quarta-feira, dezembro 18, 2013

O corredor da morte nos hospitais

Comentado a Notícia


O relato que segue, é da jornalista Ruth de Aquino,  publicado em sua coluna na Revista Época, desta semana, sob o título acima. 

Para mim não se trata, infelizmente, de nenhuma novidade.  Faz anos que estamos denunciando casos como estes.  Faz cerca de seis anos que reproduzimos aqui um artigo de um médico que denunciava o descaso que o então  governo  do senhor Lula tratava a saúde pública do país. De lá para cá, é doloroso constatar que a situação degradou ainda mais. 

Semana passada, Agência Nacional de Saúde, relacionou uma série de exames genéticos que ficarão sob responsabilidade dos planos de saúde. Entra semana sai semana, e a ANS vai empurrando, com uma frequência assustadora,  mais e mais tratamentos e coberturas para os planos de saúde privado.  Parecem ignorar que, quanto mais encargos,  maior serão as mensalidades a serem pagas pelos beneficiários dos planos privados.  Incrível é que a ANS não imponha as mesmas obrigações aos SUS...Os planos são obrigados a cobrir cada vez uma número maior de atendimentos, e num prazo determinado pela mesma ANS sob pena e risco de multa e suspensão da venda de novos planos. Que ela cuide dos planos privados com rigor é um dever que lhe compete e que justifica sua razão de ser. Porém, se pergunta quem imporá as mesmas obrigações, de atendimento e rapidez, aos usuários do SUS.

Também na semana passada, o tal programa federal Mais Médicos, lançado como panaceia para a cura dos males da incompetência do governo em relação à saúde pública, teve um caso insólito. A senhora Rousseff vetou artigo que criava a carreira federal para os médicos brasileiros, numa prova inconteste de que ao governo da Senhora Rousseff não há interesse em resolver o problema da falta de profissionais de saúde na rede pública. 

Porém, o senhor Alexandre Padilha, apelidado de Ministro da Saúde  não descuida um segundo sequer de sua descarada campanha eleitoral com vistas ao governo do estado de são Paulo. E o país prefere enviar o dinheiro do contribuinte brasileiro para financiar a ditadura cubana do que em prover a rede pública de condições mínimas de atendimento à população. 

Já afirmei aqui: o fato de Dilma até poder ser reeleita em 2014 não significa que seu governo, e no particular da saúde nem de seu antecessor, sejam competentes com a saúde pública. Falta-lhes tudo, vergonha, competência, interesse, prioridade, respeito para quem é obrigado a bancar esta elite estatal vagabunda e ociosa.  

Vamos ver até que ponto o povo brasileiro aguentará esta degradação dos serviços pelos quais ele paga, religiosamente, uma carga tributária que mais parece, dado o nenhum retorno, uma extorsão e um assalto sem limites.  Um dia estes abusos chegarão ao fim. Já é insuportável a publicidade de bilhões de reais que mente descaradamente sobre um governo medíocre.  Quanto mais ainda conviver com um estado degradante e degradado.  O que torna a situação ainda mais caótica é que o ministro responsável pela área dá maior preocupação à eleição em São Paulo, do que tratar com esmero a área sobre a qual é responsável e de cuja eficiência dependem milhões de brasileiros. 

Em tempo: a presidente afirmou, com todas as letras, que não foi eleita para construir “muquifos”. Mas também o voto que recebeu não lhe dá o direito de ser hipócrita. Inaugurar um hospital Em São Bernardo do Campo, que só poderá operar com 30% d e sua capacidade, convenhamos, vai muito além do muquifo. Já se trata de canalhice. E da pior espécie, pois bancada com dinheiro público. 

A seguir,  o artigo da Ruth de Aquino.  

***

Faltam roupas, remédios, leitos, faltam médicos, anestesistas, enfermeiros. FALTA VERGONHA


“Aqui, olha, deixam a gente na musiquinha”, disse a recepcionista do Hospital Barra d’Or, no Rio de Janeiro, apontando o telefone em viva voz. Ela tentava, sem sucesso, autorização do Bradesco Saúde para Hélio Araújo ser atendido na emergência. Hélio tem 91 anos e é meu pai. Sofreu uma queda em casa, e um armário caiu por cima dele. Esperava na cadeira de rodas, a mão enfaixada, pingando sangue no lobby do hospital. Não sabíamos se havia fratura da mão um dano no crânio. Meus pais pagam R$ 2.440,00 por mês ao plano de saúde. A mesma seguradora desde 1978.

“Não autorizaram emergência, só  internação.Também não autorizaram tomografia cerebral. Estou tentando o raio-X”, disse a recepcionista. “Então pago tudo particular, depois abro um processo”, disse eu. Só assim ele foi atendido, “no particular”, após horas de incerteza.  Ficamos no hospital das 20 horas às 4 horas da manhã. Na saída, surpresa: não foi preciso pagar nada. Mas a recepcionista teve de insistir horas, houve discussão e estresse. É o caso de um paciente de elite, que enfrenta os maus-tratos comuns dos planos. 

O buraco é bem mais embaixo na saúde pública do Brasil. Sinto náuseas ao ver multidões de pacientes, de crianças a idosos, dormindo em filas diante dos hospitais, com senhas só para “agendar a consulta”, e não para atendimento.   As senhas acabam. As pessoas choram.  Estão vulneráveis, doentes, frágeis, sentem-se humilhadas, escorraçadas. Gosto de chorros, mas acho que a sociedade tem se escandalizado  mais com o tratamento dispensado a cães do que a seres humanos. 

O estado deprimente e indigno da nossa Saúde é o maior atestado de que a ideologia política de um governo não garante o respeito aos direitos básicos escritos na Constituição brasileira. Temos uma década de governo “de esquerda” – já que o PT se considera um partido do povo.  O que diante dos hospitais é a fila da vergonha. Nossas emergências e nossos postos de saúde estão em colapso. 

No Rio, há 12.500 pacientes à espera de cirurgia em hospitais federais. Alguns esperam há sete anos. Os dados são da semana passada, levantados pela Defensoria Pública da União. Os defensores  decidiram processar o Ministério da Saúde. Querem um cronograma oficial de cirurgias no prazo máximo de dois meses. Exigem que o ministério pague uma indenização coletiva aos pacientes, de R$ 1,2 bilhão. 

Os  pacientes morrem na fila da cirurgia. Cirurgias vasculares, cardíacas, neurológicas, ortopédicas, urológicas, oftalmológicas e torácicas.  Os médicos se descabelam por falta de tudo. Sem parafusos e placas, idosos não podem ser operados num dos maiores hospitais do Rio. Uns pedem material emprestado aos outros. De nada adianta. A precariedade é o artigo mais em alta nos hospitais federais, estaduais e municipais. O jogo de empurra entre as esferas do governo é conhecido. União, estados  e municípios se mostram incompetentes e venais na oferta de serviço de Saúde. Levam pacientes a histeria, pelo sentimento continuado de impotência. 

O programa Globo Repórter da última sexta-feira 13, chamado “Emergência médica”, equivale a um filme de terror.  Só que tudo é verdade. Durante 40 dias, primeiro com câmeras escondidas, depois oficialmente, uma equipe de repórteres e cinegrafistas voltou aos mesmos hospitais e postos de saúde da família  denunciados há quase três anos pela TV Globo, para ver o que mudara. Nada. Em  Belém ou no entorno de Brasília, não importa, a calamidade na Saúde rima com crueldade.  

Pacientes dividem a mesma maca, quando não estão no chão. Um médico de macacão atende pacientes coletivamente, como se estivéssemos EME guerra. Em março de 2011, em Belém, uma menina,  Ruth, morreu na frente  da câmera dos jornalistas. Tinha vindo de uma ilha, com uma leishmaniose que virou pneumonia.  Não resistiu à falta de estrutura dos hospitais. Médicos diziam que nada poderiam fazer, não havia material nem esperança. Os jornalistas voltaram agora à casa da família de Ruth. Os parentes nunca receberam indenização. Ninguém é culpado jamais. 

Faltam roupas para operar no centro cirúrgico. Faltam leitos. Faltam médicos , anestesistas, enfermeiros. Falta salário. Faltam remédios. FALTA VERGONHA.

Minha empregada, Lindinalva Souza, estimulada pelas campanhas do governo de prevenção de câncer nos seios, foi à Clínica da Família em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, pedir uma mamografia. Faz quatro meses. “Quando tiver uma vaga, a gente te chama”, disse a agente da saúde. “Por enquanto, só estamos atendendo diabéticos, hipertensos e grávidas”. Que  resposta é essa?

E, assim, brasileiros e brasileiras anônimos somem para sempre no corredor da morte, ignorados pelos governos, que gastam nossos impostos com sei lá  o quê.    

O manco Mantega

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa


Seu Quié era fogueteiro em Casa Amarela, no Recife. Passou a vida enfeitando o céu de taliscas incendiadas e espocando alegrias nas noites de São João. Mas Seu Quié tinha suas fidelidades políticas, sonhos revividos de velhos tempos da Coluna Prestes, do Cavaleiro da Esperança.

Todo ano, dia 3 de janeiro, era Seu Quié quem fornecia os foguetões que estouravam de madrugada anunciando o aniversário de Carlos Prestes. Iam lá buscar, ele entregava e só. Era sua participação política e sua glória.

Em 1964, veio o golpe militar, prendem Seu Quié. Interrogado, nega:

- Faço fogos há mais de cinquenta anos. Não vou ficar apurando quem compra e para que é que compram. Vendo, levam, acabou-se.

- Você fazia foguetões para o aniversário de Luis Carlos Prestes. Você sabe quem é ele?

-Não sei, não. Sei só que é um moço ai, que é contra umas coisas aí, mas não sei, não.

Foi solto. Voltou ao xadrez para pegar a escova e a pasta de dentes. Os outros presos queriam saber como tinha sido o interrogatório. Seu Quié estava de fala curta:

- Neguei. Neguei tudo.

- Mas você negou suas convicções?

- E eu ia gastar minha dialética com eles?

E voltou para Casa Amarela com seus foguetes e sua dialética.

PIBINHO E PIBEZINHO
O ministro Guido Mantega não tem o caráter de Seu Quié. É um homem sem posições, sem convicções, sem dialética. Cada dia, cada hora fala uma coisa diferente. Diz isso aqui, diz aquilo logo ali. E continua com a mesma cara de sorriso lerdo, torto, morto, trazido de sua Calábria italiana.

Agora, não tendo mais como mentir sobre o desastre da Política Econômica do Governo comandada por ele e que já pariu o “Pibinho” da Dilma em 2012 e está parindo o “Pibezinho” de 2013, teve que confessar:
- “A economia brasileira está andando sobre duas pernas mancas”.

Quer dizer, é uma economia trôpega, aleijada, amantegada.

PETROBRAS
1- A Petrobras está sendo estuprada pelo atual governo, em níveis inadmissíveis e atentatórios aos interesses nacionais. No governo Dilma, em valores de mercado, a Petrobras teve, até agora, uma desvalorização de 101 bilhões e 500 milhões de dólares.A fonte é a consultoria Economática

2 – A maior empresa da América Latina tem seu Conselho de Administração presidido pelo ministro da Fazenda Guido Mantega. Fato inédito na sua história. Sempre foi presidido pelo ministro das Minas e Energia. O engenheiro Silvio Sinedino, representante dos trabalhadores no órgão, afirma: “O Conselho não está decidindo os rumos estratégicos da Petrobrás. Isso é feito em outro lugar. Uma coisa é usar a empresa para o desenvolvimento do País, outra é para atender a baixa política.”

3 – No governo Dilma o endividamento bruto da Petrobras deu um salto triplo. Em 2011 era de R$ 115 bilhões. Em outubro de 2013 atingiu, oficialmente R$ 250,9 bilhões. A indefensável política de represamento de preços, para segurar a inflação, está estrangulando o seu futuro.

O economista Amir Khair, fundador e militante do PT, com seriedade e competência diz: “É lamentável a política do governo usando a Petrobras como biombo da inflação. Ao segurar o reajuste de preços está ocasionando os péssimos resultados que estão aparecendo. Falhas desse tipo maculam a imagem do governo e da Petrobras. Incompetência ou irresponsabilidade?”

DEDO-DURO
Quando o Mensalão deixou Lula de calças curtas, ele pulou fora:

- “Não vi, não sei de nada. Fui traído, apunhalado pelas costas”.

Presidente, Lula nomeou o delegado Romeu Tuma Junior Secretário Nacional de Justiça, vice-ministro da Justiça. Ninguém entendeu. Ele era filho do homem que prendeu Lula. Por que aquilo?

Desfez-se o mistério. O delegado Tuma Júnior acaba de publicar um livro-bomba (“Um Crime de Estado”-Topbooks 557 pags). Ele conta tudo:

-”Eu era investigador subordinado a meu pai e vivi tudo isso. Eu e Lula vivemos juntos esses momentos.Vi o Lula dormir no sofá da sala do meu pai. Lula era informante do meu pai no Dops. “Barba”era o codinome dele. Lula combinava tudo com Tumão.Tinham uma relação muito sigilosa”

Com nove dedos Lula era um dedo-duro. Imaginem se tivesse dez.

Dinheiro, pra que dinheiro.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Poder Executivo: o governador paulista Geraldo Alckmin, PSDB, candidato à reeleição, decidiu duplicar a verba de publicidade oficial. Gastando o dobro, imagina, terá mais votos. Há campanhas absurdas: de como o Metrô é bom (é mesmo, mas para que precisa de propaganda? Enfrenta concorrência?), do trabalho da Sabesp (estatal de águas e esgotos, que também não tem concorrência). 

Poder Legislativo: a Câmara dos Deputados estuda novas reformas nos apartamentos que oferece aos nobres parlamentares, para que se deem ao sacrifício de morar em Brasília. Nos Estados Unidos, também um país imenso, quem vai para Washington paga sua própria moradia. Na Europa, a Suécia tem apartamentos funcionais em Estocolmo, mas os parlamentares pagam aluguel. No Brasil, um cavalheiro gasta milhões em campanha, percorre milhares de quilômetros para cumprimentar os eleitores, e quando se elege precisa ganhar casa de graça?

Poder Judiciário: o ministro Joaquim Barbosa, como presidente do Conselho Nacional de Justiça, quer criar uma política de comunicação (integrada, claro, um nome bem na moda). Precisará contratar agências, gastar com anúncios. Para quê? Há concorrência? O cidadão pode optar entre o Judiciário e algum outro sistema que dispute o mercado? Não? Então, por que investir em propaganda?

Poder Patronal: a Federação das Indústrias de São Paulo, que recebe verba oficial, multiplicou o gasto de publicidade, sob a direção de Duda Mendonça. Por coincidência, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, é candidato ao Governo paulista.

O nosso na fogueira
Por que os três poderes da República, mais o patronato, gostam tanto de gastar em publicidade? Porque o dinheiro não é deles. E não é só questão de gastos: o PMDB, cujo candidato ao Governo é Paulo Skaf, votou a favor do aumento do IPTU em São Paulo. Skaf, nos anúncios, diz que é contra o aumento do IPTU. 

Qual a verdade: de quem foi lá e votou ou de quem diz, de boca, que é contra?

O gato comeu
A Câmara de Vereadores do Rio - que já atendeu pelo sugestivo nome de Gaiola de Ouro - decidiu dar um presente de Natal, com o nosso dinheiro, a seus servidores. Cada funcionário da Câmara, concursado ou não, recebeu um mimo de R$ 868,00, para a ceia de Natal - oficialmente, em linguagem legislativa, "o incremento das despesas de alimentação em decorrência dos gastos necessários para a organização da ceia natalina". 

Custo total: algo como R$ 2 milhões.

É coisa nossa
Jabuticaba, acredite, é exclusiva do Brasil. Também é exclusivo do Brasil o corrupto que, condenado, quer julgar o tribunal. O Brasil tem corrupção sem corruptor (é, na essência, o que alegam os condenados pelo Mensalão; e até hoje não foram denunciados os compradores de parlamentares no caso da reeleição), tem corrupção sem corrompido (como no caso do cartel do Metrô), teve Paulo César Farias, condenado por ser intermediário sem que os corruptores e corruptos que usavam seus serviços tivessem sequer o nome revelado. 

E, bem coisa nossa, um caso contado pelo colunista Leandro Mazzini,http://colunaesplanada.com.br

Assim não dá, doutor! 
Um grupo de assaltantes explodiu os caixas da única agência bancária de Paraipaba, no litoral do Ceará. O dinheiro voou, o barulho atraiu o povo e muita gente participou da colheita. Os bandidos ficaram decepcionadíssimos com a ampla participação popular no resultado do assalto. E fizeram então aquilo que, ao menos para os parcos conhecimentos deste colunista, é outra coisa nossa, exclusiva de nosso Brasil: enviaram uma carta à delegacia da cidade, garantindo que lá não pisam mais. 

"Gastamos R$ 71 mil com o assalto e só recolhemos R$ 36 mil. Esse povo da cidade é muito ladrão!"

Para esse povo da cidade, cem anos de perdão. E alguma punição: a Polícia investigou o caso e obrigou dois cidadãos a devolver um computador e uma TV de alta definição que haviam pegado na agência, no meio do tumulto.

Manobra quente
O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que a atriz Bete Mendes apontou como a pessoa que a torturou na prisão, na época da ditadura, deve ser candidato a vice-presidente do Clube Militar, pela chapa Tradição, Coesão e Ação, liderada pelo general Marco Antônio Felício. Brilhante Ustra chefiou o DOI-Codi de São Paulo, centro de tortura do regime militar, de 1970 a 1974; há cinco anos, foi declarado torturador pela Justiça (recorreu e foi derrotado também em segunda instância). É investigado pela Comissão da Verdade. Escreveu dois livros sobre sua atuação no DOI-Codi (Rompendo o Silêncio e A Verdade Sufocada). O general Marco Antônio Felício, que lidera a chapa de Brilhante Ustra, é o autor do manifesto Não Passarão, em que acusa a Comissão da Verdade de revanchismo.

Três é demais
Em 1953, o Taubaté venceu o Comercial e deveria ser promovido. Mas não subiu, por escalar Alcino irregularmente. E passou a ter o apelido de Burro. Mas esqueçamos quem perdeu. Lembremos que é a terceira vez que o tribunal livra o Fluminense do rebaixamento. 

Não é meio muito ser tricampeão de inocência?

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Pão, circo e violência

Gaudêncio Torquato  
O Estado de S.Paulo

Vespasiano, o imperador, em 22 de junho de 79 d.C., pouco antes de morrer, em carta ao filho Tito aconselhava-o a concluir a construção do Colosseum (Coliseu), que lhe daria "muitas alegrias e infinita memória". Pois, entre um banheiro, um banco de escola ou um estádio, o povo preferia sentar-se nas arquibancadas deste. O conselho fundamentava-se na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes. Tito acabou inaugurando o famoso anfiteatro, no centro de Roma, com cem dias de festa. Descortinava-se ali a era do panis et circensis, que consistia em proporcionar, naquela arena, espetáculos sangrentos entre gladiadores e distribuição gratuita de pão. Implicava alto custo para os cofres do Império, com elevação de impostos e economia destroçada, mas a prática populista emprestava enorme prestígio aos imperadores romanos.

É sabido que os jogos, ao longo da História, funcionaram como verniz para lustrar a imagem de governantes. Hoje a estratégia para cooptar a simpatia das populações por meio das artes/artimanhas e do entretenimento continua a receber atenção de administradores públicos de todos os quadrantes. Não por acaso, nossas arenas esportivas, que se preparam para abrigar os jogos da Copa de 2014, deverão colorir o portfólio de feitos do governo.

O que tem mudado na paisagem dos espaços lúdicos não é a ambição dos condutores dos Estados de se alçarem aos píncaros da fama, mas o comportamento das plateias. Espectadores que outrora fruíam a catarse dos embates esportivos, exaltando ou deplorando o desempenho de contendores, tornam-se eles próprios competidores, lutadores, gladiadores, disparando uns contra outros não só a arma das imprecações, mas armas de fogo, e partindo para a violência física. A alteração comportamental de quem vai aos estádios é preocupante, principalmente em nosso território, que elege o futebol como esporte nacional e se depara, a cada campeonato, com os novos sujeitos, as chamadas torcidas organizadas. O fenômeno toma vulto ante o risco de o Brasil vir a ser, por excelência, o palco da violência futebolística, pela constatação de que o aparato da segurança pública tem sido ineficaz para debelar a desordem e a pancadaria nas arquibancadas, a par de medidas paliativas, como cerceamento do acesso de torcedores a estádios, majoração do preço de ingressos, jogos com portões fechados, perda de mando de campo e multas aos clubes.

De pouco adiantará administrar tensões e conflitos sob o escudo policial-repressivo. Como se diz no vulgo, o buraco é mais profundo e está embaixo. A mobilização de pessoas para a formação de grupos e a organização de torcidas obedecem a nova ordem que impregna a dinâmica social no mundo contemporâneo. A competição assume posição singular em todos os setores, espaços, categorias profissionais e classes sociais. As massas fragmentam-se em núcleos, cada qual com seus discursos, bandeiras, uniformes, armas e instrumentos. Os avanços civilizatórios nos campos da macroeconomia, da política e da cultura abrem comportamentos diferentes, multiplicando as pequenas organizações sociais e gerando novos polos de poder.

Os espaços urbanos ganham novos contornos, a esfera do trabalho traz novos desafios e a busca de uma identidade passa a ser central para os indivíduos, principalmente os jovens, motivados a expressar valores como masculinidade, coragem, companheirismo, coesão, solidariedade, sentimento de pertencer a um grupo. Fazer parte de torcidas como Mancha Verde, Gaviões da Fiel, Independente passou a ser referência para habitantes de cidades congestionadas, carentes de serviços e lazer.

Ao escopo semântico - em que se agrupam as agruras sociais - adiciona-se uma estética de diferenciação, caracterizada pelas cores (verde, vermelho e preto, preto e branco, azul, amarelo canarinho), pelos símbolos (gavião, porco, urubu, galo, raposa, coelho, timbu, baleia, leão), pela vestimenta com os dizeres da moda, pelo estilo de andar, de pensar, de perambular em bandos. E fechando o circuito, a espetacularização midiática, por meio da qual os torcedores poderão ver nas telas da TV seus gestos, feições alegres ou crispadas de ódio e ouvir gritos de guerra.

Condenar as turbas com designativos de vândalos, bandidos, selvagens, adensar forças policiais em estádios, continuar a usar meios tradicionais, como punição a clubes, não conseguirão eliminar a violência das torcidas organizadas. Mais cedo ou mais tarde, os atos voltarão. O disciplinamento e a ordem hão de levar em conta a elevação de padrões comportamentais, ancorada no esforço de educação (reeducação) de torcedores fanáticos. Não se trata de promover meras ações de marketing cultural - eventos festivos e associativos para alinhamento dos torcedores ao espírito do clube -, mas um amplo programa com o objetivo de compor um ideário voltado para engrandecer o espírito da democracia, com respeito aos princípios da ordem e da disciplina, que não devem ser incompatíveis com o entusiasmo das torcidas.

É evidente que ante a moldura de extrema competitividade e crescente agressividade entre grupamentos sociais um esforço nessa direção não será tarefa fácil. O que aqui se propõe é uma ação cívica dos clubes de futebol na tentativa de ajudar o Estado brasileiro a melhorar a argamassa do edifício da cidadania. É inimaginável que torcidas se vejam como inimigas tomadas de ódio e virulência; e que o "sarro" tirado por um bandeirinha na direção de um grupo nas arquibancadas, o apito errado de um juiz, um ato menos educado de um policial ou um xingamento de torcedor sejam motivo para pancadaria.

Nem Vespasiano nem Tito imaginariam que, um dia, o dístico panis et circensis seria acrescido de violentia. Fosse assim, o velho Coliseu não estaria em pé.

Mandela e anistia, lá e cá

Percival Puggina
Zero Hora

Em abril, Lula e Bono encontraram-se em Londres. Elogios recíprocos levaram o cantor a afirmar que Lula é o herdeiro de Mandela como interlocutor dos pobres. Essa matéria foi recuperada nos últimos dias em virtude do falecimento do sul-africano. Bono não sabe que Lula, há muito tempo, deixou de ser pai dos pobres, se um dia o foi, para se tornar prestativo parceiro dos mais ricos. Mas o que me interessa aqui são outros paralelismos. 

Mandela ficou quase trinta anos preso e, ao sair, empenhou-se em construir a unidade nacional sul-africana. Lula ficou trinta dias na cadeia, como grevista e, quando pode, cobrou pensão vitalícia, dizendo-se perseguido da ditadura. Mandela recebeu formação de guerrilha e terrorismo em países comunistas. Sua militância afinava-se com a geopolítica soviética. Foi treinado no uso de bombas e minas terrestres. O MK, organização terrorista que comandou, era, ao mesmo tempo, a mão pesada do CNA (partido clandestino, opositor ao Apartheid) e do também proibido PC sul-africano. Depois que chegou à presidência, em 1994, seu partido nunca mais saiu do poder. Mandela usou a retórica, o exemplo e a força para construir a unidade nacional e superar o racismo num país que, em matéria de discriminação, só perdeu para a Alemanha nazista. Lula criou o PT, em 1980, como um partido socialista e tem sido permanente aliado do PCdoB. Sua legenda conquistou o poder em 2003 e se prendeu à cadeira com tarraxa, parafuso e contraporca. Tanto o CNA quanto o PT mancham suas imagens no longevo exercício do poder com estratégias de aparelhamento das instituições e casos de por corrupção ativa e passiva. 

Mandela, glamourizado pelo cinema, recebeu sozinho méritos que também são de Federik De Klerk. Era dele o poder e foi dele a decisão de acabar com o Apartheid, legalizar o CNA e libertar Mandela. Lula, cuidou pessoalmente de transformar em bônus seu o produto das políticas de seus antecessores, cuja vida, anteriormente, infernizou tanto quanto pôde. 

A presidente Dilma, ao falar no FNB Stadium, proclamou: "Mandela é um exemplo e referência para todos nós!". A transmissão não tinha o áudio ambiental, mas imagino que aquela inaudita revelação, apregoada assim, de súbito, tenha provocado comoção nacional e arrancado um prolongado "oooooh!" do público presente. Pus-me a pensar. Se Dilma, de fato, considera Mandela um exemplo, por que, raios, ela, Lula e seu partido não recolhem dele o que de positivo poderiam recolher? Por que não aprendem com Mandela a parar de falar em raça, em cotas, em cor da pele e dos olhos? E por que não aprendem dele que ajustes de contas e revanchismo não resolvem o passado e atrapalham o futuro? 

Existem duas saídas quando se deseja pacificar um país após longos conflitos: a primeira é esquecer, a segunda é lembrar. O esquecer conduz à anistia. O lembrar induz ao julgar, mas não é incompatível com a anistia. Na África do Sul, ao fim do apartheid, ocorreu um processo bilateral, com confissões públicas e pedidos de perdão, seguidos de anistia e reparação. Funcionou? Mais ou menos. A longa tradição brasileira é outra. Pesquisando, encontrei, no período republicano, 15 anistias políticas implicando esquecimento, perdão e, muitas vezes, reparação. Mas já li que houve mais de 40! O que não conheço é outro país onde, tendo-se produzido anistia, perdão e reparação, transcorrido um quarto de século se insiste em pealar bruxas do passado! E de um único ninho de bruxas.

Uma perigosa trama política

José Casado
O Globo

Com objetivos pouco democráticos, pretendem convencer a sociedade de que a democracia é a mãe de todas as corrupções

Que tal viver nos próximos anos submetido ao poder hegemônico de um grupo? E ainda, a cada eleição, estar obrigado a votar exclusivamente numa lista de candidatos feita pelos caciques desses partidos? Lembre-se: quase todos os parlamentares que hoje exercem mandatos ocuparão o topo das listas de candidatos, para facilitar-lhes a reeleição.

Agora, tente imaginar o impacto político, econômico e social dessas escolhas na vida pessoal, dos filhos, dos netos e, talvez, dos bisnetos. Essa é a dimensão da manobra em curso no Congresso, cujo patrocinador mais visível atualmente é o PT, com estímulo da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e de algumas seções da Ordem dos Advogados do Brasil, mas que conta com a simpatia das cúpulas de todos os grandes partidos.

A instituição do voto em lista partidária fechada — definida pelos chefes da burocracia partidária — será apresentada à sociedade como “consequência natural” de um novo modelo de financiamento de campanhas eleitorais, caso o Supremo Tribunal Federal decida tornar partidos e candidatos mais dependentes de dinheiro público. E, no STF, quatro dos onze ministros já decidiram proibir doações de empresas e de pessoas físicas às campanhas eleitorais e ao caixa de partidos políticos. Com mais dois votos iguais, fica estabelecida a maioria. O julgamento deve ser concluído no início do próximo ano.

No Congresso prepara-se reação imediata, uma vez confirmada a tendência dos juízes. Justifica-se que não seria possível cumprir a ordem da Justiça, para fazer campanha sem doações privadas, se não houver substancial aumento do financiamento público a partidos e candidatos.

Nas duas últimas eleições foram registradas 420 mil candidaturas a vereador em 5.500 municípios. Pelas contas mais conservadoras, isso custaria ao menos R$ 4 bilhões ao Tesouro Nacional — ou seja, despesa equivalente a dois meses de Bolsa Família apenas com o preenchimento de 56.810 vagas nas Câmaras Municipais. A questão seguinte, nesse caso, é como dividir a bolada de dinheiro público entre 420 mil candidatos. Seria impossível a partilha, argumenta-se, sem a adoção do voto em lista fechada, definida pelas cúpulas dos partidos políticos.

Planeja-se apresentar o fim do financiamento privado aos partidos e candidatos, complementado pelo voto em lista fechada, como alavanca para “moralizar” a política, em resposta ao ronco das manifestações de rua contra a corrupção.

Puro engodo. A conexão política das empresas no Brasil ocorre no uso partidário dos fundos de pensão das empresas estatais, que têm patrimônio milionário e participam do controle acionário das 100 maiores empresas; pela reserva de um terço das vagas em conselhos de administração das companhias privadas para pessoas politicamente conectadas; e pelo acesso privilegiado ao caixa do sistema financeiro estatal —principalmente o BNDES —, que tem sido decisivo para a expansão e diversificação dos grupos empresariais dentro e fora das fronteiras nacionais.

Por trás da manobra, há coisa pior: a ideia de que a democracia é a mãe de todas as corrupções. Uma formulação rudimentar, acoplada ao oportunismo para manipulação política com objetivos pouco democráticos, numa era em que o poder é cada vez mais fácil de obter, mais difícil de utilizar e mais fácil de perder.


Mudança de rota

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff não tem boas relações com o capital privado, seja da indústria, da agricultura ou do setor financeiro, certo? A insatisfação é cada vez mais explícita e preocupa os arquitetos de sua campanha à reeleição.

Tanto que o ex-presidente Lula da Silva aconselhou a sucessora a ser mais amável na fala, nos gestos e nas decisões relativas ao empresariado. Dilma tentou um movimento aqui, outro ali, mas o ambiente continua arisco.

Nesse espaço, os dois prováveis oponentes, Aécio Neves e Eduardo Campos, têm trabalhado com afinco e sem trégua. Rara a semana em que não há notícia de uma reunião do senador de Minas Gerais e do governador de Pernambuco com um grupo de empresários ou investidores.

Ainda que de maneira discreta, ambos têm colhido senão adesões entusiasmadas, inequívocos sinais de simpatia. Aproximam-se de um grupo do qual Dilma se distanciou. Isso tudo é fato.

Agora, uma suposição: caso sejam consolidados os bons humores de um lado (da oposição) e os maus de outro (do governo) nesse período que antecede o início oficial das campanhas, é de se imaginar que a disposição das empresas para ajudar financeiramente este ou aquele candidato seja influenciada pelos fatores de confiança, simpatia e identificação programática.

As empresas em geral dividem suas doações entre as várias forças, mas tendem a contribuir com aquelas que lhes pareçam em melhores condições de retribuir a ajuda.

E aqui não falamos - ou melhor, não entraremos no mérito - das chamadas "relações perniciosas" para não criminalizar desde já um sistema por ora legal nem misturar financiamento contabilizado com uso de caixa dois.

Ora, se o empresariado está insatisfeito com o modo Dilma Rousseff de governar e vier a se convencer de que Aécio ou Campos podem representar alternativas mais condizentes na perspectiva deles, é de se imaginar - mais, de se acreditar que os candidatos a oponentes estejam investindo nisso - que conseguirão arrecadar bom dinheiro com esse pessoal.

Isso não interessa ao PT, bastante satisfeito que está na proibição de doações por pessoas jurídicas. Claro, o partido tem posição favorável ao financiamento público e aqui estaria aberta uma porta para se tentar chegar lá.

Mas, ao mesmo tempo, se proibido o financiamento empresarial valendo já para 2014 - o que é factível, pois a discussão no Supremo Tribunal Federal não se concentra na legislação eleitoral que exige anterioridade de um ano para entrar em vigor -, os candidatos de oposição ficariam desprovidos dessa fonte de recursos.

O baque também atingiria a campanha do PT, é verdade, o partido tem sido o mais beneficiado pelos donativos. Em contrapartida, está no poder e tem muito mais condições de mobilizar pessoas físicas para doar.

Aliás, pessoas nem tão físicas assim. Funcionários terceirizados da Petrobrás, por exemplo. Podem ser convocados pelo partido a dar um dinheiro cada um, coisa pouca, mas que somado ao volume de gente com interesse em que o PT continue sendo governo para não perder o lugar, vira muita coisa.

Esse dinheiro vem do Estado. Bem como viriam do Estado recursos doados por pessoas físicas ocupantes de cargos de confiança, cuja boa vontade em contribuir seria motivada pelo mesmo sentido de permanência.
E os filiados a sindicatos e entidades que recebem substanciosas verbas governamentais? E por que não pensar no público de 12 milhões beneficiados pelo programa Bolsa Família devidamente instruídos a separar uns R$ 20 ou R$ 30 para não correrem o risco de vir a perder o benefício se eleito alguém da oposição?

São meras hipóteses. Mas demonstram que o fim das doações corporativas por si só não asseguram o equilíbrio de condições aludido pelos defensores da proibição.

A morte de JK: o acidente e a farsa

Gil Castello Branco
O Globo

Não se consegue encontrar um argumento sólido, balizado, lógico e técnico que possa apoiar a tese de assassinato

Desde o século XVIII, cerca de 90 líderes políticos foram assassinados em todo o mundo. Entre as vítimas mais famosas estão, por exemplo, Maria Antonieta, Indira Gandhi e Abraham Lincoln. Mas o crime de maior repercussão foi o assassinato do presidente americano John F. Kennedy. Em Dallas, cidade onde Kennedy foi morto, existe um prédio de seis andares com fotos, vídeos e teorias sobre as circunstâncias da morte. Após percorrer todas as dependências, o visitante sai com mais dúvidas sobre o verdadeiro autor dos disparos do que quando entrou no museu.

No Brasil, também há inúmeros questionamentos sobre a morte de políticos e presidentes. Vira e mexe, são discutidos fatos relacionados às mortes de Jango, Castello Branco, Lacerda, Costa e Silva, Tancredo e Juscelino Kubitschek. Na maioria das vezes, as “teorias conspiratórias” apenas criam uma versão mais gloriosa para mortes naturais.

Na semana passada, a Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo divulgou documento no qual “declara o assassinato de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, vítima de conspiração, complô e atentado político na Rodovia Presidente Dutra, em 22 de agosto de 1976...”

Curiosamente, a conclusão dos vereadores é literalmente contrária àquela da Comissão Externa constituída em 2001, na Câmara dos Deputados, requerida pelo ex-deputado Paulo Octávio, casado, justamente, com a neta de JK. Após ouvir inúmeros depoimentos, viajar ao Chile atrás de eventuais conexões com a Operação Condor e reconstituir a última viagem de JK, a comissão foi taxativa: “Por mais que se exercite a imaginação e a criatividade, não se consegue encontrar um argumento sólido, balizado, lógico e técnico que possa apoiar a tese de assassinato... Os menores detalhes não passaram despercebidos. Investigamos todas as dúvidas, todas as suspeitas. À medida que as questões foram sendo esclarecidas e respondidas, a conclusão foi-se impondo inexoravelmente. Ao final destes trabalhos, não restam mais dúvidas de que a morte de Juscelino Kubitscheck foi causada por um acidente automobilístico, sem qualquer resquício da consumação de um assassinato encomendado.”

Assim sendo, o que teria acontecido nas apurações de ambas as comissões para conclusões diametralmente opostas? Na realidade, o erro dos vereadores paulistas — por ignorância ou má-fé — foi desprezar diversos depoimentos técnicos, como os dos peritos oficiais, do legista responsável pela exumação do cadáver do motorista de JK 20 anos depois do acidente e do relator da Comissão que investigou o tema há 12 anos.

Ao contrário, de forma irresponsável, o relatório da Comissão de vereadores sequer menciona a investigação anterior. Afinal, por quais motivos não chamaram para depor o marido da neta de JK, o ex-deputado Paulo Octávio, que presidiu a Comissão e está absolutamente convicto de que foi um acidente? Por que não convidaram a senhora Maria de Lourdes Ribeiro, filha do motorista de JK, que, como advogada, considera primária a tese do tiro e do assassinato? Por que não colheram esclarecimentos do professor da UFMG e médico legista Márcio Cardoso, responsável pela exumação do corpo do motorista, que após examinar o objeto metálico encontrado — “com visão macroscópica e mesoscópica, por meio de lupa estereoscópica” — provou, categoricamente, tratar-se de um cravo usado para a fixação do forro da urna funerária? Por quais motivos não ouviram os dois peritos convidados para assessorar a Comissão Externa da Câmara, João Bosco de Oliveira e Ventura Raphael Martello Filho, totalmente desvinculados do processo inicial, que, auxiliados por três outros peritos, confirmaram integralmente, 24 anos depois, a perícia original?

Limitando-se a ouvir surradas e infundadas ilações dos mesmos denunciantes e sem qualquer laudo ou estudo que possa comprovar o mirabolante assassinato, a comissão de vereadores perdeu o rumo. Como filho do já falecido perito e promotor de Justiça Francisco Gil Castello Branco, que à época do acidente era o diretor do Departamento Técnico e Científico da Polícia do Estado do Rio de Janeiro e conduziu com extrema competência as investigações — fato reconhecido pela própria senhora Sara Kubitschek ao entregar-lhe uma carta de agradecimento —, presto-lhe com este texto uma homenagem póstuma.

A Comissão Nacional da Verdade, criada com a finalidade de examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas no período de 1946 a 1988, precisa resgatar a memória nacional, mas sem assassinar a verdade histórica.


Não estrague a festa, estúpido!

Demétrio Magnoli
Folha de S. Paulo

 O país da Copa é grande e bobo. “Esta será a Copa das Copas”, disse a presidente, de boca cheia, na cerimônia de sorteio dos grupos. No país dela, que é o nosso, ninguém circula nas cidades travadas, nas estradas paralisadas, nos aeroportos congestionados –mas 12 arenas superfaturadas, em recordistas 12 sedes, receberão a mais cara das Copas. Do enclave do Sauípe, uma bolha segura, esparramou-se pelo mundo a linguagem do verde-amarelismo balofo. No país da Copa, um governo “popular” e “de esquerda” reverbera, tanto tempo depois, as frases e os tiques do general-presidente que gostava de futebol. Há um cheiro de queimado no ar.

“O Brasil está muito feliz em receber todos nesta Copa porque somos um povo alegre e acolhedor.” Violência é a palavra da hora -e ela surge em curiosas associações com a “Copa das Copas”. A barbárie das torcidas do Atlético Paranaense e do Vasco não foi deplorada por seus significados intrínsecos, mas pelas mensagens que supostamente envia ao mundo. Gaiatos da política, do marketing e do colunismo ensaiaram uma sentença que menciona a violência “dentro e fora dos estádios”. É senha, com endereço certo: no saco fundo, cabem tanto os torcedores selvagens e os sumidos black blocs quanto manifestantes pacíficos mas indignados com a “Copa das Copas”. O pau vai comer.

“Não repara a bagunça” –o dístico popular nacional, candidato eterno, e perfeito, a substituir o “Ordem e Progresso” no núcleo de nossa bandeira, trai o medo da vergonha. Joseph Blatter entendeu e traduziu, chamando-nos a congelar a indignação, sublimar as insatisfações, colocar entre parêntesis as divisões. A unidade em torno de um bem maior, que é a imagem do país diante do planeta que nos vê: eis a gramática do discurso político sugerida pelo chefão da potência ocupante. No país da Copa, a convocação à unidade já foi integrada ao discurso da publicidade. Será repetida à exaustão, como uma ladainha, até o apito final. Não estrague a festa, estúpido!

“Será uma Copa para ninguém esquecer”, jactou-se a presidente, formulando uma ameaça involuntária. A partir do Gabinete de Segurança Institucional, estrutura-se uma operação de guerra que abrange as três forças em armas e um desdobrado aparato cibernético. Nas telas dos computadores do sistema de vigilância, cada arena figura como ponto focal de um envelope tridimensional de segurança. Nas ruas, o controle físico do perímetro das arenas, a cargo das PMs, terá a missão de proteger as marcas dos patrocinadores oficiais da ameaça simbólica representada pela presença de manifestantes. Jamais, em tempo algum, o Estado serviu tão direta e exclusivamente a interesses privados. Não: ninguém esquecerá.

O país da Copa não se respeita. Ontem, o partido do governo celebrou políticos condenados por corrupção –e, sob o silêncio cúmplice do presidente de facto e da presidente de direito, achincalhou um STF composto por juízes que eles mesmos indicaram. O país da Copa perdeu o autorrespeito. Os líderes governistas manobram para o Congresso não ouvir um ex-secretário nacional de Justiça que acusa o governo ao qual serviu de operar uma fábrica de dossiês contra adversários políticos. O país da Copa perdeu o respeito. As lideranças do PSDB preferem empregar táticas diversionistas vexatórias a colher assinaturas para uma CPI destinada a investigar todos os contratos estaduais e federais firmados com a Siemens. Yes, nós gostamos de futebol.

No vale-tudo da nova ordem do racialismo, perdemos, ademais, um senso básico de decoro: eu li –aqui mesmo, não nas catacumbas da internet!– que Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert formaram “um casal mais parecido com representantes de afrikâners”. Cores, rancores. No país da Copa, nativos felizes, contentes, de bunda de fora, tocavam caxirola. Foi bonita a festa, pá –pena que nem começou.

Muquifo

Mary Zaidan
Blog Noblat

Animada pela pesquisa CNI/Ibope que lhe conferiu 43% de aprovação, cinco pontos percentuais acima do levantamento de setembro, a presidente Dilma Rousseff comemorou no estilo que lhe ensinaram: em cima do palanque.

Na sexta-feira, ao inaugurar o Hospital das Clínicas José de Alencar, em São Bernardo do Campo (SP), popularizou o discurso, e, para delírio de Lula e do ministro-candidato Alexandre Padilha, copiou o patrono e disse que não fora eleita para construir "muquifo para o povo brasileiro".

Só não contou para o distinto público, muito menos para os que vivem em muquifos e dependem do atendimento público, que apenas 70 dos 293 leitos da unidade estavam sendo entregues. O resto, só em 2015.

Saúde é uma pedra que deixou calos em Lula e insiste em perturbar Dilma. A mesma pesquisa que recoloca a presidente em uma zona de conforto aponta que 52% consideram que essa é a área de pior desempenho do seu governo, índice semelhante ao de antes das manifestações juninas, quando, ao lado de diversas outras agruras, a insatisfação com a Saúde bateu em 71%.

 Foto: Roberto Stuckert Filho / PR
Alexandre Padilha, Dilma e Lula na inauguração do Hospital de Clínicas José Alencar. 

Nem os médicos cubanos, importados como commodities da ilha dos Castro, parecem resolver. E daí? Antes de tudo, eles servem para exorcizar as críticas que o governo recebe sobre a débil gestão da Saúde. E para engrossar o discurso de campanha de Padilha, nome de Lula para disputar o governo de São Paulo.
Seguindo o script de sucesso de Lula para seus apadrinhados, o ministro da Saúde virou arroz de festa. É presença certa em qualquer evento do PT paulista.

Mas os fatos parecem embirrar com o candidato. Precisava ele de um novo surto de dengue com 388 casos em 10 dias em Belo Horizonte, mais de 96 mil no ano na capital mineira; quase 218 mil no estado do Rio até novembro; 36 mil no litoral paulista, com sete mortes? Muito menos de relatos apontando que no SUS a espera para uma consulta com especialistas não raro ultrapassa um ano, meses a fio para realizar um exame, outros tantos para se conseguir procedimentos de média complexidade.

Lula e Dilma sabem que os maiores nós da Saúde não foram nem afrouxados, quanto mais desatados. Alguns deles até viraram promessas de campanha – 8.600 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e 500 Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas -, expostas entre os 13 motivos para se votar em Dilma em 2010. Mas sequer saíram do panfleto.

As 500 UPAs estão no site do PAC como projeto para 2014. Um aviso “leia mais” remete o usuário para uma página do portal do Ministério da Saúde que informa: área em manutenção. Ou seja, UPA, nem mesmo no mundo virtual.

O pior muquifo é o ludibrio, a mentira, a enganação.

A narrativa e os esqueletos

Denis Lerrer Rosenfield  
O Estado de S.Paulo

Revolver tumbas e mexer com esqueletos são formas de manipulação de algo putrefato que exibem um tipo de prazer mórbido. Pior ainda quando isso se faz sob a bandeira ideológica de uma suposta busca da verdade. O lado físico do cadáver toma o lugar do que deveria ser um modo simbólico de o país lidar com seu passado. A reelaboração cede o lugar à exploração dos esqueletos.

A exumação do cadáver de João Goulart está sendo a ocasião de toda uma narrativa que procura sobrepor-se aos fatos. Desenterrar alguém é uma atividade dolorosa, que deveria ser evitada ao extremo, salvo se, bem fundada, fosse absolutamente necessária. Nada indica, segundo depoimentos de seus próximos, que o ex-presidente tenha sido envenenado. Foi construída toda uma "história" que procura justificar tal ato com objetivo explícito de exploração política, numa nítida tentativa de reescrever a História.
O País vive uma extraordinária fase de normalidade institucional, estabilidade democrática e fortalecimento das instituições, fruto de todo um processo negociado de transição política que culminou na Constituição de 1988. Nossa Carta Maior tem demonstrado sua vitalidade até em processos de mudança de vários de seus artigos, conforme procedimentos e regras que exibem toda a sua força.

Nunca é demais lembrar que a Lei da Anistia foi instrumento central de todo esse processo, tendo como protagonistas a oposição liberal e democrática, encarnada por figuras notáveis como Ulysses Guimarães, Paulo Brossard, Teotônio Villela, Franco Montoro, Tancredo Neves e Mário Covas, entre outros; os dissidentes da Arena, que formaram o Partido da Frente Liberal; e os militares democráticos, que não só abriram esse caminho, como o sustentaram. A esquerda radical, derrotada, nada tinha a dizer senão reconhecer um processo de democratização de tipo liberal, levado a cabo contra suas convicções. Na linguagem marxista, teve de se resignar à "democracia burguesa", pois seu projeto socialista/comunista havia fracassado.

O Brasil foi e é um exemplo político para o mundo. Exemplo de concórdia e de negociação, sabendo deixar as sequelas do passado para trás, ciente de que o presente só vislumbra a esperança quando voltado para o futuro. Acontece que os derrotados estão agora tentando reescrever a História, procurando a vitória pela manipulação das ideias e de sua consequente exploração midiática.

Um episódio particularmente significativo ocorreu no reenterro do ex-presidente Goulart, com as honras devidas. Havia parlamentares e ministros presentes. O Exército Brasileiro esteve representado na figura do general Bolívar Goellner, comandante Militar Sul. Seguiu, enquanto soldado, o regulamento, conforme as determinações do Comando do Exército, subordinado à presidente da República. Atuou, portanto, como militar constitucionalista que é. Soube, no entanto, distinguir entre homenagem militar e suposto reconhecimento de um "erro histórico". Não havia nenhuma retratação em pauta, pela simples razão de que esse não era o significado das honras fúnebres, tampouco cabendo a ele refazer a História. A História é constituída por fatos que não podem ser reescritos, embora, evidentemente, possam servir de aprendizado para as futuras gerações, não importando o lado atingido.

A ministra Maria do Rosário, irritada, segundo a notícia, teria declarado que o assunto deveria ser levado ao Comando do Exército. Um parlamentar usou da ironia para dizer que nem sabia o nome do comandante Militar Sul e que este deveria apenas seguir o regulamento. Queria que ele o desrespeitasse? Trata-se de afrontas, totalmente desnecessárias, à instituição militar, que, sim, garantiu a transição democrática e foi sua garante em momentos difíceis.

Note-se que a exumação do cadáver para exames toxicológicos e outros deixou de ser a questão e o problema se deslocou para as honras militares do novo enterro. Já fora um despropósito a exumação, que foi seguida de um espetáculo político, cada partido e político procurando extrair o máximo de benefícios. Foi uma forma canhestra de reescritura da História. O recato desapareceu em proveito da ideologia.

E não se fala mais dos exames. Seus "resultados", conforme foi anunciado, podem demorar entre seis meses e um ano. Um dos especialistas, aliás, é um médico cubano, como se a ditadura comunista caribenha fosse um grande centro de medicina, contando com profissionais e laboratórios mundialmente renomados. Deveriam, isso sim, enterrar seu próprio regime político, exemplo de abolição das liberdades e da democracia.

O problema tornou-se o reenterro, como se a exposição do cadáver devesse ser seguida de atos de desrespeito à instituição militar, provocada na figura de seu representante. Sua resposta, contida e clara, mostra o amadurecimento do Exército precisamente quando confrontado com quem procura provocá-lo. Por que, aliás, a provocação?

É como se a exumação e o novo enterro tivessem como finalidade uma reescritura histórica, que poderia levar à abolição da Lei da Anistia. Já não bastou a Comissão da Verdade ter-se recusado a investigar os crimes da esquerda armada, num comportamento evidentemente parcial. Tampouco é suficiente que os que propugnavam estabelecer no Brasil uma ditadura comunista sejam agora apresentados como "combatentes da liberdade". Não prezam a estabilidade institucional do País?

Parece não haver limites. Agora, outra reescritura entra em pauta, a da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, apresentada como "assassinato político". Todos os especialistas que analisaram o fato se recusam a essa nova pantomima, reiterando o acidente que foi. Os cadáveres estão-se tornando protagonistas políticos graças a esses criadores de "mortos vivos". Pensam que o País deve seguir o exemplo da Argentina, que se enterra cada vez mais?

Ética na escola e na vida

Gustavo Ioschpe
Revista VEJA

A escola brasileira é antiética. Em geral, há desprezo pelos alunos e seus esforços. Os professores faltam ao trabalho uma enormidade

O peso histórico de um evento é determinado pelo que lhe sucede. A prisão dos mensaleiros tem tudo para ser um dos acontecimentos mais importantes da história brasileira em décadas, mas só os nossos próximos passos dirão se será um ponto de inflexão ou um ponto fora da curva. Se o mensalão for o primeiro de muitos casos em que banqueiros, congressistas e ex-ministros vão para a cadeia por seus delitos, as próximas gerações verão este ano como o ponto de virada. Se, pelo contrário, essas prisões forem apenas a exceção que confirma a regra, um caso isolado em que as instituições funcionaram, então os historiadores do futuro verão o mensalão como uma curiosidade. É difícil prever, mas confesso que não vejo muitos motivos para justificar o otimismo a curto prazo. Porque ter uma Justiça ágil e rigorosa contrariaria quatro pilares que me parecem basilares na formação do Brasil.

O primeiro é o corporativismo. Somos o país dos interesses de grupo. Não pensamos nem agimos como indivíduos, mas como categorias. Uma das corporações mais poderosas é a dos advogados. É muito numerosa (871 000 advogados no país, mais procuradores, juizes…), organizada (a OAB é tão influente que tirou do Estado o poder de decidir quem pode ou não exercer a profissão) e poderosa: dos 100 congressistas mais importantes do país segundo o Diap, dezenove são advogados. Nosso sistema penal criou intermináveis apelos, chicanas e exceções. Quanto mais longo é um julgamento e quanto maior é o número de instâncias, maiores são a remuneração de advogados e a necessidade de juízes e promotores. (“É a preservação do direito de plena defesa dos réus!”, dirão nossos causídicos, cumprindo a regra de sempre apresentar a luta pelos benefícios corporativos como uma batalha pelo bem comum.) Precisaríamos que os deputados-juristas mudassem um sistema que beneficia seus pares. É difícil. Ainda mais quando incríveis 38% dos nossos congressistas são réus no STF.

O segundo é o nosso pendor cristão-filossocialista de achar que todo criminoso é vítima de um sistema social injusto, e não um agente capaz de fazer as próprias escolhas. Alguém que merece nossa compaixão, e não punição. A ditadura durou 21 anos. mas seu rescaldo está sendo ainda mais longo: nossos legisladores ficaram com tanta (e justificada) ojeriza às prisões arbitrárias de um regime de exceção que criaram um sistema em que é improvável condenar alguém com bom advogado. (Esse é mais um dos casos em que a teoria da defesa dos despossuídos se transforma em uma prática que garante a sua danação, como em todos os populismos.)

O terceiro é a nossa secular desigualdade de renda. É mais difícil seguir o princípio básico da democracia — a igualdade perante a lei — quando na sociedade há uma clivagem tão aparente entre os que muitas vezes se comportam como se estivessem acima da lei e a grande maioria, abandonada pelo Estado e desprotegida.
O quarto e mais importante de todos: verdade seja dita, não somos um povo que prima pela ética. Basta ver os políticos que elegemos para nos representar e o que eles fazem. Para aqueles que acreditam que, mesmo em um sistema democrático, nossos eleitos são piores do que seus eleitores no quesito ética, convém ver os resultados de uma pesquisa Ibope de 2006 ( todos os dados aqui mencionados estão em twitter.com/gioschpe). Ela mostra que, apesar de a condenação à corrupção ser quase universal. 75% dos entrevistados confessam que, se eleitos para cargos públicos, cometeriam ao menos um delito de uma lista contendo treze possibilidades (coisas como mudar de partido em troca de dinheiro, contratar empresas de familiares sem licitação, pagar despesas pessoais não autorizadas etc.). 69% dos entrevistados também admitem já ter transgredido leis para levar vantagem (dar caixinha ao guarda, sonegar impostos, inflar gastos médicos para o seguro-saúde etc.). 

Essa falta de ética se irmana à fraqueza do nosso aparato de Justiça para dar origem a um ciclo vicioso em que há mais delinquência porque a confiança na absolvição é grande, e o fato de tantos sermos delinquentes torna improvável a criação de leis mais duras contra os delituosos.

Como romper esse ciclo? Só vejo dois caminhos. Um é o de uma ditadura benevolente, que mude as leis na marra. Rejeito-o liminarmente. O segundo é formando cidadãos melhores, que elegerão representantes melhores e mais probos, que farão melhores leis.

Essa formação pode vir de uma série de fontes. Desde a família até clubes de escoteiros, instituições religiosas etc. Mas o melhor candidato, disparado, é o sistema educacional. Porque é nele que crianças e jovens passam boa parte do seu tempo, é nele que são socializados, é nele que aprendem sobre atos virtuosos de grandes homens e mulheres (e também sobre os nefastos) e nele estão em um ambiente hierárquico e regrado, onde há figuras de autoridade capazes de punir desvios de conduta.

Se um marciano chegasse ao nosso país e acompanhasse nossas discussões educacionais, acreditaria que somos o país cujo sistema educacional oferece a melhor formação ética da galáxia. O assunto é infinitamente discutido e priorizado, a ponto de uma pesquisa da Unesco que traça o perfil do professorado brasileiro mostrar que para 72% de nossos mestres a finalidade mais importante da educação deveria ser “formar cidadãos conscientes” — só 9%, por contraste, falam em “proporcionar conhecimentos básicos”. Sabemos que essa missão não está sendo cumprida. Principalmente porque um sistema educacional não tem esse poder — a pregação de um professor não vai reverter os efeitos de uma sociedade permissiva e de um Judiciário ineficazes. Mas também porque a prática de nossas escolas é o oposto de sua pregação.

A escola brasileira é antiética. Em geral, há desprezo pelos alunos e seus esforços. Os professores faltam ao trabalho uma enormidade. Fazem greves de meses, com motivações muitas vezes políticas, prejudicando gravemente o andamento dos estudos. Mesmo quando há aula, o tempo é desperdiçado. Uma pesquisa do ano passado do Banco Mundial mostrou que só 64% do tempo previsto de aula é gasto com tarefas de ensino — um terço dele é perdido em outras atividades ou sem atividade alguma. Mesmo no tempo de aula, o despreparo docente é aparente. As aulas são chatérrimas; boa parte do tempo é devotada a copiar matéria do quadro-negro — o que pode ser um ótimo exercício de caligrafia e uma maneira de um professor despreparado preencher os cinqüenta minutos de aula, mas não tem nada a ver com educação.

Finalmente, quando todo esse processo é avaliado, as fraudes são constantes: não me recordo de uma única prova em toda a minha vida de estudante em que não houvesse cola. Em alguns casos, gritante. A grande maioria dos professores faz que não vê. No máximo dá uma indireta. Que diferença do ambiente nas universidades americanas que cursei, em que a primeira página de cada prova continha uma declaração de aderência ao código de ética da universidade, cuja assinatura era obrigatória para todos os alunos, e que especificava a punição para os coladores: expulsão. Nunca vi sequer um aluno colando. Há suporte empírico para essa observação casual: um estudo de dois acadêmicos portugueses em 21 países mostrou o aluno brasileiro em quinto lugar no ranking da cola em universidades.

Aqui há uma discussão conceitual importante. Muita gente verá esses dados e dirá que a escola é apenas um reflexo da sociedade. Se a sociedade brasileira é desonesta, é normal que a escola também o seja. O problema é que, para avançarmos, precisaremos que as instituições sejam melhores do que a média nacional. Enquanto nossa escola for um retrato do país, o país não mudará. Temos de exigir das escolas um desempenho ético superior. Não é fácil. Todas as forças e incentivos existentes conduzem à inércia. Mas são indispensáveis. A melhora educacional precisa vir antes da melhora social. Foi assim nos países de sucesso. Espero que seja assim aqui também. São os meus votos para 2014.

Inovação para o Ensino Médio

Viviane Senna
O Globo

Muitas escolas públicas hoje têm acesso à internet, mas o que se estuda nelas continua organizado da mesma forma mecânica e analógica do passado

O típico aluno do Ensino Médio brasileiro estuda da mesma forma que seus avós o faziam quando era preciso pedir à telefonista para fazer um interurbano. Muitas escolas públicas hoje têm acesso à internet, mas o que se estuda nelas continua organizado da mesma forma mecânica e analógica do passado. Não admira que este aluno, com celular no bolso e hiperconectado, veja certa inutilidade em ir às aulas. A maioria dos jovens ouvidos na pesquisa Cebrap/Fundação Victor Civita reclama que os conteúdos “ensinados” não fazem sentido na vida. É compreensível que isso, além do baixo preparo com que chegam do Ensino Fundamental, resulte no fato de só metade dos brasileiros de 15 a 17 anos estarem no Ensino Médio.

Uma boa dose de ousadia é necessária para enfrentarmos esse enorme desafio. Einstein disse que não podemos resolver nossos maiores problemas com o mesmo nível de pensamento com o qual os criamos. Encontramos essa corajosa disposição na rede estadual do Rio de Janeiro, que nos convidou a construir a quatro mãos uma proposta de modelo inovador para o Ensino Médio, sintonizado com as demandas do século XXI.

Neste novo modelo foram integradas as múltiplas competências a serem desenvolvidas, tanto as cognitivas quanto as socioemocionais, de modo que a escola possa capacitar o jovem para a matemática e a língua, e também para ter autonomia e iniciativa, trabalhar em equipe e se relacionar num mundo de diversidade, de problemas e oportunidades globais. As disciplinas foram desencaixotadas e integradas num currículo por áreas de conhecimento. A água pode ser estudada articulando-se os modos de pensar e os modelos explicativos da química, da biologia, ambiente, economia, geografia etc. Mais do que o conteúdo de cada disciplina, desenvolvem-se competências como a resolução de problemas e o pensamento crítico.

Essas mudanças só são possíveis porque os educadores da Secretaria estadual de Educação estão pensando num nível mais amplo. A rede vem adotando um modelo de gestão por resultados, com metas, avaliação externa e incentivos para os profissionais. Para apoiar as escolas, foi criado um comitê gestor e há um notável suporte à qualificação das equipes. A inovação pedagógica vem nesse contexto, começando com a definição de currículo mínimo para todas as disciplinas e avançando hoje, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, na proposta de currículo integrado e desenvolvimento de múltiplas competências. É um esforço que une governo, sociedade e empresas, representadas aqui pela parceria com a P&G e a Citi Foundation, num novo paradigma ético de corresponsabilidade pela educação e pelo futuro das novas gerações.

Inovação implica erros e acertos, mas o balanço da secretaria é positivo. Em apenas dois anos, de 2009 a 2011, suas escolas saltaram de 26º para 15º lugar no ranking do Ideb no Ensino Médio. Essa melhora se deve tanto à proficiência em português e matemática como ao aumento da taxa de aprovação. E a aprovação maior se deve mais à redução no abandono do que na reprovação, o que sinaliza um interesse maior dos alunos pela escola. Num colégio que está implementando nossa proposta inovadora, já há mais de 300 alunos inscritos para as 120 vagas em 2014 — e 80 deles vêm de escolas particulares. Ou seja, os jovens estão gostando dessa ousadia.

Mulher de malandro decidirá eleição

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

O eleitorado diz que quer mudança, mas pretende reeleger Dilma. É puro chavismo

O Brasil está fazendo tudo certo para se tornar, em 2014, um país pior. Segundo uma pesquisa Datafolha, 66% dos brasileiros querem mudanças no governo. É um dado novo e expressivo. Parece mostrar que a população enfim percebeu como é governada, descobriu o engodo administrativo que avacalha as contas públicas brasileiras. E como o Brasil quer mudar esse estado de coisas? Elegendo Dilma Rousseff no primeiro turno. É o que dizem o Datafolha e todos os institutos de pesquisa. Ou seja: o eleitorado brasileiro concorre ao troféu mulher de malandro 2014.

E esse eleitorado que quer mudanças no governo tem uma carta na manga. É um não candidato, mas que, se entrar no páreo, torna-se o único nome nacional capaz de derrotar Dilma: Lula. Como se vê, o Brasil quer mudar mesmo.

Esse fenômeno tem uma explicação muito simples, que os cientistas políticos negam desesperadamente, numa espécie de otimismo avestruz. O fenômeno se chama chavismo. E ele, e só ele, que explica o paradoxo da insatisfação com o governo versus apoio eleitoral ao governo. A colossal propaganda populista do petismo conseguiu dissociar nome e pessoa, conseguiu inventar o binômio do crioulo doido – administração desastrosa e governantes bonzinhos. E a culpa não é dos parasitas do PT. Eles estão no papel deles. Fazem o que sabem fazer: parasitar. A culpa é do povo. Resta apenas escolher qual a parte pior do povo: a que não enxerga ou a que faz vista grossa.

Recentemente, Dilma declarou que o IBGE faria a revisão do PIB de 2012, para cima. Antecipou que o índice de crescimento do ano passado passaria de 0,9% para 1,5% – um aumento expressivo e surpreendente. A notícia repercutiu forte, apesar do mal-estar com o fato de a presidente da República ter vazado uma informação do IBGE, uma falta grave na política de sigilo dos dados do instituto. Teoricamente, Dilma nem poderia saber daquele índice – justamente para que não haja tráfico político de estatísticas. Mas o mal-estar seria duplo.

Não bastasse o vazamento, o informante dela estava mal informado. A revisão do PIB foi de 0,9% para 1%, quase nula. Os chavistas venezuelanos e argentinos são mais eficazes na manipulação dos índices que seus governos destroem.

Esses 66% de brasileiros que sentem a inflação morder seus calcanhares não notam nada disso. Deveriam estar olhando para o outro lado quando o governo bateu cabeça em público, para o mundo inteiro ver, discutindo a melhor forma de abafar os preços dos combustíveis – para mascarar a inflação febril dos preços livres, encostando em 10% ao ano. É um imenso contingente de brasileiros divididos entre os que não veem e os que fingem que não veem a demagogia tarifária arrebentando a Petrobras e as elétricas. Assim é o chavismo: a realidade é o que o governo bonzinho diz.

Dizem que haverá nova série de manifestações durante a Copa do Mundo. Entre as pautas dos protestos estará, provavelmente, o reajuste das passagens de ônibus – porque a mentira bondosa da manutenção dos preços das passagens não poderá durar mais muito tempo. E aí já se sabe, pelo nível de esclarecimento dessa geração de manifestantes e seus amigos black blocs, que teremos mais um capítulo da já famosa Primavera Burra brasileira: quebradeira geral e risco zero para os amigos de José Dirceu que comandam o carnaval no Planalto.

O Brasil não se importou de ver um Ministro da Educação panfletário e negligente usando o cargo para virar prefeito de São Paulo. Não se importa de ver um ministro da Saúde em comício permanente para ganhar o governo do Estado de São Paulo – segundo Lula, seu mentor, para tirar “os conservadores” do poder. Eles usarão para sempre a bandeira de revolucionários oprimidos, mesmo já sendo os donos quase absolutos do aparelho de Estado. Enquanto colar, está valendo – e o mensaleiro Delúbio poderá se autodenominar preso político, sem que isso seja uma piada. O Brasil não se importa que o ministro da Justiça, aquele que gritou contra o regime fechado para os mensaleiros, remeta ao Ministério Público um relatório pirata incriminando adversários políticos.

Quem acha que isso não é chavismo que vote em Dilma pela mudança. Basta de conservadorismo.

Natasha e Eremildo numa prova do Enade

Elio Gaspari
O Globo

Madame Natasha fez as provas de Administração e Ciências Econômicas do Enade e concluiu que o Ministério da Educação estimula a criação de um dialeto no qual os professores ensinam (e cobram) conhecimentos num idioma que não falam em casa. A senhora entende que há expressões técnicas que devem ser ensinadas e aprendidas, mas “empresa potencial entrante” é a popular “concorrente”, “estatisticamente não significante” é apenas “insignificante”, uma “asserção” é uma “afirmação”, e “fator explicativo” é “uma das explicações”.

Se um diretor de uma companhia disser que talvez seja obrigado a enfrentar uma empresa potencial entrante, mas está tranquilo porque ela virá com uma produção estatisticamente não significante e que essa asserção é um fator explicativo da sua esperança de ganhar o bônus no fim do ano, será mandado ao manicômio.

Natasha acredita que, estimulando-se os alunos a aprender um dialeto incompreensível, se consegue apenas fazer com que professores que não se fazem entender propaguem, com a ajuda do MEC, um blá-blá-blá de empulhação.

Por coincidência, Eremildo, o Idiota, fez a mesma prova. Como vive num quarto alugado nos fundos de uma pensão, sonha em se credenciar para um cargo na diretoria da Petros. Numa pergunta relacionada à economia brasileira dos anos 30, ele achou a expressão “indústria capitalista”. O cretino acha que em Pindorama só havia essa, pois a socialista estava sob os cuidados de Stalin.

A dupla até hoje tenta decifrar o seguinte enunciado, relacionado com as novas formas de organização das empresas. Segundo o texto, elas são vistas também “como aperfeiçoamento da abordagem contingencial da administração. Os estudos realizados carecem, entretanto, de aprofundamento para que se possa considerar as chamadas organizações pós-modernas ou como expressão da ruptura qualitativa com a modernidade ou como versão especificamente histórica das organizações modernas”.

Umas das alternativas de resposta era a seguinte: “De acordo com a compreensão sistêmica e comportamental da administração, as novas formas organizacionais revelam a ruptura com a racionalidade instrumental, caracterizando o paradigma pós-modernista."

Ganha uma viagem de ida a Pyongiang quem souber o que isso quer dizer. Indo-se ao gabarito, vê-se que essa alternativa estava errada. Era uma pegadinha, em blá-blá-blês.

Um professor com títulos e desempenho empresarial suficientes para dar inveja aos educatecas do MEC testou-se respondendo às oito questões de Formação Geral. Valendo-se de seus conhecimentos e de sua opiniões, errou quatro. Numa nova tentativa, colocou-se no modo “politicamente correto” e deu as respostas que intuiu serem as desejadas. Acertou seis. Num enunciado em que se descreve a influência dos jogos domésticos sobre as crianças, reduzindo seu interesse por questões ambientais, pedia-se aos estudantes que escolhessem um título para o texto. Uma das alternativas dizia: “Preferências atuais de lazer de jovens e crianças: preocupação dos ambientalistas”. Errado. O título certo seria: “Engajamento de crianças e jovens na preservação do legado natural: uma necessidade imediata”. Isso é título de manifesto.

Eduardo Campos e o atentado de Guararapes
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tinha 1 ano de vida quando aconteceu o primeiro atentado terrorista de vulto da década. No dia 25 de julho de 1966, explodiu uma bomba no saguão do aeroporto de Guararapes, onde centenas de pessoas esperavam pelo marechal Arthur da Costa e Silva, que sucederia a seu colega Castello Branco na Presidência da República. A explosão matou um almirante, um jornalista e feriu 14 pessoas, inclusive uma criança.

Durante a cerimônia em que Ricardo Zarattini foi justamente inocentado de qualquer responsabilidade pelo episódio, Campos relembrou uma velha desconfiança: o atentado teria sido “um episódio utilizado para dividir a resistência ao golpe".

Sem o esclarecimento de que o atentado foi obra de militantes de esquerda, sobra a suspeita de que os militares tiveram algo a ver com a coisa. Lenda desonesta. Naqueles dias, explodiram no Recife três bombas. Todas colocadas por um grupo ligado à Ação Popular, a AP. Quem montou e colocou o explosivo no aeroporto foi Raimundo Gonçalves Figueiredo, o “Raimundinho”. Vindo para o Rio, e militando na VAR-Palmares, detonou mais duas bombas e foi assassinado em 1971.

Eduardo Campos já tinha 25 anos quando Jacob Gorender esclareceu que Zarattini nada tinha a ver com o atentado. Gorender sabia a identidade do autor. O governador tinha 30 anos quando o “Jornal do Commercio” do Recife publicou uma reportagem definitiva sobre o assunto. Nela, havia uma entrevista do ex-padre Alípio de Freitas, que teria sido o mentor do grupo, ao repórter Gilvandro Filho. Nas palavras de Alípio: “Morreu gente, nós lamentamos. Mas aquilo era uma guerra, tinha que haver vítimas”.

Poesia
Os doutores Sérgio Cabral e Eduardo Paes se apresentam como construtores de um novo Rio de Janeiro. Diante da cena do portão do novo Maracanã alagado, coisa que jamais ocorreu, vale relembrar o poema de Cacaso num período de euforia cívica:

“Ficou moderno o Brasil,
Ficou moderno o Milagre:
A água já não vira vinho,
Vira direto vinagre”.

Pernas
De um empresário de nove dígitos:

“Se o problema da economia brasileira fosse o fato de estar com duas pernas mancas, talvez um ortopedista ajudasse. Como o problema está no cérebro, o caso é para psiquiatra”.

PT calmo
Uma parte do comissariado espera que a solidariedade coletiva oferecida aos mensaleiros presos seja a última.

Nos últimos anos, o partido ameaçou botar seus militantes nas ruas, e Lula prometeu percorrer o país discutindo o caso. Nenhuma das duas coisas aconteceu.

Rosa Weber
Se as decisões da ministra Rosa Weber no caso do cartel dos fornecedores de equipamentos e de seus vínculos com os governos do PSDB paulista contrariarem o tucanato, virá a grita de que foi a doutora Dilma quem a nomeou.

Tudo bem, mas quem nomeou Joaquim Barbosa foi Lula.

Outra ponta
Há um ponto cego nas investigações das propinas cobradas por fiscais da prefeitura de São Paulo. Quando empresários decidem enfrentar os achacadores e resolvem ir à Justiça, descobrem que, nesse caso, terão que lidar com uma nova quadrilha.

Isso acontece em vários estados.

Pastel de Vento

Maria Helena RR de Sousa
Blog Noblat

Vocês já repararam como o governo Lula/Dilma está que é um pastel de vento? Às vezes como recheio só um pouquinho de açúcar e canela. Essa especialidade ilude a fome e pode ser encontrada em todas as feiras populares, de norte a sul do Brasil.

O governo-pastel usa e abusa da sugestão de enorme variedade de recheios para agradar a clientela. Não sei se o truque funcionará durante muito tempo, mas até hoje tem sido um sucesso, não há como negar. Vende bem, os feirantes não se queixam nem as mães de família: uma travessa de pastel de vento esvazia em segundos.

O PT é um mestre-cuca formidável. Criou receitas magníficas; adaptou muito bem receitas de outros chefs; usa e abusa da fartura dos excelentes ingredientes nacionais. Só se dá mal quando copia receitas estrangeiras, não tem os mesmos ingredientes, nem conta com o mesmo empenho de artistas do forno e fogão de outros países.

Mas lá vem o porém, tudo tem um porém. Gosto muito de provérbios e os franceses, com sua lógica e racionalidade, têm um que vale a pena lembrar: tudo passa, tudo quebra, tudo cansa e... tudo pode ser substituído. Imagino que os petistas, super bem viajados, conheçam de sobra essas palavras, mas como acontece com quase todo mundo, lá no alto da colina é comum esquecer o fundo do vale.

Penso que foi isso o que aconteceu. O PT esqueceu do ditado e o que tem oferecido em suas barracas é pastel de vento, sem nada, nem um pingo de açúcar... 

Vou listar aqui certas receitas que nos foram prometidas mas que não chegaram nem perto da massa do pastel:

* o trem-bala. Nem o bala, nem o simples trem que faria um bem enorme ao país;

* cadê as creches que tanta falta fazem para todos os brasileirinhos e brasileirinhas?;

* a transposição do São Francisco que era para 2006, de repente foi adiada para 2010 e agora é prometida para 2015;

* transparência com os gastos do Governo e corte no luxo e gastos excessivos e inúteis;

* ministros de estado que queiram resolver nossos problemas (e não animados que usem o cargo como palanque e holofotes para a próxima eleição).

O último pastel de vento que recebemos foi uma inauguração que nos envergonha: o Hospital das Clínicas em São Bernardo do Campo. Num país indigente em matéria de hospitais, onde as pessoas morrem como moscas por falta de cuidados, inaugurar um hospital com apenas 30% de sua capacidade e prometer à plateia do comício que no dia seguinte ia poder excursionar para conhecer o interior do hospital, francamente, fiquei com vergonha de ser brasileira e não foi por causa de mais um pastel de vento, não. Foi pela mansidão excessiva de nosso povo.

O que faz do pastel de vento um favorito é justamente o fato de sua massa aceitar tudo. Mas é nessa qualidade que também mora o risco de um fracasso: dependendo do recheio, o pastel de vento pode encalhar.

Doações e presentes

Roberto Damatta
O Globo

A linha que divide a pessoa física da jurídica leva para o radicalismo dos utilitaristas que fundaram o mundo moderno

As chuvas torrenciais e a morte de Mandela, um herói dos nossos tempos, que hoje é um novo ancestral do panteão dos anciãos africanos, tiraram a atenção do inopinado debate sobre o fim das doações de empresas para candidatos e partidos.

Trata-se de um tema importante mesmo nas chamadas “democracias avançadas”, uma expressão duvidosa porque todas as democracias são sistemas marcados por crises, debates e impasses. Fundadas em princípios obviamente contrários (como equilibrar igualdade com justiça e liberdade?), as democracias são conjuntos dependentes de bom senso, cuja coerência é uma paradoxal incoerência. A alma da democracia jaz no paradoxal direito tanto à diferença quanto ao consentimento de ser governado por múltiplas instituições e leis que valem para todos — sobretudo para os “diferentes”. Democratizar é orquestrar contradições.

A linha que divide a pessoa física da jurídica leva para o radicalismo dos utilitaristas que fundaram o mundo moderno. Para eles, os seres humanos seriam movidos pelo egoísmo. O egoísmo seria a base de instituições e regras de mediação entre os interesses humanos cuja busca e controle produzem uma inesgotável instabilidade.

Não tenho a pretensão de ensinar missa a vigário. Mas garanto que o debate é complexo. Por exemplo, o argumento de que o voto é um momento igualitário do cidadão que “escolhe” o seu candidato e não deve ser influenciado por “pessoa jurídica”, porque elas não votam, não se sustenta, uma vez que sabemos que ninguém nasce com 18 anos e preparado para realizar escolhas. Todos entramos no mundo por “pessoas jurídicas” e, nele, fomos obrigados a aprender uma língua, a conhecer mandamentos e leis e, em paralelo, a amar e a detestar certas pessoas. Com a ressalva de que odiamos e amamos em momentos diversos as mesmas pessoas e amamos e odiamos num mesmo momento pessoas diferentes. Estamos sempre pisando em ovos.

As discussões do Supremo são fundamentais para qualquer antropologista porque, mesmo quando são técnicas, elas falam de questões fundamentais. O tema das doações das empresas abre a o debate sobre os níveis de influência a que estamos implícita ou explicitamente sujeitos.

O ministro Barroso situou bem a questão, tal como como li no GLOBO do dia 13: “É legitimo que uma empresa financie um candidato ou partido (que eventualmente, digo eu, é uma pessoa jurídica maior do que muitas empresas) por representar seus ideais. Mas muitos doam para dois partidos. Que ideologia é essa em que você apoia de um lado e apoia do outro? Faz-se isso por medo ou por interesse?”

Eis uma questão crucial para o funcionamento de uma democracia e para a compreensão do poder no Brasil. O ministro denuncia um absurdo: como apoiar simultaneamente partidos opostos? Já o antropologista lembraria que num sistema de éticas múltiplas, como é o caso do Brasil, os atores contemplam valores e ideais públicos impessoais que nivelam e levam ao risco e à impessoalidade; mas não esquecem os os laços de amizade e a crua e nua realidade do poder e do lucro. Daí a aposta nos dois times. Ademais, há os casos nos quais se doa politicamente sem deixar de presentear um amigo. Nesse sentido, o não escolher é uma escolha.

E eu digo mais. Trata-se, até agora, de uma norma porque o “ficar em cima do muro” é um valor que antecede a formação da própria república. É, para o bem ou para o mal, uma dimensão implícita do nosso modo gradual e sovina de distribuir o poder. Como não doar para os dois lados se em todas as disputas existem casos claros de conflitos de interesses jamais politizados justamente porque não somos uma sociedade fabricada por disputas, discordâncias e debates?

Alguém conhece uma “pessoa” que se declarou impedida de decidir em virtude de “conflito de interesse”? Ademais, como não dar dinheiro para os dois se nenhum deles vai mudar coisa alguma no que diz respeito ao uso criterioso do dinheiro público e às empresas que crescem à sombra dos partidos? O problema não é a doação, é a lógica (ingovernável e não politizada) do doar como um presentear que eventualmente conduz à ladroagem.

As empresas não podem doar, mas os seus donos doam? Haverá limites para as doações, certamente. Mas a partir de que critérios? Penso que esse debate é crítico. Ele nos leva ao velho problema de a reforma política só poder se realizar quando os atores tiverem plena consciência dos seus papéis. Pode um ex-presidente da República, ao lado da presidente, defender os mensaleiros condenados, desafiando o STF num congresso do seu partido? Como ter democracia sem ter plena consciência dos papéis públicos que ocupamos e sem aceitar a ideia de ganhar e perder?