Adelson Elias Vasconcellos
O fato de Dilma estar quase reeleita em 2014, segundo as pesquisas, muda a realidade de seu governo ser medíocre? Não, em nada. Ou, teria o dom de atenuar as críticas por sua atuação desastrada na condução da economia do país? Também, neste caso, não.
Já faz algum tempo que venho indicando que a senhora Rousseff se encaminha para a sua reeleição. Portanto, para mim, este é um fato que não surpreende. E vou adiante: se os eleitores concederem mais quatro anos para a senhora Rousseff o será nem por suas virtudes, tampouco pelos predicados de seu governo atual. Será, isto precisa ficar bem claro, pela fragilidade das oposições.
Dilma conta com uma máquina partidária formidável. E, nem ela, nem Lula, deixam de usar o aparelho do Estado brasileiro para praticarem a mais escandalosa e deslavada prática partidária, sem quem os órgãos de fiscalização deste mesmo Estado coloquem um freio neste abuso criminoso. Recursos do orçamento sempre privilegiam estados e municípios comandados por aliados, e a polícia política sempre será bastante severa com que se opõem.
E nada disso é novidade. Já dei inúmeros exemplos de que o verdadeiro mensalão ocorre nos subterrâneos do poder. Há mais de 23 mil cargos de livre nomeação e mais de R$ 1,0 trilhão em recursos orçamentários para costurar alianças e apoios. Sem contar as fundações, estatais, fundos de pensão, etc. Convenhamos: não falta podridão para amansar os espíritos podres que se agasalham no poder para dali alimentarem suas almas pervertidas.
Diante disso, faz tempo também que deixei de comentar tanto as pesquisas quanto abandonei as críticas à oposição. Não se pode criticar o que não existe. Não há uma vírgula para ser mudada, dado que o quadro que corrobora as críticas à oposição, quanto o uso escandaloso da máquina do Estado para a prática de política partidária, não se alteraram em nada.
Contudo, isto em nada afasta os motivos para que a crítica ao governo da senhora Rousseff seja posta de lado. Até porque ele continua e teima em ser medíocre em toda sua extensão, e está construindo uma herança maldita que obrigará o país, ao longo do tempo, pagar e arcar com uma onerosa carga de sacrifícios. Um destes esqueletos que vão nos custar muito é o processo que denuncio desde sempre: a elevada e bilionária carga de subsídios que estão sendo pendurados nas tetas do Tesouro Nacional. Uma das razões da quebra do país, a partir da ditadura militar e que perdurou até o governo Collor, foi justamente estes gastos ocultos. Com o Plano Real, praticamente zeramos a conta e recuperou-se não só o juízo na administração das contas públicas, mas também a capacidade de investimento do poder público.
Dilma, para esconder a inflação real do grande público, além da promoção de inúmeros programas de cunho eleitoreiro, vem se utilizando desta arma suicida de maneira intensa e irresponsável. Isto demonstra a sua plena ignorância da história recente do país, principalmente, as do campo econômico.
Claro que, aqui e ali, ouvem-se vozes críticas à política de subsídios, mas são poucas e acabam sendo soterradas pela máquina de propaganda do governo. Ou, como ignorar a decisão esdrúxula na tal redução das contas de energia, sem que poucos a criticassem abertamente? Claro que é um apelo eleitoral de difícil combate. Porém, poucos são os brasileiros que sabem que, a rigor, não houve redução coisa nenhuma. Porque a diferença que deixaremos de pagar na própria fatura, será empurrada para todo o país na forma de carga tributária. Até por conta do “subsídio”, o governo sabe que dificilmente cumprirá a meta do superávit primário. Trata-se de uma dívida que, cedo ou tarde, deverá ser quitada. Neste caso, não haverá política de cotas que dê jeito: TODOS, pretos, brancos, pardos, índios, homo e heterossexuais, pobres e ricos e até a tal “nova classe média” terão que bancar o apelo eleitoral. Mas a consequência danosa se dará ainda em outra ponta: a da capacidade de investimento das concessionárias. Ou o governo, novamente, subsidiará esta capacidade, ou as empresas entrarão num torvelinho de endividamento além do seu limite.
Vale ressaltar, ainda, que naquilo que as tarifas mais pesavam, e pesavam por obra exclusiva do governo Lula, em outras palavras, a carga tributária mais do que dobrou, pulando de 21,6% para cerca de 50%, modelo que, aliás, foi desenhado por Dilma enquanto Ministra das Minas e Energia, esta praticamente se manteve intacta.
E a pergunta que não quer calar: neste tempo todo, de inflação fora de meta, do crescente déficit público, dos esqueletos em forma de subsídio pendurados no Tesouro, a explosão irresponsável da dívida pública, da molecagem que tem sido praticada nas contas públicas com maquiagens e feitiçarias de toda a ordem, onde esteve a voz da oposição? Por incrível que pareça, em todas estas situações, a oposição esteve entretida em brigar consigo mesma. Ora, levantar a voz apenas em tempos de campanha? Quem lhe dará atenção agora? Ou, por outra, quem dela se lembrará, quando esteve ausente por tanto tempo sem denunciar os abusos cometidos pelo governo da ocasião?
Portanto, e reafirmo o de sempre, 2014 está muito mais próximo de uma vitória da senhora Rousseff do que de qualquer candidato que as oposições possam apresentar. Nas manifestações de rua de junho, sequer se encontrou as digitais das oposições.
Porém, é preciso ressalvar que, uma muito provável reeleição da senhora Rousseff, não significa que a população aprove seu governo. Pelo contrário: até as pesquisas qualitativas sobre seu desempenho deixam isto bem claro. No campo dos serviços públicos, sua cotação não vai além de regular para baixo.
Há um sentimento muito forte no seio do povo brasileiro por mudanças no campo tanto da política cotidiana quanto da condução do governo. Ninguém está satisfeito com o quadro que temos aí. Não é só em relação a corrupção crescente da elite política e sua impunidade eterna. O povo quer mudanças no campo da educação, da saúde, da segurança. Bolsas alimentam currais eleitorais, entretanto, não se olhe para o Brasil como sendo um extenso campo de currais eleitorais. Há um amplo território de pessoas que não se deixam engambelar pelas “facilidades” que o governo oferece em troca de votos. Há pessoas, a maioria, que não admite vender suas consciências tampouco seu espírito de cidadão livre.
Porém, ao olhar para os candidatos enfileirados que lhe são apresentados, acaba por escolher, até porque é obrigado a votar, o menos ruim, o que pelo menos tem um discurso por mais demagógico que possa parecer, por mais irracional que este discurso transpareça.
Logo após a eleição de Dilma em 2010, disse aqui (o arquivo do blog prova isso), que se a oposição desejava retomar o poder, deveria iniciar sua caminhada quinze dias após a proclamação do resultado. Deveria reunir-se para traçar estratégias, afinar discursos, andar pelo Brasil com um bom projeto de país debaixo do braço além de se manter atenta e vigilante para as decisões que a senhora Rousseff viesse tomar. Mas, qual? Jamais conseguiram se entender entre si, com uma trovoada infindável de fogo amigo alimentando as vaidades de todos. A campanha que já deveria estar nas ruas há três anos, sequer tem um norte para seguir.
Assim, reeleger Dilma vai muito além de se escolher a indicação menos ruim. É a própria ruindade vingando diante do desconhecido. A oposição até que tem uma bela história para contar, afinal se temos estabilidade econômica relativa, e programas sociais capazes de melhorar nossos indicadores sociais, foram obras da atual oposição. Se olhada a atual conjuntura, há espaços de sobra para se desenhar um projeto minimamente decente para o país. Mas é preciso ter coragem para ir contra a corrente, é preciso dizer as verdades que doem e machucam, é preciso por o dedo na ferida que infecta o país. É preciso fazer oposição àquilo que o PT representa, e ele representa a brutal degradação dos serviços públicos, representa a aliança política e econômica com o que existe de mais repressivo no mundo moderno, representa a destruição da indústria nacional, sua desnacionalização, representa um endividamento que estrangulará, cedo ou tarde, as finanças públicas, representa a degradação das instituições democráticas. Claro que haverá réplicas e tréplicas para tais críticas, mas é preciso bater de frente e seguir adiante. Não há ninguém na oposição com coragem para tanto. Ou são rendidos ou agridem com punhos de renda, o que dá na mesma. Acham que ajudam a construir um país melhor com a tal “oposição responsável”, mal sabendo que estão é esfacelando o país e seu estado de direito democrático com sua omissão.
Portanto, a menos que as tais “forças ocultas” a que se referiu Jânio Quadros, em 1961, quando renunciou sem nunca identificá-las, provoquem uma hecatombe nos meses próximos, a senhora Rousseff deverá permanecer no Planalto por mais quatro anos. Claro que surpresas sempre existem. Fernando Henrique Cardoso saiu do nada para ser presidente. A própria Dilma é bem um exemplo disto, apesar do padrinho forte e da máquina partidária de que dispõe o PT dentro do governo. Contudo, são casos atípicos, que não seguem regra nenhuma.
Mas, por dever de consciência, é preciso que se deixe claro: mesmo que reeleita, a senhora Rousseff não será melhor, seu governo não fará melhor. Até pelo contrário. Encontrará uma herança ruim construída por ela própria. Mas, pensando bem, talvez ela até mereça o castigo. Não se pode plantar tanta incompetência sem que, um dia, se precise colher os maus frutos. Azar o nosso, mas péssimo para a biografia da dita cuja.


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