que é expressão da iniquidade social, uma reação defensiva que protege as massas.

A estética black bloc adere na vida que temos. Seus seguidores querem ser vistos como vanguarda da luta contra o capital, a ala mais intransigente da contestação, aqueles que tirarão as massas do pacifismo que não perturba a ordem nem abala as instituições. A ação não traz consigo direitos, causas ou utopias, somente o fim dos tempos. Não leva rigorosamente a lugar nenhum. Reforça o sistema, em vez de miná-lo. É, na verdade, o efeito colateral de uma vida bloqueada, sem esperança, sem utopia, individualizada e fragmentada, de uma sociedade em que a violência entrou na corrente sanguínea, de um Estado pouco eficiente, de uma cultura que homenageia o espetáculo, mas não se complementa com uma ética pública consistente. Produto das contradições de um capitalismo sem freios e do descontrole que afeta a vida coletiva.

Mas nem tudo que verte sangue nas ruas é ação black bloc. Nem todos os que batem e quebram seguem a eventual filosofia de vida que lhe é típica. Muitos são revoltados, gente que quer dar um basta à vida infame que leva na periferia ou que deseja visualizar algum futuro além dos shopping centers. Podem até existir alguns “riquinhos” que aproveitam o pique para descarregar hormônios reprimidos ou mal utilizados.

Não havia black blocs na rodovia Fernão Dias, em São Paulo. Mas havia muita revolta, indignação, ressentimento e medo. Adrenalina de sobra para enfrentar a polícia, pois a polícia é um dos piores pesadelos das periferias urbanas, onde entra sem pedir licença, sem dialogar, matando com espantosa facilidade. 

Não se precisa de black blocs para que se extravase o que está armazenado nos porões das periferias, carências e sofrimentos que se misturam com criminalidade, drogas e miséria. A desesperança alimenta desejos de vingança, protestos imprecisos contra tudo que representa ordem e autoridade. Porque a ordem e a autoridade que se apresentam ali não nasceram de nenhuma construção, não são de modo algum “amigáveis”.

É uma situação que afeta a todos, mas fere sobretudo os mais jovens. Mata-lhes o futuro, convida-os a fazer cálculos existenciais negativos. É por isso que são eles que se jogam contra a polícia, que queimam e destroem. Encontram assim formas de lutar por reconhecimento, de aparecer, de adquirir uma identidade que a vida lhes rouba, de exigir uma atenção que lhes é negada. Ou será que há alguma política para eles, algum braço do Estado que não seja o da polícia? A democracia política não lhes faz muito sentido, pois seus resultados não são palpáveis, não são decodificados. Quem atua nas periferias como agente democrático? Agem ali operadores e associações de outro tipo, algumas delas especializadas em fomentar violência.

A violência explode sempre que a política soluça, a democracia não encorpa como valor e os governos não produzem resultados. Anda junto com a exclusão, o crime, a exploração. Não há como sumariamente suspendê-la. Em épocas de má política e muito espetáculo, a necessidade de dizer “não aguento mais” conflui para a busca de um lugar que dê visibilidade. É uma via torta, contraproducente. Mas há um tipo de política nela, que precisa ser compreendida. Até para que não se ative uma espiral de violência que a ninguém beneficiará.

Como apagar o rastilho? Certamente não com mais polícia. Pactos e entendimentos são recursos cívicos eficazes, atos que celebram a cooperação para a conquista de coisas comuns, no caso, políticas públicas e direitos. Se forem sérios, generosos e tiverem qualidade, vencem. Temos deficiências nessa área, mas sempre se pode tentar superá-las. Poder-se-ia começar, por exemplo, com um pacto intraestatal: situação e oposição, União, Estados e municípios trabalhando juntos, em nome de um plano de recuperação das periferias, de desmilitarização da polícia, de valorização das escolas, gestos que deixem claro que se quer de fato fazer alguma coisa. Sem isso, será difícil que se avance.

(*) Marco Aurélio Nogueira é cientista social, diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da UNESP

No país da (petro) demagogia

Percival Puggina
Zero Hora

Em 2007, foi anunciada pela Petrobrás a descoberta de um megacampo, batizado com o nome de Tupi. Passados três anos, depois de muito Tupi para cá, Tupi para lá, o alto comando da Petrobrás resolveu trocar o nome do campo para... para que outro nome, mesmo? Adivinhe! Pois é, depois de guri grande, o campo de Tupi virou Campo de Lula. Há, em nosso país, uma histórica e bem sucedida petrodemagogia. Quem entra no Portal Brasil, por exemplo, e lê a nota do governo sobre o Campo de Libra e o Pré-sal vai pedir para ser congelado hoje e levado ao microondas daqui a alguns anos. No entanto, é importante para a política do poder que essas riquezas minerais, sepultadas sob quilômetros de coluna d'água e ainda mais espessas camadas geológicas, rendam votos no curtíssimo prazo. 

Esse é o raciocínio que explica os abusos políticos e de informação envolvendo a Petrobrás. Em 2006, o ex-presidente Luiz Inácio pousou na plataforma P-50 e, minutos após, exibiu para os fotógrafos as mãos lambuzadas de óleo extraído da Bacia de Campos. O fato foi comunicado à nação como início da autossuficiência. O Brasil se tornaria exportador. A vaga na OPEP estava logo ali, provavelmente ao lado da cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Mas o dito logo ficou pelo não dito. Os anunciados saldos positivos que viriam para a balança comercial do país a partir de 2010 viraram saldos negativos e assim se mantêm. Até o passado mês de agosto o Brasil já gastara, só neste ano, US$ 28 bilhões em importação de petróleo e derivados e essa conta joga no vermelho a balança comercial de 2013. 

Pensando sobre isso, e já sabendo que quatro empresas haviam desistido de participar, acomodei-me diante da tevê para assistir ao leilão do Campo de Libra. A Globo News, sei lá por quê, demonstrava imenso interesse em duas pacíficas e ociosas barreiras que se entreolhavam no meio da avenida. Numa estavam alinhadas tropas militares. Noutra, pequeno grupo de manifestantes. A tranquila cena atraía tanto a atenção da emissora que ela repartia igualitariamente: meia tela para cada evento. 

Assistir o leilão do campo de Libra me fez lembrar aqueles filmes nos quais nada acontece e a gente resiste teimosamente só para saber onde aquilo vai dar. E dá em nada mesmo. Perdi meu tempo testemunhando um conflito que felizmente não houve e um leilão que infelizmente não aconteceu. O único consórcio que apresentou proposta tinha a Petrobrás como líder e foi declarado vencedor pelo lance mínimo admitido. Isso é leilão que se apresente num negócio de tamanho porte? Por que tanto desinteresse mundial em riquezas que o governo anuncia tão promissoras e pródigas? Mesmo assim, horas após, a presidente veio a público festejar o resultado do evento e partilhar hipotéticos trilhões de reais que sanearão todas as carências do país. É a arte de gastar, retoricamente, recursos talvez alcançáveis em futuro remoto, convertendo-os em votos na urna de logo mais. 

No dia seguinte, ainda ponderando as patéticas cenas da véspera, abro minha caixa de e-mails e o primeiro que me cai sob os olhos dizia assim: "O Brasil comprou do Brasil uma reserva de petróleo para ficar com 40% para o Brasil". Disse tudo. 

Lula revela: a imprensa faz mal à democracia

Guilherme Fiúza
Revista ÉPOCA

As palavras de Lula põem gasolina no fogo dos vândalos que atacam carros da imprensa nas ruas.

Discursando no Senado, em comemoração aos 25 anos de promulgação da Constituição, Lula disse que a imprensa “avacalha a política”. E explicou que quem agride a política propõe a ditadura. Parem as máquinas: para o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, a imprensa  brasileira atenta contra a democracia. É uma acusação grave. 

O Brasil não tinha se dado conta de que os jornais, as rádios, a internet e as televisões punham em risco sua vida democrática.  Felizmente o país tem um líder atento como Lula, capaz de perceber que os jornalistas brasileiros estão tramando uma ditadura. Espera-se que a denúncia do filho do Brasil e pai do PT tenha acontecido a tempo de evitar o pior.

No mesmo discurso, Lula cobriu José Sarney de elogios. Disse que o senador maranhense, então presidente da República, foi tão importante na Constituinte quanto Ulysses Guimarães. Para Lula, Sarney sim é, ao contrário da imprensa, um herói da democracia. É compreensível essa afinidade entre os dois ex-presidentes. Sarney e seu filho Fernando armaram a mordaça contra o jornal O Estado de São Paulo. Proibiram o jornal de publicar notícias sobre a investigação da família Sarney sobre tráfico de influência no Senado, durante o governo do PT. Isso é que é democracia.

A imprensa é mesmo um perigo para a política nacional.  Ela acaba de espalhar mais uma coisa horrenda sobre o governo popular – divulgou um relatório do FMI que denuncia a “contabilidade criativa” na tesouraria de Dilma. Contabilidade criativa é uma expressão  macia para roubo, já que se trata de fraudar números para esconder dívidas e gastar mais o dinheiro do contribuinte.  Assim, a imprensa avacalha a política petista, cassando-lhe o direito democrático de avacalhar as contas públicas. 

Lula faz essa declaração no momento em que manifestantes em São Paulo e no Rio de Janeiro, numa epidemia fascista, depredam e incendeiam carros da imprensa, além de agredir jornalistas. Luiz Inácio sabe o que faz. Sabe que suas palavras são gasolina nesse fogo. E não há nada mais democrático do que insuflar vândalos contra a imprensa – já que o método Sarney de mordaça é muito trabalhoso, além de caro.

Do fundo do mar, onde desapareceu há 21 anos, Ulysses Guimarães deve estar vindo à tona para tentar entender como Lula conseguiu exaltar a Constituição cidadã e condenar a imprensa num mesmo discurso. Ulysses morreu vendo a imprensa expor os podres de um presidente seria posto na rua. Ulysses viu a imprensa  ressurgir depois do massacre militar contra a liberdade de expressão. Ele mesmo doou parte de sua vida nessa batalha contra o silêncio de chumbo. Ao promulgar a Constituição cidadã, jamais imaginaria que, um quarto de século depois, um ex-oprimido descobriria que o mal da democracia é a imprensa. E estimularia jovens boçais contra essa praga do jornalismo. 

Lula saiu de seu discurso no Senado e foi almoçar com Collor – cujo governo democraticamente conduzido pelo esquema PC também foi avacalhado pelos jornalistas. A união entre Lula e Collor é uma das garantias do Brasil contra a ditadura da imprensa, essa entidade truculenta e abelhuda. E o país se tranquiliza ainda mais ao saber que Lula e Collor estão unidos a Sarney. Com esse trio, a democracia brasileira está a salvo. 
Chegará o dia em que a televisão e o rádio servirão apenas aos pronunciamentos de Dilma Rousseff em nome de seus padrinhos, poupando os brasileiros de assuntos ditatoriais como mensalão, contabilidade criativa, tráfico de influência, Rosemary Noronha e outras avacalhações.

Infelizmente Collor se atrasou e não pôde comparecer ao almoço. Lula pôde celebrar seu discurso com outros democratas, como o seu anfitrião, o senador Gim Argello (PTB-DF) – a quem a imprensa golpista também vive avacalhando, só porque ele responde a vários processos e a inquérito no STF por apropriação indébita, peculato, lavagem de dinheiro e corrupção passiva.  Com  a mídia avacalhando a política desse jeito, não dá nem para almoçar em paz com um amigo do peito.

A Argentina e a Venezuela, que Lula e o PT exaltam como exemplos de democracia, já conseguiram domesticar boa parte da imprensa. Com a reeleição de Dilma, o Brasil chega lá. 

O feitiço contra o feiticeiro

Ferreira Gullar
Folha de São Paulo

Há muito mais necessitados do que Lula pensava e todos passaram a querer também bolsa, casa, geladeira etc.

Sinceramente, você acha que Lula contava com tamanho descontentamento popular, após dez anos de governo petista?

Acredito que não. Pelo menos, é o que poderia deduzir dos tantos discursos que fez, quando presidente da República, e que foram repetidos depois por sua substituta, Dilma Rousseff, pelos ministros de ambos os governos e pelos dirigentes petistas. O Brasil nunca antes, em tempo algum, foi tão feliz. Por isso mesmo, insistem em fazer de conta que o descontentamento, que se manifesta todos os dias nas ruas, não tem nada a ver com eles.

Mas tudo tem limite. Por isso mesmo, Lula, esperto como é, veio a público dizer que, quando líder sindical, nunca participou de vandalismos. É verdade. Mas o problema maior, para ele, não é o vandalismo, que todo mundo condena.

O que é mais preocupante, para o governo, nessas manifestações, pelo que reivindicam e pelo que denunciam, é a demonstração de que algo deu errado nos governos petistas, que vieram para contentar os trabalhadores e o povão.

Não resta dúvida de que Lula, ao ampliar o assistencialismo com o Bolsa Família, ao aumentar o salário mínimo e tomar medidas estimuladoras do consumo, possibilitou a ascensão de um amplo número de pessoas a condições de vida um pouco melhores.

Esse fato teve reflexo positivo na vida econômica --mas no quadro social do país, como advertiram os economistas, tratava-se de uma melhoria momentânea, incapaz de ampliar-se e mesmo sustentar-se por muito tempo. É que os investimentos imprescindíveis em setores estruturais, de que depende o crescimento econômico efetivo, não foram feitos, certamente porque não trariam consigo o mesmo apelo eleitoral. Essa é uma característica do populismo, coisa antiga no Brasil.

A preocupação em conquistar o eleitor --e especialmente o eleitor mais carente e menos informado dos problemas do país-- foi desde o início a marca do governo petista. E não por acaso. Todos se lembram da declaração de José Dirceu, dada naquela época, garantindo que o PT ficaria no governo por 20 anos, pelo menos.

Dez anos, ele já ficou; quanto aos outros dez, pelo que se vê agora, restam sérias dúvidas. Mas, por isso mesmo, a preocupação essencial do governo Dilma é a mesma que a do governo Lula, mas com algumas concessões que foi obrigada a fazer, como privatizar aeroportos e, agora, permitir a participação de empresas privadas estrangeiras no leilão do campo de Libra.

Por suas raízes ideológicas, o PT nasceu sonhando com uma revolução do tipo cubana no Brasil e, consequentemente, contra o capitalismo. Foi difícil manter-se nessa posição, com as mudanças ocorridas no mundo, após queda do Muro de Berlim.

O radicalismo petista --que o levara a negar-se a assinar esta nova Constituição que está em vigor-- amainou-se após as sucessivas derrotas de Lula como candidato à Presidência da República. Ele obrigou o partido a recuar e passar a falar mais manso. Graças a isso, foi eleito e passou a viver um dilema: se se mantivesse esquerdista, não governaria. De qualquer modo, abraçava Bush e fazia questão de mostrar que sua verdadeira simpatia para Ahmadinejad.

Aqui dentro, a coisa era mais complicada: como privatizar os aeroportos se sempre condenara as privatizações? Mas tinha de fazê-lo e passou, então, a chamar as privatizações de "concessões" e pôr nelas exigências que as inviabilizavam. Agora, teve que recuar. Por outro lado, restava-lhe o caminho ambíguo do populismo chavista. E assim ampliou em vários milhões os beneficiados pelo Bolsa Família e financiou o consumismo das faixas mais pobres.

Sucede que, no Brasil, há muito mais necessitados do que Lula pensava e todos passaram a querer também bolsa, casa, geladeira, fogão, televisão de graça. Por outro lado, a economia exige que o Estado se abra à iniciativa privada. Ou faz isso, ou o país para de crescer. Aliás, já há quem preveja, para breve, crescimento zero.

Assim, Dilma abriu o leilão de Libra a empresas estrangeiras, o que foi certo, mas os operários do petróleo não pensam assim; pensam como Lula lhes ensinou: privatizar a exploração do petróleo é trair a pátria. Com essa ele não contava.

Ainda biografias

Arnaldo Bloch
O Globo

Uma pergunta para Roberto Carlos: se o indivíduo é dono da própria história, como é que se vai escrever a História das Civilizações?

Z uenir disse que o assunto tinha se esgotado. Caetano respondeu que o assunto ainda tinha muito o que dar. Ambos têm razão. O assunto esgotou a paciência pública, mas não se esgotou no mérito, se é que algum assunto humano possa se esgotar.

Mesmo que o pleito do Procure Saber perca visibilidade após a autocrítica divulgada esta semana pelo grupo (com o vídeo de Gil e Roberto Carlos), continuará no ar o desconforto e, nos tribunais, a guerra.

Como já escrevi, com candura, minha opinião sobre o mérito semanas atrás, vou deixar desta vez o mérito para lá e entrar num outro terreno: a expectativa que a idolatria incute num fã e as consequências de conhecê-lo como pessoa. E uma pergunta dirigida especialmente a Roberto Carlos: se o indivíduo é dono da própria história, como é que se vai escrever a História das Civilizações? Baseada somente na autoimagem de seus expoentes e coadjuvantes?

Um fã do compositor alemão Richard Wagner pode se aborrecer com o fato de ele ter sido um antissemita confesso, e, sobretudo, de sua obra ter sido usada como trilha sonora dos campos de concentração. Um judeu pode se aborrecer ainda mais, e renunciar ao deleite de uma abertura de “Tannhäuser”. Cada um na sua. Eu ouço Wagner com devoção, sem deixar de lamentar suas posições e o sofrimento dos que passaram pelos campos ou tiveram parentes torturados pelo uso perverso da arte como moldura da ideação racista.

O exemplo é radical só para ser emblemático. Caetano, Chico e Gil nada têm a ver com o Terceiro Reich. Ao contrário, estão associados a um passado de rica contestação, mais ou menos ideológica, política ou comportamental.

Mas, nos dias de hoje, quando a democracia é queridinha tanto de contestadores quanto de anarco-capitalistas, a posição de Caetano, Gil e Chico a favor da censura prévia provocou um anticlímax parecido com o que um judeu melômano pode sentir ao descobrir, pela primeira vez, os pecados de Richard Wagner.
O que é natural: mitos são cobrados como mitos e não como pessoas. Quando chega a uma certa longevidade, o vulto do mito se converte em narrativa fechada: nela só entra aquilo que reitera ou homologa a superfície.

Na visão do fã, os atos e os fatos do passado estão para o mito como um núcleo está para um átomo. O mito contestador do sistema será sempre um contestador do sistema. Um democrata não pode questionar nenhum matiz do conceito de liberdade sem virar o demo.

Para o fã começar a entender que um mito não se encerra em si é preciso explodir o núcleo e provocar um tipo de fissão, o que resulta numa terrível confusão (ou confissão?) de ideias e sentimentos. Pois envolve a aceitação de que se trata, ali, de gente, além ou aquém do mito.

Um mito não defende interesses pessoais (a não ser nas narrativas sobre os deuses da antiguidade). E, na questão em debate, essa pessoalidade extrapola os limites de discussão de ideias: não há como dissociar o interesse pessoal do debate intelectual. Do contrário, haveria passeatas com duzentos mil artistas, empresários, mendigos e médicos, contra o risco de suas vidas serem abduzidas por um biógrafo.

A obra de Caetano, Gil e Chico e até suas biografias pessoais, autorizadas, desautorizadas, censuradas, liberadas, de punho próprio, fragmentadas, virtuais ou transcendentais vão sobreviver com folga a esse momento. A explosão do núcleo do mito é salutar para se entender um ser humano de forma mais abrangente, e entender também a época em que vive.

Polanski não deixou de ganhar Oscar por ter sido odiado como vil estuprador (as desculpas de mãe e filha só vieram recentemente). Andy Warhol em muitos aspectos era um sacana. Woddy Allen sobreviveu à pecha de seviciador de enteada. Por mais que se fale de suas piores e melhores facetas, mantém-se o mistério sobre sua real personalidade.

Por isso, aliás, a ideia de uma biografia definitiva, reivindicada por alguns autores e editores, é uma perfeita tolice. Por mais que se escrevam biografias sobre um indivíduo, a verdade de um ser será, no máximo, tangenciada. Por isso é tão bom que se conheça o máximo possível de versões, incluindo o viés lendário, o imaginário coletivo, o folclore, os bons textos e os textos indigentes.

Certa vez, decepcionado com o fato de Gilberto Gil ter vendido os direitos de uma música sua (sobre liberdade digital) para um anúncio de um poderoso banco na televisão, eu lhe enviei um e-mail, como fã e também como jornalista. Gil respondeu com muita serenidade falando justamente do choque entre a expectativa de um fã e a realidade de cada um, suas diferentes necessidades em diversos momentos, e suas relações variáveis com os valores, monetários ou morais.

Na época publiquei a conversa na internet e não houve grilo. Foi o tipo de diálogo que não encerra questão alguma, mas que muito diz do caráter transitório dos fenômenos.

Quanto a Roberto Carlos, é um caso mais complexo, tratado com brilho por José Miguel Wisnik, num texto comovente, daqueles que não estão sujeitos a revisões de posição semanais. Talvez porque Wisnik, apesar de grande artista e intelectual a anos-luz da vaidade, esteja mais preocupado com a arte e o pensar do que com aquilo que se diz da sua vida pessoal. Melhor para a sua vida. E, também, para a sua arte e o seu pensar.

O casamento da censura com a propaganda

Carlos Chagas
Diário do Poder

Pacifista extremado, inimigo de todo tipo de militarismo, Bertrand Russell chegou a ser duas vezes confinado pelo governo inglês por opor-se às guerras de 1914-18 e 1939-45.  A primeira  num quarteirão em Londres, a outra na Escócia. Era socialista. Viajou à União  Soviética nos primeiros anos do regime comunista e deparou-se com a férrea censura à imprensa  e à liberdade de manifestação do pensamento. Mais o monopólio  da propaganda pelo governo bolchevique.  De volta à Inglaterra, irritado, escreveu que os russos  mais felizes  eram os analfabetos, aliás, naqueles idos a maioria, “porque a capacidade de ler,naqueles tempos de jornais subsidiados, era um obstáculo à aquisição da verdade”.

Não vamos chegar a tanto,  o analfabetismo existe no Brasil atual, até em índices maiores do que há décadas atrás, mas nossos   analfabetos, mesmo sem ler jornal, submetem-se a dois fatores  iguais e  mais sofisticados  com os criticados pelo  genial matemático e filósofo. Fala-se  da censura e da propaganda.  Não a censura policial de tempos atrás,  sequer  da propaganda dos governos, que obviamente existe. A realidade atual é   sutil e perversa.

Surge muito  mais profundo o risco enfrentado não apenas pelos analfabetos, mas por toda a população, diante dessa sofisticada manipulação imposta pelas elites.

Primeiro a censura,  praticada com a cooperação dos próprios  meios  de comunicação: suprimiu-se, se é que algum dia existiu, o debate a respeito do que seria uma sociedade evoluída   e organizada através da própria organização e evolução do indivíduo.  Estabeleceram-se padrões que a mídia não contesta, mas, pelo contrário, integra-se neles. Lemos nas folhas e assistimos nas telinhas,  agora telões, ser a livre competição a razão principal de nossas vidas.  Obriga-se a todos considerar o vizinho do lado um adversário. O resultado é que as elites transformaram nossa existência num  campo de batalha onde, não por coincidência, vencem sempre o mais forte e  o mais esperto, sob a empulhação de que  todos são livres para competir. Mentira, a competição se fere entre  cartas marcadas.

Quanto à  propaganda,  serve para alimentar a farsa. Melhor para o cidadão sonhar com a  troca anual  de carro, a maioria sem poder, ou entregar-se à pirataria das facilidades bancárias, ou a comidas e remédios maravilhosos   do que dedicar recursos e tempo, também quando pode e possui,  para construir uma sociedade mais justa. Para instruir-se, instruir os filhos  e meditar sobre os princípios e os fins de todos nós.

E nem adianta imaginar que seríamos mais felizes se fossemos analfabetos. O casamento da censura com a propaganda gerou essa ilusão que sufoca  o ser humano e impede a sociedade de alcançar suas possibilidades ideais. Um dia, quem sabe…

O uso político da violência

Denis Lerrer Rosenfield 
O Estado de S.Paulo

A discussão em torno da ação dos black blocs tem sido frequentemente enviesada, se não deturpada, por não estar focada no uso que tem sido dado à violência desse grupo nas consequências dela derivadas. Não se trata de manifestação "espontânea" nem da ação de bandos desorganizados, mas de um tipo de intervenção que se define por um propósito claramente político.

Pesquisas sobre o que dizem os que assim agem terminam por arranhar superficialmente o problema, porque seus agentes não são meros indivíduos, mas membros de uma organização com método em suas ações. Suas falas, individualmente, nesse sentido, são necessariamente limitadas, se não encobridoras, na medida em que suas ações em muito transcendem manifestações individuais.

Advogar um diálogo com eles, como se fossem a expressão de um descontentamento "social", significa tirar a questão de seu ponto central. A violência é avessa a qualquer diálogo, quanto mais empreendido por grupos que, se chegam a declarar alguma proposta, é com o intuito de que ela seja inexequível - por exemplo, a extinção do "lucro", da sociedade de "mercado", e assim por diante.

Note-se que tais grupos se caracterizam por ações metódicas e organizadas. São como células que respondem a um comando, dotadas de extrema mobilidade e que conseguem muitas vezes distrair a atenção policial. Atrair a atenção sobre um ato determinado de vandalismo e depredação, com o objetivo de empreender outro muito maior em outro local.

Agem quando de manifestações pacíficas, fazendo-as acabar em violência, visualizada com grande estardalhaço pela mídia. A finalidade é ocupar a cena pública. Quanto maior for o impacto televisivo, maior será seu "ganho", pois tais imagens se propagarão com força por todo o País e mesmo para além dele. Para quem não gosta do crescimento e da competitividade internacional do País, o "ganho" terá ainda um "reconhecimento" extra. Fora de nossas fronteiras, tais imagens adquirem o estatuto de manifestação "popular", como se o Brasil estivesse à beira de um problema institucional sério.

As jornadas de junho foram uma impressionante manifestação de cidadania, com mais de 1 milhão de pessoas nas ruas clamando contra a corrupção e a má qualidade dos serviços públicos, com foco, num primeiro momento, na mobilidade urbana. As pessoas, com toda a razão, estão cansadas de pagar altos impostos, tendo como "retribuição" andar de pé, apertadas, nos ônibus em péssimas condições. O transporte torna-se um calvário. Filas em postos de saúde e hospitais, com atendimento sofrível, mais o baixo nível da educação pública configuram um quadro lamentável: a feia pintura de nosso país.

O exercício da autonomia expresso em tais manifestações, não obedecendo a nenhuma orientação partidária, mostrou um outro País possível, alerta para os desmandos vigentes, não aceitando nenhum tipo de instrumentalização. Naquele momento era como se o País, surpreso, estivesse vendo desfilar uma banda da liberdade e da indignação. Contudo essa irrupção do novo assustou.

Assustou os que até então dominavam as ruas ou delas procuravam ter o monopólio, como os diferentes partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais organizados, que tiveram, então, a intenção de se apropriar desse sopro de autonomia. A heteronomia entrou na pauta. O resultado foram "greves" e "manifestações" que terminaram em completo fiasco, expondo a dissociação entre a tentativa de manipulação e a legítima indignação das ruas.

Nesse contexto, a ação dos ditos "vândalos" passou a ter maior protagonismo, atuando em qualquer tipo de manifestação, relegando os demais a posição secundária. Na verdade, houve um processo de estranhamento: os manifestantes autônomos e indignados não mais se reconheceram naqueles mascarados. A violência exposta não era um espelho seu.

O resultado foi imediato: o refluxo das manifestações autônomas e legítimas. A expectativa nascida quando das jornadas de junho foi progressivamente minguando. Por enquanto, pode-se dizer que desapareceu, embora possa ressurgir em outro contexto. A violência enxotou os indignados da rua.

Logo, o efeito objetivo dos agentes da violência, os black blocs ou outros nomes que se lhes queira dar, foi o esvaziamento das manifestações autônomas e, mais do que isso, de suas bandeiras. Expulsaram da rua as bandeiras contra a corrupção, por um melhor serviço público e menos impostos. Eis a verdadeira consequência de suas ações. Ou melhor, eis o seu verdadeiro objetivo. A quem interessa isso?

Curiosamente, os que se dizem "anarquistas", em tese os defensores da autonomia e da liberdade, são os que buscam diretamente tornar inviável toda manifestação livre e autônoma. Nada têm eles de anarquistas no sentido estrito da palavra, são meros representantes de uma esquerda que usa irrestritamente a violência segundo suas conveniências políticas.

Observe-se que muitas agremiações que participaram das jornadas de junho, como o Movimento Passe Livre, e outras posteriores, de certos sindicatos de professores, nutrem simpatia por esses "vândalos", como se sua causa fosse a mesma, apesar de seus meios divergirem. Comportam-se como "companheiros". Companheiros de quê, precisamente? Da desmobilização popular? Do abandono das bandeiras contra a corrupção, o desvio de recursos do erário e a péssima qualidade dos serviços públicos? Da desresponsabilização de seus responsáveis?

Expressão disso é o fato, politicamente inquietante, de que bradam contra a "criminalização dos movimentos sociais". Traduzindo: a violência deveria ser permitida e defendida, pois seus agentes sustentam uma "causa social". Seu objetivo consiste em deixar a impunidade reinar e as instituições democráticas se enfraquecerem.

Estudantes resistem à estratégia do Planalto

Exame.com
Valmar Hupsel Filho, Estadão Conteúdo

Participantes de protestos por melhorias na mobilidade urbana seguem insatisfeitos com as propostas do governo

Nacho Doce/Reuters 
Ônibus pegando fogo após manifestação pelo passe livre
 no Terminal Dom Pedro II, em São Paulo

São Paulo - A principal reivindicação de quem foi às ruas em junho ainda está fresca na cabeça do estudante Leonardo Paiva, de 27 anos. Usuário de transporte público, ele elege a mobilidade urbana como o maior problema do governo Dilma e o principal motivo pelo qual deixaria de votar em sua reeleição.

"Sempre votei no PT, mas a coisa está mudando", diz ele, aluno do terceiro ano do curso de bacharelado em tecnologia da Universidade Federal do ABC, em Santo André. Eleitor de Lula em 2006, ele votou em Dilma em 2010, mas adotou uma postura mais crítica em relação ao governo ainda naquele ano.

"Hoje não votaria de novo", diz Leonardo, que ainda não decidiu seu candidato em 2014. O estopim para o "desencanto" com Dilma foram as manifestações, das quais participou "discretamente". "Dilma ouviu o povo, mas não mudou nada."

Estudante de engenharia de energia da mesma universidade, Katherine Marani, de 23 anos, considera que Dilma não deu resposta satisfatória aos protestos. "Fui às ruas e de que adiantou?" Ela diz que "não melhorou nada na educação, na saúde nem na mobilidade urbana".

Entre os estudantes de medicina, a maior reclamação é com o programa Mais Médicos, que promete ser a principal bandeira do PT tanto no plano federal quanto em São Paulo. Júlia Vella, 20 anos, no primeiro ano da Faculdade de Medicina do ABC, acha que a "importação" de médicos cubanos contribui para a desvalorização dos profissionais brasileiros.

"Primeiro eles deveriam dar mais condições de trabalho", afirma Júlia, que pretende votar em Aécio Neves nas eleições de 2014. 

As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Estudantes afirmam estar 'desencantados'

Valmar Hupsel Filho 
 O Estado de S.Paulo

A principal reivindicação de quem foi às ruas em junho ainda está fresca na cabeça do estudante Leonardo Paiva, de 27 anos. Usuário de transporte público, ele elege a mobilidade urbana como o maior problema do governo Dilma e o principal motivo pelo qual deixaria de votar em sua reeleição.

"Sempre votei no PT, mas a coisa está mudando", diz ele, aluno do terceiro ano do curso de bacharelado em tecnologia da Universidade Federal do ABC, em Santo André. Eleitor de Lula em 2006, ele votou em Dilma em 2010, mas adotou uma postura mais crítica em relação ao governo ainda naquele ano. "Hoje não votaria de novo", diz Leonardo, que ainda não decidiu seu candidato em 2014. O estopim para o "desencanto" com Dilma foram as manifestações, das quais participou "discretamente". "Dilma ouviu o povo, mas não mudou nada."

Estudante de engenharia de energia da mesma universidade, Katherine Marani, de 23 anos, considera que Dilma não deu resposta satisfatória aos protestos. "Fui às ruas e de que adiantou?" Ela diz que "não melhorou nada na educação, na saúde nem na mobilidade urbana".

Entre os estudantes de medicina, a maior reclamação é com o programa Mais Médicos, que promete ser a principal bandeira do PT tanto no plano federal quanto em São Paulo. Júlia Vella, 20 anos, no primeiro ano da Faculdade de Medicina do ABC, acha que a "importação" de médicos cubanos contribui para a desvalorização dos profissionais brasileiros. "Primeiro eles deveriam dar mais condições de trabalho", afirma Júlia, que pretende votar em Aécio Neves nas eleições de 2014.

O ralo

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

E o ralo não vai dando conta. Ontem, o Banco Central revelou que o déficit do setor público em setembro foi o maior da história para o que acontece dentro do período de um mês.

O governo federal teve um desempenho negativo de R$ 10,8 bilhões e os Estados e municípios, um saldo positivo de R$ 1,8 bilhão. O resultado geral é um déficit de R$ 9,0 bilhões.

Nem pensar que o governo Dilma garantirá o superávit primário (sobra de arrecadação para resgate da dívida) de 2,3% do PIB ou algo em torno de R$ 110 bilhões. Vale pontuar que o prometido no início do ano foi atingir 3,1% do PIB (R$ 149 bilhões) que, desde junho, o ministro Guido Mantega, sem fôlego, já havia puxado convenientemente para baixo.

A receita do governo em 12 meses não cresce mais do que 8,0% e a despesa, 13,5%. Alardeador contumaz da beleza das contas públicas, o ministro Mantega ontem se declarou espantado com a sangria de R$ 45 bilhões a R$ 47 bilhões, neste ano, somente nas rubricas seguro-desemprego e abono ao trabalhador.

Também ontem, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, exibiu outra pérola do seu criatório particular de ostras. Disse que os resultados decepcionantes de setembro se explicam por "várias especificidades", como se existisse mês sem isso aí. Em seguida, disse ele: mal ou bem, haverá superávit, portanto, o que entra vai ser maior do que o que sai. Trata-se de uma verdade truncada, na medida em que esse saldo positivo não será suficiente para segurar a inflação.

O governo federal não está se empenhando o suficiente para equilibrar as finanças públicas. Para não alargar demais o rombo fiscal, neste final de ano conta com outras especificidades, desta vez no lado da receita, em dois departamentos: o bônus de assinatura do leilão de Libra, que renderá R$ 15 bilhões; e a operação espreme-empresa, que são cobranças de pendências em tramitação na Justiça, que atendem pela sigla Refis, com desfecho ainda não conhecido.

Mais uma vez, o Banco Central vai queimando a língua. A partir de agosto, passou a apostar na saúde das contas públicas. Em vez de continuar a denunciar o expansionismo da turma do cofre, preferiu dizer que, logo mais, o desencontro entre receitas e despesas, que está puxando os preços para cima, passaria à condição de neutralidade. Ou seja, ainda que não ajude a combater, pelo menos deixará de produzir inflação. Mas vai dando o contrário.

Despesa pública cria renda. E mais renda do que produção, como ocorre hoje, tende a aumentar a velocidade das remarcações (sempre para cima), porque a procura fica mais forte do que a oferta.

Ontem, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, não repetiu o que vinham afirmando seus superiores imediatos. Reconheceu que "o quadro fiscal é desafiador", eufemismo cuja tradução para a linguagem popular é: "A vaca está tomando a direção do brejo". Isso tem consequência.

Além das avarias em sua credibilidade, o Banco Central terá de apertar a política monetária (política de juros) ainda mais do que pretendia, para tentar compensar com mais racionamento de moeda a política perdulária do governo federal.

Brasil pode escapar dos seus "clichês de samba", diz FT

João Pedro Caleiro
Exame.com

Artigo do jornal britânico conclui que "trajetória deprimente" do país nos últimos anos pode levar a uma visão mais realista do país no exterior

Percussão de samba: jornal vê oportunidade de Brasil fugir dos clichês

São Paulo - O Brasil voltou a ser assunto no Financial Times. Em artigo de opinião assinado por John Paul Rathbone e publicado no final da tarde de ontem, o jornal britânico cria um paralelo entre a ascensão e queda dos negócios de Eike Batista e a euforia da era Lula seguida de crescimento baixo.

Chamando o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva de "o mais bem-sucedido político do seu tempo por quase qualquer critério", o texto nota que o Brasil conquistou maior protagonismo internacional e avanços sociais, mas que "grande parte da 'nova classe média' permanece, na realidade, apenas a um contracheque de distância da pobreza."

O FT diz que impulsionados por anos de liquidez internacional e boom das commodities, Eike e Lula eram dois lados de uma mesma moeda. O país, segundo ele, vive agora um momento de "perda de rumo", mas que pode ter consequências positivas. 

"O desapontamento pode pelo menos libertar o Brasil da prisão de seus muitos clichês (samba, praias, dinheiro, diversão!) com os quais Lula e o Sr. Batista frequentemente brincaram e que o mundo tão ansiosamente comprou", conclui.

Como evidências de uma nova visão mais realista do Brasil, John Paul destaca o impacto limitado da falência de Eike, o tamanho e potencial da economia brasileira e a estabilidade do país mesmo com "uma vizinhança difícil", citando a Venezuela, Argentina e Bolívia.

Brasil é 3º do mundo em gasto com juro

Gustavo Patu
Folha de São Paulo

Mapa de indicadores fiscais elaborado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) mostra o gasto do Brasil com juros da dívida pública como o terceiro maior do mundo.

Entre dados coletados de praticamente todos os países, a despesa brasileira, equivalente a 5,7% da renda nacional, só perde para a da Grécia, mergulhada em crise financeira, e a do Líbano, cujas finanças são abaladas pelos custos de guerra.

Os números reunidos são, na maioria, de 2011. De lá para cá, os pagamentos aos credores da dívida pública caíram para 4,9% do Produto Interno Bruto, mas o país continua encabeçando rankings globais de taxas de juros.

A anomalia das contas brasileiras ajuda a entender por que, em relatório publicado na semana retrasada, o FMI discordou da tese do governo Dilma Rousseff segundo a qual a redução do endividamento nos últimos anos abriu espaço para afrouxar a política de controle fiscal.

Como aponta a administração petista, a dívida pública brasileira --equivalente a 65% do PIB no mapa do Fundo-- é inferior às de países desenvolvidos como Estados Unidos (103% do PIB), Japão (230%), Alemanha (81%) e França (86%).

O mercado credor, no entanto, trata diferentemente os devedores desenvolvidos, que emitem moeda forte, e os demais. Nos quatro países do exemplo, as despesas com juros variam de 0,9% (Japão) a 2,5% do PIB (França).

Já no mundo emergente, os governos mais endividados arcam com custos muito maiores. Índia e Egito, além do Brasil, figuram entre os que mais gastam com juros da dívida pública.

Não por acaso, o setor público brasileiro, a despeito do afrouxamento fiscal dos últimos anos, é um dos que mais poupam para o abatimento da dívida -outro argumento sempre invocado pela administração petista.

Na visão do FMI, porém, ainda é necessário mais aperto nas contas para reduzir a dívida e elevar a credibilidade do devedor. Dessa forma, a conta de juros poderia cair.

DIVERGÊNCIAS
Há ainda divergências entre o Brasil e o Fundo em torno do cálculo correto das dimensões e da evolução da dívida pública do país.

O governo brasileiro tradicionalmente trabalha com o conceito de dívida líquida, ou seja, descontando o valor dos créditos a receber. Por essa metodologia, o endividamento está em queda contínua como proporção do PIB.

Já o FMI considera que a evolução da dívida líquida está distorcida pelas manobras contábeis adotadas no Brasil, como a emissão de títulos públicos para injetar mais dinheiro nos bancos estatais.

Essa operação não aparece na dívida líquida porque, em tese, os recursos foram emprestados aos bancos.

Se considerada a dívida bruta, a melhora do indicador foi interrompida a partir de 2009, justamente quando a área econômica afrouxou o controle fiscal e passou a estimular o crédito para enfrentar os efeitos da crise econômica global.

O governo também discorda do cálculo do FMI para a dívida bruta. A conta brasileira deixa de fora os títulos públicos que são utilizados pelo Banco Central para a política monetária.

Argumenta-se que esses papéis são vendidos e comprados apenas para regular a quantidade de dinheiro na economia, e não para financiar o Tesouro.

Sem eles, a dívida seria de 54,2% do Produto Interno Bruto no mapa do FMI.

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“Mais de 73% da receita vai para pagamento de salários e benefícios” 


Comunicação Millenium

O economista Raul Velloso falou sobre os problemas de infraestrutura e das contas públicas no “I Colóquio de macrotendências da economia brasileira”, realizado pelo Instituto Millenium, Ibmec e Instituto Liberal. Segundo o especialista do Imil, 73,4% da receita vai para pagamento dos salários e benefícios de funcionários públicos. Assista!

Impostos e muitos papéis: como o Brasil sufoca seus empreendedores

Marcelo Sakate
Veja online

Nova edição de estudo do Banco Mundial mostra que o Brasil faz muito pouco para melhorar seu ambiente de negócios

(Fernando Cavalcanti) 
BUROCRACIA - Caito Maia, da Chilli Beans: 
“Ao contrário dos EUA, onde a lógica é movimentar a economia, 
no Brasil o governo dificulta a abertura de um negócio”
      
Há quatro anos, o empresário Caito Maia, dono da marca Chilli Beans, foi surpreendido por uma mudança nos trâmites burocráticos para a importação de mercadorias. Uma carga de 100 000 óculos procedente da China, onde são fabricados, ficou retida nos Estados Unidos durante três meses. Para evitar o desabastecimento, ele trabalha hoje com grande quantidade de produtos em estoque no Brasil. “É um pesadelo, porque preciso investir na compra dos produtos muito antes de receber o dinheiro das vendas”, conta Maia. A Chilli Beans nasceu em 1997 como uma barraca em feiras de roupas em São Paulo e hoje está em 580 lojas e quiosques no Brasil e em outros quatro países, incluindo os Estados Unidos. 

A marca não morreu pelo caminho, como ocorre com a maior parte dos negócios abertos no Brasil, mas sua trajetória teria sido ainda mais virtuosa se não fosse submetida a operar em um dos mercados mais hostis ao empreendedorismo no planeta. Barreiras às importações, burocracia e sistema tributário kafkianos, imprevisibilidade na execução de prazos e incertezas jurídicas são alguns dos obstáculos que devem ser superados, cotidianamente, pelos empresários.


O descompasso do ambiente de negócios brasileiro fica explícito no cotejo internacional. Enquanto outros países se esforçam para incentivar os investimentos, reduzindo a tributação e a burocracia, no Brasil o avanço nesse sentido é lento, como revelou a mais recente edição do estudo Doing Business (“fazendo negócios”), do Banco Mundial, divulgada na semana passada. Entre 189 economias analisadas, o Brasil aparece em uma modesta 116ª posição. 

O país é particularmente mal avaliado em aspectos como tributação e facilidade para abrir um negócio. Desde 2005, quando o ranking passou a ser divulgado, o avanço brasileiro foi insignificante. Já países como a Coreia do Sul e o Peru ganharam diversas posições no ranking. “Os governos ao redor do mundo estão cada vez mais conscientes dos benefícios trazidos por um ambiente regulatório que facilite os negócios”, afirma a economista Rita Ramalho, uma das autoras do estudo. 

Os sul-coreanos, por exemplo, reduziram o imposto sobre o lucro das empresas. No Peru, desde 2005, o número de dias necessários para abrir uma empresa caiu de 102 para 25. No México, os processos de insolvência demoram menos de dois anos para ser resolvidos, e 67% do dinheiro dos credores é recuperado. No Brasil, os trâmites se arrastam por quatro anos, e a taxa de recuperação dos recursos é de 20%.