Adelson Elias Vasconcellos
Nestes últimos dias, sem recorrer a “interpretações”, publicamos aqui dados e informações sobre a ação do MEC, do Ministério dos Transportes e, claro, um pequeníssimo relato sobre as promessas eleitorais de dona Dilma, no que diz respeito a creches, quadras poliesportivas e, como não poderia deixar de ser do fabuloso programa de marketing, o “Minha Casa, Minha Vida”. Vimos como andam as estradas e como elas são sorrateiramente mal executadas. E, ainda, alguns resultados de auditorias feitas pela CGU e pelo TCU.
Ao fim e ao cabo o que temos? Um país patinando na miséria de sua governança. Mesmo assim, e sem o governo mova um centímetro sequer de incentivo o país cresce. A riqueza de que foi dotado lhe garante ostentar uma posição de destaque dentre as nações. Agora o quanto tal posição se agiganta se trabalharmos um pouquinho. OU, se o governo pelo menos não atrapalhar.
Pois bem, não é irracional, portanto, que o PIB do país suba posições dentre as nações e atinja um quinto, até um quarto lugar. E, dado o volume de investimentos, maus investimentos mas, vá lá, ainda assim investimentos, realizados pelo Poder Público, adicionados à capacidade de trabalho de grande parte de sua população e sua riqueza natural exuberante, somente em condições totalmente atípicas, geridas e capitaneadas por péssimos governantes, o país poderia permanecer em posição intermediária. Bastou que um governo desse ao país uma nesguinha de modernidade, estabilizando a economia e garantindo responsabilidade fiscal, e temos o brasilzão tão sonhado. Claro, há um longo caminho a perseguir, há muita bandalheira para ser combatida, há muitas reformas urgentes e indispensáveis para serem concretizadas, mas podemos dizer que o básico foi executado. A velocidade das próximas conquistas dependerá exclusivamente da coragem dos governantes e da honestidade do Estado, em todos os seus níveis e esferas, em roubar menos e realizar mais.
Quando Dilma era apenas uma candidata à presidência, muitas vezes critiquei suas posturas e declarações, principalmente no que toca a equilíbrio fiscal. Dizia que, dado o vertiginoso crescimento das despesas públicas, em contraste com um ligeiro avanço dos investimentos públicos, tudo conjugado com a crescente rolagem da dívida pública, Dilma teria que optar entre reduzir programas sociais, ou adiar investimentos. As duas coisas, levadas ao nível do prometido, não se casariam jamais. A opção, como se viu, foi adiar investimentos, ou prolongando seu cronograma de execução, ou simplesmente não tirando do papel projetos lançados e já anunciados.
Não adianta a presidente vir para televisão através de campanhas publicitárias tentar mostrar que o seu governo não fez. Exemplo claro disto foi a tão festejada distribuição de laptops nas escolas. Enquanto governos de países mais desenvolvidos já se adiantam na distribuição de IPADs na rede escolar, aqui o programa foi mal e porcamente lançado para que as primeiras imagens ilustrassem a propaganda eleitoral. Contudo, vejam que coisa esquisita: passada a campanha, tudo ficou rigorosamente estagnado.
E as promessas então, o que dizer? Claro que político em campanha eleitoral promete sempre o paraíso, mesmo sabendo que sequer realizará um terço do anunciado. Mas há coisas que ficam muito além do bom senso. Das milhares de creches prometidas, um ano depois, NENHUMA saiu do papel. O Minha Casa, Minha Vida, talvez em outras vidas se realizem. Vejam lá em reportagem do Estadão: mais de 70% do projetado continua projeto, não saiu di papel. Vimos, também, que a duplicação de um trecho de uma rodovia no Mato Grosso, obra anunciada para a Copa do Mundo de 2014, três meses depois, estava em estado lastimável.
Em relação à Copa do Mundo vou reafirmar minha convicção: não temo pela conclusão dos estádios, muito embora, e ao contrário do prometido, é com muito dinheiro público, via BNDES, que eles serão concluídos. Minha preocupação centra-se nas obras de mobilidade urbana, especificamente transporte coletivo urbano, estradas, portos e aeroportos. Porque é aqui que o país dependerá da capacidade de realização de seus governantes, é aqui que o jogo é mais pesado, é aqui que o dinheiro público deve ser responsavelmente aplicado. E é também aí que a capacidade do país em abrir mão de alguns gastos e despesas, ou seja em estabelecer prioridades naufraga estrepitosamente.
Nossa classe política não abre mão de suas regalias, de seus conchavos, de suas negociatas de ocasião, de seus favorecimentos, de seus interesses particulares misturados ao interesse público. E não só a classe política. A crise no Judiciário, por tudo quanto já sabemos, é bem sintomática: não se tem limites no Poder Público, quando o objetivo é avançar sobre o cofre da União para garantir regalias e privilégios. Enquanto a renda média do trabalhador é mediana em relação ao restante do mundo, a classe política e a elite do Judiciário se imaginam viver em um país riquíssimo, de primeiro mundo. E isto interfere, sim, no peso dos impostos que o Estado precisa jogar sobre a sociedade. Há um conflito claro neste ponto, razão porque os investimentos públicos em infraestrutura são tão irrisórios e estão muito distante das necessidades da população, sem falar na qualidade miserável dos serviços públicos.
Quando Lula e as esquerdas sobem nos palanques país afora para, dedo em riste, culparem as “zelite” pela pobreza da população, poderiam ao menos fazer uma autocrítica de seu papel lastimável. As “zelite” existem sim, mas ela tem assento não nas grandes empresas e conglomerados, mas sim na Câmara, Senado, Poderes Executivo e Judiciário. Ali estão as “zelite” que se tornaram os gigolôs da Nação, o câncer terminal da nossa pobreza socioeconômica, da péssima distribuição de renda, da baixa escolaridade e analfabetismo quase completo da maior parte do povo do país.
Portanto, seria interessante que num oportuno, a presidente viesse a público fazer um balanço do seu mandato, e apresentar justificativas plausíveis para o rol de promessas não cumpridas. Não adianta mentir e enrolar. Não vale se justificar com a crise internacional, porque ela, pelo menos no mandato de dona Dilma, sequer chegou perto de nós. Pode ser que, no médio e longo prazos, algumas consequências tenham reflexos no nosso desenvolvimento. Mas neste momento, esta é uma hipótese totalmente descartável.
É claro que para os companheiros assentados no poder, ou aqueles que gravitam no entorno, mas com forte influência da estratégia política, no fundo o que interessa mesmo é subverter as consciências, submeter os valores e as instituições aos caprichos de um portentoso projeto de poder. Gramsci deu a receita e apontou o caminho. O PT segue os métodos como aplicado aluno. Mas, ao menos, poderia a presidente, nesta oportunidade, por exemplo, fazer um mea culpa e dizer que as “realizações” prometidas e os investimentos projetados, precisaram ser adiados pela necessidade de um ajuste fiscal, que precisou atravessou o oceano da racionalização de gastos, cortando gorduras onde se enxergavam desperdícios, projetando assim maiores sobras para o alargamento futuro dos investimentos e concretização de programas e projetos.
Ontem, na Bahia, a presidente Dilma, contudo, preferiu continuar apostando no mesmo discurso bestial. Destaco este trecho:
“Para nós, o Brasil vai crescer se as pessoas melhorarem de vida, porque, para nós, quem é a maior força que empurra o Brasil para a frente é seu povo, porque são consumidores, trabalhadores, empresários. São aquelas pessoas que criam aquele ciclo muito bom, que uma coisa puxa a outra. Quem consome, ao mesmo tempo cria oportunidade e, com isso, a roda vai girando e o Brasil vai crescendo”
Ora, esta foi exatamente a receita que levou estes países ao paraíso. Só que o modelo de estender benefícios sem freios, sem limites, tem vida curta, Presidente. O custo a pagar é alto, e partir de um dado momento, quem começa a bancar este bem estar são os governos até o dia em que o déficit se torna insustentável. O Brasil ainda engatinha neste modelo e pode, se for esperto, tomar como lição, as consequências que o modelo provoca, que justamente as dores que afligem os europeus, principalmente.
É preciso ainda destacar que o Brasil, por sua exuberante riqueza natural, recursos que tornam “diferentes” nossas reservas de qualidade, precisa converter tudo isso em benefício do povo brasileiro e grande parte desta missão compete ao Poder Público, ainda preocupado unicamente com o próprio umbigo. Transforme, Presidente, discursos e palavras de efeito popularesco em ações práticas. Assim, vale dizer: dê qualidade aos serviços públicos, transforme o caos da infraestrutura em alavanca de progresso, e não no inferno e manicômio por onde se escoa em puro desperdício boa parte de nossas riquezas.
E um detalhe: o Brasil só vive toda esta bonança toda porque aquele governo tão demonizado pelo partido da presidente, pôs ordem na casa, transformada que fora numa pocilga sem conta pela turma que hoje é aliada de primeira hora dos petistas.
Falar a verdade para a população, reconhecendo tanto o erro de prometer e não cumprir, quanto a necessidade de se buscar o reequilíbrio das contas públicas, não é nenhum desdouro, e por certo, não retirará da presidente nenhum ponto percentual de sua aprovação junto à população. Pelo contrário, poderá até ampliar a confiança e a popularidade.
Presidente: todos gostamos de algum carinho, é certo, mas temos verdadeiro ódio em relação à falsidade, enrolação e hipocrisia. Pense nisso!
Um detalhe final: semana passada publicamos aqui reportagem da Folha dando conta sobre as precárias condições em que o Porto de Santos (clique aqui) vem operando. Investimento que é bom, nada. Alega-se falta de recursos. Tudo muito bem, tudo muito bom. Mas digam lá: pode o mesmo governo que abandona investimentos no porto mais importante do país, por onde circulam cerca de 30% de todo o comércio externo do país, ir à Cuba, e jogar na mesa dos ditadores Castro, que sufocam as liberdades daquela ilha, e colocarem nas mãos de quem não tem a menor consciência sobre direitos humanos, cerca de 1 bilhão de reais na construção de um terminal portuário? Afinal, q os petistas governam o Brasil para quem, afinal, para os brasileiros ou para os ditadores cafajestes das Américas? E a pergunta final: por que não investir no Brasil o dinheiro que é do povo brasileiro?




