terça-feira, janeiro 31, 2012

Indústria brasileira atinge ápice da desigualdade

Henrique Gomes Batista, O Globo

Alguns setores estão um terço menores que em 2008, enquanto outros têm forte expansão

Indústria de cosméticos em expansão: 
fábrica da Niely em Nova Iguaçu
GUSTAVO PELLIZZON / AGÊNCIA O GLOBO

RIO — A indústria brasileira nunca esteve tão desigual como nesta crise que o setor enfrenta. Após um ano pífio, em que cresceu menos de 1% e novamente abaixo de toda a economia, funcionando como uma âncora que impediu um crescimento maior do Produto Interno Bruto (PIB), o setor está produzindo 3,2% a menos que em setembro de 2008, antes da crise do Lehman Brothers e espécie de ápice do segmento no Brasil. Mas nem toda a indústria está tão mal. 

Alguns setores como a fabricação de material eletrônico e equipamentos de comunicações encolheram impressionantes 36% nestes 38 meses — ou seja, está um terço menor que em setembro de 2008 — e outros três registram queda na casa dos 20% (têxtil, calçados e artigos de couro e máquinas, equipamentos e material elétrico). Mas outros segmentos crescem fortemente, como bebidas (21,50%), equipamentos médico-hospitalares (11,73%) e perfumaria, higiene e limpeza (10,56%).

André Macedo, gerente da Pesquisa Mensal da Indústria do IBGE, afirma que estes números mostram que o segmento está vivendo um momento muito desigual:

— Em geral estão em melhor condições os segmentos que são mais protegidos da importação e que se beneficiam do aumento da renda e do consumo interno, além dos que investiram mais em inovação — conta.

Flávio Castelo Branco, economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirma que essa heterogeneidade entre os setores industriais é uma realidade que pode até piorar:

— O setor vive um dispersão muito grande de setores e isso pode se intensificar em 2012.

Ele lembra que, enquanto a crise atinge mais os setores mais tradicionais da indústria brasileira, o crescimento está concentrado em segmentos voltados para o mercado interno e com baixa possibilidade de importação em grande escala, como bebidas, e em segmentos altamente inovadores, como a indústria de cosmético e perfumaria e fármacos. Para ele, o governo não enfrenta os verdadeiros motivos da redução da competitividade brasileira e mesmo medidas paliativas, como as presente no programa Brasil Maior, em sua opinião, demoram para sair do papel.

Indústria de cosméticos do Brasil já é a segunda maior do mundo
Mas se os altos custos, a invasão de importados e os problemas de infraestrutura afetam todo o país, porque alguns setores industriais conseguiram se sair tão bem? A inovação pode ser uma resposta.

— Em 2011 devemos ter superado o Japão e nos tornado o segundo maior mercado mundial de produtos de higiene e cosméticos, perdendo apenas para os Estados Unidos, que devemos superar em 2015 — afirmou João Carlos Basilio, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec).

Produtos novos representam 35% das vendas
Além do crescimento do consumo impulsionado pela expansão da renda, a inovação é uma das molas do setor.

— Cerca de 35% do faturamento das empresas decorrem de produtos lançados um ano antes — afirmou Basilio, que lembra que as inovações não param, como na linha de desodorantes -- agora sim há produtos diferenciados para homens e mulheres, com outras características como produtos com outros adicionais, como a facilidade para eliminação de pelos das axilas -- e uma variedade incrível de shampoos.

Essa é a realidade, por exemplo, da Niely, fabricante de produtos de beleza de Nova Iguaçu. A empresa há alguns anos desbancou multinacionais no mercado de coloração e não para de investir para manter sua participação e crescer.

— O investimento em pesquisa e lançamentos de produto tem um custo alto. Porém, este investimento tem mais importância do que o investimento em mídia e celebridade — afirma Daniel de Jesus, presidente da empresa que deve faturar R$ 600 milhões neste ano e que está investindo R$ 50 milhões em uma nova fábrica.

Nesta busca por diferencial, o produto nacional pode ser um importante chamariz:

— Exportamos ativos para grandes empresas no exterior e, só agora, o consumidor e o empresário brasileiro começa a dar valor para produtos nacionais e orgânicos. Alguns destes produtos podem até ser um pouco mais caros, mas trazem um valor agregado altíssimo, que faz a diferença no setor — afirma Filipe Sabará, diretor de negócios da Beraca, empresa líder no fornecimento de ingredientes naturais e orgânicos da biodiversidade brasileira.

Gabriela Onofre, diretora de Assuntos Corporativos da P&G Brasil, responsável por marcas como Pantene, confirma que o Brasil cresce de importância e que a inovação é a chave para o sucesso:

— A busca por produtos novos é constante, precisamos atender esse desejo do consumidor.

Farmacêutica inovadora conquista os EUA
O mesmo ocorre em outro setor que vive um bom momento: o farmacêutico. A Hebron Farmacêutica, empresa de Caruaru que agora começa a produzir nos Estados Unidos, cresceu com os investimentos em inovação em fitoterápicos (medicamentos à base de plantas)

“Dedicamos 5% do faturamento bruto da empresa e nossa meta em 5 anos é chegar a 15%", informou por e-mail a empresa, que espera faturar R$ 200 milhões até 2014.

Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), e ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, afirma que o sucesso de alguns setores, como bebidas, decorre da impossibilidade de se importar grandes quantidades para abastecer este segmento:

— O consumo cresce e as importações de cerveja, também, porém nunca será em escala suficiente a abastecer todo o mercado local — disse.

Ele lembra que essa é uma das explicações para a diferença dos setores: alguns estão mais protegidos dos altos custos.

— O alto custo para se produzir no Brasil é o grande problema, ele é elevado na tributação, infraestrutura, salários. O Brasil não pode ter custos maiores que grandes nações desenvolvidas — disse, lembrando que — Isso também está presente no agronegócio, na mineração e nos serviços, mas lá o impacto é disfarçado pelos altos preços internacionais das commodities e pela impossibilidade de se importar grande parte dos serviços.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior não atendeu aos pedidos da reportagem.