Adelson Elias Vasconcellos
Um dos maiores suscessos do rock brasileiro, gravada pelos Paralamas do Sucesso, lançada em 1989, e regravada por muitos outros intérpretes, foi Lanterna dos Afogados. Muito embora a letra verse sobre outro tema, o título me parece bem apropriado para a situação em que se encontram os mensaleiros do núcleo político do Mensalão, principalmente os petistas.
Segundo se diz, Herbert Viana, em um show, teria declarado que fez a letra inspirado na história das mulheres que esperam seus maridos pescadores retornarem pela manhã, em um local do Estado da Bahia. Se a versão é real ou não, só o Herbert pode confirmar ou desmentir. Contudo, o sentimento que ressalta da letra é de uma profunda angústia que, de certo modo, todos nós experimentamos em algum momento de nossas vidas em relação ao nosso próprio futuro, as incertezas que ele traz consigo, e o quanto de insegurança e aflição isto nos atinge.
Creio que estes versos são bem apropriados para o atual momento do processo:
Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar
É uma espécie de luz no fim do túnel, em que o voto do ministro Ricardo Lewandovski parece emergir como tábua de salvação. Nesta linha, também parece apostar o ex-ministro da Justiça, advogado de defesa de um dos réus, Thomaz Bastos, e que se converteu numa liderança respeitável dentre os demais advogados. É dele, inclusive, a porta de saída encontrada para salvar a pele de Lula, quando o escândalo do Mensalão veio à tona em 2005. Lá atrás, Thomaz Bastos inventou o crime de caixa dois, crime menor, de cunho eleitoral, tese abraçada pelos réus e que se sustenta até hoje.
Esta lanterna seria útil não fosse um detalhe: também é de Levandovski o voto que considerou culpado Henrique Pizollato, ex-direitor de marketing do Banco do Brasil, pelos crimes a ele imputados pela Procuradoria, dentre os quais o de peculato e corrupção passiva. Assim, o ministro revisor admite que, de fato, foram desviados cerca de R$ 75 milhões do VISANET, e este montante é sim dinheiro público.
É partindo desta constatação, em que o voto do ministro relator, Joaquim Barbosa, também firmou seu entendimento, que a tese do caixa dois perde força e substância.
Os mensaleiros poderiam até doar os recursos recebidos para a caridade, que os crime a eles imputados pela Procuradoria permaneceriam em pé. Eles preferem afirmar que foi para pagar dívidas de campanha. Ocorre que, sendo públicos, a destinação dada ao dinheiro pouco importa. Este me parece ser o grande erro de avaliação do ex-ministro Thomaz Bastos, logo após a proclamação do voto do ministro Lewandovski, ao afirmar que aquele voto representava a vitória da tese do caixa dois.
Toda a sustentação, seja da Procuradoria quanto do ministro relator, Joaquim Barbosa, como ainda em parte do voto do revisor, desmonta esta tese, justamente por reconhecerem ter havido desvios de recursos públicos do Banco do Brasil. É uma questão de "origem" não de "destino" ou uso dos recursos. A partir daí, a destinação dada a estes recursos já não pesa mais, porque o crime de peculato já está registrado e é anterior. Admitir caixa dois é apenas acrescentar um crime a mais à coleção de crimes antecedentes.
É claro que o minsitro Lewandovski forçou a mão no caso de João Paulo Cunha, e poderá forçar ainda mais para os demais políticos petistas, ao entender que o ex-presidente da Câmara teria recebido os R$ 50 mil do PT. Já desmontamos este papo furado. Se era tudo “ás claras” como afirmou Lewandovski, por que o petista mentiu duas vezes, apresentando duas versões diferentes para um mesmo fato? Além disto, se o dinheiro era do PT por que ele saiu das contas de Marcos Valério, no Banco Rural, e sua autorização de pagamento partiu de Belo Horizonte, e não de Delúbio Soatres, em São Paulo?
É claro que há muitos furos na argumentação de Ricardo Lewandovski e que o Joaquim Barbosa deverá abordar nesta segunda feira. Furos estes que abrirão um entendimento muito diverso daquele que Thomaz Bastos tenta vender desde que o escândalo estourou.
Mas é uma tese que não se sustenta nem nos fatos, tampouco nas diferentes perícias e auditorias efetuados ao longo do processo. E não se sustentam exatamente porque está provado que os recursos que abasteceram as arcas do mensalão tiveram origem criminosa, fruto de desvios de dinheiro público, pouco importando, deste modo, sua destinação posterior.
Claro que este tribunal, dividido do jeito que está, graças a um trabalho pouco recomendável feito por Lula e Dilma, com nomeações discutíveis, poderia no final considerar a todos como pobres inocentes, deixando-os livres para voltarem às suas vidas desonestas.
Contudo, se o STF preferir seguir por este caminho, não apenas estará se desmoralizando como instância máxima da Justiça Brasileira, como terá dado o danoso recado de que a prática política admite tudo, até crimes hediondos no uso ilícito de recursos públicos. Será uma chancela para a desmoralização do senso de justiça que deve imperar em sociedades civilizadas.
O recado passado por Lewandovski em relação a João Paulo Cunha não pode contaminar os demais ministros do STF. Por diferentes textos aqui publicados, esmiuçamos à exaustão os defeitos de entendimento do ministro Lewandovski, como também que a reação ao seu voto foi tão negativa que, mesmo que ele nesta segunda feira o mantenha inalterado, os demais ministros, pelo menos em sua maioria, não se sentirão confortáveis em desmoralizar a instituição STF.
A propósito, vale enfatizar este trecho da Folha, em que se destaca um desses muitos equívocos:
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Lewandowski disse que o ministro do TCU relator da apuração sobre o contrato de Valério com a Câmara afirmara que uma apuração da Secretaria de Controle Interno da Câmara (que apontou problemas no contrato) fora "maculada por vícios que a nulificam [anulam]".
Ele mencionou a página e o volume do processo do mensalão em que estaria a conclusão do TCU. No documento, contudo, vê-se que a afirmação sobre "mácula", "vícios" e "inimizade" não partiu do TCU, mas do próprio Sampaio.
Segundo Sampaio, a reprovação da auditoria interna da Câmara seria decorrente de uma suposta "notória inimizade" entre o então secretário de Controle Interno, Alexis Paula Souza, com o diretor de comunicação da Câmara, Márcio Araújo, e ele.
Apesar de ter aprovado os gastos do contrato, o TCU não avalizou essa versão.
Ontem, a assessoria do ministro reconheceu: "Houve um equívoco, uma falha de interpretação, mas o ministro mantém que a informação consta do acórdão do TCU. O essencial é que o TCU decidiu pela legalidade do contrato".
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Seria esta esperança a nossa lanterna, a de que a maioria vá na direção contrária a que seguiu o ministro Lewandovski? Talvez seja, mas creio ser também o desejo manifesto de grande parte do país. Já a lanterna dos afogados na lama mensaleira, creio ser de menor brilho: a de que qualquer contraponto, tese e argumento que se choque com a cristalina realidade dos fatos demonstrados na acusação da Procuradoria, será imediatamente repelida pela sociedade. Assim, a lanterna deles, para manter-se acesa, precisará deixar na escuridão o resto de bom senso ainda existente no país.


