quarta-feira, setembro 22, 2010

Um resposta ao golpismo do PT e de Lula

Comentando a Notícia


Lula, em discurso proferido em Campinas, além da agressão covarde à imprensa que, diga-se por justiça, tem sido mais leniente e tolerante com seus desmandos do que seria ou foi com qualquer outro governante, bateu no peito e disse que a “opinião pública somos nós”, sendo que o “nós” são os que estão do lado dele.

Ocorre que uma opinião pública, na verdade, não é feita apenas por um único pensamento. As opiniões são divergentes, até contraditórias, por vezes, mas não formam um todo unânime. Querer rotular os que dele divergem como não representando a opinião ou não tendo alma brasileira, é ignorar a diversidade de cultura e de etnias que se reuniu para compor o povo brasileiro. Assim, além de revelar um autoritarismo vagabundo de quinta categoria, Lula deu uma demonstração inequívoca de completa ignorância e um desconhecimento lamentável do seja o povo brasileiro.

Nesta semana, o PT convocou seu exército de mercenários, TODOS sustentados pelo dinheiro da sociedade, para promover um protesto contra a Imprensa que cometeu o crime de noticiar a quadrilha instalada dentro da Casa Civil. Já comentamos sobre o que vem a ser este protesto.

Como nem Lula tampouco o PT são donos do Brasil, como também não lhes cabe reinvidicar a exclusividade da opinião do povo brasileiro, porque nem todos pensam igual, e isto é um direito que lhes assiste, o de discordar, direito diga-se natural e democrático, não poderiam ficar sem resposta. Há uma significativa parcela do país que, não apenas não concorda com Lula mas que, sobretudo, discorda das suas atitudes fora de controle, destemperadas, absolutamente totalitárias, a demonstrar um despreparo para o exercício da função que ocupa.

Neste sentido, parte de alguns renomados intelectuais e homens públicos, decidiu dar um recado ao senhor Lula e a seu partido: a de que não lhes cabe agredir direitos e garantias garantidos na constituição, e que são base indispensável na qual se assenta a democracia brasileira, tão duramente reconquistada e que não  está  a venda, e nem admite agressões às suas instituições, que pertencem ao Estado e à sociedade, e não a um personagem ou um partido político. O manifesto é claro quando afirma: “É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais nem mesmo em fingir honestidade.”

Há um outro trecho do manifesto para o qual gostaria de chamar atenção, especialmente, da turma do Ministério Público Eleitoral e do Tribunal Superior Eleitoral, porque é impressionante a cegueira desta turma que, somente eles, não perceberam o que o manifesto traduz como a prática mais aviltante de transgressão à legislação eleitoral de que se tem notícia na história republicana do país. O abuso do poder político associado ao abusivo e ilegal uso tanto da máquina quanto dos recursos do Estado, todos canalizados com o propósito de financiar a candidatura governista, representa o que há repulsivo na prática política registrada na história recente do país. E, as instituições a quem caberia  vigiar as condutas de diferentes candidaturas, para que o processo eleitoral se transcorra em absoluta consonância com os dispositivos e normas legais, garantindo, deste modo, transparência, lisura e absoluto equilíbrio, simplesmente faz que não vê, não toma atitudes para coibir as transgressões e permite o jogo do vale-tudo cujo resultado final é acentuar cada vez mais a degradação dos costumes, permitindo que as eleições sejam fraudadas por interesses imorais do partido no poder. É um despropósito o cruzar de braços do Ministério Público Eleitoral e do Tribunal Superior Eleitoral a revelar não apenas uma covardia diante dos abusos sistemáticos que se repetem há dois anos, mas sua omissão incita que os transgressores se julguem inimputáveis, sob o beneplácito daqueles que deveriam ser guardiões do estado democrático de direito e parecem ter renunciado sua missão e dever.  

Eis o trecho para o qual parte da sociedade, ainda não cooptada pelo desmando totalitário do presidente, manda seu recado aos responsáveis, pelo menos teoricamente, por fazer  cumprir as leis vigentes;

É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. "
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A seguir, leiam a íntegra do manifesto, noticiado pelo Estadão, que revela toda a indignação de quem ainda não vendeu sua consciência e não se curvou à vontade ridícula, de um governante mais ridículo ainda, que se comporta de forma tão irresponsável e leviana.

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Personalidades lançam manifesto em defesa da democracia
O Estado de São Paulo

Entre os que já assinaram o documento estão Hélio Bicudo, Carlos Velloso, José Arthur Gianotti, Ferreira Gullar e Carlos Vereza

Personalidades de diferentes setores lançam nesta quarta-feira, 22, durante ato público em São Paulo, manifesto em defesa da democracia, da liberdade de imprensa e de expressão, do regime democrático e dos direitos individuais. A meta, segundo eles, é "brecar a marcha para o autoritarismo".

O movimento é apartidário e divulga o Manifesto em Defesa da Democracia às 12h na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Entre os que já assinaram o documento estão o jurista Hélio Bicudo, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso, os cientistas políticos Leôncio Martins Rodrigues e José Arthur Gianotti, intelectuais como Ferreira Gullar e Marco Antonio Villa e os atores Carlos Vereza e Mauro Mendonça.

Leia abaixo o texto do manifesto:

"SE LIGA BRASIL"

"MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA

"Em uma democracia, nenhum dos Poderes é soberano.

"Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo.

"Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, os inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático.

"É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.

"É inaceitável que a militância partidária tenha convertido os órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.

"É lamentável que o Presidente esconda no governo que vemos o governo que não vemos, no qual as relações de compadrio e da fisiologia, quando não escandalosamente familiares, arbitram os altos interesses do país, negando-se a qualquer controle.

"É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais nem mesmo em fingir honestidade.

"É constrangedor que o Presidente da República não entenda que o seu cargo deve ser exercido em sua plenitude nas vinte e quatro horas do dia. Não há "depois do expediente" para um Chefe de Estado. É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no "outro" um adversário que deve ser vencido segundo regras da Democracia , mas um inimigo que tem de ser eliminado.

"É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses.

"É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, com o fim da inflação, a democratização do crédito, a expansão da telefonia e outras transformações que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.

"É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É um escárnio que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário.

"Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para rasgar a Constituição e as leis. Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las. É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo.

"Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.

"Não precisamos de soberanos com pretensões paternas, mas de democratas convictos."


A compra e venda de eleitores

Adelson Elias Vasconcellos

Quem assistiu ao Jornal Nacional de hoje, deve ter se surpreendido com uma reportagem em que se noticiava a divulgação de uma pesquisa conduzida pela IBOPE, a pedido da Associação dos Magistrados do Brasil, sobre o comportamento dos eleitores brasileiros.

Em princípio, o comportamento, em geral dos eleitores que a pesquisa revela, não me surpreende. Vamos a três dos aspectos principais.

A primeira, o que não é novidade para ninguém, é haver mais de 70,0% dos eleitores acreditam que os políticos brasileiros atuam em causa própria, isto é, são os únicos que se beneficiam da atividade política brasileira. Em consequência o que se vê é um quadro aterrador, a demonstrar a descrença geral de que os chamados “representantes” do povo, estão longe, muito longe de se justificarem. Os culpados são eles próprios, claro. Mas o eleitor tem lá sua parcela de culpa, conforme a pesquisa acaba dando provas disso.

Outro dado revelador é de que, 9 entre 10 eleitores, acreditam nos propósitos da chamada Lei Ficha Limpa. Antes que a ideia se convertesse em projeto, e este fosse aprovado pelo Congresso Nacional, eu já a defendia em 2006. Se, para cargo de menor importância no serviço público, se exige atestado de bons antecedentes, por muito mais forte razão esta exigência deveria estar presente como exigência básica a qualquer cidadão candidato a cargos eletivos.

O interessante é aquele que faltou para se chegar a unanimidade. O cabra ou é político ou se beneficia de políticos ficha suja. Só pode!

E aí chegamos ao terceiro e mais importante aspecto demonstrado pela pesquisa. Quando questionada sobre compra/venda de voto, a maioria da população se indigna, diz conhecer quem já comprou e quem já vendeu voto, 43% e 41%, respectivamente, recrimina a atitude, etc. Mas, pouco mais de 40% afirmaram que denunciaram algum caso se conhecessem. Porém, reparem neste ponto: 13% informaram que votariam em alguém, mesmo que este “alguém” comprasse votos. E mais: uma grande parcela da população informou que trocaria seu voto por algum tipo de benefício que algum candidato lhe oferecesse, ou seja, “venderia” seu voto.

Quando este dado é classificado por regiões, a gente alcança algumas respostas para algumas questões intrigantes que as pesquisas deixam solta no ar. Antes disso, veja-se o mapa do Brasil, dividido em regiões, sobre a venda de voto por parte dos eleitores:

• Sul – 8%
• Sudeste – 10%
• Norte e Centro Oeste – 13%
• Nordeste – 21%

A exceção do Nordeste, nas demais regiões o resultado da pesquisa acredito não ser tão significativa, afinal, num total de mais de 130,0 milhões de eleitores, com diferentes formações, cultura, escolaridade, condição sócio-econômica, sempre encontraremos neste universo, faixas de pessoas com pensamentos sobre comportamento político também variado.

O assustador é que, no Nordeste, a margem de eleitores que se aceitariam vender seu voto é bastante elevada. Um em cada 5 eleitores não se constrangeria em cometer um crime, porque tanto a compra quanto a venda de voto são considerados crimes eleitorais.

Ora, e fiquemos no Nordeste, se tamanha parcela da população admite que venderia seu voto, e o venderia para quem também não deixa de ser um criminoso, como pode esta mesma pessoa depois exigir que os políticos sejam honestos, se ela própria já condiciona seu ato de cidadania com a ação inescrupulosa de compra e venda de votos? É evidente que o candidato que oferece benefício em troca de voto, não merece nenhuma consideração. Deveria ser descartado de imediato pelos eleitores e até denunciado. Contudo, pouco mais de 40% admitiram que, se tomassem conhecimento de algum caso, denunciariam a prática criminosa.

Se menos da metade denunciam, e considerando o Nordeste, lá, um em cada cinco admitem aceitar benefícios em troca de votos, o candidato resultante deste comportamento, que ainda como candidato se comporta de forma desonesta, não pode resultar, depois de eleito, em um político honesto. Este é aquele político que sempre tem um preço estipulado para votar projetos, independente se é do interesse para o país ou não.

Portanto, quando se olha o quadro degradante da política nacional, que parte dos maus costumes é alimentado pelas escolhas de parte do eleitorado. Claro, todos são fruto de nossas escolhas, e se escolhemos, e o fazemos a partir do mercado de votos, a coisa tende a ficar pior. Não é a toa que se estranhe a pouca indignação do povo brasileiro diante dos escândalos produzidos por atacado, seja no Congresso, seja no Executivo Federal.

Não é apenas a falta de acesso à informação que nos torna totalmente refratários à ideia de cobrar direitos, de se indignar diante da corrupção, de nos mantermos passivos diante até da ação irresponsável do Poder Público no cumprimento de suas funções básicas. E isto está também, em sintonia com a baixa escolaridade de grande da população brasileira, ou pela má qualidade de ensino da parcela mais escolarizada.

Se a gente for fazendo os descontos vamos chegar a um resultado assustador: a de que uma parcela mínima da população, de fato, não se vende, tem escolaridade minimamente razoável, e tem acesso a informação de qualidade. E isto, podem fazer as contas, não atinge sequer 15 de toda a polução do país. E se projetarmos tais cálculos sobre a população que vota, este índice tende a ser inferior a 10%, muito pouco para que o quadro político se altere substancialmente, pelo menos no curto prazo.

Diante disso, é inevitável que as pesquisas que apuram a aprovação do governo, acabem sendo influenciadas pelo comportamento geral que se nota entre os eleitores. Claro, alguns alegarão que a aprovação também atinge camadas mais escolarizadas e mais bem informadas da população. Mas, neste caso, outros fatores acabam influenciando a aprovação ou não, fatores estes que não estão presentes na opinião da maioria.

Se para alguns ou para muitos, o resultado desta pesquisa do IBOPE sobre o pensamento e comportamento dos eleitores brasileiros é surpreendente, para mim que viajo e falo com pessoas de níveis, tais resultados os vejo como perfeitamente naturais e, sim, eles representam muito das causas para que o cenário político além de péssimo seja de absoluto descrédito, além de fornecer parâmetros bem consistentes para entender do porque que uma candidata, de quem pouco ou nada de seu passado é conhecido pela maioria, pode ser eleita em primeiro turno, com votação expressiva, conseguindo uma vitória que nem Lula, com toda a sua “magia” pessoal e sua aprovação recorde conseguiu obter em 2006.

Não se trata apenas de se simplificar ao “é a economia, estúpido”, como muitos analistas tentam nos fazer crer. As razões são bem mais profundas, bem mais culturais do que se possa imaginar.

Claro que se deve considerar a atual situação econômica do Brasil, como mola propulsora de qualquer candidatura governista, até um poste seria um candidato difícil de ser vencido. Contudo, não se admitiria que este poste liquidasse a fatura com tamanha facilidade quanto o cenário atual está a apontar. Também se releva a péssima estratégia de campanha que Serra conduz.

Mas isto tudo não seria suficiente para explicar os resultados que as pesquisas eleitorais estão apontando, por mais que se admita haver alguma forma de manipulação numa ou noutra. A leitura do comportamento dos eleitores vem como que dar o elo final para fechar a corrente. Além disso, é a partir desta leitura que as atuais oposições devem tirar ensinamentos para rever não apenas estratégias futuras, mas também perceber que há espaço para ser conquistado e que há um grupo imenso de eleitores a espera de alguém que lhes oferece algo diferente e que nesta campanha não pode perceber em nenhum dos candidatos. Querem ver? Quantas vezes se falou de ética no poder público? Quantas propostas contemplam melhorias nos serviços públicos básicos? E aqui “propostas” não é apenas “carta de boa intenção”: é proposta no sentido de se apresentar os problemas, as soluções e como tais soluções serão dinamizadas diante dos recursos existentes. E tudo isto dito de forma clara, sem frescuras, em linguagem direta para que o eleitor pudesse entender.

Não é com promessas de elevação do salário mínimo acima do que já consta no Orçamento para 2011, não é prometendo 13º salário para o Bolsa Família que você consegue atingir o sentimento do eleitor. Sabem por quê? Porque isto, Bolsa Família e aumento do salário mínimo, ele já tem. O que ele não tem é qualidade de ensino – qualidade aqui entendido como o conjunto de fatores afetos à educação – através de propostas sérias, saneamento, saúde de qualidade, segurança pública com ações concretas de proteção ao cidadão, um projeto corajoso mas viável de melhoria da infraestrutura, projeto claro de reforma tributária com redução da carga e demonstração de como esta redução beneficia a todos, recomposição das perdas nas aposentadorias dos trabalhadores da iniciativa privada, e assim por diante. Não é gastar tempo a toa em cima apenas de denuncismo. Claro que denunciar atos de corrupção havidos e não punidos pelo atual governo são importantes. Isto é fazer oposição. Mas entender o que angustia o eleitor no seu dia a dia, e atacar estes pontos, é ainda mais indispensável. Sabem por quê? Justamente pelo alto grau de descrença que o eleitorado tem em relação aos políticos. Pelo elevado índice de pessoas que acreditam que os políticos se beneficiam apenas a si próprios.

Assim, creio que a pesquisa IBOPE sobre o comportamento dos eleitores é uma peça sobre a qual tanto a oposição quanto até mesmo os políticos da coligação governista deveriam tirar lições bem proveitosas se, de um lado, é melhorar sua receptividade junto ao eleitorado, e de outro, se há um desejo firme de melhorar o conceito que os políticos em geral tem junto ao eleitorado.

Porque, se ninguém se preocupar com o recado que está sendo dado pelos eleitores, podemos ser atropelados por oportunistas de plantão, prontos para golpearem as instituições. E, se nada mudar na atitude da classe política, acreditem, tal oportunista corre o risco de ter amplo apoio popular.

A elite que Lula não suporta

O Estado de S.Paulo

Nas encenações palanqueiras em que o presidente Lula invariavelmente se apresenta como o protagonista da obra de criação deste país maravilhoso em que hoje vivemos, o papel de antagonista está sempre reservado às "elites". Durante mais de 500 anos, as elites mantiveram o Brasil preso aos grilhões do subdesenvolvimento e da mais perversa injustiça social. Aí surgiu Lula, o intimorato, e em menos de oito anos tudo mudou. Simples assim.

Com essa retórica maniqueísta, sem o menor pudor Lula alimenta no eleitorado de baixa renda e pouca instrução - seu público-alvo prioritário - o sentimento difuso de que quem tem dinheiro e/ou estudo está do "outro lado", nas hostes inimigas. Mas a verdade é que o paladino dos desvalidos nutre hoje uma genuína ojeriza por uma, e apenas uma, categoria especial de elite: a intelectual, formada por pessoas que perdem tempo com leituras e que por isso se julgam no direito de avaliar criticamente o desempenho dos governantes. Por extensão, uma enorme ojeriza à imprensa. Com todas as demais elites Sua Excelência já resolveu seus problemas. Está com elas perfeitamente composto, afinado, associado, aliado e, pelo menos em outro caso específico, o das oligarquias dos grotões maranhenses, alagoenses, amapaenses e que tais, acumpliciado.

Até por mérito do próprio governo na condução da economia (nem sempre a imprensa ignora os acertos do poder público...), os ventos favoráveis que hoje, de modo geral, embalam o mundo dos negócios, muito especialmente os negócios financeiros, não permitem imaginar que o "poder econômico" considere Lula um inimigo ou uma ameaça e vice-versa. É claro que em público o jogo de cena é mantido, com ataques, sob medida para cada plateia, aos eternos inimigos do povo. Mas na intimidade o presidente se vangloria, em seus cada vez mais frequentes surtos apoteóticos, de que hoje o poder econômico, nacional e multinacional, está submisso à sua vontade. Não é, portanto, essa elite que tem em mente nas diatribes contra os malvados que conspiram contra sua obra redentora.

A revelação de seu verdadeiro alvo Lula oferece cada vez que abre a boca. Como no dia 18, em Juiz de Fora: "Essa gente não nos perdoa. Basta que você veja alguns órgãos e jornais do Brasil (...) Porque na verdade quem faz oposição neste país é determinado tipo de imprensa. Ah, como inventam coisa contra o Lula. Olha, se eu dependesse deles para ter 80% de aprovação neste país eu tinha zero. Porque 90% das coisas boas deste país não é mostrado (sic)."

Então é isto. Imprensa que fala mal do governo não presta, extrapola os limites da liberdade de informar. Não é mais do que um instrumento de dominação das elites.

Assim, movido por sua arraigada tendência ao autoritarismo messiânico que é a marca de sua trajetória na vida pública, Lula parece cada vez mais confortável na posição de dono de um esquema de poder que almeja perpetuar para alegria da companheirada. Um modelo populista, despolitizado, referendado pela aprovação popular a resultados econometricamente aferíveis, mas que despreza valores genuinamente democráticos de respeito à cidadania, coisa que só interessa à "zelite". Tudo isso convivendo com a prática mais deslavada do patrimonialismo, coronelismo, clientelismo, tráfico de influência, cartorialismo, aparelhamento e tudo o mais que Lula e seu PT combateram vigorosamente por pouco mais de 20 anos, para depois transformar em seu programa de governo. E em toda essa mistificação o repúdio às elites é a palavra de ordem e a imprensa, o grande bode expiatório.

O diagnóstico seguinte foi feito, com as habituais competência e sutileza, por um dos mais notórios fantasmas de Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista publicada no Estado de domingo: "Achei que (Lula) fosse mais inovador, capaz de deixar uma herança política democrática, mostrando que o sentimento popular, a incorporação da massa à política e a incorporação social podem conviver com a democracia, não pensar que isso só pode ser feito por caudilhos como Perón, Chávez, etc. (...) Mas Lula está a todo instante desprezando o componente democrático para ficar na posição de caudilho." Falou e disse.

Como explicar o desespero de Lula e do PT?

Adelson Elias Vasconcellos

Apesar das últimas pesquisas não darem indicação mais aparente de mudança sobre a preferência do eleitorado em relação aos candidatos que concorrem à sucessão de Lula, também, aparentemente, não se vislumbra no horizonte imediato, nenhuma mudança do cenário capazes de justificar o desespero com que Lula e alguns petistas mais graúdos tem revelado nos últimos dias. Ora, se apenas 16% do eleitorado tomou conhecimento das violações de sigilo, mais ou menos este deve este o índice dos que tomaram conhecimento dos escândalos da Casa Civil. Isto teria força para alterar os rumos de uma eleição que se diz já estar decidida no primeiro, muito embora nenhum voto ainda tenha sido dado a ninguém? É claro que, até porque boa parte dos tomaram conhecimento dos dois episódios, já votaria em Serra, independente deles existirem ou não.

Então como se explica que Lula, de repente, tenha mudado o tom, e tenha passado a agir a agir feito cão raivoso em cima dos palanques, atacando de forma imprudente até a Imprensa que apenas cumpre seu papel de informar?

A agressividade, tosca e grosseira, sob todos os sentidos, não seria minimamente nem que a candidata governista estivesse em situação oposta a que se encontra. É inadmissível que um presidente eleito para governar o país durante quatro anos, abandone completamente seu principal encargo, para embrenhar-se pelos palanques Brasil afora, transformado em um cabo eleitoral transtornado, debochando acintosamente do regime de leis vigentes no país, agredindo gratuitamente partidos de oposição, permitindo um vale-tudo ordinário, insultando jornalistas e órgãos de comunicação de forma gratuita e desmedida, apenas por estarem cumprindo plenamente seu deve de informar. A notícia não ser divulgada para agradar a grupos. Ela é componente indispensável para um país tornar-se livre. Cabe à Imprensa, também, porque composta de cidadãos legítimos, fiscalizar as ações de governo, pertença ele a esta ou aquele agremiação política. Não pode se tornar subalterna ao governo de plantão, porque estaria renunciando à sua principal missão.

Este mesmo governo que ora se arvora como detentor exclusivo da opinião pública, quando na oposição, se utilizava dos mesmos jornalistas e órgãos que ataca, para servirem de veículos para suas denúncias, protestos e queixas, plantar notícias muitas vezes sem fundamento, para semear discórdias políticas, para até distribuir dossiês obtidos sempre de forma ilegal, na tentativa espúria de causar instabilidade institucional e insuflar a opinião pública contra os governantes no poder.

As atitudes de agora, revelam muito mais do agressões gratuitas. São demonstrações inequívocas de que o próprio partido além do presidente, começam a perceber pequenas mutações no seio da sociedade, que contrariam seus interesses políticos. Não há uma única razão honesta e democrática que justifique esta pressa toda para liquidar as eleições antes mesmo que elas aconteçam. Não um só motivo para dar-se por encerrado um pleito que sequer se encerrou. O favoritismo nas pesquisas representam o sentimento e a opinião de apenas uma parcela ínfima da população. Pesquisa não é urna, e a experiência histórica ensina que muitos resultados finais desmentiram de forma fragorosa, as pesquisas feitas até então. A pesquisa que conta, o resultado final que realmente tem relevância, é aquele obtido com a contagem e apuração final.

Só há uma hipótese razoável para Lula ter, praticamente, abandonado seu governo, para se tornar cabo eleitoral em tempo integral (o que , aliás, tem sido a tônica de sua atuação desde que assumiu) em favor de sua candidata: a de que, algumas pesquisas já estariam indicando uma possibilidade mínima de haver um segundo turno. Esta pequena possibilidade é que estaria incendiando os nervos dos petistas, porque, tal possibilidade, abre uma imensa avenida de possibilidades não previstas para a coligação governista. Primeiro, que as condições de exposição serão iguais. Segundo, que as denúncias de mal feitos tendem a se acentuar. Terceiro, que a opinião pública já não mais aceitará o retardamento sobre as investigações das denúncias já divulgadas. E quarto, a de que o candidato ou candidato que disputar com Dilma o segundo turno, terá oportunidade de rachar a coligação governista que só se mantém ativa e unida, pela possibilidade de vitória fácil.

Tal hipótese, perfeitamente possível dado o quadro atual, é factível com o comportamento de Lula. E mais: diante da possibilidade de vir a prolongar uma disputa já tida como ganha, vai obrigar que Dilma se exponha mais por si mesma, sem os ajudantes de ordens que lhe acompanham e sem a presença onipotente de Lula nos palanques.

Em outro artigo analisando as razões para pressa em liquidar a eleição presidencial no primeiro turno, levantei outra questão e que ainda permanece ativa: a de que, para o PT e para Lula, uma derrota que, por enquanto, parece improvável, permitiria que, mesmo diante do aparelhamento imoral que se praticou no Estado brasileiro, seria possível provocar uma depuração da máquina mediante o despejo, de imediato, de cerca de 20 mil militantes petistas e sindicalistas. Com tal limpeza, ficam expostas as entranhas do real governo Lula, permitindo que se investigue com mais rigor os muitos crimes praticados e acobertados. O que seria danoso para a imagem que Lula sempre tentou vender ao país.

Resta saber se, diante da improvável derrota, mas factível de acontecer, como reagirão as forças reacionárias de que se vale o partido, para se manter no poder. É bom o país ficar de prontidão para tentativas de fraude não apenas nos resultados, mas também, de se manipular um golpe branco sobre as instituições, na tentativa de se impedir a posse de um governo de oposição, resultante da apuração final.

A ameaça, acreditem, é real. Eles não se conformarão com a derrota, apenas. Tentarão de alguma forma, se utilizando de qualquer artifício que julguem válido, mesmo que ilegal, para impedir sua saída do poder.

Particularmente, Lula cultiva um pavor enorme em caso de ver sua candidata derrotada: a de que, finalmente, o Brasil venha a saber quem é o verdadeiro Lula, vendo ruir o castelo de areia que ele construiu com mentiras desde 2003. Diante de um fato tão inusitado quanto este, até que seria divertido apreciar o brasileiro descobrir que havia um Brasil antes da era-Lula, e que sem ele, o Brasil até poderia estar melhor hoje do que realmente é.

GOLPISTA É O PT! OU: Partido quer que se declare a vitória de Dilma antes da eleição

Reinaldo Azevedo

Escrevi ontem um post intitulado QUEM QUER GANHAR A ELEIÇAO NO GRITO É O PT!. O que aponto lá? O partido tenta descartar, de antemão, uma eventual reação do candidato tucano, José Serra; quer deslegitimá-la mesmo como hipótese, acusando o tal “golpe”, como se, caso essa reação ocorresse, falasse uma outra vontade que não a do eleitor.

Eu realmente não sei se existe alguma mudança relevante em curso. Todos os partidos fazem pesquisa diária, o tal “tracking telefônico”. Considerando a reação de ira dos petistas — inclusive a de Dilma-olha-a-veia-que-salta —, tendo a achar, às vezes, que sim. Uma coisa é negar irregularidades, acusar complô de adversários, essas coisas. Bem ou mal, isso faz parte do jogo. Outra, diferente, é convocar a Jihad contra o jornalismo. Terá o PT detectado mudanças importantes no quadro?

O que querem o PT e os petistas? Que se declare a vitória de Dilma antes da eleição. Para eles, acabou! Qualquer mudança, agora, é sinônimo — vejam que coisa espantosa! — de “golpe”. E quem estaria tentando o golpe? A mídia! Como? Noticiando o que tem noticiado. Entendo…

- Vai ver foi a mídia que criou o Bolsa Família Erenice Guerra!

- Vai ver foi a mídia que convenceu Israel Guerra a fazer lobby para a MTA.

- Vai ver foi a mídia que convenceu Israel Guerra a fazer lobby para a EDRB.

- Vai ver foi a mídia que programou os encontros de Erenice com os “clientes” do filho.

- Vai ver foi a mídia que levou um funcionário da Casa Civil a exclamar: “Caraca! Tudo isso?”, diante de uma montanha de dinheiro.

- Vai ver foi a mídia que levou a empresa em que atua o marido de Erenice a ter licenças especiais do poder público a nenhuma outra concedida.

- Vai ver foi a mídia a inventar uma gestão no mínimo polemica de Dilma à frente de uma fundação e de uma secretaria no Rio Grande do Sul.

- Vai ver foi a mídia que montou um grupo na pré-campanha de Dilma destinado a fazer dossiês.

Essas são, sendo muito sintético, as notícias que o PT, os sindicatos e alguns supostos jornalistas não querem ver publicadas. Elas constituiriam o pacote de um golpe. Na prática, o partido não aceita ser confrontado com as suas próprias práticas. Para a turma, relatá-las, noticiá-las, é coisa de sabotadores.

O PT sabota a ordem instituída, mas considera má fé que a sabotagem seja notícia.

Nesta madrugada, escrevi que eles esperam de nós a submissão dos jornalistas mexicanos ao narcotráfico: “O que vocês querem que a gente escreva?”

Manifestação golpista é a que está sendo convocada. Trata-se de um arreganho contra o Artigo 5º da Constituição, que tanta luta, e sangue, custou. Mas eu compreendo. O PT se negou a homologar, em sessão simbólica, a Carta que nos rege. Isso significa que não quis se comprometer com o que lá vai escrito, inclusive o Artigo 5º, aquele que garante a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e os direitos fundamentais do indivíduo — os mesmos que os petistas violam com a sem-cerimônia de quem diz: “Hoje é terça-feira”.

Golpistas, como sempre, são os golpistas. Quanto tempo vão demorar para botar fogo no Reichstag?

Lula é um fenômeno religioso

Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo

Lula não é um político - é um fenômeno religioso. De fé. Como as igrejas que caem, matam os fiéis e os que sobram continuam acreditando. Com um povo de analfabetos manipuláveis, Lula está criando uma igreja para o PT dirigir, emparedando instituições democráticas e poderes moderadores.

Os fatos são desmontados, os escândalos desidratados para caber nos interesses políticos da igreja lulista e seus coroinhas. Lula nos roubou o assunto. Vejam os jornais; todos os assuntos são dele, tudo converge para a verdade oficial do poder. Lula muda os fatos em ficção. Só nos resta a humilhante esperança de que a democracia prevaleça.

Depois do derretimento do PSDB, o destino do País vai ser a maçaroca informe do PMDB agarrada aos soviéticos do PT, nossa direita contemporânea. Os comentaristas ficam desorientados diante do nada que os petistas criaram com o apoio do povo analfabeto. Os conceitos críticos, como "razão, democracia, respeito à lei, ética", ficaram ridículos, insuficientes raciocínios diante do cinismo impune.

Como analisar com a Razão essa insânia oficial? Como analisar o caso Erenice, por exemplo, com todas as provas na cara, com o Lula e seus áulicos dizendo que são mentiras inventadas pela mídia? Temos de criar novos instrumentos críticos para entender esta farsa. Novos termos. Estamos vendo o início de um "chavismo light", cordial, para que a "massa atrasada" seja comandada pela "massa adiantada" (Dilma et PT). Os termos têm de ser mudados. Não há mais "propina"; agora o nome é "taxa de sucesso". A roubalheira se autonomeia "revolucionária" - assalto à coisa pública em nome do povo. O que se chamava "vítima" agora se chama "réu". Os escândalos agora são de governos inteiros roubando em cascata, como em Brasília, Rondônia e Amapá - são "girândolas de crimes". Os criminosos são culpados, mas sabem tramar a inocência. O "não" agora quer dizer "sim".

Antigamente, se mentia com bons álibis; hoje, as tramoias e as patranhas são deslavadas; não há mais respeito nem pela mentira. Está em andamento uma "revolução dentro da corrupção", invadindo o Estado em nossa cara, com o fito de nos acostumar ao horror. Gramsci foi transformado em chefe de quadrilha.

Nunca antes nossos vícios ficaram tão explícitos, nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Já sabemos que a corrupção no País não é um "desvio" da norma, não é um pecado ou crime; é a norma mesmo, entranhada nos códigos e nas almas. Nosso único consolo: estamos aprendemos muito sobre a dura verdade nacional neste rio sem foz, onde as fezes se acumulam sem escoamento. Por exemplo: ganhamos mais cultura política com a visão da figura da Erenice, a burocrata felliniana, a "mãe coragem" com seus filhos lobistas, com o corpinho barbudo do Tuminha (lembram?), com o "make-over" da clone Dilma (que ama a ex-Erenice, seu braço direito há 15 anos), com o silêncio eufórico dos Sarneys, do Renan, do Jucá... Que delícia, que doutorado sobre nós mesmos!

Ao menos, estamos mais alertas sobre a técnica do desgoverno corrupto que faz pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da pele, tudo proclamado como plano de aceleração do crescimento popular.

Nossa crise endêmica está em cima da mesa de dissecação, aberta ao meio como uma galinha. Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades imundas, mas fecundas como um adubo sagrado, belas como nossas matas, cachoeiras e flores.

Os canalhas são mais didáticos que os honestos. Temos assistido a um show de verdades mentirosas no chorrilho de negaças, de cínicos sorrisos e lágrimas de crocodilo. Como é educativo vermos as falsas ostentações de pureza para encobrir a impudicícia, as mãos grandes nas cumbucas e os sombrios desejos das almas de rapina. Que emocionante este sarapatel entre o público e o privado: os súbitos aumentos de patrimônio, filhinhos ladrões, ditadura dos suplentes, cheques podres, piscinas em forma de vaginas, despachos de galinhas mortas na encruzilhada, o uísque caindo mal no Piantela, as flatulências fétidas no Senado, as negaças diante da evidência de crime, os gemidos proclamando "honradez" e "patriotismo".

Talvez esta vergonha seja boa para nos despertar da letargia de 400 anos. Através deste escracho, pode ser que entendamos a beleza do que poderíamos ser!

Já se nos entranhou na cabeça, confusamente ainda, que enquanto houver 20 mil cargos de confiança no País, haverá canalhas, enquanto houver estatais com caixa-preta, haverá canalhas, enquanto houver subsídios a fundo perdido, haverá canalhas. Com esse código penal, nunca haverá progresso.

Já sabemos que mais de R$ 5 bilhões por ano são pilhados das escolas, hospitais, estradas, sem saneamento, com o Lula brilhando na TV, xingando a mídia e com todos os mensaleiros, sanguessugas e aloprados felizes em seus empregos e dentro do ex-partido dos trabalhadores. E é espantoso que este óbvio fenômeno político, caudilhista, subperonista, patrimonialista, aí, na cara da gente, seja ignorado por quase toda a intelligentsia do País, que antes vivia escrevendo manifestos abstratos e agora se cala diante deste perigo concreto que nos ronda. No Brasil, a palavra "esquerda" ainda é o ópio dos intelectuais.

A única oposição que teremos é o da imprensa livre, que será o inimigo principal dos soviéticos ascendentes. O Brasil está evoluindo em marcha à ré! Só nos resta a praga: malditos sejais, ó mentirosos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas, que vossas línguas mentirosas se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, e vos devorem a alma.

Os soviéticos que sobem já avisaram que revistas e jornais são o inimigo deles.

Por isso, "si vis pacem, para bellum", colegas jornalistas. Se quisermos a paz, preparemo-nos para a guerra.

O Pobre

Percival Puggina (*)

Quando o sistema político utilizado na eleição do chefe do governo cede espaço à irracionalidade, emergem imediatamente seus péssimos efeitos. Rebato mais uma vez as mesmas teclas para produzir a velha frase: eleição direta de governante é uma coisa insensata. A campanha eleitoral que promove essa escolha faz tudo, menos colocar o eleitor em contato com a realidade do país para que possa optar entre diferentes alternativas com vistas à ação política no período subsequente. Estamos, pois, num período de total descolamento da realidade brasileira. Pode o período eleitoral servir ao oposto de sua finalidade? Pode. No nosso sistema, pode.

Ontem, por exemplo, eu vi um pobre. Juro que vi. Bem na minha frente, numa esquina da Benjamin Constant. Ele estava parado, sob seus andrajos, encostado à parede de uma loja. Esfreguei os olhos e o pobre continuou ali, estático. Garanto a vocês que parecia tão incrédulo e estarrecido quanto eu. A pele, escurecida, há muito não se encontrava com um sabonete. Abro um parêntesis. Em tempos idos, morei num edifício próximo ao qual vivia uma moradora de rua, sempre carregando um saco com coisas que ia encontrando na calçada. Por vezes ela sentava ao meio-fio, esvaziava o conteúdo de sua bagagem e ficava mexendo naquelas latas, jornais, cobertas velhas e pedaços de madeira. Contou-me o porteiro do prédio que se oferecera para guardar tudo durante o dia, como forma de evitar que passasse horas a fio carregando peso em seus ombros magros, mas ela respondera com indignação: "Os meus pertences? Não mesmo!".

Pois o pobre da esquina da Benjamin Constant levava um saco como aquele, com os pertences que certificavam sua indigência patrimonial. Por instantes pensei que ele estacionara ali vindo de uma viagem do tempo, que fora abduzido de anos remotos, da era pré-Lula, quando ainda havia pobres no Brasil. E ele ali, parado, tão surpreso quanto eu, olhando o trânsito à sua frente, como que confirmava essa impressão.

Quando, por instantes, nossos olhares se cruzaram, eu o compreendi. Ele estava espantado consigo mesmo. Neste país com quase duzentos milhões de habitantes, ele era o único pobre, traço no Ibope, saldo de pesquisa, ignorado pelo IBGE e pelo IPEA, zero à esquerda de todas as estatísticas e o excluído dos discursos oficiais.

A sinaleira abriu e precisei avançar, deixando para trás aquela experiência incomum. Mas o dia 17 de setembro de 2010 me há de ficar na memória como a data em que vi o brasileiro pobre. Algo que me causou tal inquietação, tal choque de realidade, que ainda vou levar uns dias assistindo o horário eleitoral até ser convencido de que tudo não passou de um sonho.

* Percival Puggina (65) é arquiteto, empresário, escritor

A cueca do magistrado

Villas-Bôas Corrêa

O irreverente, malicioso e abundante folclore político do Rio Grande do Norte ─ dos mais ricos que conheço ─ registra venerando caso, contado e repetido com todos os pormenores da veracidade, desde nome, o dia, hora e local, envolvendo magistrado de reputação ilibada, conhecido como modelo de honradez, severidade, biografia exemplar na vida pública e no recato da austeridade doméstica.

Casado com senhora de virtudes celebradas, com prole numerosa e alguns netos alegrando a casa, pautava sua rotina com regularidade tão precisa quanto cronômetro suíço. Morava em Natal, em casa ampla, com jardim e pomar, na praça principal. Do outro lado, o edifício do Palácio da Justiça, com as marcas do tempo, sinais da imponência castigada pelas paredes desbotadas, escadaria com degraus gastos.

Podia-se acertar o relógio: à mesma hora, de segunda à sexta-feira, o desembargador atravessava a praça, em passo cadenciado, impecável no terno completo, o indispensável colete, o relógio no bolso, a corrente de ouro presa na casa do botão, tocava a aba do chapéu no cumprimento amável aos conhecidos e desaparecia no palácio da Justiça. Ao final do expediente, com o acréscimo de minutos para arrumar as gavetas, refazia o itinerário.

Mas, lá uma tarde, na quentura do verão nordestino, o desembargador regressou à casa, na forma do costume, dirigiu-se ao quarto, seguido da esposa, para trocar o terno pela simplicidade das roupas mais leves e usadas. Distraído, enquanto relatava as maçadas do dia, sacou o paletó, desfez o laço da gravata, despiu o colete e arriou o suspensório para livrar-se das calças.

A mulher, despejou a surpresa na irritação da pergunta, a exigir explicação imediata:

-Horácio, onde você esqueceu a cueca?

Pilhado em flagrante, o desembargador improvisou a saída na indignação, botou a boca no mundo, atroando aos berros:

-Ladrões! Roubaram a minha cueca!

Investigações minuciosas desvendaram, em suas minúcias e fofocas, o romance do exemplar magistrado com a sua secretária.

PS- Qualquer semelhança com episódios da campanha eleitoral vai além da simples coincidência.

O verde-amarelismo voltou

Marco Antonio Villa, Folha de São Paulo

É muito difícil encontrar algum sinal de entusiasmo popular pela realização das eleições. O desinteresse é evidente. Como de costume, caiu a audiência da televisão após o início do horário pago ─ não é possível chamar de gratuito, quando as empresas deixarão de pagar R$ 850 milhões de imposto de renda.

O clima lembra 1970. Crescimento econômico, expansão do consumo e do crédito e muitas pitadas de ufanismo. Lula é uma espécie de Médici do século 21. Não tem a terrível máquina repressiva ao seu lado. Não precisa. Asfixiou a oposição. Diluiu as diferenças ideológicas e morais. Tanto que pode apoiar uma candidata identificada historicamente com o feminismo, assim como outro, que é conhecido como um covarde agressor de mulheres.

Aos críticos do “milagre econômico lulista” foi reservado o pior dos mundos. Criou o seu próprio “ame-o ou deixe-o”. Quem está com ele ─ e nessa categoria o arco é amplo, vai do MST ao grande empresariado ─ “ama” o Brasil; quem está contra é inimigo e tem de ser destruído.

Não causará estranheza, se disser que o “amor à pátria que entendemos é o que almeja desenvolvê-la e enriquecê-la para que alcance o bem-estar de toda a nossa gente”. E que não consegue “ver esse amor em quem se volta contra a sua pátria, quem a quer em tudo derrotada, na estratégia do quanto pior melhor”, como discursou Médici em 1970.

A sociedade civil silencia. Mais do que medo, está desinteressada da política. Já o governo avança. Não há mais distinção entre o lulismo e o Estado. É tudo uma coisa só, um só corpo.

O Estado Novo e o regime militar foram dois momentos de supressão das liberdades e de expansão econômica. Tudo à sombra da repressão policial-militar. O domínio lulista é mais eficaz e sedutor. Até o momento, o pau de arara foi substituído pelos empréstimos bancários, pelo cartão de crédito. Isso só foi possível graças às reformas adotadas na década de 90, que acabaram abrindo o caminho para o crescimento da economia. Mas isso pode estar no limite do esgotamento.

Sem as benesses financeiras, o lulismo não sobrevive. Ao mantê-las, sem realizar as reformas necessárias, o país caminha para o estrangulamento econômico.

Mas o que está ruim pode piorar. Deveremos ter o pior Legislativo federal desde 1930. Produto do verde-amarelismo lulista, do conservadorismo, da despolitização. Estaremos cercados de Tiriricas por todos os lados. E, por incrível que pareça, sentiremos, em 2011, saudades do Congresso de 2010.

Para onde vamos

J. R. Guzzo, Revista Veja

O comportamento da Receita Federal ao longo de todo o episódio da violação do sigilo de seus contribuintes ficará na história como uma desgraça para o serviço público brasileiro. O responsável final por isso é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nenhum presidente da República pode responder pelos atos de 550 000 funcionários ativos do serviço civil da União. Mas pode escolher, perfeitamenteo papel que vai desempenhar quando um ou vários deles desrespeitam a lei; só depende, aí, da sua livre e espontânea vontade. Lula, desde o começo do caso, optou por ficar contra os cidadãos que tiveram seus direitos agredidos e o grupo político ao qual, de uma forma ou outra, estão ligados. O resultado, na prática, é que as autoridades legalmente responsáveis pela manutenção do sigilo dos contribuintes, e por tomar providências quando ele é violado, se sentem autorizadas, ou até obrigadas, a esconder a verdade sobre o que aconteceu, proteger quem cometeu o delito e concluir, um dia, que ninguém no governo tem culpa de nada. Não dá para ser diferente.

Lula, quando o caso já estava fervendo havia semanas, lembrou-se de pedir uma “investigação rigorosa” dos fatos ─ mas começou, ao mesmo tempo, a fazer comícios dedicados a insultar, menosprezar e ameaçar os adversários, repetindo que era tudo uma “armação eleitoral”, “baixaria”, “desespero” etc. Antes da investigação terminar, assim, já tem certeza do resultado. E quem, entre seus subordinados, estaria disposto a ir contra a posição do presidente? De lá para cá, Lula só aumentou o tom. Ultimamente tem dito que a oposição está praticando “um crime contra o povo”, ou “contra a mulher brasileira”, quando o único crime que houve mesmo, até agora, foi contra o Código Penal.

Não há como tornar os fatos melhores do que eles são. Dados da declaração de renda do vice-presidente nacional do PSDB, Eduardo Jorge, foram desviados da Receita Federal e aparecem num “comitê de inteligência” a serviço da campanha eleitoral da candidata oficial Dilma Rousseff: num segundo momento, descobriu-se que fora violado, também, o segredo fiscal de Verônica Serra, filha do candidato de oposição José Serra. Os violadores, nos dois casos, são cidadãos com longa militância no PT ─ um deles, inclusive, é funcionário da própria Receita. O que mais seria preciso para surgirem suspeitas de que os delitos poderiam ter motivos políticos? Mas o governo, desde o primeiro minuto, garantiu que não havia nenhuma ligação com a campanha eleitoral ─ e, a partir daí, a defesa dessa teoria tem resultado em desastre sobre desastre.

O argumento central das autoridades é que a violação de sigilo dos contribuintes é a coisa mais normal do mundo; dirigentes da Receita Federal, ninguém menos que eles, nos garantem que ali funciona a toda um ativo “balcão de negócios”, em que se podem comprar e vender informações. Ou seja: o que Dilma, o PT ou o governo têm a ver com isso? É, possivelmente, um caso inédito em que a autoridade pública, para defender-se da prática de um crime, acusa a si mesma de conviver sossegadamente com a prática de outro ─ por atacado e de gravidade ainda maior, pois além das vítimas conhecidas envolve milhares de cidadãos brasileiros cujas declarações de renda são abertamente negociadas na praça.

Daí por diante, o que estava ruim só piorou. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, a quem a Receita Federal está subordinada, não notou problema algum no que disseram seus dirigentes. A certo momento, eles se viram metidos numa disputa judicial não com as funcionárias cujas senhas foram utilizadas para o deleito, uma das quais, aliás, informa que seu computador “liga sozinho” ─ mas com uma das vítimas, Eduardo Jorge, para negar-lhe acesso a dados da investigação.

Em outro momento inesquecível, chegaram a sustentar que foi a própria Verônica Serra quem solicitou, através de procuração, os dados de suas declarações ─ apenas para admitir, em seguida, que a procuração tinha pelo menos seis falsificações grosseiras. Esconderam esse fato por um dia inteiro, levando gente graúda do governo a jactar-se de que havia “um papel explicando tudo”. Para completar, o chefe da Receita, Otacílio Cartaxo, alegou que os subordinados tinham obrigação de aceitar o documento falso, por força “do Estatuto dos Funcionários Públicos”.

Nada disso fez o presidente da República pensar um pouco melhor no que anda fazendo ─ ao contrário. É mais uma pista, entre outras, a indicar para onde vai nos levando sua notável popularidade.

Quem quer ganhar a eleição no grito é o PT!

Reinaldo Azevedo

É preciso chamar a atenção para algumas coisas importantes.

Os petistas não escondem o triunfalismo. No horário eleitoral, dizem abertamente que pretendem resolver a eleição no primeiro turno, o que já dão como favas contadas. Conheço a manifestação mais barra-pesada desse espírito na forma de “comentários” enviados ao blog. É gente que não quer comentar nada: xingamento, desqualificação, escárnio, brutalidade, uma espantosa agressividade.

E o fazem na suposição de que estariam apenas reagindo. No mais das vezes, a estupidez vem com um pequeno preâmbulo: “Já que você (no caso, eu…) vive nos agredindo, então…” — e aí vêm coisas que vocês, por mais que imaginem o poço da abjeção, não conseguiriam alcançar porque são pessoas de bem. Nada escapa: ameaças ao blogueiro e à sua família, correntes sujas na Internet, vocabulário próprio a mentes criminosas, maldições.

Um deles já me mandou até uma fotografia em que a minha foto aparece numa espécie de altar macabro, com uma cruz invertida e uma data. Não estou brincando. O sujeito teve o capricho de montar a cena, fotografar e me enviar.

E AGORA A QUESTÃO RELEVANTE:
Petistas agem assim liderando as pesquisas. Imaginem, então, se estivessem atrás, percebendo a iminência da derrota. Prestem atenção: a violência retórica (de que faz parte o destempero de Dilma), a gritaria, a acusação de que as denúncias que derrubam autoridades em penca são mera guerrilha eleitoral, tudo isso resume o esforço, este sim, para fazer com que a eleição se decida antes da hora.

Para tanto, contam com amplos e consideráveis setores da imprensa, que, não obstante, acusam de estar alinhada com Serra, o que é obviamente mentiroso. Para Goebbels, como vimos, críticas aos nazistas eram coisa da imprensa judaica; para o PT, críticas aos petistas são coisa da imprensa tucana.

ENTÃO O QUE ELES QUEREM?
Denunciar como “manobra” e “golpe” qualquer possibilidade, ainda que a considerem remota, de uma mudança no quadro eleitoral, tornando-a ilegítima por princípio. Digam-me: se ela ocorresse, não estaria falando a vontade do eleitor?

Não pensem que os petistas declarados estão sozinhos nesse esforço. Sempre que você ler um colunista ou “pensador” a afirmar que a oposição cria um clima artificial de denuncismo com o objetivo de vencer a eleição, você está diante de um militante do PT disfarçado de analista isento. Onde está a “artificialidade” das denúncias, o ardil? Fatos que derrubam, em 9 dias, uma ministra de estado, dois assessores da Casa Civil e o diretor de uma estatal seriam meros truques de quem quer ganhar a eleição no berro? Ora…

Quem quer ganhar a eleição no berro é o PT! Quem pretende assumir o posto antes que as urnas apontem seu veredito é o PT! Quem tenta tornar ilegítimo o adversário, pregando abertamente a sua eliminação, é o PT.

Isso, sim, é golpe! Um golpe que já conta até com pensadores, cujo pensamento lupino se mostra em feições de carneirinho vegetariano. Cuidarei desses também e de suas mentiras academicamente indecorosas.

Uso exclusivo

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

Há uma expressão (chula) na política que os veteranos usam para definir o novato afoito prestes tropeçar nas próprias pernas. Diz assim: "Para cachorro novo, fulano está com muita pressa de entrar no mato."

É o que a memória de imediato seleciona diante da resposta da candidata Dilma Rousseff ao convite do senador Álvaro Dias para falar no Congresso sobre as andanças da ex-ministra Erenice Guerra, a respeito de quem a cada dia se descobre uma nova malfeitoria.

"Convite de Álvaro Dias, nem para cafezinho", disse ela. Se, como pareceu, está preocupada com o efeito eleitoral desse tipo de solicitação, Dilma teria várias maneiras de recusá-lo. Poderia, inclusive, ignorar a declaração do senador, dizer que esperaria a solicitação formal do Legislativo para então se pronunciar.

Mas, não. Dilma preferiu dizer o que lhe veio à cabeça e da forma mais arrogante, esquecida de como foi duro aquele curto período do início da campanha quando, na ausência do presidente Luiz Inácio da Silva, que andava pelo exterior, ela cometia uma impropriedade (às vezes até duas) por dia.

Por menor que fosse, era registrada como erro, comentada com constrangimento pelos aliados e celebrada pelos adversários.

A candidata já deve ter percebido, mas pelo jeito não compreendeu: determinadas barbaridades, manifestações de desrespeito e infrações só podem ser feitas ou ditas por Lula.

É o único com salvo-conduto para cometer disparates impunemente. Ou Dilma acha que teria ido longe se o presidente não reaparecesse logo transformando, em maio, o programa do PT em horário eleitoral? Ou pensa que desperta os mesmos sentimentos de gratidão, culpa ou intimidação?

Erenice Guerra cometeu o mesmo erro de que poderia ser arrogante numa nota oficial e perdeu o lugar.

Se de fato for eleita, é bom Dilma se acostumar: não sendo a operária nordestina que chegou à Presidência nem tendo o poder de controlar a massa, não poderá contar com a prerrogativa de desrespeitar a tudo e a todos impunemente, que é de uso exclusivo de Lula presidente.

Isso vale também para a modelagem "não sei de nada" em relação a escândalos de corrupção.

Currículo escolar.
Lula disse na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) no fim da semana passada que "adoraria" ter curso superior e gostaria de voltar a estudar.

O que poderia parecer um tardio, mas bem-vindo, reconhecimento do presidente do valor do estudo era só um jeito de poder dizer que se considera pronto a "dar aulas sobre como governar o País".

Em outras palavras: falar todos os dias para registro dos meios de comunicação; dizer o que cada público gosta de ouvir sem compromisso com a coerência ou realidade; não enfrentar contenciosos; agradar malfeitores que poderiam ameaçá-lo; distribuir benesses sem pensar nas consequências; passar por cima de tudo, inclusive da lei; aniquilar o que ou quem lhe possa fazer sombra, nunca valorizar atributos que não sejam os próprios e jamais firmar pacto eterno com a verdade.

Vivendo e aprendendo. Em 1989 Fernando Collor foi eleito presidente praticamente sem críticas. Da imprensa, inclusive, que em sua maioria deslumbrava-se deixando em segundo plano seus atos como prefeito de Maceió e governador de Alagoas.

Na época havia o receio geral de criticar Collor e receber do burríssimo maniqueísmo nacional o carimbo de "sarneysista". Praticamente um insulto, dada a impopularidade do então presidente José Sarney.

Fato e ficção.
A crucial e aterradora diferença entre o Tiririca de hoje e o cacareco de antigamente é que o voto neste não valia e os votos naquele valerão várias vagas na Câmara dos Deputados.

O chefe supremo e a Casa Vil

Augusto Nunes, Veja online

Outra vez depois do almoço, sempre suando a camisa num palanque a muitas léguas do local do emprego, o presidente Lula incorporou neste sábado o companheiro Hugo Chávez e, em mau português, sucumbiu a outro surto de autoritarismo bolivariano: “Nós não precisamos de formadores de opinião, nós somos a opinião pública”, exaltou-se no comício em Campinas, consumido em desatinos contra a imprensa independente. Estava especialmente irritado com a reportagem de capa de VEJA, mas evitou identificar o alvo com todas as letras. Se o fizesse, teria de dizer alguma coisa sobre o que a revista descobriu e divulgou.

Como José Dirceu na segunda-feira, Lula fez de conta que o problema do Brasil é a liberdade de imprensa. Imprensa livre e notícia correta são soluções. O problema, não o único, é a liberdade dos bandidos de estimação, que se valem do salvo-conduto garantido pelo Padroeiro dos Pecadores Companheiros para espancar a lei impunemente. Indignado com a revelação de que os gatunos agora embolsam propinas até em salas do Palácio do Planalto, o Brasil que presta exige a punição dos delinquentes. Atropelado pela descoberta de que a roubalheira continua comendo solta um andar acima do que deveria frequentar com muito mais assiduidade, o presidente tenta matar o mensageiro.

Como todo governante primitivo, Lula odeia a liberdade de imprensa. Mas tem um motivo adicional para sonhar com a erradicação do que chama de “formadores de opinião”: a existência de gente com autonomia intelectual reitera o tempo todo que a unanimidade é inalcançável — mesmo por quem se considera emissário da Divina Providência. O presidente talvez morra sem saber que os governos passam e as discurseiras são esquecidas, mas a palavra escrita fica.

Daqui a muitos anos, os interessados em compreender estes tristes tempos não perderão tempo com improvisos eleitoreiros, versões cafajestes, álibis mambembes ou hinos ao cinismo. Vão procurar a verdade que estará nos textos publicados por jornais e revistas que não se sujeitaram à Era da Mediocridade. A releitura das três últimas edições de VEJA, por exemplo, será suficiente para atestar que a Casa Civil foi rebaixada a covil da família da ministra Erenice Guerra — infâmia que reafirmou a lição antiga como o mundo: a cabeça e a alma de um governante se traduzem nas escolhas que faz.

Como registrou a coluna do ótimo Ricardo Setti, a chefia do ministério mais importante da República foi quase sempre confiada a juristas notáveis, articuladores sagazes ou administradores públicos brilhantes. Lula escolheu, sucessivamente, um farsante, uma nulidade e uma delinquente. Por ter escolhido três afrontas, deve-se debitar na conta do presidente a gangrena que surgiu com José Dirceu, expandiu-se com Dilma Rousseff e, depois de Erenice, tornou inadiável a amputação de uma sílaba da Casa Civil. Três ministros e cinco escândalos depois, hoje só existe a Casa Vil.

Nomeado por Lula, José Dirceu produziu em 2004 o vídeo protagonizado pelo amigo íntimo Waldomiro Diniz e, no ano seguinte, estrelou o escândalo do mensalão. Nomeada por Lula, Dilma Rousseff, em parceria com a melhor amiga Erenice Guerra, fabricou o dossiê contra Fernando Henrique e Ruth Cardoso e se enrascou na história do suspeitíssimo encontro com Lina Vieira. Grávida de confiança e gratidão, a doutora em nada fez questão de ser substituída por Erenice. Nomeada por Lula, a advogada de porta de cadeia completou o serviço iniciado quando virou secretária-executiva.

Seis anos antes de saber que o braço direito de Dilma Rousseff transformou o gabinete no Planalto em arma dos muitos crimes e esconderijo, o Brasil soube que o braço direito de José Dirceu embolsava propinas para facilitar negociatas. “Um por cento é pra mim”, balbucia Waldomiro Diniz para o bicheiro Carlinhos Cachoeira no vídeo inverossímil divulgado pela TV. Velho amigo de Dirceu, o vigarista promovido a assessor para Assuntos Parlamentares da Casa Civil protagonizou o primeiro dos escândalos que o presidente, com a cumplicidade ativa da companheirada e nas barbas de um Brasil abúlico, tentou criminosamente acobertar.

A bandalheira inaugural desenhou a fórmula que seria utilizada nas seguintes. Pilhado em flagrante, Waldomiro pôde redigir em sossego o pedido de exoneração. Oficialmente, não foi demitido. Saiu porque quis, como Erenice agora. Saiu como sairia Dirceu em agosto de 2005, quando as investigações sobre o escândalo do mensalão revelaram que o chefe da Casa Civil era sobretudo o chefe da “organização criminosa sofisticada” que a Procuradoria Geral da República denunciou ao Supremo Tribunal Federal e os ministros prometem julgar em 2011. Ou mais tarde. Depende da coluna cervical do ministro Joaquim Barbosa.

O escândalo da Casa Civil avisa que a gula dos ladrões se agigantou com o incessante aparelhamento da máquina estatal. Erenice só precisou da lista de telefones e endereços para escancarar aos parentes as portas dos Correios, da Anac, da Infraero e do BNDES. Já desbastara o caminho do cofre quando era tecnicamente subordinada a Dilma Rousseff. Se não soube de nenhuma pilantragem da vizinha de sala e acompanhante, a sucessora que Lula inventou é inepta. Se soube, é cúmplice. Não existe uma terceira opção.

Erenice é Dilma. E as duas são Lula. Foi ele quem nomeou os inquilinos do gabinete desonrado. É ele o fundador e o chefe supremo da Casa Vil. O Ministério Público e o Poder Judiciário precisam acordar, antes que a nação anestesiada perca de vez os sentidos e a democracia entre em estado de coma.

A democracia de Lula

Merval Pereira, O Globo

Dando como liquidada a fatura eleitoral, com a eleição de sua candidata no primeiro turno, o presidente Lula resolveu soltar seus cachorros para cima dos que ainda resistem ao que pretende ser uma razia às hostes inimigas: os meios de comunicação e os partidos oposicionistas que têm a ousadia de andar elegendo senadores e governadores em alguns estados pelo país.

Em Minas, por exemplo, onde o ex-governador Aécio Neves, além de se eleger para o Senado, está elegendo seu candidato ao governo e mais o ex-presidente Itamar Franco para a segunda vaga do Senado, Lula foi em socorro de Hélio Costa, do PMDB, candidato de sua coligação, e para tal resolveu ameaçar os prefeitos que apoiam Antonio Anastasia.

Disse explicitamente que não será um candidato do DEM ou do PSDB que conseguirá trazer do governo federal petista as melhores verbas para Minas.

A linguagem de cabo-eleitoral estava na boca de quem pode concretizar a ameaça, neste e num próximo governo petista.

Uma atitude antirrepublicana a coroar tantos procedimentos aéticos cometidos pelo presidente da República durante a campanha eleitoral.

A reação negativa que provocou nos políticos mineiros, ciosos de seus compromissos com o estado a ponto de rejeitarem a candidatura Serra por a imaginarem em oposição aos interesses de Minas, foi imediata e pode se refletir em uma rejeição também ao PT.

Esse procedimento autoritário já acontecera em outros estados em que a oposição está vencendo, como quando disse em Santa Catarina que é preciso "extirpar o DEM", ou quando, em Pernambuco, foi grosseiro com o ex-vice-presidente Marco Maciel chamando-o de "marco zero", ou quando vai ao Rio Grande do Norte espezinhar especificamente o senador José Agripino Maia, do DEM.

Como sempre nessas ocasiões, o presidente Lula extrapola a luta partidária para se colocar em uma arena em que a regra é matar ou morrer, e para tanto se utiliza dos instrumentos do governo, como a TV estatal que filma todos os seus comícios para uso interno, ou as inaugurações improvisadas para estar à noite, "fora do expediente", nos comícios de sua candidata previamente marcados em combinação com a agenda oficial.

Com seu comportamento marcadamente antirrepublicano, abusando do poder político que a presença eventual na Presidência da República lhe dá, e das regalias que o cargo lhe concede, Lula vai manchando essa campanha eleitoral e a provável vitória da candidata oficial.

E se irrita com os meios de comunicação que não se submetem a seus caprichos absolutistas, invertendo o sentido da História, como, aliás, é seu hábito fazer.

Ao discursar num comício ao lado da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, em Campinas, sábado passado, Lula vituperou contra jornais e revistas que, segundo ele, "se comportam como se fossem partido político", e chegou ao auge de seus delírios de grandeza ao afirmar que ele, sim, formava a "opinião pública".

Usou o plural majestático "nós" para se referir a si próprio e aos presentes ao comício como "a opinião pública", que não precisa mais de "formadores de opinião" para se decidir.

Nas duas ocasiões — quando se dispõe a aniquilar a oposição e quando fala mal dos meios de comunicação — Lula está renegando suas próprias palavras, o que também já se tornou um hábito.

Ao final da campanha de 2002, vitorioso nas urnas, Lula fez questão de, em seu primeiro pronunciamento público, ressaltar que "a Justiça Eleitoral e a participação imparcial do presidente Fernando Henrique Cardoso no processo eleitoral contribuíram para que os resultados das eleições representassem a verdadeira vontade do povo brasileiro".

Já com relação à imprensa, o presidente Lula, em 3 de maio de 2006, conforme relembrou em nota de protesto a Associação Nacional dos Jornais, declarou ao assinar a declaração de Chapultepec, um compromisso com a liberdade de expressão, que devia "à liberdade de imprensa do meu país o fato de termos conseguido, em 20 anos, chegar à Presidência. Perdi três eleições. Eu duvido que tenha um empresário de imprensa que, em algum momento, tenha me visto fazer uma reclamação ou culpando alguém porque eu perdi as eleições."

Ao declarar que ele sim representa a "opinião pública" junto com o seu povo, o presidente Lula tenta inverter os termos da equação, distorcendo a própria gênese da "opinião pública", ligada ao surgimento do Estado moderno no século XVIII, quando as forças da sociedade passaram a exigir espaço para suas reivindicações contra o absolutismo do reinado.

O projeto petista

Rodrigo Constantino, Opinião Livre

O ex-ministro José Dirceu voltou à cena, fazendo um discurso no mínimo constrangedor para a campanha de Dilma, que tenta se manter estrategicamente afastada dele.

Dirceu quis deixar claro que a vitória de Dilma nas eleições representaria a escolha popular do projeto do PT para o país. Segundo ele, a vitória de Dilma será ainda mais importante para o partido do que a de Lula, uma vez que o presidente seria "duas vezes maior" que o PT.

Representantes do PMDB chegaram a se manifestar, lembrando que Dilma representa uma coligação, e não apenas o PT. Mas para o poderoso Dirceu, os eleitores estarão votando no projeto petista de governo. Resta perguntar: que projeto é esse?

Afinal, o projeto enviado para o TSE pelo PT, contando com a rubrica de Dilma, era uma compilação dos sonhos autoritários dos petistas, na linha da "revolução bolivariana" feita por Chávez na Venezuela.

O controle da imprensa, para dar um exemplo de fundamental importância, estaria na ordem do dia segundo este projeto. Como a própria Dilma não desmentiu nem rebateu as afirmações de Dirceu, e como este ainda parece apitar bastante dentro do partido, não temos porque duvidar de suas palavras. O recado está dado, e de forma um tanto clara. Os eleitores, pela ótica dos próprios petistas do alto escalão, estariam dando seu aval ao projeto autoritário de poder no dia 3 de outubro.

Será que o povo está ciente disso? Não falo dos mais ignorantes que trocam seu voto por migalhas e promessas vazias, mas dos eleitores de maior escolaridade e renda que votam em Dilma. Eles não são poucos!

Caso o PT seja bem-sucedido em seu projeto de poder, será difícil alegar surpresa. Quem tem acesso aos jornais, quem viu a fala de Dirceu, quem tem um mínimo de capacidade de compreensão dos fatos não poderá fingir que não sabia de nada depois, se caminharmos mais alguns longos passos em direção ao modelo venezuelano. Dirceu avisou. E Dirceu ainda é PT.

Não custa lembrar, já que a memória do brasileiro costuma ser fraca, o que Dirceu disse no auge do escândalo do "mensalão", sobre sua relação com o presidente Lula: "Não faço nada que não seja de comum acordo e determinado por ele".

E se o recado não estivesse cristalino ainda, Dirceu fez questão de dissipar quaisquer dúvidas: "Sou um soldado do partido e do governo".

O simples fato de José Dirceu ainda ter a relevância que tem dentro do PT, e de fazer as articulações políticas para a campanha de Dilma, demonstra que ele falava a verdade na época.

Não aparecer em público na campanha é apenas uma estratégia de marketing, uma vez que sua imagem ainda está arranhada perante o grande público – tanto que a oposição tem batido nesta tecla, lembrando que o eleitor vota em Dilma e leva Dirceu.

Mas não existe confissão maior de culpa do PT como um todo no escândalo do "mensalão" do que a permanência de Dirceu na cúpula de poder do partido.

O presidente Lula chegou a dizer que tinha sido traído na época; mas sabemos que não foi por Dirceu. Afinal, quem é traído e mantém o traidor por perto, repleto de poder? Somente aquele que não foi traído de verdade, mas sim cúmplice. Dirceu sabe demais. Ele é um "soldado" do partido, e fez tudo de "comum acordo" com o presidente Lula.

O projeto petista é, portanto, aquele defendido por estas mesmas pessoas poderosas dentro do PT. O projeto é o mesmo que contou com o "mensalão" para comprar deputados e concentrar o poder político. O projeto é o mesmo que colocou Erenice Guerra, braço-direito de Dilma, no cargo poderoso que já foi de Dirceu.

A explosão de novos escândalos que culminou na saída de Erenice do ministério, mas não do círculo de confiança de Dilma e Lula, representa apenas mais um capítulo desta novela proibida para menores de idade. O projeto petista, enfim, é um só e o mesmo de sempre: tomar o poder total de uma vez, calar a imprensa independente que ainda incomoda muito, e partir para a "revolução bolivariana" brasileira.

Hugo Chávez sabe disso e aplaude abertamente o projeto, declarando seu regozijo com a quase certa vitória de Dilma. Seus eleitores não poderão alegar desconhecimento dos fatos no futuro.

É muito triste vivenciar uma época em que as futuras vítimas escolhem de bom grado o caminho da servidão. Resta apenas o consolo do filósofo Schopenhauer, cuja morte faz 150 anos dia 21 de setembro:

É preciso ser paciente, pois um homem de intelecção justa entre pessoas enganadas assemelha-se àquele cujo relógio funciona com precisão numa cidade na qual todos os relógios de torre fornecem a hora errada”.

Déficit nas contas externas é o maior desde 2002

Eduardo Cucolo, Folha de São Paulo

O deficit nas transações do Brasil com o exterior bateu novo recorde em valores nominais e alcançou o maior patamar na comparação do PIB (Produto Interno Bruto) desde o final do governo FHC.

Segundo dados do Banco Central, o resultado ficou negativo em US$ 2,86 bilhões no mês passado, maior valor para meses de agosto da série iniciada em 1947. Para setembro, a expectativa é de um deficit de US$ 3,8 bilhões.

No acumulado em 12 meses, o deficit chega a 2,32% do PIB, pior desde setembro de 2002 (2,57%). Em termos nominais, o resultado alcançou o recorde de US$ 45,8 bilhões.

O BC espera fechar o ano com um deficit de 2,49% do PIB ou US$ 49 bilhões. Para 2011, deve chegar a US$ 60 bilhões (2,78%).

O resultado negativo vem sendo influenciado pelo aumento das importações, das remessas de lucros e dividendos e dos gastos com serviços, como transportes, aluguel de equipamentos e turismo no exterior.

"Chegaríamos a 2,78% do PIB em 2011, o que não é algo explosivo. Já tivemos valores mais elevados no passado, quando tínhamos uma carga de juros mais elevada", disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS
O BC projeta para setembro uma entrada de US$ 2,7 bilhões em investimentos estrangeiros diretos. Até hoje, já entraram US$ 2,1 bilhões.

Hoje, a instituição revisou para baixo a previsão de investimentos neste ano, de US$ 38 bilhões para US$ 30 bilhões.

"Esperávamos fluxos mais forte que não ocorreram. Mas esses projetos não foram abortados, foram postergados. Na medida em que haja uma recuperação da economia internacional, esperamos que esses investimentos voltem a fluir", disse Altamir.

Segundo o BC, os setores que mais postergaram em relação aos anúncios feitos foram metalurgia, automotivo e petróleo e gás.

GASTOS NO EXTERIOR
O aumento dos gastos dos turistas brasileiros no exterior bateu novo recorde no acumulado de janeiro a agosto, atingindo seu maior saldo negativo desde 1947, início da série histórica do Banco Central.

E a autoridade monetária já espera um aumento no deficit gerado pela diferença entre o que os brasileiros gastam lá fora e o dinheiro que o país atrai com turistas estrangeiros.

Nos oito primeiros meses do ano, os brasileiros gastaram lá fora US$ 6 bilhões a mais do que os estrangeiros trouxeram para o país. O número é a diferença entre gastos de US$ 9,9 bilhões e uma receita com turistas estrangeiros de US$ 3,9 bilhões.

O resultado levou o BC a aumentar a previsão desse deficit de US$ 8 bilhões para US$ 10 bilhões neste ano. O número é recorde e é um dos fatores que contribuem para o resultado negativo que o país registra nas suas transações com o exterior.

Para 2011, é esperado novo recorde, com um resultado negativo de US$ 11,5 bilhões.

BC reduz previsão para investimentos e prevê deficit recorde com o exterior

Eduardo Cucolo, Folha de São Paulo

O Banco Central reduziu a previsão de investimentos estrangeiros em 2010 de US$ 38 bilhões para US$ 30 bilhões, depois de ver suas estimativas anteriores frustradas por causa da crise internacional.

Até agosto, o resultado acumulado está em US$ 17,1 bilhões. No mês passado, entraram US$ 2,43 bilhões.

Para 2011, a instituição espera uma recuperação, com os investimentos subindo para US$ 45 bilhões.

Esse dinheiro não será, no entanto, suficiente para financiar o deficit nas transações do país com o exterior.

O BC manteve a previsão de um resultado negativo recorde de US$ 39 bilhões neste ano. Para 2011, espera um novo recorde, de US$ 60 bilhões, o equivalente a 2,78% do PIB.

O resultado acumulado neste ano até agosto está em US$ 31,1 bilhões. No mês passado, ficou em US$ 2,86 bilhões.

BALANÇA
No comércio exterior, o país acumula um superavit de US$ 11,7 bilhões neste ano. Com isso, o BC revisou de US$ 13 bilhões para US$ 15 bilhões a previsão para 2010. O número é a diferença entre exportações e importações.

Em 2011, a expectativa é que o resultado recue para US$ 11 bilhões. As exportações devem subir de US$ 192 bilhões para US$ 230 bilhões. As importações, de US$ 177 bilhões para US$ 219 bilhões.

AÇÕES E TÍTULOS
O BC aumentou a previsão de investimentos estrangeiros em ações e títulos de longo e médio prazo de US$ 35 bilhões para US$ 38 bilhões. Até agosto, já entraram US$ 26,7 bilhões.

Em 2011, devem entrar no país US$ 36 bilhões por essa conta.

No fim do mandato e temendo apagão postal, governo intervém nos Correios

Gerson Camarotti, Geralda Doca e Jailton de Carvalho, O Globo

BRASÍLIA - A apenas três meses do fim do governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva agora decidiu vetar o loteamento político de cargos nos Correios, estatal com faturamento anual de R$ 13 bilhões que foi o epicentro das maiores crises políticas do governo. O primeiro passo foi dado nesta terça-feira. O diretor de Recursos Humanos dos Correios, Nelson Luiz Oliveira de Freitas, foi escalado para fazer uma espécie de intervenção branca na estatal. Homem de confiança do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, Freitas recebeu a missão de fazer um diagnóstico da empresa. Na prática, hoje ele é o homem forte do Planalto nos Correios, enquanto o atual presidente, David José de Matos - afilhado político da ex-chefe da Casa Civil Erenice Guerra - virou uma espécie de rainha da Inglaterra.

O presidente Lula quer limpar a estatal do grupo de Erenice. Por isso, depois da saída do coronel Eduardo Artur Rodrigues do cargo de diretor de Operações, estão na mira o próprio David de Matos e o diretor Comercial, Ronaldo Takahashi. Os dois são apontados no Palácio do Planalto como homens de confiança de Erenice. Segundo um ministro, a ex-ministra não fez um loteamento político na estatal, mas sim um loteamento pessoal.

O presidente Lula estaria convencido de que a ex-ministra deixou uma armadilha nos Correios, segundo um assessor. Há uma preocupação especial com a possibilidade de um apagão postal. Um relato repassado ao presidente apontou que a solução para o impasse das lojas franqueadas só não aconteceu porque Erenice vetou qualquer tentativa de negociação. É preciso concluir processos de licitação, em andamento, para renovar os contratos com 1.402 franquias até 10 de novembro.

Mudanças só após diagnóstico
Mas o Planalto já tem informações de que as licitações estavam viciadas. Uma das denúncias feitas pelos próprios franqueados é que o edital de licitação estabelecia um padrão igual para todas as lojas franqueadas, sem respeitar as especificidades de cada local. Assim, boa parte dos franqueados não conseguiria renovar o contrato. A CPI dos Correios, em 2005, descobriu que parte dos franqueados tinha padrinho político. Ou seja, donos de lojas dos Correios tinham recebido autorização para operar por conta de influência política.

No Planalto, a determinação é de que nada seja feito nos Correios enquanto não se tiver em mãos esse diagnóstico mais amplo a ser elaborado pelo diretor Nelson de Freitas. O governo já foi alertado sobre um plano de contingenciamento, que tinha o aval de Erenice, para substituição das franquias, orçado em R$ 550 milhões. A proposta prevê o fechamento das agências que não cumprirem as exigências já no dia 11 de novembro, de forma que a estatal passe a assumir os serviços. Esse plano tinha sido elaborado com a possibilidade de não se realizar as licitações das franquias em novembro.

Ao GLOBO, um ex-diretor dos Correios afirmou nesta terça-feira que Erenice estava, na prática, controlando os Correios e vetando todas as soluções apresentadas para os problemas, como a licitação de franquias e o concurso para o preenchimento de dez mil vagas.

- Erenice tomou conta dos Correios e passou a vetar tudo. Ela apostava todas as fichas na implementação do projeto Correios S.A. e com isso tudo ficou paralisado. O ministro das Comunicações, Artur Filardi, já não mandava em nada. Erenice é quem dava as cartas nos Correios - relatou o ex-diretor.

O governo chegou a elaborar uma medida provisória para o projeto de modernização da estatal, que passaria a ser chamada de Correios do Brasil S.A. Mas a MP foi engavetada. A intenção era transformar os Correios de uma empresa pública de direito privado em uma sociedade anônima de capital fechado. Mas houve reação interna à proposta.

Na prática, Lula está incomodado com toda a situação dos Correios. No seu primeiro mandato, o flagrante de uma propina de R$ 3 mil do ex-chefe de departamento da estatal Maurício Marinho foi o estopim da maior crise política do seu governo, o escândalo do mensalão. Mas esse não foi o único escândalo envolvendo a estatal.

Em outubro de 2008, foi preso pela PF o então diretor comercial dos Correios, Samir Hatem, afilhado político do líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR). A operação da PF batizada de "Déjà Vu", em referência à semelhança com o escândalo investigado em 2005, investigava fraude em licitações na área de informática e contratos milionários de agências franqueadas.

Antes de Samir, quem caiu foi outro ex-diretor Comercial: o suplente do senador Hélio Costa (PMDB-MG), Carlos Fioravanti. Segundo o Ministério Público Federal em Brasília, Fioravanti permitiu que agências embolsassem comissões acima do limite previsto em contrato para prestar serviços de emissão de cartas.