quinta-feira, janeiro 20, 2022

Economia tem pouco a comemorar no Bicentenário

 Alexander Busch*

ColunaTropiconomia

O Brasil teve forte crescimento em apenas 50 dos 200 anos que passaram desde que se declarou independente de Portugal. No resto do tempo, a economia ou estagnou, ou encolheu. Qual é o motivo para esse desempenho fraco?

 Foto: Felipe Dana/AP/picture alliance

"Brasil cresceu em apenas 50 dos 200 anos transcorridos desde sua independência"

Este ano, em 7 de setembro, o Brasil comemora os 200 anos de sua independência. Do ponto de vista econômico, o balanço desses dois séculos é modesto. Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, demonstrou recentemente esse fato com uma análise estatística, segundo a qual o Produto Interno Bruto da população brasileira, de cerca de 5 milhões de pessoas em 1822, equivalia mais ou menos à metade do PIB dos americanos no mesmo ano. Um terço do povo brasileiro era escravizado.

Cem anos depois, a população cresceu para cerca de 30 milhões de pessoas. Com o café e a borracha, o Brasil viveu um boom de exportações. Mas a produção econômica havia encolhido para parcos 18% do PIB americano.

A partir de 1930, com o início da industrialização, começou a fase de crescimento mais longeva do Brasil até hoje. O país foi industrializado, aberto para a infraestrutura, cidades brotaram, também no interior. O Estado investiu maciçamente em megaprojetos como a Usina de Itaipu ou a fabricante de aeronaves Embraer. Alguns desses projetos tiveram sucesso. Muitos fracassaram.

Essa fase de crescimento durou meio século, até 1980, ano no qual foi registrado o pico do rendimento dos brasileiros em comparação com o dos americanos. Mesquita estima que o PIB per capita dos brasileiros era de 30 a 40% em comparação com o dos americanos. Desde então – principalmente nos últimos dez anos –, voltou a encolher para cerca de 25% do PIB americano.

O economista-chefe do Itaú Unibanco vê a abertura inexistente do país e o consequente protecionismo como motivo decisivo para o fraco desempenho do Brasil no contexto internacional.

No jornal Valor Econômico, Mesquita escreve que "o modelo de crescimento acelerado baseado em substituição de importações e liderado pelo Estado, que selecionava, protegia e financiava os chamados 'campeões nacionais'" é a razão para a estagnação econômica.

Eu vejo as coisas de maneira um pouco diferente.

Certamente, o isolamento de sua economia e a subvenção de empresas individuais é um motivo importante para explicar a falta de dinâmica na economia brasileira. Mas não é o motivo decisivo.

É que modelos similares já funcionaram relativamente bem na Ásia, a exemplo da Coreia do Sul. Com incentivos estatais direcionados a "campeões nacionais" e longos anos de substituição de importações, Seul criou uma indústria com capacidade para alto desempenho. O PIB per capita no país deixou o brasileiro para trás.

Mais decisivo, na minha visão, é que o Brasil sempre só incluiu uma pequena parte da população em sua economia. Isso começou nos tempos coloniais, com a escravidão. Até hoje, porém, a maioria da população é excluída ou participa da economia apenas marginalmente.

Há poucas possibilidades de ascensão para a maior parte dos brasileiros: a má qualidade do ensino público e do sistema de saúde, a segurança pública ausente e a infraestrutura fraca impedem que a maioria da população tenha chance de se integrar na produção econômica.

Isso vale principalmente para a grande fatia afrodescendente da população (56%) e também para os 30 milhões de brasileiros que têm apenas até um salário-mínimo à sua disposição. Quem não consegue obter uma educação também ganhará pouco dinheiro e nunca conseguirá consumir de forma a catalisar um salto de desenvolvimento na economia.

Enquanto a elite brasileira – ou seja, as classes média e alta – dividir entre si os cargos públicos administrativos e nas empresas estatais, além dos postos nos conselhos administrativos e cargos de diretoria nas empresas privadas, o Brasil continuará crescendo abaixo de seu potencial.

Apesar de todos os avanços e tentativas das últimas duas décadas, o Brasil está cada vez menos preparado para a transformação digital da sociedade e da economia que acontece atualmente no mundo todo.

Há pouco a comemorar nas celebrações do bicentenário da Independência.

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Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.


Distorções do sistema estatal

 Gazeta do Povo

Editorial

 Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senad

Esplanada dos Ministérios.| 

A filosofia ensina que a evolução do conhecimento começa com as perguntas clássicas “O quê? Por quê? Como? Para quê?” e que nada está isento de submeter-se ao questionamento constante – sobretudo as instituições sociais, que são invenções humanas e imperfeitas por definição. As distorções nos governos e nos sistemas estatais ao redor do mundo são de tal ordem elevadas que se tornou premente as instituições públicas passarem pelo escrutínio daquelas perguntas clássicas e, ato contínuo, haveria melhora no controle social sobre o aparelho estatal como entidade coletiva para servir à sociedade, e não servir-se dela. A tarefa deve começar por uma pergunta: para que o Estado foi inventado?

Há diversas formas verbais de responder a essa questão. Uma é que o aparelho estatal foi inventado para defender a vida, a propriedade, a liberdade e a segurança dos cidadãos, sendo-lhe concedidos poderes para exercer as funções de defesa nacional, justiça, segurança interna, preservação do meio ambiente, normatizar as regras de convivência entre os membros da sociedade e administrar a justiça. Não é muito antiga a extensão do braço estatal na execução de outros serviços de interesse coletivo, como educação, saúde, saneamento e obras de infraestrutura necessárias ao funcionamento da economia. O custo total do funcionamento da estrutura estatal requerida para executar tantas tarefas deve ser pago pela sociedade, ou seja, pelas duas entidades econômicas privadas: as pessoas e as empresas, incluindo no conceito de “empresa” toda instituição privada que execute atividade de caráter meramente econômico ou social com fins lucrativos ou não.

Após as duas grandes guerras mundiais, os estatizantes promoveram o crescimento desmesurado e distorcido do setor estatal e o transformaram em um monstro intervencionista possuidor e controlador de grande parte da estrutura econômica

Nos últimos dois séculos, o aparato estatal e seu braço executivo, o governo, aprofundaram progressivamente sua depauperação econômica (pela ineficiência gerencial e distorção alocativa dos recursos), degeneração moral (pela corrupção) e distorção social (pela captura das instituições públicas por grupos políticos e corporações estatais). Após as duas grandes guerras mundiais, os estatizantes promoveram o crescimento desmesurado e distorcido do setor estatal e o transformaram em um monstro intervencionista possuidor e controlador de grande parte da estrutura econômica, como rodovias, ferrovias, bancos, siderúrgicas, metalúrgicas, mineradoras, usinas de energia, telefônicas, portos, aeroportos e instituições tidas como sociais, a exemplo de escolas, hospitais, seguros, previdência e assistência social. Embora tenha havia certa diminuição relativa nas últimas três décadas, o gigantismo estatal aumentou progressivamente a carga tributária sobre a sociedade privada de tal forma que, mesmo superando um terço da renda nacional, os tributos deixaram de ser suficientes para pagar todo o mastodonte estatal.

Diante da insuficiência dos recursos tributários para cobrir toda a conta dos gastos públicos, as formas encontradas pelos governantes para arrumar mais dinheiro foram duas: emissão de moeda e endividamento governamental. Qualquer estudante de Economia sabe que fabricação de dinheiro e endividamento estatal são duas fontes perigosas e nocivas se ultrapassarem determinados limites, que são muito estreitos. Os limites não foram observados na maior parte dos países e já nos anos 1970 se notavam os efeitos negativos e empobrecedores das nações que abusaram de emissão monetária e endividamento, cujos efeitos mais visíveis foram inflação, elevação de juros e baixo crescimento econômico.

É sabido que há problemas que fogem à capacidade individual dos cidadãos para sua solução, a começar por eventos de natureza, como catástrofes naturais (terremotos, tsunamis, pandemias) e tragédias produzidas pela ação humana, como as guerras. A solução desses eventos exige ação coletiva, para o que é preciso a atuação de uma instituição pública capaz de agregar a população em torno de planos e ações com potencial para pôr fim ao flagelo em questão. Ocorre que, sobretudo na América Latina, tem sido quase impossível qualquer calamidade humana, por mais dramática que seja, não padecer de duas desgraças quando alguma ação governamental é implementada para sua solução: a ineficiência e a corrupção.

Aqui no Brasil, são repetitivos os casos de fraudes, superfaturamentos e subornos recebidos por políticos e burocratas estatais envolvendo gastos para enfrentar tragédias humanitárias graves. Casos de corrupção e desvios de recursos na ocorrência de enchentes, inundações, compras de ambulâncias e remédios para comunidades pobres, e até mesmo em licitação para aquisição de caixão de defunto para enterrar indigentes, são alguns exemplos de que a indecência moral e o comportamento criminoso e desumano não têm limites morais. A esse conjunto de problemas junta-se outro, que dificulta a redução das desigualdades sociais: os salários, benefícios, aposentadorias e privilégios pagos nos três poderes e o inchaço de funções tornaram-se fonte de concentração de renda – e isso já foi dito e publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do governo federal. Ressalve-se que no próprio setor estatal há distorções entre as categorias de servidores, com várias delas recebendo salários baixos enquanto outras são regiamente remuneradas, muito acima da média de cargos semelhantes na iniciativa privada.

Seguramente, a descrição das distorções no setor estatal é necessária, sobretudo em época de eleições, cuja sequência deve ser a propositura de soluções para os problemas, o que depende de cobrança pela sociedade e debate entre os políticos representantes da população. Isso é trabalho de longo prazo, pois não há solução fácil e rápida para desmontar estruturas e práticas que nasceram e cresceram erradas, grande parte delas sob o amparo da lei.


Chamado às falas

 Dora Kramer 

Veja online

O diretor presidente da Anvisa deu a senha sobre a melhor maneira de combater as malfeitorias do presidente da República

   Jefferson Rudy/Ag. Senado

Antonio Barra Torres fez mais que chamar às falas 

e enquadrar Jair Bolsonaro aos bons costumes 

Antonio Barra Torres fez mais que chamar às falas e enquadrar Jair Bolsonaro aos bons costumes ao pedir que provasse ou se retratasse das insinuações sobre os propósitos da Anvisa ao autorizar a vacinação de crianças contra a Covid. O diretor presidente da agência deu a senha sobre a melhor maneira de combater as malfeitorias do presidente da República.

Perde-se tempo, energia e a chance de celebrar uma aliança entre civilidade, boa governança e eficácia político-elei¬toral ao se optar por ataques de adjetivos. Isso havendo uma enorme quantidade de razões substantivas as quais o dito adversário não consegue enfrentar.

Chamar Bolsonaro de genocida, homofóbico, racista e ir cuidar dos afazeres como se cumprida a tarefa de fazer oposição na base do insulto é jogar na arena da grosseria em que ele foi criado e treinado. Um campo onde é imbatível.

Esse filme esteve em cartaz em 2018 e já sabemos quem sobreviveu (e quem morreu) no final. Usaram-se muitas palavras em relação ao passado do então deputado, mas não se fez a contestação de conteúdo à capacidade de governar do candidato a presidente nem ao modo como iria lidar com as questões urgentes do país.

Jair Bolsonaro não saberia como rebater esse tipo de cobrança, conforme ficou comprovado ao longo dos três anos de governo nas ocasiões em que foi tratado com objetividade e serie¬da¬de, a exemplo da reação do almi¬ran¬te da reserva, o médico Barra Torres, que não emitiu um som acima do limite da boa educação e, ainda assim, deixou Bolsonaro sem resposta.

O presidente não se retratou nem comprovou. Apenas balbuciou um queixume sobre a “agressividade” da reação de Barra Torres e renovou suas insinuações genéricas. “Algo há” por trás na Anvisa, disse ele, faltando alguém lembrar que, se “algo houve” em termos de interesses escusos nas vacinas, ocorreu no Ministério da Saúde, conforme relevado pela CPI da Pandemia.

Quanto a essa questão, o presidente nunca deu resposta. Preferiu se recolher ao quentinho da teoria da perseguição. É praxe: quando a realidade se impõe e é trazida à luz, Jair Bolsonaro se retrai. Pode até dar uma leve estrebuchada, mas em geral se cala ou ameniza.

“A maneira mais eficaz de lidar com Bolsonaro é enquadrá-lo 

aos bons costumes da civilidade”

O presidente silenciou diante da determinação ao comandante do Exército, general Paulo Sérgio de Oliveira, de cobrar a vacinação como pré-requisito à volta ao trabalho da tropa, que, pela regra, está também impedida de disseminar notícias falsas.

Circulou uma ideia de divulgação de nota para aplacar a irritação do presidente, mas não foi adiante. A risca de giz traçada pelo general enquadrou Bolsonaro, que dentro dela ficou.

Circunscrita a limites também ficou a valentia de Bolsonaro ao pedido de socorro a Michel Temer quando o Supremo Tribunal Federal avisou ao Planalto que o preço do avanço dos atos presidenciais no 7 de Setembro seria o STF chancelar um pedido de impeachment à Câmara dos Deputados.

Ao seu jeito (meio torto), o Congresso também colocou freios no presidente. Pesquisa da Fundação Getulio Vargas-SP, publicada na Folha de S.Paulo, mostra que Bolsonaro foi o presidente que menos impôs sua agenda ao Legislativo.

De acordo com a pesquisa, o atual presidente teve mais medidas provisórias recusadas que todos os antecessores, embora tenha sido recordista na apresentação de MPs. É também o governante com o índice mais elevado de vetos derrubados, dez até agora. Lula teve zero; Dilma, três, o mesmo número de Temer. Isso sem contar a paralisação da dita pauta conservadora de costumes.

Pode-se dizer aí que Bolsonaro foi enquadrado à realidade, embora não necessariamente pelos melhores e mais adequados motivos. Fato é que acabou cedendo às exigências da “velha política” naquilo que o conceito tem de pior, refém de um grupo cuja principal característica é a lealdade aos detentores do poder. Mais ainda àqueles que representam mais expectativa de poder.

As pesquisas de opinião hoje não asseguram essa condição ao presidente da República. Ao contrário, mostram gradativa e persistente perda nos índices de avaliação positiva de desempenho no governo, com reflexo na futura performance nas urnas.

Em larga medida por causa de um outro ponto em que a realidade chamou às falas Jair Bolsonaro: a distância que o presidente estabeleceu entre sua teimosia negacionista no manejo da crise sanitária e a obediência cívica do brasileiro aos ditames da vacinação em movimento espontâneo de autopreservação da vida.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 19 de janeiro de 2022, edição nº 2772



Dindin, um pro voto e um pra mim.

 Carlos Brickmann

 


Lembra-se da última eleição, em que jorrava dinheiro para todos os lados (menos para o nosso, a quem cabia apenas votar)? Pois bem: já se decidiu que na próxima eleição, em outubro, vai jorrar quase o triplo da já bilionária quantia. E, “para não desobedecer à Lei”, já se pensa em abolir o “quase”: a grana que vai jorrar será exatamente o triplo da que jorrou da última vez. E haverá um chorinho: anúncios de graça à vontade fora do horário gratuito.

Detalhe: como de hábito, quando se trata de nosso dinheiro, há um acordo entre os partidos. Todos os políticos que acusam os outros de ser ladrões, em conjunto, decidem provar que têm razão.  Centrão, direita, esquerda, a favor ou contra a vacina, enfiam as mãos, todos juntos, em R$ 5,7 bilhões.

E para que? A verba original, de R$ 1,9 bilhões, já era suficiente para dar boa vida a todos os aliados que se fingem de adversários, exceto na hora de botar a mão no pudim. Mais do que suficiente: com essa verba toda, valeu a pena criar mais de 30 partidos, folgadamente mantidos com nosso dinheiro. Se o pudim já era muito, por que chamar a atenção e multiplicá-lo?

Política tem dessas coisas. Certa vez, uma empresa gráfica ofereceu a um candidato toda a papelaria da campanha, a preço de custo: só cobraria papel e mão de obra, com lucro zero. Seria sua contribuição para o candidato. Na primeira entrega, vieram dois milhões de folhetos. Problema: o tesoureiro não era ladrão. Era sério e acreditava no candidato. Estragou tudo!

Contando e pesando

Primeiro, segurou os caminhões no comitê para conferir a entrega. Como? Abriu dois pacotes, cada um com presumíveis mil folhetos, para contar o conteúdo. Cada um tinha 700 folhetos. Pesou-os. Em seguida, pesou cada um dos pacotes restantes. O peso era o mesmo. Em resumo, os dois milhões de folhetos “a preço de custo” eram 1,4 milhão, a preço de dois milhões. O “lucro zero” era de mais de 30%, excelente margem.

Mas como é que fariam a mutreta funcionar, sabendo-se que o comitê era formado por gente do ramo, habituada a negócios? Simples: parte dos ótimos lucros da gráfica era usada para cimentar o bom relacionamento da empresa com os políticos. Quanto mais dinheiro houver, mais folhetos e maiores demonstrações de amizade.

A letra da lei

A desculpa para aumentar a fortuna já prevista para as eleições é que o Orçamento de 2022 previa R$ 4,9 bilhões de dinheiro para a campanha, mas a LDO, Lei de Diretrizes Orçamentárias, citava R$ 5,7 bilhões. Gastar menos do que o previsto pela LDO seria descumprir a lei, entende? Não pode, isso é muito feio. Entretanto, a lei determina também a revisão anual do desconto de Imposto de Renda na fonte, e isso não é cumprido faz tempo. Se essa lei fosse aplicada direitinho, em 2022 mais de 15 milhões de pessoas não teriam mais de pagar Imposto de Renda. Como isso beneficia a população e não dá lucro à turma que exige que outras leis sejam cumpridas, essa é esquecida.

Repondo a verdade

Nos próximos dias, o presidente Bolsonaro vai provar que é falsa a ideia de que não gosta de mineiros e baianos, tanto que não foi uma vez sequer às regiões inundadas e se recusou a interromper suas férias nas deliciosas praias de São Francisco do Sul para cuidar das aflições dos cidadãos que deveria governar.

Pois Bolsonaro vai desmentir tudo isso: já tem viagens marcadas à Guiana e a Suriname, e a rota do avião presidencial passa por Minas Gerais e Bahia – a uns 10 mil metros de altura, a uns 900 km/h de velocidade, mas usará o espaço aéreo dos dois Estados. E que vai fazer nos dois países que fazem fronteira com a Amazônia? Dizem que ambos descobriram amplas reservas de gás natural, que poderiam fornecer ao Brasil. Mas diziam também que Israel tinha desenvolvido um remédio nasal para Covid 19, isso há aproximadamente um ano, o Brasil mandou uma delegação para lá e só então souberam que os testes só estavam sendo iniciados. Até hoje o remédio que o presidente mandou buscar infelizmente não ficou pronto.

Boa notícia

Mais um remédio efetivo contra a Covid está chegando ao mercado. Um brasileiro que vive em Israel o tomou e melhorou rapidamente. É feito nos EUA pela Pfizer. Um dia, quem sabe, será utilizado aqui no Brasil.

Volta por cima

A partir de amanhã, Fausto Silva estará de volta à TV, pela Bandeirantes, de segunda a sexta-feira, a partir das 20h30. Faustão na Band será um programa diferente todos os dias. Com Faustão haverá dois apresentadores, seu filho João Guilherme Silva e Anne Lotterman, que deixou a Globo para auxiliá-lo; trinta bailarinas no palco; e 400 pessoas no Auditório João Jorge Saad, moderníssimo, preparado especialmente para o programa.

Este colunista acompanha Fausto Silva desde que ele era repórter de campo de Osmar Santos. E na TV Gazeta, na Bandeirantes, na Globo. E sempre apresentou conteúdo de qualidade, sempre apreciado pelo público.

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A importância das agências independentes

 Editorial

O Estado de São Paulo

De maneira incontestável, a pandemia tem evidenciado a importância das agências reguladoras, em especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Sem uma instância técnica independente na área da saúde pública, tendo que depender das disposições do presidente Jair Bolsonaro, talvez o País tivesse começado o ano de 2022 sem dispor ainda de nenhuma vacina contra a covid-19 aprovada. Certamente, sem uma Anvisa independente, não teria sido aprovado nenhum imunizante para crianças e adolescentes. 

A independência das agências reguladoras é um importante limite para o exercício arbitrário do poder, tanto por parte do Executivo como também do Legislativo. Mais de uma vez, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a inconstitucionalidade de leis que autorizavam o uso de substâncias para fins médicos, sob o argumento de que o Congresso não dispõe de competência técnica para realizar tais liberações e, portanto, ao atuar assim colocava em risco a saúde da população. No ano passado, por exemplo, o Supremo declarou inconstitucional a Lei 13.269/2016, que tinha autorizado a distribuição, sem o devido registro sanitário, da fosfoetanolamina, conhecida como a “pílula do câncer”. 

Ao mostrar de forma tão contundente a importância das agências reguladoras, o atual cenário confirma não apenas a inaptidão de Jair Bolsonaro para o cargo que ocupa. Sem poder interferir na Anvisa, o presidente da República optou por disseminar dúvidas, sem nenhum fundamento, sobre a honestidade dos funcionários e diretores da autarquia. As circunstâncias atuais relembram também a profunda incompreensão do PT sobre o papel das agências reguladoras. 

Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o partido de Lula fez ferrenha oposição no Congresso contra as propostas para a criação das agências e para sua independência. O lulopetismo, que nunca foi um especial defensor da necessidade de esferas de competência dentro da estrutura estatal, enxergava nas agências uma indevida limitação do poder político. 

Nos governos petistas, as agências reguladoras foram relegadas e desprezadas. Houve vários atrasos, tanto no repasse de verbas como nas indicações de pessoas para as diretorias, que dificultaram o bom funcionamento dessas autarquias. O desfalque nos órgãos dirigentes tornou-se fato habitual. No governo de Dilma Rousseff, teve cargo desocupado por mais de três anos. 

O desleixo lulopetista foi de tal ordem que uma Proposta de Emenda Constitucional (a PEC 57/2015) foi apresentada no Senado com o objetivo de fixar prazos para o presidente da República indicar, entre outros cargos, diretores das agências reguladoras e de tornar crime de responsabilidade o seu descumprimento. A PEC 57/2015 acabou não indo adiante, mas a desídia do PT com as agências reguladoras entrou para a história. 

Eis aqui, portanto, mais um tema a merecer a retratação de Lula e de seu partido. Há vacinas contra a covid aprovadas no País, assim como outras decisões que talvez desagradem ao Palácio do Planalto, porque o governo de Fernando Henrique Cardoso dedicou os necessários esforços de estudo, planejamento e articulação política para a aprovação pelo Congresso das agências reguladoras; entre elas, a Anvisa. Tivesse prevalecido a visão do PT sobre o funcionamento estatal, a saúde do País estaria hoje à mercê de Jair Bolsonaro. 

O papel fundamental da Anvisa no enfrentamento da pandemia remete diretamente à importância das reformas estruturantes. Muitas vezes, marcos jurídicos adequados produzirão efeitos decisivos muitos anos depois. Não são empreitadas de curto prazo. Quem diria que a conversão em lei de uma medida provisória (a MP 1.791/1998), em janeiro de 1999, seria fundamental para que a população pudesse dispor de vacinas contra uma doença que paralisaria o mundo mais de 20 anos depois? A Lei 9.782/99, que criou a Anvisa, é o resultado desse trabalho em conjunto do Executivo e Legislativo. 

Lula e Bolsonaro ainda não entenderam, mas a responsabilidade produz frutos.


A vacina é legal

 Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Os canadenses da província de Québec deram a maior bandeira: o número de vacinados com a primeira dose disparou depois que o governo local baixou a regra segundo a qual o cidadão só poderia comprar álcool e maconha apresentando o passaporte da vacina. Note-se: lá a maconha é legal até para “fins recreativos”, ou seja, para um baseado.

Não vai aqui nenhuma crítica aos moradores de Québec, mesmo porque, certamente, é a minoria que consome bebidas e a erva. Ok, pode ser uma minoria expressiva, não importa. O objetivo é mostrar como os governos pelo mundo têm sido criativos na tarefa de estimular ou mesmo forçar a vacinação.

Ainda em Québec, o primeiro-ministro François Legault avalia cobrar um imposto dos não vacinados. Argumenta que eles adoecem mais e transmitem a Covid-19 a um número maior de pessoas, tudo isso sobrecarregando a rede pública de saúde. Logo, como geram mais gasto público, devem pagar por isso.

O mesmo princípio foi adotado pelo primeiro-ministro da Alemanha, o social-democrata Olaf Scholz, quando sugeriu que a vacina deveria ser obrigatória para todos os adultos. De novo, os não vacinados geram custos públicos e sociais. A medida vai a debate no Parlamento.

O princípio é o seguinte: liberdade e direitos individuais têm limites. O cidadão não pode recusar a vacina e sair por aí infectando os outros, sobrecarregando a rede de saúde. Simples assim: se o exercício de um suposto direito individual fere o direito dos outros e prejudica a sociedade, então prevalece o direito dos outros e da sociedade.

A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou uma portaria do presidente Biden que impunha regras para as empresas com mais de cem empregados. Pela norma, a empresa deveria exigir certificado de vacina dos funcionários. Os que se recusassem deveriam fazer teste semanalmente.

A decisão foi por seis votos a três, claramente dividida entre juízes conservadores e progressistas, estes lá chamados de liberais. Os conservadores valorizam mais os direitos individuais, e os progressistas o interesse coletivo e social. A decisão, entretanto, baseou-se num argumento, digamos, técnico. O presidente não teria o poder de baixar aquela portaria sem autorização do Congresso.

Certo, mas o debate nos EUA não raro cai nesse ponto. O cidadão tem o direito de escolher entre vacinar-se ou não?

A resposta totalmente correta seria esta: tem o direito, mas o não vacinado por opção não pode circular onde cause o risco de transmitir o vírus. E, se ficar doente, os custos do tratamento não serão cobertos pelo setor público nem pelos seguros privados.

A questão está longe de ser atual. No Brasil, já houve uma revolta sangrenta contra a obrigatoriedade da vacina da varíola, em 1904.

A lei foi suspensa, mas um novo surto de varíola no Rio levou a população a correr aos postos de vacinação. Hoje, os brasileiros mostram forte adesão às vacinas e, por isso, entre outros motivos, desaprovam cada vez mais o presidente Bolsonaro e seu ridículo negacionismo.

Mas, como subsistem aqui e ali resistências à vacina, é preciso criar regras que forcem a imunização.

Governos estão empenhados nisso, mas também estabelecimentos privados. Nas estações de esqui na Suíça, segundo me conta um conhecido, bares e restaurantes adotaram a seguinte regra: o cliente tem de fazer o teste rápido, fornecido, e cobrado, pelo estabelecimento antes de entrar. Se deu positivo, está fora. Negativo, está dentro. O que foi pago pelo teste é descontado na conta.

Simples, não é mesmo? O teste é de fácil aplicação, o resultado sai na hora. Aliás, eis mais um argumento a favor da liberação do autoteste e da ampla distribuição e comercialização dos testes.

O prefeito Eduardo Paes gostou da regra de Québec, assim meio de brincadeira. Poderia adotá-la.

Não se pode dizer que ir ao bar seja um direito sagrado do ser humano — embora muitos pensem assim. Negar a entrada para os positivados não configura violação de direitos. Vale como exemplo: estimular e/ou forçar a vacinação é legal.


Desequilíbrio de poder

 Dora Kramer

Veja online

Bolsonaro se sustenta hoje na única e frágil pilastra do Centrão

 // Isac Nóbrega/PR

Ciro Nogueira e Jair Bolsonaro 

A entrega do controle da execução do Orçamento da União para a Casa Civil comandada pelo senador Ciro Nogueira, expoente máximo do Centrão, reflete mais que a existência de um presidente fraco sentado no Palácio do Planalto: resulta em absoluto desequilíbrio de poder.

Enquanto Jair Bolsonaro reclama de excessos por parte do Supremo Tribunal Federal que, na visão dele, avança sobre as prerrogativas presidenciais, toma a iniciativa de entregar talvez a mais importante dessas prerrogativas ao controle total de um grupo no Congresso.

Bolsonaro começou o governo equilibrando-se sobre três pilares: Paulo Guedes no comando da economia, os militares no manejo da administração e Sergio Moro no combate à corrupção.

Derretidas essas três colunas de sustentação, o presidente da República chega ao último ano de governo agarrado à única e, do ponto de vista da lealdade, fragilíssima pilastra do Centrão. Um muro de arrimo cujos construtores não hesitarão, a depender das circunstâncias, em deixar o presidente na mão.


País não suporta um novo governo Bolsonaro

 Marcos Strecker e Eudes Lima

Revista ISTOÉ

A derrota de Bolsonaro nas eleições não representa apenas um salutar movimento de alternância no poder. Ela é necessária para evitar que o bolsonarismo se constitua em movimento perene de ameaça à ordem institucional

 (Crédito: EVARISTO SA)

NA OFENSIVA - O presidente no Palácio do Planalto, 

em julho passado: eleições tensas diante da queda nas pesquisas 

Todas as eleições presidenciais desde a redemocratização foram vitais e colocaram a sociedade diante de escolhas difíceis. Não será diferente agora. Mas, neste ano, há uma diferença importante. O próprio fundamento da Constituição estará em jogo. Se o atual presidente conseguir permanecer no posto, há o risco de que os seus ataques à democracia saiam fortalecidos. Desde que a reeleição foi introduzida, todos os presidentes conseguiram renovar seus mandatos, beneficiando-se da máquina pública. Apesar da baixa popularidade (a rejeição ronda os 60% dos eleitores nas principais pesquisas), Bolsonaro mantém o apoio de cerca de um quarto do eleitorado. Ele tem chances reais de se reeleger.

 (Crédito:Divulgação)

SETE DE SETEMBRO Bolsonaro na Avenida Paulista: manifestação 

foi o ápice da tentativa de desestabilizar as eleições, mas fracassou 

Até o momento seu ímpeto golpista foi contido pelo Supremo Tribunal Federal, por meio de inquéritos que investigam as milícias digitais bolsonaristas, os atos antidemocráticos e a interferência na Polícia Federal. O cerco judicial, até o momento, conseguiu limitar os ataques à democracia, freando o financiamento dos seus autores e bloqueando a monetização da indústria de fake news.

Mas isso não significa que a possibilidade de uma ruptura possa ser descartada. O presidente tem agido para minar as instituições, mesmo com os obstáculos que enfrentou. Pesquisadores da FGV, incluindo o professor da FGV-Direito Oscar Vilhena, apontam que o presidente usou em seu mandato expedientes para erodir a democracia e a institucionalidade. Entre eles, abusar do uso de normas infraconstitucionais, como decretos e medidas provisórias, além de minar por dentro órgãos de Estado. Faz parte dessa estratégia asfixiar entidades com cortes de verbas (como acontece na Educação) e subvertê-las por meio de dirigentes que se posicionem de forma oposta aos seus próprios princípios. Nesse último caso, os exemplos mais cabais são a indicação de Sérgio Camargo para a Fundação Palmares (que se volta contra a defesa dos negros e a luta por mais diversidade) e a de Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente (o ex-ministro desmontou os órgãos de fiscalização e é investigado até por favorecimento de quadrilhas de desmatamento ilegal). Isso pode se agravar num eventual segundo mandato.

 (Crédito:Rodolfo Buhrer)

GARANTIDAS Como nas eleições de 2018 (foto),

 urnas eletrônicas vão preservar a lisura do pleito

Bolsonaro usaria um eventual triunfo eleitoral como sinal verde para seu projeto autocrático e uma forma de revanche contra a Justiça

A pandemia também serviu de pretexto para Bolsonaro tentar subtrair poder de prefeitos e governadores e para a ocupação militar do Ministério da Saúde, com consequências nefastas. Com a explosão dos casos da variante ômicron (não devidamente captados pelo apagão digital na pasta, mais um desmanche conveniente), o chefe do Executivo volta a usar o risco de lockdown como forma de atacar os gestores locais, a ciência e as autoridades sanitárias. Não aprendeu nada com a doença, continua investindo contra a vacinação e permanece ignorando a tragédia de mais de 620 mil mortos. “A ômicron não tem matado ninguém. Dizem até que seria um vírus vacinal. É bem-vinda”, declarou em mais uma frase repugnante, ao mesmo tempo em que criava obstáculos para a imunização das crianças. Se permanecer no Planalto, o combate à Covid e a novas ameaças globais à Saúde, já previstas pelos especialistas, será ainda mais difícil.

Além de não combater a doença, o presidente enxergou nela a oportunidade de debilitar a democracia. “A nova ditadura não é de uma hora pra outra, vem aos poucos. Vai tirando pedaços da sua liberdade aqui e acolá. E quando você vê, está até a cintura na areia movediça, não tem como sair mais”, afirmou na última segunda-feira, afrontando as medidas de restrição social para combater a doença que provavelmente serão novamente necessárias. Tentava reproduzir pela enésima vez a parábola orwelliana da ameaça representada pela implantação de um hipotético regime esquerdista, mas traiu suas próprias aspirações. Na prática, parecia descrever a sua própria tática para assaltar o Estado, que tem cada vez mais os órgãos de controle aparelhados e desvirtuados – o que ocorre até com a Polícia Federal, órgão vital que teve sua cúpula removida para seguir fielmente os interesses pessoais do presidente.

 (Crédito:Divulgação)

NO CERCADINHO Intolerante com as críticas, Bolsonaro ignora 

a imprensa e prega apenas aos simpatizantes no Palácio do Alvorada 

Acuado pela corrupção no governo, exposta especialmente pelas compras fraudulentas de vacinas no Ministério da Saúde, o presidente tem negado até que o combate à corrupção tenha sido sua bandeira para chegar ao poder: “Eu não apareci em 2018 e falei que sou a favor da Lava Jato e vou combater a corrupção. Não foi isso. Minha história começa há muito tempo”. É mais um embuste. Todos se lembram das cenas de Bolsonaro tentando assediar o então juiz Sergio Moro em um aeroporto em 2018. As manifestações anticorrupção turbinadas pela Lava Jato foram o principal laboratório para a cristalização do bolsonarismo. O atual presidente usou o movimento para se legitimar como candidato. Eleito, convidou o próprio Moro para seu ministério, para em seguida isolá-lo e operar na surdina para desmontar a operação. Com isso, conseguiu enredar os órgãos de controle para proteger os grupos fisiológicos capturados no Petrolão e no Mensalão que são sua principal base de sustentação no Congresso, além de impedir as investigações sobre os crimes de rachadinha no seu clã. O presidente não vai abrir mão dessa blindagem facilmente. E tem se esforçado para isso.

O maior movimento coordenado por ele até o momento para se perpetuar no poder e melar as eleições ocorreu no Sete de Setembro, quando mobilizou manifestações em Brasília e São Paulo e afirmou que não aceitaria mais as determinações do ministro Alexandre de Moraes – o juiz do STF está à frente dos principais inquéritos contra o mandatário e seus apoiadores. Desde então, Bolsonaro precisou recuar em suas investidas para não abrir espaço a um processo de impeachment e nem atiçar uma reação popular que seria fatal para ele. Um triunfo eleitoral em outubro, ao contrário, seria assumido imediatamente como uma revanche e um sinal verde para seu projeto autocrático.

 (Crédito:Divulgação)

FAKE NEWS Além de tentar bloquear vacinas, o presidente divulgou notícias

 falsas sobre a pandemia em lives; por isso, está sendo investigado no STF 

Para isso acontecer, Bolsonaro tenta reverter sua impopularidade desesperadamente. Já faz isso por meio de programas eleitoreiros, feitos improvisadamente driblando o teto de gastos. É o caso do Auxílio Brasil, sucedâneo do Bolsa Família, empacotado para ele tentar aumentar sua penetração no Nordeste, região em que ainda é largamente rejeitado. Com a ajuda do Centrão, tenta também irrigar inúmeros projetos paroquiais e eleitoreiros espalhados pelo País por meio do orçamento secreto, uma aberração introduzida pelos aliados no Congresso para subverter a vontade popular, comprar apoios políticos e fortalecer os caciques que aderiram ao seu projeto de poder.

Mesmo assim, esse plano enfrenta percalços. A economia, que será vital para o pleito, é plenamente desfavorável ao mandatário. Pesarão contra ele em outubro uma inflação de dois dígitos, altos índices de desemprego e risco de estagflação. O Banco Mundial acaba de revisar sua previsão do crescimento do Brasil este ano, de 2,5% para 1,4%. Ainda assim, a instituição é bem mais otimista do que consultoras e bancos brasileiros, que já preveem estagnação ou mesmo um PIB negativo até o final do ano. Mesmo a previsão positiva do Banco Mundial reflete a menor taxa de crescimento entre os 18 países emergentes analisados. Considerando 28 economias da América Latina e Caribe, o Brasil deve superar apenas o Haiti. É um péssimo prognóstico para um governo que vem anunciando desde o início uma época de prosperidade, mas até agora só entregou resultados pífios e recessão. Nem no seio do governo esse malogro passa em branco. Em sua justificativa para o estouro da meta de inflação em 2021 (10,06%), o próprio presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, elencou o descontrole fiscal como uma das causas. Entre economistas, não restam dúvidas. A crise econômica no Brasil foi fabricada pela incompetência do próprio governo, apesar dos truques retóricos de Paulo Guedes, que são recebidos cada vez com mais tédio e impaciência por empresários e agentes econômicos. Se o mandatário continuar no poder, esse cenário não pode ser revertido —¬¬¬ é o cálculo que todos começam a fazer.

Apesar disso, há chances reais de o mandatário garantir mais quatro anos no Planalto. Analistas apontam as particularidades do próximo pleito, em que o antipetismo ainda pode jogar um papel relevante, beneficiando o atual morador do Palácio do Alvorada. “Desde o período da redemocratização, a gente nunca teve um presidente que afrontasse tanto as instituições, mas é preciso levar em consideração outros fatores que podem impactar o atual cenário”, defende Bruno Soller, especialista em Comunicação Política pela George Washington University. Ele aponta que o líder atual nas pesquisas, o ex-presidente Lula, teve suas condenações anuladas por questões processuais, e não por ter sido isentado de corrupção. Isso pode pesar ao longo da corrida eleitoral. Esse é o cálculo que Bolsonaro fez ao facilitar a soltura e a reabilitação política de Lula. Mas pode ter errado na dose, criando um problema para si mesmo.

 (Crédito:Marcos Correa)

MARCHA CONTRA O STF O presidente tentou pressionar os ministros 

do Supremo e organizou até uma aparição de surpresa de empresários 

para intimidar a Corte, em 2020 

Mesmo com a eventual reeleição de Bolsonaro, cientistas políticos ponderam que as instituições já estão suficientemente maduras para suportar investidas autoritárias. “Não podemos esquecer que o País passou por dois impeachments nos últimos 30 anos, e foram respeitados todos os ritos do processo”, pontua Soller. “A eleição de um personagem político diferente de Bolsonaro não traz exatamente estabilidade política, econômica e social. Mas traria mais estabilidade do que o governo Bolsonaro. Ele alimenta crises com suas declarações e atitudes, defende o indefensável. Ele só para seus ataques quando se sente realmente ameaçado”, diz o cientista político Rubens Figueiredo. “O País passou nos últimos três anos pelo seu mais duro teste, com um governante que trabalha basicamente pela ruptura da democracia. Na outra ponta, ele tem um profundo desprezo por gestão. Tem sido um teste muito duro para nossa democracia. Espero que isso se encerre com o final do seu mandato”, acrescenta Felipe Santa Cruz, presidente da OAB.

As eleições são, de qualquer forma, a única chance de interromper o projeto autoritário de Bolsonaro. Por isso, até o processo eleitoral precisa ser protegido. O risco de subversão das eleições, com o questionamento das urnas eleitorais, pode aumentar à medida que o chefe do Executivo se sinta fragilizado ou veja as chances reeleitorais minguarem. Num primeiro momento, seu ataque às urnas, copiado de Donald Trump, foi superado pela “Declaração à Nação” escrita às pressas pelo ex-presidente Michel Temer após o Sete de Setembro. Mas isso não significa que as redes digitais, inclusive clandestinas e robotizadas, não serão sacadas durante a campanha, escapando à vigilância de Justiça Eleitoral. Para lembrar esse risco, o presidente fez novos ataques na última quarta-feira aos ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes do STF, acusando-os de ameaçar e cassar “liberdade democráticas” com o objetivo, segundo ele, de beneficiar a candidatura de Lula (o que motivou essa nova explosão foram as investigações contra ele e seus aliados). “É possível que vivamos um Sete de Setembro permanente até as eleições. Haverá muito investimento de recursos públicos nas campanhas eleitorais deste ano”, alerta a cientista política Juliana Fratini. Para ela, esta será uma campanha cheia de estereótipos e raiva

 (Crédito:Divulgação)

PELA DEMOCRACIA Manifestante no Largo da Batata (São Paulo):

 presidente recuou nas ações golpistas para evitar impeachment 

Em outubro, o País terá um encontro com seu destino. Em pleitos passados, o País rejeitou o populismo de esquerda, referendou o Plano Real e chancelou o PT apenas quando este partido se mostrou moderado. A estabilização monetária, implantada pelo governo FHC, é um pilar da sociedade até hoje. Esses valores precisam ser preservados, assim como o espírito da Constituição de 1988. A substituição de Bolsonaro não é apenas um salutar movimento de alternância no poder. Ela é necessária para evitar que o bolsonarismo se constitua em movimento perene de ameaça à ordem institucional. Ainda que o presidente não tenha a mesma habilidade de Trump, ele pode exercer uma influência nociva antidemocrática. Bolsonaro não precisa apenas ser derrotado eleitoralmente. O mal que representa precisa ser extirpado, para que o País retome o curso do desenvolvimento e do amadurecimento democrático, um ideal que segue ameaçado por aventureiros e extremistas.


A ofensa de cada dia de Bolsonaro

 Editorial

O Estado de São Paulo

No início do quarto ano de governo, Jair Bolsonaro deixa claro que não tem nenhuma intenção de mudar seu comportamento. Seus recentes atos consolidam a imagem do governante que não governa, desejando manter-se tanto quanto possível alheio às responsabilidades do cargo. E, quando as circunstâncias lhe são desfavoráveis – afinal, suas confusões e omissões produzem consequências –, Jair Bolsonaro reage agredindo e fazendo insinuações contra quem considera seu adversário.

Há um país a ser governado, com problemas a serem enfrentados. A fome voltou. A taxa de inflação ultrapassou os dois dígitos. O desemprego continua dramaticamente alto. Diante dessa situação, Jair Bolsonaro opta pela tática diversionista. Sem nenhum fato novo por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente voltou a agredir os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, vinculando-os à campanha do PT ao Palácio do Planalto.

“Quem é que esses dois pensam que são? Quem eles pensam que são? Que vão tomar medidas drásticas dessa forma, ameaçando, cassando liberdades democráticas nossas, a liberdade de expressão?”, questionou Jair Bolsonaro em entrevista à Gazeta Brasil, um site que o apoia. “Eles têm candidato. Os dois, nós sabemos, são defensores do Lula, querem o Lula presidente”, disse.

A afirmação de Bolsonaro não tem nenhum apoio nos fatos. Tivesse prevalecido no Supremo o entendimento jurídico do ministro Luís Roberto Barroso, Luiz Inácio Lula da Silva ainda estaria preso e inelegível. Ou seja, Jair Bolsonaro simplesmente inventa uma acusação irresponsável.

Mesmo que não tenha qualquer credibilidade, a insinuação de Jair Bolsonaro é gravíssima. Com todas as letras, o chefe do Executivo federal afirmou que dois ministros do Supremo estão atuando, em sua atividade jurisdicional, para favorecer determinado político. Trata-se de acusação que fere não apenas a honra de integrantes do STF – o que por si só é grave e ofende direitos –, mas ataca o próprio Judiciário.

Ao difundir, sem nenhuma base factual, desconfiança sobre a isenção e a independência do Supremo, Jair Bolsonaro descumpre o compromisso que fez de defender a Constituição. A credibilidade da Justiça, assim como a do sistema eleitoral, é elemento essencial de um Estado Democrático de Direito. Não pode o presidente da República, como se fosse algo banal, sem importância, difamar a honra de ministros do STF, acusando-os de descumprir a Constituição e a Lei Orgânica da Magistratura.

Dias antes, Jair Bolsonaro havia usado a mesma tática pouco honrosa. Ao criticar a recomendação da Anvisa sobre a vacinação infantil contra a covid, fez insinuações sobre a honestidade de funcionários e dirigentes da agência. Não havia nenhum fundamento para a acusação. Era apenas leviandade. Era apenas o presidente Bolsonaro reagindo por ter sido contrariado pela Anvisa.

Espera-se mais, muito mais, de um presidente da República. A batalha política, por mais dura e intensa que possa ser, não autoriza esse tipo de comportamento que, alheio aos fatos, ao Direito e às regras mínimas de civilidade, agride e ofende gratuitamente o outro. Não é assim que se faz política. Não é assim que se vive em sociedade. Mesmo que Jair Bolsonaro não tenha especial apreço por suas palavras, estas continuam provocando muitos danos.

Há quem diga que, com seus recentes atos, Jair Bolsonaro sinaliza como será o tom da sua campanha de reeleição. A rigor, infelizmente, o presidente da República nunca deu motivo para se pensar que atuaria de forma diferente. Sua trajetória política, desde os primeiros mandatos no Legislativo, é uma linha ininterrupta de ofensa ao outro, a quem não compartilha com suas ideias e alucinações. Tal comportamento sempre foi grave, mas na presidência da República ganha tons ainda mais dramáticos.

A completar a farsa, aquele que ofende e difunde inverdades é todo suscetível quando lhe perguntam sobre proximidade com milicianos, salários de assessores ou cheques na conta da esposa. Felizmente, engana cada vez menos gente.


Bota o retrato do velho.

 Carlos Brickmann

 

Os dois primeiros colocados nas pesquisas nasceram lá pela metade do século passado, já foram presidentes e o último que botou a mão no fogo por qualquer dos dois ganhou o apelido de Capitão Gancho. Quando Francisco Alves, na época o mais famoso cantor do país, lançou a música de Haroldo Lobo e Marino Pinto em favor de Getúlio Vargas, O Retrato do Velho não precisou dizer o nome do candidato: só um se enquadrava na descrição do velhinho que já havia estado lá. “Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar/o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar”. Hoje não tem jeito: a letra, adaptada aos tempos modernos, ou usa os defeitos do candidato para identificá-lo - e eles não vão gostar - ou vira só lembrança do século 20.

Um é o grosseirão de maus modos e linguagem de estrebaria, com quatro filhos que são zeros à esquerda, que pouco se importa com a morte dos outros, seja por tragédias naturais, como agora, seja por falta de vacinas. Uma letra adaptada: “o sorriso do velhinho é de a gente arrepiar”.  Ou “eu já peguei o meu, da família não sairá/a aula eu já te dei, e tu não vais rachar?” Ou “Bota o Centrão do meu lado, outra vez/A ajuda do Centrão deixa a gente governar”. Dá galho.

E o outro candidato? Só um companheiro precisou devolver US$ 100 milhões, que tinha recebido de forma desburocratizada. Letra adaptada: “O retrato não é meu, o meu amigo é que vai botar”. Ou “Bota o retrato do velho outra vez/bota pra gente roubar”. Dá galho também.

A letra inteira

Em 1950, Getúlio Vargas, que tinha sido ditador de 1930 a 1945, quando foi deposto, queria voltar ao poder em eleições democráticas. Seu adversário, forte, era o brigadeiro Eduardo Gomes. Entre outros cuidados, Getúlio buscou astros da música para seu jingle: Haroldo Lobo e Marino Pinto, os compositores, e Francisco Alves, o cantor-ídolo. E saiu a marchinha, enorme sucesso:




Bota o retrato do velho outra vez/Bota no mesmo lugar
Bota o retrato do velho outra vez/Bota no mesmo lugar
O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar
O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar
Eu já botei o meu/E tu, não vais botar?
Eu já enfeitei o meu/E tu, não vais enfeitar?
O sorriso do velhinho faz a gente se animar
O sorriso do velhinho faz a gente se animar

Lembrança

Agora é hora de se lembrar de que teremos eleições em menos de nove meses – 2 de outubro é o primeiro turno. E o prazo para tirar o título de eleitor termina no dia 4 de maio. Quem perder o prazo não poderá votar na eleição.

Invertendo o jogo

A bancada do PT na Câmara Federal pediu à Presidência do Congresso a convocação de uma comissão que avalie o impacto das enchentes e analise a melhor maneira de reduzir os danos à população. Curioso: o então ministro Roberto Campos dizia que o resultado do trabalho de uma comissão em geral é ruim. Completava: “O camelo é um cavalo projetado por uma comissão”. Os parlamentares aprenderam que a melhor maneira de adiar uma decisão é formar uma comissão para avaliar o que fazer.
Mas as coisas mudam: hoje, uma comissão é muitas vezes a melhor forma de fazer as coisas andarem.

Boa notícia, má notícia

A boa notícia em primeiro lugar: a informação de que Bolsonaro não quis interromper suas férias e assumir o comando do socorro à Bahia, vítima das inundações, não tem nada a ver com desprezo aos nordestinos, aos baianos, nem mesmo ao governador petista, Rui Costa, que lhe faz oposição.

A má notícia é que Bolsonaro não quer mesmo é enfrentar problemas desse tipo, seja qual for o local em que ocorram: também não vai a Minas, igualmente vítima de inundações, e onde houve uma tragédia à parte, a morte de dez turistas que passeavam de barco e foram atingidos pelo desabamento de um paredão de rocha. O governador de Minas, Romeu Zema é do Novo e tem tido até um bom relacionamento com o presidente. Mas ir até lá significa trabalhar. Há até torresmos para engolir inteiros e provocar problemas, mas vamos convir que torresmo, por melhor que seja, é sempre mais barato que camarão.

Preparando a estreia

A sala de 400 metros quadrados destinada ao novo ministro do Supremo André Mendonça, antigo ministro da Justiça, já está sendo preparada para sua estreia, nos próximos dias: o primeiro objeto pessoal a ser levado para lá foi o Troféu D. Quixote de la Mancha, prêmio a quem defende a Justiça e a paz social, que lhe foi ofertado em 2019. Mendonça recebeu seu prêmio na mesma cerimônia que homenageou William Witzel, que na época iniciava seu mandato como governador do Rio (ficou pouco mais de um ano, sendo o primeiro governador do país a sofrer impeachment).

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O capitalismo nosso de cada dia, na visão de Platão, Smith, Maquiavel e outros pensadores

 Luiz Felipe Pondé, Folha

Tribuna da Internet

Hoje, façamos um exercício de olhar filosófico neste novo ano. Olharemos para três objetos de forma filosófica: a beleza, a sociedade de mercado e a política. Esse tipo de olhar se diferencia do senso comum porque carrega consigo um repertório maior do que o senso comum suporta – dá trabalho montar esse repertório, afinal – e, além disso, não busca agradar ninguém. Querer agradar é para os fracos.

Imagine um casal num restaurante num domingo no almoço. Uma mulher e um homem, a quem você daria mais de 70 anos. Entretanto, você percebe que ambos passaram por várias intervenções plásticas. Os rostos estão esticados, sintecados, inchados, enfim, deformados pela crescente e jovem ciência da beleza.

POR ZEUS!!! – Na mesa ao lado, outro senhor acompanha a cena e fala: “Por Zeus, por que fazem isso?”. Você coloca o Google Tradutor em ação e descobre que ele falou em grego ático.

Enfim, seu celular acaba por lhe informar que essa pessoa é Platão (427-347 a.C.) em carne e osso. Emocionado, tem o impulso de levantar-se, ir até ele e pedir uma selfie.

Para Platão, a beleza é uma forma perfeita, imaterial e eterna. A matéria participa dessa beleza na forma da natureza e dos corpos. Portanto, o que vemos no corpo de alguém que nos atrai é essa ideia plena da beleza mesma. Entretanto, Platão nos adverte que o corpo, sendo matéria, não suporta a beleza pura e eterna – porque a matéria, sendo imperfeita, degenera.

BELEZA DA ALMA – Sabemos que para o grego a sabedoria está em buscar a beleza da alma, em mim e nos outros, pois a alma é essa realidade em nós que habita o corpo – a matéria – e o mundo das ideias plenas, perfeitas e eternas, ao mesmo tempo.

O que aquele senhor grego da mesa ao lado estava vendo, horrorizado, era a tentativa vã de retermos a beleza num corpo que não suporta a eternidade. Portanto, a beleza abandona o corpo.

O que o Platão viu foi o ridículo – o oposto da beleza – de um corpo em degeneração que ignora o fato que, com os anos, o belo possível é o da alma, que, aliás, se revela sempre mais permanente, apesar de difícil acesso. Uma intervenção plástica qualquer sempre custa mais barato do que qualquer forma consistente de sabedoria.

CAPITALISMO – Discute-se muito a sociedade de mercado – ou o capitalismo, como queira. Liberais afobados correm a afirmar as evidentes vantagens do capitalismo no que se refere à produção de riqueza em todos os sentidos. Conhecimento científico, medicina, tecnologia, direitos humanos, tudo custa muito recurso. Apesar da afobação dos liberais, eles não deixam de ter razão nesse aspecto.

Entretanto, se convidássemos Adam Smith (1723-1790) para um desses programas em que especialistas discutem economia e similares, ele provavelmente destoaria de grande parte da discussão.

A questão é que Smith traria aspectos que podemos chamar de morais quanto ao desenvolvimento da riqueza e seu acúmulo. Simplificando, para Smith há um risco moral no desenvolvimento das sociedades comerciais na medida em que elas, no final do dia, se alimentam e alimentam sentimentos morais duvidosos. Ganância, egoísmo, mentira, competição desenfreada.

SENTIMENTOS VAZIOS – Claro que nada disso nega o que os liberais afobados afirmam. Entretanto, a sociedade de mercado mente sistematicamente sobre essa realidade de fundo, enquanto avança no estrago generalizado dos sentimentos morais que dão sustentação à vida comum. O capitalismo organiza a vida moral miserável, vestindo-a com salto alto para festas.

E a política? Se um jornalista especializado em política perguntasse a Nicolau Maquiavel (1469-1527) o que ele pensa da política atual aqui e no mundo, ele responderia em poucas palavras: toda política é sobre violência, não se enganem. O político quer o poder e pronto. Estando na mesma coletiva, Alexis de Tocqueville (1805-1859) lembraria ao nosso jornalista que os representantes sempre esquecem dos representados e trabalham apenas para a sua própria classe.

Mesmo aqueles que vendem a ideia de que fazem política para o nosso bem sempre o fazem para eles e seus colegas de profissão, inclusive quando estes são da oposição.


O mico da fábrica de fertilizantes

 Elio Gaspari

O Globo

O mico da UFN3 está a 684 quilômetros de Brasília

O atual governo é amigo do agronegócio, a Petrobras é administrada como uma empresa, o ministro da Economia é um campeão da iniciativa privada, e na cidade de Três Lagoas (MS) há um elefante branco, candidato a fóssil.

Com nome de vírus, é a UFN3, ou Unidade de Fertilizantes Nitrogenados, projetada pela Petrobras para produzir ureia e amônia suficientes para reduzir o gargalo das importações. Sua história completou doze anos e retrata a bagunça da administração pública nacional, onde todos têm razão, mas produzem maluquices.

As obras da UFN3, em terreno doado à prefeitura, começaram em 2011, a cargo da empreiteira Queiroz Galvão e de um consórcio chinês. A obra chegou a ter sete mil trabalhadores, mas os seus responsáveis começaram a calotear fornecedores e operários, provocando greves e até mesmo desordens. Em 2014, a Petrobras rescindiu o contrato com os empreiteiros, e a obra parou, com 83% do serviço já concluído. Àquela altura, UFN3 já havia consumido cerca de R$ 3 bilhões.

Passaram-se três anos, e em 2017 a Petrobras anunciou que venderia a fábrica. Faltou combinar com o Supremo Tribunal Federal, e no ano seguinte o ministro Ricardo Lewandowski bloqueou o feirão das privatizações da petroleira. Em 2019, esse bloqueio foi levantado e começou a caça a um comprador, com uma novidade: a Petrobras anunciou que sairia do mercado de fertilizantes.

Quem quiser conhecer esse assunto saberá que todas as partes tomaram as decisões certas e que todos tiveram suas razões, mas a fábrica continuará lá, 84% concluída e inoperante.

Apenas por curiosidade, o general Silva e Luna poderia mandar uma equipe de arqueólogos para pesquisar o caso da UFN3 para responder a algumas perguntas óbvias.

Por que não aparece comprador?

O preço está alto? Como ensinou o Conde Francisco Matarazzo, preço de mercado é o que o freguês quer pagar.

Quando a Petrobras resolveu sair do mercado de fertilizantes e vender a UFN3, usou a linda palavra “desinvestimento” para justificar sua política. No entanto, desinvestir é uma coisa, fabricar micos é outra.

Com sua paixão por afirmações apocalípticas e pela transferência de responsabilidades, o presidente Bolsonaro disse em novembro que “o governo está se virando atrás de fertilizantes” para evitar uma crise de abastecimento e emendou: 

“O que é pior disso tudo, né: nós temos aqui potencial para isso tudo, mas o potássio que está lá na foz do rio Amazonas... Aquela grande área está demarcada como terra indígena.”

Os índios da foz do Amazonas têm pouco a ver com isso. O mico da UFN3 está a 684 quilômetros de Brasília.

O BlackRock se fechou

O gestor do fundo de investimentos BlackRock para a América Latina avisou que não botará dinheiro no Brasil enquanto Bolsonaro estiver no Planalto. Com uma carteira de US$ 9,5 trilhões, é o maior do mundo, opera em cem países com o olho em negócios de longo prazo.

O doutor Paulo Guedes talvez saiba que a coisa é pior. Em outubro passado, o BlackRock cogitava sair do Brasil, com uma terrível sinalização para o tal de mercado.

Quem quiser achar que isso é uma gripezinha, que ache.

Amil à venda

Dez anos depois de ter entrado no setor de saúde brasileiro comprando a Amil, a gigante americana UnitedHealth pagou R$ 3 bilhões para se desfazer de sua carteira de clientes individuais e está negociando o restante da sua operação em Pindorama. Ela tem 5,7 milhões de clientes e 19,5 mil colaboradores.

E ainda tem gente achando que empresas estrangeiras fazem fila para operar no Brasil. 

O bicentenário de Poyais

As flutuações do humor dos investidores internacionais serão um fator relevante na campanha eleitoral deste ano. Até que ponto o BlackRock não confia mais em Bolsonaro? Até que ponto desconfia de Lula? Só eles sabem, mas neste ano do Bicentenário da Independência do Brasil, não custa lembrar que se comemora também o nascimento de Poyais. Era uma nação paradisíaca localizada na América Central, onde está hoje a República de Honduras. Bolsonaro não se fez representar na posse de sua presidente.

Em 1821, um escocês chamado Gregor McGregor lançou na praça de Londres papéis desse país. Em dinheiro de hoje, com sucessivos lançamentos, recolheu o equivalente a US$ 5 bilhões. Entre setembro de 1822 e janeiro de 1823, ele embarcou cerca de 250 imigrantes que receberiam lotes de terra ou trabalhariam numa cidade que tinha até teatro de ópera. Um deles seria o sapateiro da princesa local.

Os novos habitantes de Poyais encantaram-se com a paisagem quando viram a costa. Ao desembarcar, em setembro, verificaram que Poyais não existia. Era tudo mato e muitos mosquitos. O sapateiro da princesa matou-se.

Alguns colonos regressaram a Londres e contaram o que lhes aconteceu. Mesmo assim, McGregor fez um novo lançamento de papéis e teve compradores.

O malandraço cometeu a imprudência de lançar papéis em Paris e acabou na cadeia. Julgado, foi absolvido e voltou a operar sem sucesso. Em 1838, estava na penúria e morreu sete anos depois.

Simone Tebet

Está em curso uma costura para fortalecer a candidatura da senadora Simone Tebet (MS), que se lançou pelo MDB.

Com vinte anos de vida pública, ela depende da indicação do seu partido e hoje falta-lhe o apoio de alguns caciques que já estão no navio de Lula.

A singularidade da costura está no seu alcance, pois ela se estende a um pedaço do tucanato, insatisfeito com a opção de João Doria.

Tebet tem a seu favor o desempenho estelar que teve na CPI da Covid.

Joaquim Barbosa

Noutra pista, costura-se a possibilidade de uma candidatura do ex-ministro Joaquim Barbosa. Morreu no nascedouro a possibilidade de ele apoiar o nome de Sergio Moro.

Se Barbosa vier a entrar na corrida, é possível que Moro prefira concorrer a uma cadeira de senador.

Covid na China

Quem entende de China e conversou com o chinês que entende de Covid ouviu que os rigorosos controles de isolamento não serão atenuados antes de junho.

Covid nos EUA

Está pesando a barra para os americanos que decidiram não se vacinar.

Há profissionais de saúde defendendo a ideia de que eles sejam tratados em hospitais exclusivos, eventualmente, por profissionais que também são contra as vacinas.

Delfim e Paulo Guedes

Em 1969, o professor Delfim Netto era um desconhecido na elite do Rio e assumiu o Ministério da Fazenda. Aos 39 anos, gordo e com o sotaque dos italianos do Cambuci, fantasiava-se de viúvo com ternos pretos e camisas brancas. Dormia pouco e operava o dia inteiro. Nunca incorporou uma única repartição, mas colocava gente sua onde podia. Três anos depois, tornou-se o ministro da Fazenda mais poderoso da República.

Há três anos, Paulo Guedes aceitou a ridícula nobiliarquia de “Posto Ipiranga” e assumiu anexando quatro ministérios. Três anos depois, deu no que deu.


A súcia está à solta, no Brasil e no mundo, e precisa ser combatida

  Revista ISTOÉ

 © Reprodução Reprodução

Realizar a insignificância da vida terrena, a finitude de tudo aquilo que amamos, a certeza do fim inexorável e o tanto que nós – a maioria esmagadora das pessoas, ao menos – (não) representamos para a humanidade, ou seja, absolutamente nada!, conduz o homem comum – homem, aqui, como espécie e não gênero – a um estado permanente de profunda angústia, capaz de ser suportada apenas com doses cavalares de distração (lazer, trabalho, vida social, etc.), relacionamentos afetivos positivos, autoestima elevada ou, de forma negativa, alienação, negacionismo, violência (inclusive na internet), uso de drogas e álcool e, alternativamente, através de psicotrópicos poderosos.

Cada indivíduo é único, por certo o substantivo que o justifica, e cada um reage às dores e aos desafios mundanos a seu gosto e modo. Abraçar causas nobres, como filantropia e cuidado de animais, ou aderir a movimentos humanitários e ecológicos, ajudam o tempo passar mais rápido ao mesmo tempo em que se preenche o vazio existencial. Por outro lado, aderir a grupos que vivem – e sobrevivem, financeiramente falando – às custas de teorias da conspiração, negacionismo científico, manipulação religiosa e política e outras porcarias do gênero, não só não cura as feridas d’alma como aprisiona o indivíduo em bolhas nocivas a si mesmo e ao mundo.

SOCIOPATAS GLOBAIS

Os antivacinas, por exemplo, organizam-se de modo a criar e acreditar em teses sem quaisquer fundamentos médicos ou reais (no sentido de realidade), desesperadamente em busca de atenção, companhia e algum sentimento de unidade – ou pertencimento -, que preencham a profunda solidão que sentem. Notem: estar acompanhado não impede ninguém de se sentir só. Geralmente, o que é ainda pior, essas pessoas se tornam presas fáceis para charlatães de toda sorte, e não raro doam dinheiro, apoderam (através de voto ou fama) ‘mitos’ e ‘gurus’, e passam a ser agentes do que há de pior em um planeta cada vez mais conectado e necessitado de cooperação global.

Essas bolhas gigantescas estão presentes no mundo todo, e nos últimos anos, infelizmente, a partir do poder de organização advindo das redes sociais e internet de um modo geral, adquiriram força, poder (político e econômico) e hoje são uma das maiores ameaças à democracia, à saúde pública e ao pacto civilizatório, leia-se, combate às iniquidades sociais, raciais, religiosas, de gênero, etc. tão arduamente conquistado durante os últimos séculos, à custa de guerras e conflitos sociais e políticos sangrentos. Não se enganem, inclusive, aqueles que pensam que igrejas poderosas (cristã, judaica, islâmica, evangélica…) não fazem parte do problema.

AMEAÇA HUMANITÁRIA

Quaisquer movimentos (bolhas) que ameacem os valores universais de direitos humanos e invistam contra a civilização, através de intolerância, preconceito, discriminação, ameaças de quaisquer tipo (física, emocional, moral, sanitária, etc.) constituem-se de gente, conforme dito acima, em busca de conforto afetivo e sentimento de pertencimento. Precisam não apenas de companhia, mas de um guia, que geralmente cobra caro e transforma a manada de carentes, e crentes!, em fonte de renda e poder. Exemplos? Pastores, padres, rabinos, xamãs, políticos e governantes extremistas (sejam de direita ou de esquerda), gurus de internet, influencers e youtubers da moda.

BOLHAS ASSASSINAS

O bolsonarismo, no Brasil, é a face mais aparente desses movimentos, e engloba não apenas antivacinas, terraplanistas e outras aberrações. É a fonte, ao lado do esquerdismo radical, da cisão social inaugurada pelo odiento lulopetismo, que hoje aprisiona o País numa disputa política entre o desastre moral e sanitário de Jair Bolsonaro, o verdugo do Planalto, e a cleptocracia populista de Lula da Silva, o meliante de São Bernardo. O bolsonarismo não difere de outras seitas políticas, religiosas e raciais. Ao contrário. Reza a mesma cartilha, prega as mesmas barbaridades e, muitas vezes, utiliza os mesmos modos. Aliás, o mesmo ‘modus’ – o ‘operandi’.

Extirpar o câncer social que representa Jair Bolsonaro é tão fundamental e imprescindível quanto foi extirpar o câncer de 2018 – o lulopetismo. O Brasil, infelizmente, errou na dose e no remédio, e produziu um tipo de metástase ainda mais violenta. A cura para os carentes, com baixa autoestima e necessidade de amor paterno não depende do meu ou do seu voto. A cura para os antivacinas e afins, idem. Mas a cura, ou melhor, o início da cura de nossos males políticos está em nossas mãos, na ponta do nosso dedo indicador. Em 2022, portanto, diga ‘não’ aos selvagens – sejam de esquerda ou de direita. Diga ‘sim’ à civilização e à vida. Em frente! Prevaleceremos.


Boris Johnson pode cair por uma festa na pandemia, Bolsonaro é ‘mito’ por viver de festa em festa

  Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Entre Reino Unido e Brasil há diferenças do regime, parlamentarismo e presidencialismo, e um fosso cultural e político

  Foto: Vilmar Bannach/photopress 

E no Brasil? A Bahia afundando em dor e lama e o presidente

 de jet ski nas águas afrodisíacas de Santa Catarina. 

Esses ingleses são mesmo esquisitos. Bastou uma “festinha” de 40 pessoas nos jardins de Downing Street (sede do governo), no pico da pandemia e do lockdown, cada um levando seu próprio vinho, para os britânicos, a oposição e até parlamentares do partido se mobilizarem para pedir o afastamento do primeiro-ministro Boris Johnson.

Ok, é grave, mas isolado. E um certo presidente, além-mar, que na pandemia não toma vacina, faz churrasco na residência oficial, é filmado em uma aglomeração atrás da outra, diverte-se em atos golpistas, abraça idosos sem máscara antes das vacinas, arranca máscara de criança na rua e proíbe em palácio, descumpre as leis do DF e é processado por governos estaduais por suas motociatas?

Entre Reino Unido e Brasil há diferenças do regime, parlamentarismo e presidencialismo, e um fosso cultural e político. Apesar de um tanto démodé, com reis, rainhas, coroas..., a monarquia britânica é sólida, o parlamentarismo confere estabilidade e o regime prevê a troca do primeiro-ministro, sem crise, quando ele é incompetente ou perde a maioria.

Já no presidencialismo brasileiro o poder de abrir ou não um processo de impeachment contra o presidente da República está nas mãos de um único personagem, o presidente da Câmara. Se esse personagem é aliado e “esperto”, dá prioridade a seus próprios interesses e aos do seu grupo político. O habitante do Planalto pode fazer festinhas, aglomerações e absurdos à vontade.

E os cidadãos britânicos brindam Boris Johnson com adjetivos como “patético”, “hipócrita” e “mentiroso”, pela festa, as desculpas esfarrapadas e o contraste: o “povo” em lockdown e o primeiro-ministro se esbaldando com amigos. E no Brasil? O País chorando seus primeiros 10 mil mortos pela covid e o presidente de jet ski no Lago Paranoá; a Bahia afundando em dor e lama e o presidente de jet ski nas águas afrodisíacas de Santa Catarina.

E daí? Lá, os britânicos cobram responsabilidade do primeiro-ministro. Cá, milhões de brasileiros tratam como “mito” um presidente que ataca a democracia, máscaras, isolamento, vacinas e faz propaganda de cloroquina para covid! É para rir ou para chorar?

O relatório da Human Rights Watch replica as conclusões da CPI da Covid e cobra os ataques à democracia no Brasil, mas é só para inglês ver e eleitor refletir. As consequências jurídicas para Jair Bolsonaro são nulas. Aqui, a “festinha” de Boris Johnson na pandemia é fichinha. O Brasil é uma festa!


Deixaram o homem trabalhar

 Thomas Traumann 

Veja online

Com STF, Congresso e mídia em recesso, Bolsonaro ficou livre para governar. Confira o resultado

 - Isac Nóbrega/PR/Divulgação

O presidente Jair Bolsonaro durante pronunciamento 

O argumento de dez entre dez bolsonaristas para as dificuldades do governo é que “não deixam o presidente trabalhar”. Por essa versão, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, os governadores, os prefeitos e a oposição estariam em um conluio para impedir Bolsonaro de fazer o que acha que precisa ser feito. Pois bem, desde o Natal, Jair Bolsonaro está livre para governar. O Congresso e a Justiça estão em recesso até fevereiro, os jornais e TVs trabalham com metades de suas equipes, a oposição está com seus próprios problemas e até os ministros que tentam controlar o presidente (Ciro Nogueira, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto) estavam de férias até nesta segunda-feira (10/01). Bolsonaro pode nestes dias fazer o que quis. Aos fatos:

O governo perdeu o prazo de 31 de dezembro para sancionar o perdão da dívida das companhias inscritas no programa Simples, medida que beneficiaria 4,5 milhões de microempresários. No sábado (08/01), Bolsonaro anunciou que soltaria uma medida provisória para compensar os microempresários, mas descobriu-se no domingo que a ação é ilegal. Sem alternativa, Bolsonaro passou a defender a derrubada do seu próprio veto pelo Congresso.

A pedido de Bolsonaro, o orçamento de 2202 inclui um reajuste salarial apenas para os policiais federais e rodoviários, bases bolsonaristas do funcionalismo. A reação começou pela corporação mais poderosa, a dos auditores da Receita Federal. Há mais de mil caminhões parados na fronteira com a Venezuela desde o Natal aguardando liberação na alfândega. Segundo Associação Brasileira da Indústria de Trigo, a demora dos auditores fiscais agropecuários no porto de Santos impede o desembaraço de 3 navios com 100 mil toneladas de trigo argentino. Há casos similares nos portos do Rio e Itajaí. O Carf (o conselho de julgamentos de recursos de multas tributárias) suspendeu sessões de julgamento. Vai piorar. Os auditores do Banco Central iniciaram um movimento de renúncia de cargos de chefia que vai paralisar toda a burocracia do BC por falta de autorizações. Os servidores federais ameaçam uma greve para o dia 18.

No quinta-feira (06/01), Bolsonaro acusou a Agência Nacional de Saúde (Anvisa) de ter interesses escusos na liberação das vacinas para crianças. “Você vai vacinar teu filho contra algo que o jovem por si só uma vez pegando o vírus, a possibilidade de ele morrer é quase zero? O que que está por trás disso? Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual interesse daquelas pessoas taradas por vacina?”. A resposta veio no sábado (08/01) pelo presidente da Anvisa, contra almirante Antonio Barra Torres, em uma nota pesada. Nem Lula, nem Doria ou Moro foram tão duros e desafiadores com o presidente quando Barras Torres:

“Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, senhor presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa. Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate”, escreveu Barra Torres. Ele tem mandato até 2024 e não pode ser demitido pelo presidente.

Confrontado, Bolsonaro miou. Na segunda-feira (10/01), o presidente tentou desdizer o que disse. “Me surpreendi com a carta dele. Carta agressiva. Não tinha motivo para aquilo. Eu falei: ‘o que está por trás do que a Anvisa vem fazendo?’. Ninguém acusou ninguém de corrupto”, disse Bolsonaro.

Na quinta-feira (06/01), o comandante do Exército, general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira, divulgou documento interno afirmando que “o retorno às atividades presenciais dos militares e dos servidores, desde que respeitado o período de 15 dias após imunização contra a Covid-19 (uma ou duas doses, dependendo do imunizante adotado)”. Dados publicados pelo jornal digital Metrópoles mostram que a cobertura vacinal nas Forças Armadas está abaixo que na média brasileira, de 75%. No Exército é 56,3% e na Aeronáutica é 54,9%. 36 mil militares das duas armas se recusam a serem vacinados. Na sexta, Bolsonaro chamou o ministro da Defesa, general Braga Neto, e exigiu uma nota de retratação do Exército. Os generais argumentaram que o comunicado repetia as normas de novembro do Ministério da Defesa, e Bolsonaro baixou o tom. No sábado, ele recuou: “Não, tem exigência nenhuma. Não tem mudança. É uma questão de interpretação”, afirmou, numa declaração sem significado. A norma do Exército está de pé.

Em 31 de dezembro, Bolsonaro sancionou a prorrogação até o fim de 2023 da desoneração da folha de pagamento das empresas dos 17 setores da economia, ao custo de R$ 9 bilhões. Não há no Orçamento previsão de compensação da origem desses recursos, o que descrito como crime pela Lei de Responsabilidade Fiscal. A Secretaria Geral da Presidência informou haver uma brecha jurídica por se tratar de prorrogação e não de novo gasto (entendimento que nunca foi usado desde 2013 quando as desonerações começaram). Grupos empresariais não beneficiados vão recorrer ao STF contra o privilégio.

Bolsonaro preferiu passear de jet-ski e andar de carro em alta velocidade em Santa Catarina a prestar solidariedade aos milhares de desabrigados pela chuva na Bahia. Na segunda-feira (03/01), quando deveria voltar a trabalhar e dar alguma satisfação sobre a Bahia, Bolsonaro foi internado às pressas em um hospital em São Paulo com problemas intestinais. Liberado em 48 horas, Bolsonaro foi a Goiás participar de uma partida de futebol com cantores sertanejos. No sábado, foi a um churrasco em Brasília.

Livre para governar do seu jeito, Bolsonaro mostrou o que se pode esperar dele.