Adelson Elias Vasconcellos
Uma das coisas mais chatas quando se comenta qualquer coisa sobre política, e especialmente política brasileira, é sermos obrigados a chamar uma autoridade pública de mentirosa e farsante. É chato porque nossa classe política já tem um conceito tão ruim perante a sociedade, sua reputação anda tão abaixo da crítica, que precisar, porque os fatos assim impõem, ter de vir a público desmascarar uma autoridade pública, mostrando o tamanho de sua mentira, chega a ser constrangedor.
Estou me referindo especificamente ao ex-presidente Lula e sua da atual presidente, senhora Dilma Rousseff.
Ambos encenaram algo lamentável. É incrível a capacidade destas duas personagens da vida pública para distorcer fatos e contar lorotas. Houve um tempo que até me indignava com tamanha falta de compromisso com a verdade, e não verdade qualquer, mas episódios concretos, consagrados, e de conhecimento amplo das pessoas.
Encenaram uma peça de ficção na comemoração dos 10 anos do Bolsa Família. Começo pela desfaçatez, até para não ir mais longe, da senhora presidente que, com a cara mais deslavada do mundo afirmou, sem mais nem porque, que não DNA tucano na criação do Bolsa Família. Alguém precisa ou emprestar uns óculos para senhora dona presidente, ou estender-lhe uma cópia da Medida Provisória assinada por Lula e que originou na criação do Bolsa Família. Acho que isto seria suficiente para uma senhora, já avó, passando dos 60 anos, criar vergonha na cara e parar de mentir para o povo e para si mesma.
Contudo, no presente, chego a achar engraçado deste desespero todo em assumir a paternidade de um programa social que teve origem no Comunidade Solidária, criada pela então esposa do presidente FHC, dona Ruth Cardoso, já falecida. Aliás, o Comunidade Solidária foi o nascedouro de um leque de 12 programas sociais, cinco dos quais foram englobados sob a bandeira do Bolsa Família. Basta ler, sem má fé e sem preguiça, a Medida Provisória e ponto final. Como é constrangedor termos que assistir uma presidente da república mentir com tamanho despudor…
Inclusive, seria de se desafiar a dona Dilma a fazer em público a leitura da MP, se ela tivesse um mínimo de apego à verdade. Mas, por certo, ela não faria, arranjaria uma desculpa qualquer para não se desmoralizar.
Quanto ao discurso do valentão Lula, teve de tudo, até a tentativa canalha de reescrever a história. Lula adora exibir números de seu governo comparando-os com os do governo FHC.
Já disse várias vezes que Lula usa uma trucagem muito cretina. A comparação distorce os fatos. A melhor comparação a ser feita seria ver o governo que FHC recebeu de Itamar Franco com o que ele entregou para Lula. Reside aí a grande diferença entre ambos. Na economia, tanto quanto no social, o governo Lula é uma cópia melhorada do governo FHC. Nada muito além disto.
Era para o ex falar sobre o Bolsa Família, mas ele se valeu do momento para atacar Marina Silva que, aliás, por enquanto, nem candidata é à sucessão de Dilma. E por que o ex se expôs ao ridículo? Simplesmente porque as pesquisas apontam a ex-senadora como a mais forte candidata (ou pré-candidata) na corrida presidencial. Então dê-lhe marreta, dê-lhe impropérios, dê-lhe desqualificação. Lula, tivesse caráter e escrúpulos, não faria tamanho papelão em público. Mas, neste caso, não seria quem é...
Aliás, tivesse caráter e escrúpulos, teria se recusado em ser homenageado pelo Congresso pelo 25 anos da promulgação da Constituição, que ele renegou e só permitiu assinar, ele e seus companheiros do PT, sob “ressalvas”.
A certa altura da tal solenidade palanqueira, Lula lembrou-se que ali o foco era o Bolsa Família e seus 10 anos de existência. E, para não variar, esqueceu como ele próprio qualificava os programas sociais antes de virar presidente, e discorreu uma ladainha estúpida e mentirosa.
Para que a gente possa medir o discurso de agora, com o de antes, assistam o vídeo abaixo. Em seguida, complemento.
Eis aí. Por que posições tão divergentes? Porque Lula, quer porque quer ser considerado o Pai dos Pobres, quer ser o gênio da criação, aquele que fez a luz e fez nascer o maior programa social do planeta. A ele, pouco importa a coerência. Quanto mais repetir as mentiras que conta mais entende que acabará convencendo o público de que as mentiras são, no fundo, pura expressão da verdade. Sabemos bem qual é esta tática que, aliás, nem nova é, vem do tempo do nazismo.
Assim, mesmo que outro tenha criado os programas que ele, mais tarde, reuniu em um, sob outro rótulo e nome, ele quer a primazia e todos os créditos. Já provamos aqui que foi a partir do leque de programas sociais criados pelo Comunidade Solidária, que os indicadores passaram a ter vertiginosa melhora. É só alguém pegar as estatísticas do IBGE e observar que a curva começa a sofrer uma brutal melhora somente a partir de 1995. Em 2003, claro, os indicadores continuaram melhorando como vem acontecendo até hoje. Afinal, os programas, mesmo que reunidos em apenas um, continuam provocando melhoria na qualidade de vida das pessoas, como desnutrição infantil, mortalidades materna e infantil, trabalho escravo infantil. No campo da educação, foi a partir do Bolsa Escola, que obrigava os beneficiários a matricularem e manterem frequência de sues filhos nas escolas, que o ensino fundamental universalizou-se. Nada disto é novidade. São fatos medidos e comprovados. E, nem por isso, Lula abandona o velho de mentir e tentar cumprimentar o povo com o chapéu alheio.
Infelizmente, boa parte da intelectualidade e imprensa brasileiras cai neste abismo de mistificações criado por Lula e não o confronta com ele mesmo. Da mesma forma, acontece com Dilma Rousseff.
Enquanto este pensamento tosco e avesso à verdade se mantiver sem ser contradito com veemência, enquanto Lula e Dilma forem poupados de si mesmos, e a eles forem apregoadas conquistas que pertencem a outrem, contra quem aliás se contrapuseram com absoluta estridência, eles não tem autoridade moral para falar em Comissão da Verdade. Uma comissão que quisesse de fato saber e conhecer a verdadeira história do país, jamais poderia nascer de dois contumazes e compulsivos mentirosos. Não é a toa que, hoje, tem celebridade fazendo ferrenha defesa da censura prévia no país. Não é a toa que o Legislativo se transformou em uma pocilga, verdadeira confraria de salafrários e pervertidos. Como, ainda, não é a toa que o país vive uma baderna sem fim, com a violência se estendendo por todos os rincões, sem que o poder público demonstre um mínimo em coibir e reduzi-la à menor expressão possível.
Todos estes agitadores e bandidos do quebra-pau não passam de meros capachos dos donos do poder. Enquanto a baderna corre solta, ele se recolhem, em seus palacetes para se locupletarem. E é assim que vamos andando para trás, como nação, porque cindida em vários guetos, e como civilização, porque abraçamos a barbárie e selvageria como valores da democracia.
Quanto a chamar de hipócritas quem chama o bolsa família de “esmola”, há que se colocar algumas considerações. Quem é que chama de esmola? Largar de forma irresponsável e leviana uma acusação vazia dá bem o tom da pobreza de espírito do ex. Além do mais, quem, em plena campanha de 2002, chamou de “esmola” e que as bolsas deixam o pobre vagabundo, como se vê no vídeo acima, foi o próprio Lula. Ora quem é o hipócrita meu senhor? Quem é o falsário? Quem é leviano e falta com a verdade? Quem é que nunca reconheceu os méritos dos adversários e tentou durante anos sabotar todos os governos democráticos que o antecederam?
Como seria bom para o país e salutar para a democracia se a imprensa e intelectuais em massa, se dedicassem a desconstruir as impostura deste senhor. Além de repor a verdade no seu devido lugar e no lixo as mentiras que este cidadão não se farta de esparramar, serviria como um norte moral para o Brasil e os brasileiros recobrarem o bom senso, o respeito às leis, a devida consideração a boa moral da qual o país tanto sente falta.
Portanto, o hipócrita que veio a público chamar as bolsas de esmola foi o senhor Lula que, hoje, de forma cínica e inescrupulosa, tenta colar seus erros nos outros.
Quanto às críticas que são feitas ao Bolsa Família, que é o fato de não oferecer portas de saída do paternalismo estatal, não tem o dom de desqualificar o programa em si. Um exemplo do quanto faltam tais portas, e para os quais o governo petista não tem demonstrado o menor interesse em criá-las, é o fato de que, dez anos depois de sua criação, o programa mantém pessoas com igual tempo de gozo do benefício. E isto, sim, demonstra que o uso do programa tem sido puramente eleitoreiro. Tem sido usado como moeda de troca na compra de consciências.
As críticas, portanto, não tem a pretensão de acabar com o programa. Buscam, antes de mais nada, alertar o governo que um programa para ser social precisa ter começo, meio e fim. Até aqui, o Bolsa Família tem mantido o pobre menos miserável. Imaginar que, com R$ 70,00 mensais, alguém saia da miséria, é não conhecer o que vem a ser miséria. Para ser social, o programa precisa servir de trampolim para o cidadão deixar de ser beneficiário. Portanto, o programa estaria se realizando como social, se ao invés de multiplicar seus beneficiários como vem acontecendo desde sua criação, pudéssemos perceber redução deste número, o que significaria que mais pessoas conseguiram superar o degrau mais ínfimo da escola sócio-econômica.
Da forma como vem sendo conduzido, é inegável que o programa tem se convertido como uma forma de perenização da pobreza. O sujeito nem é miserável, mas também não deixa de ser pobre. Por quê? Porque o programa não estende escada de acesso para esta emancipação. Nas críticas, Lula deveria ver o interesse de que o programa se aperfeiçoe, se complemente, se torne, efetivamente, um programa social, e não um auxílio assistencialista com propósitos exclusivamente eleitoreiros. E não é no berro que Lula vai calar alguém.