Janaína Figueiredo
O Globo
Governo declarou data da eleição como o Dia da Lealdade e do Amor a Chávez
LUIS ACOSTA / AFP
Maduro segura foto de Hugo Chavez em Catia la mar, em Vargas
BUENOS AIRES - A cinco dias das eleições municipais da Venezuela - consideradas um plebiscito tanto para o presidente Nicolás Maduro quanto para o líder opositor Henrique Capriles - o chefe de Estado anunciou um decreto especial para baixar o valor dos automóveis num país onde o litro da gasolina (cerca de US$ 0,17) é mais barato que água mineral. A nova iniciativa, destinada a captar votos das classes média e média baixa, faz parte da “guerra econômica” declarada pelo governo a empresários e comerciantes. E marca uma campanha onde o chavismo cometeu incontáveis abusos no uso do aparato estatal para favorecer os candidatos do governo, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO.
Mais de 500 denúncias de atropelos cometidos pelo chavismo foram recebidas nas últimas semanas pelo comando opositor Simón Bolívar. A contestação da vitória do próprio Maduro nas urnas teria levado o presidente a superar em abusos até seu antecessor, Hugo Chávez - criticado em todas as campanhas de seus 14 anos de governo, acredita Ignácio Ávalos, um dos diretores executivos da ONG Observatório Eleitoral Venezuelano (OEV).
- Maduro conseguiu ser pior do que Chávez. Estamos observado os mais graves atropelos da era chavista. A utilização dos programas sociais, entre eles o habitacional, é abusivo. Temos ministros entregando créditos em plena campanha e cadeias de rádio e TV todos os dias, às vezes mais de uma vez por dia - denunciou.
Dia da Lealdade a Chávez é contestado
Um dos ministros mais ativos na campanha foi o chanceler Elías Jaua, derrotado em abril passado por Capriles na eleição para governador do estado de Miranda. Desde então, Jaua funciona como uma espécie de governador paralelo, sendo enviado pelo Palácio Miraflores ao estado para, por exemplo, entregar empréstimos agropecuários.
Os abusos do governo chavista são denunciados pela oposição, mas com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) controlado pelo Executivo, nada acontece. O único reitor do CNE não alinhado ao chavismo, Vicente Díaz, admitiu que na Venezuela existe “uma clara vantagem” nas campanhas eleitorais, já que o governo intervém através das cadeias de rádio e TV:
- Obviamente há um enorme desequilíbrio. Estamos dizendo isso há sete anos e, em vez de melhorar, só piora.
As denúncias são em vão. Nem a decisão do governo de declarar o 8 de dezembro - data da eleição - como o Dia da Lealdade e do Amor a Chávez, foi questionada pelo CNE.
- O Dia do Amor e Lealdade a Chávez foi o exemplo mais evidente do uso do Estado nesta campanha. Ninguém pode discutir que trata-se de um ato político e eleitoral - enfatizou Ávalos.
A reitora do CNE, Tibisay Lucena, uma ultrachavista, alegou que não havia razão para crer que o dia “fará coisas que não respeitem a lei”. Todas as críticas opositoras foram duramente contestadas por dirigentes chavistas.
- A direita perversa diz que isso não é válido, que é trapaça. Para eles o Dia da Lealdade e do Amor nunca será, porque eles só sabem de negócios e máfias, esquecem que em 8 de dezembro nosso irmão Chávez demonstrou ao mundo o amor mais profundo - declarou Diosdado Cabello, um dos chefes da campanha chavista e homem forte do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).
A polêmica medida foi adotada através do decreto presidencial número 451, aprovado há um mês. A data escolhida alude ao último pronunciamento de Chávez, em 8 de dezembro de 2012, quando o então presidente informou em cadeia de rádio e TV que era “absolutamente imprescindível” submeter-se a uma nova intervenção cirúrgica (a quarta) e pediu aos venezuelanos que elegessem Nicolás Maduro à Presidência caso, por algum motivo, ele ficasse impossibilitado. Para o governo, a data “honra o pensamento e a herança do ex-presidente”.
Segundo analistas, Maduro foi além do antecessor no uso e abuso das cadeias nacionais e dos meios de comunicação alinhados com o Palácio Miraflores (hoje quase um monopólio): os canais de TV chavistas transmitem todas as atividades de Maduro e ignoram os atos da oposição.
- As emissoras do sistema público de rádio e TV divulgam constantemente publicidade a favor dos candidatos oficialistas e só mencionam a oposição para atacá-la da pior maneira - opinou Antonio Pasquali, autor de “Comunicação e cultura de massas”, um dos livros mais estudados nas escolas de Comunicação da América Latina.
Para esse estudioso da Comunicação, nascido na Itália em 1929, mas que vive desde os 18 anos na Venezuela, o regime chavista está quase alcançando sua política de hegemonia na área de comunicação graças a artifícios como compra de emissoras, perseguição a opositores, fechamento de meios de comunicação e autocensura.
- As vozes da oposição quase não se ouvem - lamentou Pasquali.
Ações econômicas a favor do governo
A recente aprovação da Lei Habilitante, que deu a Maduro, como fez Chávez no passado, o poder de governar por decreto, foi outra das grandes jogadas eleitorais do chavismo. Graças a ela, o presidente adotou uma série de medidas de combate à inflação, como o congelamento de preços e ataque a supostos especuladores, que, segundo analistas locais, deverão beneficiar os candidatos chavistas. A sensação no país é de que será, como nas presidenciais de abril passado, uma eleição acirrada. Não está claro quem terá vantagem, mas nesse cenário de incertezas, o chavismo usou todas as ferramentas ao seu alcance.
Cabello chegou a anunciar que o governo inabilitaria o deputado e empresário Miguel Cocchiola, favorito para vencer a eleição na cidade de Valencia, uma das mais importantes do país, por supostos atos de especulação. O próprio presidente acusou o candidato de ter fugido para os EUA - informação desmentida. E usada para dar ânimo à oposição.
- Aqui ninguém se resigna, a mudança está pertinho - declarou Capriles nesta segunda-feira.
