Comentando a Notícia
Vamos ver se entendi direito: segundo entende o governo, do qual o senhor Guido Mantega é ministro da Fazenda, os gastos com seguro-desemprego estão muito elevados, muito além do previsto o que, segundo o ministro, sugere que haja fraudes. Segundo ainda o mesmo ministro, em razão do déficit das contas públicas, é preciso cortar gastos. Como o seguro-desemprego fugiu ao controle, e há indicativo de que se esteja praticando fraudes, é necessário dificultar a concessão aos desempregados. Assim, como o ministro aduz que estas fraudes estejam sendo cometidas pelos EMPRESÁRIOS, então ele resolve punir os desempregados, duplamente: uma, dificultando a concessão do benefício, e também porque o governo gastou demais, é preciso reduzir despesas e dê-lhe cacetada no lombo do trabalhador desempregado.
Quando o governo começou com esta ladainha de podar a concessão do benefício, obrigando os trabalhadores desempregados a se reciclarem num curso qualquer, a partir de um segundo pedido, comentei aqui que o governo deveria fazer o mesmo em relação ao Bolsa Família. Afinal, tem beneficiário pendurado no programa há 6, 7, 8, e até 10 anos. Convenhamos que é um tempo para lá de suficiente para alguém melhorar de vida a ponto de não mais precisar do benefício.
Alertei, ainda, que havia algo de estranho nesta história; se o país vive uma era de pleno emprego, não se entendia como os valores despendidos para pagamento do seguro desemprego haviam crescido tanto… E ainda coloquei que, das duas, um, ou o tal pleno emprego não era tão pleno assim, ou alguma fraude (e bilionária) estava sendo cometida.
Porém, o que não pode, é o ministro seguir os caminhos que estamos assistindo. Primeiro, não pode punir o trabalhador que perdeu o emprego dificultando-lhe a concessão do benefício; tão pouco pode acusar os empresários, de forma tão irresponsável e leviana, por uma fraude que precisa ser apurada se realmente está acontecendo, e em seguida, identificar corretamente quem são os criminosos. Acusar de forma abrupta como faz o senhor Mantega demonstra as razões pelas quais a condução da política econômica vem sendo feita aos trancos e barrancos.
E uma sugestão ao Ministro Mantega: já que ele está assim tão preocupado em cortar despesas para melhorar o resultado das contas públicas, ele poderia como que dar o exemplo em suas viagens nas asas da FAB. Por exemplo, substituir o variado menu servido a bordo, regado a canapés de caviar, camarão e salmão defumado, por sanduíches mais simples porque, afinal, quem paga a conta é o contribuinte, inclusive os desempregados a quem o ministro pretende podar a concessão do benefício.
Segue texto do jornal O Globo sobre as declarações do ministro Mantega.
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Fraude de empresários pode ter elevado gastos com seguro-desemprego, admite Mantega
Ministro vai receber sindicalistas no dia 7 para debater solução ao problema
SÃO PAULO - Fraudes cometidas principalmente por empresas devem estar por trás da disparada dos gastos com seguro-desemprego, admitiu hoje o ministro da Fazenda, Guido Mantega, depois de reunir-se com os dirigentes das principais centrais sindicais para discutir o assunto em São Paulo.
- Que existe fraude, todos nós sabemos. E temos que coibir. Me parece que a iniciativa é dos empregadores. Não acredito que seja iniciativa dos trabalhadores - disse Mantega.
Em razão disso, o governo agora vai “investigar profundamente” as causas do aumento das despesas com o seguro-desemprego e o abono salarial, que já somam R$ 47 bilhões este ano, ou 1% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o próprio Mantega.
- O seguro-desemprego aumenta atipicamente no Brasil, um país com níveis de pleno emprego - afirmou o ministro.
Os dados mais recentes de desemprego e do desembolso com o seguro mostram o desequilíbrio citado por Mantega. De acordo com os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na última semana de outubro, a taxa de desemprego ficou em 5,4% em setembro. Já de acordo com o Ministério de Trabalho e Emprego os pagamentos do seguro-desemprego em outubro somaram R$ 2,6 bilhões, valor R$ 1 bilhão superior ao pago pelo governo em setembro.
Um novo encontro com as centrais sindicais foi marcado para a próxima quinta-feira, quando os sindicalistas trarão uma proposta conjunta para reduzir os gastos com os dois benefícios.
Segundo o ministro, é preciso investigar se há excesso de rotatividade em uma economia que vive o pleno emprego e se existem fraudes de empresários, que estariam demitindo mas mantendo os empregados no quadro de trabalhadores informalmente.
- Queremos saber se a elevação (dos gastos com os benefícios) estão sendo em favor dos trabalhadores, ou se, por trás disso, tem aumento da rotatividade e problemas com fraudes que podem estar sendo cometidas por empresas que demitem para pagar por fora - reforçou o ministro, emendando que “não há nenhuma intenção do governo em reduzir os benefícios dos trabalhadores”.
O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, disse que no próximo encontro as centrais não querem discutir apenas o seguro-desemprego, mas também outros temas como a revisão da tabela do Imposto de Renda (IR).
- Essa convocação partiu do Mantega. Fazia tempo que o governo não chamava os sindicalistas para nos ouvi-los. Mas não vamos discutir somente essas questões pontuais. Queremos discutir a situação do trabalhador - disse Freitas.